domingo, 12 de agosto de 2018

PASSANDO PELO CENTRO DO RIO



                                                                        CUNHA E SILVA FILHO




       Não  foi  hoje nem ontem, nem anteontem. Foi numa das vezes nos últimos dias que dei um pulo pelo Centro do Rio. Tenho-o evitado por uma razão mais forte: um pouco de medo da violência. Contudo, não é esse o motivo pelo qual tenho deixado de ir sempre a essa parte  da Cidade Maravilhosa que me é tão cara por tantas razões que daria uma outra crônica. Considero-me um bom ou mesmo  ótimo amigo dessa cidade  que escolhi pra viver. Nela resido há meio século e quebrados. Dizem que quem ama não encontra defeitos na pessoa amada e o Rio é mais do que uma cidade. É uma pessoa amada.  Com o  longo tempo de convívio com ela sei quais são os seus  defeitos e as suas qualidades, estas bem maiores de que aqueles. É por amar o Rio e querer-lhe bem que me ponho com um pé atrás e por isso  faço questão de apontar-lhe os defeitos que ora pude constatar na mencionada vez  que andei pelo Centro
             É óbvio, leitor, que tenho direito de mostrar onde  o Centro está ruim, péssimo mesmo. Não por culpa da cidade em si, i.e., da alma dessa metrópole, alma essa   que estão querendo  matar por absoluta  falta de amor à cidade, que não merece tal descarte da autoridade municipal, do alcaide de plantão, de alguém que não sei por cargas dágua virou prefeito do Rio           Chegando ao Centro, me deparo com um lugar feio, apinh de camelôs surgidos alarmantemente país com a situação deplorável da crise  de recessão  e desemprego que se abateu pelo país.
             Andando  pelas ruas principais do Centro, ruas que aprendi a amar -  vejo um ar de pobreza, de decadência, de falta de energia, de vitalidade,  tão diferente daquela vez em tempo longínquo  quando um jovem de dezoito anos  andava pelas  linda Avenida Rio Branco, movimentada, feérica, cheia de pessoas bonitas, bem vestidas  animadas, cuidando  de suas vidas  e problemas. No Centro havia muitas lojas abertas, funcionando plenamente, a todo vapor.  Havia muitas livrarias e muitos bons sebos espalhados por todo o entorno. Na Rua da Carioca,  era grande o número de lojas com diferentes tipos de comércio bem movimentado, com muita clientela. Hoje, o que encontrei: a Rua da Carioca  feito um fantasma perdido nos braços da decadência, com portas fechadas, rua  morta diante dos meus olhos divididos entre o passado alegre e ruidoso  e o presente entristecido e silencioso.Não é possível tanta quebradeira.
            Diante de mim, o presente são ruínas de um antigo Centro sucateado pelos maus tratos que um governador vilão dispensou velhacamente ao Rio de Janeiro e por um governo municipal e outro federal  que  teimam em tornar mais  moribundo  uma cidade e um Centro que eram o orgulho dos cariocas, dos brasileiros e estrangeiros que por aqui nos vêm ainda visitar.
          É evidente também que o Centro dispõe de algumas  reservas de beleza a oferecer ao ilustre visitante. Se a Praça Tiradentes  está desmilinguida,  sem graça, nem beleza é ainda possível estender a vista para a belíssima Praça Paris, em frente da qual existe  um lugar ainda   aprazível ao olhar, que é o Parque do Flamengo, a Baía da Gunabara. As marinas e, ao longe, o belo bairro da Urca, já à altura de Botafogo, além do majestoso Pão de Açúcar. Entre o cenário grotesco da decadência do Centro e  e a paradisíaca  paisagem  natural  carioca bem se poderia bem  afirmar que o   Rio é uma recanto barroco no bom sentido desse estilo natural-artificial.
         Retorno às considerações sobre o estado de penúria e de fealdade que está  pedindo socorro: a Praça Tiradentes, o número altíssimo  de camelôs desordenadamente distribuído por todo  o Centro, a Rua da Carioca que clama para voltar ao seu  estado anterior  com comércio vivo e pulsante, o Largo da Carioca (antigo Tabuleiro da Baiana)  também infestado  por   camelôs, malandros,  batedores de carteiras, mendigos, desocupados, as ruas  antigas mais distantes que  não são nunca  reformadas  nas suas fachadas, como ocorre em cidades europeias e em outros países do mundo que preservam  o legado da arquiteturas de seus prédios   e casas
         Espero que os próximos  prefeitos do Rio de Janeiro  não só cuidem do que ainda  presta no Centro da cidade mas também  priorizem um plano de governo que faça  do Centro do  Rio um cartão de visitas  recuperando o antigo encanto  e a alma dessa cidade que não pode ser vítima da incompetência a um só tempo de péssimos governantes como o atual prefeito, um governador venal já preso e um atual governador  incompetente e omisso.
       Não resta dúvida de que o ex-prefeito Eduardo Paiva, com todos os muitos  defeitos  que nele podemos apontar, em muitos aspectos,  soube conduzir a sua gestão  com resultados relativamente  positivos, como a revitalização  da área do Porto do Rio de Janeiro,  da Praça Mauá, os bondes elétricos que cortam o Centro, os ônibus das linhas do BRT, o pagamento dos funcionalismo em dia, alguns  pequenos reajustes nos vencimentos,  bônus de Natal, presença da Guarda Municipal  nos bairros, melhor ordenamento  dos camelôs pela cidade, entre outras obras.
      Espero ainda ver  o meu Centro da cidade revigorado, um lugar em que se possa  andar sem medo  de  ser assaltado, com uma vida comercial dinâmica, com belas  livrarias,  teatros em funcionamento, vida noturna, uma Lapa segura e com interna vida noturna, sem cracudos nem bandidagem, com bons cinemas,  casas de shows,  feiras de  livros  como antigamente e outras atrações  de diversões  diurnas  e  noturnas.          
     Enfim,  um Centro festeiro brincalhão,  bem policiado, cheio do bom humor carioca, um Rio moderno sem perder os velhos traços de uma cidade com alma e coração aberto e sincero, um Centro de uma cidade que nasceu para  ser bela e hospitaleira,  amante do samba de raça, do sotaque chiante, das  lindas mulatas, das mulheres de  curvas perfeitas, do invejável carnaval carioca e dos refúgios de um boteco requintado e  pujante de vida. Rio quarenta graus,  Rio brasileiro. Por um Centro de   nossos sonhos  irradiando belezas e contentamento aos  bairros  tanto os mais humildes quanto os mais  refinados.  Um Rio de todos os brasileiros e de todos que o venham visitar. O Centro da cidade é o  ponto de partida e de retorno do que queremos   para ele, por ele e com ele. Viva o Centro! Um    abraço  carinhoso deste “carioca”por opção e antiguidade.

domingo, 5 de agosto de 2018

HOW GOES THE ENEMY?




                                                                          

                                                            Cunha e Silva Filho





Dois momentos,  um epifânico, o outro anti.



O EPIFÂNICO. Ano de  2018. Caminhada  no Maracanã. Manhã de domingo,  com sol  esmaecido. Muita gente. Cooper, ciclismo  e turismo. De repente,  numa  bicicleta,um, moço risonho se aproxima de mim e diz: Oi, professor, como está? Parei a minha caminhada por alguns  segundos e lhe respondi: tudo bem. E  você?!Muito bem, mestre.  Ainda está  na Aeronáutica?, lhe perguntei. Não,  deixei. Hoje, estou no Corpo de Bombeiros. Não lhe perguntei pela patente. Mas,  sei que é oficial superior. Foi aluno meu de língua inglesa numa instituição militar federal.  Menino bom.Nos despedimos   desejando mutuamente  sucessos e saúde. Era um aluno que me respeitava e estimava  as minhas aulas. Momento  revelador o nosso encontro.

O ANTI.  Anos 1970. Na sala de aula de um curso   de preparação ao Artigo 99 e a exames vestibulares. O jovem professor de inglês e português  de vinte e poucos anos dá uma aula de inglês. A turma  é enorme. Um pouco de barulho. De repente, um aluno com cara de oriental me pergunta:  O senhor é professor de inglês? Sim. Por quê?  Não me respondeu. Momento  disfórico. Sem elogios e nem despedidas.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

OS MALES DO CRIVELLA: UM PREFEITO QUE NÃO DEU CERTO


CUNHA E SILVA FILHO

         Eis um prefeito que tomou posse para realizar mudanças. Só que foram mudanças para o pior em todos os sentidos. A começar do que fez com o calendário de pagamento dos funcionários municipais, os quais já tinham um calendário anual bem organizado na gestão do Eduardo Paiva, inclusive para as parcelas do décimo terceiro com data determinada previamente.
       Ora, tudo o que era bom na administração anterior, conquanto tivesse alguns defeitos, foi sumariamente modificado pelo atual prefeito, o Sr. Crivella, que está se revelando um dos piores alcaides da história do Rio de Janeiro – cidade que não merecia esse tipo de administrador que já está aumentado dia a dia o seu legado de má e incompetente administração e, o que é pior, de omissão diante dos graves problemas da Prefeitura.
      Uma das últimas maldades do Sr. Crivella foi aprovar um desconto na folha de pagamento do funcionalismo aposentado imitando, assim, o que o governo do Lula, na esfera federal, havia feito contra o funcionalismo aposentando, que continua sendo descontado no seu contracheque mesmo havendo descontado durante todo o tempo quando na atividade da função pública.
Isso constitui exemplo flagrante de confisco salarial e, o que é ainda mais grave, o prefeito Crivella, em vez de conceder um aumento salarial municipal, o que fez foi castigar ainda mais os baixos salários do funcionalismo com esse desconto, esmagando mais o bolso do aposentado.
     Mais sério ainda, foi esse mesmo prefeito que há poucos dias foi quase impedido, diante de atitudes incompatíveis com o seu cargo, pela Câmara Municipal de continuar exercendo o seu mandato. Um número superior de vereadores a ele ligados votou a favor de sua permanência no cargo. Sabe esse alcaide-menor que o Estado Brasileiro é leigo e que religião não pode interferir na condução da res publica. No entanto, o que tem pautado o seu mandato até agora são favorecimentos a gente de sua religião, o que, no mínimo, é imoral.
    Mais sério ainda, foi esse mesmo prefeito que há poucos dias foi quase impedido, diante de atitudes incompatíveis com o seu cargo, pela Câmara Municipal de continuar exercendo o seu mandato. Um número superior de vereadores a ele ligados votou a favor de sua permanência no cargo. Sabe esse alcaide-menor que o Estado Brasileiro é leigo e que religião não pode interferir na condução da res publica. No entanto, o que tem pautado o seu mandato até agora são favorecimentos a gente de sua religião, oque, no mínimo, é imoral.
    Vejamos, por outro ângulo, o que tem sido a administração desse alcaide dito homem religioso e de bons princípios. Vejam como está a Cidade do Rio de Janeiro: abandonada, apinhada, sobretudo, no Centro da cidade, de camelôs e desocupados. Cidade suja, fedorenta, lembrando os velhuscos tempos do Vice-Reinado, aqui aportado e sujando a cidade de dejetos atirados das carruagens reinóis indiferentes, assim, aos mais comezinhos modos civilizados de tratar uma cidade.
     Olhando para um bairro, digamos, a Tijuca, com um alcance semântico de uma metonímia do país - vemos o mesmo estado de abandono, a falta absoluta de guardas municipais, de policiamento com seus moradores e visitantes transitando por um mundaréu de camelôs – fruto da falta de emprego, recessão e desmantelamento financeiro de uma Nação amorfa, maltratada por um Presidente-tampão e completamente desacreditado pela sociedade consciente de seus direitos de cidadania surrupiados em muitos sentidos.
     Um Rio decadente, esquecido pelas autoridades municipais e estaduais, um Rio triste e grotesco, sujo e ultrajado por um prefeito sem garra, sem amor à cidade, sem nenhum talento administrativo. Um simples graduado em engenharia não é suficiente para ser um grande prefeito à altura das tradições gloriosas da Cidade Maravilhosa. Ontem, no Centro da cidade, pude confirmar, a céu e sol abertos, todo esse sentimento meu de lamentação, de indignação, dessa minha rebeldia com causa diante de tantas maus tratos e vilipêndios feitos contra a cidade dos meus sonhos, da minha opção, a cidade que escolhi para viver e nela morrer.
      Não entendo por que tantas pessoas conscientes dessa realidade vivida atualmente pelos cariocas nada fazem para reivindicar seus direitos,  sua insatisfação e repúdio diante desse alcaide sem brilho, sem carisma, sem alma, sem nada. Um simples aventureiro que, se aproveitando de um povo indiferente e desunido além de, em parte ignorante e religiosamente fanático, presa fácil dos espertalhões falsamente religiosos, se elege e se transforma nesse alcaide de fancaria, caricato e impiedoso. A Cidade Maravilhosa não merece todos esses infortúnios, tanto quanto o funcionalismo municipal. Acorda, gente!




quarta-feira, 25 de julho de 2018

MENSAGEM/MESSAGE/MENSAJE

Meus parabéns a todo os escritores do Brasil e do mundo. Que a principal missão de cada um de nós seja a de tornar o planeta Terra um lugar de justiça, paz e beleza que e só a Arte pode trazer em suas diversas manifestações. Um Feliz Dia do Escritor !
[My congrats to all the writers in Brazil and abroad. May the main goal of each of us be that of turning planet Earth into a place of justice, peace and beauty that only Art in its manyfold forms can bring us.A Happy Writer's Day!]
[Mes compliments à tous les écrivains du Brésil et à l' étranger. Que le principal but de chaqu' un de nous soit celui de tourner le planète Terre un endroit de justice, paix et beauté que seulement l'Art à ses plusieurs manifestations puisse nous donner! Un Hereux Jour de l'Écrivain!
[Mis saludos a todos los escritores del Brasil y del mundo. Que el principal objetivo de cada uno de nosotros sea la de hacer que este planetaTierra sea un lugar de justicia, paz y belleza que solamente l' Arte pueda traer en sus variadas manifestaciones.Un Feliz Día del Escritor!]

segunda-feira, 23 de julho de 2018

À GUISA DE UMA BREVE ANÁLISE DO POEMA "DESTINO?" DE MADALENA FERRANTE PIZZATTO






                                                                        

                                                                 Cunha  e Silva Filho





DESTINO ?



Um ramo primaveril,
pleno de muitas flores
enche com perfume o ar.



Aí, um vento invernal
despe o florido ramo.
Reveste o chão de cores,
num tapete matizado.



Sem nenhuma piedade,
este perverso vento,
muda o destino do ramo.

( de Madalena Ferrante Pizzatto )





         O que logo me chama a atenção no poema “Destino?” é o seu título em forma de interrogação. Assim,  ele   próprio me dá alguma pista  em direção a uma    das possíveis leituras da composição. Sabe-se que uma interrogação pode tanto ser uma forma   retórica lançada ao receptor tanto quanto  uma dúvida mesmo  sobre o destino  do ser humano.      

         Trata-se de uma dúvida    sobre   algo que todos nós podemos compreender  como naturais  acontecimentos na vida do ser humano contra os quais nada podemos fazer  por estar  relacionada a acidentes ou condições  determinadas  da existência natural  ou  transcendente que s escapam  do nosso controle e da nossa vontade. Como exemplos mais relevantes  podiam-se citar  o nascimento  e a morte.

         No   poema, a metáforas  do “ramo  e do” vento,  da quais a do vento instaura  um sentido antitético  e, portanto, desumanizado,  são os dois elementos que sustentam semanticamente   o arcabouço do poema.   Daí   o sujeito lírico   falar de “perverso vento,” reforçado negativamente  por outro sintagma   nominal – “vento invernal” e  por todo um verso da terceira estrofe  “Sem nenhuma piedade.” Ora, o surgimento imprevisível  do vento desfavorável  pode  interromper, a qualquer momento da vida  de cada um de nós,  a possibilidade da felicidade plena. Por outro lado, observe-se que, numa primeira camada  significativa    do poema,   tem-se   como referência  básica  no conjunto   da mensagem   do poema  a referência literal entre  as duas estações  sucessivas e opostas  nos seus traços  de mudanças  da Natureza  da  paisagem   do ano: a primavera e o inverno.

      Não devemos  descurar  uma observação dos dois últimos  versos  do terceto (Reveste o chão de cores/  num tapete matizado)  da segunda estrofe que destoam   no que tange  ao sentido disfórico  e antitético  do todo dessa estrofe e sinalizam um estado de neutralidade entre o significado de oposição equilíbrio versus desequilíbrio. Poder-se-ia   aventar aqui  uma terceira via  de entendimento   do tema  pendular    felicidade versus infelicidade, ou seja, vale repetir,  equilíbrio versus desequilíbrio; Mesmo se  levando  em conta  a negatividade das  segunda e terceira  estrofes,  nesse dois versos   se abre um luz  que talvez corresponda a um estado  de aceitação  dolorida embora,  da ausência  plena  da  felicidade.     

     Ou seja, a metáfora do “vento” corresponderia, mutatis mutandis,  àquela “pedra  no meio do caminho” drumommondiana.  Representa  o acidente ou os acidentes do percurso, da travessia  existencial,   de cada indivíduo na Terra, dos quais nenhum  indivíduo  escapa    enquanto vivente. As fases   da vida, infância,  adolescência,  mocidade, maturidade e  velhice  são sucessivas a menos que um “vento perverso” venha mudar  esse percurso. A segunda estrofe semanticamente   se opõe à primeira.

    A primeira estrofe  figura,   pois,  o presente  em estado de tranquilidade,    quer dizer,  a  situação  de equilíbrio vivencial, enquanto a segunda estrofe   rompe com essa estado  de positividade. Convém observar que  o percurso  em geral do ser humano  transcorre entre   o equilíbrio e o desequilíbrio, i.e., não existe felicidade  completa, mas instantes  ou períodos de bem-aventurança, assim como pode haver  ainda  períodos longos  e inaceitáveis de  anormalidade, por exemplo,  nas situações  de catástrofes naturais ou  guerras  entre nações. O que significa que não  há a possibilidade  de  a existência  ser   vivida como um  mar de  rosas, sendo, por conseguinte,  a condição  humana  precária, imprevisível e finita.

    Por fim, há que considerar-se o artesanato   da construção do poema  estilisticamente  falando. Gostaria apenas de mencionar um  recurso de estilística fônica (aliteração) que  podemos depreender na leitura  da linguagem  em si  dessa composição poética:  a) Na primeira estrofe, a incidência do fonema / p/, remetendo à primaveril/pleno/perfume ; b)Na     segunda e terceira estrofes, a incidência do fonema  /v/, remetendo a vento/ invernal/reveste, um oclusivo  surdo e um fricativo sonoro. Desse modo, se constata que  a camada fônica dos versos  acompanha  o traço  de oposição semântica  do poema   em exame. 

NOTA DO COLUNISTA : MADALENA FERRANTE PIZZATTO é goiana. Economista e poeta. Pertence à Academia de Poesia do Paraná, Cadeira 33, à União Brasileira de Trovadores - Curitiba - Pr., e ao Centro de Letras do Paraná. Atua também na Oficina Permanente de Poesia, em Curitiba. Tem participado de várias antologias. Obra publicada: Entre sonhos e poesias. Algumas de suas trovas e poemas foram premiados em concursos.



sexta-feira, 6 de julho de 2018

AVISO AOS LEITORES/ NOTE  TO THE READERS/AVIS AUX LECTEURS/ AVISO A LOS LECTORES

INFORMO-LHE QUE ESTAREI AUSENTE DESTA BLOG POR ALGUM TEMPO. ENTRETANTO, LHES ASSEGURO QUE NÃO DEMORAREI A VOLTAR. DE CORAÇÃO LHES AGRADEÇO PELA ATENÇÃO A MIM DISPENSADA.
NO MEU RETORNO ESPERO CONTAR COM VOCÊS. MUITO LHES SOU GRATO.

[DEAR READERS, PLEASE BE INFORMED THAT I'LL BE AWAY FROM THIS BLOG FOR SOME TIME NOW. HOWEVER, I ASSURE YOU IT WON'T BE FOR LONG. I HEARTILY THANK YOU FOR YOUR USUAL ATTENTION TO ME. I HOPE TO COUNT ON YOU ON MY RETURN. THANKS KINDLY, 

[ MES ESTIMÉS LECTEURS, JE SERAI ELOIGNÉ DE VOUS POUR QUELQUE TEMPS, CEPENDENT, JE VOUS ASSURE QUE JE  NE RESTERAI PAS AINSI POUR BEAUCOUP DE TEMPS. DE TOUT MON COEUR JE VOUS REMERCIE POUR VOTRE ATTENTION. J'ESPÈRE MÉRITIER VOTRE HABITUEL ENTRETIEN À MON RETOUR. JUSQU' À MON RETOUR, DONC MERCI BEAUCOUP.

ESTIMADOS LECTORES, ESTARÉ AUSENTE DE ESTE BLOG  POR ALGUNO TIEMPO.TODAVÍA, YO LES ASEGURO QUE NO SERÁ POR MUCHO TIEMPO, DE TODO MI CORAZÓN YO LES AGRADEZCO POR VUESTRA ATENCIÓN. YO ESPERO TENER SU HABITUAL INTERÉS EN MI VUELTA. HASTA MI VUELTA. MUCHAS GRACIAS.

CUNHA E SILVA FILHO

quarta-feira, 27 de junho de 2018

PREFÁCIO AO LIVRO DE POESIAS RESSACAS, DE CARLOS ALBERTO GRAMOZA VILARINHO


          

       Um Prefácio não pode ser apenas elogios a um autor, mas  adiantar algumas observações  de natureza crítica que a  obra lida possa suscitar numa primeira leitura,  quer dizer,  trazer à baila aquilo que  o livro   lançado  possa oferecer de novo no tocante a livros anteriores  do autor. Só os livros de estreia  podem ser lidos  com  uma  boa dose de indulgência a fim de que o julgamento  não seja apenas   negativo, pois  quem prefacia,   antes de tudo,   merece  tratar um autor novo  com alguma boa vontade, mesmo  porque o autor, ao escolher alguém que lhe faça  um prefácio,  já por si só espera   uma boa acolhida à obra.  De qualquer   forma, o gesto de entregar  a  uma pessoa a incumbência de um prefácio é um maneira de  reconhecer o valor  de quem vai escrevê-lo. Seria uma espécie de homenagem  ao autor do prefácio.
        Sendo assim,  cumpre a quem escreve  esse tipo de paratexto  salientar  o que esteticamente  seja válido  na obra e o que  poderia ser sugerido ao autor  a fim de que ele venha a  melhorar no gênero ou gêneros em  que exerça a atividade criadora.   No caso em exame, um livro de poesia.
      Carlos Gramoza está distante de sua estreia no domínio poético há  três décadas.  Seu livro de estreia, Tempos perplexos, é de 1983, com  Prefácio de José Virgílio Madeira Martins Queiroz. Esse  longo período de vida não foi, no entanto, acompanhado de uma boa quantidade de obras escritas. Ao contrário, a obra ora lançada, Ressacas, vem a ser a terceira em sua trajetória de  poeta.
      Circunstâncias várias são, por vezes, impeditivas  a que  um autor  produza  mais. Não vem  ao caso discutir as razões dessa questão que mais está   associada à vida do autor e à vida literária. Não importa. O que permanece na história literária é uma obra editada, não a obra completa, uma vez que o conceito de obra completa é  por demais vago e fugidio. Quero significar  que o mínimo pode equivaler ao máximo e, em se tratando de valorização   estética, número de livros nada tem a ver  com  bom ou ótimo nível literário.
     O fato é que devo assinalar  um ponto pacífico  na  questão axiológica de um poeta como o Gramoza, ou seja,  não há dúvida  quanto  ao reconhecimento de  seu  talento poético,    posto que  identifique na leitura de  seu segundo livro, Passos oblíquos (1994),  bem como no terceiro, Ressacas, já mencionado, objeto deste Prefácio, algumas deficiências de ordem gramatical e bem assim  de erros de grafias não bem revisados  pelo editor. Isso não é bom  para uma obra nem para o autor. A habilidade  criativa  de Gramoza é bem superior ao seu estrito domínio  de certos  aspectos  da disciplina gramatical, porquanto nele a potência do verso  está acima  do fato meramente  gramatical. Com um pouco  de esforço,  essas deficiências podem ser  sanadas.
      À época da publicação de Passos oblíquos, em novembro de 1994, com Prefácio de Clóvis Moura e Introdução de M. Paulo Nunes,  não tinha eu conhecimento da   existência desse poeta de Amarante. Só naquele ano vim  a saber. O autor me havia  remetido um exemplar autografado desse segundo livro. O livro de estreia, Tempos perplexos, já citado,   somente vim a  ler há pouco menos de um mês num exemplar  que o autor me remeteu, também gentilmente autografado  com a data do mês corrente. A  publicação, em edição simples e desataviada, ficou a cargo  da Universidade Federal do Piauí – PREX -  Coordenação de Assuntos Culturais. O  livro não  menciona o número de páginas, frente e verso,  que o constitui. Resolvi contá-las. Soma  28 páginas de frente, ficando, porém,  em branco a numeração das páginas  do verso, num total de 28 poemas.
   Entretanto, não resta dúvida de que da obra de estreia  até Ressacas, houve avanço considerável  tanto na técnica  de compor  os poemas quanto  em certas constantes de seu lirismo, as quais se aprofundaram, o que é um bom sinal  a um poeta   visceralmente  sensível  ao sentimento humano e ao sentimento  da natureza, tanto quanto a uma atenção vigilante   com problemas   sociais, étnicos, políticos   a desafiarem um mundo movimentado pela alta tecnologia.
   Continuo apostando na sua capacidade  de   fazer boa poesia em diferentes   frentes temáticas: lirismo, autobiografia,  natureza,   problemas sociais e artesanato  poético,  no sentido de    criar metáforas poderosas que dão aos seus poemas  um sensação de grito contra  tudo aquilo  que machuca  a dignidade  do ser humano.  Todos esses traços temáticos e  expressivos de sua semântica poética  lhe conferem um lugar de realce entre os poetas   de sua geração que ainda  acreditam  no papel da   poesia e sua função social como instrumento  de  consciência  desalienante  dos povos.    
    Na sua obra de estreia, me  chamaram a atenção, pela maior qualidade composicional,   entre outros, os poemas  “Lunar,” “Deslumbrado,” “Pesadelo,” “O pneu,”  “Domingo à noite,”  “A palavra” e “Vazio.” Gramoza, na condição de estreante  tem altos e baixos, algumas hesitações  de elaboração  de poemas, de pontuação que podem ser sanadas em outras edições. No que tange ao fazer poético, ele se distingue pela inquietação, por  um certo pessimismo e pela marca muito pessoal, muito autobiográfica, enrustida  no sujeito lírico. Esse meuismo, se assim posso   definir,  não contribui, se exagerado,  para atingir um melhor patamar  valorativo de seu estro.
    A hipertrofia  da subjetividade lírica não ajuda nenhum bom poeta que pratique o verso  em moldes modernos,  i.e., desde  o surgimento das vanguardas europeias  e a sua  assimilação  na   poesia brasileira,  seja oriundo da ruptura do verso tradicional -  rimado e metrificado -, do Modernismo de 22, seja a  partir das gerações e movimentos  poéticos  inovadores   do Concretismo de 1956 e de outros  movimentos   de transformação da poesia   brasileira contemporânea.
    No entanto, em  Gramoza podemos  identificar nele processos discursivos  e expressivos, aliás já mencionados em parte atrás, e que, agora, reforçamos,  os quais   foram se aperfeiçoando  desde o livro de sua  estreia: a ) a habilidade de descrição da natureza; b) o forte sentimento de um lirismo à flor da pele; c) a temática social  de viés esquerdista que vai  até a uma obsessão  por certas figuras mundiais  emblemáticas como  as de Fidel Castro, Che Guevara, a crítica contundente ao capitalismo, o grito indignado contra a política econômica norte-americana ante as nações subdesenvolvida (poema “Cloaca,” p.53); d) a voz  da poesia impotente diante  dos problemas sociais e das subjetividades   e  a  incompletude  das ações e objetivos na vida de um  indivíduo, o vazio de tudo (Poema “Inconclusa Canção,” p.52);   e ) uma cadência rítmica que faz com que a linha do verso seja interrompida, à semelhança de um enjambement, e conclua o sentido  do verso no verso  seguinte:
                        
                          Elas são as duas pescadoras
                         Mais velhas das margens do Parnaíba. (Poema “Elas” Tempos  perplexos)

        É bem evidente, a começar do livro Passos oblíquos, a constatação   dessa acúmulo de versos entrecortados formando,  no espaço da página, uma  espécie de enfileiramento  de versos em estrofes  heterométricas,  pequenas, médias e grandes, que  se  vai agrupando até constituir    o todo do poema.
       Essa estratégia  grafemática,  que se  vai radicalizar em movimentos poéticos posteriores   à poesia concretista (Neoconcretismo,  Práxis, Vereda, PTYX,  Poema-Processo) caracterizada pelo  anti-discursivismo,   à frente,  o uso até exagerado   da desarticulação  ou atomização  dos vocábulos, ocorre igualmente  em outros  poetas  a partir da influência – convém  reiterar  - das  vanguardas europeias. Na verdade, essa novidade verbi-voco-visual remonta até a tempos  bem remotos da Antiguidade grega  e latina. No entanto, Gramoza faz uso -  diga-se assim -, mais  comedido  dessas  hiperrupturas  em face do verso tradicional,  antes joga mais com o espaço  da página em branco e com a heterodoxia das estrofes semanticamente encadeadas.
    Ora, o poeta Gramoza, que já está  hoje na casa dos sessenta anos,  deve ter   acompanhado  todas essas transformações operadas na poesia  brasileira, de vez que,  ao publicar seu primeiro livro  nos anos 1980, ele já se insere  visual e  expressivamente  na modernidade poética.
      No que toca aos temas  de sua poesia nele persistem alguns   leitmotive basilares de sua produção: a paisagem da  cidade natal, Amarante, sua natureza,  seus ventos,  suas árvores, seus rios,  a recorrência  de versos alusivos ao rio Parnaíba,  o principal da cidade e do Estado do Piauí, o casario, enfim, seus   pontos naturais mais   conhecidos, sobretudo a  principal rua de Amarante,  chamada Avenida Amaral.
  Um dado curioso do verso de Gramoza: não consegui vinculá-lo a nenhuma influência de poetas  piauienses, nem mesmos do seu poeta maior,  o Da Costa e Silva (1885-1950).   No livro de estreia, somente uma vez me deparei com dois sintagmas que nos trazem, intertextualizadas, na linha de um verso gramoziano,   partes justapostas  de versos do poeta de Sangue (1908): “... aos ósculos das águas,” do sol de estio (poema “Deslumbrado”) sintagma   extraído do poema “Amarante”, do livro Zodíaco ( 1917)e ”...de um sol de estio,”  sintagma  retirado do soneto “Saudade,” da obra Sangue.
       No livro Ressaca   Gramoza  progride como poeta, aprofunda mais temas de sua preferência. Não diria que os 57  desse poemas sejam todos ótimos ou bons. Ele  tem subidas e caídas,  mas as subidas  é que o mantêm  na  condição de poeta que pode ser lido e estimado  pelo leitor de poesia ou pela crítica.
       O poeta vai do lirismo  dolorido à indignação social, do sentimento  do amor indefinido à natureza  de mãos dadas com a subjetividade,  do telurismo ao urbano, do sentimento da natureza em fusão com a visão autobiográfica.  Como bom poeta, entre outras  preocupações, uma se  deve assinalar: a de  um lírico   que se volta, de quando em vez,  para o próprio ato de criação literária, o qual, de resto,   é um interesse  constante  de alguns  grandes  poetas de todos os tempos.
       Essa reflexão metapoética  lhe permite  sondar os seus próprios recursos  na construção dos poemas. Testar o canal do discurso lírico.   Na poesia gramoziana  tudo se mistura  e tudo, a meu ver,  converge  a uma postura  poética  muito  colada ao sinestésico, aos ritmos diversos,  ao gozo  das palavras e, portanto,  da linguagem, da  sua sintaxe   poética que  parecem   desaguar em cascatas em direção ao mar profundo.  
     Daí que alguns poemas  suscitam em nós, leitores ou críticos, ou ambos,  a vontade de  afirmar ”Belíssimo poema. E assim eu fiz, anotando à margem da cópia  de seu  Ressacas, as  seguintes conclusões numa segunda leitura do livro: Muito bom ( poema “Evocação a Zumbi” (p. 43);  “Atalhos” (p. 42); “Ressacas” (que dá  título ao livro (p. 63-64).
     Dou aqui por encerrado este Prefácio e com a certeza de que li um livro de um poeta  de verdade na exploração,  com criatividade,  de temas  eleitos   e com  estilo literário inconfundível além de   enorme carga de sensibilidade para dar e vender.
                                                                   
  Rio de Janeiro, 27 de junho de 2018.
                                                                       Cunha e Silva  Filho

          (Pós-Doutor em Literatura  Comparada pela UFRJ. Membro efetivo da Academia Brasileira de Filologia.
NOTA:  Livro inédito  a ser editado possivelmente  este ano.