quarta-feira, 22 de novembro de 2017

MODERNISMO BRASILEIRO: A DIMENSÃO QUE LHE FALTOU (3)





                                                                           Cunha  e Silva Filho


5. MODERNISMO E MODERNIDADE



         Não só no campo literário como também nos setores institucionais, culturais  e econômicos, o país que pretende inserir-se era da modernidade deve  levar em conta um saber a ser construído tendo como condição prévia as  idéias de diferença, sob pena de se manter unilateralmente uma postura absolutista e autoritária. Esta postura assumida não pode ter por isso um caráter intransitivo.
       O projeto de modernidade brasileiro será eficaz na medida em que se abrir alteridade – a via de acesso à “vida do mundo.” Se, porém, limitar-se às imposições do discurso próprio e não admitir a travessia para o discurso diferente não se constituirá  em projeto solidário e democrático[5]
        Todo discurso autoritário esquece e anula qualquer argumento em contrário. Vejam-se,  no caso brasileiro, a era do Estado Novo, o longo período  da ditadura  militar com o apoio de faixas da sociedade civil. O discurso político brasileiro, mesmo nos períodos considerados democráticos, não se fez tendo como princípio diretivo o bem-estar coletivo do país,  a massa da  população. O desenvolvimento do país, quando houve, foi feito sempre por exclusão. A modernidade que daí surgiu teve sempre um sentido de incompletude. Os grandes projetos de desenvolvimento industrial, tecnológico, as reformas econômicas foram concebidas sem consultar as populações em nossas Casas Legislativas.
       Os dois últimos  governos federais que  tivemos, o de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, assimilando modelos de economias  advindos do neoliberalismo, são dois flagrantes exemplos de como o conceito de democracia se relativizou. O que esses governos nos impuseram, através de medidas  provisórias, alterou profundamente a sorte dos brasileiros, sobretudo dos mais desfavorecidos. Tudo isso se fez em nome de uma suposta modernidade de abertura do país à globalização da economia. Ora, alterações bruscas no sistema econômico, se por um lado alavancavam o país a muitas conquistas no campo   da economia do mercado, por outro lado essa modernidade deixava lacunas em que certas camadas da população ainda ficaram presas a modos de vida arcaicos e abandonados pelo Estado brasileiro.
          A melhor imagem que teríamos dessa modernidade abrupta  e intempestiva é a de um país que se tem construído por saltos e com tamanho açodamento que a realidade brasileira se torna um mosaico de realidades convivendo, até hoje,  ao mesmo tempo Primeiro Mundo com Terceiro Mundo, considerando aqui  essa divisão meramente de desigualdades e tempos  desencontrados ou assimétricos. Basta vermos  o que oferece o interior do país não só no Nordeste, mas no Sul e em toda parte, sem se falar das periferias urbanas.
          São populações que – é preciso enfatizar - vivem em tempos   diferentes e num país que se arvorou de chegar à modernidade. Aludimos aqui à coexistência de realidades sociais díspares. Por exemplo, convivemos ainda com  crônicos problemas : analfabetismo, analfabetismo funcional,  ignorância da população sobre benefícios sociais vigentes ou que, no vendaval das reformas, são retirados pelos governos,sem consultar os interessados. E não estamos falando de outros gravíssimos problemas  que permanecem  nos desafiando: violência, educação pública deficiente,  transporte coletivo insuficiente, saneamento  básico precaríssimo.[6] Essa situação assincrônica da realidade brasileira corresponde, no plano cultural, à  advertência de Eduardo Portella: “Com  a chegada da pós-modernidade corremos  o risco de sermos uma cultura pós-moderna sem termos sido moderna.”[7]
      Que modernidade é essa que permanece subserviente a  interesses de em organismos transnacionais que ditam o que bem entendem sobre a  realidade de um país do mudo, gerando mais miséria e um contingente cada  vez maior de desempregados? Que democracia é essa que vem a reboque das ditaduras econômicas? É nessa altura de nossa reflexão que percebemos a pertinência da interpelação lúcida do crítico Eduardo Portela:

 (...) para que serve a modernidade se não é capaz de reforçar a democracia? Se não  conseguir ampliar o campo da justiça social? Não se pode negar que o Brasil vem fazendo algum avanço âmbito da democracia real. Menos satisfatórios ou mesmo insuficientes, se  levarmos em conta cada vez mais a velha  e cada vez mais concentração de rendas, são os ganhos em termos de equidade social. (...) [8]
 
         Na esfera literária, os dois conceitos Modernismo e Modernidade para Eduardo Portella merecem ser melhor equacionados e compreendidos. O  ensaísta levanta, primeiro, uma questão moderno?”  O que sucedeu  ao verde-amarelismo não foi senão   ter descambado para ideários fascistoides?
       No pensamento do ensaísta o que seria mais saudável e proveitoso  à nossa herança cultural teria sido não uma cisão, mas um aproveitamento do legado romântico e a apreensão das novas contribuições que vieram somar-se àquelas oriundas do Romantismo, movimento cultural com amplas ressonâncias que vão até às vanguardas.
      A  realização plena e compensadora entre polos diferentes só se efetiva na convivência das diferenças, ou, como assinala Portella, no “... chegar  de coabitação fácil e frutíferas  convivências imprevisíveis e de intercâmbios simbólicos inabituais.” [9]
      Portella propõe três tipos de modernidade no quadro da cultura brasileira contemporânea, convivendo sucessivamente ou, segundo ele próprio sugere, simultaneamente: modernidades das nações, dos nacionalismos e das desnacionalizações. O ensaísta ainda fala de uma outra, a que chama de “derradeira modernidade.”
          Antes de se configurar como um povo com contorno nítidos o  brasileiro sofre o impacto catastrófico do anonimato e de uma realidade conturbada pela invasão das massas e presa fácil, conforme acentua o ensaísta, de manipulações.
         Retomando  a advertência feita anteriormente no mesmo ensaio ao afirmar  que os  podíamos cair no risco de sermos pós-modernos sem sermos modernos, Portella reclama por uma revisão crítica do Modernismo. Todavia, na concretização desse objetivo ele desqualifica a discussão por ele denominada peleja mesquinha entre mundialização dos mercados e mundialização dos valores. Nesse ponto, não vejo  como peleja mesquinha uma discussão  mais ampla entre duas realidades confrontadas pela Modernidade.
          A globalização afetará, sim, a universalização dos valores. Os males provocados pela economia globalizada neoliberal trazem no  seu bojo os  sacrifícios populações mais desafortunadas, sobretudo com o desemprego, a instabilidade no trabalho com o temor implantado sub-repticiamente    pela engrenagem dos mecanismos psicológicos, a miséria, a fome em gruas progressivos, assim como – e já estamos sentindo isso na pele em nosso país -  a redução do papel do Estado  como   responsável por áreas vitais como saúde, educação, formando um quadro social injusto e comprometendo as condições de vida no planeta.[10]
         Seria muito bom e tranquilo para os destinos da humanidade se a globalização e o universalismo na visão que nos passa Rouanet[11] tivessem na práxis os resultados por ele pretendidos. Não bastam só organismos democraticamente formados para decisões de foro internacional a fim de que soluções sejam encaminhadas convenientemente. O vetor da racionalização, para usarmos o termo desse ensaísta, ipso facto, não vai, posto que de forma duradoura, conviver pacificamente  com o vetor da emancipação dos indivíduos.
          A economia  - ninguém pode refutar esse fato – pouco está se importando com o comportamento humano, uma vez que o racionalismo    nela está assente  em fatores tais como lucro, risco e competição, os quais, por só, nada têm a ver com solidariedade e sentimentos piedosos...
       Portanto, o pensamento projetivo de Rouanet nos parece mais um objetivo de teor triunfalista e mesmo utópico, ainda quando procura atenuar conceitos como  globalização e internacionalismo ao defender  aqueles que lhe parecem mais apropriados ao entendimento da modernidade: autonomia e  universalismo. (Continua).

NOTAS:


[5] PORTELLA.  Eduardo (1984. Op. cit
[6] Este ensaio é uma versão refundida de uma  monografia escrita durante o meu Doutorado na UFRJ, em 1998. A perspectiva  histórico-ideológica se restringe à realidade do país das décadas de 1980 e 1990.  O tema desenvolvido se encontra ainda bem atual.  A  situação social, com  a economia em recessão, foi agravada profundamente. O resultado de governos mal  administrados e perdulários, entre outros  malefícios que nos afligem,  logo se fez  evidente na  escalada da violência.   A nação atravessou e está ainda atravessando  uma  fase de imoralidade política  jamais  vista  na historia política brasileira diante do pipocar de  escândalos de  corrupção governamental nos níveis federal, estadual e municipal.    Corruptores e corrompidos se deram as mãos  no enlace  fatídico e cínico entre o público e o privado. A senha entre público e privado passou a ser a propina, o dinheiro em malas, a formação de quadrilhas e a lavagem de dinheiro   no setor público aliado  a parte do alto empresariado  conforme se viu no Escândalo  do Mensalão, Operação LavaJato e tantos outros  surgidos atualmente no país envolvendo os governos Lula, Dilma, Temer, governadores  e políticos no exercício de seus mandatos.
[7] PORTELLA, Eduardo (1984), op.cit., p.6.
[8] PORTELLA, Eduardo (1986), OP. CIT., P. 5-6.
[9] PORTELLA, Eduardo (1997), OP. CIT., P. 7.
[10] BOURDIEU, Pierre. (1999).
[11] ROUANET,  Sérgio Paulo 1997). Op. Cit.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

MODERNISMO BRASILEIRO: A DIMENSÃO QUE LHE FALTOU (2)





                                                                     Cunha e Silva Filho




 3. AS CONTRADIÇÕES: O NACIONAL E O ESTRANGEIRO.



        Nenhum movimento cultural é autônomo nas suas implicações e procedimentos. Portanto, quando reclamamos para o nosso caso uma literatura que reflita o nosso  povo e a nossa nação, tal premissa se exime de ser absoluta em si. Não há essa ideia de pureza e de primitivismo quando delimitamos nossa definição de nacional. Exatamente porque no nacional está implícita a tradição literária por via  da qual se transmitem as técnicas e formas  literárias do exterior.
      É preciso estabelecer com  critério  o conceito de nacional sem o preconceito xenófobo. Lembre-se aqui a oportuna  página de Machado de Assis contida no  ensaio “Instinto  de nacionalidade: O que de deve exigir do escritor antes de tudo é certo sentimento  íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço.”[3]
       Sendo o Brasil um país de cultura transplantada e, depois, modificada a custo de variantes mesológicas, étnicas e culturais, a formação de nosso patrimônio literário esteve constantemente recebendo o influxo externo. Por conseguinte, o que aqui se formou foi acompanhado sempre do contributo de fora, primeiro pela influência  portuguesa,  depois, pela francesa e inglesa, sobretudo desta última ainda vigorante. Nosso primeiros homens  ligados à cultura tiveram formação europeia e de lá nos trouxeram as modas  literárias e as doutrinas  filosóficas correntes.
        Quando pleiteamos uma literatura nacional  não estamos  somente nos referindo à temática  local, mas também a fatores  intrínsecos que nos enformaram literariamente, dos quais, entretanto, vamos  pouco a pouco nos libertando por força de uma realidade nova.
     A escrita literária não se originou de um grau zero. Ela se insere no circuito de experiências e conquistas da tradição ocidental. Não fosse por isso, não teríamos nunca entre nós a contribuição de técnicas e descobertas no campo da poesia, da ficção e da teoria que já foram trabalhadas lá fora e, por via  indireta,  dos livros estrangeiros ou nacionais a que os autores locais tiveram  acesso.
     Recusar simplesmente a contribuição alienígena é praticar um ato de insensatez intelectual, sobretudo agora que temos à nossa volta a pressão do conhecimento globalizado via Internet.
     A grande incongruência que existe entre o nacional e o estrangeiro se coloca quando decorre no âmbito das instituições sociais e políticas, conforme se deu em nosso  pais, onde o pensamento liberal de estofo europeu se chocava com o sistema escravocrata do Império ou com  outros  procedimentos  de convivência social avançada apenas para inglês  ver. Da mesma sorte, em outros setores da vida social,  modas, hábitos, lazer, leituras etc.


4. O POVO COMO OBJETVO DE PESQUISA, MAS NÃO COMO SUJEITO PARTICIPATIVO


        Se o Modernismo brasileiro pretendia aproximar a realidade da literatura, não se compreende como, na primeira fase,  a iconoclasta, ele tenha se constituído do ponto de vista de recepção do leitor,  em movimento visceralmente elitista, principalmente no tratamento da linguagem  poética ou ficcional. Neste sentido, o Modernismo deu as costas para o povo, que não leu e ainda não lê a sua produção. Estamos pensando em obras seminais à compreensão desse movimento, como Pauliceia desvairada (1922), Macunaíma (1928), Pau-Brasil (1929), Memórias sentimentais de Joao Miramar (1924).
       É bem provável  que essas obras como outras apenas tenham despertado certa curiosidade no povo, porém não a iniciativa de efetivamente  realizarem  sua leituras, com exceção,  nos parece,  dos autores da ficção de 30, donos de uma literatura em geral sem hermetismos formais e,  por isso, mais acessíveis à média da  população. Haja vista a obra de Jorge Amado (1912-2001).
        Se o movimento procurou a todo custo fazer um balanço das potencialidades do homem  brasileiro, no sentido  até documental, nada indica que ele tenha se afastado de suas vinculações com a burguesia de então,  pelo menos nos seus primeiros  momentos. Quem iria dar efetiva contribuição, pelo menos como  propósito  de transformar o povo em matéria ficcional e, além do mais,  como  voz narrativa seria um contista, surgido na década de 1960 - João Antônio.[4]    
          Na sua ficção deu ele voz a seus personagens, a maioria  do submundo do eixo Rio-São Paulo. Porém, tanto os modernistas   quanto João Antônio, e bem assim  os ficcionistas da geração de 30, que inauguram o ciclo do de romances  do Nordeste, iriam se defrontar  com um  impasse inescapável à condição do intelectual que se vê enredado no dilema  de difícil superação: como lidar com uma literatura que fixa e movimenta uma galeria  de despossuídos que jamais lerão seus livros e não têm o nível suficiente  de escolaridade e de leitura  para se verem retratados nessa ficção marginal?
        Na época do surgimento do romance brasileiro, a partir do Romantismo, o público leitor pertencia em geral à classe burguesa. Por outro lado,  não se poderia  também recriminar um ficcionista à altura dos anos 1960, 1970  e 1980 –  caso de João Antônio e de outros autores  da sua época -  por fazer uma literatura centrada primordialmente nas camadas  desfavorecidas  da população  brasileira, assim como nos temas em torno da vida de malandros (figuras que fizeram do contista  um dos seus mais hábeis  intérpretes na literatura brasileira  moderna), marginais, prostitutas, traficantes,  não obstante   ser a ficção joãontoniana de alta qualidade  literária.
   Assim como não poderíamos reprovar  o fato de que ele se beneficiaria comercialmente dessa temática  populista, uma vez que  a obra ficcional produzida pelo mercado transforma-se em produto de consumo e, por vezes, faz de seu criador, se este provém de classe menos favorecida (exemplo  também de João Antônio) um instrumento do jogo capitalista, gerador de lucro. Da parte da função de escritor, a meu  juízo, não houve apelação ou expediente  espúrio de  explorar  temas que lhe granjeassem  ascensão social  ou  sucesso econômico. O escritor como intelectual é caudatário do sistema que ele próprio  repudia.
      Jorge Amado,   por exemplo,  foi um escritor que,  em determinada fase  de sua  produção literária, foi  duramente criticado  por alguns críticos por fazer  algumas  obras  para deleite do turismo e não por sua  qualidade  literária. Contudo,  essa crítica, sob pena de  se tornar injusta,  não poderia  estender  seu julgamento à obra geral dele. No exemplo de João Antônio, guardadas as diferenças  com  Jorge Amado, o nível  estético  de sua ficção  não sofreu   nenhuma queda.
      O contista não se  sustentou tão-somente com a temática  dos despossuídos,  já que ainda com  boa  qualidade  literária  passou  a explorar   temas da classe média, da qual era um  crítico  feroz  e demolidor, ainda que,  aparentemente  uma contradição,   a sua  nova condição social  o colocasse na classe média. Esse, na verdade,  é o dilema  de  qualquer escritor  que tenha vindo   dos estratos mais  modestos  da pirâmide social. Não importa,  burguês ou não burguês, o escritor  será um porta-voz, seja das classes mais altas, seja   das médias e das humildes. Uma coisa têm os escritores  em comum  no seu ofício: sua arma é a linguagem, não a baioneta.(Continua)




[3] ASSIS, Machado de. Instinto de Nacionalidade. In: Obra Completa, p. 804. V; III.
[4] O autor deste ensaio defendeu, em 2002, uma Tese de Doutorado sobre João Antônio abordando  primacialmente  a figura do malandro no contista paulista. Título da Tese: O conto de João Antônio: na raia da malandragem. Faculdade de Letras,  Rio de Janeiro:  UFRJ, 2002, 349 p. Tese de Doutorado em Literatura Brasileira.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

MODERNISMO BRASILEIRO: A DIMENSÃO QUE LHE FALTOU





                                                              Cunha e Silva Filho


          

                                      

                   [...] O tempo é a época mais o horizonte diacrônico, o que significa dizer – é a época mais as  épocas. O isolacionismo espiritual do corte sincrônico, imobiliza, por amnésia e pela incapacidade de pre-ver. De enxergar que cada época carrega consigo outras épocas passadas e futuras.

                Eduardo Portella, Confluências – manifestações da consciência comunicativa, p. 26.



I.              INTRODUÇÃO


          Desenvolvemos neste estudo alguns tópicos subordinados aos conceitos de Modernismo e Modernidade no Brasil. Na primeira parte, procuramos discutir, ainda que de forma sintética, o movimento modernista brasileiro de 1922, realçando-lhe  a importância como marco fundador de uma nova  era para o Brasil literário, cultural e artístico.
                  Na segunda parte, discutimos os polos nacional e estrangeiro na questão da nossa identidade  literária. Na terceira parte, levantamos um dado de pesquisa que nos parece ainda não pesquisado em profundidade, que é o distanciamento do povo brasileiro como agente participativo do processo de transformação cultural e artístico desencadeado pelo Modernismo de 1922.
         Na última parte,  de forma mais  desenvolvida, estudamos  as implicações  embutidas nos conceitos de Modernismo e Modernidade em nosso  país. Esta seção do estudo visa a desenvolver algumas reflexões sobre os termos  modernismo  e modernidade partindo da leitura  de quatro ensaios de Eduardo Portella ( 1932-2017)[1] e  de um ensaio de Paulo Sérgio Rouanet.[2]

2. VALOR DA RUPTURA

       O projeto de uma literatura modernista para o Brasil não nasceu da noite para o dia. Seus vestígios remontam, sobretudo, à eclosão do Romantismo com a ideia de se inaugurar  também uma literatura que refletisse a realidade social, política e cultural, a exemplo do que ocorreu com a independência  política.
      A ideias de  separação do legado  brasileiro português teve então até o reforço original de José de Alencar (1829-1877) com a sua  tentativa de criar  uma língua brasileira que traduzisse o nosso  modo de produção  estética, sem as interferências ultramarinas engessadas nos lusitanismos lexicais, semânticos e simpáticos, gesto que seria repetido, no século seguinte, em pleno alvorecer do Modernismo,  por Mário de Andrade (1893-1945)), só que dessa vez de forma  radicalizada e que teve tantas repercussões para a delicada questão da linguagem literária no movimento modernista. E em todas  as suas  fases ou desdobramentos.
      O grande saldo  positivo do movimento modernista brasileiro foi o de atualizar os aspectos formais e temáticos da nova literatura om a realidade de um país que não podia permanecer imobilizado em práticas culturais e artística passadista. Ou seja, como  produzir literatura cm a camisa de força  de uma retórica artificialmente  objetiva ou subjetiva (estilo parnasiano, simbolista, fora os epigonismos  românticos  ou até  de períodos anteriores) num país que já passava por  transformações econômicas,  políticas e sociais que não mais admitiam a absolutização de verdades prontas e acabadas?
     Como manter-se uma ficção com bases ainda naturalistas  quando o século XX  já nos apontava para o freudismo,  o bergsonimo, o marxismo e com o surgimento  de profundas  alterações no universo das artes e das diversas manifestação de vanguarda com tantas consequências salutares à renovação   da cultura contemporânea?  Era  possível a essa altura do século XX  continuar-se indefinidamente  num mimetismo cultural só tendo vista para o passado e neste, infelizmente só vendo os aspectos imobilizados e não as suas  conquistas  inovadoras? Porque, no fundo,  todo movimento literário e artístico  avança um passo ao futuro, já que os movimentos não são estanques, mas se  influenciam  mutuamente  no seu dinamismo renovador a fim  de desbravar  novas formas estéticas.
    Mas, o sentido da ruptura entre  passado e presente, cujo marco simbólico foi a Semana de Arte Moderna de 1922 em São Paulo, foi  principalmente  uma vontade de não mais parecer  com o que  se fazia literariamente em Portugal e em nosso país até então, tendo à frente a questão da linguagem, dos temas e das convenções dos gêneros literários.
     Os exemplos mais significativos dessas transformações e práticas literárias  podem-se ver nas obras de Mário de Andrade e Oswald de Andrade (1890-1954). Isso quanto aos aspectos  formais e revolucionários na produção poética e ficcional. Na temática o exemplo mais surpreendente em termos de tratamento seria a larga produção ficcional do romance de 30, inclusive pelo seu aspecto  de recepção por parte dos leitores.
   Veremos, no capítulo seguinte,  como  podemos resolver as contradições trazidas  pelos princípios da estética modernista brasileira tendo em vista os dois  polos de interferência cultural: o nacional e o estrangeiro. (Continua).





[1] Trata-se dos ensaios seguintes: As modernidades. Revista Tempo Brasileiro, 84: 5/9. Rio de Janeiro.  Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro, 1986; Premissas e promessas  da modernidade. Revista Tempo Brasileiro, 130/131:5/10. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997; Qual modernidade? Revista Tempo Brasileiro, 111: 109/112. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1992; Sentido(s)  da modernidade, Revista Tempo Brasileiro, 76: Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro,  1984.
[2] Perspectivas da cultura brasileira  no início do século XXI. Revista Tempo Brasileiro, 130/131:83/103. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro,  1997.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

INTERVENÇÃO NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO JÁ!






                                                      CUNHA E SILVA FILHO


        O absurdo, leitor,  é a gente saber que   o Sr. Presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia,  junto com outros parlamentares estão fazendo   uma tour por alguns países gastando  inutilmente  o dinheiro  do povo brasileiro  em hotéis  luxuosos e  com diárias vultosas. Ninguém é idiota   para acreditar que  não estejam  fazendo meramente turismo  depois de votarem, a preço de  emendas  e outros    benefícios  concedidos  generosamente  aos deputados  que votaram  a favor  do   Presidente da República na  segunda  denúncia  contra ele. Enquanto isso, o Estado do Rio de Janeiro vive os  piores  dias de  violência sem limites  que já ceifaram  mais de uma centena de policiais  e de civis  vítimas de balas perdidas. Esta seguência de homicídios estarrece até os corações mais   empedernidos. A situação é caótica e se  espalha por  todo o estado fluminense. Até Niterói que,  durante  muito tempo,  era uma cidade calma   e praticamente  sem  violência, hoje  se alinha entre  o resto dos municípios  do Rio de Janeiro    infestado  por  bandidos  fortemente armados.
       Já é mais do que  hora de o governo federal  intervir corajosamente  nesse mar  de  desordem  social  provocado  pela alta violência  no Rio de Janeiro.  As lágrimas das mães  de policiais  assassinados e de mães de vítimas de assaltos e  de balas perdidas  continuam  sendo vertidas  diante  do estado de  impotência a que os moradores  do Rio  estamos    relegados. Estamos assustados até as entranhas.
    Não estamos  fazendo sensacionalismo irresponsável ou agindo como   faz a imprensa marrom. Os próprios porta-vozes dos órgãos de segurança   do Rio  de Janeiro   estão  repetidamente   ratificando   o que   aqui expomos   com o único   propósito de  contribuir para a diminuição  da violência, como cidadão   brasileiro  que  sou e que há tempos vem escrevendo  sobre o mesmo assunto de uma novela   trágica   que se assemelha a uma guerra  urbana  e se aproxima de alguns traços de guerra civil entre bandidos e bandidos e  de  bandidos  contra policiais  civis e militares.
       Não é possível que  os homens dignos deste país  que   exerçam  funções  de alta  relevância  no Estado  Brasileiro  nada  façam  contra   o estado   de gravíssima  ameaça que atravessa  o Rio de Janeiro – estado, de resto,  que,  a despeito de  ser  atacado pelo mal  tentacular   da  violência,  ainda    se defronta com   as finanças arruinadas por facínoras   que exerciam  altos cargos nos dois mandatos do governo  Cabral, sendo este  preso  por  múltiplos crimes  contra  as finanças do Rio de Janeiro que    provocarem   sofrimento,  dor,  fome  e desgraça  material  e  psicológica  no seio dos funcionários   estaduais, os quais  ainda  vivem  às voltas com  o atraso de seus salários e sem perspectiva  de um  luz no túnel.
       O que as Forças Armadas  têm feito  foi oportuno, mas está longe de   preencher  as lacunas   de medidas  gerais  (não pontuais)  a fim de   estrangular   os focos  de vendas de drogas  e  de uso  de armamento  pesado que chegam às mãos dos  marginais  com facilidade  e em quantidade assustadora  causando  espécie  a quem  observa atentamente  o desenrolar  dessa  selvageria   e derramamento de sangue  no Rio de Janeiro.
    Diante desse quadro   abominável  por que passa  os habitantes   do estado fluminense, sobretudo na capital,   urge  uma  intervenção federal  imediata, doa a quem  doer,  tanto  no governo   do Sr. Pezão quanto  no comando  geral  da Polícia  Militar,  a qual  não está dando  conta  dos  urgentíssimos problemas que se colocam   diante de vulnerabilidade  da sociedade  civil.
     Não me venham com  teorias   acadêmicas   e  ineficientes, além de  abstrusas  à compreensão do cidadão comum a fim de   resolvermos  a deplorável situação   que se nos apresenta. Precisamos  é de  ações afirmativas,   sem subjetividades  nem  justificativas  atinentes  a condições  sociais  e de  direitos  humanos. Sejamos realistas. Para isso, temos já algumas leis  que, se aplicadas com rigor, muito  agregarão  ao abrandamento  da atual situação  anômala  com que convivemos  num salve-se quem puder e à base da lei da sorte, de não  estarmos no lugar e hora errados  para  que uma atrocidade  possa   ocorrer. Ninguém, nem os  habitantes das favelas, nem  a classe média, nem a classe média alta,  nem  as elites  econômicas, nem  as autoridades  estarão  imunes  a essa violência  crescente  e sem  peias.
     Por isso,  só  vejo, pelo menos,   duas saídas para essa crise  inominável. Primeira,   o governo federal  deve  de imediato  traçar  a composição de  uma força-tarefa  que possa  estancar  todos as possibilidades de entrada de  armamentos e drogas em  nossas fronteiras  terrestres,  marítimas e aéreas. Já que não nos encontramos  em guerra contra país algum,   as Forças Armadas,  com todo o seu   conhecimento  e inteligência, além de armamento  pesado, logística,  estratégias bélicas,   bem pode,  sem abdicar de suas funções  básicas,  travar uma guerra sem trégua contra  a bandidagem  que nos vende armas e munições  clandestinas além de drogas.  Ao estancar  todos esses pontos prováveis e improváveis,  em que   armamentos e munições possam  penetrar em solo brasileiro,   as  Forças Armadas, a Polícia Federal,  a Polícia    Rodoviária Federal,  em trabalho  conjunto  e com  o apoio também  das polícias   militares e civis  de todo o território nacional, sem dúvida  resolverão  significativamente  os males da violência  e das drogas ainda hoje em plena expansão  pelo país afora.
     Segunda saída: livrar  os morros  e os asfalto  do tráfico de drogas e de armas seria um passo   decisivo, inclusive,   prender  o consumidor de drogas pego em flagrante nas bocas de fumo. Neste caso, que se faça valer a lei que  proíbe  a venda e o uso de drogas. Outra possibilidade,  caso seja recalcitrante, que o usuário   seja encaminhado  a tratamentos  do vício.
     Por outro lado,  essas sugestões  que  apresento só teriam maior eficácia   com outras medidas paralelas  tomadas  pelos órgãos de segurança: a fiscalização  por agentes  policiais   de alta competência  e seriedade   em suas funções e bem remunerados Eles seriam  pessoas-chave   a fim  de  verificar   o  mau comportamento  de policiais, a chamada banda podre,  tanto da polícia civil quanto  militar. Da mesma forma,   seria preciso que  valorizássemos as polícias civis e militares  com  bons salários e constituída  de  homens  bem  trenados,  com boa escolaridade e com condições  materiais  e humanas  d para exercerem  suas funções e ganhar o  respeito da sociedade. Sem uma  polícia  respeitada pela comunidade em geral,   não teremos    chance de  melhorar   a violência  no país.
      É obvio que tudo isso  exige grandes  aportes financeiros dos Estados  brasileiros. O Erário  Público tem  dinheiro e só não  o utiliza  corretamente  porque  as políticas  públicas  andam  erradas e andam erradas  porque  a estrutura  política está   carcomida,   degenerada e  perdeu  o  total  respeito  do cidadão  brasileiro.
      Repito: o  Rio de Janeiro  não pode  esperar  para ver  sua   degradação  absoluta  e irreversível. A atual  conjuntura  nada tem mais a oferecer  senão  a indiferença com que tem tratado  os mais  graves  problemas  de que  um  Estado brasileiro  poderia  ser vítima por duas razões principais: a) porque  governos   do PMDB e aliados,  em três mandatos ( o Sr Pezão é o continuísmo  da  tragédia  provocada por Cabral e seus asseclas),  quebraram  sem piedade  com rapinagem  as finanças  públicas do Rio de Janeiro; b) porque  o governo federal  ainda se mostra  indiferente com a sorte    dos que moram  e escolheram  morar   no Rio de Janeiro –  hoje palco de uma tragédia shakespeariana. E essa indiferença do governo  federal  tem  causas  de natureza  político-partidária, o que, em última análise,  configuraria  mais  um ação  irresponsável  dos homens  em  Brasília.

      

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

A ERA DO "FORA..."




                                   Cunha e Silva Filho


       Há um sem-número de explicações  para a sociedade ou parte da sociedade civil indignar-se nos tempos atuais, ainda mais   instrumentalizados que estamos com  recursos das várias mídias  que nos cercam  globalmente. Esse é, sem dúvida, um fenômeno  social diante  do que se ouve, se vê e se comenta,   sobretudo  de governos  e instituições que não estão atendendo  às massas em conjunto.
       Contudo,  concentremo-nos no  exemplo brasileiro dos últimos  anos, quer dizer, aproximadamente dos  governos da chamada era Collor até nosso dias. Todo esse longo período se caracteriza por manifestações, passeatas e protestos  contra  os sucessivos  governos federais, sobretudo.  
       Essa era dos “Fora” – palavra  de ordem  vista em cartazes não só no  Brasil mas em vários países do Ocidente,  do Oriente,  de vez em quando,  através  do clamor das suas populações, demonstra a insatisfação e  a   repulsa por  dirigentes  que não mais comungam com os interesses de vasta parte  da sociedade.
      O tempo da passividade dos povos está desaparecendo da vida planetária e os dirigentes das nações devem atentar para essa mudança que está a caminho à medida que a civilização  vai amadurecendo e tomando  consciência  dos  seus problemas e de sua cidadania. Mesmo em países não democráticos  algum dia  essa mudança  tenderá a  acontecer.
      Tenho  convicção  de que  os mecanismos   de repressão ainda estão muito  firmes  e prestes para  agirem, porém haverá tempo  para  mudanças. A liberdade dos povos é inegociável. Não há felicidade  sem  a liberdade  de expressão,  de ir e vir.  Por isso,  é indesejável    e revoltante  a censura de qualquer natureza, principalmente a censura contra todas as formas  de representação  artística.     
   A insubmissão, na maior das vezes,  sintetiza  uma situação geral, fruto   de arbitrariedades,  de autoritarismos  e  da percepção coletiva  de que  governantes   agem mal,  governam  mal  ou  submetem  o  povo   à aceitação  de suas desídias  e de seu  arbítrio. Tanto pode ocorrer em  países não democráticos como  em países  disfarçados de democracia  ou  mesmo democráticos, porém  praticantes de  ações   que desagradam  os direitos  dos povos. A força  das massas hoje é muito mais  atuante e coesa, a despeito das divergências   de tendências  ideológicas,  contra   atitudes  discricionárias  de mandatários.
    Em parte isso se deve às mudanças operadas nos meios de comunicação,  hoje  dominados pela era  digital,  pelos compartilhamentos   de usuários de redes sociais,  como  a o Facebook,twitter, o e-mail, o whatsAp, o utube,  e outras formas  de comunicação   instantânea, todas praticamente  interligadas. Ideologias e contraideologias se veiculam  em cifras de milhões de usuários dessas redes.   Por assim dizer,  o Facebook, hoje,  virou um verdadeiro  fórum  de  interlocução em vários níveis e segmentos  sociais,   e culturais.  Escritores,  pensadores,   intelectuais dele fazem uso  para  divulgar  seus trabalhos, suas obras,  suas ideias. 
   Se há  um lado  hedonista,  narcísico e muita  futilidades e exibicionismos  idiossincráticos,   esse canal  nacional e  internacional  de comunicação instantânea  tem  muitas vantagens e é um   incontestável  incentivador cultural.  O que é mais:  tem um  alto alcance democrático. Todo mundo nele  pode opinar,  mostrar  seus talentos,   suas produções  na ficção, na poesia,  no ensaio etc.,  ou ainda remeter  as pessoas  a outras espaços virtuais:  blogs,  sites,   vídeos etc.   
      O Facebook tem, assim, uma função social   de alta pertinência: agrega  pessoas,   aproxima-as entre si,  é interativo  e uma saudável  maneira  de melhorar  as relações afetivas. Os laços  de amizade. Se for  usado com  moderação, sem    se tornar  um vício e uma dependência, a sua finalidade possui mais  qualidades do que defeitos e é uma  grande ferramenta   no desenvolvimento  da habilidade escrita  do usuário. 
      Em consonância com  esses tempos planetários, eis um assunto  que perpassa   a vida cotidiana do brasileiro às voltas  com tantos escândalos provenientes de ações e comportamentos governamentais   indecorosos, imorais e  aéticos gerados no epicentro dos poderes  executivo, legislativo e até judiciário segundo podemos  confirmar  o fato pelas  críticas acirradas de diferentes  segmentos da população brasileira. É notório  ressaltar que  não podemos  tampouco   desconhecer   estar a nação  um tanto ainda  dividida ideologicamente sem que sinais de um entendimento  comum maior  sejam apontados no horizonte das incertezas  em que todos estamos    mergulhados.
   Por outro lado, não podemos  esconder  uma  constatação:  os opositores  extremados  do PT  não se deixaram  enganar  pelo atual  governo  Temer  em que pese  estar parte considerável da mídia,   escrita televisiva ou digital  anunciando   melhoras  para a economia que, segundo  a equipe do governo e o próprio  presidente da República, está nos trilhos  e em franca  expansão. No entanto,  essa é uma meia verdade porque não é  só a economia    que leva um governo  situação de melhoria.  De nada adiante ter-se um governo  com recurso   se  esse não é logo  canalizado  a reverter  os graves  problemas que  enfrenta em setores  de grande relevância à normalidade  de uma país: a saúde, a educação,  o transporte e, no nosso caso,  a segurança.  Não é apenas  economia supostamente  melhorada   fator determinante  a um governo   de bem-estar social. Vejamos adiante  que fatores são  determinantes  para uma país saudável  e feliz.
     Comecemos pelo próprio  fundamento   da estrutura  política  do Brasil fazendo algumas  indagações nada despiciendas: Como pode um  governo  sustentar-se à custa  de  ações do executivo  que  o desabonem moralmente, como   o escândalo  que ora  está acontecendo no seio  do legislativo  em consonância  com  o executivo? É digno de manter-se um presidente que  compra  partidos, melhor dizendo,  parlamentares,  com  emendas  vultosas,  cargos,  benefícios (o que é, ipso facto,    mais  uma manifestação  da corrupção e, por conseguinte, mais agravante  e perniciosa) a fim de ganhar/mercadejar despudoramente  votos  para  se manter  no  poder a todo o custo, votos que  livrariam  o  chefe  do executivo  das denúncias  de   corrupção  e escambos  de propinas, porquanto a passiva é uma  modalidade  de  propina. É lícito  que um presidente da República  mantenha, na cúpula de seu governo,  pessoas   investigadas  por corrupção?  É legal  que  o detentor do maior cargo da nação   concorde com   propostas  de  mudanças  na Previdência (sobretudo  na questão  do tempo de aposentadoria)  e nas leis trabalhistas  que  resultem  em  perdas de direitos   adquiridos  em longos anos de vigências de leis  de amparo  aos aposentados,  pensionistas e trabalhadores  em geral? É  honroso que um  presidente  faça  vista grossa  permitindo que  leis escravocratas  sejam  aprovadas  e provoquem  retrocessos   abomináveis, com repercussão negativa   em organismos   internacionais,   na área trabalhista,  mudanças estas  que, se aprovadas,   instituiriam no campo  o trabalho-escravo (!) em pleno século  XXI? Infelizmente,  essa escabrosas tentativa   de aprovação   dessa lei, dada a repercussão  negativa que teve, não vingou.
     E mais, tudo isso para  conseguir  votos suficientes    de  parlamentares   ruralistas    para  evitar  a  o afastamento e cassação de um presidente  com  quase nula aprovação  popular? O expediente, a meu ver, de  exonerar, ad hoc,  ministros aliados do governo  com o objetivo único  de aumentar  a lista de votantes  contra a denúncia que pesa sobre o presidente é, no mínimo,   imoral. Tais  atitudes  do governo federal, por si sós,  seriam  suficientes  a fim de que  ele tivesse o mesmo  destino  da Dilma, ainda mais  tendo em conta que  ele foi vice-presidente  dela, esteve com ela em campanha para a presidência,   fazia, portanto,  parte do governo petista e ainda por cima, pertence a um partido que, historicamente, não é flor que  se cheire, sendo, talvez, mais  repudiado do que o   próprio PT.
     O avanço  da economia de um país   só seria   oportuno e bem-vindo se fosse acompanhado  de reais   mudanças de condições  da vida  do povo. Um país rico não significa necessariamente um  país  com  igualdade  e justiça social,  com segurança  e  ausência de corrupção. Tampouco  um país rico significa  ausência de impunidade porque a riqueza  pode ser fruto  da impunidade e só vai servir  a minorias  privilegiadas. Isso pode ser visto  em países como os Estados Unidos,  onde há também  miséria, violência  e outros males sociais.
    A riqueza econômica,  se beneficiar só os milionários, não será  plenamente democrática nem faz um povo feliz.   É preciso que o todo  da estrutura  política   e das instituições  de  um governo, de sua máquina administrativa   sejam  efetivamente   abrangentes  e harmônicas  na distribuição    da riqueza nacional.  Isso não se concretiza  se há pequenos grupos   sociais  que detêm  essa riqueza. A riqueza   que se distribui  a  uma minoria  de milionários é causa também  da indignação,  da  violência e da pobreza.    
     Há um fator determinante  da felicidade de uma nação que é  inarredável   do salto  qualitativo  ao bem-estar  de um país: a educação. Assim se deu com  o Japão e com outros países que  investiram maciçamente  no ensino,  com  professores valorizados, com ensino de alta qualidade,  com  universidades públicas  funcionando  plenamente e com autonomia, com boas  escolas  públicas  do ensino fundamental e  médio. Em todos os níveis de ensino devem elas ser protegidas  pelo  governo  federal, para isso  prestigiando    muito o Ministério da Educação.
    Tais universidades públicas (federais ou estaduais, devem ser transformadas  em centros  de alta  produção do conhecimento  humano e com  elevado padrão  científico-tecnológico.  Ao lado da educação seguem-se   os cuidados   com  a saúde pública, o funcionamento dos hospitais com profissionais com da área médica ou paramédica  igualmente valorizados,  atualizados,  com um  quadro administrativo  competente, valorizado  e vocacionado  para  as suas  diversas   funções, com a segurança pública ( polícia militar, polícia civil, guarda municipal, corpo de bombeiros)  que tenha o respeito  da população e  seja remunerada   à altura das suas relevantes  funções  de proteger  a sociedade e, finalmente,  que  o país seja servido  por  um transporte  de massa eficiente,  atuante,   seguro, confortável  e digno  da aprovação  do cidadão   que dele  necessite  para  locomover-se de casa ao trabalho ou vice-versa. Seriam essas conquistas sociais utópicas? Não.  Tudo isso depende  do nível de  moralidade, competência e   vontade   de um  governante  comprometido  civicamente em servir  seu país  e seu  povo. 
     As múltiplas deficiências do Estado Brasileiro são responsáveis  por todas as nossas mazelas. Se os quadros políticos  não  se derem ao respeito, se não saírem  dessa  desordem   geral em que estão afundados, se não houver  uma mudança radical   em nosso sistema   de eleição   que venha impedir  a continuidade   dos velhos e abomináveis  hábitos  políticos,   do compadrio,   do nepotismo,   do corporativismo   execrável, do número  excessivo  de  parlamentares, da procura  da política  para benefício pessoal ou de grupos,  do  lobbysmo e de outras  podridões  infestando  o nosso sistema  político,  não daremos um  só passo  em direção a uma   nova  política  brasileira  voltada  para a sociedade  e sobretudo para os que mais sofrem com decisões e ações  dos governos, os desassistidos do poder público: pobres, marginalizados,  analfabetos,  aposentados    e pensionistas   que recebem  minguados   vencimentos e passam a velhice   privados  de tudo.

   Se no país há ainda tantos privilegiados  pelo poder público,  há milhões que precisam  de mais justiça, saúde,   hospitais, mais transporte   e – por que não? – melhores proventos  de aposentadoria. Se considerarmos  o  nível  de reda dessa  população  desfavorecida,  não poderemos   afirmar  que  somos uma democracia.  Longe disso.  

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

UMA LIÇÃO DE JOSÉ GUILHERME MERQUIOR



                                                                      Cunha e Silva Filho
 

            Não fui procurar a data do artigo de José Guilherme Merquior (1941-1991). Apenas tenho  dele o recorte e, por descuido,  nem escrevi a data  à margem  do texto. O artigo  é do tempo em que  escreveu para o Globo numa coluna   com título “A vida das ideias,” que muito  traduz  do seu estilo de ensaísta,   historiador e pensador  brasileiro. Dele também li muitos  artigos  publicados no  velho e extinto Jornal do Brasil, Caderno Ideias. Eu costumo  guardar alguns  recortes do que  me chama a atenção, recortes sobretudo de  escritores brasileiros. Muitos   perdi em mudanças ou porque  não tinha espaço onde guardá-los. Eram muitos. Nem mesmo  sei ao certo  quantos ainda tenho. Lembro-me de artigos de Tristão de Athayde (artigos, crítica, teoria literária), Afrânio Coutinho (crítica, teoria literária,  artigos,  ), crônicas de Carlos  Drummond de Andrade (crônicas, poesia) de Otto Lara Resende (crônicas, artigos) e ultimamente de Ferreira  Gullar (crônicas ),.
         Falemos, contudo,  do mencionado  artigo de Merquior  que tem o título  algo simples: “Um pouco de poesia.” O título pouco  sinaliza  para a importância analítica do tema  tratado: a discussão  entre  a poesia  de corte  conteudístico(que ele não negligaenciava) e a das vanguardas. Ora,  a quem lê ensaios do  grande  crítico,  o tom  do texto  carrega certa virulência e mesmo  alguma ironia. Merquior  era provocativo  e polêmico. Podia-se  dar a esse luxo, porquanto lhe sobrava vasta erudição (não obstante ter vivido tão pouco), extrema   capacidade argumentativa, não bastante ser ele um  conhecedor  profundo da literatura  universal além de dominar  toda uma leitura  teórica do seu  tempo   em vários  campos do  conhecimento humano.
          O núcleo  do seu artigo - discussão entre  poesias  pura, hermética, experimental e a poesia de estofo tradicional ou modernista  (cita,  por exemplo, a superioridade de Gonçalves Dias sobre o redescoberto  Sousândrade, a poesia  comunicativa  e “humilde” de Manuel Bandeira)  - é, por si só, fortemente  controverso visto que abre fogo contra  poetas  herméticos estrangeiros   e incensados pela  crítica universitária com a qual sempre, a meu ver,  manteve   certa distância,   posto que tenha  sido  professor na Universidade de Brasília. Lembremos que sua formação literária, filosófica e sociológica  era apenas uma tendência   inescapável de seu  intelecto, tendo em vista que,  por profissão,  fora  diplomata. Mas, nesses campos   do saber,   atuou de forma notável, não só por ter se doutorado em Letras pela Sorbonne, com uma tese sobre Carlos Drummond de Andrade, mas também  realizou  estudosde sociologia  na London School of Economics.
          O debate  por ele  levantado  no artigo  em exame   visa ao seu posicionamento    quanto  à questão   entre,   conforme  ressaltei linhas atrás, a declarada  preferência  de Merquior pelos  poetas nos quais  a poesia  tenha  como  grandeza maior  a sua   forma e não o culto fetichista da mera “técnica,”  da obscuridade,  da falta de clareza  e naturalidade, enfim,   da ausência  do - se assim podemos  simplificar -,  do “assunto.”
         Daí o ataque do autor de  A astúcia da mimese (1972) contra poetas  de renome como  Eliot, Eza Pound, Saint-John Perse, Edgar Allan Poe. Ao último chamou  de medíocre, com o que, porém,  não  concordaria por razões que não cabem  neste  texto discutir. O que a crítica  de Merquior  subentende   é a valorização  que ele dava a poetas  tal foi o caso de René Char ( 1907-1988),  cuja  poesia era,   segundo Merquior,  de “(...) um praticante de extrema concentração do sentido pela fuga sistemática da denotação.”
         A Merquior  agradava poetas da estirpe de Yeats, Kavafis, Valéry, Rilke, Pessoa,  Ana Akhmatova, Lorca, Vallejo, Drummond, Manuel  Bandeira. Para ele, esses poetas  e outros mais  souberam   renovar a  poesia, “ (...) dar  voz ao homem contemporâneo sem fazer do poema, a pretexto de  radicalização  da linguagem, um flácido fluxo de expressões desconexas” que fazem o regalo  do que chamou de  “pedantocracia, ”   uma clara referência aos exegetas  da literatura   encastelados  nas universidades.
        A crítica de Merquior, a se deduzir de um simples artigo  de jornal,   define, em linhas gerais,  o que para ele seria  o  poeta  de todos os tempos, o poeta  contemporâneo, cuja  elaboração  estética  para ser  original,  profunda e  comunicativa se assentaria  na valorização  do poema no qual se fizessem  presentes  alguns traços   que pude pinçar  no desenvolvimento de seu   arguto artigo:  acessibilidade  da mensagem  poética,  naturalidade, humildade,   renovação da linguagem  sem perder  as raízes  do que se poderia  denominar ”nossos clássicos”  do século XX por ele mencionados no parágrafo anteior, qualidade  estética da forma, do uso da sintaxe, “memória social,” capacidade   que  um  poema tenha  para se tornar “memorizável,”  traço ponderável   extraído de um conceito  de poesia  do poeta Eugênio Montale assim  comentado pelo  ensaísta: (...) a poesia obcecada pela técnica  reflete  um problema mais geral. Como  a música sem melodia, e a pintura sem figuras, a linguagem sem sintaxe do poema seria  um ‘grosseira  materialização do ato criador’ levando a uma perda do memorizável."
        A   questão do memorizável Merquior  já a ela se reportou  ao  estudar a poesia  do piauiense Da Costa e Silva (1885-1950). No ano comemorativo do centenário de nascimento  desse   poeta,  o diplomata e  crítico, na conferência “Indicações para o estudo de Da Costa e Silva,” [1]  pronunciada na  Academia Piauiense de Letras, em  1984, em Teresina, Piauí,   já  assinalava   a força lírica que o poeta de Sangue (1908) tinha  para compor  alguns poemas  que  caíram  na boca do povo, tais  são exemplos,  os sonetos “Saudade,” “Amarante,”  “Moenda” entre outros. Ora,  esta peculiaridade, não se evidenciava apenas no poeta  Da Costa e Silva, mas em outros  poetas  brasileiros ( Olavo Bilac, Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos, por exemplo)   tradicionais.  
       Segundo o crítico,  Da Costa e Silva, tanto quanto outros  poetas brasileiros, além da dimensão  aristocrática de uma  poesia refinada, revelavam  uma outra face  de seu estro muito ligada   a um aspecto de oralidade   comunicativa   que fazia com que alguns poemas  se tornassem  lembrados e  declamados  por gente culta  ou   mesmo  comum, porém   sensíveis  às formas  poéticas mais diretas, i.e.,  poemas assim    ganhavam  popularidade, eram  memorizadas.        
     Para o crítico,   essa questão  de oralidade  na composição  de poemas  seria propriamente  matéria de pesquisa  “de história literária  ou de história da cultura.” Esse  fenômeno   de gosto  popular pela poesia, a meu ver,   teria   relação com  um contexto  histórico-cultural, segundo  foi perspicazmente  observado por ele.
       O que posso  aduzir  dessa questão, de resto,  bem  curiosa  nos estudos de poesia, é o fato de que dificilmente hoje em dia teríamos   esse encantamento  de cunho popular  para  que apreciadores de poesia, a partir do surgimento das vanguardas europeias, cheguem   àquela fruição de poesia memorizada. Posto que   movimentos  poéticos tradicionais, lato sensu, como  Romantismo,  Parnasianismo,  Simbolismo  cultivassem  o verso   mais comunicativo (Romantismo)  ou mais   sofisticado   na linguagem (Parnasianismo, parte do  Modernismo e Neoparnasianismo, geração de 45),  é evidente que  os poemas  de estofo conservador tiveram  público  mais ampliado  porque  o conceito ou ideia geral,  até um certo ponto ingênuos,   de poesia no espírito   das massas mudou, ou melhor, perdeu aquela antiga aura   de poesia   entendida  como sinônimo de  poema inspirado, de  sentimento,  de emoção,  de musicalidade.
        Ora,   a hipersofisticação    advinda de todos  os  movimentos  da poesia moderna afastou  a poesia   de uma acessibilidade que  poderia ainda se encontrar mesmo  na tradição  literária no cânone poético. Alguém  escolarizado,   ou mesmo  o leitor  familiarizado com  a poesia  contemporânea  e com as vanguardas  predecessoras  podem até  se  deleitar com   a leitura de  bons ou grandes  poetas   de hoje tanto brasileiros quanto   estrangeiros. Todavia,  aquele antigo gosto  pela declamação ou memorização de poemas   se perdeu. Se a poesia  e a  alta literatura foram  por muito tempo  algo apenas  destinado  ao elitismo  cultural,  a iniciados, com   a contemporaneidade ainda se tornou  bem mais acentuado esse círculo  de receptores.
       Não se pense que  o  pensamento  de Merquior  possa ser interpretado  como  um conservador  nos domínios  da literatura e particularmente da poesia. Longe  disso. O grande  crítico não se enganava  tão facilmente,   e, em  assuntos  de poesia,   o que apenas   sustentava  era que o  poema  não se confundisse  com   um produto   meramente   tecnicista,  “amorfo,” sem o influxo  da vida,  sem  a capacidade de  comunicar e emocionar,   algo  que enlaçasse  o humanismo à forma, entendida como   portadora de um tema, um assunto, uma sintaxe, uma expressividade  estilística e um domínio   completo  da arte  poética das origens aos nossos dias, ou, conforme ele,   arrematou  o  artigo: (...) um canal de humanismo na atribulada consciência da modernidade.”  
            





[1]Ver  MERQUIOR, José Guilherme. “Indicações para um  estudo da obra de Da Costa e Silva. Revista Presença,  Secretaria de  Cultura, Desportos e Turismo Piauí. Ano VI, Nº 13, Teresina, PI.. [1984]. P. 40-41. Ver  também essa conferência  em SILVA, DA Costa e. Poesias completas. 4 ed.  Nova edição rev., ampl. e anotada por Alberto da Costa e Silva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000, p.37-45. Ver ainda meu ensaio Da Costa e Silva: uma leitura da saudade. Teresina: Academia Piauiense de Letras/Universidade Federal do Piauí, 1966, 108 p. Nesse ensaio, no capítulo introdutório, seção 1,3,  analiso a citada conferência-estudo de José Guilherme  Merquior,  ressaltando    a  questão levantada por Merquior  da popularidade de alguns  poemas  do autor  de Sangue entrevista na poesia   de Da Costa e Silva, p. 31-33.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

DIA DAS CRIANÇAS




                                                                       Cunha e Silva Filho


         Por mais que desejemos passar um feriado santo, o dia da Padroeira do Brasil, festejado no mesmo   dia  dedicado às crianças – 12 de  outubro -, com menos notícias  escabrosas  de toda sorte tão comuns no país atualmente,  nas duas  comemorações tão queridas no seio da sociedade brasileira, fica  difícil imaginar  que  uma tragédia a mais apavorasse todos nós na mesma data em que  pedíamos  as bênçãos ou  pagávamos promessa  por alguma  cura  ou  um desejo  contemplado  pela milagrosa  Nossa Senhora de Aparecida. Não bastasse a tragédia  da creche em Minas Gerais, ontem mesmo,  repito,  tivemos a notícia  veiculada pela  televisão das duas menininhas, de cinco anos, que apareceram mortas  num  porta-malas de um carro abandonado num bairro de São Paulo.
        As crianças já se encontravam  em estado de   decomposição. Ali se encontravam  por cerca de vinte dias. O que afirmar diante de mais  outra tragédia de serezinhos inocentes que mal  entendem  por que  algum monstro em forma de gente  ou mesmo mais de um   monstro, as sacrificou  de maneira tão  covarde? Até que ponto  estar  chegando a maldade  no mundo  contemporâneo  que trucida  inocentes? Não há revolta e indignação  que corresponda a uma  atrocidade desta magnitude. 
     O Estado brasileiro  precisa de repensar  o nível  assombroso   de selvageria que está ceifando as vidas   de nossos compatriotas: crianças,  jovens,  adultos e idosos Não cabem mais protelações  de medidas  drásticas  e de mudanças de nossas  leis a fim de  frear  novos  crimes, novos  assassínios,   novas vítimas fatais.  Há tempos  a sociedade está exigindo  mudanças  nas leis penais,  no Código Penal e em todas as instâncias   criminais  que são responsáveis   pela segurança  do  cidadão brasileiro. Os  clamores da sociedade civil parecem  que não estão  sendo  ouvidos  por nossos governantes, ou  seja,   nos municípios,  nos estados  e no  governo  federal. Acorda, Presidente Temer⁢
      Enquanto  degenerados,   assassinos,  de pais,  de filhos, de parentes  ganham da própria Justiça   liberdade  para  passarem  feriados com quem quer que seja, enquanto  as sentenças não forem  cumpridas  integralmente  por celerados  que cometeram  crimes  hediondos, enquanto  houver  possibilidades  de  recursos  legais  em favor  de  bandidos, enquanto não houver  prisão perpétua  para a  alta criminalidade   de   todos os tipos,  os brasileiros   serão  assaltados e mortos  por balas  da marginalidade.
     A omissão do governo federal é flagrante  em muitos  aspectos no que tange  à questão   da violência no país inteiro, nas cidades e nos campos. Os bandoleiros  tomam conta  das cidades e dos campos ,  usam  armas  pesadas, mais poderosas do que as da polícia militar  e civil.  Bancos são assaltados, carros-fortes idem, enfim, s assaltos pipocam indiscriminadamente.
     Cabe mais outra  pergunta:  o que o governo federal   anda fazendo  que,  diante de notícias recorrentes sobre alta criminalidade, nada de profundo    efetivou   quanto  aos mais    prementes   desafios    da marginalidade brasileira?  O que tem feito  o governo federal com cidades  dividias entre  inocentes  e traficantes? O que  tem feito  ele  para  minimizar  as guerras  entre facções  nos morros  do Rio de Janeiro e  em  outros   estados da Federação? Nem  as Forças Armadas (a exemplo do que ocorreu  há pouco na a favela da Rocinha)   têm  conseguido   atenuar  os  gravíssimos   problemas   do tráficos de drogas,  da entrada de armas  pesadas   e munições em  território nacional. Estamos  perdendo feio  na luta  contra  o banditismo  instalado  nas favelas  e nas comunidades  pobres  desse país  de dimensão continental.
     Existe uma expressão que, em  linguística,  denomina-se “sintagma” definida  pelo  grande linguista  Mattoso Câmara Jr.(1904-197), com fundamento   no termo “sintagma” usado pelo linguista suíço Ferdinand de Saussure (1857-1913), como [...um conjunto binário (duas formas combinadas) em que um elemento determinante cria um elo de subordinação com outro elemento, que é determinado.( Cf. CAMARA  JR., MATTOSO. Dicionário de filologia e grmática.3 ed. revista e aumentada. (Rio de Janeiro: OZON+EDITOR,332-333, 1968).  Para o sentido geral  que  imprimo a este artigo, serve de exemplo a conhecida expressão   “vontade  política.”  Em outras palavras, vontade (determinado) + política (determinante). Envolvem, respectivamente,  os dois termos   o  “desejo” com a "ação". Sem esta última,  a vontade  se elide e, por conseguinte,  nada se  materializa na administração   de um  presidente.
   Gostaria de saber  o que está embutido nessa expressão  tão ao gosto de jornaistas e de outras  categorias profssionais e   de estudiosos  das questões sociais.  Para mim, ela não passa de mais uma  expressão já surrada  e vazia   de sentido, além  de se tornar  não mais do que um efeito para  não ir direto  nas discussões   sérias   dos graves  problemas  vividos  pela população  brasileira.
      Essa expressão eufêmica   mais   traduz  um sentido    “politicamente  correto”,  de  empurrar com a barriga  e de, mais uma vez,    suavizar ou modelizar   o que deve ser  claramente    afirmado  e como todas as cartas na mesa. Não passa a expressão   de um penduricalho   inócuo  para não   criticar  duramente  os  erros e os desmandos  dos governos. Ora,  neste sentido,  ela equivaleria, ao contrário, a uma    deliberada ausência   por parte  da autoridade  de não desejar  solucionar  problema algum, notadamente    do tipo que não interessa  aos governos nunca   resolver, cujo destino seriam   postergados para as calendas  gregas... 
    Um exemplo dessa  ausência  ou omissão  do governante  estaria   correlacionado com a esfera  da Justiça,   do Código   Penal.  O que  vejo como pressuposto seria  não mexer com o  que já está exarado  na legislação  penal. Isso que demandaria  novas leis   aprovadas  pelo  Congresso  brasileiro, as quais poderiam atingir  os próprios   deputados, senadores, seus  amigos e familiares.  Inclusive há implicações de ordem  religiosa  ainda que seja laico o Estado Brasileiro.

     Por outro lado,   essa omissão   governamental terá  um preço alto,  quer dizer,   se não houver  uma  mudança  nas penas dadas  a criminosos,  se não a endurecermos  as leis contra  atos delituosos,  haverá um  ponto em que  o caos  poderá   se implantar  nas cidades brasileiras, e de forma incontrolável. Indícios desse estado  de  desordem  social  já se faz evidente,  por exemplo, no Rio de Janeiro – cidade, segundo  já disse alguém,   partida   entre o asfalto e o morro. Isto é, na cidade  do Rio de Janeiro, há governos paralelos: o oficial e  o do crime organizado. Um país que  perde de vista  essa perspectiva   sombria e aterradora  não pode  crescer,  desenvolver-se e ter o respeito da sociedade e do mundo   civilizado.