terça-feira, 23 de agosto de 2016

A CRÍTICA LITERÁRIA NÃO PODE MORRER



 


                                                  Cunha e Silva Filho


          Creio que o estado da atividade da crítica literária no  país me leva a uma antiga  questão  ventilada com muito interesse pelo crítico  impressionista Álvaro Lins (1912-1970) a propósito da discussão do estado de crise na poesia  em que se encontrava  naqueles tempos de militância dele em rodapés de jornais, mormente   do Correio da Manhã,  no qual atuou, por muito tempo,   como seu mais  arrojado  analista  de obras  lançadas  ao público, quer literárias (ficção,  poesia,  teatro), quer  históricas, filosóficas ou de outra natureza.
        Lins, sempre lúcido,  afirmava que a alegada  “crise” na poesia não era sinal de decadência, mas de vitalidade,  de  efervescência,  de superação,  renovação,   que antes  acentuava  as energias   criativas, nunca  sendo, portanto,   a morte de um gênero. Era mais ou menos  isso que  intentava  transmitir naquele estilo seu  tão pessoal  como se estivesse  sempre  dando   aulas  ao leitor, porém sem  dogmatismos e soberba.
  No sábado  passado,  li no  Segundo Caderno do GloboProsaVerso,[1] uma resenha de  título entre  polêmico e irônico,  “Crítica literária,  você ainda está aí?”, de  Victor da Rosa. O resenhista, também ele próprio um   crítico literário,   comenta  três publicações  recém-lançadas que têm  como  eixo central  estudos  críticos de três livros, As formas de romance, de Felipe Charbel, Henrique Guimarães e Luiza de S. Mello (org.), Literatura e animalidade, de Maria Esther Maciel, e Armadilha para Ana Cristina e outros textos sobre poesia contemporânea, de Sérgio Alcides.
      Não tendo evidentemente lido nenhum dos livros  mencionados pelo resenhista, apenas desejo  assinalar algumas  considerações em torno  do que me suscitou o resenhista no tocante à discussão, de resto,  polêmica,  do estado atual no país da crítica literária como prática desenvolvida principalmente por professores universitários, em particular pinçado algumas observações  afloradas pelo  resenhista, observações que há tempos  têm se tornado igualmente   do meu interesse teórico e de práxis crítica[2]
   Meu intuito é mais provocativo, ou seja, de suscitar novos questionamentos sobre a condição hoje da crítica  literária  brasileira tendo em vista que  o número de críticos e ensaístas  (não falando aqui  de tantos e tantos autores novos surgidos ultimamente no país) nos tempos correntes, se multiplicaram  enormemente, a ponto de não  mais  nem podermos acompanhar o que uns e outros estão fazendo  no momento e em que  lugares do país.
     É certo que, hoje, existe  um leque mais amplo de correntes críticas  seguidas por tantos outros  críticos e ensaístas nossos, cujo divisor de águas, no Brasil,  se iniciou  a partir das querelas   travadas, no passado, dividindo os críticos entre  o Impressionismo e a Nova Crítica (através do esforço  pioneiro, entre nós, de Afrânio Coutinho, 1911-2000).
    Daí então,  foram-se se adaptando no país novas correntes críticas importadas da Rússia, da França, dos EUA, do México,  da Inglaterra, da Itália, da Espanha, da América  latina, da América do Sul, e da Alemanha já  despojadas de subjetivismos superados, sobretudo  com  o  surgimento do estruturalismo no país na década de setenta, embora  seu início remonte aos anos  de 1950  e 1960, quando pensadores franceses,  inspirados  na  teoria de Saussure,  procuraram  aplicar  conceitos da linguística estrutural aos estudos  sociais e culturais.
       Surgiram, depois,    autores que foram  desenvolvendo novas teorias do pensamento critico-teórico  de ponta,  como I.A Rchards, T. S.Eliot Roman Jakobson, René Welleck, Austen Warren,John Crowe Ransom, Eric Auebach,  Lucien Goldman, George Poulet,  Roman Ingarden, Hiller, Stanley Fish, Hans Robert Jauss, Lévi-Strauss, Emil Staiger, Michel Dufrenne, Roland Barthes,Todorov, Julia Kristeva, Foucault, Blanchot, Derrida, os estudos da Psicanálise freudiana, Walter Benjamin, Bataille, Genette,  Deleuze, Michail  Bachtin, Lacan,  Williams Raymond, Charles Sanders Pierce,  Althusser, Bachelard,Hans-Georg Gadmer,  Terry Eagleton, Jonathan Culler, Umberto Eco, Harold  Bloom, Frederic Jameson,  Wofgang  Iser, Susan Sontag, Edward Said e muitos e muitos    outros.
    Podemos citar, em Portugal, Vítor Manuel de Aguiar e Silva (por sua exposição teórica   fundamentada nas mais atualizadas leituras  de teóricos de maior evidência no cenário  cultural do Ocidente), assim como  fez Luiz Costa Lima nos dois volumes de  sua Teoria da literatura em suas fontese, e,  de certa forma pioneira, Massaud Moisés pela contribuição  notável de obras de referência sobre  teoria literária e prática  de análise literária.
      Poder-se-ia citar a obra Teoria da literatura, organizada por   A. kibédi Vargas, professor de literatura  francesa na Universidade Livre de Amsterdã, Holanda, com apresentação de Jacinto do Prado  Coelho  traduzida em Portugal,  que  reúne uma série de  textos teóricos de teóricos europeus  menos conhecido até de  estudiosos  de teoria literária. Uma outra obra  menos densa do que a de Aguiar e Silva,  seria O conhecimento da literatura, do críticos e ensaísta  português Carlos Reis, muito útil pela excelência de  informações  bibliográficas atualizadas no campo da teoria literária.
     No Brasil,  contamos também com a Teoria da literatura, de Antonio Soares Amora, Notas de teoria literária,  de Afrânio Coutinho (1978, 2ª ed.) Teoria literária, de Álvaro Lins (1970),Teoria literária, de Helênio Tavares,Teoria literária(1979), organizada pelo crítico e teórico Eduardo Portela, reunindo  ensaios  importantes de autores  nossos. Para  estudantes  de letras,  podiam-se citar as obras  Formação da teoria da literatura(1978),Teoria da literatura (1990)), de Roberto Acízelo de Sousa e as obras  de Rogel Samuel, Manuel de teoria literária (Org., 2001), Novo manual de teoria  literária (2007)  Modernas teorias literárias: breve introdução,  publicadas  pela Editora Vozes. No passado, um eminente autor didático,  Estevão Cruz,  editou a obra Teoria literária (1940) 
    Diante de tantas correntes críticas surgidas nos  últimos anos, voltadas para  aplicações  de análises de literárias  nos campos do marxismo, da fenomenologia,  teoria pós-colonial, teoria  feminista, discurso  da minoria, teoria queer, do pós-estruturalismo,  da desconstrução,  da psicanálise, do novo historicismo, materialismo cultural, além das mais remotas,  formalismo  russo,  new critcism, seria muito   temerário falar-se em morte  da crítica literária.[3]
   Todo esse  imenso  corpus teórico estará sempre acenando  para  seguidores  que  se afinem  com  a sua base teórica e até as leve a maiores investigações  do fenômeno literário e da práxis da crítica.
    Não faltarão  críticos literários e ensaístas  que levem adiante suas pesquisas, seja de autores  passados,  seja de autores  contemporâneos, nacionais e estrangeiros.  E eu arriscaria ainda asseverar que, no domínio da crítica literária no futuro,  haverá mais  autores  se especializando em determinadas  épocas da história  literária  universal,  ou em determinados autores, ou mesmo  num  só autor, Isso  já se tem feito  em centros adiantados,sobretudo americanos.
      Não é, pois, uma novidade. Contudo,  vejo esse como um dos caminhos  pelos  quais  a crítica literária,  em livro, na internet, na universidade, de autores e pesquisadores  independentes terá  um lugar,voz e  vez.
      Onde houver um  espaço  de divulgação  e de interlocução,  aí  estará a crítica literária  ainda fecundante  e pronta para novos agenciamentos. E diria mais, sem  pessimismo algum,  uma espécie de competição intelectual saudável  caracterizará  os novos  tempos  da crítica literária e dos estudos teóricos. O que os tempos atuais    mudaram  foi a relação entre o crítico  e o leitor. Desapareceu o estrelismo, marca dos tempos do antagonismo  entre  Impressionismo  e  Nova Crítica. O espaço  da discussão  globalizou-se,  arejou-se,  não se confina mais  aos  grandes centros do  país mas se alastrou   por todas as regiões  brasileiras. Não há mais tão forte hegemonia do eixo cultural  Rio de Janeiro-São Paulo.
     A atitude diante da crítica deverá ser feita de igual para igual, de pesquisador para pesquisador,  seja  ele da universidade, seja  da internet, em sites e blogs. Todos  estarão contribuindo para um avanço dos estudos literários. Acabou a o tempo do mandonismo  intelectual,  dos barões das letras. Vale o trabalho de cada um  somado aos trabalhos de todos. O diálogo entre teóricos e críticos,  desta forma,  será muito mais democrático,  sem firulas de  superioridade,   de se arvorarem em patriarcas  do domínio dos saberes.  O que deles todos devemos esperar é humildade,  competência,  originalidade  e avanço  no domínio  cultural. A crítica literária  não  pode  morre. Sem ela,  o que há de ser do julgamento,   da avaliação  e  e da formação  de melhores leitores? A crítica é uma bússola. Nesta condição única, singular, específica, vitalizada  permanecerá como um  aviso aos navegantes de todos os tempos.
   
   
   
  NOTAS
    



[1] Jornal O Globo. Segundo Caderno. Prosa e Verso, p. 06, Rio de Janeiro,  20.0.2016.
[2] Cf. alguns breves artigos meus sobre questões  relacionadas à situação  brasileira da crítica literária. Ver meu blog. “As ideias no  tempo,” ou  os mesmos  textos  na minha coluna “Letra Viva,” do site “Entretextos”, de Dílson Lages Monteiro. Ver também   no site Academia.edu., - Francisco da Cunha e Silva Filho. Consultar ainda minha pesquisa de Pós-Doutorado em Literatura Comparada,   sob o título  Álvaro Lins e Afrânio Coutinho: dois críticos e uma polêmica.  Coordenação dos Cursos de Pós-Graduação em  Ciências da Literatura. Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. .Supervisor: Professor Titular Doutor  Eduardo de Faria Coutinho.. Faculdade de Letras da UFRJ, 2º semestre de 2014,  167 p.
[3] EAGLETON, Terry. Literary theory : a very short introduction.  Oxford University Press,  2000.


sexta-feira, 19 de agosto de 2016

TURQUIA E SÍRIA: AUTORITARISMO A CAMINHO E PERSISTÊNCIA DA GUERRA CIVIL, RESPECTIVAMENTE



                                   
                                         Cunha e Silva Filho


        Tendo  iniciado seu mandato de Presidente da Turquia em 2014,  Erdogan,  diante da ameaça  de um golpe  político-militar, segundo  ele, arquitetado fora   das fronteiras desse belo país por um adversário  de seu governo, um respeitado teólogo e intelectual, de nome Fethullah Gulen,  ora   residindo nos Estados Unidos está exigindo  que o governo  americano determine a extradição do seu opositor. Ora, conhecendo o valor   intelectual e  moral de Gulen,  cabe aos Estados Unidos   não  permitir que  o pensador sírio seja extraditado  para a Turquia numa hora em que o governo  de Erdogan realiza uma  agressiva  escalada de perseguição contra todos  que se lhe pareceram  inimigos políticos e desejavam o seu  banimento do poder  na Turquia. 
      Segundo  as informações transmitidas  pela imprensa  mundial,   quase se pode prever o que poderia  acontecer com  Gulen caso ele fosse  repatriado. Por conseguinte,  o governo americano   não poderá  transigir  de nenhuma maneira  sobre essa questão e acredito que  Barack Obama não o faça, sobretudo  sabedor de que os expurgos  na Turquia  já atingiram  número    considerável  de presos tanto militares de alta patente  políticos, juristas,  intelectuais,  quanto jornalistas  que lhe fazem  oposição.
       O clima  de caça às bruxas está se tornando cada vez mais  violento, contando com  mortes e, pelo andar da carruagem,  o número  de países  que passaram a governar  seu povo com  mão de ferro  está  crescendo.
      A Turquia agora,  junto da  violência síria,  aprofunda  a crise político-institucional nesse pais que, geograficamente,  reúne parte da Europa e parte da Ásia, ou seja,  passamos a ter menos democracia,  menos liberdade nas duas nações  vizinhas.
     Ao estrangular o golpe de opositores ao seu governo,  Erdogan, por sua vez, foi mais  rápido e logo  desarticulou  os adversários, porém dando logo sinal de que  agirá agora   de forma  discricionária, rompendo   com  alguns traços  democráticos  que o começo de seu mandato parecia  indicar.
   Algumas considerações  são  dignas de reflexão no mapa político mundial. Nitidamente percebo que, em nossa  época,   as estruturas  políticas dos países,  seja no Oriente,  seja no  Ocidente,   conquanto  montadas  e sob  princípios  democráticos,estão se mostrando   porosas  quanto  aos caminhos   de governança política na mediada em que, por uma série de razões  econômico-sociais,   permitem  que democracias   sejam administradas com um maior  peso de autoritarismo  claro ou  implícito.
      Quer  dizer,  o Estado democrático,  por si só,  diante das dificuldades  múltiplas  da sociedade, tende a reger-se por decisões que  entram em choque  com  a real liberdade dos indivíduos,  provocando  neste  insatisfações  dirigidas aos diversos setores  públicos  e privados.
    Quando  esse adensamento  imposto de cima para baixo  cresce, a liberdade do cidadão se apequena, e o cidadão se sente tolhido dentro de um contexto   solidamente alicerçado e protegido por inúmeros mecanismos   de segurança e  constrições de ações mais livres  do indivíduo.
    O indivíduo passa a sentir-se  impotente diante  da engrenagem  da máquina do Estado  que  age  realmente como se fora uma  “máquina” mesmo  com toda a sua complexidade interna, seu funcionamento   previamente  programado,    na qual não há espaço  para  sentimentos de indignação ou possibilidade de alguém ´ pensar  em lutar sozinho  contra  o “vasto mundo” drummondiano. Ou, por outra, cria-se no interior do indivíduo uma sensação de sufocação diante de situações absurdas  determinadas  por essa   objetividade   fria  e cruel  do Leviatã –  cruel, sim -  este é o termo -  de um   mecanismo  vazio de qualquer  possibilidade  de transigência de natureza humana.O homem  contemporâneo  é,  deste modo,   esmagado  por essa engrenagem somente  entendida se vista pela sua   absurdidade na esfera  humana.
         Na Turquia, mais ainda na Síria, na Venezuela e em outras regiões do Planeta não é difícil  tirar ilações  dessa monta  provocadas  os golpes e contra-golpes  de governos  ainda não  definitivamente   consolidados e amadurecidos  em suas instituições político-jurídicas. .
     Por outro lado,  o que  me causa espécie  é o fato  de que os organismos  internacionais  que foram  idealizados  para  defender  os países    sujeitos a radicais  mudanças  na contramão  dos  princípios democráticos   me dão quase a certeza de que  cruzaram os braços  diante  das atrocidades  genocidas, que  presenciamos à distância,   cometidas  na Síria e em outras partes de povos convivendo   com  o martírio  e a truculência de tiranos.   
        Ontem mesmo,  um comentarista  de assuntos  internacionais  estava  chamando a atenção para esse estado de inércia, de falta de vontade política no campo  das relações diplomáticas em que se encontram os Estados Unidos e Rússia, países-chave que bem poderiam  minimizar a agressividade  da guerra civil  síria.  Vias  para a solução desse  conflito  devastador não podem ser  deixadas de  lado.
    Seria até uma  forma de cumplicidade  diante  da hediondez dos crimes  perpetrados  por um  governo   tirano e perverso.No mundo contemporâneo não deveria haver mais lugar para  os horrores das guerras entre nações. Isso significaria a capitulação  de países bem estruturados  politicamente  e com  liderança  diante  da aceitação  passiva  da covardia  das guerras.
     Se entendemos que a globalização  já é uma fenômeno   reconhecido  e incontestável na história  contemporânea e  nos vários aspectos  em que  podemos  considerá-la,  nações fortes, através  de órgãos   responsáveis  e efetivos, já deveriam limitar ao máximo  as conflagrações  bélicas que ainda  assolam  alguns países. Não é possível tanta indiferença, em particular  destas duas potências  referidas atrás.
       Se o desejassem primeiro  por meios  diplomáticos e não conseguissem  colimar  seus objetivos de paz, por um acordo de um cessar-fogo prolongado  entre as partes principais envolvidas, i.e.,  os rebeldes e as forças do ditador Bashar Al-Assad, haveria,em segundo lugar,  um recurso extremo -  a tomada de  uma decisão mais drástica  de sufocar militarmente as tropas do ditador sírio, destituindo-o  definitivamente do poder  autocrático a fim de reconstruir  o pais regido  por um estrutura política  democrática a salvo de golpes  militares ou civis. 
      Infelizmente,  continua a Síria  sob o jugo do ditador cujas suas mãos de ferro estão  sujas do  sangue dos inocentes nesta carnificina que, praticamente,  destruiu o patrimônio material  e histórico  de cidades sírias,  sobretudo Aleppo transformando o país em ruínas e destroços. Se não se fizer alguma coisa para conter  as ações  discricionárias  do presidente Orgedon,  não ficaria  descartada a possibilidade de um outro conflito fratricida caso  ele aprofunde as medias  lesivas à liberdade e aos direitos humanos  do povo  turco.Uma guinada dessa proporções  ainda tornaria mais difícil a passagem dos refugiados  pelas fronteira turca.
     O segundo exemplo-símbolo exibido na mídia global dessa  tragédia síria foi o daquela  criança  de cinco anos que conseguiram  resgatar dos escombros em estado deplorável, causando a   indignação mundial   contra a desumanidade a que podem chegar a brutalidade e a insensatez de um guerra civil, cujas vítimas mais prejudicadas são as crianças, os velhos, os desvalidos. São populações horrorizadas e   enxotadas de suas pátrias  por  ditadores  e   criminosos   que se passam  por  dirigentes de nações, cujo pior exemplo hoje é o da Síria e de sua ferocidade  contra  inocentes e desprotegidos. São 300 mil pessoas  assassinadas numa guerra civil  que parece não mais acabar.É fácil  entender  por que  há tantas ondas de   refugiados  em busca  da  vida,  da paz e    da felicidade em  terras distantes.
        
          . 



           

terça-feira, 16 de agosto de 2016

E SE DILMA ROUSSEFF, A PRESIDENTA, VOLTASSE?




                                                     Cunha e Silva Filho



            Temer é interino. Todos sabem disso. Já compôs o seu ministério. Inclusive diminuiu uns dez. O seu governo  teoricamente  já está  organizado  e, bem ou mal, dando  seus resultados, ainda  que descontentando   parte  do eleitorado, sobretudo  petista. Somos dilmistas ou somos temeristas Que valham os neologismos. Afinal, a gramática  da língua já entrou  no rol das flexibilizações. Está terceirizada.
         Os usos da língua se tornaram funcionalmente  políticos. Nada a obstar. Nihil obstat,  conforme o figurino dos maristas  na aprovação  de uma obra   a ser editada há décadas, na famosa  coleção antiga da F.T.D.   Os erros,  a agramaticalidade  está  na ordem do dia.  Ela é inclusiva e, neste sentido,  é petistas. Não gosta das tmeses ( vi essa  palavra usada, pela primeira vez,  por um secretário  de um deputado da ARENA) consideradas  hoje  coisa de museu  da norma culta e gozação  dos  novos conhecedores  do vernáculo.
       Uma senadora inova a língua por influxo, analogia ou contaminação  da flexão empregada  por Dona Dilma, a presidenta, embora  isso não seja  um  erro, mas passou  a ser  estranho  que  a  política  partidária  mudasse a língua no seu uso mais consagrado.  Nunca vi uma ideologia  política ser tão  linguística. Penso: o que é capaz de fazer  uma  esquerda tupiniquim servida  a caviar e com temperos  à la propina.   
       Contudo,  essa introdução já vai me cansando e, quem sabe, cansando  igualmente o leitor. A minha “narrativa”  (esse termo  está na moda.  Hoje, tudo se resume a “narrativas.”) versa sobre a hipótese de Dilma  voltar  do afastamento  legal. Primeiro, constato uma premissa: a volta de Dilma,no mínimo, seria  o maior  evento  piadístico   que o  Brasil  poderia introduzir nos anais  da história  política brasileira.
     O leitor já imaginou  a situação  excêntrica  de,  mais uma vez,   reforçar-se   a ideia cristalizada no inconsciente  brasileiro   a partir da célebre  frase  de De Gaulle 1890-1970): “Brésil n’est pas un pays sérieux.” Como iríamos enfrentar essa reviravolta  digna de uma comédia  de Martins  Pena (1815-1848)? Gargalhadas gargantuanas  se espalham, reboando  pelos quatro  cantos do planeta: “Dilma voltoooooou!” Tudo vai   ser revertido  para a estaca zero. Um furdunço, uma embrulhada geral,  um país  às avessas, um povo   entre o espanto  e a alegria  do populacho -  epicentro da desordem político-social-econômica. Manchetes de jornais  estrangeiros morrendo de rir. A piada universal.
    Eis o leit-motif:  os senadores, no último instante,   viraram a casaca e deram um voto  de confiança à presidenta. Temer  seria destronado, assim como seus ministros. O Meireles, então,   sairia cabisbaixo,  sem aquele  modo de, friamente,  dizer que, se precisar,  vai  aumentar impostos, tudo  por amor  ao emblemático “ajuste fiscal” -  a pedra  de toque   da administração  Temer.   
     Dona presidenta baixou o primeiro decreto: “Tudo vai ser como  sempre foi: ajudar os pobres e ao mesmo tempo   enriquecer mais  os ricos.” As migalhas ( “Minha Casa, Minha Vida,” o bolsa-família,  o bolsa-estudo  no exterior, as cotas, a Lei Rouanet,  a bolsa-gás e quejandos)  ficarão imunes  a retrocessos. Serão  causas pétreas em sua nova fase  de governo. “O salário mínimo -  prossegue a primeira mandatária -,  não se preocupem com ele,   vou aumentar, já para este segundo  semestre, por decreto,  para  R$3.000,00 (Três mil reais).
  Os empresários  que se virem para pagá-lo.” E as pedaladas, senhora presidenta: “Ora,  darei  continuidade e até  a  intensificarei.” E a dívida pública? “Essa é o que de menos  me preocupa. Vou mandar  fazer  dinheiro  na Casa da Moeda sempre que necessitar.  Não tenho que dar  contas ao Tribunal de Contas”. E a  Previdência, os altos juros, os maiores  do mundo,  a educação pública,  a saúde em pandarecos, presidenta, a insegurança das pessoas nas ruas, em casa,  em qualquer lugar? “Isso não são  grandes problemas, darei conta  de tudo isso  com uma canetada só.”
   Só para finalizar, mais uma pergunta,  presidenta: como enfrentará a  oposição  agora mais raivosa, indignada e humilhada do que antes tendo que, legalmente,  interromper  o brevíssimo   tempo  de interinidade do Temer?  “Isso  é o de menos,  pois agora vou  mesmo  agir   como o Maduro, o bigodudo.  Tudo será conseguido  na marra, para isso tenho as   Forças Armadas de unhas e dentes. Ninguém me manda e eu sou a “cara”( mais uma neologismo  dílmico que vai  repercutir  às gargalhadas entre os brasileiros  da  oposiição).
   Faria voltar todos os  ex-ministros,  inclusive o  José Dirceu para a direção da Casa da Moeda. Todos os implicados no “Mensalão”, no Petrolão e em outros  escândalos  serão readmitidos com cargos do primeiro escalão. O primeiro a ser cogitado foi Lula. Para onde? Para a Casa Civil e ponto final.  As afirmativas de Lula  “Eu sou o Brasil. Não  posso ser preso”  tornar-se-iam o bordão  do  ex-sindicalista e,  hoje,  um cidadão  bem endinheirado, assim como sua família  nuclear.
    A Polícia  Federal,  o Ministério Público, os incriminados e  tornados réus, por pior que fossem,  seriam   beneficiados com a anistia  geral e irrestrita.
    O Nordeste, sobretudo,   faria um carnaval   durante uma semana  celebrando a volta da presidenta  Dilma. Tudo  é consumado.  “Vou  engarrafar  o vento. Vou falar  como  bem quero a ‘última flor do Lácio, inculta e bela” e vou continuar a viajar  com largas comitivas (incluindo sempre o Mercadante) e me  hospedar nos melhores  hotéis  do mundo. Continuarei a ajudar  os médicos cubanos. Darei apoio ao Irã”.
  “Darei apoio ao ditador  Maduro e, se possível, ao  Estado  Islâmico.  Só  terá vez comigo, seja para que for,   se for pobre ou rico. Classe média, nem  que a vaca tussa.Ninguém, de agora em diante,   terá o topete de me enfrentar. Sou ilibada.  Vou cumprir inteirinho o que me falta e aviso: Lula, alegria do povo e dos intelectuais  da esquerda, no pais e fora dele,  voltará  eleito, como meu sucessor,  em 2018.É só ver para crer.  Quem manda aqui (traduza-se Palácio do Planalto) sou eu” (soltando uns palavrões).
   Com o retorno de todos os ministros  da primeira fase do  seu segundo mandato de  governo, Dilma  recriou  todos os  inúmeros  ministérios   anteriores. Fez mais: aumentou  em mais cinco do antigo ministério, um deles com o nome de Ministério  da Propina, incluindo  os Departamento  de  Vigilância  contra a Honestidade,  e  criou  um outro departamento, o Departamento  contra  as Investigações    do tipo  Lava-Jato.
 O ministério Público se calou, assim como outros  órgãos da Justiça.  O Supremo  teve um desfalque. Aquele ministro  que denominou o governo  petista   de  “governo da cleptocracia”  foi destituído para o bem do serviço público.
  O empresariado vinculado aos maiores escândalos contra a economia  brasileira foram  todos    regiamente beneficiados  com uma lei de anistia sine diem..
   Declarou Dilma: ao lhe ser devolvido  o mais alto cargo da nação: “Tudo que faço é pensando   no bem  do Brasil e da  felicidade  geral  da Nação. Todos são livres para fazerem  o que bem quiserem.Se fui  afastada por pedaladas  fiscais,  outros, que me precederam,  inclusive o FHC,  já haviam  feito o mesmo e ninguém  piou, muito menos o Tribunal de Contas.
  Não sou  alegre nem sou triste, sou  presidenta com “a” mesmo e que se lixem  os gramáticos que nem estou  aí. Vou continuar   cometendo  meus  solecismos, silabadas, flexionais,  léxicos, semânticos e o escambau,   e tudo o mais que me dê na telha. Minha língua é minha pátria. A educação faz o  ladrão. No entanto, a pátria continua educadora. Lula,  bem  posto no cargo da Casa Civil,  com foro  privilegiadíssimo, blindadíssimo e, numa voz  entre  estentória e rouquenha,  esbraveja, furioso,  aos quatro ventos: “Ninguém me manda. Sou o segundo pai dos pobres” ( e eu com os meus botões, acrescento: e dos ricos também). Viva o povo brasileiro! [Este é um texto ficcional (quase uma crônica à clef. Qualquer dessesemelhança é quase uma mera incoincidência.]


        

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

A TIJUCA E A CRISE ECONÔMICA: UMA METONÍMIA DO BRASIL




                                        Cunha e Silva Filho


          Acompanho  minha esposa para o médico.Estamos na Tijuca. O movimento das ruas é grande. O vaivém das pessoas  de todas as idades. Agora  mesmo, escrevendo esta crônica,  estou  ouvindo  o  tema de Lara na música  tocada ao piano. Um deslumbramento!
          Não consigo  impedir-me de associá-la   ao filme “Doutor Jivago,” adaptado do romance de Boris Pasternak (1890-1960), de título  homônimo,  aliás, filme belíssimo, que vi mais de uma vez protagonizado  brilhantemente por Omar  Sharif (1932-2015),   no papel de  um médico e poeta russo, de família aristocrata, vivendo  um amor  fatal  desencontrado  e incompleto, com a bela  Laura, enfermeira, de família   simples, tendo como  pano de fundo o tumultuado período  da  Revolução  Russa  de 1917  até o final  da Primeira  Guerra Mundial (1914-1918).
        Para mim,  a música e o ato da escrita  me  deixam  completamente  enlevado de emoções  e  sentimentos   múltiplos.  Me fazem um bem enorme o som  e o signo.
        Entramos  numa galeria  numa das lojas da qual  fica a clínica. Olho ao redor e vejo  lojas  que fecharam as portas  por causa da  famigerada  crise.Ao mesmo  tempo  penso com meus botões: como um governo  perverso e irresponsável  consegue  mudar  a vida  de um  país  e  de seu  povo! Meu Deus,  lá, a uma distância de quase  três     esquinas  do ponto em que estava  na Praça  Saens Peña, já de volta  pra  casa,   depois de ter entrado numa padaria  cheia de guloseimas,  sobretudo  produtos  açucarados  que não posso  comer,  me lembro de  que, no Shopping principal  do  conhecido e populoso bairro,   algumas  portas  de lojas foram  também  fechadas pela  crise, cujos tentáculos  vão arrasando o bolso  de todos, dos comerciantes, do povão, da sociedade  assalariada.  Por outro lado, há um contraste,  as farmácias estão  abarrotadas de remédios e  outros produtos, tudo muito caro, pela hora da morte.  Olho para  os prédios de apartamentos e vejo alguns anúncios de apartamentos  para  vender  ou alugar, dependendo  da situação de cada um. Ninguém quase compra uma vez que falta   comprador.Alugar se consegue ainda.
      Conversando com o médico, ele me diz  que a coisa está feia  e fala mal  do ex-governador  do Rio de Janeiro que deixou  o sucessor, Pezão,  a ver navios  enquanto ele,  segundo se  noticia  de vez em quando,  ficou  milionário. A Lava-Jato  passou  por ele  batida.  Vai-se entender  tudo isso, pois se está falando que,  na Câmara dos Deputados,   já estão  arquitetando um  projeto  - isso mesmo  -  para anistiar (sic!) a corja  dos corruptos  dos  escândalos financeiros. Certamente vão começar  o perdão da rapinagem desde o governo  do Lula com  o Mensalão.  Continuo  a ouvir  música  em meio a esses  pensamentos sombrios.
     Ontem mesmo,  o  Henrique Meireles, ministro da   Fazenda, mais uma vez,  justificando  as maldades, afirmou que cabe aos governadores  dos Estados  dar aumento ou não, ou melhor,  declarou, com a frieza que o caracteriza  como  ex-presidente de um  grande banco americano de que é aristocraticamente  aposentado,   que governador   não é obrigado  a dar aumento ao funcionalismo. Ora, esquece  ele de que  o governo federal  abriu  a torneira  para que o comércio, a indústria e tudo   reajustassem  os preços  de tudo que é produto, seja alimentício,  seja de outra natureza, além  da agravante de  que é o próprio   governo federal que  determina os aumentos  das tarifas  públicas, quer dizer,  o  poder central  é que  dá o primeiro  mau   exemplo.  Esqueceu ele  ainda que seu salário de ministro foi  majorado, assim como  o foram   os salários  do presidente interino  da República, dos deputados e senadores,  de todos  as categorias  da Justiça Federal.
     Ora,  novamente  repito,   isso  é injusto  e tem  o dedo da maldade e da  discriminação  contra quem  não faz parte  dos que   estão  no topo dos poderes e também do  seu entorno, os funcionários  palacianos,  os da Câmara   Federal,  do Senado, dos ministérios, dos assessores diversos. Eu me pergunto: como o  PMDB e outros  partidos  querem ganhar  eleições para vereadores  e prefeitos se o eleitorado  está  insatisfeito  e indignado  com tudo  que é imposto  pelo  governo  federal?
       A música, “a arte de expressar nossos  sentimentos   por meio de sons,”   definição daquele  livrinho de canto orfeônico do meu tempo de ginasiano  no  “Domício,”  parou. O aparelho de som  foi  desligado. Agora,  só  ouço o  som do  teclado  do meu computador.
       Os jogos olímpicos   prosseguem.Alguns  atletas chineses  se queixaram das   condições  ruins   em que estão  sendo    realizados  os jogos. Nem tanto assim. Há coisas   que devem ser elogiadas: o esforço enorme de nossos atletas. Nem sempre   fazem  o  melhor,  porém  o que  conta  é praticarmos o fairplay  em todas a modalidades   de esportes sem  o mau-caratismo  do asqueroso doping.
      Mas, não se pense que o país é só sofrimento   pecuniário. Contenção de  despesas familiares. Aperturas disfarçadas em mais uma suposta  nova classe média.  Há os indivíduos  de outras atividades  que não foram  afetados  ainda  pela  ciranda  financeira.  Há ainda muita gente  que vive  como  marajás,   como  se estivéssemos numa  Suíça,  pois os ricos e famosos se parecem e têm  gostos  praticamente iguais. Vivem bem mesmo em tempos bicudos, a começar  da classe  política  e de algumas    categorias  de cargos públicos, sempre  bem aquinhoados, no conforto   da elegância desmedida,  do requinte, dos bailes  suntuosos,    da mesa farta e pantaguélica,  assim como do far-niente dos hotéis  de  mil estrelas... Sem falar nos seus paraísos  fiscais - frutos   das propinas de corruptores e corrompidos numa simbiose  garantida   pelo  foro  privilegiado  da politicalha  nacional   e do lado  podre do  empresariado  supostamente  enjaulado no papel da burocracia    jurídica capenga do faz de conta.
        A arraia-miúda chafurda no  lamaçal, na ignorância, nos expedientes  pícaros,  na exploração  dos otários, no parasitismo familiar  ou condominial,   nas frinchas   de quem indiretamente lhes propicia vida mansa aproveitando as sobras  do sibaritismo  dos bem postos. Nouveaux-riches, emergentes, biqueiros  conhecidos  em todos os cantos da sociedade  heterogênea, desunida, classista, hipócrita e, no fundo,  nadando no elitismo   e suas variantes,  enfeudada,  trambiqueira  nos altos negócios da alta  malandragem  dos wheel-dealers.
        E eu não estou falando  de países ricos,  estou falando  dos tupiniquins,   aos quais nada falta e tudo permanece na incolumidade dos  privilégios sólidos como rochas. O país continua o mesmo, sob o comando intransigente e mandonista, travestido de  práticas  democráticas, de bom-mocismo imaculado,  sob a sua ordem imperial, despótica com os humildes e os sem  voz e sem vez, sobreviventes da miséria e da empulhação  crônica. Esta é a metonímia  do país  tendo  por parâmetro o quotidiano de  um bairro   que, no tempo  do Brasil  Império,  já foi  aristocrático.Viva o  Brasil!
        .    
         




                                                             

terça-feira, 9 de agosto de 2016

INJUSTIÇA FLAGRANTE




                                                         Cunha e Silva Filho


      Tanto o governo  fracassado de Dilma  quanto o atual  governo  interino de Temer cometeram o mesmo  erro palmar e, o que é  pior,  injusto. A primeira  não vinha  dando nenhum reajuste ao funcionalismo  geral há uns quatro ou cinco anos. O segundo,  mal  começado o governo, já  reajustou   regiamente seus altos escalões dos três poderes e outras  categorias  de funcionários  federais que têm  poder de barganha, como,  por exemplo,  a Polícia Federal que,  acenando para o governo  com  uma  possível greve,  foi logo   atendida  pelo interino  Temer. Quer dizer, está sacrificando o grosso  do  funcionalismo determinando o congelamento de seus salários já defasados  desde o governo  Dilma.
   O ministro  Henrique Meireles já avisou  aos governos estaduais  que  não deem reajuste aos funcionários  por dois anos. As três situações  claramente  injustas  se tornam, deste modo,  bode expiatório  da roubalheira  que assolou  o governo federal com os  bilionários  prejuízos  acarretados  pelos desvios   de dinheiro  para  pagamento  de propinas  a partidos políticos, inclusive, segundo noticia continuamente  a imprensa,  de  alguns políticos do atual governo.
   Mais uma agravante,   o governo  federal  interino  dá continuidade  às determinações de aumentos de tarifas nos diversos   setores  da economia, acarretando a alta do custo de vida, com  o crescente   aumento dos mais importantes  itens   que fazem parte  das despesas diárias do  consumidor  brasileiro. Ao fazer  isso,  o governo federal  ganha em arrecadação  graças  ao arrocho salarial  que impõe, a ferro e fogo,  à  sociedade,  sobretudo  aos  que têm renda  média, baixa ou  ainda estão no fundo  do  poço da miséria.
   O que o governo  federal está fazendo  é o que há pouco tempo já vinha  sinalizando: tomar  medidas  impopulares   que -   eu diria -  só vêm  prejudicar   os assalariados encolhendo  seus salários  com a carestia   dos preços de tudo: comida,  remédio,  plano de saúde etc. Parte dos comerciantes  gananciosos  estão  se aproveitando  dessa liberalidade  governamental  às expensas das aflições  pecuniárias  do povo  para ainda mais  ajustar seus preços sem aviso nem  justificativa.
   Historicamente,  esse círculo vicioso  não é de hoje. Basta  reler  jornais  de décadas  passadas  para vermos  como   o povo  brasileiro  tem sofrido  na carne  por  causa de  sucessivas  más  administrações   de governantes.  
  O que  significa afirmar que,  no  país,   a exploração, a partir dos governos e secundada  por maus comerciantes  e empresários,  é uma constante e,  assim,   governo  entra, governo sai,  e o brasileiro, como  um Sísifo, vive   rolando com as mãos  uma pedra até ao topo da montanha e, antes de alcançá-lo,  a pedra novamente  se despenca montanha abaixo  e, nesse esforço, ele é obrigado  a  subir o rochedo indefinidamente.
   Sabedor dessa “cordialidade” do caráter  do brasileiro,  os donos do poder pouco se  importam se  alguém  está sofrendo  aflições   causadas pelas  mudanças  na economia   do país.
  O que não fazem  é punir  duramente os culpados   do estrago  que se fez, com  a rapinagem  sem precedentes  de governantes  já bem conhecidos  do público  brasileiro,   cujo  pontapé inicial  remonta às revelações  escabrosas  do  escândalo   do Mensalão  e de outros    crimes  de governantes contra  o Erário do Estado  Brasileiro. Solapando  o dinheiro  público  da Petrobrás que foi  para os bolsos   de facínoras  de estatais e bem assim  de governantes  estaduais e municipais  que  se locupletaram como  verdadeiros   quadrilheiros com  os desvios  e bem urdidos    esquemas de superfaturamentos junto  a empresários   rufiões, não é novidade   que as contas  públicas    resultassem  na quebradeira de estados e municípios e no estrago   financeiro  das contas  públicas  federais.
   Ao invés de  prenderem efetivamente   políticos e  empresários desonestos, assim como  governantes  envolvidos em corrupção, obrigando-os a devolverem  aos cofres  públicos   o produto da  rapina generalizada e recalcitrante, o governo,  ao contrário do que se esperava, faz recair  sobre  os ombros dos cidadão  brasileiro   todo o gigantesco  prejuízo sofrido pela Nação.
    O povo brasileiro  não tem  culpa alguma    desses assaltos  às finanças   públicas. Não merece  pagar  o pato sozinho. O prejuízo  da roubalheira   de colarinho  branco  teria que ser dividido  entre todos  nós e, de forma  proporcional,   aos salários  da cúpula governamental.
   Melhor  dizendo,  o governo  federal,  para dar exemplo de sua   vontade de  passar a limpo o país,  não deveria ter  concedido  aumentos     elevados  para aqueles  que mais   ganham  nos altos cargos: presidente da República,  ministros,  deputados federais,  senadores e  de outros setores  privilegiados da máquina  do Estado. Ao fazer isso,  está  prestando  um desserviço  à sociedade que não mais confia  em  políticos e governantes, seja da esquerda, da direita ou  das mais  diversas colorações   ideológicas. Estamos fartos  da má política e da falta de  respeito  à sociedade  brasileira.  
                    



          

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

RELUZ MAS NÃO É OURO




                                          Cunha e Silva Filho



        Moro pertinho do Maracanã, o mais famoso  estádio  de futebol do mundo. Com as reformas   ficou  majestoso, solene, digno do respeito que merece por uma longa folha  de serviços prestados ao país e ao nosso futebol. Só uma vez  nos deixou  tristes: em 1950, com a derrota do  Brasil  para o Uruguai na Copa do Mundo. Gol de Ghiggia.Costuma-se dizer que o Brasil, nessa derrota em casa, silenciou de tristeza. Eu estava com  5 anos na época, menino  em Teresina.
      Agora, perto do Maracanã, que será o centro das atenções amanhã, dia da abertura dos Jogos Olímpicos,  tudo no entorno desse estádio virou  medida de segurança, a quadra de esporte do centenário  Colégio Militar do Rio de Janeiro (CMRJ)  está fazendo o papel de lugar de pouso  de   helicópteros do Exército. Nas principais  ruas que dão  acesso ao grande estádio estão  postados  homens do Exército,  guardas municipais, Polícia Militar. Polícia Civil. Guarda Naional.
   De vez em quando,  da minha janela,  vejo  muita coisa e escuto o barulho ensurdecedor dos helicópteros. Me lembra um  estado de guerra.Ainda bem que é só uma lembrança.Alguns caminhões cobertos  do Exército e outras viaturas estão estacionados  no campo de hipismo do Colégio Militar.  Os soldados do Exército, desde pelo menos a semana  passada, já  estão em pontos estratégicos, bem armados, da Rua São Francisco Xavier,   num ponto da qual se localiza  o velho  Colégio, que é parte também de minhas lembranças  por ter exercido a docência  de língua inglesa nessa  prestigiada   instituição  educacional, modelo de ensino-aprendizagem no país com um corpo docente de primeira grandeza. 
   Na semana passada, passando por dois militares fazendo a segurança em frente do portão principal  do Colégio Militar, vendo que um deles tinha  um semblante  simpático,  lhe fiz uma pergunta só  por cortesia e ele me  tratou  com  muita  atenção . Na rápida conversa, me disse que tinha vindo do Rio Grande do Sul  somente  para   fazer parte da segurança da Olimpíada de 2016. Com ele estava uma colega militar,  que era de Curitiba, um moça discreta  e também  cordial.
  Se me perguntassem  se estou feliz com  os Jogos Olímpicos, eu diria  que sim  e não. Sim, porque não é qualquer tempo em que um país é anfitrião de um megaevento tão importante. Um país que sedia um acontecimento destes torna-se foco das atenções do mundo inteiro e, principalmente,   propicia  o encontro  dos povos que,  pelo inestimável  valor  dos esportes,   se vê congregado,   unido, trazendo alegrias  e um sopro de esperança  de paz entre as nações no momento em que a nossa  Terra está tão  conflagrada e tão  sofrida em  tantas regiões dos continentes. 
  Na essência, sim, os Jogos Olímpicos são alvissareiros,  bem-vindos. O melhor, o certo  é tratar bem  os que aqui  chegam  como desportistas competidores ou como turistas  estrangeiros  e nacionais. Em suma, é um período de confraternização, de uma pausa que se dá a divergências variadas  entre  os povos.  O seu cerne é a alegria do fairplay, a vitória dos grandes atletas, o fortalecimento dos valores humanos, como a paz, a concórdia,  a troca de experiência entre culturas  diferentes  ou semelhantes,  a consagração  de alguns competidores. Seria uma  festa ecumênica, um encontro  universal entre  povos, a continuidade de um elo  que teve sua origem  na admirada Grécia antiga. Seu símbolo maior  é a  decantada  tocha  olímpica que,  percorrendo o país inteiro,  chega ao  centro  irradiador  dos  Jogos – a bela cidade de São Sebastião.  Não poderia ser outra.
    Por outro lado, diria que não estaria alegre pelos  Jogos  Olímpicos no Brasil   dado o fato de que o momento em que  vai ocorrer  o megaevento, por um desses infortúnios da vida,  é aquele  em que o país  não vai  bem na mente e no corpo.
   Oscilando entre um governo interino e um governo  afastado, o país  é caudatário dos muitos  desmandos  do governo  anterior e, a par disso, não está sendo, em alguns aspectos  de  sua nova administração  federal, bem recebido por parte da sociedade civil. Ambos me parecem resultar de uma espécie de simbiose  entre   o fracasso  do governo  anterior e as incertezas de um governo  que já está  tomando  medidas  impopulares pelas quais o povo  vai   ter  pagar  a conta.    
   Ou seja,  o governo afastado  dilapidou  as finanças do país com  o acúmulo de   desvios do dinheiro  público que foram  parar nas mãos  dos beneficiários das propinas  milionárias   responsáveis pela grave crise  econômico-financeira.
  Esta constatação não foi uma quimera  inventada pelos que não desejavam  a continuidade do governo Dilma.Foi a incompetência combinada com  a rapinagem do governo Dilma que   a afastou  do cargo. A Operação Lava-Jato não nasceu ex-nihilo. Fundamentou-se das investigações das  diversas   operações  implementadas  em consonância com  a Justiça e com  a resposta  da sociedade civil que manifestou seu repúdio a um governo  que estava se despedaçando pelos seus  malfeitos,  desmandos, desídias e sobretudo  corrupção generalizada  conluiada com  parte do alto empresariado   e com a impunidade que  o governo  afastado não combateu  de vez que ele era parte  intrínseca  desses desvios de conduta de  administração pública, cujo ponto mais alto  do desastre  financeiro  foi justamente  uma estatal  do porte da Petrobrás – pivô dos maiores escândalos da história política brasileira.
  Num país assim assolado pelo desemprego,   inflação,    violência, criminalidade galopante, falência de alguns Estados  brasileiros, Rio Grande do Sul,  Rio de Janeiro,  por exemplo, sucateamento   de setores  vitais  à normalidade  do funcionamento  das cidades, como  saúde,  educação,   segurança, transporte,  pensar-se em  gastos  faraônicos com  a preparação   dos Jogos  Olímpicos  seria uma temeridade pra o Erário. Quer dizer, os  gastos  com o megaevento esportivo  acentuaram  as já combalidas  finanças  dos Estados da Federação  e do governo  federal.  Tudo junto,  resultou e tem resultado  no agravamento  da crise financeira   do país.  
   O governo  interino, já desde o início de sua composição ministerial,  não deu  bom exemplo de contenção de gastos. Veio logo o anúncio de  aumento de salários das categorias  de cargos   do mais alto escalão  do governo: presidente da República,  ministros,   membros do Supremo, deputados, senadores e, por efeito  cascata,   os  outros cargos    ligados  ao Poder Judiciário, seguido, por sua vez, pelo aumento de salários   da cúpula governos estaduais nos três poderes. 
   Ora,  leitor,   que pior exemplo deu  o novo  presidente ao permitir  tudo isso? Por que privilegiar  primeiro os que mais   têm salários  elevados no pais? O funcionalismo  público federal de outras  categorias, mormente os chamados barnabés,   não mereciam também  reajustes, sobretudo porque, desde o governo  Dilma não tem sido  beneficiados  por reajustes   salariais?
   Não se justifica  uma discriminação  destas  para com o funcionalismo público que, faz  uns cinco anos,  não tem aumento. Contudo, o atual governo   permitiu e autorizou   aumentos nos preços de tudo, elevando   o custo de vida e arrochando, desta forma, mais uma vez  os assalariados   em larga escala em itens  que têm impacto no bolso  dos consumidores das classes médias e mais onerosamente os menos aquinhoados:  taxas de luz, telefone,  gás, IPTU, os preços dos  remédios, dos  alimentos em geral,  dos  planos de saúde, dos setores de serviços etc. Um governo que mal começa e age assim  não está dando  prova  de que  assumiu o poder para  melhorar  a vida das pessoas.
   Além disso, o que os três poderes em Brasília gastam daria  bem  para melhorar muitos problemas enfrentados pela  população sofrida do país.As mordomias  palacianas neles continuam soltas e fagueiras. Os gastos  continuam astronômicos até parecendo que estamos  vivendo num  país  sem  crise  financeira e no melhor dos mundos  possíveis..  Como poder confiar  numa Estado   brasileiro que muda de partido mas não muda   as suas práticas   nefastas: o nepotismo,  os mesmo  donos do poder   e da política,  a herança  política  familiar  em cargos-chave.

  Para concluir esta crônica, volto à minha ambiguidade inicial, entre a alegria  da sedução da Olimpíada e a decepção  dos desmedidos  gastos  públicos do governo  federal e os  de alguns  estaduais e municipais. A pátria amada idolatrada é mesmo uma mistura. Não é pura, mas causa dor, espanto e indignação.       

sexta-feira, 29 de julho de 2016

REVEZAMENTO DO MUNDO ATUAL: TRISTEZA E ALEGRIA


                                                     

                                                 Cunha e Silva Filho


GUERRA CIVIL (só para citar um  exemplo).   A Síria continua sem jeito. Ninguém detém o ditador   Bashar Al-Assad. Milhares de mortos em cinco anos de guerra civil, fratricida, com o país estilhaçado, paisagens urbanas  viradas ruínas. Allepo, Homes e outras cidades  são só  destroços,  desolação, mortos e feridos, com a sua  população  tentando  evadir-se através  da Turquia (esta, internamente, agora,  em conflito e em  estado  de autoritarismo contra a imprensa e os  acusados de desejarem dar o golpe no  presidente Erdogan que, ao que tudo  indica,  deseja  dar continuidade   do seu governo, agora com   mão de ferro.
             Onde ficará a democracia na Turquia? Só Deus sabe. Quem  podia  minimizar  tanta  desgraça seriam os EUA, a Rússia e os órgãos  internacionais    em defesa da paz mundial. Aqueles dois países, contudo, fingem  que resolvem, mas só atrapalham;o primeiro mandando drones  que podem matar inocentes e cair em lugares  que devem ser preservados: hospitais maternidades, templos religiosos,  patrimônio histórico; o segundo  manda armas ao ditador  sírio  sob a alegação de que vai  impedir  o avanço  do Estado Islâmico. A Rússia, agindo assim, mantém  a guera civil    contra  forças do Estado Islâmico e, de quebra, contra  os rebeldes - a oposição – ,   esta  derivada  da Primavera  Árabe. Geopoliticamente,  as duas grandes potências,    cada uma a seu modo,   evitam   brigar  entre si, numa espécie de guerra fria e quem sai perdendo  é  a população civil síria no meio do fogo  e da destruição de que resulta  a continuidade da onda de refugiados deixando a sua pátria para  trás.Quanta insensatez das duas  grandes potências!

A ONDA DOS REFUGIADOS. Sem casa, sem emprego,  com fome,  os sírios fogem  do seu país natal, atravessam a Turquia, dirigem-se, em barcos  inflados,  frágeis, apinhados de imigrantes  pelo  Mediterrâneo à cata de um país que lhes abra as portas. Pode ser a Itália,   a França,   a Inglaterra,  a Rússia,  a Holanda,   a Polônia.                Todos querem  correr  da fome e da guerra,  todos querem salvar suas  vidas e as vidas de seus entes queridos: crianças,  adolescentes,  jovens,  adultos e velhos. As imagens  nos lembram, mutatis mutandis,   filas  de  judeus  a caminho  do Holocausto. Mas isso  é só, graças a Deus, uma imagem  rápida que nos passa pela memória visual, como  num  fita de um filme  em preto e branco sobre  os   escombros,  as cinzas e horrores dos crematórios  da Segunda Guerra Mundial.

O MEDO ALASTRADOCom o mundo  amedrontado   com  o terrorismo do Estado  Islâmico na Europa, com ataques em Paris, Nice, Munique e em outros continentes, nenhuma lugar do mundo parece estar ileso  de um atentado, sobretudo  o lado  ocidental. Os inimigos  do Ocidente podem  aparecer em qualquer parte, inclusive no  Brasil, agora,   com  a proximidade  da abertura dos Jogos Olímpicos. Ora,  esses jogos   que visam à aproximação pacífica entre os povos, gerando alegria  multirracial, vai ter que conviver  com  o medo dos praticantes da covardia, fruto da barbárie,  do obscurantismo e da cegueira  ideológica  que não admite  as diferenças  culturais  e  religiosas  de um mundo  livre  e civilizado.
     A  imagem do mundo atual, pode-se afirmar,  muito se aproxima, em suas características principais, das exibidas num filme-catástrofe. Quer dizer, há uma espécie de sentimento universal de  “ficcionalização”  da realidade concreta, de uma construção de um imaginário do medo   dominando as mentes  do homem  civilizado. Seja o maior problema  de hoje enfrentado pelo  civilização ocidental: a violência em todas as suas formas, - crimes, tiroteios disparados de repente por  psicopatas,  guera do narcotráfico,  estupros,  radicalização do  preconceito em todo os seus matizes,  terrorismo  jihadistas, dos vários grupos de terror  em escala global, corrupção  política,  autoritarismo  policial,   deterioração do meio-ambiente, entre outras mazelas sociais, urbanas,  do interior,  a rurais. 
     Em suma, barbárie e civilização, com culpados de ambos os lados.  Está nos faltando  aquilo que um velho pastor americano,  Herbert Armstrong,  fundador da importante  revista  The Plain truth,  há muitos anos  extinta, falou:  a dimensão  espiritual ( the missing dimension)  que deve ser  cultivada na práxis  da vida cotidiana, principalmente em tempos  tão tormentosos  planetariamente. 
       Em outras palavras,  um  mundo sem perspectivas   transcendentais,  que elevem o  indivíduo  a amar  seus semelhantes e a entender  as diferenças  entre pessoas,  etnias,  religiões e culturas.  Enquanto nos    fale o abraço apertado, olho no olho,   físico,  cresce , em dimensão  estratosférica,   a amizade virtual,  o carinho virtual, o beijo virtual,  enfim, o relacionamento virtual, compreensível,  até certo modo,  pelas distâncias  que  amiúde  nos separam.Isso vale para  quem também   assina   este blog., mas não deixa de ser um defeito,  uma carência,  uma ausência    que nos  podem  prejudicar  profundamente   como seres  humanos. 
    A presença   física é sumamente  necessária  à vida  saudável e concretamente  gregária. Com isso    se está perdendo o nosso velho humanismo, os encontros  ao céu aberto, nas praças,  nos jardins,  nos bares,  no cinema. Uma advertência: não nos robotizemos. Isso seria um salto  no escuro e com prejuízo para todos  nós. Não impessoalizemos  por demais  a nossa  humanidade,  o calor  de nossa amizade. Lutemos pela volta dos tempos mais simples e acolhedores.
   Por esse motivo, a sensação que se internaliza em nós - sobreviventes  dessa contemporaneidade -, é visivelmente  a  de  um estado  de quase paranoia coletiva, percebida por alguns  indivíduos mais do que outros, dependendo  do nível de consciência da gravidade do contexto cultural-político-religioso mundial. As pessoas ignorantes, menos   envolvidas com  os problemas  enfrentados  pela humanidade de hoje, talvez não percebam  tão  lucidamente   esses perigos e talvez por isso sofram menos, no meu entender.
    O que nos vem logo à mente, nas metrópoles  vitimadas  pelos atentados terroristas, é  uma imagem apocalíptica de pessoas civis  e  soldados  fortemente armados, como se, a qualquer  momento,  fosse  explodir  alguma   bomba  de um terrorista  ou de um  tresloucado  fanático  de facções  terroristas  fuzilando  um monte de inocentes. Somos ou não um  simulacro  ficcional?
   Aquilo que de mais  sangrento e destrutivo  vemos em alguns filmes   americanos  como que se mistura  a esse mundo  civilizado e ao mesmo   tempo barbarizado  nos dias que correm. Somos vítimas do que  nós mesmos construímos em termos  de armamento letais a partir do descobrimento da dinamite.
   Ou seja, a civilização, aperfeiçoando ao cubo as armas  mortais, a bomba atômica, a bomba de hidrogênio as armas químicas, os mísseis  inter-continentais,   é a mesma que está sendo vítima de suas próprias criações frankensteinianas, dos seus monstrengos. Ironia dos  civilizados.
   É  sempre atual a frase de Bertrand Russell (1872-1970) em relação  a um  conflito   mundial: a vida ou a destruição.Não há meio termo.Depende de nós  a alternativa  primeira. E os homens, até hoje,  ainda não  assimilaram  bem essa advertência. Não faltou  nem falta que  os alerte. Dois caminhos, um destino por todos desejado com exceção dos criminosos terroristas, e um destino   sem volta Que os Jogos Olímpicos de 2016 no Brasil  sejam o do primeiro caminho,  o da vida,  sinônimo    de alegria