domingo, 3 de junho de 2012

Defesa de um intelectual piauiense



Cunha e Silva Filho





Mais de um vez me vejo instado a dar minha opinião contra a injustiça imerecida e leviana, e desta vez da injustiça duplamente maléfica, que é a do apagamento de fatos e feitos do engenho humano, de quem tem ainda bem iluminada a chama de acreditar na possibilidade de nunca se deixar datado em suas práxis cultural e dos saberes regionais e universais.

Desrespeitar ou ignorar a obra e o nome com raro brilho conquistado pelo professor M. Paulo Nunes, sobretudo a partir de sua regresso de Brasília, depois de uma longa permanência ali, para dar continuidade a metas e projetos de realizar-se como escritor e educador tendo a cultura piauiense como seu maior objetivo primacial de vida no plano intelectual, não faz sentido e só prejudica a imagem de um estado que, em geral, é carente de maior visibilidade no país.

Não faz bem a grupos de artistas piauienses procurar indispor-se com uma figura que representa a inteligência do Piauí em tantos dados simbólicos da cultura do estado, pelo que imensamente já realizou no campo intelectual e em realizações concretas na sua acepção mais genuinamente piauiense. Uma vez, um membro da Academia Brasileira de Letras me confessou que Paulo Nunes, pelo nível de cultura e sofisticação que alcançou, possa por vezes se sentir um pouco deslocado num meio ainda em alguns aspectos provinciano.

Além de ser uma reação intempestiva e desabonadora a que foram levadas algumas pessoas que se fazem identificar como gente ligada ao mundo artístico local, esses supostos artistas desrespeitaram um eminente intelectual, num desacato à função orientadora ou mais consultora, conforme lembra o professor Cineas Santos em defesa do Presidente do Conselho de Cultura do Piauí.

Ora, senhores detratores do saber alheio, todos temos conhecimento de que o crítico M. Paulo Nunes já é uma pessoa idosa, mas isso não nem deve ser nunca motivo de um artista (?!) escarnecer, como demonstração da mais rasteira ignorância, da condição de idade elevada de M. Paulo Nunes, inclusive infringindo um dos princípios fundamentais do Estatuto do Idoso, que é o de desrespeito ou injúria à imagem dos mais velhos, quando países de cultura desenvolvida, como o Japão, tratam seus idosos com o maior carinho e reverência. Grandes universidades nos EUA e na Europa fazem questão de nunca se desligarem da orientação e dos préstimos valiosos de seus scholars, ao contrário de nosso país que não tem apreço em geral pelos mais avançados em idade.

No caso desse simplório que fez piada de mau gosto com a idade de M. Paulo Nunes, como se idade mais avançada fosse uma doença, e ainda desinformando toscamente quem o ouvisse de que o ensaísta piauiense só era conhecido por 70% dos piauienses, tenho o seguinte a adverti-lo : o mundo e o tempo nasceram para todos. Se essa sua obtusidade de nascença e falta de neurônios tanto o prejudicam, lembre-se de que o professor M. .Paulo Nunes, além de ser um ilustre intelectual, admirado por muita gente da cultura nacional, jamais caberia na falta de juízo argumentativo de sua estreita cabeça de “artista” apagado e invisível, já que os que conhecem o ensaísta são os que leem, os que amam os livros, os que estudam, os que produzem e levam a cultura piauiense adiante.

O maior exemplo disso é que, nos meios acadêmicos universitários, temos pesquisadores estudando, pesquisando e elaborando trabalhos de pós-graduação com recortes focando a participação de M. Paulo Nunes na renovação das letras piauienses nos anos 40, ao lado de ºG. Rego de Carvalho, H. Dobal, Celso Barros Coelho, Afonso Ligório, entre outros, conforme também sobre esse tópico se debruçaram jovens ensaístas piauienses, como Halan Silva ( As formas incompletas – apontamentos para uma biografia. Teresina: Oficina da Palavra, 2005) João Kennedy Eugênio e Halan Silva (Cantiga de viver – leituras (Teresina: Fundação Quixote, 2007).Da mesma forma, nesta última obra, entre jovens ensaístas, M. Paulo Nunes assina ensaio de análise do poeta piauiense H. Dobal,

Desta maneira, M. Paulo Nunes, incansavelmente, e até os dias atuais, no jornal na revista, no livro na conferência leva a cultura piauiense adiante fundamentado numa experiência da sabedoria dos eruditos, dos que leram o mundo naquilo que ele tem de mais profundo em várias frentes do conhecimento humano, de culturas e gerações diversas, de visões polifônicas, de teorias, das artes mais populares às mais requintadas, do teatro clássico, popular de puras raízes, da música, em sãs várias formas, da pintura, da arquitetura, das artes cênicas, do cinema, do contato com as grandes capitais do mundo, do convívio amplo com as melhores inteligências do país, na filosofia, na educação, na política, no direito, história literária, na crítica, no ensaio, na sociologia, na história, na literatura universal, no convívio íntimo de tudo o que se produziu no Piauí pelos seus grandes homens, enfim, nos multifacetados saberes da inteligência humana.

No fundo, as desavenças no Conselho Estadual de Cultura não seriam só isso, mas, quem sabe, cabalar para destituir o atual Presidente e substituí-lo - eis o perigo - por alguém que não estivesse à altura das atribuições de um órgão de alta envergadura cultural. Aproveitando-se da circunstância de que um pretendente a membro do Conselho, não teve seu pleito atendido, o que não poderia acontecer dado que a escolha do Presidente cabe ao poder executivo.

Ora, tal fato gerou ressentimentos e melindres da parte da classe de artistas e é nesse ponto que do ressentimento passou-se à indignação de quem se considerava pouco representado como classe que reivindicava maior voz e vez nas decisões de representação de classe do Conselho Estadual de Cultura, mas em vão, porque desprovida de conhecimento dos valores culturais, das ciências e dos estudos, das leis, das normas e da memória histórico-cultural de uma personalidade que, ao longo de sua atuação como escritor, educador no sentido mais refinado do termo, professor emérito da UFPI e com um extraordinária e invejável folha de serviços prestados à vida intelectual piauiense, somente foi movida pelo bem-estar do órgão que dirige com dignidade e que já faz parte de sua vida e de seu espírito de escol. A revista Presença, já no seu número 47, é a mais viva prova desse escritor tão representativo de seu povo e de suas tradições.

A esta altura em que se encontra com o seu tempo de fecunda e vibrante lucidez de homem de letras apoiado em anos e anos de trabalho e dignidade de ações, de estudioso, de um disciplinado em tudo que faz com consciência plena do alcance maior de sua missão, o professor M. Paulo Nunes sem favor merece, por tudo que fez pelo Piauí, no domínio da inteligência e do seu desenvolvimento social, cultural, histórico e artístico e o que mais possa ser objeto de sua semeadura em outras direções do seu pensamento crítico-cultural da vida contemporânea, a posição que atingiu, na condição ímpar de ser talvez uma das mais respeitadas figuras piauienses da atualidade.

sábado, 2 de junho de 2012

Um poema de Alfred de Musset (1810-1857)




Tristesse


J’ai perdu ma force et ma vie

Et mes amis et ma gaieté;

J’ai perdu jusqu’à la fierté

Qui fasait croire à mon génie.



Quand j’ai connu la Verité,

J’ai cru que c’´était une amie;

Quand je l’ai comprise et sentie,

J’en était déjà dégoûté.



Et pourtant elle est éternelle,

Et ceux qui se sont passés d’elle

Ici-bas ont tout ignoré.



Dieu parle, il faut qu’on lui reponde.

- Le seul bien qui me reste au monde

Est d’avoir quelquefois pleuré.





Tristeza





Minha vida e minhas energias dissipei

Minhas alegrias, minhas amizades

Até no próprio orgulho, que me fez crer

ser gênio, naufraguei.



Quando a Verdade conheci,

Ganhar julguei uma amiga

Quando aquela compreendi e a percebi,

Conheci com ela a decepção



No entanto, sendo ela eterna,

Aqueles que a conhecem

Cá na Terra a esqueceram por completo.



Deus fala. Urge que se Lhe responda.

- O único bem que do mundo sei

É algumas vezes chorado haver.



                                                        (Trad. de Cunha e Silva Filho)





quarta-feira, 30 de maio de 2012

Tempo esgotado para um criminoso




Cunha e Silva Filho


Os Estados Unidos mais preocupados estão é com as eleições; quando falo dos EUA, falo de Barak Obama que, agora, já tem seu rival de campanha muito próximo de si. Por essa razão, a política externa fica em segundo plano. País que tem liderado belicamente o mundo nos últimos anos, o dedo americano quase sempre estava na ferida alheia. Isso, se deu em toda a parte do mundo onde as tropas americanas poderiam interferir e até derrubar governos. Assim se deu com Saddam Russein, com Gaddafi, com os talibãs simbolizados pelo terrorismo da antiga liderança do hoje defunto Osama Bin Laden. Porém, quando se trata do genocida Bashar Al-Assad a transparência da belicosidade americana meio que fica oculta ou muito discreta.

Não é de agora que as matanças indiscriminadas do tirano Bashar Al-Assad têm mergulhado a Síria num oceano de sangue fratricida. As aparências mesmo se enganam. Quando a tevê internacional mostra encontros do ditador com diplomatas ou enviados da ONU, e o foco da câmera se projeta na figura do genocida, ninguém é capaz de imaginar o quanto existe naquele meio sorriso guardado no íntimo de lobo ferocíssimo.. E se passarmos a analisá-lo do ponto de vista semiológico-linguístico, tendo como molas os gestos, a voz, o discurso, a fala do homem forte e de aparência fingidamente tranquila, chegamos à conclusão de quanto o ser humano é capaz de afirmar mentiras deslavadas e cínicas e de transformação de personalidade com máscaras teatrais de bondade e suavidade inexistentes.

Ninguém consegue mentir o tempo todo para o mundo a não ser facínoras, os assassinos frios e sem alma. Querer descaradamente culpar o rebeldes pela matança dos próprios rebeldes é brincar de tirano com a humanidade.Contudo, é isso o que BasharAl-Assad vem fazendo não somente martirizando milhares de inocentes, sobretudo crianças. As inúmeras cenas mostradas nas tevês para o mundo inteiro são razões de sobra para uma imediata intervenção na Síria liderada por países que defendem a democracia e liberdade e que por isso, a não reagirem drasticamente contra os crimes na Síria, darão a impressão de que estão pouco se importando com uma situação de desumanidade insuportável vivida por aquela população. Os primeiros passos, felizmente, já foram dados por alguns países importantes expulsando os diplomatas sírios das suas embaixadas e consulados. Não entendo por que a Rússia e a China, aliados da Síria, não tenham feito pelo menos sérias advertências contra uma questão que está acima da rivalidades ideológicas e econômicas entre as nações: o respeito à vida.

Não adianta enviar mais representantes diplomáticos para lá, pois nada surtiu efeito após a presença de observadores que acompanharam parte do desenrolara dos combates entre rebeldes e tropas de um governo que não respeita a leis do direito internacional, dos seus órgãos de paz e segurança, todos já seguros dos crimes do ditador sírio e de seu desrespeito a todas as instâncias em que os direitos dos povos livres foram enxovalhadas todos os sentidos e em todas os compromissos anteriormente assumidos através de representantes da diplomacia síria com os dirigentes da ONU. Contra tiranos, déspotas, autocratas não há negociação. A única força que talvez respeitem seria a das armas de nações que lutam pela liberdades dos povos num mundo que , num conjunto de seus países, deveria ser sempre livre e harmonioso.

O culpado-mor não poderia apenas ser apeado do poder, mas punido por crime contra a humanidade, assim como merecem todos os genocidas e inimigos da vida. O exílio não seria para ele um castigo exemplar, mas um julgamento na Corte Internacional de Haia.

Não estou vendo da parte do governo brasileiro nenhuma reação contra a situação angustiante do povo sírio. A América Latina não me parece ter dado nenhum passo em direção às agruras insuperáveis dos mortos assassinados pelo ditador Bashar Al-Assad

Uma Humanidade desunida, fragmentada e preocupada apenas com sua força econômica, com os seus problemas internos jamais fará do nosso planeta um lugar de felicidade, seja no domínio material, seja no domínio espiritual.O mundo está necessitando é de uma ecopolítica sustentável em dois grandes pilares: democracia plena e defesa da vida contra opressores em qualquer quadrante da Terra.Isso não é um anelo utópico;, irrealizável. A utopia com um pé no chão parece um oximoro, sim. Mas, ela se pode tornar realidade entre homens que pensam com o cérebro e com o desejo de um encontro decisivo e franco com o seu semelhante independente de fronteiras de países, de línguas, cores, religiões, sectarismos político-ideológicos.

domingo, 27 de maio de 2012

A sempre intrincada questão entre realidade e ficção




Cunha e Silva Filho


Sempre que um escritor de ficção se defronta  com um entrevistador, este geralmente um jornalista literário ou cultural ou até mesmo um ficcionista também, pessoalmente ou numa entrevista por telefone, uma das questões mais comuns se encaminha para a discussão algo bizantina de um tópico que me parece nunca desejar ser tomado na sua profundidade de jogo dialético.

O jornalista, a certa altura da conversa lança , orientado por um número de perguntas listadas em seu questionário previamente organizado, a seguinte pergunta: “O seu livro recentemente lançado é uma ficção ou nele a matéria recolhida e pesquisada se fundamenta mais na realidade?

O entrevistado pára um pouco, reflete, organiza o pensamento e um pouco desajeitado, com ar de quem não é dono da verdade, por fim declara algum conceito do que entende da pergunta proposta, sem antes ter consciência de que um, dois ou mais caminhos teria que escolher para desenvolver seu raciocínio  da forma mais breve possível, uma vez que o contexto ali não lhe daria tanto tempo para longas digressões teóricas ou mesmo acadêmicas. “Na verdade, na composição desse livro comecei por fazer um levantamento onde o peso dos dados referenciais históricos, contra minha vontade, tomou logo vulto, o que me deixou  encalacrado na direção que, a princípio, traçara para a elaboração da obra. Não sendo eu um historiador mas apenas um leitor da História, isso me deixou, segundo assinalei, num dilema de difícil solução, uma vez que a minha intenção primeira era dar prioridade aos dados ficcionais, ou seja, criar uma história, personagens, um enredo(se possível), um tempo e espaço históricos e uma linguagem que procurasse ao máximo fugir do jornalismo-reportagem ou de um tratado de História.

Este desvio a que me vi compelido a fazer foi o que salvou o meu romance de uma rotulação híbrida, meio ficção, meio História.Quer dizer, na minha ficção, misturando dois campos distintos de uso da linguagem, salvou-me aquilo que o relato histórico não sabe administrar porque se vê esgotado na coleta da pesquisa exaustiva , quer sobre figuras reais, quer sobre esclarecimentos de certos pontos controvertidos com que se depara o historiador. Nesse vazios é que entrou a minha capacidade de fabulação, de penetração no que poderia ter acontecido da aventura humana de um determinado período histórico no qual sombras de entendimentos somente se mostram permeáveis pela força ficcional.

O nó da questão se põe nestes termos: o de privilegiar a linguagem narrativa, objetivo principal de quem pretende fazer literatura. Na linguagem literária a matéria da vida se constrói pela deformação mimética de concepção aristotélica. Trabalha-se a linguagem no domínio da realidade possível, do verossímil ou do fantástico ou maravilhoso, cujo produto se torna mais estético quanto maior potencial de talento ou vocação revela o autor no tratamento exigido pela forma artística  por ele alcançada.
O entrevistador, talvez, insatisfeito com o testemunho do escritor, lhe faz notar que em outras obra do escritor considerada por este de ficção continha igualmente elementos do universo da História do e, no entanto, tinha sido rotulada de romance.

O entrevistado então lhe acrescentou que um tipo de narrativa se distingue de um mero relato ou ensaio histórico na medida em que pode colocar um “questão central” não respondida pelo concurso da História. Ou como faz o escritor espanhol Javier Cercas:(1)  elabora sua obra na confluência da história e da ficção “... em todo romance, a pergunta central fica sem resposta, o importante é a investigação”, conclui ele. Posto que a questão da fronteira entre História e ficção não deixe de embaralhar os espíritos, o que, em meu juízo, torna-se decisivo para a classificação em gênero ficcional seria, repito, a forma intencionalmente de criação literária que o autor imprime à sua narrativa sem a ausência daquele elemento diferenciador intrínseco, a linguagem artística.

O que o entrevistado, em geral enfatiza é o componente essencial na economia do discurso ficcional, acompanhado de seus múltiplos recursos retóricos, de seu emprego desprovido da exposição meramente factual ou empírica que obstaria a refundação de um mundo à parte, capaz de  suscitar a curiosidade e o prazer do leitor, não para que este se afunde num mundo sem consistência de vida plena, de verdades artisticamente convincentes, de uma arquitetura ficcional equilibrada no seu todo mercê da capacidade técnica e dos poderes de invenção e imaginação do autor. Seria, dessa maneira, aquele chamado “pacto narrativo”, no qual o leitor é arrastado ou atraído pelo que uma narrativa lhe oferece como forma de conhecimento real  proveniente da naturalidade de experiências alegres, tristes, problemáticas, conflituosas e extraordinárias.

Saber ficcionalizar - acrescenta o entrevistado  -  é libertar o leitor do  caos da vida real para um nova visão mais completa e variegada de perceber o mundo. . Em  amplos recortes da realidade. o ficcionista    assume,  sem constrangimentos, a condição de também poder levar o leitor a  partilhar essas imensas possibilidades de ver a existência  de uma perspectiva privilegiada que só a arte  pode  propiciar  num compromisso em que valores morais e estéticos se sobreponham sempre à selvageria e à anarquia como propôs F. Schiller (1759-1805) já na sua época e que tão atual ainda soa aos nossos ouvidos contemporâneos.

 Essas possibilidades de conhecimento, por via da literatura, só se tornam patentes quando o leitor se vê ante uma realidade tão fundamente “real” e até mais totalizadora de uma narrativa  enraizada sob a chama viva da recriação de mundos e vidas, de seres,  de espaços, de paisagens, de tempos habilmente manipulados e sobretudo costurados com os instrumentos necessários do talento de um criador que, pela linguagem e para a linguagem recodificada, em termos de originalidade e estilo literário, daquilo que os formalistas russos denominaram literariedade, muitas vezes tem a capacidade de surpreender outros criadores e de mudar-lhe hábitos e concepções de narrativa, como é exemplo o da  romancista Nathalie Sarraute (1900-1999) que, após a leitura da famosa obra de Marcel Proust, À a recherche du temps perdu, declarara se impossível ver o mundo como o tinha visto ate então, tal o choque e reação provocados pela obra de Proust. Para ela Proust representava ‘uma certa ordem de sensação’. Ou seja, essa visão nova apreendida da ficção proustinana compreendia ‘diversos níveis de consciências’ que, através do escritor, “procuravam confusamente a sua forma”.

Recordo que um colega de magistério me confessara há anos que, após a leitura de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, sua visão também tanto da vida quanto da arte lhe causou forte e saudável mudanças de concepções de literatura no gênero ficcional.

O entrevistador, que ainda dispunha de algumas perguntas a fazer ao escritor, resolveu dar por encerrada a entrevista. Contudo, para o leitor da entrevista ficou bailando no ar uma curiosidade teórica, a de que cada escritor tenta mostrar seu processo criativo, mas se percebe que ali deixou escapar o principal que, na minha opinião, amiúde é posto de lado: o significado epistemológico do que sejam os mais diversos meios e recursos de que a ficção dispõe  na difícil tarefa da arquitetura da obra. Desses meios e recursos intuímos alguns, mas não  todos  em  cada   escritor, cujas razões últimas de procedimentos compositivos nunca são realmente reveladas.

Esse pulo do gato é escamoteado por vezes e é ele que provoca o silêncio das palavras. Aquelas razões últimas permeiam esse silêncio e pausas, assim como sua impossibilidade de se expor, por completo, ante o fenômeno literário, às verdades que gostaríamos de conhecer porque, ademais, o silêncio deixa um vazio, provoca dúvidas e ambiguidades, traços que não podemos negar no fenômeno literário, pois desvelariam  (ou não) o segredo ou o mistério necessários à permanência da essência  da literatura. Cada escritor guarda para si uma carta na manga.. Só que não a entrega a ninguém e com ele morre.





NOTAS

(1)  FREITAS, Guilherme. A realidade da ficção. In: O GLOBO, Prosa & Verso, 26/05/2012, p. 1-2


(2) SCHILLER, f. La educacion estetica del hombre. Trad. de Manuel G. Morente. Terceria edicion. Buenos Aires: ESPASA-CALPE ARGENTINA, S.A., 1945.

(3) BOURNEUF, Roland e OUELLET, Real. O universo do romance. Trad. de José Carlos SEABRA Pereira Coimbra: Livraria Almedina, 1976, p. 286-287.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Um poema de Matthew Arnold (1822-1888)




Longing



Come to me in my dreams, and then

By day I shall be well again!

For then the night will more than pay

The hopeless longing of the day.



Come, as thou cam’st a thousand times,

A messenger from radiant climes,

And smile on thy new world, and be

A kind to others as to me!



Or, as thou never cam’st in sooth,

Come now, and let me dream it truth,

And part my hair, ad kiss my brow,

And say: My love, why sufferest  thou?



Come to me in my dreams, and then

By day I shall be well more than pay

The hopeless longing of the day





Saudade



Em sonhos me surges. Por isso

Amanhã outra vez melhor me sentirei!

Muito mais consoladora ser-me-á a noite que

A saudade do dia sem esperança.



Surge, como fizeste infinitas vezes,

Mensageiro de fulgurantes regiões,

E sorri no teu novo mundo, sendo

Tão dócil aos outros quanto a mim foste!



Ou então, como jamais chegaste na verdade,

Surge, agora, transmudando-me o sonho em realidade.

Parte-me ao meio os cabelos, beija-me o rosto

E dize: Amor meu, por que sofres?



Em sonhos me surges. Por isso

Amanhã outra vez melhor me sentirei!

Muito mais consoladora ser-me-á a noite que

A saudade do dia sem esperança.







                                                     (Trad. de Cunha e Silva Filho)









quinta-feira, 17 de maio de 2012

Uma luta de Sísifo







Cunha e Silva Filho


Durante boa parte do meu tempo de magistério lecionando no ensino fundamental e médio particular e no nestes mesmos níveis por concurso de provas e títulos no ensino público municipal e estadual, quase estou firmando a convicção de que os professores brasileiros lutam em vão. Uma vez, uma diretora de uma escola municipal, no meu início de carreira, me alertou para que não continuasse no magistério, uma vez que ele só me traria dissabores, o que se traduzia em baixos salários, falta de perspectivas e promessas por parte dos governantes de que as coisas melhorariam.

E assim foi.Entravam governos e saíam governos, e a situação angustiante continuava. Parecia um castigo dos deuses profanos ou das mensagens dos oráculos. contra a nobre carreira do professor. Os salários eram tão baixos que um professor nem mesmo poderia financiar uma casa própria, alugar um modesto  apartmento,   sobretudo se o professor tinha família e todos dependiam de seus minguados salários. Longos anos se passaram, e nada melhorou substancialmente. E sabem por quê? Porque os governantes não respeitam a classe dos professores, com exceção do nível superior e mesmo assim apenas nas universidades púbicas (e algumas particulares) que, da mesma forma, já passaram por péssimos períodos nos quais os professores tinham vencimentos incompatíveis com a relevância da cátedra superior e a manutenção dos trabalhos de pesquisas. Programas humoristas, novelas de televisão, passaram a caricaturar a situação dos professores. A escola do professor Raimundo do Chico Anísio (1931-2012) foi um deles..

.Ora, essa dessacralização dos docentes, na consciência de uma sociedade que valoriza o fetiche do status econômico, sofre a influência negativa da caricatura e,  por sua vez, passa a desvalorizar a vítima carnavalizada.  Na época, escrevi artigo criticando o citado programa de humor. Ou seja, o humor ali teve efeito negativo e não de castigar os responsáveis pelas péssimas condições sociais do docente.

Não sou prosélito do governo do Presidente Lula, mas estou convencido de que, no seu segundo mandato, ele foi o único mandatário que valorizou os professores universitários e os professores federais dos níveis fundamental e médio. Daí o respeito que as universidades têm tido por ele, daí os títulos de Doutor Honoris Causa que lhe têm sido outorgados.

Ao contrário, governadores e prefeitos, e vejo pela perspectiva de minha experiência como cidadão que mora no Rio, tanto no tempo da ditadura, quanto na fase democrática, pouca atenção deram aos professores públicos. Os movimentos de  grades e demoradas  greves deflagradas contra o governo do estado do Rio de Janeiro e a prefeitura do município do Rio se tornaram homéricas até que houve um período de exaustão por parte dos professores. Lideranças de professores se reuniam com representantes dos governos, às vezes chegavam a um acordo razoável de reajustes e de planos de carreira que prometiam seriam implementados. Algum tempo passava.  A inflação ia corroendo o que se conquistou e, dentro em pouco tempo, a situação angustiosa do arrocho salarial voltava ao despenhadeiro de Sísifo. Este teria que rolar novamente a pedra para cima do rochedo.

Foram inúmeras essas experiências malogradas. Governadores(inclusiveBrizola),   cariocas e prefeitos cariocas  não cuidaram bem do ensino. Um prefeito do Rio, o Saturnino Braga chegou mesmo a falir as finanças da prefeitura, levando os professores municipais a um estado de penúria, falência administrativa - diga-se a bem da verdade – só sanada pelo prefeito Marcelo Alencar. Nos meus longos anos de magistério, rigorosamente nunca houve um bom governante que privilegiasse a educação. A expressão plano de carreira se esvaziou do seu sentido concreto, virou retórica vazia de promessas mentirosas de candidatos a governos estaduais e a prefeituras. Lembrava uma afirmação triste e desanimadora de um ex-governador de São Paulo, Orestes   Quércia,  segundo a qual professores nunca teriam bons vencimentos. Era o castigo de Sísifo que parece permanecer até os dias atuais.

Agora mesmo, os professores municipais do Rio de Janeiro estão se mobilizando para uma assembleia a ser realizada na UERJ e ao mesmo tempo levando proposta salariais que seja mais digna do exercício do magistério. A atual  situação  dos professores é vergonhosa  para o  povo carioca, ao passo que as reivindicações justas da parte dos  docentes, se atendidas, melhorariam as aflições do professorado. Desanimados, tendo perdido o prestígio da sociedade que os vê como pobres citados, sem status social e sem dignidade e respeito da população, os professores cariocas estão empunhando uma bandeira que há tantas décadas tem enlameado os valores da saber, do estudo tão essenciais ao desenvolvimento de um nação que se quer enfileirar-se entre as sociedades desenvolvidas tecnológica e cientificamente,como a China, o Japão, os Estados Unidos, a França, a Alemanha, a Suécia,, entre outros.

O Brasil não vingará em sua expansão  industrial e tecnológica se não preparar seus filhos das camadas mais pobres ou paupérrimas em escolas com professores bem formados, atualizados, bem remunerados, com um sistema de educação sintonizado com o mundo moderno. Não é somente distribuindo aparelhos da área da informática, através de processos de inclusão digital, que as nossas criança e jovens sairão do buraco da ignorância e e de uma educação deformada. Não adiantam prédios bem equipados se lá dentro não existem professores bem pagos e desejosos de levar a educação brasileira a uma patamar de níveis das melhores escolas públicas do mundo.

Investir em verbas para a educação que não sejam desviadas para outros objetivos desconhecidos e inconfessáveis é imperativo de um governador ou de um prefeito bem intencionado e que respeita a formação cultural dos alunos. Reciclar professores é importante, mais importante ainda  é dotar os mestres de uma vida condigna para desenvolver suas aulas, estudar, aperfeiçoar-se e, assim, devolver aos alunos toda a sua experiência e resultados de estudos.

Na luta entre campanha salarial e melhoria do nível de ensino de nossas escolas municipais e estaduais devem estar envolvidos constantemente, além dos professores, mães e pais dos educandos, sempre juntos, de mãos dadas, cobrando eficazmente das autoridades educacionais medidas concretas e não paliativos ou promessas que, até hoje, não têm sido cumpridas. Nomear também para secretários de educação professores, pedagogos ou educadores de reconhecido valor moral e intelectual e não apaniguados políticos é outra  exigência imeiata.e fecunda. Eliminando esses obstáculos altamente nocivos à educação seria um grande passo de um governante que respeita seus eleitores e o dinheiro do contribuinte. Do contrário, a luta dos docentes será um trabalho de Sísifo..

terça-feira, 15 de maio de 2012

No país das CPIs









Cunha e Silva Filho


Tempos atrás já houve o famigerado “Mensalão.’ Os jornais, os canais de televisão, as rádios, o povo só falava de um assunto: formação de quadrilhas, lavagem de dinheiro, superfaturamento, pagamentos de propinas, tráico de influência, lobbies, dinheiro metido nas cuecas, cenas de imoralidade política e mau-caratismo entre gente do governo federal (tempo de Lula) e do setor privado. O desenlace: da tragicomédia: a impunidade com poucas perdas para os acusados.  Os envolvidos estão aí, dando consultoria escrevendo para jornais de grande porte, ou mesmo exercendo ainda a política.

A Folha de São Paulo, à semelhança de folhetins do século 19, publicava, em várias páginas, iguais a capítulos, todos os passos dos desdobramentos da “vergonha nacional”. Ninguém sabia de onde vinha a verdade dos fatos, ou se sabia, ficava calado, mudo como uma pedra. Não a de Drummond (1902-1987) no meio do caminho, que é uma outra história e nada tem com o país da impunidade para os ricos.

Grandes jornalistas, na trincheira do extinto Jornal do Brasil, como Fausto Wolff (1940-2008), jornalista corajoso, ficcionista, tradutor, e Ivo Barroso, poeta, ensaísta e grande tradutor, disparavam seus tiros certeiros nas feridas da imoralidade nacional . Que pena que for por um período breve e justamente na época do “Mensalão.”

Enquanto isso, no exterior, a imprensa áulica, politicamente correta, onde o pensamento do articulista é técnico, impessoal, objetivo, sem originalidade e sem independência , sem marca pessoal, sem emoção e muitas vezes informativamente distorcido, só tinha mimos e loas para o Presidente Lula e, ao se referir a ele, o classificavam como Presidente da esquerda. Ora, se Lula nunca leu uma página de Marx, que é obra dificílima, mais citada do que propriamente lida, e “abstrusa” como há muito tempo um combativo jornalista a ela se referiu, como poderia ser um homem de esquerda bem fundamentada? Só se era do tipo de Leonel Brizola (1922-2004) que, seguindo Darci Ribeiro (1922-1997), era mais “ audível,” lia pouco. Aliás, os conceitos de ideologias modernamente se embaralharam e se infiltraram uns nos outros de tal sorte que, hoje em dia, ninguém nunca sabe quem é da direita, da esquerda, do centro, dos extremos. Ideologia que neles não passa de leituras de gabinete e não de exposição às reivindicações do homem da rua, das periferias, dos morros, dos lugares, onde a pobreza se choca com os grandes hotéis onde são hospedados, ou das mansões onde moram, ou dos restaurantes sofisticados que frequentam aqui ou nas ricas capitais da América e da Europa.

O PCB de Luís Carlos Prestes (898-1990), homem sério e bem intencionado, já não é o mesmo e até se desdobrou em PC do B, cujos membros e prosélitos, ao que saiba, não têm lá suas afinidades com o controle do Estado, a falta da liberdade, e um regime de força sinônimo de ditadura do Estado Ora, seus seguidores são, pela usos e costumes de vida, mais para a burguesia capitalista e o neoliberalismo do que para as convicções extemporâneas dos princípios de Karl Marx (1818-1883) e Friederich Engels (1820-1895). São comunistas para uso externo, como bem poderia, se fosse vivo, ter afirmado meu pai, que era defensor de uma democracia social.

Deputados da esquerda ou da direita, se tanto, se distinguem mais por algumas tendências voltadas para a dimensão social, para a causa dos menos favorecidos e isso apenas do ponto de vista teórico. Isso serve só para dar alguma satisfação aos eleitores que ainda acreditam em promessas de políticos.Vejam a vida que levam, os gordos salários que percebem regiamente na Câmara e no Senado.Abrirão mão deles? “Never more” diria o célebre poema de Edgar Allan Poe (1809-1849). Não passam alguns deles dos  burguesões adiposos da ode marioandradiana travestidos de socialistas ou de comunistas, em cuja bandeira partidária tremula esvaziadamente o sentido da foice e do martelo.

O arcabouço político-jurídico é tão complexo e tão cheio de meandros burocráticos e de hierarquias que um membro do Supremo pode expedir uma contra-ordem nas sequência de trabalhos de uma comissão parlamentar de inquérito, constituída para investigar envolvimento ilícito de um senador da República com um conhecido empresário e bicheiro, o Cachoeira. Por que Cachoeira não poderia comparecer agora à convocação dos membros da CPI? Teria foro privilegiado?

Que eu saiba são conhecidas amplamente do público esclarecido as informações que dão evidências suficientes de que o bicheiro tem relações de negócios escusos entre políticos e outros empresários,    não escapando até governadores brasileiros. A própria Polícia Federal, em sucessivas informações liberadas à grande imprensa, mostra diálogos comprometedores de conversas telefônicas entre as partes envolvidas na CPI.

Todos os três poderes só funcionarão plenamente se se  mostrarem isentos, imparciais e desejosos de elaborarem e cumprir a lei e, se no caso uma lei não está surtindo mais efeito, que seja suprimida e  reelaborada uma nova lei para atender a situações que não permitam as chamadas brechas ou sutilezas prontas a serem empregadas para proteger poderosos corruptos. No dia em que o indivíduo rico for para a cadeia como qualquer outro mortal do nosso povão, será possível acreditar num país democrático e livre.

A formação moral integral, como queria um eminente educador português deve ser um ditame imperioso na formação educacional e ética do indivíduo. Convergir nossos políticos, nossos governantes e nossos magistrados para a unanimidade em relação à formação educacional sob os dois pilares - conhecimento e moralidade de conduta - não seria a unanimidade burra de que falava Nelson Rodrigues (1912-1980). .É ainda tempo de mudarem os nosso homens públicos e os nossos líderes. Já se foi a era dos grandes talentos políticos, da alta cultura político-jurídica, dos grandes tribunos, parlamentares, das antigamente chamadas “reservas morais”. Hoje, vivemos a pasmaceira, a mediania,  a ausência de lideranças confiáveis.Em vez da política, a politicalha de que falava Rui Barbosa (1849-1923). As CPIs ilustram esse declínio de valores em extinção.