terça-feira, 18 de julho de 2017

AVISO ÀS AUTORIDADES BRASILEIRAS




                                                          Cunha e Silva Filho

             Cansado estou  de ver e ouvir entrevistas em todos os meios  de comunicação, nas quais   especialistas em segurança  dão algumas sugestões para que  a gravíssima   questão de violência no Rio de Janeiro seja amenizada. Entretanto,  não são postas em prática nem as sugestões   de especialistas, nem as autoridades  do governo  estadual  cuidam de dar um basta à selvageria  a que se tem assistido principalmente nos últimos meses na antiga  “Cidade Maravilhosa,” o ponto  obrigatório do turismo  internacional e nacional. Se medidas drásticas não forem  tomadas,  as consequências  dessa desordem urbana  preencherá   todas   as característica de uma cidade em guerra.
             Usando uma  metáfora já empregada  por muita  gente, diríamos que os morros estão descendo ao asfalto em todas  os bairros,  quer os nobres, quer os de classe média. O perigo  está à vista de todos os cariocas. O governador   do Estado e o prefeito do  município nada de importância  estão fazendo  para estancar  essa onda  tsunâmica  que se abateu sobre a cidade  do Rio de Janeiro. Estão matando os nossos policiais, estão matando  as pessoas de bem, estão matando  crianças e adultos  com balas perdidas. O banditismo,  que vem de  dos quatro  cantos da cidade,  está fechando  túneis, para realizar  arrastões vitimando  inocentes e desprotegidos, provocando  terror como capetas vindos  das profundezas do inferno.
             Cidade sitiada,  partida,  dividida em facções da alta bandidagem trucidando-se entre si para se apoderarem  de  pontos de vendas de drogas, usando armas  pesadas, mais potentes do que as  dos agentes policiais. Isso é uma infâmia de  que as autoridades   parecem  não se dar conta. Não é mais  possível  viver-se em paz, e andar  livremente pelas ruas do Rio de Janeiro. A população é unânime (e aqui a unanimidade   não é burra como no tempo de Nelson  Rodrigues (1912-1980). Só alguém insano  poderia afirmar que estamos  exagerando   na dose de reconhecer que  o  Estado  do Rio de Janeiro  não está em perigo. O maior  problema  do país não é a economia,  o desemprego,  a  corrupção. O maior de todos é a violência  tentacular  que está   desmoralizando  os brios de uma cidade antes encantadora  por sua beleza estonteante  e pelo sua hospitalidade.
             O presidente  Temer  é o rei nu, e assim também o é o governador Pezão que,  por sinal,  me disseram estar fora do  país. Que lástima! Nem o alcaide   evangélico  mostra a sua graça  diante da mais  desastrosa  e delicadíssima   situação   de perigo  em que vive  o Rio de Janeiro.
        Vejam mais esta: o atual Ministro  da Justiça, ao ser perguntado pelo  apresentador  do programa policial  Brasil Urgente (programa que deveria ser  visto  diariamente pelo  presidente Temer, pelo governador do Rio e pelo  prefeito Crivella)  dirigido  pelo  experimentadíssimo  Datena,  da Rede Bandeirante, sobre a questão  da desproporcional  violência no país e, sobretudo no Rio e São Paulo, o ministro de plantão simplesmente  declarou  que seriam  precisos dez anos a fim de que  se resolvesse a violência  no país.   Que é isso,  ministro? Dez anos ? Até lá o número de mortos  provocados pela  marginalidade  infernal  será avassalador e equivalerá a uma guerra civil. Então,  ministro teremos que  aguardar a boa vontade  dos políticos, da situação  das nossas finanças, da nossa economia, da nossa impunidade a fim que que  possamos  iniciar  uma  guerra contra a violência? Isso não tem cabimento. 
         A realidade  crucial  é que  a violência tem que ser atacada  de imediato,  com  todos os recursos  de que o governo   federal  dispõe, seja    pela convocação das Forças Armadas coadjuvada pela Polícia Federal, pelos  polícias  estaduais, militares e civis,  pelas guardas  municipais, até mesmo  pelo  cidadão  de bem  armado, por que não?
        O problema da violência exige tratamento  do governo  federal igual àquele que seria necessário  pelo instrumento legal e constitucional que se chama Lei de Segurança  Nacional tal  é  complexidade  da violência  que  nos  assusta, nos apavora  e nos  está provocando  tantas vítimas inocentes   e o  justíssimo clamor  generalizado dos que  se sentem  desprotegidos  pelos segurança  pública, que é obrigação do Estado Brasileiro.
        Ora, se o Ministro da Justiça não tem  nenhum   plano emergencial  de combate ao banditismo sem termo  que assola a vida da sociedade brasileira, quem  o fará? Então,  estamos  condenados  ao sofrimento  e a possibilidades  constantes e iminentes de  perdermos  as nossa vidas e as vidas de que amamos? Que é isso,  senhor ministro? Não é favor  pedirmos o apoio  legal  do governo pela nossas vidas. A sua  Pasta  tem a obrigação  de equacionar   soluções  rigorosas  para dar   combate à carnificina   nacional, aos abusos dos  facínoras que se veem  fortalecidos  diante da fraqueza, incompetência  e  descaso    dos governos  federal e estaduais.
       Se não fizeram  as autoridades de  segurança   do país  alguma coisa  urgentíssima, a indiferença  governamental  seria  crime contra  a sociedade. Os políticos,  os ministros,  os  governadores,  os prefeitos sabem que eles não ficarão ilesos   dessa  violência  descomunal. Sabem que têm filhos,  parentes e amigos que  poderão  também ser vítimas fatais  dessa  violência  indiscriminada que nos   deixa atemorizados  e acuados.
       Não podemos continuar perdendo  nossos  filhos,  nossos pais,  nosso  parentes e amigos diante  das metralhadoras nas mãos de  assassinos cada vez mais ousados, cada vez mais  senhores de que  estão  livres para  fazer vítimas   em qualquer  hora, em qualquer lugar. 
       Que se apressem  os nossos  legisladores para  modificarem e atualizarem  o Código Penal e façam cumprir à risca  as punições contra  os criminosos,  adultos e menores.  Não se pode  passar a mão na cabeça de  delinquentes juvenis. Que as leis  da justiça sejam  postas em ação urgentemente. Que os sentenciados, pobres ou ricos,   cumpram   seu período nas prisões  de forma  integral,  que se   eliminem  os abusos  da justiça  soltando  bandidos,  malfeitores,   estupradores,    feminicidas, criminosos  hediondos  e deixem de proteger  presidiários  empregando  brechas  da justiça, e expedientes  espúrios como   comutação de penas,   bom comportamento e assemelhados.
      É tempo  de que os sentenciados sintam o peso da lei. Só assim  terão que pensar  duas vezes antes de cometerem   crimes. As leis  para criminosos  devem   ser bem claras  para eles de tal maneira  que se  sintam   dissuadidos  a não cometerem   ações delituosas. Que haja um cultura  da lei  contra  os criminosos nestes termos:  se cometerem  um delito, serão  punidos  sem dó nem piedade. É o que devia ser  chamado de  “o fim da impunidade brasileira.”  É neste sentido que  esperamos  a resposta  sem delongas   das autoridades.
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Apenas memórias

Prezados leitores deste  Blog,  é com prazer que insiro, neste meu espaço virtual, mais uma resenha do  meu livro Apenas memórias (Rio de Janeiro: Quártica, 2016, 299 p.) Desta vez,  de um  professor, advogado e escritor  piauiense, José Ribamar Nunes.                               

                                 
                                      APENAS MEMÓRIAS
                                                                             José de Ribamar Nunes(*)  

          Ao ler Apenas Memorias, de Cunha e Silva Filho, brilhante escritor piauiense, radicado no Rio de Janeiro, fiz uma viagem prazerosa por Teresina da década de 50 e 60 do século passado. 
          A leitura me seduziu desde as primeiras páginas. Agradável, leve, através da qual se vai penetrando no mundo do autor, a partir de suas origens em Amarante e     das recordações do seu pai, jornalista e professor Cunha e Silva, polivalente, culto e sábio. O pai fundou o velho Ateneu de Amarante, no qual lecionava várias disciplinas e foi por ele conduzido durante anos, até sua mudança para Teresina, no final da década de 40 do século passado.
          As lembranças de sua mãe, dona Ivone, onde se capta o grande amor filial por sua genitora, que deu à luz treze rebentos, o que era normal naquela época, em que ainda não se falava em controle de natalidade e ter muitos filhos era quase regra.  Percebe-se que era maior a afinidade do autor com o pai, não só pela grande afetividade entre eles, como pelos vínculos intelectuais, pois conversavam na mesma linguagem.
Relembra a vinda da família para Teresina, quando o autor contava com apenas 3 anos de idade, e já despontava com a mente aguçada, captando impressões da capital teresinense nos anos 50.  A vida da família na Rua Arlindo Nogueira esquina com a Rua São Pedro, as andanças pelo centro de Teresina, os filmes do cine Rex e Teatro  4 de Setembro, a relação com os irmãos, os comportamentos típicos da época, tudo nos remete a momentos de adoráveis nostalgias de nossa infância(somos da mesma geração).
Refaz a imagem do quarto-biblioteca, onde o prof. Cunha e Silva gostava de deitar-se na rede, e o menino costumava refugiar-se para manusear os livros do pai, o que já denotava a vocação pueril para as letras, que depois se concretizaria no escritor que é hoje. Uma cena sublime daquela época é quando ficava alisando a cabeleira do pai, deitado à rede do quarto-biblioteca.
Recorda a ida do jovem Francisco para o Rio de janeiro, em 1964, aos 18 anos de idade, para buscar seus sonhos e ali lutar com todas suas forças, coragem e inteligência para, destacando-se no cenário nacional no mundo acadêmico e literário, como professor de inglês e português, atingindo o grau de doutorado, ensaísta e escritor.
Cunha e Silva Filho nos fala com coragem das próprias agruras, da vida de um estudante numa cidade grande, distante da família, vivendo com pouco dinheiro. Não se furta a rememorar as decepções da vida e as frustrações. Narra também o lado belo, como seu amor por D. Elza, piauiense que fora aluna do seu pai, mas só veio a conhecê-la no Rio de Janeiro e com quem se casou em 15 de julho de 1967, agora completando 50 anos de feliz convivência.
Não esquece também os amigos, principalmente quem o ajudou nos momentos de dificuldades, exaltando aqueles que realmente foram importantes em sua vida e cuja amizade mantém até os dias atuais. A lembrança das primeiras aulas na Faculdade Nacional de Filosofia, da professora Zoé Pedrinha, que citava o Filólogo Evanildo Bechara, já um nome de destaque à época, e o fato de ter sido aluno do poeta Augusto Meyer e de Joaquim Matoso Câmara Jr, o nome de maior relevância, considerado o “Pai da Linguística” no Brasil.
É um livro repleto de lembranças da terra natal, de Teresina, do Rio de Janeiro, da família, da vida escolar, dos amigos, dos professores, colegas de aula. Também é rico em lições de vida, principalmente para os jovens, no sentido de mostrar como é possível transpor as barreiras da vida com estudo, trabalho e dignidade, conquistando posição de destaque nas letras, no meio social e acadêmico como um brilhante intelectual.


*Advogado, professor e escritor. Brevemente estará lançando um livro, se não me engano, de memórias.

          

domingo, 16 de julho de 2017

Tradução de um poema de Frederico García Lorca (1898-1936)

Tradução de um poema de Frederico García Lorca (1898-1936)

                                    

                               Es verdad

                    ¡Ay, qué trabajo me custa
             quererte como te quiero!
              Por tu amor me duele el aire,
              el corazón
              y  el sombrero.
               ¿quién me compraría a mí               
                 este cintillo que tengo
               y esta tristeza de hilo
               blanco, para hacer pañuelos?

              !Ay, qué trabajo me custa
              quererte como te quiero!
                                                      
                              
 É verdade
            
                Ai,  quanta dificuldade arrostada
            por  te querer como a ninguém mais!
            Por te amar me doem o ar,
            o coração
            e o chapéu.

              Quem de mí  compraría
         esta  fita que aqui levo
         e esta tristeza de algodão
         branco  com que se tecem lenços?
                                                           

             ⁢Ai, quanta dificuldade arrostada
         Por querer-te como a mais ninguém!
                                                                       
                                                                           (Trad. de Cunha e Silva Filho)




                   


quarta-feira, 12 de julho de 2017

LEITORES DE JORNAIS PARA TODOS OS GOSTOS E OS AUSENTES



                                                                                                        CUNHA E SILVA FILHO

        O Brasil e o mundo são cheios de contradições que não deixam de nos surpreender à medida que envelhecemos. Não quero, contudo,  falar do mundo, esse “vasto mundo” drummondiano. Quero me restringir ao meu país, do qual tenho mais conhecimento. Dito isso,  quero falar aos que me leem de leitores de jornais e de suas idiossincrasias, preferências,  aversões,  indiferença, desistências, não como resultado  de pesquisas de campo ou de estudos  com  estatísticas,  gráficos complicados  etc. Simplesmente fazer alguns comentários  a respeito do assunto que, aliás, sempre me fascinou.
    Creio que não estou sozinho  nessa visada sobre leitura de jornal. Vou me guiar apenas pelo que posso observar  no tempo, nos anos, na minha própria experiência como leitor da velha guarda. Vou começar dizendo que professores da área de Letras já declararam, em diversas ocasiões, em sala de aula ou mesmo  em entrevistas,  que os alunos, mesmo os de Letras,  estão lendo cada vez menos. Se realmente essa é a realidade  presente,  como é que vemos tantas feiras de livros,   encontros de  autores com  leitores, rodas de leituras, surgimento de tantos  autores nos diversos  domínios da literatura, leitores-mirins, juvenis, adultos, idosos? E isso no país todo.
   Mas alguém pode me perguntar: “Você fugiu do assunto do artigo.” Realmente,  estou fugindo, mas não tanto porque há e houve sempre  uma  relação íntima entre a literatura  e o jornal. O próprio jornal, hoje em dia,  por vezes,  tem algum espaço, ainda que magro,   para a literatura.
     De resto, a literatura no  país esteve sempre  de mãos dadas com  o jornal, desde os tempos em que se publicavam os velhos folhetins,   romance  ou “novela em folhetim” (roman feuilleton), conforme prefere nomeá-los  Massaud Moisés (Dicionário de termos literários, São Paulo: Cultrix, 6 ed., 1992, p.231-231) com capítulos publicados semanalmente, ansiosamente aguardados  por leitores compostos sobretudo  de   mocinhas  românticas  do século  XIX que se deliciavam com as histórias de amantes apaixonados, no auge do Romantismo  brasileiro, narradas por Joaquim Manuel de Macedo ( 1820-1882), José de Alencar (1829-1877)  e, mais remotamente, no início da ficção nacional, com as aventuras rocambolescas, de tipos sociais populares, alguns   marginalizados, que aparecem nos folhetins de Teixeira e Sousa (1812-1861), autor de O filho do pescador (1843). 
       Esse tipo de modalidade  literária viera da França e teve como seu mais  celebrado  autor  Eugène Sue (1804-1957), estreando tal novidade com  a obra Les mistères de Paris (1842-1842), em dez volumes. Na Inglaterra, também teve voga. Porém, foi na França que contou com seus grandes cultivadores, Honoré de Balzac (1799-1850) e  Alexandre Dumas,  pai (1802-1870).
      No século XX esses folhetins encontrariam substitutos, como a telenovela, às quais o crítico Afrânio Coutinho (1911-2000) considerou, devido às suas  possibilidades estéticas e comunicativas, amalgamando  em si os gêneros do “antigo folhetim, da ficção, do teatro e do cinema”   um novo gênero literário, uma espécie de folhetim-eletrônico (Apud  SOUSA DANTAS, José Maria de. Didática da literatura. Rio de Janeiro: Ed. Forense-Universitária,1982, p.181-183). Entre os anos  1950 e 1960, aproximadamente,  caíram muito no gosto  popular as revistas de conteúdo  romântico,  piegas, que deliciavam  as adolescentes e até mesmo alguns rapazinhos  ávidos de todo tipo de leitura. Tornaram-se  famosas revistas como  “Capricho,”  “Grande Hotel,” “Ilusão” e outras em tempos em que não havia a televisão em capitais mais atrasadas  do país.    
   Eu mesmo, conforme narrei no meu livro Apenas memórias (Rio de Janeiro: Quártica,  2016), fui leitor  assíduo dessa  publicações e não tenho   constrangimento  de  afirmar isso, já que, para mim,  até leituras  consideradas  subliteratura  prestam, de alguma maneira,   um serviço de  aprendizagem e de experiência  humana, principalmente porque essas fotonovelas, tanto quanto os quadrinhos de Tarzã, de Super-homem,  Mandrake, Homem-Aranha,  Batman   e de outros grandes heróis dos quadrinhos,  não obstante  usando a linguem escrita,   eram  enriquecidos  por belas ilustrações, algumas coloridas,  com  os balões  informando  o pensamento  dos personagens, as tirinhas  indicando as falas   destes últimos, o que, de alguma forma,  constituíam  complementos técnicos, gráficos, pictóricos que as aproximavam  do cinema e de outras formas de comunicação da indústria cultural.
    Ganhou também  a comunicação do entretenimento  de massa pelo fato de que algumas de suas modalidades  foram  acolhidas  para o corpo do jornal. No entanto,  não perdi de vista o fio condutor  que intento associar ao jornal e aos leitores  deste veículo escrito ou  virtual. Para deixar bem claro,  tomo  o sentido de jornal nesta discussão  como veículo  impresso, vendido nas bancas de praças  ou de shoppings ou mesmo  nas calçadas  de uma cidade. Ou seja, tenho em conta  a concretude, a materialidade  do jornal,  que osso usar, pegar  como as minhas mãos,  descartar partes que não me interessam e lê-lo  num dia ou  em mais de um dia, inclusive dele fazer recortes  para pastas de  arquivos.
     O que mais me chama atenção nos leitores de jornais é um fato  que tenho verificado nos últimos tempos: as pessoas  não mais leem  tanto jornais, como se fazia  habitualmente   em tempos idos. Uma vez,  uma  pessoa culta,  refinada , ainda jovem me falara  que não mais se  interessava  por ler artigos,  editoriais, cadernos de culturais,  suplementos  literários   etc. Fiquei perplexo  a ponto de falar com meus botões: “Mais é isso  mesmo o que está acontecendo, ninguém quer mais ler  aquilo  que  faz  pensar,  que  nos exige  a reflexão,  o interesse pelas grandes questões,  pelos problemas que afligem o nosso país e o mundo globalizado? Meus Deus, estamos perdidos?” Foi aí que me veio a ideia de  listar  tipos diferentes de leitores de jornais, que abaixo  relaciono:

1.    O leitor de política nacional;
2.    O leitor de notícias, reportagens e crônicas  de esporte, sobretudo o futebol, aqui no Brasil;
3.    O leitor de política internacional;
4.    O leitor de classificados;
5.    O leitor  de cadernos  culturais;
6.    O leitor de articulistas e de cronistas;
7.    O leitor de páginas do colunismo  social;
8.    O leitor de manchetes;
9.    O leitor da seção de economia;
10. O leitor que protela a leitura para o dia seguinte e vai protelando até que não mais consegue ler aquela edição e guarda o jornal num determinado lugar  de  sua casa;
11. O leitor que só lê  jornal duas vezes por semana, ou por três vezes,  quatro vezes, cinco  vezes, seis vezes e deixa para ler o jornal só nas edições de domingo quando  teria tempo  para  pôr  em dia algumas notícias;
12. O leitor que fila jornal  dos outros;
13.  O leitor-jornaleiro  que não lê jornal;
14. O leitor que compra  jornal ou faz uma assinatura e não lê nada nas duas situações.
15. O leitor que não lê alguns jornais por não acreditar na ideologia  imprimida ao jornal;
16. O leitor,  em geral  intelectualizado,  que afirma ler três ou quatro jornais  por dia...;
17. O leitor que não gosta de jornal;
18. O leitor que quer ler o jornal,  mas não tem  dinheiro  para comprá-lo;
19. O leitor que não  compra  alguns jornais porque  diz que não vai entender  o conteúdo  do periódico;
20. O leitor que só gosta de ler jornais em outra língua por ser um suposto  highbrow;
21. O leitor que só lê os jornais considerados  de massa, com uma linguagem  mais  palatável e sem a complexidade intelectual  dos chamados jornais  das elites, da burguesia e classe média letrada.
22.  O leitor queda um tempo  para a leitura de um certo colunista  ou mesmo  para outros, e, depois,  volta à leitura deles.
23. O leitor que não mais lê jornais impressos, mas foi conquistado pela leitura virtual.

Poderia, se o quisesse,  listar mais outros tipos de leitores de jornais, contudo,  vou terminando  aqui mesmo. Porém, antes veja o leitor em qual/quais  das situações acima se encaixaria. Não lhe estou pedindo que me revele o resultado de  sua escolha. Enquanto  isso,  fique o leitor pensando nesse assunto que me é tão caro e sério. Em antigos artigos sobre a relação  entre leitor e jornal,  já  expus o que pensava e penso sobre o tema, inclusive sobre as minhas preferências  e  desinteresses.
         Estou pensando naquela recomendação que, um dia,  li em Antonio Candido (1918-2017), segundo a qual  o grande crítico  nos aconselhava a ler jornais com constância. Só teríamos a lucrar com isso  do ponto de vista  cultural e até para melhorar a nossa própria  expressão escrita, inclusive seria saudável aos escritores. Boas leituras de jornais, pois, ó caro leitor!

      
      
      
     

   

sábado, 8 de julho de 2017

VILANIAS PÚBLICAS CONTRA O ESTADO DO RIO DE JANEIRO


                                                                    Cunha e Silva Filho

          Inúmeras são  as omissões e mesmo    a falta de  competência  aliada a ações  perversas  de que o Estado do Rio de Janeiro e a sua capital em especial têm sido vítimas desde o  início do desgoverno  de Sérgio  Cabral que destruiu os fundamentos econômico-financeiros desse Estado.     
           Cometendo o ex-governador o maior desfalque ao erário  público, via propina, de que se tem notícia na história dos governadores  brasileiros, o mais odiado governador fluminense, a par do autoritarismo  que  imprimiu ao seus dois mandatos, foi a causa principal e o  maior responsável pelo que o fluminense e o carioca  estão sofrendo duramente, sobretudo  os funcionários  públicos, alguns levados ao desespero,  outros   compelidos a pedirem até  esmola,  privados que ficaram  dos seus  vencimentos  ou do pagamento   em migalhas  feitos ao funcionalismo  aposentado,  justamente  quem  deveria ser  mais amparado   pelo governo.
          O curioso  é que ou sucessor,   o governador  Pezão,  um indivíduo  fraco  e incompetente para dirigir um  Estado importante e populoso  como o Rio de Janeiro, tem pago  regiamente  outros setores do governo, em geral os que mais  recebem,   os de altos salários como  os poderes legislativo e judiciário  e seguramente  os funcionários do primeiro escalão do governo estadual, como  o próprio salário do governador,  do vice-governador,  dos setores de segurança, entre outros  setores beneficiados  e, por isso,  não estão sofrendo as agruras  da falta de dinheiro, como no caso dos barnabés.
       Não bastando  tantas desgraças e  injustiças  sofridas  pelo funcionalismo, outra vilania  que merece  ser acentuada com veemência e  sentimento de justa  indignação  é o  que o governo  estadual  tem feito com  a Universidade Estadual  do Rio de Janeiro (UERJ) que tem  atravessado os dias mais amargos desde a sua  criação. Vítima de um processo contínuo de esvaziamento, de perda de autonomia  e de  condições financeiras cada vez mais  precárias, encontra-se essa universidade  incapaz   de dar continuidade  à sua administração normal, ela que tem    conta com um quadro docente do mais alto nível nos seus mais  diversos cursos. Só num país como o nosso, no qual a educação  é tratada em segundo plano,   uma universidade  pública  chega a esse estado de penúria, sem poder  funcionar  plenamente,  sem condições  materiais e humanas  e de infraestrutura (elevadores  parados,  banheiros  em  petição de miséria, serviço de limpeza  deficiente, entre outras exigências mínimas).
        Diante de toda  essas precariedades,  os funcionários já ameaçam  entrar em greve geral. Com isso, são prejudicados os estudantes no avanço de seus  cursos,  na sua  conclusão  e  formaturas, com  gravíssimas consequências na vida   dos estudantes  e  na sua futura atuação  profissional. Quanto  mais o universitário se atrasa nos cursos  escolhidos, tanto mais  prejudicada  ficará  a sua  futura  vida profissional.
        Ora,  impedir  a continuidade  normal  das atividades  universitárias  se me afigura um crime contra a cidadania e contra  a liberdade  do  estudante. Ele não tem culpa  dos atrasos  provocados pelas  interrupções  do seus curso. Ele não tem culpa de que, por exemplo, na condição de  estudante de medicina,  não haja um  hospital-universitário (na UERJ, o Hospital Pedro Ernesto, que  também  passa  pelo mesmo  processo de sucateamento) funcionando  normalmente para os estagiários dessa área e de áreas conexas.
     Todas essas mazelas -  sem dúvida verdadeiros crimes  contra o desenvolvimento educacional–cultural-científico-tecnológico de um Estado -,  que recaem sobre o Estado do Rio de Janeiro  - é quase impossível acreditar -  foram   provocadas  pelos crimes sucessivos  do  ex-governador  Sérgio Cabral e, ainda acresceria mais,  sem  nenhuma   providência  rigorosa   tomada pelo  Ministério da Educação e pelo   governo-tampão do Michel Temer  que, de resto e por infelicidade,  é do mesmo  partido  do   ex-governador e  do atual  governador, i.e., o PMDB.
       E, por causa disso,  é bem  evidente a razão pela qual  o governador  Pezão não foi ainda  alijado do poder. É bem verdade que também  o lulismo-delmismo   não está  isento de parcela de culpa, uma vez que o ex-presidente Lula e a ex-presidente Dilma,  tinham  como aliados   o PMDB. Não são poucas as imagens  gravadas  em que o  Sr. Lula se encontra,   sorridente,  e   abraçado com  o  odiento  Sérgio Cabral.  Nesse saco de  gatos da  politicalha  brasileira torna-se  difícil  separar  o joio do trigo.    
    São atores que se misturam  na falta de caráter e no crimes  de corrupção que tomaram de assalto  o Estado  Brasileiro e ramificando-se em quase todos os setores da vida pública e privada, me referindo aqui aos mega-empresários  conluiados com   políticos   inescrupulosos e inimigos  da democracia.
    Por fim,  citaria mais uma vilania  perpetrada contra o Rio de Janeiro,_capital  e Estado): a criminalidade  que se apossou  da vida carioca, que ninguém  mais suporta pelos seus gigantescos tentáculos  que nos espreitam  em cada canto   da Cidade Maravilhosa.  Um governo estadual  praticamente falido, como irá  tratar da questão da  violência? Sem dinheiro, sem verba,   sem competência  de governo,  como essas chaga  infernal  será combatida? Até quando policiais  assassinados por traficantes, inocentes de  todas as idades, vítimas fatais   de balas perdidas,  arrastões,  assaltos, furtos, homicídios dos mais variados, ônibus incendiados, estupros  coletivos, engrossarão  as estatísticas de mortos de nossa sociedade?   
  Serão tão insensíveis as autoridades  de nosso  Estado e de outros  Estados  brasileiros  ante crimes e mais crimes (muitos hediondos)  praticados  por um bandidos  fortemente  armados, mais armados do que as  forças de segurança?  Como estancar toda essas selvagerias num país que dispõe das Forças Armadas? Não seria isso  um caso  de se  estar atentando contra  a Segurança Nacional? Todo esse altíssimo  número de crimes  ocorridos   no país e que   ocorrem diariamente em todo o território nacional  estatística suficiente para que  repensemos  o estado de direito  no país?
     As famílias brasileiras não suportam mais  essa ausência do poder público diante  de um clima com semelhanças de guerra urbana. Pais, mães,  filhos,  netos   são mortos  por criminosos  que não respeitam  mais  as forças de segurança. Por isso,  são recorrentes nas suas brutalidades  e covardias  contra a sociedade desarmada.
     Se a bandidagem  sabe que  não serão  punidos duramente  e, quando punidos,  logo serão soltos  para cometerem as mesmas atrocidades contra   os fracos e os inocentes, então a criminalidade  tende a  crescer  até  alcançar um  estado  de anarquia  no tecido  social.  Se vivemos, agora,  no Rio de Janeiro e em outros lugares do país,  num clima constante de  medo e de pavor, a quem poderemos recorrer: a um Estado  Brasileiro  omisso e irresponsável, com leis  anacrônicas  e cheia de brechas e recursos legais (traduza-se:  benefícios  concedidos a  homicidas,   assaltantes,  traficantes, e marginais de toda espécie)  para  escroques, traficantes   e delinquentes  juvenis   de alta periculosidade e de crimes abomináveis? 
    Diante desse quadro  tétrico, a sociedade civil se vê  abandonada,  clamando  num país cujas autoridades estão  surdas e indiferentes   às reais  e malignas  chagas  sociais  que atormentam  o quotidiano  do cidadão brasileiro. Só ouvimos, estarrecidos e órfãos,  os tiros de  armas pesadas nas mãos de bandidos que, nos morros e nos asfaltos, nas estradas  e no campo dizimam pais de famílias,  idosos,  jovens e crianças. Um país mesmo  de balas perdidas e de incendiários.
    Não é sem  motivo que muita gente  pensa em deixar  o nosso  país, à procura de um  lugar no exterior onde  possa dormir em paz e a salvo  das metralhadoras  nos confrontos  de traficantes  com traficantes impunes e gargalhando diante  do armamento   inferior  de nossos  policiais, eles mesmos  vítimas   do tiroteios  sem fim. Cadê as autoridades  brasileiras? 


domingo, 2 de julho de 2017

AOS QUE SE DESILUDIRAM COM A LITERATURA E A VIDA LITERÁRIA


                                                                                                    Cunha e Silva Filho

          É com  tristeza que, de quando em quando,  vejo   um amigo  me dizer que um colega deixou  a literatura de lado; foi  cuidar de outras coisas, de jardins,  de rosa e da vida, que é breve e, como a maré,  não espera por ninguém segundo  um adágio inglês. Um vez,  li, numa história sintética da literatura norte-americana,  que uma grande poeta de lá, ao final da vida,  lamentou-se mais ou menos nestes termos: “ Oh, como  perdi tanto  de minha vida  pessoal  por causa  da literatura! Por que não dei  mais valor à vida, à minha vida, que é muito mais  importante do que a literatura?”
      Na história da literatura mundial, pode, por vezes,  haver duas situações melancólicas  ou trágicas: um  escritor,  amante dos livros e da escrita, pode  desistir  pelo afastamento,  em vida, da literaturao  ou senão  o faz pelo suicídio, conforme ocorreu com Ernest  Hemingway  (1898-1961) e com outros autores do mundo  inteiro. É muito  lamentável que  possa acontecer isso, mas, ao mesmo tempo,  quem somos nós para   penetrarmos  nos  recônditos da alma do artista, a fim de reprovarmos o que faça com o que mais  - assim  o pensamos -   lhe deu  prazer  na vida? Adiante  vou  tentar  levantar algumas hipóteses.
       Uma delas seria  a constatação de que o autor   nada tinha mais a  escrever, ou que     o fazia porque  achava que teria dito  por escrito tudo  aquilo  que queria. Para outro  autor,  seria  por falta  de   força de   criatividade, ou seja,  porque o poço secou. Se tentasse mais,  qualquer  livro seria repetitivo  ou  teria  uma qualidade inferior  a obras anteriores.
      Cada escritor tem sua história de desistência e uma delas seria  a confirmação de que o sucesso nunca chegaria à sua porta. Por que insistir naquilo que  não lhe daria satisfação  e sentido de realização plena? Perderia, assim, a crença  na sua individualidade  artística,  i.e.,   deixaria de representar   qualquer uma  daquelas cinco  soluções para o conceito  de literatura formulado  por Raúl Castagnino, na obra Qué es literatura? : sinfronismo,  ludismo,  evasão, compromisso e  ânsia de imortalidade.
     É óbvio que ninguém escreve para o vazio,  quer dizer, para não ser lido nem apreciado. Quem escreve  precisa de feedback, de quem lhe dê atenção,  de quem o leia, e o que se nota, hoje mais do que no passado,  é a ausência  de leitores, eles mesmos   com dificuldades  de dar prioridade  a esse ou àquele autor. Quem chegar à ideia de  números de leitores de Machado de Assis, que se dê por satisfeito... Mas que seja  reconhecida  a certeza de que  nenhum  leitor é obrigado a ler  esse ou aquele autor, dentre  de um oceano de   opções, não só  no seu  próprio  país, como  em escala  global. Seja entendido que o que aqui  estou  meramente  especulando   é um terreno  movediço e cheio de susceptibilidades.
     Centremo-nos,  porém, nos dois aspectos  assinalados no título deste artigo. A desilusão do autor, por múltiplas  razões, é uma questão  abissal,  que fere  todo o mecanismo   psicossomático  do autor e, se ele não estiver  armado   de grande força  de  resistência,  sucumbirá   diante da  avassaladora  engrenagem  seja das mídias,  seja  do mundo editorial,  seja  do contexto  intelectual  de cada  país, desilusão com as editoras, todas  quase preocupadas com  os lucros   e fortemente   protegidas   contra  a perda de receitas. Poder-se-ia  perguntar: isso  já havia no passado, diria melhor,  nos anos  vinte,  trinta, quarenta, cinquenta, sessenta do século  passado? Seguramente  que sim.
    Grandes escritores  brasileiros  tiveram que custear  sua  obra de estreia. Manuel Bandeira (1886-1968) foi um deles e assim  por diante. E hoje, a situação se tornou   ainda mais espinhosa e  não mudou  muito.
    Vários escritores jovens ou menos jovens  estão  publicando  livros   por conta  própria, já que, se dependerem  de editoras, das chamadas  grandes editoras,  dos  melhores selos nacionais,  do elitismo  editorial brasileiro,   jamais terão seus livros  lançados. Primeiro,  porque têm que  passar  pelo crivo de  seus conselhos editorais, exigentes  para alguns   autores e flexíveis para outros que façam    sintonia com a sua linha ideológica  e editorial, segundo   porque, posto  ser compreensível,  não desejarão bancar livros que não lhes interessem nem um pouco. Dessa forma,  a despeito  dessas grandes editoras,  os autores  teimam e terminam  bancando com sacrifícios  seus  próprios  livros que, se caírem  no gosto  dos leitores,  poderão  ser  vendidos ou serem encalhados.
   Assim aconteceu comigo e com outros  autores. Por outro lado,  ainda estão vigentes    outras formas de  publicações: as custeadas  por  convênios entre entidades  privadas e públicas,   que nada  custarão aos bolsos  dos autores. Se, contudo,  as obras, agora as estrangeiras,  fazem sucesso lá fora,  aqui são logo  agasalhadas,   traduzidas  e vendidas, mormente se forem  best-sellers, obras de autoajuda e assemelhadas. Tudo isso vai  pesando na consciência  dos autores que se sentem  inferiorizados,  mal prestigiadas até chegar ao ponto de exaustão,  que leva ao desestímulo  e à consequente  desistência  da atividade de escritor.
     Nada há certo  quanto ao destino dos autores  e livros. A história do livro  só atesta algo  insólito: livros antigos, de repente,   são redescobertos  pelos  editores  de hoje e são publicados. A fama que deveriam ter  desfrutado  no tempo de seu  lançamento  só o futuro  caberá  resgatar. Outros  permanecerão  no limbo assim  como a memória  da glória efêmera que já tiveram. A sorte de um livro  é, pois, imprevisível. Só o tempo dirá de autores e obras. No presente, tudo são incertezas,   incompreensões,   injustiças  e silêncios.
    Conscientes de todos essas injunções em torno da literatura, alguns autores de hoje tendem a pensar  em desistir no meio do caminho onde haverá sempre uma pedra como no famoso poema  de Drummond. Não critico  autores e  estudiosos que  se afastam  de seu ofício nem tampouco penso que  sejam  covardes  ao desistirem de seus propósitos e  de seus projetos diante de uma realidade   que lhes é cada  vez mais  ingrata, traiçoeira  e  competitiva.
   De outra parte,  falando da vida literária,  outros tantos  óbices  enfrentarão os autores  menos visíveis, sobretudo aqueles que não formam igrejinhas,  nichos  e grupelhos de   que a vida literária, mais no passado que no presente, se nutriu mais para o lado  do compadrio do que para uma saudável convívio  na comunidade  literária. Ora, quem  estiver  fora  desses  grupos fadados está a ser  deles alijados, seja por entidades culturais, sejam  pelo  mercado  editorial que, além disso,  faz a mediação  entre  autores  por  sua  orientação  ideológica, tanto quanto  se vê também  nas diversas  mídias, não só  nas metrópoles  mais importantes  do  país como também  nas capitais  com  vestígios  ainda  fortes de provincianismos. Sorte têm alguns happy few escritores nacionais  que  ganharam notoriedade  pela alta qualidade de suas obra  e conseguiram  se manter isolados e  avessos  a badalações  criadas  pelo   marketing  de livros  e pelas luzes da ribalta dos novos.
   Ao discutir  a questão  da vida literária,  nos vêm  logo à baila  os vícios  reprováveis  do cabotinismo,  da capadocismo e das traições  literárias, ainda tão comuns entre intelectuais,  principalmente nas capitais menores, como, de resto, foi no passado. Basta ver o que, sobre esse tema, com coragem   e ácida crítica  discorre o historiador  e crítico literário  Afrânio Coutinho num  ensaio  pouco conhecido das gerações de hoje, No hospital das letras.(Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1963,188 p.). Sempre que um país  ainda está preso  a esses  bairrismo,  a essas parti-pris, a essa negação do  real  papel   do intelectual  na vida literária nacional ou  dos Estados, quem perde é a literatura  e a cultura brasileira.  
    Onde existem  estrelismos,  favoritismos,   grupos fechados e elitistas, quer de  academias literárias, quer de academias   de universidades,  sempre  sofrerão os que  estão de fora,  na condição de meros pacientes do aplauso  dos mandarins  da literatura. E a questão da vida literária  não  termina aí, porque,  mesmo  dentro do grupinhos,   das instituições   culturais,  haverá   os  costumeiros   estrelismos  e favoritos, os que se julgam  donos da verdade   no campo cultural  e,  o caso,  no  terreno  da literatura – espaço  onde  grassam a inveja, o despeito,  as picuinhas,  as fofocas,  as  rasteiras, as atitudes  subalternas  de oportunistas,  os falsos,   a competição desleal,  os arrivistas, os que   representam os papéis dos personagens  do conto de Machado de Assis (1839-1908), “Um apólogo,” que compõe os contos da obra Várias histórias, um diálogo cheio de ironias e presunções, entre a agulha e  um novelo de linha,  narrativa ainda tão atual na sua prospecção da natureza da alma humana quando levada à esfera literária, os que se consideram “poderosos” nas decisões de quem  entra ou de quem não entra  nas instituições  que antes  deveriam  servir   tão-só à inteligência,  à produção  e à divulgação democrática do saber, da experiência e do conhecimento.
       Para alguns  autores,  a combinação desses dois aspectos   aqui ventilados é o principal   fator  determinante de    decisões  de alguns intelectuais pela  desistência  de um projeto   de vida ou de sadia convivência na comunidade  intelectual. 
     Entretanto,  seria algo utópico  que  nossa vida literária, no âmbito nacional, fosse uma mar de rosas. Os autores se multiplicaram  em proporções gigantescas. A população de leitores também  cresceu ainda que, no caso brasileiro,  sejam ainda baixos os índices de leitores comparados com países adiantados. Por outro lado,  contraditoriamente,   fecharam-se  nos últimos anos várias grandes livraras e os sebos foram liquidados  pela sebo virtual, como serve de exemplo a Estante Virtual.
     Da mesma forma,  cresceu visivelmente o mercado de livros didáticos,  sobretudo  de livros  estrangeiros. E ainda para manter  a contradição, várias pequenas editoras  surgiram  no país. Dessa maneira,  aponta-se um outro   elemento  na questão entre  autores  e vida literária: esta sofreu  o impacto fortíssimo  do espaço virtual,  dos sites, dos blogs,  dos e-books, dos meios  virtuais com  informações  que podem  armazenar   quantidades  enormes  de obras  da grande literatura  universal que caíram  no domínio público.
     Todo esse novo e trepidante  instrumento virtual ao nosso alcance desencadeou  novas formas de vida literária vindo a misturar  o mundo real e o virtual. Só que, desta vez,  como ilhas  independentes, dispersas,   impessoais,   modificando profundamente os velhos hábitos de antiga vida literária,  sobretudo daqueles  encontros tão comuns    de escritores, alguns vindos de outras partes do país,   na Livraria São José, anos  1940, 1950, para citar um só  exemplo, num  Rio de Janeiro mais calmo e menos volátil.  

Nota ao leitor: Na digitação do texto acima,   reestruturei,  devido a erro de digitação e de omissão de palavras, ,o 2º parágrafo.
   


quarta-feira, 28 de junho de 2017

Tradução de um poema de Paul Verlaine ( 1844-1896)



CHANSON D’AUTOMNE


Les sanglots longs
De violons
            De l’automne
Blessent mon coeur
D’une languer
             Monotone.

Tout suffocant
Et blème, quand
            Sonne l’heure
Je me souviens
Des jours anciens
              Et je pleure.

Et je m’en vais
Au vent mauvais
             Qui m’emporte
Deçá, delà,
Pareil à la
           Feuille morte




CANÇÃO D'OUTONO


 Os longos  suspiros
Dos violões
              D' outono
 Meu coração machucam
 De um langor
               Monótono.

Sufocando tudo
Sucumbo assim que  a hora soa
Saudades sinto dos dias  idos
                                       Choro.

E  parto
 Com  o funesto vento
            Que me leva
Para aqui e para ali
Que nem
          Folha morta.

                                       (Trad.  de Cunha e Silva Filho)

                    






sexta-feira, 23 de junho de 2017

ONDE LOCALIZAR A CRISE BRASILEIRA?


                                                                        Cunha e Silva Filho

      

       Fala-se, em toda a parte do país, em crise. Pergunto-me com sinceridade d’alma, A quem atinge a crise e a quem  interessa? Se existe, é um fato. Não se discute. Alguém me indaga com olhos desconfiados: “E os ricos, os milionários, os que, com frequência, estão  dando festas  riquíssimas aos seus diletos amigos em lugares suntuosos, em casa  faraônicas,  em mansões  principescas? 
     Ora, leitor,  a crise nacional  de que tanto  se fala   foi provocada pela anarquia  financeira, i.e., pelo gastos  bilionários  dos governos  anteriores, sobretudo do PT. Contudo, se aprofundarmos  nossa análise, ela já vem  se manifestando há longos anos, nos governos do Sarney, do Collor,   do FHC, que melhorou  um pouco com o combate da inflação e a mudança da moeda, do cruzado para o real, mas a que custo?  
   Pela   ampla privatização de estatais, arrocho salarial do funcionalismo  público federal  em todo o período do governo do FHC (nome que virou um sigla, em substituição ao nome de batismo e ao sobrenome  do presidente  intelectual. Não tenho certeza, mas penso que foi  o  grande escritor-humorista  Millôr Fernandes (1923-2012)  quem, sarcasticamente,  cunhou  aquela sigla para o sociólogo Fernandes Henrique Cardoso. No governo deste é que foram retomadas  a metas do neoliberalismo  no país, começado com  Collor e continuado com os presidentes que se lhe  seguiram, inclusive com  o petismo de Lula e Dilma e, agora,  com  Temer.
     O curioso  é que,  nos governos  petistas, o neoliberalismo  sofreu alguma inflexão mas  não se afastou   dos ventos  do capitalismo  selvagem. É muito engraçado combinar  princípios estatizantes com  capitalismo neoliberal. Vai-se entender o que seja realmente  esquerda e direita no mundo contemporâneo, a não ser que se tome os dois sistemas políticos como uma “forma  política” pós-moderna, empregando este termo de empréstimo à teoria literária ou à história dos tempos  modernos.
     Retomo  ao termo “crise” econômica, que não é especificamente  só brasileira. Até diria que é mundial em parte: vejam-se os exemplos, da Venezuela, da Bolívia, de alguns países  africanos. Afirmei  linhas atrás que a nossa crise foi produzida em decorrência de mau gerenciamento   de nossas finanças, agravada com  o mais alto  nível de corrupção  política  e respectiva  permanência  de um dos nossos males tornados crônicos, ou seja,  a impunidade que grassou  nos governos  petistas de mãos dadas com  o alto empresariado, ambos corruptos  ou corruptores.
     A gastança desenfreada,  sem  planejamento, sem responsabilidade com o dinheiro público alcançou um patamar tão extremo  que, mesmo a base aliada do  governo Dilma, foi forçada a desalojá-la  do poder, com exceção  da ala petista. Não foi  por não concordarem  tanto com  os desmandos  e inoperância da ex-presidente que Temer  a substituiu. Foi pelo fato de que o agravamento da chamada crise político-financeira  estava tão insuportável  que os políticos  “bonzinhos” da oposição  a destituíram  da presidência.Do contrário,  o país cairia em colapso   financeiro   profundo.
  Outro  fato determinante  da queda do PT  remonta aos primeiros sinais  de corrupção  do governo Lula, com o “Escândalo do Mensalão,” com  a famigerada prática  das propinas no conluio entre políticos inescrupulosos, membros do governo federal, do alto escalão do  Executivo, em  contratos  de obras públicas  superfaturadas realizadas por empresários sem caráter e dados à rapinagem. 
   As investigações da Polícia Federal, levadas a cabo  em várias operações, sob a vigilância  do Ministério Público  e da Procuradoria  da República, só concorreram  para  as primeiras prisões  de alguns  membros do governo   e de políticos   envolvidos até os dentes com  o lodaçal  mafioso  da  propina tornada  moeda corrente  nas transações espúrias entre governo  e  donos de construtoras.
  Entretanto,  se algum sinal  de melhoria  econômico-financeira   já se pode descortinar no horizonte ainda  incerto, é preciso também  acentuar que  o Brasil tem muitas faces e muitas formas de  lidar com a crise.   Nossa sociedade é por demais  fragmentária nos seus níveis de vida. 
   Há setores da vida econômica  que estão  fora da crise, nos quais  empresários ricos  estão muito longe de  falarem  em falta de dinheiro e de modos  de vida social.Ainda temos parcelas da sociedade que vivem nababescamente e mesmo certos   tipos de atividade  mais  modestos  não se queixam  de nada. Tudo está bom para eles, de sorte que  ainda podemos chamar  de brasis fora da  crise   a essa parcelas da burguesia,  e mesmo  de atividades  menores  que  rendem  uma vida  folgada, sem pagar  impostos. 
   Aí se  situam  alguns tipos de atividades   menores  ou médias, como   porteiros de condomínios de classe média ou alta ( que têm suas regalias: não pagam aluguel, pois moram nos prédios, não pagam água, luz, gás),    biscateiros,      mestres de obras, alguns pedreiros  mais habilidosos etc.   Esse número  indefinido da sociedade  ainda sobrevive bem melhor do que certos  funcionários públicos municipais,  estaduais  e até federais. 
   Ora, num país tão  fragmentado socialmente,   essa divisão,   de alguma  forma,  até   alivia  pressões contra  governos em dificuldades   financeiras. Essas frações menores funcionam como  amortecedores   de maiores demandas financeiras  por parte da sociedade. Elas representam sociologicamente  os interstícios  do que sobra  do bolo econômico-financeiro através da figura do povinho, que  consegue driblar as consequências  danosas  dos grandes  problemas  do país. Isso nos levaria à seguinte  afirmação: há pobres, que nem estão aí  para a crise e ainda podem desfrutar  das cervejinhas,  dos jogos de futebol e do carnaval.   
   Quanto mais financeiramente  clivada for  a sociedade,  tanto melhor  para os governantes   inescrupulosos. E eles sabem bem disso e por isso mesmo  deitam e rolam  sob  o tacão do poder, do cinismo,  da lei  e das armas. De alguma maneira,  não  consigo dissociar  esses artifícios dos esquemas de uma figura literário-social, que, sob  vestes diferentes,  já se denominou de pícaro,   na Espanha do Siglo de Oro.      No Brasil, também como figura literário-social  ficou conhecido  como malandro, ainda remanescente nos tempos atuais, mas  ao lado de um   outro que o substituiu  em escala ciclópica,   nas bandas da marginalidade baixa,  o bandido e, das bandas dos “white collars,”  políticos e empresários  sem vergonha na cara.