terça-feira, 20 de setembro de 2016

PLANOS DE SAÚDE NO BRASIL: ESTADO DE CALAMIDADE









 Cunha e Silva Filho


            Até agora, não vi nenhuma palavra do atual governo federal  a respeito da  situação desastrosa, ou melhor diria,  aflitiva, de quem  paga plano de saúde no país. Ao contrário dos EUA,  cujo governo do  Barack Obama,  fez muito pela saúde dos mais   humildes, dos que não podem  pagar  planos  exorbitantes.  O health care americano  serve de modelo  aos descaminhos  dos planos  privados  brasileiros.
            Essa é uma demonstração  séria de um governo  que,  na sua campanha para presidência da maior potência mundial,  prometeu e realizou, na área da saúde pública,   uma mudança  substancial  que nenhum outro presidente americano anterior, que eu saiba,   havia  feito. Só por esse motivo, Obama  mereceu  governar  os Estados Unidos e deixará  esse legado  que, espero,  seja  mantido  por  novos ocupantes da Casa Branca e por muito tempo.
           Hoje, no Brasil,  não dispomos de um órgão de saúde federal nos moldes    do antigo  INPS, depois, INAMPS, finalmente SUS.  Nos bons tempos do INAMPS, quem  tinha   necessidade de recorrer  a esse Instituto era sempre  atendido e, às vezes,  bem atendido. Entretanto,  com o tempo,os sucessivos  governos federais, sobretudo  orientados  por  políticas de saúde  de viés neoliberal,   foram  seguidamente   sucateando  a saúde pública e ensejando  a abertura de  um  cobiçado espaço no campo  da saúde privada. Foi assim que se originaram os  diversos  planos de saúde, espalhando-se pelo país inteiro,  uns  oferecendo  tratamento de saúde de boa qualidade, outros apenas se aproveitando  para tornar a medicina  privada  uma   mercadoria  de ínfima qualidade.
        Com o crescimento gigantesco  de saúde privada, a  saúde pública  foi-se reduzindo  em  qualidade até chegar ao estado deplorável em que se encontra atualmente, seja através do governo federal, sejas  dos governos estaduais e municipais.
         O que é muito grave, os planos de saúde, com a anuência do governo federal, através   da ANS (Agência Nacional de Saúde), têm reajustado seus  preços  de forma  escorchante, sem que,  por outro lado,   o atendimento  aos usuários  tenha  sido melhorado  e aperfeiçoado  com  o decorrer  dos anos, a situação é tão alarmante que planos de saúde,antes respeitados e mostrando solidez financeira,   estão  ficando sucateados.
        O exemplo mais lamentável, humilhante e constrangedor  se comprova quando  um usuário de um  plano, ao precisar de  fazer  exames num dado  laboratório. tem recusado o seu cartão de  plano de saúde alegando   o laboratório  que  um determinado plano  está não está mais  filiado ao laboratório.
      Ora,  um vexame destes é de deixar  qualquer  usuário de plano   indignado,  principalmente quando  o mesmo usuário já havia  realizado no mesmo  laboratório  vários exames  há pouco tempo atrás. Daqui a pouco,  o usuário de um plano mesmo pagando religiosamente a mensalidade – e convenhamos -  já bastante  elevada, ainda que  num plano  feito  junto  a um  sindicato de classe,ou, com dizem,  por convênio, estaremos  pagando  nosso  planos  privados   sem a contrapartida  dos serviços  prestados.
      Da mesma forma,  a questão do  plano de saúde se estende para a consulta  médica. Suponhamos  que  o paciente  queira se consultar com o seu  médico ou médica de sua preferência como  havia feito   tantas  vezes anteriormente. Um  dia, vai  ao seu médico e recebe a seguinte  resposta  da atendente: “ O doutor não aceita mais  esse plano, se  descredenciou”. Aí,  toda a nossa paciência  acaba.
      É o fim  do mundo. Poder-se-ia  afirmar que, mal comparando,  o antigo  INPS/INAMPS era muito melhor  do que  o que agora se vê no seio da própria medicina  privada.No meu juízo,  com o neoliberalismo,  a medicina  se tornou mercantilista. Os donos de planos de saúde  enriqueceram.
      No entanto, Não têm sabido administrar suas corporações. Gastam demais  com os altos salários dos presidentes, das secretárias  e até dos seus motoristas,  segundo  se falou  de um  famoso  plano de saúde brasileiro  agora às voltas com  tremendas dificuldades de  oferecer   bons serviços  aos seus milhares de usuários que todos os meses  pagam  as mensalidades   em dia.
      A fiscalização federal, a chamada ANS,  não pode se calar diante desta situação de calamidade na saúde  privada. O governo federal,  se tiver consciência da relevância deste problema, não pode permanecer de braços cruzados.
     Enquanto  isso,  o governo  federal  nada tem feito  contra este estado  deprimente   vivido  pelos usuários dos planos de saúde privada. O neoliberalismo venceu e prejudicou  a saúde  pública  brasileira. Urge  que medidas  drásticas  sejam  tomadas  pelo governo federal  a fim de  buscar   solução, em curto prazo,  para mais uma decepção  que se acumula  contra  a administração   pública  na área da saúde.  Tem a palavra o atual Ministro da Saúde.


domingo, 18 de setembro de 2016

NOTA AO LEITOR

NOTA AO  LEITOR:

Caro leitor do meu Blog, a   partir de hoje, o meu espaço,  sempre que possível   apresentará matéria de outros  autores sobre  questões de literatura.
 Desta forma,  abrirei  espaço, com autorização prévia   do  autor do romance   Os anos da juventude, Francisco Venceslau dos Santos, para  publicar uma  resenha deste livro   escrita  por  Roberto Acízelo de Souza,  Professor   Titular de Literatura da UERJ. Segue o texto mencionado:

NOTE TO THE READER:

[ Dear reader of my Blog, from now on, this  virtual  space of mine,  whenever  possible,  will present texts from other authors related to Literature themes.
 In so doing, I' ll open  a space, with   previous  authorization of the autor of the novel Anos da juvaentude, Francisco Venceslau dos Santos,   to  publish a review of this novel   by  Professor Roberto Acízlelo de Souza, Full professor  of Literature   to UERJ], as follows:




SANTOS, Francisco Venceslau dos. Os anos da juventude; um romance. Rio de Janeiro: Caetés, 2014. 150 p.
                        Roberto Acízelo de Souza (Titular de Literatura/Uerj)

            Com ação ambientada em Teresina, na primeira parte, e no Rio de Janeiro, na segunda, a obra compõe um painel do viver de certa parcela da juventude, no lapso de tempo que se estende de meados da década de 1950 a fins da subsequente. Certa parcela — dissemos —, porque a galeria de personagens se restringe a jovens de classe média, cuja trajetória a narrativa apresenta, desde fins dos últimos anos de seus estudos em nível médio até o ingresso em cursos universitários.
Escolhido assim o segmento sócio-cultural a que pertencem protagonistas e figurantes, o relato, mediante seleção criteriosa de detalhes representativos, vai descrevendo comportamentos que configuram verdadeiro estilo de vida. Ficamos assim sabendo, por exemplo, como se vestiam os jovens da época e como eram suas diversões, e sobretudo quais as suas preferências em matéria de orientações políticas, bem como o universo de suas opções culturais, aí compreendidas manifestações da literatura, do cinema e da música. Desse modo, se vai compondo um mural de época, através de uma técnica de acumulação de pormenores significativos, multiplicando-se as alusões aos ícones da cultura jovem do tempo, da moda à filosofia, passando por romances, poemas e filmes. O resultado do processo é a construção do que se pode caracterizar como um quadro ético-estético de um passado mais ou menos recente, flagrado a partir de uma perspectiva brasileira, ainda que não alheio à conjuntura mundial daquele momento.
            Para não ficar na descrição abstrata, vejamos algumas passagens do texto, a título de exemplificação dos traços referidos:
- a moda: “Manoela estava linda, magra, vestia uma blusa de jeans bem justa, calçava sandálias de couro, trazia a tiracolo uma capanga com um design creme, cheia de livros e papel” (p. 63); “No espelho da casa olhou-se. Vestia uma camisa branca bem simples, por cima um paletó xadrez à moda do final dos anos cinquenta [...]” (p. 16).
- as leituras literárias: “Abriu Alguma poesia, de Drummond, e começou a ler, fazendo anotações em um caderno [...]” (p. 82); “ ‘Quer ser tão entediado quanto o amanuense Belmiro de Cyro dos Anjos?’ — ironizou ela com a faceirice das garotas íntimas” (p. 82).
- as leituras filosóficas e sociológicas: “ ‘Para onde estamos indo’ — perguntou Janice, que segurava nas mãos Tristes trópicos [...]” (p. 83); “ ‘Sabe qual é a novidade?’ — encarou os colegas com um desafio, e continuou: ‘Leio O capital, de Karl Marx’ ” (p. 24).
- a música: “[...] todos fizeram um círculo entre as prateleiras de discos e cantaram When I got troubles, de Bob Dylan” (p. 16); “Era sexta-feira, e havia no ar uma boa sensação, continuavam felizes ali sentados, escutando os Beach Boys, de vez em quando Celly Campello [...]” (p. 59).
- o cinema: “Seguiram como um casal, pela calçada da rua do Catete; tinha agora um cartaz de James Dean de Juventude transviada ao lado do de Cantinflas, na entrada do cinema Astheca [...]” (p. 61); “[...] e ficou examinando o cartaz de Barravento, de Glauber Rocha, fixado em um mega painel, entre cenas de cinema, tinha visto o filme na noite anterior no cine Odeon” (p. 81).
            Eis então uma pequena amostra textual da técnica de acumulação mencionada, cujo produto final, conforme vimos, é o desenho da moldura ético-estética de uma época, à medida que compõe, em conjunto íntegro, a dimensão dos comportamentos e as referências culturais que os orientam. Composição, de resto, concretizada em narrativa ágil e veloz, que se precipita em ritmo de videoclip, como que encarnando o próprio frenesi do mundo de que é a representação ficcional, mundo que, como hoje podemos saber, apenas prefigurava o que ora vivemos, com seu ritmo ainda mais vertiginoso, a dissolver a vida em ligeireza.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

ONDE ESTÁ O BRASIL?







                                                  Cunha e Silva Filho


      A crítica literária, o ensaio, a tradução, a crônica, o artigo  acerca de temas  da minha preferência me atraem, mas o momento brasileiro,se não me atrai pela positividade,  me atrai  para a discussão,  o debate,  político,  a escrita indignada, a escrita “rebelde” ressonâncias limabarretianas?), cuja  natureza  discursiva  às vezes resvalam para o panfleto. Mas, me perdoe, leitor,  é que, em razão de tanta sem-vergonhice de que se tem notícia a respeito do que ocorre no país, de  tanta impunidade consentida, de  tanta   traição  fingida ou verdadeira, mais uma vez, aqui estou  para falar da vida nacional.
     No Facebook, me deparo com uma cena, no mínimo,  hilariante: o ex-presidente Lula na posse da presidente da Suprema Corte. Lá estava ele,  lépido e ladino,  com  a mesma facies  que sempre lobriguei  no seu olhar e no seu andar entre pícaro e malandro e, o que é mais grave,    investigado pela Lava-Jato. Lá estava ele  livre, solto,  um passarinho  à procura  de uma solução para o país.
     Naturalmente,  conversava com a elite, com os donos do poder  ((ainda que, na Terra um tanto devastada,   só provisório). Imagine se fôssemos eternos,  imortais,  infinitos... Quem suportaria tanta  notícia e contranotícia,  versões e versões, os  prós e  os contras, fuxicos e conversas ao pé do ouvido, sussurros, balbucios, linguagens cifradas, esoterismos  e camuflagens,  espelhos trocados,  imagens  torcidas,   “um vasto mundo”   cheio de miasmas se alguns  poderosos  fossem  imortais?
    Eu procuro  pelo destino  da minha pátria amada como  o filósofo  Diógenes  procura um  homem  honesto com uma lamparina em pleno  dia  de sol. Só vejo neblinas, nuvens pesadas. Descortino realidades inimagináveis  no grotesco  da política nacional. Não encontro uma saída para  atinar com tanta   impureza no cenário  fosco que se me apresenta  o quotidiano  da nossa  aviltada  vida  pública .
   A Lava-Jato não me sai da cabeça e o diabo é que não consigo dissociá-la da figura  do Lula. Por outro lado,  como hei de enfrentar  os subterrâneos, a intimidade da intimidade, da intimidade, como se  tratasse de uma ficção utilizando-se do recurso do mise-en abyme?  Onde estão a “verdade” e a imaginação  do inconsciente  coletivo? Será que Freud teria alguma pista para chegar aos fatos   incontestáveis das causas  primeiras da origem de todo  esse sofrimento  por que  parte considerável  dos brasileiros está passando? Seria isso  algo    destrinchado  por um  Sherlock Holmes  saído da ficção e transformado em ser de carne e osso para a nossa realidade tupiniquim?  Ou a débâcle financeira nacional teria sua resposta  em alguma das    tragédias shakespearianas?    
   Como  explicar, com argumentos sólidos,  inatacáveis o fato de um  ex-presidente  ser presença  na posse de uma  presidente do STJ? Então, foram só  boatos  os resultados da Lava-Jato,  a quase prisão  do ex-mandatário? Não se pejam  os três poderes da presença do ex-sindicalista  na Suprema Corte? Não seria  esta uma resposta  dos donos do Poder  acenando  para os brasileiros  que, no caso do Lula,  da sua transformação em  homem de posses, com filhos  enriquecidos,   ainda que pese  a dúvida sobre ser ele dono ou  não do sítio de Atibaia?
    Ora,  tudo isso  é um grão de areia  no Saara se fôssemos a fundo  na investigação do famigerado Escândalo do Mensalão, cujos  desdobramentos ainda não tiveram um desfecho  cabal.
   Onde esta o Brasil que queremos a salvo das tramoias   e chicanas  político-partidárias? Será que desejamos um país desenvolvido  convivendo com um país   campeão da impunidade em  quase todos  setores da vida pública? Seria um desatino pensarmos assim, de vez que a alta impunidade  mexe com a infraestrutura  das instituições públicas e democráticas. Não pode m coexistir  progresso  com  corrupção e impunidade.
     Os atos lesivos à economia e às finanças do país se sustentam até certo ponto, mas, em seguida,  começam  a desintegrar-se e os resultados  estão  à vista dos brasileiros: maior violência,  estados falidos,  saúde pública  falida,  funcionários  públicos estaduais, juros altíssimos  nos cartões de crédito, desemprego,  lojas fechando, custo de vida  em alta,  salários encolhidos e arrochados,  cujo exemplo mais  trágico  é o do Rio de Janeiro,   passando seu funcionários e seus aposentados e pensionistas   privações  sem precedentes na história  da vida  pública  brasileira. De longe,  até nos lembram os sofrimentos por que tem passado  a sociedade  grega atual.
     Se fôssemos fazer uma arqueologia das causas  da delicadíssima  situação  financeira do pais, nos últimos quinze anos, posso apontar  como alguns dos   fatores  mais  determinantes  os seguintes:  a roubalheira ativa e passiva, a gastança  e   a propinagem, os escândalos  e as sucessivas denúncias  de  desvios  do dinheiro  público  em conluio  descarado com  alguns setores  corruptos da  empresariado  brasileiro.Isso explicita  à saciedade o  motivo nuclear e  decisivo   da falência  do Estado Brasileiro.
      O país de nossos  sonhos não encontro  no mapa  geográfico. Onde está o Brasil?
    

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

AUMENTO NAS TARIFAS, PROIBIÇÃO DE AUMENTOS SALARIAIS E OUTRAS QUESTÕES












  Cunha e Silva Filho
            
        Durante  o primeiro mandato de  Dilma Rousseff, e bem assim no seu segundo mandato interrompido pelo impeachment, o funcionalismo federal de cargos  médios e baixos nunca foi contemplado com um  reajuste salarial no sentido restrito do termo, porquanto alguma reposição que tenha sido  supostamente dada,  com base  na inflação,  nada acrescenta ao bolso  do barnabé. 
       O governo  federal atual  parece estar seguindo o mesmo  caminho, o de conter  qualquer pretensão   de reajuste dos servidores.Ora, quem  ganha  bem, como os membros dos altos escalões da República, pode  suportar,   por muito mais tempo,  um novo  reajuste. No entanto, quem  ganha muito menos  do que eles, ou quem  percebe baixos salários,  sai sempre perdendo. Lembro-me do que, na administração FHC,  o funcionalismo  sofreu o diabo. O governo foi duro,  inflexível e o servidor jamais viu a cara de um aumento. Foi arrocho  pra valer. Os preços aumentam  para todos, contudo nem todos  pertencem  ao elitismo  dos  altos  cargos  públicos, setor no qual  um bom aumento  redunda em  milhões de gastos com salários  a privilegiados nas administrações federal,  estaduais e municipais. Já no setor   privado,  o  empregado, de qualquer  nível,  tem  seus sindicatos  bem mais  unidos do que  no âmbito  público. 
         Já nos governos do Lula, pelo menos para a classe do professorado,  houve  um  plano de carreira posto  em prática com aumentos escalonados que não descontentaram  ninguém.A classe dos professores foi também bafejada como um  bom número de novas  universidades  públicas e escolas técnicas espalhadas pelo país, dando oportunidades a jovens concursados do ensino médio e superior. Daí,  talvez,  seja  este um dos motivos  da adesão  política ao petismo, não obstante o descalabro  da corrupção administrativa  dos seus dois mandatos, que levou o PT à ruína  que se aproximava e  culminando com  o afastamento e perda de mandato   de Dilma Rousseff.
       Diante desta situação, se pode facilmente deduzir  que o governo Temer comete uma injustiça, quer dizer,  penaliza o  funcionalismo  duplamente: pela inflação que faz encolher  cada vez mais os salários, chamado de arrocho salarial  e determina, por seu turno,   aumentos anuais às agências reguladoras. Isso e um contrassenso.
      Por que não segura os preços dos remédios, dos alimentos, das tarifas públicas ou  de concessionárias. Essa  história  de  que tem  que controlar  os gastos  do governo, sanear   as contas públicas, arrecadar  mais não é de hoje para quem acompanha durante anos  a vida econômica  brasileira, a situação  financeira do país sempre foi, latu sensu, a mesma lengalenga, i.e., os problemas  econômico-financeiros  têm sido crônicos. 
     Portanto,  juros altos,  elevado custo de vida,  aumento de aluguel,  compra da casa própria e outros itens já eram  práticas   empregadas pelos setores públicos    Basta ler jornais  de décadas passadas para se confirmar que  o mesmo o script de filme ou de  novela  se repte na contemporaneidade  da vida nacional.
   O que diferencia  substancialmente  o hoje do ontem  em nosso país  é a violência praticada por adultos e jovens criminosos, o narcotráfico, o recrudescimento  da corrupção  política além  dos graves  problemas de saúde pública  no setores  federal, estaduais e  municipais. E, diga-se,de passagem,  todas essas mazelas que açoitam  a cidadania  brasileira  convergem para um  vilão número  1: a impunidade.
   A cultura da impunidade é que tem  dado  forte combustível  a fim de que, em todos os  segmentos  do Estado Brasileiro, ela mantenha e realimente o establisment da ausência de ética,  da imoralidade, dos desmandos governamentais e da práxis política ao arrepio dos princípios  constitucionais de um  sistema democrático somente visível na teoria, porém flagrantemente  desrespeitado na sua aplicação `na vida  em sociedade,   cujo resultado  mais  nefando e previsível é esse  viver continuamente na condição  indefinida, protelatória  e precária de “país do futuro.”

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

NOS SEBOS DO RIO DE JANEIRO







                                                                       Cunha e Silva Filho

          Na segunda metade dos anos 1960,  época em que iniciara a graduação em Letras, comecei a frequentar os sebos  cariocas. No Rio havia, então,  muitos  e muitos sebos espalhados, principalmente  pelas ruas do Centro. O número era tão grande que dois professores da UFRJ,  publicaram duas obras  informativas  acerca desses  sebos. A primeira foi a do professor de literatura brasileira,  Wellington de Almeida Santos, que foi meu orientador no Mestrado.  O opúsculo foi  lançado justamente em 1991, quando era seu aluno.  Tem por título  Guia comentado dos sebos do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro:UFRJ, 1992, 38 p.). 
        Este Guia é precedido de uma elucidativa  “Apresentação,” na qual   aquele professor  dá as razões da organização do livrinho.  E, o mais curioso  é que,  pela primeira vez tomei conhecimento  do termo  “sebo” para significar  livro antigo destinado à venda.
        Assim, o professor Wellington, recorrendo à  informação contida no livro de Memórias do Visconde de Taunay, faz uma pequena citação que esclarece  esse ponto. Os antigos vendedores de livros usados eram  chamados de “caga-sebo.” Eles eram os mais  antigos  livreiros  desse  comércio de livros. Taunay, portanto,  registrou  esse primeiro  vendedor, entretanto, não nos falou  do nome dele, apenas acena para a data em que ocorreu  o fato histórico, que é o ano de 1856.
        Mais adiante,  o professor Wellington,  estendendo suas observações, acresce ainda que,  com o tempo,  a forma composta “caga-sebo’ reduziu-se, por eufemismo,  ao termo “sebo.” Este, sozinho, perde o sentido  pejorativo da primitiva  forma composta.
        Devo  anotar aqui  que o pequeno  livro  do meu  ex-professor teve a colaboração do professor  e hoje  membro da Academia Brasileira de Letras, Antonio Carlos Secchin, também meu ex-professor de literatura brasileira  no Doutorado..  Foi de Secchim que surgiu a ideia de organizar uma publicação dessa natureza. De resto, o próprio Secchin, posteriormente,  lançou seu  Guia de sebo das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo ( Rio de Janeiro: Nova Fronteira,  do Rio de Janeiro e São Paulo 4 ed.rev. e ampliada, 2003, 166 p.).
        A edição de Secchim inclui ainda no volume 15 cidades brasileiras. Além disso, a enriquece uma “Apresentação do Editor” que, de forma erudita,  dá novas  sentidos e origens ao termo “sebo”. E mesmo ao composto “caga-sebo.”
       O que, porém, mais me leva ao passado de, pelo menos,  4 décadas,  era o contentamento  de, naqueles  tantos anos,  entrar nos sebos,  ir até às prateleiras  c cheiro de livro  velho, ver as seções que me interessavam  mais, ou seja, as que diziam  respeito a línguas estrangeiras(algumas no original),  literatura  brasileira, teoria literária,  linguística, filologia, língua portuguesa, língua inglesa, francesa, espanhola,  latina, de outras literaturas  ocidentais,  de romances  brasileiros sobretudo, de gramáticas portuguesas.
       Ficava encantado quando me deparava com um a obra que me parecia  de grande utilidade aos meus estudos. Algumas eram verdadeiros achados. Como eram mais  baratos,  não deixava de comprar uns três ou quatro  volumes  sempre que dava uma passada naquele sebo durante anos. Ainda guardo comigo  várias obras, algumas raras de se encontrarem hoje, a não ser se contarmos com a sorte  nas chamadas  livrarias  virtuais.
      Dos muitos sebos cariocas   o que  mais  visitei foi o que se originou da Livraria  São José, do antigo proprietário, o  livreiro conhecido Carlos Ribeiro (ex-funcionário da velha Livraria  Quaresma) junto com o seu sócio, Walter Alves da Cunha, que depois se separaram.
     A Livraria   São José foi também, por algum tempo,  editora. Em tempos que não os meus,  a Livraria São José era um point famoso de encontro de altos  intelectuais cariocas e de  talentosos  escritores  vindos de outras regiões do país, sobretudo do Norte e Nordeste.
    Tempos de Manuel  Bandeira,Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles,  Gilberto Freyre  Graciliano Ramos,  José Lins do Rego, Jorge Amado,  Raquel de Queiroz, entre tantos outros.Até escritores  do porte de Ferreira de Castro,  Miguel Angel Astúrias ( prêmio Nobel de Literatura), Neruda( também Nobel de Literatura). O local  não era somente visitado por  escritores,  jornalistas,   cronistas,   críticos, mas também  por  presidentes da República,  políticos em evidência ..
   Tempos também  de memoráveis lançamentos  de livros de grandes escritores brasileiros. A instalação da livraria  São José se deu em 1939. Antes ela, abrigava a antiga Livraria Briguiet. Nos anos 1980 a Livraria São José  foi considerada como “o maior  sebo da América Latina.”   No seu apogeu(anos de 1947 a 1967),  além da loja-matriz  na Rua  São José, nº 38, a livraria dispunha de mais três  lojas na mesma rua, nos números  40, 42 e 70.s..
   Sendo a Livraria situada na própria Rua São José,  desconfio de que a razão social do ramo de livros se deve também por contiguidade e aproximação física com a bela Igreja de São José, na qual  meu filho  Francisco Neto se casou.  Aquele entorno  no passado se chamava Morro do Castelo, o qual foi demolido, sofrendo, com o tempo, completa modificação  paisagístico-arquitetônica.
  As lembranças da Livraria São José são do tempo em que  conheci  um dos seus funcionários,  o Germano, que  ali  começou a trabalhar bem moço, como funcionário do Carlos Ribeiro, citado  acima. Quem me apresentou  ao Germano foi a minha  mulher, na época, minha  namorada. Era no tempo  em que iniciara o meu curso de Letras.
  Elza, que estudava química na Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi), da antiga Universidade do Brasil,  uma vez foi apresentada ao Germano por outras colegas da Faculdade que já eram  compradoras  da São José e muito bem  atendidas  pelo Germano,  vendedor  da preferência  delas.
  Os áureos tempos da São José foram declinando, Carlos Ribeiro faleceu. A Livraria deu  origem, mais tarde,  ao sebo da São José.  Carlos Ribeiro, afetivamente chamado de “Carlinhos,”  com o agravamento financeiro da livraria e já com a saúde bem abalada em razão das péssimas finanças da livraria, decidiu vendê-las  a seus ex-bons funcionários, sendo o  Germano  um deles.Os outros dois eram o Carlos dos Santos Ribeiro e o Adelbino de Marins Spíndola.
  Em seguida,  a Livraria passou à condição privilegiada de ser um bom   sebo, mas não mais  funcionava na Rua São José. mudou-se, primeiro,  para a Rua  do Carmo,  bem perto do antigo endereço. Desse endereço, após algum tempo, transferiu-se para a Rua 1º de Março, igualmente no Centro.
  O sebo era mais especializado em obras jurídicas, mas tinha ainda um   acervo  de muita  importância nas seções de línguas estrangeiras, didáticas ou não, dicionários de alta relevância,  e um  número grande de obras  em várias literaturas.Em todo esse tempo,  não deixei de ir ao sebo São José.
  Uma circunstância que não deveria  esquecer de comentar. Elza, ao referir-se ao Germano, sempre  o chamava de Seu José,  levada seguramente por associação de ideias   e pela proximidade com o nome da antiga Livraria São José.  De tanto  visitar ao sebo da São José, com o tempo  estreitei amizade com o Germano que, além disso,  me fazia sempre um  bom  desconto  nas compras de livros.
  Germano me contava, nos últimos anos,  que o aluguel da loja  para o funcionamento  do sebo estava cada vez mais caro com as mudanças econômicas  havidas no país e isso ia num crescendo a ponto de atingir situação  ainda mais  delicada para destino das livrarias de sebos que começaram a  fechar as portas de forma crescente.O curioso é que não só os sebos sofreram   os embates  de crise econômica,  mas as próprias livrarias  mais conhecidas  que não vendiam  livros  usados. Do Centro  várias  boas e excelentes livrarias  fecharam as portas. 
  Germano  teve que praticamente interromper os negócios do sebo do último  endereço  na 1º de Março. A situação ficou insustentável. Vendeu o estoque quase por inteiro. Ficou apenas com  uma parte do acervo  de livros  jurídicos, obras raras nessa área. Fez sua mudança novamente. Obrigado pela crise, alugou umas salas pequenas na Rua da Quitanda,  nº 67, Sala 402.
   Germano, diante da grave crise dos sebos e mesmo  do fechamento de grandes e luxuosas livrarias do Centro,   a fim de sobreviver,teve que entrar no meio digital da venda de livros, associando-se ao conglomerado chamado de Livraria Virtual.   
  O costume de ir aos sebos é bem antigo. Escritores, estudantes, pessoas  interessadas em cultura habituaram-se às visitas   nos sebos.Acredito, porém,  que hoje, com a venda de livros usados via internet, os sebos ao vivo estão em franca decadência., com baixas sensíveis nas vendas.  
    As vendas virtuais, segundo me informaram,  estão dando mais lucros, Mudanças de tempos e de hábitos, ainda com a concorrência dos e-books, dos downloads de livros  nos tablets,  nos celulares  de alta potência e complexidade.
       Eu perguntaria a mim mesmo: “Está satisfeito com isso? Não.” Sinto nostalgia? Sim.” Sobretudo do tempo  de estudante de Letras e, depois,  mesmo do tempo  em que iniciara, muito jovem, o magistério. Comprei muitos livros. Achava-os, naqueles tempos,  mais baratos. Hoje, penso que os livros usados se valorizaram e, por isso,  são mais caros, sobretudo algumas obras que ficaram  raras.
     Não é só o prazer de comprar esses livros usados que nos faz ir aos sebos. Há o prazer de encontrar uma obra que há tempos procurávamos. Eureka!”Além disso, é agradável quando podemos travar um bom relacionamento com o livreiro, principalmente quando ele tem bom humor, é solícito, dá bons  abatimentos que nos contentam e, sem nenhuma dúvida, nos fazem ali sempre voltar com alegria.
     Nos  apegamos às vezes a um sebo como foi o meu caso e o de minha família com o do Germano. Não há como não visitá-lo a fim de verificarmos se o estoque possui o que procuramos. O ideal seria se todos pudéssemos ter o mesmo  sebo e desfrutar  do convívio com o livreiro amigo e camarada, além da felicidade de encontrar o livro desejado. Ah, velhos sebos de outrora!   
    
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terça-feira, 6 de setembro de 2016

EDUCAÇÃO, SALA DE AULA E IDEOLOGIA











                                                          Cunha e Silva Filho

      
               Na Escola Tradicional  e principalmente na   Escola Moderna (e por moderna atribuo ao temo a sua acepção mais lata  possível), um debate polêmico  está sendo   travado  no que tange ao ensino-aprendizagem com seu núcleo de discussão  justamente  na forma como se deve ou  não  ministrar  disciplinas  nas escolas  públicas, ou seja,  nos níveis do fundamental (6ª, 7,ª  8ª e 9ª)  e sobretudo do ensino médio.Obviamente,  a questão para este último  período se torna mais  sensível e exige maior  tato  pedagógico, porquanto  estar-se-á lidando  com  adolescentes em vias  de se tornarem  jovens adultos e numa faixa etária na qual  as grandes indagações   de natureza  sociopolítica, histórica filosófica   começam a  fazer  parte  da formação    ideológica do discente.
              É nesse ponto nevrálgico que a questão da doutrinação  ou não se presta  ao confronto  de diferenças  entre alunos e docentes.
              Da mesma maneira,  é nesse ponto em que  as visões  dos pais  dos alunos e a dos professores  podem  se chocar, estabelecendo  pontos de divergências  que resultem  em  prejuízos  tanto  para o ensino quanto  para  a formação  intelectual  do alunado.A dificuldade de  lidar com  essa questão é o busílis para uma educação e ensino   eficientes ou  para  seu  lamentável fracasso.
         Outro componentes  bastante  significativo para o tema  é a natureza  da disciplina  lecionada. É evidente que  algumas  disciplinas,as humanas,  estarão mais  expostas  e mais  comprometidas na discussão   candente  do ensino-aprendizagem. São elas: história, geografia, língua  portuguesa   literatura brasileira e literatura  portuguesa.     
          Mais uma agravante,  viria  no bojo desse debate,  as escolas  militares, as religiosas. Daí me referir à necessidade do tato, do bom senso, da maturidade imprescindível do mestre a quem o mínimo que dele se e pode exigir  é que seja  um espírito equilibrado conduzido  por um elevado   sentido  do valor da educação  e do ensino que lhe são postos  nas mãos  a fim de  realizar seu trabalho   didático   de maneira   imparcial tanto quanto  possível.
           Todas essa  matérias  humanas  acima citadas podem ser bem  desenvolvidas em sala de aula sem que se produzam  conflitos   indesejáveis  tanto  para o aluno quanto  para o  professor regente. De outra parte,  um professor  não é um  indivíduo destituído de suas idiossincrasias,  de sua  visão social e mesmo  ideológica, inclusive  partidária. 
           Entretanto,  o maior cuidado  deve ele ter na condução de suas aulas de molde a  não  acirrar   os ânimos  dos alunos  e entrar  em  polêmica   de caráter  doutrinário ou  proselitista, a ponto de transformar  suas aulas  numa refrega  de fla x flu.  Se existir essa rivalidade ou choque de ideologias, a aprendizagem redundará em tremendo   fracasso. O conteúdo da disciplina  irá pra o beleléu e a educação pública perderá a sua função e finalidade precípua e inarredável,  que é a de  preparar  pessoas  competentes,  críticas mas não  dogmáticas, formando  indivíduos que saibam  respeitar  o outro e as diferenças  de opiniões. Indivíduos que saibam discordar sem   radicalismos, sem  impor sua  unilateralidade  a fórceps sobre outrem. Isso não quer dizer que dos dois lados da moeda tudo se aceite ou tudo se negue. Nem a direita é santa nem a esquerda  é a tábua de salvação. Tampouco  em tudo que e neoliberal  é bom  para todos:da mesma sorte que nem tudo que  os  verdadeiro marxismo   ensinou  é descartável  e  errado.
         Aproveito  este ensejo para fazer uma citação de um crítico marxista a quem admiro, Terry Eagleton, ainda que eu não seja marxista: “Estar dentro de uma posição ou fora dela ao mesmo tempo – ocupar um território enquanto movimentando-se ceticamente na sua  fronteira – é amiúde  onde brotam  as ideias mais   intensamente  criativas.É  um lugar  precioso para nele estar, ainda que nem  sempre o menos doloroso.” (EAGLETON, Terry. After theory. Basic Books:New York, 2003, p. 40.)
         O que um mestre  genuíno  pode  bem fazer e competentemente  desempenhando seu papel  de pedagogo  é ministra bem  sua  matéria, até pode abordar  diversos  modos  de  visão dos problemas  que a História nos  legou e que ainda estão por serem  solucionados,  mas deve fazê-lo sem  artifícios  enganosos  de  trazer  seus alunos para o seu lado, e fazer brainswah tendencioso,  nocivo e viés ideológico  que distorce   outras  formas  compreensão   e leitura do   mundo, as   com liberdade de expressão, de locomoção  e com possibilidade de exercer uma atividade feita com dignidade, ética e  autenticidade  pessoal  forjada  no respeito  à coletividade e no respeito aos semelhantes.
        Não somos  os únicos,  os melhores.  Somos  parte  de uma  multiplicidade  de  ideias e pensamentos  que estão em mudanças  num mundo de alta complexidade tecnológico-científica e de   convívio   muito mais    difícil do que em tempos de menor    afluência  humana.