sábado, 13 de abril de 2019

MINHA EXPERIÊNCIA COM A LÍNGUA E A LITERATURA FRANCESA

CUNHA E SILVA FILHO
          
        O interesse meu pela língua francesa(1) iniciou com o meu ingresso no ginásio. Naquela época estava com meus doze anos e, para a minha alegria, era o meu pai o meu professor de francês, Cunha e Silva (1905-1990, nome copleto, Frncisco da unha e Silva), que, aliás, foi também um destemido jornalista político muito respeitado. No curso científico, tive ainda uma mestra de francês, chamada pelos alunos “Madame.”
No entanto, seu renome era Helena. Era casada com um veterinário de nacionalidade francesa, Não me recordo do seu nome. Nem tampouco sei como chegara ao Nordeste. No caso, ao estado do Piauí onde nasci.
No ginásio, o livro adotado por papai se chamava Le français au gymnase e o autor era um professor que tinha um nome francês: Marcel Debrot. Na prmeira página de seus livros havia essa informação: Professor da Faculdade de Filosofia da Universidade de Minas Gerais. Como adorava as lições de suas obras para o ensino da língua de Victor Hugo!
       Que eu saiba, ele havia publicado dois livros, um destinado ao primeiro e segundo anos do ginásio, o outro, ao terceiro e quarto anos do ginásio. Dois bons volumes eram eles! Alguns parágrafos destes livros aqui citados sei i de cor até hoje como, por exemplo, este quase parágrafo de Jean-Jacques Rousseau:
“Je ne conçois qu’une manière de voyager plus agréable que d‘aller à cheval.: c’est d’aller à pied.”(Não concebo senão um modo de viajar mais agradável de andar a cavalo: é o de andar a pé.”)
       No curso cientifico, que abrangia três anos, não me recordo do título do livro adotado para o francês. Me lembro vivamente que os alunos somente tiveram esta matéria por um ano, ou seja, no primeiro ano.
Minha boas lembranças do aprendizado da língua francesa não se restringiram aos livros adotados, mas iam mais longe. Queria ler os autores didáticos que meu pai tinha em casa. Havia vários grossos dicionários. Eram importantes dicionários de francês-português e português-francês que meu pai possuía em sua biblioteca. E lia muitos esses livros e dicionários. Eram dicionários importantes. Os melhores daquele tempo. Que fase abençoada para mim! Passava uma, duas ou muitas horas lendo livros e dicionários, seguindo literalmente o bom conselho do grande escritor francês Théophile Gautier: “Jeunes gens, lisez les dictionaires!” (“Jovens, leiam os dicionários”)
      Sempre fui alguém que gostava de estudar sozinho. Me sentia muito bem assim. É verdade que, na minha infância e juventude em Teresina, , capital d eu estado natal, Piauí, não dispúnhamos de cursos particulares para aprender a língua francesa, coo nos grandes cidades brasileiras, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Recife etc.
       Posto que não falasse fluentemente, isso me permitiu adquirir um relativo conhecimento da língua escrita. É bem verdade que um bom tempo quando cursava letras na universidade, quase nunca lia francês, porquanto nesse período me encontrava estudando mais inglês.
      Concluído o tempo da graduação, comecei a retomar o francês, dando sequência aos estudos já conquistados no tempo da infância e juventude com meu pai.
       Me lembro bem que, quando meu pai preparava as aulas, por várias vezes lhe dei sugestões para um melhor correspondência em português de traduções do francês, Eram expressões francesas mais difíceis para as quais se urgia dar o melhor da equivalência em vernáculo. A par disso, papai me pedia que o ajudasse as correções de provas escritas de francês, submetidas aos alunos, Vibrava muito como se eu fosse um mestre de verdade do francês!
        Outra fase de grande entusiasmo pela língua francesa foi, aproximadamente, a partir dos meus dezoito anos quando ensaiei traduções de poesia francesa para a minha língua, sobretudo de autores do século XIX, ou seja, dos românticos.
        Este artigo é endereçado a todos os que se dedicaram a amar e cultivar a língua francesa, sua cultura e sua rica e encantadora literatura.
NOTA:
(1) Este artigo, com o título "Mon expérience française", foi originalmente escrito em francês e revisado pela poeta e tradutora francesa, Noelle Arnoult a fim de ser publicado na Revista romena ORIZONT LITERAR CONTEMPRAN, cujo número 69, An XII, Nr 1/ lanuarie - februarie 2019 , 68 pagini. 

quarta-feira, 10 de abril de 2019

O PORQUÊ DAS INUNDAÇÕES MAIS FORTES E OUTROS ACIDENTES NATURAIS

                                                                                            CUNHA E SILVA  FILHO
Quanta calamidade na tragédia do Rio de Janeiro, algo que, em cinquenta e cinco anos de residência aqui, nunca vi nesses níveis atuais. Num artigo que não me lembro se postei ou não aqui, intitulado "O sinal das águas," chamo a atenção para o gravíssimo problema das mudanças climáticas no planeta ta Terra, mudanças, de resto, a meu ver, mais provocadas do que espontâneas ao longo das últimas décadas. 

A Terra ficou muito mais quente devido sobretudo ao aumento da poluição, com emissão gigantesca de CO2 pelo planeta afora, principalmente causada pelos seus vilões, à frente os Estados Unidos, China e outros países, os quais têm dado as costas às recomendações dos organismos internacionais de proteção ao meio ambiente, mantendo, outrossim, suas ações predadoras e indiferentes aos males infligidos à NATUREZA-MÃE. 

Ora, resumindo, esses países, grandes potências mundiais, não vão abrir mão de seus projetos de crescerem cada vez mais nos setores da Economia, quer seja de orientação comunista, quer capitalista, com seus desejos incontroláveis de lucros e mais lucros a fim de manterem as demandas de produtos de consumo em grande escala. 

Nessa ânsia de crescimento ilimitado, as indústrias sugam continuamente as matérias primas do nosso planeta vilipendiado pelos próprios governos das nações poluidores. O efeito estufa surge em proporções ciclópicas, cresce mais e mais a evaporação no planeta Terra. 

Essa Wasteland martirizada pelas mãos dos potentados globalizados torna-se mais quente com tamanha intensidade que seus efeitos se fazem logo sentir no derretimento das calotas polares, no aumento do nível das águas do mar e dos rios. 

Daí em diante, é um salve-se quem puder, pois de quebra vêm com toda a violência e fúria a reação inclemente da NATUREZA-MÃE fazendo justiça com as próprias mãos através dos inúmeros acts of God espalhando-se pelo mundo inteiro e em forma de, por exemplo, mais fortes inundações, furacões. tufões, tsunamis, maremotos etc. 

Tais efeitos estão agora ocorrendo, mais do que nunca, em nosso país. Vejam-se as inundações violentíssimas no Rio de Janeiro, em São Paulo, deixando atrás de si um rastro de vítimas inocentes - 
tragédias humanas - as mais dolorosas, assim como prejuízos materiais incalculáveis nessa duas grandes cidades brasileiras. Tenham pena da Terra! 

domingo, 7 de abril de 2019

SOBRE A OBRA DO CONTISTA MAGALHÃES DA COSTA: TEMÁTICA E LINGUAGEM




                                     CUNHA E SILVA FILHO

             Nem é preciso ir a fundo  na análise  de toda  a  obra  ficcional no gênero conto de  Magalhães da Costa (1937-2012)  para emitir  um  juízo critico muito favorável a ele não só no quadro da literatura  produzida no Piauí mas também  no nível  de sua  narrativa considerada  nacionalmente.  O autor escreveu, pelo menos, cinco livros no gênero  que   criteriosamente  elegeu como  o  seu  principal projeto literário, dado que também exerceu a crítica literária   e escreveu  poesia.  
           Convém recordar aqui o período em que  escreveu para o excelente  Jornal  de Letras, nos bons tempos  da direção dos  irmãos Condé e, nessa seção,  fez brilhar   seu talento de comentarista e divulgador  de obras de autores piauienses. De resto,  essa seção  de que se ocupou se destinava a autores piauienses.  
          Magalhães da Costa – releva anotar - conquistou  prêmios literários   tanto no seu estado natal quanto em âmbito nacional. Teve três livros  lançados  por editoras  do Rio de Janeiro e com divulgação   nacional, Casos contados e outros contos (Rio de Janeiro,  Rio Fundo Editora,1996), com prefácio de Assis Brasil, Traquinagem (Imago, 1999), com  a primeira orelha escrita  por Altevir Alencar e a segunda, por Hardi Filho, apresentação  de Maria Figueiredo   dos Reis e  quarta capa de Assis Brasil e Crime & mistérios, de 1977, uma antologia  de ficção  policial, publicada no Rio de Janeiro.   
      A produção do  contista nascido em Piracuruca,   sua  cidade natal -   fonte inspiradora de suas inúmeras   histórias -,  vai     dos anos 1970,  data  de seu livro de estreia, Casos contados (1970) até 2002, quando escreveu  e publicou mais um  livro de contos,  de título Agrado. Todavia,  em 2012, saiu  de sua lavra uma obra  póstuma no mesmo gênero, Histórias com pé e cabeça. Entre essas  obras, saíram   antologias organizadas  por escritores do seu estado natal.  Para completar a menção de seus dados bibliográficos, seja mencionada mais um livro de contos:   Estação  das manobras (1985),  seu terceiro livro.
       Pode-se afirmar,  à  vol d’oiseau,  sem medo de errar,  que a ficção  de Magalhães da Costa, não tendo sido ainda,  a meu ver,   matéria de estudos  críticos de maior fôlego,   se inscreve   num   campo de investigação,  cujos  polos mais   relevantes  são a  potente   imaginação do autor   trabalhada, com mão de  virtuose e conhecedor  profundo    do gênero   short story, a partir do material   da realidade local   não só da cidade  de Piracuruca  como  também  de outros  espaços físicos variados atentamente  observados e  filtrados pelo  sua condição de   professor e magistrado  nas suas andanças  pelo interior piauiense:   a vida, os costumes,   os hábitos, as relações  sociais,  religiosas,  as relações do  trabalho  braçal, por vezes tensas, entre  “coronéis” e  agregados,  com as submissões  e adulações entre estes para com aqueles  e, no meio delas, as desconfianças entre patrões e empregados,  tão bem vistas   no conto  “O cortador de arame” (apud Novos contos piauienses. Teresina,  Fundação Cultural  do Piauí, 1984, com Apresentação de Jesualdo Cavalcanti Barros, p. 22- 27).
        Magalhães da Costa  pertence à linhagem de contistas brasileiros  que  optaram,  em primeiro plano,  pelo regionalismo renovado  de temas e linguagem,  a se ver pela espaço geográfico em que  escreveu  a sua obra  ficcional. Escreveu sobre o que  sabia a fundo da paisagem, do linguajar   e da realidade humana    vista,  em certo sentido,  num plano   universal,  pois suas histórias  falam  de  traição amorosa, ciúme doentio, paixões desenfreadas (contos “O bilhete,” “Enquanto viajava”); ambição e sentido trágico (conto “Cartomante”);  frustração   no relacionamento  conjugal (conto “Cantar de galo velho”)   maldade infantil (conto “Corte de palha”);  amizades e inimizades  passageiras, sentimento íntimo ferido, bullying na infância (conto “Briga de meninos”);  iniciação sexual (conto “Noitadas com negra Zu”; religiosidade (os contos “Catecismos,” “Terços” );   relações de trabalho na vida  rural, coronelismo. relacionamento  submisso  de agregado com  o patrão ( conto “O agrado” );  tipos populares com traços meio pícaros (contos “Casca grossa,”  “Conversa de pé de bodega”).
     Entretanto  um dado é inestimável entre outros da sua fatura literária: é a  linguagem  que, ao lado  do enredo, da trama,  aparece com maior visibilidade na  obra  deste contista. É por ela que  o ficcionista  se eleva  e se distingue, pois tem como  recurso estratégico   fundir  harmoniosamente  o enredo com  a técnica. Tudo  isso    elaborado com  a intimidade que tem  com  os efeitos  que  visam  atingir a sensibilidade  do leitor.
      Essa  modo de aliciar  o leitor, de prender-lhe a atenção e  de seduzi-lo a espontaneamente penetrar  no interior do universo ficcional   é típico dos ficcionistas  hábeis  e meticulosos  na urdidura  dos histórias, causos, tal como  ele próprio  ilustra com a estratégia de um  personagem em diálogo, por vezes silencioso, com um  interlocutor,   vai  conduzindo   o relato no qual o que é importante  é a segunda narrativa encaixada  à primeira  que logo cede vez  como se fora empregar a técnica da  mise en abîme, segundo se pode  verificar  no conto “Terços (op. cit. p.29-36),  da obra Traquinagem, onde humor,  divertimento  e  encanto  são vividos pelo menino Zezinho deslumbrado com   as histórias do  velho  Damião Olho de Pata Choca. Este, inicialmente, não  se dispunha  a atender aos rogos de Zezinho para que  contasse   muitas histórias. Acabou cedendo  logo que Zezinho lhe ofereceu,  falando-lhe ao pé do ouvido, “umas peles de fumo” ( idem, ibidem p.3).
         Vale  assinalar  na temática  da obra ficcional de Magalhães  da Costa  um traço  muito forte: o memorialismo que se reparte por boa parte de seus contos,  sobretudo em Traquinagem, no qual  a infância se apresenta como  um largo  espaço de afetividade  vivida  pelo  menino  Zé do Branco – uma de símbolo da dessa fase da existência humana com todas as suas surpresas,  mudanças de humor,   ludismo, folguedos, ingênua rebeldia  de alguns momentos,   e aprendizado que, em tempos futuros,  poderão ser quase apagados  da memória  dos adultos. Traquinagem, por exemplo,  seria também  a saga da infância dos  interior brasileiro, com  as suas variações  e suas   afinidade de estado para estado e de cidade para cidade.
       Dois aspectos estruturais de sua narrativa, no que tange ao tratamento  dispensado  à linguagem literária,  gostaria de mencionar nestes comentários :1) o traço  visceralmente  oral das suas narrativas, sobretudo aquelas  ambientadas  no meio   rural; 2) a arquitetura dos enredos como  forma  particular de sua  narrativa.
          O primeiro  está intimamente  conexionado ao discurso  de um  narrador  que se coloca  como  um personagem, seja em terceira ou  primeira pessoa,  fazendo parte  da história reportada. Ora,  esta estratégia o faz mergulhar  num discurso  estilizado  produzindo um impressão verossímil   do modo da fala dos personagens   segundo os seus  registros  do nível de escolaridade   ou de ausência dela. Portanto, não é meramente a cópia servil da imitação clássica, romântica  ou   realista  do discurso ficcional tradicional,  o qual bifurcava dois tipos de linguagem: a do narrador culto, do autor,  e a do discurso  dos personagens em cena, nos diálogos.  Este sensação puramente  estética  no uso a linguagem  literária  foi uma conquista admirável dos ficção contemporânea. Essa mesma estratégia foi  talentosamente  utilizada na ficção urbana de João Antônio, em Guimarães Rosa e em outros  autores  contemporâneos. 
          No segundo aspecto  depreende-se mais uma  forma diferente da tradição  literária:  é quando o  conto, do princípio ao desfecho se constrói    por diálogos. Disso tem-se  o exemplo do conto ”O cortador de arame” (op.cit.).  O dialogo serve igualmente como  traço  identificador  e recorrente do caráter  de oralidade dos contos.  Esta adequação  premeditada   com técnica  narrativa também vai  mostrar   um dado relevante da construção sintática   dos textos ficcionais do autor: a mudança da linguagem  segundo  o tipo do narrador e sua condição  cultural.
     Para quem não está acostumado a ler textos formulados  nestes termos  do contista  piauiense,  muitas  expressões  regionalistas, populares , bem com  léxicos   localizados produzem  por vezes ruídos  na dicção dos personagens,  tanto nos diálogos quanto  no enunciado.  O pitoresco  léxico regionalista  do discurso do narrador e dos personagens ou mesmo do narrador-personagem é opulentíssimo, em muitos  casos  nem  dicionarizado  ainda está.  E, assim, oferece um amplo espectro  a estudiosos  da linguagem. Veja-se o exemplo abaixo no conto ”O bilhete.” As expressões ou  vocábulos em itálico  ilustram bem a minha afirmação precedente:
 ...Ah, meu patrão, pra que falar nessas coisas! Pra que falar da minha, que era uma porqueirinha de nada.  Dizer que era chegadeira que só, e não temia homem não. Era que nem lagartixa pra gostar de moita. Pra quê ? Vancê não entende?
     O  que expusemos,  ao longo destas breves   considerações, se não consegue  propiciar uma mais  ampla visão  da importância do contista  Magalhães da Costa,  pelo menos  aponta linhas  de força  para pesquisas    que seguramente poderão  ser desenvolvidas e  aprofundadas por  outros  estudiosos  da ficção  brasileira. Os autores de ficção que estrearam   a partir dos anos 1970,  geração a  que pertence Magalhães  da Costa,  sem dúvida conquistaram avanços   com novas formas de linguagem, temas  e técnicas   no gênero da  também chamada  história curta, a qual   por isso mesmo   vem,  nas últimas décadas,   crescendo em importância e na preferência dos leitores de hoje.


domingo, 31 de março de 2019

FESTEJANDO O MEU BLOG "AS IDEIAS NO TEMPO": 9 ANOS.




                                                                          CUNHA E SILVA FILHO

         
        Há nove anos,  a princípio, não me  agradava o termo “blog”. Não sei explicar  porque não me agradava. A primeira vez que vi a palavra achei-a sem graça, meio tosca. Não me soou bem ouvi-la. Me dava a sensação de coisa  usada por gente  desocupada, fofoqueira, de segunda classe. etc. Tudo era apenas  questão  de gosto só sentido positivamente  depois de algum tempo quando  não mais  havia de minha parte nenhum ranço elitista ou preconceituoso     a respeito  dos blogueiros, os quais, por  sua vez, se se referenciam aos usuários de uma atividade virtual.
      Toda essa aversão  foi apagada.   Em lugar  dela, surgiu  com o tempo   o meu   saudável apego com o blog,  me tornando, eu mesmo,  um blogueiro. Não vou hoje  pesquisar as origens do blog e como na verdade apareceu na internet. Só sei que, hoje,  sou  um  viciado nesse espaço virtual. Virou  uma extensão  da minha pessoa,  da minha biblioteca,  da minha casa,  dos meus hábitos de escrever, de pesquisar, e sobretudo,  vendo  outros blogs,    senti que  era uma  ferramenta  utilíssima que se  me  descortinava  à atividade da escrita. Era uma mina  finalmente  descoberta, valorizada    e digna  de ser explorada em todos os seus  sentidos, em todas as suas possibilidades. Da antiga aversão  se originou  o encantamento  pela manutenção  do uso dessa  ferramenta da qual dificilmente  me apartarei,  porquanto já faz parte  das minhas ações  e do meu cotidiano.
    O hábito de blogueiro  tornou-se um antídoto contra quaisquer veleidades de que tinha de  outros meios escritos para divulgar  o que penso sobre  alguns temas. Nesse nove anos  tenho  usado e abusado  da liberdade  de refletir, discutir,  me zangar, me  indignar,  espalhar algum conteúdo cultural  aos que  por acaso o encontrem  nesse gigantesco espaço  para todos e em esfera global. O meu blog representa uma espécie de trincheira  das minhas convicções, dos meus pensares,   do meu ver o mundo,  os homens e as instituições em eu país e alhures.
    Seria impensável deixar de  manter  essa minha coluna do blog, chamada “As ideias no tempo,”  cujo nome  escolhido  dei também  a um dos livros meus, “As ideias  no tempo – crônicas, artigos, resenhas e ensaios(Academia Piauiense de Letras /Gráfica do Senado Federal, 2010, ) lançado, em Teresina, na APL.   em 2010.
    Reconheço, todavia, que o formato do meu blog não é lá essas coisas. Nem mesmo  o transformei em site, se bem que  não tenho   essa pretensão   por enquanto. Há tempos nem mesmo o tenho modificado a fim de distribuir melhor  as minhas postagens e montar  o uma espécie de arquivos  mais  atraentes e com maior  facilidade para o leitor  ter a ele acesso.  Sei que procurei  me ater  aos tópicos  indicados  na apresentação do blog.
    De alguma coisa  estou  certo: todos esses anos  foram  de prazer  partilhado  com  os meus eventuais leitores, espalhados  no país e no exterior. Hoje, vendo  os dados  de acompanhamento  do blog, ou seja,  o mapa estatístico, me convenci   de que  não fiquei tão  minguado no tocante à quantidade de  leitores que, assim, me revela:
Países:

França (135) Brasil (106), Ucrânia (89), Rússia (49),  Estados Unidos (43),  Alemanha (17), Reino Unido (3),  Portugal (3),  Coreia do Sul ( (3) Região desconhecida (2).
    
    Cumpre  salientar que o quadro estatístico  tem altos e baixos, dependendo  das postagens e do seu impacto  junto aos leitores. Mas, sabe, leitor,  no mundo globalizado como o nosso  agora,  eu me sinto até   contente  com  esses números.  É sinal que  estou sendo  lido em alguns  períodos de postagens  mais   importantes,   as visualizações   aumentam  muito, não muitíssimo.
   Imagine, leitor,  que mundialmente se espalham  milhares  de blogs com diversas  modalidades de conteúdos e por vezes  blogs sofisticados,  atraentes  nos seus formatos,  nas suas   exibições de matérias   e variabilidade de assuntos, nos seus alcances etc. Diante dessa realidade, só tenho que agradecer  aos meus leitores e sua paciência de me acompanharem  ainda que não tão assiduamente.
    Poderia até ter mais  leitores  se me empenhasse  mais nos postagens e estivesse mais presente a esse espaço vital. Entretanto,  descontando  os meus afastamentos,   penso que  está, para as minhas modestas pretensões, de bom tamanho. Oxalá   que eu possa  manter essa atividade gratuita  e espontânea  por mais algum tempo.
     Para concluir, há dois   itens sobre  os quais gostaria de lhe falar no que concerne aos leitores: os seguidores e  os comentário. Tenho observado, ao longo desses anos,  que, no meu caso,  a quantidade  de seguidores é bem  reduzida, senão reduzidíssima.  Quanto ao número de  comentários,  posso  afirmar que  os leitores em geral   só leem  os textos  postados e não se dão ao trabalho, provavelmente  por não saberem como  proceder  nas indicações  para preenchimento dos comentários. Ele até pode gostar  do texto mas,  por comodidade ou falta  de tempo nesse mundo apressado de hoje, deixa de comentar o artigo, o ensaio,  a tradução ou outro tipo de texto lido. Espero contar sempre com  a sua  bem-vinda visita ao meu  blog. Abraços.
  


domingo, 24 de março de 2019

FIZ MEU IMPOSTO DE RENDA. UFA!




                                Cunha e Silva Filho

          Antigamente, no final da década de 1960 e nos anos  1970 e 1980, por aí,   mesmo  recebendo  salários  baixos do magistério  público e privado, era obrigado, no meu caso, a ter que  pagar  o imposto de renda. Veja só, leitor,   o “Leão,” sempre guloso e ávido de dar um mordida no cidadão. Devemos pagar com alegria ao Fisco? Sim, é claro, mas não no país que é duro com  alguns enquanto  que os endinheirados de todos os tempos nunca foram mordidos conforme seria de se esperar do governo federal.
        Entra governo, sai governo,  e as grandes fortunas  não são tratadas pela Receita Federal com alíquotas  compatíveis   com as  suas riquezas,  as quais, por isso mesmo,  continuarão sendo  riquezas e sendo bem tratadas por aquele órgão público. Quanto mais dinheiro os ricos têm, tanto mais agraciados são pelo  governo federal.
        A indignação do homem comum com  os impostos  já vem de longa  data, como foi  bem ilustrativa a  passagem bíblica do Novo Testamento em que Pedro, o pescador,  a princípio, tinha horror ao cobrador de impostos  representado pela figura de Mateus que, depois,  deixou essa atividade,  para seguir Jesus na condição de mais um discípulo.  Afinal,  foi  o próprio Jesus, nas sua doutrinação pela Palestina, quem afirmou, alicerçado na lei de Moisés: “Se deve dar a César,  isto é, à   autoridade civil, o que é de César e a Deus o que é de Deus.”  
          O assalariado com carteira assinada e a média dos funcionários públicos,  civis e militares, não têm como fugir  ao acerto de contas com a  “derrama” anual. Em seus  magros contracheques, na fonte,  já têm  o governo como certo  e líquido o que lhes tirar do bruto.
        Por algum tempo, eu não tinha paciência de fazer    a declaração anual do imposto de renda. Sempre pedia a um  colega meu  da área de contabilidade. Encontrei  muitos bons colegas  que me preparavam a declaração, sem cobrar nada de mim..Faziam apenas por amizade,ao contrario dos dias de hoje em que a declaração de imposto de renda virou  um  bom negócio, a cada  ano, aos escritórios de contabilidade  que cobram  de acordo coma a  renda do contribuinte.
      Anos mais  tarde, com dificuldades, comecei a  preencher a declaração. Já não era mais  aquela documentação  por escrito, preenchida mesmo a caneta e com o formulário comprado nas papelarias  de qualquer bairro e entregue preenchido  nos postos da Receita Federal. Tempos depois, ingressávamos na era do computador, do preenchimento eletrônico,   respeitando os  modelos  que, de ano a ano,  foi-se tornando, pelo menos para mim,  bem mais  complicado porque seguiam os procedimentos técnicos  virtuais, primeiro fazendo  o download,  depois,  preenchendo  tudo conforme  os modelos baixados da Receita Federal. O meu problema era com  o preenchimento,  ou melhor,  a tormenta  começa a partir  dos lançamentos dos dados  dos comprovantes  fornecidos pelas  fontes pagadoras, com toda a sua parafernália,  os seus  labirintos  e os seus itens diversos.. Haja saco pra tanto.
       Qualquer erro  de um algarismo  mexia com o todo da declaração. E lá ia eu refazer tudo. “Diacho” Ás vezes, até por uma vírgula posta entre algarismos. Meu Deus! Que loucura essa feita pelos homens! Era aí, então, que praguejava contra  os responsáveis pela  Receita e contra que inventou  essa geringonça  virtual toda.
       Lembro-me   de que ela se aperfeiçoou no tempo da  ditadura militar e, se não incorro em erro,  foi  o Francisco Dornelles  que  trouxe dos EUA  a novidade dos formatos  adaptados  ao país.  Tampouco sei se essa é a verdade. O preenchimento  me tirava o sossego de  uns dois ou três dias.  Os dias de preenchimento se me tornavam verdadeira dor de cabeça  que  me atrapalhando a normalidade do  meu quotidiano.  Bastava se aproximar   tempo de declaração  do imposto que eu começava a me sentir  inquieto prevendo  a trabalheira toda que enfrentaria diante do computador. Isso, conforme sabe também o leitor,  acontece por volta do mês de março.      
     Sentia-me   vítima solitária da técnica e da robotização  ao ponto de não saber se quem  bolava tudo aquilo  era mesmo  um ser humano ou  um  máquina e aí, me  recordo da frase  cáustica e desafiadora   do meu querido ídolo, principalmente da fase do cinema mudo,  Charles Chaplin (1889-1977) proferida no seu último discurso de “O grande ditador”:  “Não sois máquinas. Homens  é que sois.” Digo isso pensando no pôster que tenho e guardo com carinho  há tempos colado na parede da dependência de empregada do meu apartamento, que uso como parte principal de minha biblioteca. A segunda parte fica na sala  de visitas e no meu quarto-escritório, numa pequena estante com três prateleiras cheias de livros e  papéis.  
            Este ano novamente passei por dissabores às voltas com o preenchimento. Lembre-se de que todo ano embutem novidades. O problema,  leitor,  é que não é somente  o preenchimento que  é chato e mexe com os meus nervos, porém tudo aquilo que antecede  a inciativa de preparar a declaração: reunir, pela internet, todos os comprovantes, seja de fontes pagadoras,  seja de planos  de saúdem, seja de outra natureza.
         Hoje,  tudo se faz virtualmente. Antigamente,   o Correio nos mandava pra casa. Agora, nem os contracheques nos enviam a não ser pra algumas categorias de funcionários  públicos. Pensam  as autoridades que todo mundo tem um computador  ou um celular mais sofisticado para atender a tudo isso. Quem não tem há que recorrer a um amigo ou às lan houses da vida. O planeta Terra virtualizou-se e, depois, viralizou as imbecilidades  nas redes sociais.
       Mas,  sabe, leitor, que já está um tanto    aborrecido com  este texto  insosso, o que mais atazana  a minha cabeça  no preenchimento da declaração são os pontos de “pendências”  nos alertando com sinal parecido com um “i” a fim de que  consertemos alguns  erros no preenchimento de alguns  itens. O pior é que,  por vezes,  corrijo e, quando vou  ver  nas “pendências,”  o sinal de alerta ainda me diz que errei. Quem tem paciência pra tanto, me diga, leitor? Pra concluir, graças a Deus, consegui enviar, sem “pendências” azucrinantes, a minha declaração  pra Receita. Descontei meus pecados  nessa empreitada  a contragosto. Um abraço a todos.
     

sábado, 23 de março de 2019

SUGESTÕES PARA UM MELHOR CONHECIMENTO DOS ESCRITORES BRASILEIROS REGIONAIS


Cunha e Silva Filho 
 RESPOSTA A UM IMPORTANTE ARTIGO DO ESCRITOR E POETA GEOVANE MONTEIRO SOBRE A POSSIBILIDADE DE TORNAR MAIS VISÍVEIS ESCRITORES BRASILEIROS DE TALENTO QUE AINDA PERMANECEM ILUSTRES DESCONHECIDOS NACIONALMENTE:
Um artigo que mais parece um manifesto de um moço ficcionista piauiense, que é o Geovane Monteiro.Seu artigo pertence àquele tipo de escrita que nos obriga a prestar atenção ao que ele acentua, enfatiza e chama à razão, ao debate, às discussões pertinentes e momentosas. Sim Geovane. V. nos leva, assim, àqueles pontos nevrálgicos da questão maior: como saber lidar com a minimo espírito de justiça com os escritores regionais, deles alguns de grande valor que ainda não ultrapassaram o apartheid (pegando o seu gancho vocabular) do eixo Rio -São Paulo e de outros estados com intensa produção literária? Precisamos desregionalizar os escritores menos conhecidos e procurar meios de os levar à visibilidade do público brasileiro.Para isso, teremos que enfrentar uma batalha difícil e cheia de meandros conexionados com a realidade editorial brasileira, e com todos os óbices ainda a serem superados nessa luta contra o anonimato. Creio que as universidades deveriam se empenhar nessa campanha de fazer uma espécie de intercâmbio, através de encontros, conferências ou seminários, de escritores regionais menos conhecidos e os aproximarem dos estudantes do ensino médio e superior. O próprio MEC deveria jogar um papel importante nesse sentido, alocando recursos e estabelecendo estratégias e logística a fim de tornarem essas metas em realidades que só fariam avançar o conhecimento de todos os envolvidos - escritores, alunos, professores, pesquisadores - para a diversidade de nossos talentos ainda pouco ou nada visíveis no cenário cultural-literário nacional. Esse assunto precisa ainda ser amadurecido junto a outros interessados nessas novas descobertas de bons e ótimos autores brasileiros. Deixo, pois, em aberto essas sugestões.

NOTA:.VEJA ABAIXO O ARTIGO DO ESCRITOR GEOVANE MONTEIRO

Das amenidades

Sempre a história dos literatos injustiçados. Pior quando lembramos dos superestimados em detrimento dos bons autores que inexistem a um público leitor menos acanhado - isso quando lhes resta ao menos o acanhado na figura do pequeno ciclo de amigos. Nesse cenário, também a crítica especializada parece buscar no midiático a rigor, salvo raras exceções, o sentido de ser, porque "não lhe há outra saída".
Hoje, com o infindo espaço virtual para publicações, não seria razoável desconsiderar o intento hercúleo de um mapeamento, mesmo sério, sem as inevitáveis lacunas, mas que não justificam uma elitização. Se antes havia os " missionários do cânone", imaginemos agora com tantas produções nas redes sociais especialmente em espaços mais particulares como blogs e sites. Entanto, o mercado editorial no geral, sob a conveniência da " difícil tarefa da demarcação" contempla - e por que não lembrar de seu marketing digital, seu controle de dados!?- deliberadamente aqueles que escrevem com o carisma para um público maior, e nem sempre a qualidade das obras faz a diferença nesse processo . Os, digamos, mercadológicos - inclusive quanto a estratégias de tertúlias com grandes divulgadores culturais. Estou frizando uma realidade existente quando nem se imaginava um dia haver a era digital. Resultado nada negociável : uma aritmética ainda maior de bons e dedicados autores fora de cena....
A esse respeito, aludiu o crítico literário Cunha e Silva Filho, uma exceção de crítico honesto porque não falacioso, em seu ensaio intitulado Os autores desconhecidos e outras reflexões sobre literatura brasileira :" Todas as histórias literárias são incompletas, lacunosas e por vezes injustas e, ao procederem assim, privam o leitor de entrar em contato com os autores dignos de reavaliação. Carecemos, em nossa historiografia literária, de uma obra que se destinasse a propiciar uma visão em síntese, mas de amplo espectro da literatura brasileira de autores contemporâneos e que abarcasse pelo menos da última década do século passado até os dias atuais. Poderia ser um trabalho coletivo". Mas como nem tudo são espinhos, Cunha me informa, nessa mesma fonte, que há um trabalho com propósito menos segmentário em "Ficção brasileira contemporânea", de Karl Eric Shochhollhammer, livro que registra nomes de autores mais novos. Que surjam muitos outros navegadores sem medo de piratas federais!
Uma outra intercessão interessante me veio do escritor João Pinto, quando arrisca que os estados poderiam divulgar seus artistas locais desde as universidades às escolas públicas através, por exemplo, da adoção de obras de autores locais. Eis uma sóbria e simples e fácil política pública que custaria iniciativa sem ônus, já que escritores já são divulgados. Seria uma troca ( melhor falar em prioridade, para eu não cair no pecado do rigor) sem nenhum risco, senão salvar muita gente boa do anonimato inclusive local. Sim, na melhor das hipóteses, um pequeno número de escritores longe dos ares Sul/ Sudeste são conhecidos somente em suas províncias, em seus rincões - a exemplo de Nauro Machado, H. Dobal e Assis Brasil, entre outras tantas grandes figuras praticamente desconhecidas do grande público. Quando muito, alguns deles seguem pelos ventos como apenas nomes e não autores. Ventos sem os dribles nas comodidades ideológicas, nas convenções históricas, nos discursos geopolíticos em que o tempo já disse.
Quem mais ganharia com o fim do" apartheid literário" com a " proteção das fronteiras" seria o horizonte de leitores, no sentido de um incentivo a mais à leitura, já que novas propostas na luta com as palavras nos levariam às diversas realidades no viés da ficção. Assim, literatura não seria apenas conteúdo de vestibulares, ordem dos bispos dos grandes centros.
Mas então, se podemos visualizar iniciativas de percurso tão básicos, sem complexidades alguma, embora a médio ou a longo prazo e não absolutamente corrigíveis em razão das infindas manifestações anunciando o tempo; no raso do pensamento, no discurso até piegas, por que a resistência com o que é tão possível, tão previsível? Por que divulgar, repetir aqueles que já são festejados no país inteiro pela grande mídia? Até quando tudo estará restrito ao insumo do mercado? Os artistas locais, num dia de sorte, teriam então que estudar o mesmo evangelho da autoajuda, do empreendedorismo, e de tudo que se busca para o carisma business? Acontece que cantar a São Luís, versejar sobre o calor e a cajuína de Teresina ( esquecendo aqui o estrelato de um Caetano) não justificariam os Paulo Leminskis e os Thiagos de Mello da vida.
O negócio então é ser visceral em si e pronto!? Até porque ser visceral é indiferente a circunstâncias. Não se trata de consolo, mesmo enquanto os muitos obstáculos durem... Escrever não espiritualiza tal qual fazer uma prece em secreto dentro do quarto!? Eis o off price!
( G. Monteiro a 24. 03. 2019)

quarta-feira, 20 de março de 2019

OS AUTORES ESQUECIDOS E OUTRAS REFLEXÕES SOBRE LITERATURA BRASILEIRA


               

                                                       Cunha  e Silva Filho


        Existe alguém que, na sua área, não deseje ser valorizado? Julgo que não, salvo se tiver  vocação  para ser santo, cujo desprendimento extrapola os limites humanos: um São Francisco,  um  Santo Agostinho, a figura magnífica de Jesus  entre   outros da  hagiografia mundial.
      Consideremos, por exemplo, a área da literatura brasileira. Meu Deus,  se pegarmos  o volume antigo  Análise  literária e Noções de literatura, do autor   didático, o gramático, Brant Horta, membro da  Academia  Mineira de Letras que   lecionou  no Rio de Janeiro português e latim lá pelos  anos trinta do século  passado,  encontraremos   dezenas  de  escritores  brasileiros totalmente   relegados ao limbo. E o mais surpreendente é que  são, em geral,  autores  de  muito valor,  jogados às traças pelas gerações  pós-modernas,   olvidados,  esquecidos, mortos pela memória   literária da consciência  do leitor  brasileiro. Quem   por exemplo, já ouviu falar de Artur Lobo (  (1869-1901), Belmiro  Braga (1872-1937), Hermes  Fontes (1890-1930), Batista Cepelos (1868-1915) Pardal  Malet (1864-1894), Francisco  Mangabeira (1879-1904) Monteiro de Barros (1871-1915)  e tantos  outros que aparecem no citado  livro de Brant Horta? Há sempre, nos tempos  atuais,  uma ânsia  pela  valorização dos contemporâneos. Os autores do passado, nos diversos  gêneros literários, ainda que  levemos em conta  aqueles que, durante um tempo,  tiveram  alguma visibilidade,  estão soterrados, não diria a para sempre com referência a todos,  mas até que um pesquisador  de hoje  os descubram e os resgatem.
   E não estamos   aludindo  apenas  àqueles que chegaram  ao conhecimento dos historiadores atuais, com repercussão até nacional, como o do  piauiense  Da Costa e Silva (1888-1950), que procurei, na minha dissertação de mestrado,   analisar  e reavaliar cm  instrumental  teórico  moderno. Há pouco,  folheando  um volume, A literatura  brasileira através dos textos, de  Massaud Moisés, com várias edições,  pude  observar  que esse estudioso não arrola Da Costa e Silva,   nem entre os parnasianos, nem  entre os  simbolistas, talvez porque  se limitasse ao que, segundo ele, representasse   as figuras que não poderiam  deixar de ser citadas  no mencionado  volume. Por outro lado,  no  segundo  volume de uma obra em três volumes, a sua   sempre proveitosa  História da literatura brasileira (Realismo e Simbolismo), Cultrix, São Paulo. 4. ed., rev.e atualizada, 2004,  Moisés dedica uma página e meia  analisando  a obra do  poeta  de “Saudade.”
   Todas as histórias literárias  são  incompletas,  lacunosas e por vezes injustas e, ao  procederem  assim,  privam  o leitor  de  entrar  em contato com autores  dignos  de  reavaliação. Carecemos,  em nossa  historiografia literária,  de uma obra   que  se destine a  propiciar uma visão em síntese   mas de amplo  espectro da literatura  brasileira de autores   contemporâneos que abarcasse  pelo menos da última década  do século passado até os dias atuais. Poderia  ser um  trabalho  coletivo. Uma boa  fonte para a realização de um  estudo coletivo  desse calibre seria a Ficção brasileira contemporânea, de Karl Erik Schhollhammer (Civilização brasileira:  Rio de Janeiro, 2009. A parte  dessa  obra, “Bibliografia de ficção  apresenta um bom  roteiro para o  conhecimento dos nomes  de autores mais novos.
       Por outro lado, cumpre mencionar,   malgrado  todas elas apresentarem   aquela natureza lacunosa de que falei linhas acima,   tão característica na feitura das  histórias literárias, as mais amplas  pesquisas nessa área feitas por autores e estudiosos    como, por exemplo,  no passado bem recuado   Francisco Sotero dos Reis (Curso de literatura portuguesa e brasileira, em 5 volumes.), ou menos recuado, Sílvio Romero (História da literatura  brasileira,  em 5 vols.),   José Veríssimo (História da literatra brasileira),Afrânio Peixoto ( Noções de história da literatura brasileira), Bezerra Freitas (História da literatura brasileira) Ronald de Carvalho (Pequena história da literatura brasileira), Artur Mota, (História da literatura brasileira, em 2 volumes) Antonio Soares Amora ( História da literatura brasileira), Alceu Amoroso Lima [Tristão de Athayde], Introdução à literatura brasileira,  e Quadro sintético  da literatura brasileira), Massaud Moisés (História da literatura brasileira, em três volumes) e, na contemporaneidade,   Alfredo Bosi (História concisa da literatura brasileira), Nelson  Werneck  Sodré (História da literatura brasileira), Antonio Candido, com  a sua Formação da literatura  brasileira, chegando até o  Romantismo, Érico Veríssimo  (Brazilian literature), Afrânio  Coutinho (A literatura no Brasil, obra coletiva de inegáveis  méritos),  Wilson Martins (História da inteligência brasileira, em  7 volumes)  José Guilherme Merquior ( De Anchieta a Euclides da Cunha – Breve história da literatura brasileira estudando  autores até  Graça Aranha.
   Poder-se-iam ainda  mencionar, dentro  da contemporaneidade,  De Anchieta aos  concretistas,   de Mário  Faustino, A história da literatura brasileira, de Luciana Stegno-Picchio, historiadora  italiana estudiosa de  nossa  literatura, que avançou cronologicamente  na síntese interpretativa de autores  brasileiros  de 1964 ao início do século  XXI,  a A literatura  brasileira,  de José Aderaldo  Castelo  em 2 volumes, Assis Brasil, com   a sua A nova literatura  brasileira, Sílvio   Castro, com a sua obra  coletiva   em três volumes,  História da literatura brasileira, Luiz Roncari (Literatura brasileira, dos primeiros cronistas até os últimos  românticos), Carlos Nejar (História da literatura brasileira, em dois volumes).
     O pior,  retomando parte do tema central  destes comentários,   no que concerne  ao  esquecimento de autores, são os que  poderíamos rotular  de regionais,  em que o  Brasil  é fértil. Cada estado desse imenso   país possui seus  autores representativos, desde os de níveis  inferiores   literária até os  de  boa  ou  ótima qualidade. Desses  uns poucos  alçam  voos mais altos compondo  o  cânone  nacional  de  grandes    escritores. Essa  passagem  de regional a nacional é espinhosa,  muitas vezes injusta e, assim,  grandes   autores  regionais   tenderão  a permanecerem sempre  dentro dos seus   limites geográficos.
      Entre os  piauienses,   contam-se nos dedos os que   se notabilizaram  nacionalmente:  Da Costa e Silva,   Félix Pacheco (1879-1935),   Berilo Neves (1901-1974) em menor  grau de repercussão,  Mário Faustino (1930-1962), Assis Brasil, Esdras do Nascimento. Martins Napoleão (1903-1981)  ainda  seria um outro  poeta  que  poderia, no seu tempo,   vingar nacionalmente, porém não vingou. Um outro  escritor,  H. Dobal (1927-2008), poeta  de elevado  valor, poderia  ter tido maior  renome  nacional, mas não conseguiu  plenamente, provavelmente por  falta de maior   divulgação.   Os dois  últimos  moraram  fora do Piauí,   viveram  um tempo  no Rio de Janeiro, tendo    Dobal  vivido  também  em Brasília, contudo, por um ou  outro  motivo,  não  lograram, reitero,   maior  notoriedade nacional, o que é uma  pena tendo em vista,  reitero,  a alta  qualidade  do  estro  desses dois  últimos  citados. 
       A consagração  nacional  depende  de vários fatores,  inclusive  da  iniciativa maior  de cada autor,   de sua  penetração nos meios   mais  seletivos   da  inteligentzia, geralmente   girando  entre o  Rio de Janeiro e São Paulo.           
       Essa  passagem do regional  para o nacional poderia ser melhor  analisada  do  ponto de vista  da sociologia da literatura, de processo   complexos  de  publicidade, de maior dedicação  ao meio  literário   em que  atuou nos grandes centros  do país  esses  intelectuais.
     O autor de ontem e de hoje sempre se defronta   com  uma gama  de   determinantes de vária ordem, sobretudo  no meio  editorial   de nossos tempos. Superar todas   essas   dificuldades  de  ascensão  ao   universo  literário  brasileiro tornou-se ainda mais    complexo, verdadeira   teia de aranha contra a qual  o autor  contemporâneo  deve encetar um combate  árduo,  competitivo e  de natureza   mercantilista por razões que antes   se podem  rastrear  nos meandros   do marketing  e nos nichos   inabordáveis   do mundo editorial brasileiro.
      Diante   das perspectivas  nada animadoras   da atualidade   no campo da publicação  e do  crescimento  do nome de um autor, imagine-se  tentar  fazer o resgates de autores   antigos que esperam  por um verdadeiro  milagre do acaso a fim de serem  postos   em  evidência  quanto  às suas  qualidades   estéticas.

(Texto republicado,  melhorado e revisado)