quarta-feira, 17 de julho de 2019

NOTAS SOBRE UM TEXTO FICCIONAL



                                 
Cunha e Silva  Filho

                                 Mutismo

Essa terra possui excessos de aridez que duram séculos. Um velório sob o sol ardente indica uma placenta no pino de uma árvore seca. Terras que nunca sabem dos invernos e das vegetações. Muitas curvas depois, ele avista os canaviais e os cortadores que usam um uniforme escurecido pela queima inclemente, ateada à cana e à cana atada. Fuligem e fumaça — o ar irrespirável. Passa pela usina, o cheiro nauseante do que era transformado em combustível ou açúcar. Ele chega a São Miguel dos Milagres (somente malogros). Enormes caminhões transportadores de cana-gente desfilam à beira do caminho, dos dois lados dele, o são e o não; o dono das terras, os detentores da miséria e da indigência, aparentemente passivas e apavorantes. Ninguém se importa em melhorar de vida, ele não sabe se pelo longuíssimo tempo de submissão ou por gostar da 'proteção' de um Pai inumano que, por pouco que lhes dê, dá-lhes a sobrevivência, talvez a proteção ilusória para um infortúnio ainda maior — o de se acomodar à miserabilidade — todos pareciam gratos e felizes, comendo suas carnes assadas nas calçadas a menos de meio metro da estrada, ouvindo músicas pouco edificantes, dançando naquele ritmo e naquele rito sem grito e sem fim — um cordel de imensa tristeza; o desgarro em que aquelas gentes estavam [ele esperava que não para sempre] mergulhadas. Terras cuja geografia de enganos e derrotas jamais é palavra.


        O pequeno  trecho  acima citado, ”Mutismo,” da ficcionista paranaense  Tere Tavares (rascunho de início de romance?  novela ?, conto?), me lembra certas narrativas de nobres escritores brasileiros que escreveram sobre a aridez humana e  a rigidez da terra englobados sob o rótulo de romance regional de 30.
        Seriam aqueles que, na chamada literatura do Nordeste (e estou  pensando em  José Américo de Almeida, José Lins do Rego,  Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Jorge Amado), entre outros,  falando de seca, de cangaço e de miséria física, natural e humana, construíram, separadamente, é claro,  um número de romances, em que cada ficcionista relatava suas histórias  com vivacidade de cores fortes e mesmo narrativas trágicas ou com tons  épicos (caso de Fogo morto, de José  Lins do Rego) posto que cada um escrevesse com a sua característica expressiva e estilística própria, sobre estagnação social e submissão, mandonismo, coronelismo,  e sujeição, poder e escravidão, consciência da exploração  e alienação  individual ou  coletiva.
        Entretanto, o texto em exame, ao abordar ressonâncias  dessa natureza   temática, me dá indicações  de que  a autora  esteja pensando  em  fazer  algum desvio de percurso narratológico  tanto na questão  do que  tem escrito  ficcionalmente  com  textos colados  a um repertório até demasiadamente  metafórico com  guinadas  evidentes  em narrativas  introspectivas  e de natureza  filosófico. 
         Ou seja,    narra  histórias  que  mais tendem a    falar de  abstrações   do comportamento  individual, coletivo e universal, de estofo fortemente  erudito e clássico na sintaxe, na recorrência  de cunho retórico, fértil  em vozes ou citações  alusivas  tanto  ao campo  literário quanto a campos de  outros  saberes.  
          Arriscaria  a afirmar  até de um estilo -   diria -  retórico arcaizante.  Não se poderia   dizer que  algumas   doses  mínimas de enredo  despontem  aqui e ali,  em que a voz do narrador ou narrador   não se  furte a, elipticamente,  relatar  incidentes    próprios em moldes   lineares  e de possível   compreensão  do leito,  do médio  ao letrado.
          Não diria que a autora  teria que fazer concessões ao seu  próprio  estilo de escrita literária procurando  abrir-se mais para um elemento que  ainda me parece  o grande estimulante   do leitor: o enredo,   ainda que não deixem de ser trabalhados  por vieses  modernos   de  elaboração   artesanal complexa  e não datada.
         Não vejo  que a literatura  ficcional,  para ser  de alta qualidade  tenha que ser  hermética, elitista,   dirigida apenas a iniciados, a teóricos ou críticos literários. Contam-se  nos dedos  tipos de  ficção como as  de Franz  kafka,  de James Joyce,    de Guimarães Rosa,   de Clarice Lispector. Tampouco penso que  a grande literatura  para ter  essa estatura   ficcional  tenha que  ser radicalmente    subversora, revolucionária,  experimentalista.
        Até o próprio leitor  sofisticado  culturalmente  não há de  fruir  continuamente – até o prazer  cansa  -,  um narrativa  que  tenha  com frequência   por  pressuposto  fulcral  o de ser difícil,    inacessível. Afinal,  não é só  o debruçar-se  um  escritor  para  refletir  unicamente  sobre  a forma da linguagem literária e  do modo como  foi arquitetado    um romance,  uma novela,  um conto que pode ser recorrente  na construção de um obra.
     A literatura é linguagem, mas é  igualmente tema e vida, beleza e prazer. E por vida estão  incluídos vários  elementos   prevalentes e  indispensáveis à criação  literária. Poderia ser um exemplo desses   uma concepção  da ficção como um recorte metonímico  da realidade  total  recriada pelo artista   e conforme seus planos  de   opções temáticas e artifícios retóricos,  desses que, na  sua arquitetura de linguagem/forma, assuma  maior peso   de convencimento de que esses mundos inventados  possam  existir muitas vezes com  força mais poderosa   de realidades  referenciais e conflitos humanos  do que a mera realidade  nossa de cada dia, a qual,  por si só,  não nos permitirá nunca  propiciar  com maior amplitude  física, humana,  estética, filosófica, religiosa uma superior  compreensão  da abrangência da existência.
          Essa construção  literária  pode ser feita  sob formas diversificadas  de como   o artista vai   operar  os recortes metonímico, os quais redundarão ao leitor em realidades humanas   mesmo  sendo  transpostas  para  regiões  fantasmagóricas,  surreais,  mágicas, oníricas. E aqui poderemos falar  novamente do chamado pacto narrativo  de Phillipe Lejeune sem o qual  não poderá haver  uma espécie de acordo  tácito entre  o narrador  e o leitor se este último não se deixar levar  com naturalidade  e espírito  de aventura responsável  e crítica  a fim de adentrar  o mundo -  me perdoe o chavão -,  maravilhoso  da ficção.
        Quer dizer,  urge ganhar a confiança do  narrador  na medida em que ele, com pulso seguro,  nos  transporta a um “mundo real,” aquele “espelho de Carroll” de que uma vez, em conferência,  ouvi  do  escritor J.J.  Veiga,    o mundo “possível” aristotélico da mímese  ou noutra imagem  deliciosa, as “figuras de papel” de Roland Barthes, quer  pela   desarticulação do arcabouço duradouro do  realismo pictórico-fotográfico-naturalista    da literatura  ocidental do séculos XIX, quer  pelas novas maneiras de  trabalhar  a linguagem  e a   estrutura   da ficção  dos últimos anos.  
         Uma questão cabe, então, levantar-se: por que os movimentos de vanguarda europeia, no campo poético,   não se mantiveram   mais estáveis  na história literária? Por que logo foram  substituídos por outros e mais outros a ponto de todos, no seu  conjunto,  hoje pertencerem apenas a capítulos de ismos  datados   da história  da poesia? Levando  tal raciocínio  para a área da ficção, poder-se-ia  também indagar. Será que se sustentaria  com o mesmo vigor inicial uma  tentativa experimental  de criar literatura semelhante aos diversos  movimentos  literários que já conhecemos? Será  que nunca  feneceria ou se  esgotaria    como  técnica  narrativa ou formas narrativas tornadas moda e, por conseguinte,  seguida por  vários  escritores  no país ou no exterior?  
          O que se repete por imitação  e, ipso facto,  por  ausência de originalidade e de inventividade não redundará, ao final,  numa forma datada  Uma obra de  ficção  que se restrinja  sistematicamente  só aos aspectos  metaficcionais e descure do objetivo  nuclear  da ficção,   que é criar  vidas,  situações e conflitos humanos, personagens, tempo, espaço, perspectivas  narrativa,   e  propiciar  uma visão   ampla  e pessoal das sociedades e dos grupos  humanos diversos  que a compõem,  do  mundo em transformação vertiginosa   e dos novos  conflitos  agora surgidos como,  por exemplo,  o dos refugiados.
         Uma obra de ficção deve ser  encarada agora  sob a perspectiva da globalização   e de todas as consequências  modificadoras   trazidas   por esse  fenômeno  de aproximação e intercomunicação  entre povos,  outrora distantes,     e pelo seus complexos canais e   meios  de comunicação  virtual  e digital, sendo exemplos, as redes  sociais, com as suas correlatas mudanças de comportamento  dos indivíduos de todas as idades e do seu tempo  de lazer  fragmentando a antiga e maior  convivência  interpessoal ao vivo   com a chegada de aparelhos  móveis como  os celulares  e outros mais  complexos   instrumentos de comunicação  instantânea.
         A obra ficcional, se permanecer à margem  dessas transformações  múltiplas,  ficará  à margem  da pós-modernidade  nos diversos campos  do saber englobando  o mundo  político, jurídico,  econômico, financeiro,   sociológico, antropológico,  religioso,   filosófico, linguístico, estético.
        A obra ficcional não pode, portanto, prescindir  das contribuições    tanto   das experiências   formais e estilísticas  da tradição   quanto   antropofagicamente   acrescer-se  de aportes renovadores de modos de vida,   de costumes,  de novas  invenções,  dos influxos decisivos  das  novas tecnologias  e    de visões  diferentes que propiciem ao escritor  redimensionar  cenários  literários  tanto na linguagem  dos novos tempos quanto  nas formas  de composição  ficcional.
        Retomemos o que de inicio  esboçamos  sobre o texto “Mutismo.” Sim,  tudo me leva a crer tratar-se de um  guinada diferente tanto na linguagem  menos  clássica ou   prenhe de  ilustração   erudita com o vezo  comum entre autores   modernos de  poliglotismo  no corpo  da  enunciação e alusões   invocadoras de contextos literários diversos e geralmente  estrangeiros. “Mutismo”  recupera  descrições  limpas e objetivas,   nomeando personagem ainda que  não lhe dando ainda  algum nome, porém nomeando-o  apenas por um “ele.”  
     Pouco importa, contudo.  Espaços já são claramente definidos - lugar seco, descarnado, ressequido, que nos leva logo a imaginar   uma história fora  do meio urbano, mas com  sinais  evidentes  denunciando  o campo  largo, aberto das estradas,  da vida  rija e ao mesmo tempo contraditoriamente   alegre   com as paradas regadas a “carnes assadas,” com música “pouco edificante”  e com dança dolente. É um cenário que se configura na euforia e  na disforia combinadas com   o trabalho   braçal feito de   alegria e  tristeza  associado  à atividade presenciada pelo  personagem  “Ele,” traduzida na   dureza do trabalho de uma usina de cana e de produção de  açúcar e combustível.  O “Ele ”  a avistar  toda essa  paisagem que lhe vai passando a perder de vista. É nesse intervalo  de visão  sem “invernos e  vegetação”  que  o narrador   se volta pra dentro  de si e divaga  (ideologicamente) sobre  senhores   da produção  e  trabalhadores    explorados. O discurso  narrativo assume um  tom mais  veemente e denunciante, tão bem  exemplificados  pela antinomia  do “são” e “não.”
         O narrador é consciente das desgraças  cometidas secularmente  pelo  senhores do poder  e dos sofrimentos  dos vencidos, o  contingente de miseráveis. O “Ele” e o narrador  se confundem,  porque  se há uma voz   da enunciação há também  uma  visão do   perspectivismo  do “Ele,” provável narrador  do relato. Tanto  um quanto o outro   têm  consciência da exploração e  da vida mesquinha   dos  trabalhadores, cuja interioridade ambiguamente  atinge   ou não os humilhados. Daí o narrador se reportar a eles como pessoas  “aparentemente passivas e apavorantes.”
      O texto “Mutismo” é bem mais  solar do   que o que tenho lido  da autora. A meu ver,  aqui existe decerto uma  vontade  de desfazer-se de “fábulas” e abstrações  filosófica ou oraculares  das narrativa anteriores  da autora. O texto tem o pé no chão. No entanto,  aqui e ali,  apontam  notações  bem  inventivas  de imagismo   de cunho  poético, “Um, velório sob o sol ardente  indica  uma placenta no pino  da árvore seca.(grifos meus). Ou um  quiasmo combinado com vocábulos parônimos como na frase: “... ateada à cana  e à cana atada” Ou  frases  lapidares que vem poderiam  estar  formando  linhas melódico-poéticas numa  sequência de vocábulos   com suas  acentuações:  ou seja, exemplos de párison ou assonância, no caso,  a vogal anterior, oral, fechada,  tônica “i”:  “...naquele ritmo e naquele rito sem grito  e sem fim...”. Ou nas aliterações  formadas  de oclusivas surdas: “...aparentemente, passivas e apavorante,”   e constritivas, fricativas, labiodentais surdas: “Fuligem e fumaça...” Ou ainda no trocadilho antinômico e irônico-trágico: “...Milagres” X “...Malogros...” E, para concluir essas breves  notas sobre linguagem,  observe-se a frase final de “Mutismo”: (...) Terra cuja geografia de enganos e derrotas jamais  é palavra.” (grifo meu) Este lexema se faz presente como  palavra-chave   na tentativa de  refletir sobre  a força  descomunal  do poder  da terra, da posse e dos meios de produção  diante do espaço  secular da submissão.
         A  imagem do “Pai inumano” é o melhor   momento de  meditar  sobre  quem manda e quem obedece. O mutismo, como  no  exemplo  emblemático do soldado amarelo de  Vidas secas,   é mais um   paradigma   da  palavra  “sequestrada”  pelo  poder  público armado ou, cumpre reforçar,   pela força   das leis da violência  secular do campo. Realmente: “Todos pareciam gratos e felizes.”

quarta-feira, 10 de julho de 2019

DESPEDIDA DE CADA DIA



CUNHA E SILVA FILHO

            A vida é um romance machadiano, e, fosse citar um dos títulos, não hesitaria em citar Dom Casmurro (1899). Nesta crônica, direi por quê. Quero me prevenir de conceitos livrescos ou solenemente eruditos ou highbrow à Aldous Huxley (1894-1963) que tantas vezes nos atrapalham e nos desviam para a ausência de pensamento próprio ou de natureza antropofágica.
            Está o mundo muito livresco e a acumulação é gigantesca. Há teorias para tudo até para baboseiras aplaudidas aqui e alhures e, se falo em alhures, falo do exterior, dos outros países desse planeta ruidoso e com traços apocalípticos, de vez que, numa palavra, o que muda é só a língua, traço, de resto, que não se modificou por causa da conhecida Torre de Babel sobre a qual até linguistas, como Mario Pei (All about language London: The Bodley Head, 1956, p. 9) não deixam de fazer uma alusão ainda que não seja para corroborar a existência ou não do fato.
            A alma humana (William Shakespeare, 1564-1616, e o próprio Machado de Assis ( 1839-1908), mutatis mutandis - que não me deixem mentir - é tão igual quanto todos nós que nos chamamos, amiúde e com alguma arrogância mal disfarçada, de humanos. Que humanos podemos denominar uma pessoa que, por querer disputar ficar com uma cadeira num local e não o conseguindo, mata estupidamente uma outra que desejava também a mesma cadeira?
            Quanto de humano temos em nós em ações brutais e selvagens como estas? Quanto de verdadeiramente humano somos todos nós? Não sei. Talvez ninguém o saiba. Há uma descida de esgotamentos e exaurimento de traços solidários na natureza humana que há tempos está nos igualando a monstros sociais, tanto em indivíduos ditos escolarizados quanto em pessoas sem instrução.
             Vejam as duas imagens emblemáticas do que estou tentando passar-lhe aqui, caro leitor. Uma é a conversa dos coveiros da tragédia Hamlet (c. c,1598-1604, ou "provavelmente", segundo Otis & Needleman,  in An outline - history of English   literature, 4 th edition. Vol. 1: To Dryden. New York: Barnes  & Noble, 1965, p. 204),  obra que, sem peias na língua, nos dá a justa medida do que somos e fazemos jus ao pulvis sumus. A outra é da daquela fieira de notícias de falecimentos, ao longo dos capítulos do romance Dom Casmurro, já mencionado.
             Ora, tanto numa imagem quanto noutra o ponto comum, desponta uma luz sem argumentos contraditórios. Somos aparentemente alguma coisa apenas enquanto vivemos. E entre a vida e a morte, o fio é muito tênue, inesperado, repentino, provocador da surpresa, do inacreditável, de um abrir e fechar dos olhos, do que não imaginávamos que seria assim ou assado, alegre ou triste, barulhento ou silencioso.
            Tanto quanto a imagem introspectiva de que, em idade provecta, por dentro nos achamos ainda moços e prontos até para amar uma ou mais vezes, temos a sensação de que, na vivência do presente, do que por mais de uma vez chamei de primado do presente (embora dando a esse sintagma um sentido diferente, o de privilegiarmos só o instante vivido em detrimento dos dois outros tempos, o passado e o futuro, que também são realidades ponderáveis e latentes ), temos a forte sensação de que não morreremos.
            Não há ninguém que não tenha experimentado essa sensação de eternidade, sensação que localizo mais nos momentos de nossas vidas mais felizes e mais inebriantes. Essa sensação de eternidade nós é muito cara em algumas fases de nossas vidas dado que ela tem o seu tanto de fuga momentânea ao sentimento da finitude da nossa curta e imprevisível travessia do começo ao fim.
            Contudo, a quem leu uma obra e outra, é o próprio narrador machadiano e os coveiros de Hamlet que, volta e meia, nos vêm à lembranças e que mostram que a vanitas vanitatis e o pulvis sumus, ao final e ao cabo, ali estão nos alertando que a vida é breve e que os humanos e os desumanos hão de, uma vez ou outra, ser forçados a engolir a efemeridade de nossos vícios, oportunismos, indiferenças, preconceitos, mesquinharias, hipocrisias, atos vis e abomináveis.
            No mundo em que vivemos, sob o signo do imediatismo, do hic et nunc, somos um tanto meio iludidos pelo dinâmica da multiplicidade de incidentes e acidentes que nos tomam de assalto a mente já por si mesma atolada pelos apelos ao presente utilitarista e dionisíaco.
           O homem se mostra sem tempo e azo de pensar em si mesmo, muito menos deixando o hedonismo escapar para um reflexão metafísica em direção a um mergulho denso, profundo, visceral, voltado para questões como a transitoriedade dos homens, dos objetos e das coisas que nos cercam e, ao contrário, nos fazem ver, diante de nós, não mais pessoas, porém interesses imediatos e inconfessáveis.
          Vida material, amizades datadas ou descartáveis, prazeres, nos quais campeiam as futilidades, a superficialidade, as “mentiras convencionais de nossa civilização”, momentâneas de bons dias insossos, beijos e abraços virtuais, muitas vezes vazios de sentidos, mero ritualismo de protocolos sociais e handshakes do mundo do business, gestualidades mecânicas, verdadeiras as sensaborias pós –modernas.
          Não é de causar espécie quem mesmo no último dia de despedida o ritual, sobretudo no mundo da high society, se revista da suntuosidade nas vestimentas e nos gestos sombrios exigidos pelas convenções sociais com indefectíveis óculos escuros de grife a prantear quem também na vida passou ou agiu da mesma forma e com os mesmos privilégios.
          Assim caminha a humanidade, deixando atrás de si o diálogo final dos coveiros shakespearianos sobre o destino dos homens e os capítulos machadianos assinalando fleugmaticamente a nota fúnebre de seus personagens - perdedores ou vencedores -, tragados pelo voracidade do tempo.

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sábado, 6 de julho de 2019

NÃO É JUSTO



                                                                          CUNHA E SILVA FILHO

ESTOU PENSANDO NO GOVERNO DO Sr. PRESIDENTE JAIR  BOLSONARO QUE NADA TEM FEITO PARA SUSPENDER OS AUMENTOS ANUAIS DOS USUÁRIOS DE PLANOS DE SAÚDE NO BRASIL..
ORA, A "ANS"( AGÊNCIA NACIONAL DA SAÚDE), É QUE CUIDA DO CONTROLE DOS PREÇOS DOS PLANOS DE SAÚDE E ELA É, ADEMAIS, QUE DETERMINA OS AUMENTOS. É ÓRGÃO DO GOVERNO FEDERAL QUE DETERMINA O QUANTO DEVE SER AUMENTADO NAS MENSALIDADES DOS USUÁRIOS DOS PLANOS E, PORTANTO, É A AGÊNCIA FEDERAL REALIMENTADORA DOS ABUSIVOS AUMENTOS TANTO DOS PLANOS DE SAÚDE QUANTO DOS AUMENTOS CONTÍNUOS DOS REMÉDIOS.
ORA, CADA AUMENTO QUE A ANS LIBERA E APROVA, OU DETERMINA, REDUNDARÁ EM MAIORES IMPOSTOS PARA OS COFRES DO GOVERNO FEDERAL. O USUÁRIO E OS COMPRADORES DE REMÉDIOS QUE VÃO SE QUEIXAR AO BISPO OU MESMO AO PAPA.E ESSE TIPO DE COMPORTAMENTO DOS GOVERNOS FEDERAIS NÃO É DE HOJE. VEM DE HÁ TEMPOS (INCLUSIVE NOS GOVERNOS PETISTAS!), SOBRETUDO APÓS A ONDA TSUNÂMICA DO NEOLIBERALISMO VIA CAPITALISMO UNIVERSAL.
O QUE É CURIOSO É QUE A MAIORIA DOS NOSSO ECONOMISTAS LEEM PELA MESMA CARTILHA DAS ANUÊNCIAS OU AMÉNS A TUDO QUE HÁ TEMPOS ESTÁ ACONTECENDO NA ECONOMIA BRASILEIRA. SÃO OS AVALIZADORES DOS CONSECUTIVOS GOVERNOS PORQUE DEVEM TER SIDO FORMADOS NAS MESMAS UNIVERSIDADES ORIENTADAS PELO CAPITALISMO OCIDENTAL, OU SEJA, DOS RICOS E MULTIMILIONÁRIOS QUE DETÊM A RIQUEZA DAS NAÇÕES E, INDIRETAMENTE, MANDAM E DESMANDAM NOS GOVERNOS DE CADA UMA.
ATÉ OS COMUNISTAS ESTÃO SE BENEFICIANDO DESSA ORIENTAÇÃO CAPITALISTA, POIS PARA ELES COMUNISMO SÓ PARA USO INTERNO DE CONTROLE DA LIBERDADE E DO MEIOS DE PRODUÇÃO. MAS, PARA USO EXTERNO, SEUS PARCEIROS PODEM SER OU SÃO, NA MAIORIA, DA DIREITA, PORQUE O QUE SÓ LHES IMPORTA É O MERCADO, O VIL METAL, O DÓLAR, A RIQUEZA. ENFIM, O PODER DISCRICIONÁRIO E COM  MANU MILITARI.
ISSO É UM ABSURDO TENDO EM VISTA QUE ESTÁ HAVENDO INDIRETO E SILENCIOSO ARROCHO SALARIAL NA ÁREA FEDERAL.
VEJAM: O GOVERNO NÃO DÁ AUMENTO AO FUNCIONALISMO PÚBLICO GERAL, EMBORA PERMITA E APROVE AUMENTOS A OUTRAS CLASSES PRIVILEGIADAS DE SERVIDORES (MINISTROS DO STF
E ALGUMAS INSTITUIÇÕES DA VASTA ÁREA DA JUSTIÇA (DESEMBARGADORES, JUÍZES, PROCURADORES ETC); OS MEMBROS DO LEGISLATIVO E ALGUNS DO EXECUTIVO TAMBÉM TÊM SEUS JÁ GORDOS VENCIMENTOS MAJORADOS, INCLUSIVE OS MILITARES DAS FORÇAS ARMADAS.
COMO PODEM OS BARNABÉS FEDERAIS MANTEREM SEUS PLANOS DE SAÚDE E COMPRAREM SEUS CAROS REMÉDIOS MENSALMENTE SE NÃO TÊM AUMENTOS SALARIAIS HÁ UNS 8 ANOS?
ISSO É SER JUSTO, SR., PRESIDENTE BOLSONARO? ONDE FICA O SEU ESPÍRITO DE IGUALDADE PARA TODOS? E AINDA VEM FALAR EM REFORMA DA PREVIDÊNCIA SOCIAL QUANDO O PRÓPRIO GOVERNO SEU NÃO ESTÁ FAZENDO O DEVER DE CASA, APROVANDO AUMENTO PARA SEGMENTOS DO ALTO ESCALÃO QUE JÁ PERCEBE GORDOS SALÁRIOS?
E O PIOR É QUE EU ESTOU CLAMANDO SOZINHO NO DESERTO? COMO NÃO ME INDIGNAR COM ESSA SITUAÇÃO? SERÁ QUE OS MEUS COLEGAS DE CLASSE, OS PROFESSORES, ESTÃO CONCORDANDO COM ESSA INJUSTIÇA E ABSURDO? ESTOU CADA VEZ MAS ISOLADO ENTRE OS MEUS PARES. VOU VIRAR CASMURRO MACHADIANO.

SR.PR

Gosto
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segunda-feira, 24 de junho de 2019

UM NOVO FICCIONISTA PIAUIENSE: JOSÉ DE RIBAMAR NUNES




                                        Cunha e Silva Filho

       
           Professor formado em Letras (UFPI), com especialização  em Teoria do Texto e  em  Literatura de Língua Portuguesa, além de  ser advogado e ex-funcionário do Banco do Brasil,  José  de Ribamar Nunes,  já maduro,   lança um  livro   de ficção, uma novela   para ser mais específico, cujo  titulo  logo   espicaça a curiosidade do leitor  pelo seu nome pitoresco  e sugestivo, caracterizando,   de início,  uma  narrativa  definidora  de um  determinado  espaço social e cultural  de Teresina, capital  Estado  do Piauí: Morro do Querosene, Prefácio de Celso Barros Coelho (Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2019. 206 p. Coleção Século XXI, nº 24. Capa e Revisão de Adriano Lobão Aragão.
     Por coincidência,    conheço  o autor  e sei  que é uma pessoa  muito   dedicada e  envolvida  com  a vida literária e cultural   piauiense e, por  essas razões, seria de se esperar que,  a qualquer  tempo,   viesse  a  publicar   uma obra  de estreia  que,  por suas  qualidades   de texto fluente  limpo, correto,  revela um  novo  ficcionista    com domínio  da história a ser contada,  com   perfeita harmonia  no desenvolvimento  de seus capítulos,  de resto,   muito bem  divididos e ainda mais agradáveis à leitura  por serem   curtos na maioria, o mais extenso  não ultrapassando  umas três páginas.
      Ora, uma estratégia  dessas  adotada pelo autor não é fácil de   contentar o leitor   a menos que  o capítulo  concentre em si  bem relatadas  células narrativas,   nos dando a sensação  da unidade  de cada    peripécia e nos impelindo  a ler com prazer os  relatos seguintes do livro.
   Nesse diapasão  de expor  seus vivíssimos, dinâmicos    e saborosos   relatos, perfazendo ao todo  cinquenta e um capítulos,  o narrador nos instiga a conhecer  a vida de bairros pobres teresinenses, alguns meus  velhos conhecidos do  tempo de menino  em Teresina,   como  o Porenquanto a Vermelha, a Piçarra quando partia  com amiguinhos da minha infância e  começo da adolescência em direção  aos banhos do rio Poti,  ou  quando passava  pelos  trilhos  da velha Estação  Ferroviária, ou pelo  velhusco  25 BC.         
     O enredo do Morro do Querosene  se desenvolve  em torno  da vida de aperturas  financeiras da família  de dona Joana que, primeiro, morava  no bairro  pobre do Porenquanto,  depois, sendo obrigada,   por não poder pagar o aluguel,  a fazer mudança para um novo   bairro,  a Piçarra.
     Dona   Joana, mãe dedicada  aos filhos, empregada  doméstica,   ainda  se virava em outras atividades   a fim  de prover  o sustento da família  e ainda mais porque  o marido  a deixara   sozinha à procura    de trabalho em outra terra.   Dos filhos pequenos, em número de quatro,  um deles, o João Luís, vai  desempenhar papel  decisivo na  história,  peça humana de menino a fazer girar a história  e a mostrar o quanto   a memória infantil-juvenil   é capaz de guardar  o bom  e o ruim  da existência humana e, se possível,  tentar  superar  as vicissitudes.   O movimento dos capítulos é acelerado, não havendo nem tempo  para   o leitor  se sentir  entediado, já que  a narrativa  o empurra para a frente  e satisfaz  o leitor  curioso  de conhecer novos e  palpitantes episódios  da novela.      
    Pode-se afirmar que  o personagem João Luís,  tão bem elaborado pelo autor, está fadado a ser uma  criação literária   que seguramente    comporá  a galeria de figuras  infanto-juvenis  da história da ficção piauiense (como aconteceu com Pedrinho,  em Ternura (1993),  romance de Francisco Miguel de  Moura). Sem tal grandeza de  personagem, a narrativa  não teria o bom resultado  que, a meu ver, teve em termos  de composição   ficcional. João Luís é  um personagem  que  salta do texto à vida  pelo convencimento de atributos  humanos   que o autor nele infunde com naturalidade,  sem artifícios  nem jogos de marionetes. Outros  na narrativa até podem  ser  rotulados  como apenas  figurações  sem  suporte   ficcional.
     A ficção de autores piauienses tem  tido razoável fortuna  crítica  em  romances  ou novelas   vivenciados  na cidade de Teresina. De autores do Piauí, posso bem lembrar aqui, no passado mais remoto ou menos remoto, ou mesmo atual, O Manicaca (1909), de Abdias Neve (1876-1928),  narrativa  ambientada na Teresina dos derradeiros anos do século XIX, ou menos remoto,  parte de Ulisses entre o amor e a morte (Teresina, Meridiano,1986),  de  O.G. Rego de Carvalho, Rio Subterrâneo (Teresina: Meridiano, 8ª edição,1888 ),  parte em Teresina, também de O. G. Rego de Carvalho, ou mais atual, Entardecer (2007),  de José Ribamar Garcia,  Meia-vida (1999),  enfocando  principalmente a área do troca-troca de Teresina, de Oton Lustosa, o excelente romance Vozes da  Ribanceira, no qual o cenário principal é o Poti (2003), também de  Oton  Lustosa,   Sabor de vingança (2015),  centrado no espaço da crescente  violência urbana  teresinense de Milton Borges.
    O narrador do  Morro do Querosene, em terceira pessoa,    apresenta um traço  singular:  dando voz ao  pensamento  da  perspectiva   de um personagem,  emprega, aqui e ali,  o discurso indireto livre,  o que  reforça uma forma  multifocal de  narrativa.  Mesmo quando  falando  de João Luís,   a voz do narrador  se orienta  pela perspectiva  ou  ângulo de visão  do pequeno   João Luís. Sendo assim, é    através sobretudo das aventuras infanto-juvenis desse personagem encantador   que a novela  propicia  uma visão por dentro  e por fora  da  realidade social e cultural  daquele  entorno   da Piçarra chamado Morro do Querosene – lugar tão  badalado nas suas    peculiaridades   de ser  o espaço da  prostituição e ao mesmo tempo  de residências  populares  das ruas  circunvizinhas.
      Duas observações  farei ao autor a seguir. Uma, de ordem de construção  textual do primeiro parágrafo   da narrativa, na qual separaria com um  ponto final a frase “Era um dia de domingo” e começaria com  maiúscula  a frase seguinte: “Pela manhã, de um mês de junho amenizava o calor  abrasador de Teresina que só atingiria  o ponto mais alto dali a dois ou três meses.”  A segunda observação  seria    de ordem técnico-narrativa e  se refere ao próprio narrador que se trai e se transforma, por um segundo de tempo de leitura,  em autor, através do uso de um dêitico, na expressão adverbial de lugar “aqui no Piauí” (p. 170). Desse modo,  ele sai da condição de  narrador (elemento interno do enunciado ) e passa à condição de autor (elemento  externo à narrativa )  no fluxo narrativo  em terceira pessoa. Bastaria para contornar   isso,  eliminar  o dêitico e a contração  “no.”
    O Morro seria um espécie de  centro nevrálgico da narrativa  -  uma espécie de personagem   inanimado   dos acontecimentos,   das alegrias, das tristezas, das tragédias,  dores, das desventuras, dos  incidentes  hilariantes    daquela  população  pobre  que ali residia. Para trás, ficara  definitivamente   o bairro Porenquanto, ao qual, malgrado a pobreza,  já estavam  habituados. Deixaram   um travo   de saudades de amizades e  brincadeiras  infantis.
     Por ouro lado,  o novo bairro da Piçarra começava a despertar no  pequeno João, porque  oferecia mais espaço aberto,  a antevisão  do principal  divertimento  da  sua fase da infância e adolescência   - o futebol  - símbolo de outros meninos  de várias gerações  de brasileirinhos   apaixonados por esse esporte, esse  “grande catalizador” assim definido pelo pensador e crítico literário  Tristão de Athayde ( Alceu Amoroso Lima, 1893-1983). 
       A novela é igualmente uma  história  que, se não fosse exemplo de  honestidade   e de dignidade  de alguns de seus personagens despossuídos,  caso houvesse descambado  para  uma dimensão de personagens  desprovidas  de dignidade,  bem poderia ser um  prato cheio para uma novela  neopicaresca   tendo como  protagonista  as aventuras  do menino  João Luís. Entretanto,  o autor  perfilou  um personagem   da envergadura moral   desse menino  que, pelo comportamento   reto,  bem poderia   se enquadrar  numa novela de formação (Bildungsroman) se a continuidade do tempo  dos  episódios atingisse a maturidade  do herói. 
      A novela  faz um recorte  temporal  que, grosso modo,  a situaria entre  os meados dos anos 1950 à primeira  metade dos anos 1960, numa Teresina ainda não  tomada  pelos anos  de modernização  mais  intensa  e de formação de novos bairros  com vida urbana    frenética    acossada pela violência. É nessa  Teresina  que  a vida de João Luís se vai consolidando pelas diversas experiências  e mudanças  físicas, psicológicas, sociais e culturais, em especial a passagem delicada de criança a rapazinho,  a descoberta do sexo, o onanismo,   as motivações,  ainda que  pueris,  amorosas,   o aprendizado do  sexo com marafonas e outras experiências  com  vícios  incentivados por más companhias. 
       Da mesma forma, a visão social cedo despertada   pela frequência do protagonista na fase de crescimento  a outros ambientes sociais  mais   elevados  vai-se alargando  na consciência do João Luís, mas sem que a narrativa  entre no limiar da problematização  das relações de classe.
      Não há esse intenção  pelo menos abertamente declarada. No entanto,    o que  a narrativa  exibe são realidades estratificadas,  a dos despossuídos, dos remediados,  dos ricos. Duas saídas se vislumbram  para a mobilidade social:  a) por inciativa própria  e grande determinação  que possa  elevar   alguém a uma posição socialmente melhor. Poderia ser aqui  o caso de João Luís;  b) pela via de um casamento melhor (Maria Antônia, irmã de João Luís)  para um filha de pais  humildes. 
      A importância da obra Morro do Querosene se reveste nas descrições  e narrações   precisas  e documentais  de uma ficção de costumes   de um bairro  periférico   de Teresina, de  situações  da realidade  vivida e presenciada  pela população  que ali  vivia  à sombra  protetora ou não do Morro. O quotidiano desse enclave social  radiografa, com mão de  mestre,   o pequeno mundo de seus habitantes  sujeito  às intempéries do dinamismo   social avassalador.  A família da  laboriosa  e honesta  dona Joana é apenas  uma   amostra do que seja  um fiel  retrato social  de uma dada fase passada   da vida teresinense.
    Julgo que, com essa obra inicial,   José  de Ribamar Nunes   se insere,  de fato e de direito,   sem alardes nem   apadrinhamentos,   na história da ficção  atual do Piauí.