sábado, 16 de setembro de 2017

FRAGMENTOS DO BRASIL ATUAL



                                                                Cunha  e Silva Filho



         O país vive  o inferno de Dante (1265-1321). Pode-se olhar para os quatro cantos   dessa terra e dificilmente se poderia declarar que ali reina a paz. Quase tudo é escuridão.  Surge uma paisagem lúgubre lembrando contos terríveis  de Edgar Allan  Poe ( 1809-1849) e de outroa autores do gênero e de tempos diferentes: caldeirões  em ebulição, espetos,  caveiras,  fantasmas,  vampiros,   zumbis, vodus,  névoas, sombras andantes, ossadas,  tumbas, carruagens em disparada  sem cocheiros. Epitáfios,  nos quais  reconhecemos  figuras  tenebrosas  que, no futuro,  viverão   em eterno   sofrimento. Gritos estridentes, capas escuras,  gravatas,   carros de luxo, homens com armas,  aviões federais, prisões provisórias, flashes, notícias escabrosas  na televisão,  trocas de informações e de  insultos nas redes  socais, sobretudo  Facebook, perdas de antigos, amigos por  mera ideologia   oposta a uma outra, prisões preventivas,  prisões mesmo.
       Homens de preto vigiando as noites infindas, ao lado ou atrás de homens querendo esconder os rostos  de vergonha provocadas por inúmeras malversações. Lulismo, dilmismo,  temerismo, o diabo solto da devassidão  da politicalha. O Inferno dantesco ressurreto. Mistura de verdade,  mentira e pós-verdade, contrainformações,  recurso  judiciais.  Réus, réus  réus! A política Brasiliae  em  adiantado estado de putrefação. O Planalto fede. O Legislativo   fede.  Congresso,   idem. Até o  Judiciário  é salpicado  de  suspeitas.  O pais – imenso  lençol  esfarrapado de crimes  financeiros e assemelhados.   
      De todos os lados se  ouvem  gemidos. Num canto aqui e ali, caixas  entupidas  de dinheiro. São milhões  surrupiados  do povo  analfabeto e pobre. Cisões entre pobre e miseráveis. A classe mérdea - este termo não é meu -, é do contista João Antônio (1937-1996), também cindida, meio a meio,  half and half. A classe média alta, continua  pensando nos velhos e novos  tempos, mas  o dólar ainda é forte e exuberante  no Leblon, na Barra,  em New York, em Paris,  em Londres, mesmo  em Brasília, a land dos  homens honestos, probos, plantados, desde os antepassados numa linha cronológica e hereditária manchada de  rapinagem e sem-vergonhice no país tão bem  cantado pelo endiabrado Boca do Inferno.   
      Roubo, Roubo, Roubo, teu limite é a impunidade. Prisão domiciliar, tornozeleira  eletrônica, ah, ah, ah!  Me engana que eu gosto. Que diabo foi  a Lei  inventar  essas formas  de fingir que alguém está preso, quando está  mesmo  é em sua casa. Comendo do bem e do melhor?  Um estado da Federação é  assaltado por um governador  crápula. Povo  engabelado pela insânia  e cupidez  do vil metal: o deus de barro  que povoa a imaginação do capitalismo mundial,  comunismo, socialismo  globalizado cheirando a Wall Street e às Stock  Exchanges dos wheel dealers de todos os tempos, dos  Shylocks  sedentos do sangue, ou melhor,  dos cifrões bilionários   ganhos facilmente mediante falcatruas  mancomunadas entre ladrões capitalistas e  políticos  delinquentes.   
      Procuro, como um Diógenes (412 a. C.- 323 a. C.),  naquela  escuridão, algum Al Capone da sempiterna atualidade  dos bruzundanguenses, cujo ápice mais  acentuado prevaricaçõoes decorreu  nos anos de 2005   a 2018. No passado, na Colônia, no Vice-Reinado, nos dois Impérios,  na República Velha,  na Nova República e  na Novíssima República já existiam muitos  males  político-financeiros, porém não tão  poderosos como  um tsunami de malversações, desídias,  peculatos,  perfídias e  deslavado cinismo. O ladrão chora  e nega que o é, mesmo diante de evidências flagrantes,  investigadas e comprovadas. Chorar é preciso diante de um  quarto  cheio de milhões   em poder de um  conhecido ex-ministro  fortemente ligado a um partido  muito conhecido pelos seus  malfeitos, inclusive com um vice-presidente  que virou  presidente  da República. No entanto, sempre que  tento  acender a lanterna,  esta se apaga, porque naquele Hades só há lugar para  a escuridão e o sofrimento  universal-brasílico. 
       Não há remissão para essa gente que habita  esse reino  eterno da escuridão. Quem ali  permanece, consciente  do que  fez contra  o povo cordial, o povo  ordeiro (ah, como eles apostam  nesse povo ordeiro!),  ficará para sempre presa ao mal que  tanto  praticaram   para a desgraça  de um Brasil varonil. Ali não há diálogo, muito menos  dialética. Não existe  ali diálogo porque essa gente perdeu a capacidade de se expressar na sua própria língua.  Não falam  em linguagem,  em vernáculo, falam em pecúnia, e quanta pecúnia direcionada para tantos às expensas do dinheiro  público!
       Sob a égide de uma suposta democracia,  o país  se habituou às arbitrariedades  de reformas  aprovadas  por político  que não mais têm   o respeito do eleitorado, et pour cause,  não têm mais representatividade   quanto às promessas  descumpridas em eleições ganhas  por força  do poder econômico, cujo defeito  maior foi se transmudar  em  mercadores de propinas entre corruptos e corruptores ou vice-versa,  pois não vejo qual diferença  de maior ou menor grau   de ética e de honradez  entre  um e outro.  São dois lados  em perfeita sintonia e  sentido de reciprocidade.
      A má governança  discricionária temeriana  chega a um  ponto em que o ministro da fazenda congela  os salários dos funcionários federais  por dois anos e, em contrapartida, por ação  pusilânime  e malvada,   permite  que a maior parte dos   produtos da alimentação aos planos de saúde,  aumente  os seus preços⁢, gerando alto custo de vida dosgêneros de maior necessidades: alimentos, remédios,  e outros  produtos.
   Isso é uma ignomínia contra o bolso  já  vazio dos   funcionalismo. No entanto,  como somos um povo  cordial,  bonzinho,  ordeiro,   individualista e salve-se quem  puder,  ninguém  grita,  ninguém clama e nem   os sindicatos   fazem nada por ninguém, mas apenas arrecadam a nossa contribuição para, no caso dos planos de saúde,  em assembleias conchavadas, terminarem  por aceitar  o que a ANS  determina juntamente com  as empresas dos planos de saúde. E, assim,  ficamos  sempre  sujeitos ao domínio dos  conchavos entre o público e o privado sob a chancela  meio constrangida  e malandra  dos sindicatos. Ah, como somos ordeiros para regalo  da política  brasileira!⁢



terça-feira, 12 de setembro de 2017

TRADUÇÃO DO POEMA "NOEL" DE THÉOPHILE GAUTIER (1811-1872)




                          NOËL

Le Ciel est noir, la terre est blanche;
-        cloches, carillonnez gaîment! -
Jésus est né! –La Vierge penche
Sur lui son visage charmant.

Pas de courtines festonnées
Pour préserver l’enfant du froid,
Rien que les toiles d’araignées
Qui pendent des poutres du toit;

Il tremble sur la paille fraîche
Ce cher petit enfant Jésus
Et pour l’échauffer dans sa crèche
L’âne et le boeuf soufflent dessus.

La neige, sur le toit coud ses franges,
Mais sur le toit s’ouvre le ciel,
Et, tout en blanc, le choeur des anges
Chante aux bergers: “Noël Noël!


                      NATAL

No Céu, a escuridão; na terra, a claridade.
Badalai, ó sinos, com júbilos!
Jesus nasceu! –  O rosto encantador a
Virgem sobre Ele inclina.

Não existem cortinas festoadas
Para do  frio  protegerem  o recém-nascido
Tudo ali escasseia salvo teias de aranhas
Nas vigas do teto suspensas.

Essa mimosa criancinha, Jesus,
Treme  na fresca palha.
Na manjedoura,  a fim de aquecê-La,
Resfolegam para o alto   o burrinho e o boi.

No colmo, a neve as franjas dobra.
Sobre o telhado desponta o sol
E, na claridade absoluta,  dos anjos o coro
Aos pastores entoa: Jesus nasceu! Jesus nasceu!⁢

                                                          (Trad. de Cunha e Silva Filho)



                            


                    

sábado, 9 de setembro de 2017

UM ARTIGO SUMIDO QUE GEROU OUTRO

                                                  
                                                                            

                                                                           Cunha e Silva Filho


        Hoje entro na minha intimidade com a parte técnica de  escrever  no computador. Vou logo dizendo, leitor amigo,  que me doeu muito e muito não poder  postar todo um artigo discutindo  o que penso  atualmente do uso da rede social  Facebook. Só sei que o meu texto sumiu  dos meus  arquivos e, entre as coisas que me aborrecem, uma delas é escrever no computador para  meu  Blog e a coisa não dar certo. É ocioso  afirmar que  sou um pobre digitador, um capenga, cata-milho de digitação,  que erra muito e digita rápido. O quer dizer que, nem sempre, rapidez é eficiência.
       Dos meandros  desse aparelho  tão útil  não entendo muito. Para tentar reverter a situação,  recorri até a um amigo que  conhece muito  dessas coisas  ligadas ao computador. Outro amigo,   a quem  relatei o fato,  me aconselhou a voltar a escrever à mão e, depois,  digitar. É uma boa dica, pois há tempos digito diretamente  no computador sem mais  recorrer  primeiro à velha e saudosa escrita manual. Estou até mesmo pensando em  voltar a ela. Passei três dias procurando recuperar meu texto. Até pensei em São Longuinho que me tem,  muitas vezes,   encontrado  o que que perdi. Paciência.
       O artigo perdido tinha o título “Volto ao tema do  Face  e outros pressupostos.” Há algum tempo atrás, escrevi e publiquei no meu Blog outro artigo sobre o mesmo assunto. Mas esse segundo artigo  estava bem melhor, sem modéstia à parte,  e  aprofundava   debates  e considerações em torno do tema. Podia até esnobar que  o artigo  perdido  estava nos trinques e iria dar o que falar.
      Ah, se tivesse  o poder mnemônico do grande contista João Antônio que,  uma vez  sendo vítima de um incêndio em casa,  perdeu os originais do longo  conto “Malagueta, Perus e Bacanaço” e, não desistindo do seu conto comido pelas labaredas, o reescreveu numa biblioteca de São Paulo. Que tento  vitoriosamente  conseguido pelo contista!⁢ "Malagueta, Perus  e Bacanaço" serviu de título a uma coletânea de contos  de  João Antônio, e com ela se estreou na literatura brasileira em 1963, publicação  da Civilização Brasileira, Coleção Vera Cruz,  volume 47.  O conto é uma obra-prima  da literatura  brasileira no gênero. Recebeu  o aplauso de notáveis críticos literários, como  Antonio Candido, Mário da Silva Brito,  Cassiano Nunes,  Malcolm Silverman (crítico norte-americano e grande estudioso da literatura brasileira), Luis Costa Lima,  Paulo Rónai, Alfredo Bosi,  Assis Brasil, Fausto Cunha,  Fábio Lucas, entre tantos outros.
       Não sei se farei o mesmo  com um simples artigo. Vou pensar. Contudo,  lhe aviso, leitor,  que,  pelo menos  para mim,  reescrever  um  texto perdido é uma tarefa  espinhosa. Jamais encontrarei  aquele  tom no qual a  exposição do tema foi vazada. Há, sim, algo de inspiração de mistura com  o espirito  racional no ato da criação de um texto literário.  Algo que no momento  em que escrevemos  vai  despontando em ideias e formas de construção verbal. 
      Aquele desejo de compor, da melhor forma possível, as orações, os parágrafos,  de escolher palavras e  ideias que nos afloram no processo da escrita, vai propiciar-nos o ritmo certo. O enunciado, soma   das palavras, das frases, das orações,  do parágrafo e deste aos outros  parágrafos, no conjunto, forma uma unidade de sentido, a  qual deve estar inextricavelmente    interligada   ao texto elaborado.
       Nada da escrita  é mero  escrever a esmo,  mas um processo  intelectivo em  que  as partes do texto completo,  do princípio (introdução) do meio (desenvolvimento) e do fim (conclusão) são processos  deliberados  onde predomina   a lógica  da textualidade. Contudo, o texto literário  não se exime,  no tempo  final da escrita, de um certo prazer do  dever cumprido com  amor e carinho, com a vontade  insopitável de  transmitir  com sinceridade  os pontos de vista, os argumentos convincentes,  a nossa visão sobre o tema  em exame.  Substantivo, adjetivos, verbos, advérbios,  conectores, preposições, interjeições, palavras de situação, efeitos retóricos,  aqui e alia no texto,   confluem para que  ele seja a melhor parte  de nossa capacidade de realização no domínio  da difícil arte  da escrita.
       Pelo  visto,  como deve ter sido  penoso  e ao mesmo tempo agradável  haver  João Antônio recuperado  todos os passos   da reescritura  de seu memorável  conto. Só a vontade   irrefreável  poderia  levá-lo ao final  de sua empreitada. No tecido  textual  tudo foi  tomado em conta:  os personagens,  o tempo, o espaço, os diálogos,   o desenvolvimento da narrativa,  os recursos  linguísticos,   rítmicos ( no contista paulista,  o ritmo musical, em muitos contos,  é uma  das características  de seu estilo  literário). Ora,  isso tudo  demanda  um  esforço hercúleo  para o trabalho da reescrita.

       O que  se  deve ressaltar  nesse processo de reelaboração de um conto  longo e de alta qualidade  é o fato de que  a sua   segunda escrita  nos permite   aventar uma  hipótese: o contista  deve ter se superado,  quer dizer,  na reelaboração   da estrutura  de sua ficção é bem provável que  a segunda escrita  foi ainda  superior  à primeira tamanho foi o seu  esforço  despendido  no emprego da memória  graças à ideia central do tema,  à construção  de uma escrita,  cujas partes já se encontravam     internalizadas e prontas  a  gerarem  um  reduplicação  do esforço  inicial  primeiro. Mas,  no processo   da  reescrita  lhe coube  também  virtudes  pessoais  para a prática  da ficção e aqui se pode  levantar  uma outra questão: o talento do escritor.    

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

UMA PÁGINA AUTOBIOGRÁFICA DO Pe. JÚLIO ALBINO FERREIRA





                                                                             Cunha e Silva Filho


       Conforme havia prometido ao leitor, vou-lhe apresentar um  pequeno texto   autobiográfico do Pe. Júlio Albino Ferreira. Digo autobiográfico  porque foi  o próprio  autor que, em nota de pé de página do anteriormente  referido livro An English method [1], nos informa sobre a autoria do texto. Segue a minha tradução da narrativa do padre português sob o título “Crossing the Channel”:

                          
                              
                                     Atravessando o  Canal

      
      Era uma e meia do dia 24 de março de 1916 quando parti de Folkstone para Dieppe a bordo do “Sussex.”O mar   mostrava-se mais calmo do que nunca.
   A bordo havia cerca de trezentas almas de diferentes países, América,  Itália, Espanha, França, Brasil e Portugal. A uma distância de aproximadamente duas milhas de Folkstone, avistamos o que restou de um  navio flutuando na água. Um marujo, ao ser indagado sobre o acidente,  informou que um submarino alemão havia sido levado a pique dois navios naquela mesma manhã, mas tranquilizou  os viajantes afirmando  que não havia perigo algum, porquanto o submarino tinha prosseguido em direção ao Ocidente.
       Todos a bordo  acreditaram  no marujo. Penso que,  dez minutos depois, haviam   esquecido o perigo de serem naufragados. O “Sussex” continuou firme no seu curso em direção ao Leste e ninguém avistava nem barcos nem navios subindo ou descendo.
     Às duas e meia desci para almoçar. Na sala de refeitório todos falavam  de negócios ou de coisas insignificantes. Contudo, ninguém  dizia mais nada   sobre os naufrágios daquela manhã.
    Assim que concluí  minha  refeição, subi  ao convés. Deixei  o refeitório às três horas e,  atravessando o setor de bagagens, passei pelo corredor que dá para as escadas. Em seguida, pude ver que a bordo havia escritores,  artistas,  sacerdotes, pastores, irmãs de caridade, capitalistas, comerciantes,  trabalhadores e crianças.
   Quando subia para o convés, ouvi um barulho  assustador, algo parecido com  o ribombar de um trovão, e o navio sacudiu com tal violência que julguei tivesse batido contra uma rocha ou havia sido  arremessado contra um banco de areia.
   Ouviu-se este grito horrível saído da boca  de duzentos  corações: - Naufrágio!⁢ Naufrágio!⁢Todos  estamos perdidos!  Deus,  tende misericórdia de nós! O “Sussex” fora atingido por um torpedo!
   Em segundos,  alcancei o convés. Procurei  por uma bote salva-vidas, porém somente  três haviam sido baixados. Só sobrara um e, ainda assim,  já estava tão lotado de gente que não me atrevi a  entrar  nele.
     Mas... onde estava o resgate que não vinha? Decidi pular para dentro daquele bote. Enquanto me segurava à amurada, alguém, subindo nos meus ombros, saltou  primeiro.
    Entretanto,  seja porque  as cordas estavam inadequadas, seja porque a carga era muito pesada,  uma das cordas rompeu-se e todos caíram no mar.
     Vi uma mãe agarrada ao filhinho, um senhor abraçado à sua esposa, duas  moças segurando-se a uma tábua... e, olhando para  longe, vi cerca de quarenta almas lutando, lutando, agonizadas.
     Cinco minutos depois,  havia apenas quatro homens flutuando.Eles se agarraram à verga do mastro grande da proa, a qual agora nos amparava.
     Era a primeira vez na minha vida  que senti, diante de mim, a presença da morte. Não havia mais esperança e me preparei para  morrer. Ergui a Deus meus pensamentos e comecei a rezar. Todos ao meu redor me acompanharam  nas orações.
    Ignorava se aquela gente  acreditava ou não em Deus. Contudo,   o que podia constatar  foi que naquele momento a bordo havia  livres pesadores. Todos rezavam! Mais ou menos às 5 horas, vimos à distância um navio a vela singrando em nossa direção. E de todos os corações a bordo irrompeu este clamor: “Esperança! Esperança!  Deus, tende  piedade de nós!”
     Durante 20 minutos  fixamos os olhos naquele inesperado  mas bem-vindo navio. No entanto... o navio mudou o curso e desapareceu! Novamente se dissiparam as esperanças!
    A noite desceu sobre nós com sua  escuridão  entristecedora e, para aumentar a  nossa agonia,  o mar começava a agitar-se. Nenhum sinal luminoso vinha da praia... Tampouco algum sinal de outro navio! Novamente, me preparei para a morte.
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   O relógio dava sete... oito ... nove horas. Nenhum sinal de luz se vislumbrava à distância. Quando já eram dez horas, vimos, muito longe,  um navio. Era o “Marie-Thérèse”  vindo nos salvar.
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[1] ALBINO FERREIRA, Pe. Júlio. An English  method.  14th edition. Oporto: Portugal,  1939, p. 370-373). 

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

A CONTRIBUIÇÃO DO Pe. JÚLIO ALBINO FERREIRA AO ENSINO DA LÍNGUA INGLESA




                                                                Cunha   Silva Filho


           Vim a  saber sobre o Pe. Júlio Albino Correia ao entrar em contato com os livros da biblioteca  de meu pai, a qual  dispunha  de um exemplar  de uma  das  inúmeras obras didáticas para o ensino do inglês, An English method, daquele   estudioso  da língua inglesa. Essa era a única do autor  que meu  pai possuía na sua  biblioteca. Ao vir para o Rio de Janeiro, trouxe o volume comigo. Porém, em Teresina,   já otinha lido quase por completo. Concluí a leitura aqui no Rio. O exemplar, em dois volumes num só tomo, que tenho data de 1939, 14ª edição, Imprensa Moderna, Ltda, Porto, 408 p.
         Aquele livro  traz a assinatura de meu pai (quanta saudade ao olhar para a sua letra manual, ainda mais   bonita e firme do que com um pouco de diferença que mostrava  na velhice!⁢Costumava assinar  assim: F. Cunha e Silva. Naturalmente foi  feita no tempo em que  lecionava em Amarante,  no seu  conceituado colégio Ateneu Rui Barbosa. Nas primeiras páginas da lições  elementares,  há marca nas páginas a lápis e umas a tinta, à página 18. Mesmo  dando aulas para o nível primário  e preparatório,  ele ensinava   aos alunos  noções de inglês e francês. Não dominava  o inglês como  o fazia com o francês,  o italiano, que estudara bem  com os salesianos em Niterói e  no Seminário  da ordem salesiana  em Lavrinhas São Paulo. Conhecia bem  o latim, porém  não tenho certeza se dominava o grego.  Mas, voltemos a falar sobre o Pe. Júlio Albino Ferreira e seu An English Method.
         A grande novidade dessa obra era que, já nos anos 1930, o autor  demonstrava  boa atualização metodológica no  ensino do inglês, tanto é que trazia a novidade do Alfabeto Fonético da International Phonetic   Association. Logo no início da obra, o autor informa  que  os sinais do alfabeto fonético  tinham sido  gravados em disco  gramafone pelo  professor  Mr.  John Opie, professor de inglês da Universidade de Coimbra.Era um conquista para aqueles tempos  o ensinar-se inglês com o recurso  do aprendizado do valor  dos  símbolos  fonéticos, tarefa  que de se  ocupa o Pe. Albino Ferreira  a elucidar criteriosamente nas primeiras páginas  da obra.
         Nessas páginas explicadas em português,  o autor inclui exercícios  para os estudantes se familiarizarem com os símbolos  que serão  parte  integral ao  longo  do livro, i.e.,  para cada  texto  de uma lição, ao lado direito aparece  todo o texto  escrito  em símbolos fonéticos.  No início, eu achava  estranhos aqueles símbolos que só  seriam proveitosos  quando  fossem  dominados pelos seus   valores falados  em consonância  com  os sons do fonemas  consonantais e vocálicos.  
        Não dispondo do disco  em  gramafone,  seria muito  difícil  ler  a parte dos textos  em símbolos fonéticos. O curioso  foi que nunca  mais em outro  livro didática  compulsado  por mim  eu via  aqueles  símbolos da IFA. Só, na coleção da série  de livros  do professor A. J. Hald Madsen, American  English Series, revi  o uso dos símbolos  fonéticos. Por sinal,  tive a honra de ter tido o Madsen como  professor de fonética  inglesa na Faculdade de Letras da UFRJ. Já fiz referência a esse ilustre  professor  no meu livro  Apenas memórias ( 1a. ed. Rio de Janeiro: Quártica, 2016,  304 p.).  Madsen era dinamarquês, e fora consultor de língua inglesa no Consulado Americano. Era baixo, atarracado,  muito corado e irradiava  simpatia. Anos depois, em escola municipal,  trabalhei com outro  livro dele mais atualizado  às conquistas da linguística para o ensino de línguas modernas. Já estávamos  atravessando  a época da introdução do estruturalismo,  da gramática   transformacional, da linguística aplicada ao ensino do inglês, de novos abordagens   para  o ensino de idiomas após a fase “translation method,”  do “direct  method” já bastante   empregados  por professores  brasileiros, tendo à frente o Colégio Pedro II (Externato),  o Colégio Militar do Rio de Janeiro e outros estabelecimentos  de ensino privado de ponta.
      O English method do Pe. Albino já se utilizava do direct method misturado,  nas  fases mais  elementares, com o que se denominou de  “semi-direct method.” Este último  utilizava-se da gramática  explicada em português enquanto  o primeiro estudava a gramática explicada em inglês, quer  dizer,  a aulas eram ministradas em inglês, sem o recursos da tradução. A prática oral, da conversação era ainda  reduzida. O velho método da tradução-versão  ia ficando  para trás, embora muitas escolas , durante anos,  ainda empregasse  a tradução  e o ensino de gramática  feito em  língua  vernácula. Os cursos  de idiomas de maior  prestígio, IBEU, Cultura Inglesa,  por muito  tempo  vinham usando a abordagem do “direct method.” Os livros didáticos escritos  por brasileiros ou estrangeiros também  seguiam  esse método, se bem que  de forma híbrida.
     Os dois volumes, num  único livro do  An English method, compreendiam  quatro partes, sendo as duas primeiras  dedicadas ao primeiro volume e as duas últimas ao segundo volume. Somente a partir do segundo volume  é que as lições  são  redigidas em inglês,  ou seja, tanto os textos  de leitura inicial quanto a gramática e os exercícios  de gramática. As dificuldades quanto aos textos e ao estudo gramatical  eram dosadas  desde as mais  elementares até as mais  adiantadas.
      Deve-se ressaltar  a variedade  de textos contidos na obra, que iam de textos dissertativos,  narrativos,  de conversação, até uma soma enorme de textos, sobretudo   poéticos, assim como  adivinhações,  provérbios  humor,  abrangendo um  amplo espectro   de assuntos  da vida cotidiana,  culturais,   históricos, geográficos,  bíblicos (compreensível numa obra escrita por um sacerdote) incluindo  orações  cristãs mais conhecidas,  como rezar o Pai Nosso, a Ave Maria,  a  Salve Rainha,  o Sinal da Cruz. 
      A obra  An English method, ainda naquela época,  marcou a presença de um  grande cultor da língua inglesa, um estudioso  alicerçado na leitura  dos melhores foneticistas, estrangeiros e brasileiros,  como  Daniel Jones, H. E. Palmer, Dr. Isaías A. de Almeida, e Pe, Luiz Gonzaga Van Woesnik. Já nos anos  1930 sabia  valorizar  o conhecimento da fonética  como  da maior relevância a um professor de línguas, conforme podemos  ver na epígrafe  de H. E. Moore abrindo o prefácio do Pe, Júlio Albino  à 14ª edição: “(...)_ and it can be said, without hesitation,   that a non-phonetic   teacher is out of date.” Como lexicógrafo,  seus dicionários receberam   grandes elogios de eminentes professores de importantes universidades, como Raymond Weeks (Universidade de Colúmbia, Nova York), A.C.L Brown (Universidade de  Illinois), Professor C. H.  Grandgent (Harvard University, Cambridge, Mass), Professor Geddes ( (Boston), entre outros.
       Observa-se, no entanto,  que  um volume espesso como o livro em  análise ressente-se de maior  e  melhor organização  na distribuição  de uma gama de  assuntos e mesmo  de certa  redundância no estudo  da gramática que poderiam ser mais   sistematizados e apresentados com maior economia.
      Por outro lado,  vale  assinalar que  obras didáticas da época em que foi escrito o  An English method  repetiam esse mesmo  esquema assistemático e rebarbativo, assim como  também  me parecem  exageros  em alguns  livros didáticos de  línguas modernas atuais a profusão  de  matéria  colorida  na apresentação a dos textos, numa certa mistura  e confusão  visuais que atrapalham, de certa maneira,  a alunos se professores. Isso  é muito comum no  material  de livros didáticos estrangeiros  que empregam  o chamado  “Communicative  approach,” o qual hoje esta prevalecendo.
    Por razões pedagógicas e para fins práticos,  bons autores  didáticos brasileiros escreveram  obras práticas  para o ensino do  inglês e de outras línguas,  à margem  de approaches  linguísticos    de ponta. Preferiram  ensinar  idiomas, sobretudo,  o inglês, usando  do artifício da chamada “pronúncia figurada” ( marked  pronunciation). Assim os fizeram, por exemplo, M. de Oliveira Malta, com o conhecido O inglês tal qual se fala no presente  J. L. Campos Jr.  no livro  How to learn  English (Como se aprende inglês), embora os outros livros  neste último autor já predomine o "direct metod."Não os reprovo por isso,  uma vez que eu mesmo  fui beneficiado  por eles. Se bem que  por tais recursos menos científicos  o aluno   saia falando com  algum sotaque, com o tempo e  em contato com   falantes nativos, irão seguramente  melhorar  o desempenho  oral  da língua estrangeira. Isso ocorria muito  no ensino de línguas no interior  onde o contato  com nativos  era muito escasso, mesmo  para  o professor.
     Hoje, com a difusão  do emprego de  fitas,  discos do tipo em vinil, CDs, vídeos, (antigamente eram os discos   reproduzindo  conversações da língua   falada por nativos), tais   deficiências são  facilmente sanadas, até porque,  com o desenvolvimento  do computador e da internet,  ainda mais  fácil se tornou     o ensino  de idiomas  para todos  o que  amam  aprender  mais de uma língua, além da possibilidade  à disposição do público  de canais de  TV a cabo levando aos lares  de outros países  várias línguas  ao vivo, filmes,  programas  diversos,  notícias. Com tudo isso,  tornou-se mais   fácil  melhorar  o conhecimento de  idiomas  estrangeiros.
     Ora,  acredito que se os livros didáticos  fossem mais   simples na apresentação da matéria a ser aprendida, sem perder a profundidade  e a importância da abordagem, lucrariam muito mais alunos e professores.
   O Pe. Júlio Albino Ferreira nasceu em Portugal em 1868 e faleceu em 1934( breve informação biobibliográfica do Pe. Albino  colhida no Dicionário prático ilustrado, em 3 volumes, Lello & Irmão Editores,  Porto,  1963). Além de autor sobre o ensino do inglês, contando-se 15 obras,  foi  escritor. Suas obras  foram sempre bem recebidas  pela crítica  especializada nacional e internacional, inclusive os dicionários de inglês-português e português-inglês que produziu. Pe.  Albino Ferreira morou  muitos anos na Inglaterra e tornou-se, em Portugal,  um  emérito   conhecedor do idioma de Shakespeare. Na minha próxima postagem,  farei uma tradução de um  pequeno  texto em inglês  do Pe. Júlio Albino Ferreira. Por fim, na minha biblioteca,  consegui  adquirir mais algumas obras desse festejado autor.  Sua validade atualmente  serviria mais a pesquisas   acadêmicas,  com vistas a   estabelecer comparações  entre métodos antigos e modernos na história do livro didático  para o ensino de idiomas no Brasil.
       

        

terça-feira, 29 de agosto de 2017

DE REPENTE , O TEMPO SE FAZ CURTO



                                                         
                                                          Tudo é fugaz neste mundo.

Machado de Assis,  Memorial de Aires
                                                       

                                              Cunha e Silva Filho



               

              Não sei se já escrevi sobre o que vai adiante, leitor. Não tenho certeza de que o tenha feito Mas, vá lá. Deixemos que essa mania de tanta racionalidade sobre  a exatidão das coisas do passado seja posta de lado. Ainda tenho felizmente o presente diante de nós, posto que  um  presente sentido diferentemente, sem  - é claro -  mais aquela naturalidade  avoenga, aqueles períodos já “idos e vividos,”  nos quais, com  marcas  e fronteiras aproximadas  ou mais ou menos aproximadas e indistintas, vivia-se  um mundo interior sem sobressaltos quanto às dores do tempo, pois o tempo não nos ameaçava com rótulos  negativos nem preconceitos  implícitos  ou explícitos sobre o passar do tempo e  a visão amedrontadora  da  sua fugacidade inexorável que, vez por outra,  nos assalta  e nos faz sentir  toda a sua  imensa realidade e temores. 
           Eu me  lembro  bem daquelas noites  ou mesmo tardes em que, sozinho, na rede, no quarto   meio escuro,   me via  perscrutando  o destino de um  adolescente  que sonhava e sonhava. Eram um imensidão de sonhos, de visões futuras,  de fatos, acontecimentos,  vitórias e fracassos. Não chegava a ser uma visão dantesca. Porém, vinha em borbotões,  sem espaço nem  tempo  definido. Só sei que se voltavam  para os tempos futuros,  para o lugar do destino,  de algo  que poderia  ocorrer, de então a cinquenta anos, por exemplo. Sonhava e sonhava. Ninguém me importunava naqueles    sonhos  do futuro,  assentados numa ponto que,  excetuando acidentes naturais,   haveria de   vivenciá-los ou não.
       Aquelas vigílias eram reais. Eram sonhos, imagens indistintas,  visões  em potência que me   punham  naquele  estado  de espírito afastado  da realidade lá fora. Como fenômenos  eram  possibilidades, fatos que  poderiam  acontecer  mas, no futuro,  poderiam ser diferentes  dado que a visão do passado  se misturava  com  a capacidade de imaginação  do futuro. Nada, creio  eu,  aconteceu  conforme aqueles sonhos  imaginados,  desejados, profetizados no mundo  da imaginação  e da exaltação  adolescente.
        Mas quem  disse que não temos,  em cada  década de vida aproximadamente, a apreensão algo dolorida dos sinais do tempo? Ou eles são provocados pelos outros,  ou, por vezes,  sobre eles refletimos num átimo como se o tempo  nos estivesse  lembrando  de nossa condição  temporal  e do seu  fluir. ”Professor - me disse  muito  tempos atrás,  um aluno a propósito  de um  assunto  relacionado  ao tempo, à  minha idade – o tempo está passando.” Apenas  sorri  contrafeito  para ele.  Em casa,  fiquei  pensando no que o aluno  me dissera. Deixei pra lá. Eu tinha somente vinte e oito anos. Tinha o mundo pela frente.
          Mais ou menos pela mesma época, escrevi um  artigo de título “O primado do instante,publicado no jornal  Estado do Piauí. Era um  artigo de crítica à importância exagerada que se dá ao presente. Falei do tempo tríbio de  Gilberto Freyre (1900-1987),  e de outros aspectos  desfavoráveis   dos adoradores  de tudo que  seja  ligado  ao presente (passado na época) e, hoje, futuro. 
           Numa  apostila de inglês que preparei  nos anos 1970 para o Curso  Policultura, curso preparatório  aos exames do  antigo  Artigo 99 e vestibulares, situado no simpático bairro da  Penha, abordando as preposições  inglesas,  escrevi  a seguinte frase: “  I shall be an old man in the end  of the XX century.”("Serei um velho  no final do século  XX.").  Só agora percebo que havia exagerado na  compreensão da minha idade,  porquanto, no final do século XX, eu estaria apenas com  cinquenta e cinco anos. Veja-se  daí que um jovem  de vinte e cinco anos, tempo em que  estava trabalhando naquele  curso,  pensava que um homem de cinquenta e cinco já fosse velho. Agora, penso no quanto estava errado. Ah, mocidade apressada  e irrefletida nas suas   declarações!
         Uma vez, antes de completar trinta anos,   fiquei na dúvida se iria fazer  vinte nove ou trinta. Senti o sinal do tempo. Eu estava em Teresina a passeio. “Meu Deus, vou completar  vinte nove ou trinta?” A dúvida  me atrapalhava a memória e a lucidez por instantes  Será que era porque  percebia que já me abeirava dos trinta  e, que, pela primeira vez,   a ideia da fuga do tempo  me exasperava? A confusão durou apenas, como disse,  questão de segundos.
           Costumo afirmar que não gosto do tempo, no que sou  contrariado pela minha esposa, que, ao contrário, é uma grande amiga do tempo. Sua defesa do tempo  é bem simples e bem  racional: “ O tempo  é meu amigo, ele iguala  todos.   Não escapa ninguém e ninguém  o engana,”  sentencia ela com ares de pensadora. Ela se refere à questão  das mudanças físicas  do indivíduo, mudanças que tanto  abarcam os ricos  quanto os pobres,  as  mulheres bonitas e as não tanto. “Nem a plástica consegue detê-lo,”  conclui ela. A plástica tem  seus limites após os quais nada se pode mais fazer. O tempo, então, se recompõe  e toma o seu rumo   normal,  a não ser que viremos todos  um Dorian  Gray da vida, com todas as consequências  de que se tem  notícia. E que consequências, que Deus nos livre!
               
      ⁢


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

TRADUÇÃO DE UM POEMA DE ANTONIO MACHADO ( 1875-1939)




                          Calma


En  médio de la plaza y sobre tosca piedra,
el agua brota y brota. En el cercano huerto
eleva,  tras el muro  ceñido por la hiedra,
Alto ciprès la mancha de su ramaje yerto.

La tarde está cayendo frente a los caserones
De la ancha plaza, en sueños. Relucen las vidrieras
Com  ecos mortecinos de sol.  Em los balcones
Hay formas que parecen confusas calaveras,

La calma es infinita en la desierta plaza,
Donde pasea el alma su traza de alma em pena.
El agua brota y brota en la marmórea taza.
En todo el aire en sombra no más que el agua suena.


                   Silêncio

Sobre a áspera pedra no meio da praça
A água jorra  sem parar. No horto, perto,
Por trás do muro cercado pela erva
se avista altaneiro cipreste com sua sombra de ramagem  hirta.

Em sonhos   morre a tarde em frente dos casarões
da  larga praça. Rebrilham as vidraças
com  ecos de sol  esmaecidos. Nas varandas
formas há lembrando  indistintas  caveiras.

Na solitária praça, em abissal silêncio,
vagueia  a alma com seu vulto de alma aniquilada.
No tanque marmóreo, sem parar, a água  jorra
Lá fora, na penumbra, apenas a água o silêncio quebra.

                                                                                              (Trad. de Cunha e Silva Filho)



domingo, 20 de agosto de 2017

MUDANÇA DE HÁBITOS NA PAISAGEM FÍSICA E HUMANA DO RIO DE JANEIRO




                                                                     Cunha e Silva Filho


          Parodiando  Machado de Assis (1839-1908), direi: “Mudei eu ou o mudou o Rio de Janeiro?” Acho que mudamos ambos. A cidade não é a  mesma do tempo de Machado. Não é mais  aquela cidade que, num mural enorme de um prédio da Rua Ouvidor, mostra a paisagem física e humana do Rio antigo, sobretudo no ponto central da vida  urbana: a hoje Avenida Rio Branco,  outrora Avenida Central. Além do mural, há um trecho de uma crônica de Machado alusiva àquela paisagem, fruto de uma foto  ampliada e reproduzida naquela mural.
       O tom da narrativa do autor de Dom Casmurro (1899)  é irônico. A crônica fala da Rua do Ouvidor, a mais elegante do tempo de Machado. Rua estreita, mas preciosa, rua das modas vindas de Paris ou mesmo algumas  de Londres. Não me lembro  bem do núcleo do tema  da crônica, mas vou  voltar ao local do mural para  comentar, em outra crônica,  sobre o que  o bruxo do Cosme Velho   anotava sobre a condição topográfica dessa principal estreita  artéria carioca, sobretudo à altura do século XIX.      
    Fixo os olhos novamente no mural. Vejo, nas calçadas, de ambos os lados da avenida,  pessoas  com as vestes elegantes  do século XIX da primeira década do século XX  Os homens com chapéu, bengala  à inglesa,  guarda-chuva conversando  em duplas. As mulheres, elegantes,  com seus vestidos longos,  figuravam a moda daquele tempo. Na rua, carroças puxadas por trabalhadores humildes,  carros elétricos,  charretes, gente atravessando de uma calçada a outra. Olho para os prédios, com as suas  fachadas,  com suas placas anunciando algum  produto. Procuro vislumbrar se, comparado com  o que  existe hoje na mesma avenida,  algum prédio  ainda está de pé  até hoje. Ressalto ao leitor que o mural não corresponde  exatamente ao tempo da  crônica machadiana. Contudo, suas características arquitetônicas  o situam nas primeiras duas décadas do século XX.
       Consigo ver alguns velhos  prédios que atravessaram o século XX. Fico em dúvida onde estariam outros prédios que não mais existem. Com nitidez, vejo o velho  prédio,  no qual ficava o famoso Jornal  do Brasil, do tempo da Condessa Pereira Carneiro.
    O que salta à vista é que a paisagem  arquitetônica  amalgamou  o antigo e o moderno, onde o antigo tem mais destaque, principalmente se o nosso olhar  se coloca em direção aos prédios do Theatro Municipal, do Museu Nacional de Belas Artes, da Biblioteca Nacional. 
    Retomo o meu olhar novamente para dentro  do mural, da foto ampliada. Olho detidamente  aquele agrupamento  de agente  dispersa  nas duas direções da avenida. Paro a minha vista naquelas pessoas  estáticas na fotografia. Abstraio  essas pessoas que parecem  estátuas, imóveis e imagino-as em movimento de vida,  resolvendo seus problemas no Centro do Rio. Cada uma com a sua vida pessoal conversando sobre assuntos diversos. Rindo, ou caminhando  simplesmente na sua solidão e anomia da cidade que crescia, majestosa e bela. Quem  seriam elas? Todas desaparecidas. Todas nos seus lugares eternos, no silêncio dos tempos. Todas tragadas pelo tempo. Nasceram, tornaram-se  crianças, adolescentes,  adultas,  idosas viúvos ou viúvas, se casaram de novo ou permaneceram  na viuvez ainda exibindo seus anéis de matrimônio. Cumpriram  a sua travessia no espaço e no tempo. Hoje, apenas uma foto ampliada. Nada mais.
      Entretanto,  penso comigo: foram gente de carne e osso, não ficções,  não criaturas  imaginadas pela cabeça de um escritor ou poeta, ou dramaturgo. Viveram,  sofreram,  foram felizes ou não,  tiveram filhos,  netos. Casaram ou ficaram solteiros. Amaram, sorriram,  brincaram, trabalharam, foram alguém na vida. Fizeram o bem ou o mal. Enfim,  existiram.  Parodiando outro grande  escritor,  o poeta  Carlos Drummond  de Andrade (1902-1987): hoje são apenas uma foto no mural, ia dizendo “na parede.”
     Esta crônica, se o leitor atentar para o título,   subentende outro aspecto que desejo explorar   nas minhas   observações  da vida carioca. Esse aspecto é o do  contraste entre o que era  o Rio de ontem, ou melhor, o Rio dos séculos  XIX e XX e o do nosso século. Quanta diferença, abissal diferença no que se pensa das duas realidade temporais,  sobretudo do que se podia fazer com   o espírito aberto,  sem medo do medo  abominável que,  por vezes, nos assalta a nós, moradores  da Cidade Maravilhosa, hoje tão vilipendiada pela  violência  que teima em  crescer sem respeito a ninguém, mudando hábitos de vida, quer de dia,  de tarde ou de noite.
     O Rio é inseparável da carioquice, da alegria,  do samba, do carnaval, do futebol,  das praias, da sua vocação  para ser uma cidade do mundo e não só nossa, das piadas apimentadas, da sedução, do  sensualismo; o Rio  com a sua imagem das curvas femininas  nyemarianas.  O Rio do Centro e do hibridismo  de construções misturando  todas as épocas desde a sua fundação.
        O Rio da Zona Sul dos belos bairros aburguesados (Copacabana, Ipanema,  Leblon, ou de classe média da Zona Norte (a ex-aristocrática Tijuca, Vila Isabel, Méier,  Grajaú),   até os um tanto  esquecidos  bairros  dos cariocas  dos subúrbios (Madureira, Cascadura, Vila da Penha, ou o Rio da Barra da Tijuca,  do Recreio, da Zona Oeste), com cada bairro e suas diferenças de modos de vida da Zona Sul. Ou ainda os belos bairros da Zona Sul de frente para o mar, Sul, do lado de cá  do túnel, de classe média e media alta (Flamengo, Botafogo, Urca), e ainda os  Glória,  Catete, Glória Laranjeiras, de classes misturadas. 
           De resto, mesmo em   bairros luxuosos, às vezes, convivem classe altas, médias e pobres, a se ver pelos morros  que os cercam. Todo esse patrimônio de beleza, de antiguidade, de variedades está em perigo de se perder  com os tentáculos da violência instalada, fazendo   o carioca  de nascimento e o carioca  de coração mudarem sensivelmente o que podiam fazer  anos atrás: sair de casa em sossego,  voltar para casa em paz,  poder  andar a pé,  sem uma espécie de paranoia que, contra a nossa vontade,  nos acomete nos dias de hoje.
         Há quem enfrente ainda os lugares agradáveis, mas sempre com certo receio   de enfrentar algum  problema   relacionado à violência: o assalto, a presença inopinada de  pivetes,  o sequestro,  a bala perdida,  os furtos, os roubos,  os tiroteios  entre criminosos dos morros, ou entre estes e a polícia.   Criminosos mais bem armados do que a própria polícia.
         Para os que  podem andar em seus carros, a despeito  também de neles  não se sentirem seguros,  essa é a melhor forma  de  locomoção, ou senão tomar um táxi a fim de irem a um espetáculo  musical,  um cinema, um shopping, um teatro, um lançamento em  livrarias  da Zona Sul.
        Por isso,  o carioca nato  ou  de coração, mormente se  está com idade mais avançada, vai perdendo  o gosto de sair às ruas da cidade,  dar um passeio no Centro, visitar um dos poucos sebos,  ver um museu, andar  pela Avenida Rio Branco, sempre  apinhada de transeuntes para lá e para cá no tumulto   incessante  da grande cidade  que  não para   de movimentar-se.
       Imagine-se  um mural  reproduzindo uma foto   da paisagem  humana da Rio Branco de hoje repetindo os mesmos gestos meus de flâneur voltado ao mural do passado do século XIX e das primeiras décadas do século XX.  Ou seja, um  outro   flâneur qualquer no futuro,  olhando o mural do século XXI, em outro  prédio, de preferência  moderno,  quando todos os  contemporâneos de hoje  virarem  uma  retrato  no mural  visto por uma habitante  querendo fazer  um nostálgica comparação  da Avenida  Rio Branco para a posteridade.
         Só aguardo que esse outro flâneur não mais encontre a Cidade Maravilhosa  no estado  infernal em que  se encontra  agora, porém seja uma urbe semelhante àquela imagem  belíssima e comovedora  de um conto de Oscar Wilde(1854-1900), em que inocentes  criancinhas,  por terem  atravessado o muro proibido pelo gigante egoísta, a fim de nele brincarem, eram por ele rechaçadas.       
        Ao perceber o gigante que a saída das criancinhas  fazia  murchar   as flores do seu belo jardim, de repente  compreendeu   que só com a presença delas ali brincando, as flores de seu jardim  novamente   retornavam à antiga e  verdejante  beleza. Com isso, o gigante egoísta  se transformou  num bom gigante  e o cenário, antes  desolador,  transformou-se  num paraíso  logo que o gigante mandou  derrubar o muro proibido. O conto termina com o gigante  brincando alegremente com as  criancinhas. 

NOTA. Voltei ao lugar do mural para confirmar o que, em linhas gerais,  dizia o  Machado da famosa  Rua do Ouvidor.  Na referida crônica, Machado comentava  o lado íntimo que a Rua do Ouvidor não podida perder. Essa particularidade, segundo ele,  é que devia permanecer. Um rua  estreita, "aconchegante," própria para se falar ao pé do ouvido com um companheiro, uma  rua  de apreciação  das modas, até de olhar para um sapato  "de bico fino"de uma senhora  que passasse. Rua  apropriada aos cumprimentos  mais fáceis de um  lado a outro da calçada, podendo-se mesmo  dar um aperto de mão sem difculdades. Ao afirmar isso, Machado  era contra  alargar-se a Rua do Ouvidor -  tema central da crônica. Se fizesem isso,  ela perderia todo o seu encanto,  o seu sossego,  a sua privacidade, a sua tranquilidade doméstica.Outras   ruas poderiam alargar,  mas não a Rua do Ouvidor.

         

terça-feira, 15 de agosto de 2017

KIM JONG-UN, DONALD TRUMP E NICOLÁS MADURO: O QUE PODERÁ VIR DE CADA UM DELES?



                                                             CUNHA E SILVA FILHO



           Não pense o leitor que  o mundo se inquieta só com o que  esses três  dirigentes de países diferentes e com  problemas  internos e externos  diferentes. O primeiro, um ditador  a quem se atribui ter mandado matar o próprio irmão. O segundo,  um presidente de uma nação-chave  para a geopolítica  mundial Se não incorro em  erro,  Donald Trump,   desde a campanha  à  presidência, tem  dividido  os americanos, sobretudo com  o emprego  frequente de  afirmações  com traços de pós-verdades que só perturbam  a opinião pública  dos EUA, quer dizer,   desunindo os americanos,   pensando que esteja agindo assim  pelo bem do povo.   Ledo engano. Pelo contrário,  o que anda fazendo e o que pretende fazer  dividirá ainda mais  a nação.   O terceiro, um candidato forte a se transformar em ditador, se é que já não o era com todas as malvadezas que tem feito  indo de encontro as leis do seu país e conduzindo-o com mão de ferro, enfeixando nas mãos, na prática,  todos os três poderes, garroteando  a liberdade de  imprensa e castigando  quem se lhe oponha às determinações e vontades  com prisão,   torturas  e o que mais for possível de  violência policial. Façamos algumas reflexões gerais sobre cada um deles.
   
             Já se disse que Kim-jon-un não deseja  partir  para o confronto  bélico com os Estados Unidos, mas  chamar a tenção dos americanos   a fim de  que que  tenham   outro olhar  para seu país e o seu governo. Só estaria mesmo  interessado no respeito  que possa  merecer dos americanos. Deseja ter a certeza de que é uma nação forte e soberana, com possiblidades de  dispor de  armas nucleares. Seus testes nucleares   com  poder de atingir  os EUA é um recado que dá ao atual presidente americano, Donald Trump. Essa seria um  análise  especulativa  mas não o bastante  para que se  possas inferir o que  o gordinho com cara de  adolescente   que aminha  um tanto  mancando.
         Quanto ao presidente Donald Trump, da mesma  maneira  ainda se mostra um esfinge  de um homem  sem  experiência  política e  tendo só atuado  no mundo dos negócios  e nos meios  de comunicação televisiva que, por isso mesmo, desenvolve mais seus talentos no espaço  borbulhante da aparência,  do simulacro e dos efeitos cênicos  e retóricos. Sua própria campanha, sua vitória  meio enevoada  e  pouco transparente no resultado    das eleições, sobretudo tendo em vista  interferências   do governo russo,  segundo a imprensa  tanto   divulgou, país  com o qual os Estados Unidos  nunca teve  tampouco  relações  tão mais próximas e amistosas,  nos deixa um pouco  com o pé atrás.
       Contudo, não é somente isso  que  anuvia   essa figura   polêmica  e com  ares de  bravatas que, a meu ver,  não bem combina  com  a postura  de um líder   que possa ser levado a sério pela sociedade  americana. Sisudo aparentemente,  esse milionário  na presidência ainda trouxe outros  ingredientes pouco  assimilados por um povo  que se constituiu  de um melting pot, de um país de imigrantes, ele próprio descendente de alemães.  
     Um desses ingredientes  é  o nacionalismo, o querer os EUA só para os americanos, como a sinalizar que o pais  não seria bem receptivo  ao estrangeiro,  à mistura de  línguas ouvidas  em  partes do  território americano, nas colônias estrangeiras,  onde se ouve um multiplicidade de  idiomas, sobretudo o espanhol. Esquece Trump que, segundo  assinalei,  ele mesmo  não é de ascendência americana, o que torna  a sua  suposta  postura  anti-imigrante  uma contradictio in terminis.   
   Sua plataforma de campanha, de início, já se tornava  antipática e inconsequente, com a ideia de construir  uma barreira de isolamento  com o vizinho México, através de uma construção de uma muralha, à semelhança  de outras muralhas  de sombrias memórias.   Novamente, seu   proclamado nacionalismo   já está provocando   tumultos  entre os americanos, como recentemente  se deu na cidade Charlotteville, estado de Virgina(EUA),   onde movimentos racistas   e nazistas  reaparecem  mais abertamente exemplificados nos atos  de violência  da  Ku Klux Klan– espécie de seita diabólica formada de brancos racistas, retrógrada,  que deveria ser  alijada de vez  da geografia  estadunidense – vergonha  para os americanos  que  respeitam a democracia  e os direitos  civis do país.  Essa excrescência   nazifascista    repugna à  consciência  dos povos livres  num mundo globalizado. 
     Ao invés da bandeira nacionalista  “A América para os americanos,” apregoada por Trump em suas  campanhas   cheias de  fanfarronices e gafes  espetaculares e no mau sentido,  Trump deveria era dar continuidade  ao espirito e mentalidades  avançadas  daqueles ilustres  ex-presidentes americanos  que deixaram sua marca  de estadistas,  à frente  George Washington,  Abraham  Lincoln, Franklin Delano Roosevelt,  apenas  para mencionar três  líderes de envergadura moral e cívica.  Infeliz\mente,  estamos no mundo  órfãos de grandes homens que sirvam ao bem-estar de seus países. São poucas as exceções.
     Por último, a figura  sombria do bigodudo  Nicolás Maduro  que,  herdeiro do seu antecessor, Hugo Chávez, ainda se comportou muito pior como chefe  de governo. Sem estar preparado  para ser um presidente, Maduro tem se  destacado  pelos males que trouxe ao seu mandato  presidencial. Até entendo em parte que  não goste do que ele insiste em chamar de  “imperialismo  americano.” No entanto,  o que tem  praticado  internamente  é bastante  para  que esteja sendo  isolado  dos  da maioria do seus países vizinhos, inclusive do Brasil. 
      Sua grande falha foi   desejar  governar   excluindo  condições  que  permitam que um país  se sustente minimamente,  que é a liberdade  de imprensa,  o respeito  às divergências,   o respeito aos princípios democráticos, à Constituição  do país. Incompetente para  superar os  entraves  da economia  venezuelana, mesmo  tendo  a seu favor  um país  riquíssimo em petróleo, Maduro  perdeu o controle  da sua administração e passou  a compensar suas falhas  e inoperâncias  praticando  atos  lesivos  às normas democráticas.
    Realizou  eleições fraudulentas, como a última, que lhe dará  poderes ainda mais   discricionários. Ou seja,  na prática,  está governando  como    ditador num país em que o Congresso  não tem mais  voz  da oposição, em que o Judiciário  se transformou  numa marionete do seu governo e em que as forças armadas se transformaram  em verdugos  da sociedade  que, em grande parte,  lhe  é adversária e não o quer  mais no poder.
    O plebiscito  realizado pela  sociedade o reprovou como governante. Realizou uma Constituinte  fraudada com o objetivo de o manter no poder no qual  a estrutura do Estado  se tornou, assim,  um simulacro,  com juízes   submissos  ao seu absolutismo. Desrespeitou até os princípios do  líder e herói  Simon Bolívar, um herói nacional da liberdade dos povos. O governo de Maduro  não passa agora de uma  contrafação, um engodo.
    O Mercosul, do qual  fazia parte, lhe fechou as portas. Os organismos  internacionais não o reconhecem   como  mandatário. A população  está sofrendo  as agruras  da falta de abastecimentos de   produtos de alimentos, remédios  e outros itens  indispensáveis à sobrevivência, afora uma onda de violência de bandidos  e  traficantes contra a sociedade, desemprego e outra  mazelas sociais.  A fuga de venezuelanos  para países vizinhos, como o Brasil,   é um fato  consumado.

   O país se endivida. Está sempre a pedir ajuda à Rússia que lhe empresta  rios de dinheiro, o que nos leva a perguntar: para onde vai  tanto dinheiro russo?  Não é fácil  obter resposta a essa  indagação.  A Venezuela, sendo o pais com  as maiores reservas do petróleo  mundial, está cada vez mais, segundo as    últimas informações que tenho lido  veiculadas pela imprensa mundial,   se endividando   com  os russos que lhe serão  dóceis  enquanto  houver petróleo no  maltratado  país  sul-americano.  

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O BRASIL E A EPIDEMIA DA RAPINAGEM




                                                                         Cunha e Silva Filho




          No Brasil, leitor,  os desvios do dinheiro  público não são casos  fortuitos. Estão se torando  uma  regra ou,  para um usar uma expressão do campo da medicina, uma epidemia da gatunagem. Confirma-se historicamente uma tendência  nossa essa reincidência  em locupletar-se do  erário  público o indivíduo em  baixa ou elevada função administrativa  ou de fiscalização,  a corromper  ou ser corrompido e, para agravar mais o quadro  sinistro e mesmo trágico, a não ter receio de praticar a ilicitude diante de outro  mal que nos persegue na sociedade brasileira: a impunidade, condição realimentadora    da roubalheira,   da desídia,    da rapinagem, da sonegação de impostos, quer de pessoa física, quer principalmente jurídica.   
     Com o avanço da comunicação virtual,  com as redes sociais, com  um mais sofisticado aparelhamento  de investigações das polícias,  com um  logística  avançada  na obtenção  de  provas ou pistas que  identificam  mais rapidamente os malversadores  do dinheiro do contribuinte, esses  inimigos da coletividade e do bem-estar de uma sociedade  mais complexa  e muito mais afluente estão, não obstante saberem que, mais cedo ou mais tarde,  serão  encontrados,  contudo persistem, com  deslavado cinismo, na prática  generalizada, seja no setor  privado, seja no  setor público, do desfalque,  do uso da propina,   do superfaturamento  e de outras mazelas  imorais  que estão  prejudicando   profundamente   o Estado Brasileiro.
         Diariamente,  temos notícias de  prefeitos,   vereadores,   ou de outras categorias  da máquinas  administrativas federal, estaduais  ou municipais. São notícias mais ou menos  nestes termos: “O prefeito da  cidade tal  fugiu levando  todo  o dinheiro  da prefeitura,  ou seja,  dos contribuintes.”  Esse exemplo serve apenas de metonímia para   denotar todo um estado   de putrefação  da vida pública  brasileira. Tal realidade só tem parelha com  a criminalidade   em nossa sociedade que  já constitui, segundo  as estatísticas,  10% da criminalidade  mundial. Leitor,  este nível de  violência  é catastrófico, porquanto  configura   uma estado  de  semelhante a guerras civis.
       Teria solução  esses dois grande e gravíssimos  problemas que enfrentamos  no país? Sim,  teria e o vilão maior   está  encravado  na forma  de legislação penal  brasileira,  no nosso  Código Penal    e nas inúmeras  e graves   formas de punir  erroneamente  nossos  criminosos e nosso  larápios de todos os níveis sociais. Há poucos dias ouvi na  Televisão   a notícia  - que  desrespeito ao  nossos povo!⁢– de que a Justiça  irá  libertar uns trinta  mil  sentenciados só por causa do Dia dos Pais!⁢Onde é que estamos? Que absurdo é esse? Parece até mais um  exemplo de pós-verdade. Entretanto,  não é.
        Essa excrescência de tornozeleira  eletrônica  para preso  domiciliar  é uma  acinte   à inteligência do  nosso  povo. Prisão domiciliar, tornozeleira  e outros penduricalhos não passam  de  práticas  enganosas  para  não prender mesmo  facínoras, corruptos e  ladrões. Esses artifícios engendrados por  não sei quem ( e desconfio que veio por mimetismo   externo, por mera imitação  de mentalidade colonizada)  não surtem  nenhum efeito  punitivo algum. Muito ao contrário. Onde é que se viu  esse recurso de  prisão domiciliar? 
          Para mim,  prisão é na penitenciária  de segurança  máxima, xilindró, cadeia, sol quadrado,   cana mesmo,  não  formas  lenientes  de  tratar  bandidos e patifes de colarinho branco ou traficantes   e criminosos  hediondos. Deixem de  tanta  hipocrisia  e tergiversações, de postergações que escondem evidentemente  o horror de serem  atingidos  por penas  rigorosas  valendo  para ricos e pobres,   e, ao contrário,   expurguem essas   brechas e recursos  e mais recursos “legais” de bandidos   a fim de amenizarem longos    anos de prisão    que deveriam ser cumpridos  literalmente, na íntegra. Não podemos  viver mais na base dos recurso  escusos dos meirinhos  da época de Dom João VI,  tão bem  descritos  pelo romancista  Manuel Antônio de Almeida (1831-1861) no  admirável livro Memórias de um sargento de milícias(1852).
          Gatunagem e violência  se entrelaçam, são irmãs  siamesas, são  farinha do mesmo saco. Veja um  coisa:  corrupção  política  é uma forma de  violência e, como tal, tem que ser  tratada a ferro e fogo. Enquanto no país  persistir a terrível e abominável  desigualdade  de tratar  criminosos e de todas as  formas,  quer dizer,   amaciar  os ricos e  brutalizar  os pobres e  negros  não haverá  justiça entre nós.  
         Leis duras e efetivas, sem  brechas  falaciosas  e espúrias, verdadeiros atentados  contra a ciência do Direito, é do que precisamos com urgência urgentíssima, leitor.  Não são para o futuro não. Têm  quer aprovados  para o presente,  o hic et nunc. O tempo tríduo de que falava  Gilberto  Freyre (1900-1987). Do contrário, seremos  engolidos pela violência tsunâmica  pela  rapinagem epidêmica,  pelo desmoronamento do Estado e, por tabela, pelo caos social  e financeiro,  já dando inequívocos sinais  de  exaustão.

       Não é somente o eixo Rio-São Paulo que está sofrendo na carne as consequências  da alta criminalidade,  É o país todo,  a Federação  inteira,  aa cidades e os campo, assim como  é nacional  o  gritante  problema  da rapinagem no setor  público e o mal vem de longe, conforme já  assinalei no  início deste artigo. A literatura brasileira já tem registrado todas essas mazelas sociais  em obras  ficcionais  de grande  qualidade  artística. Da mesma forma,  o teatro,  as novelas de  televisão,  até os programas  humorísticos. Não vale somente afirmar que a história brasileira   sempre foi assim  desde o Brasil Colônia, ou no primeiro e segundo  império,  ou  na República  Velha, Nova ou  novíssima.  
      Posições como estas  só avalizam  males crônicos  brasileiros, como se tudo  isso  fosse natural  e uma fatalidade  da nossa gente. Não.  É tempo  de  enfrentar  mudanças  corajosas, sem hipocrisias nem enganações ou  ensaísmos eruditos, acadêmicos, lidos  só  para iniciados. O país precisa  é de  pé no chão,  de vergonha  na cara,  de refundação moral,  de homens  dignos na presidência da República, na Câmera dos deputados, nos governos estaduais e municipais, nos Ministérios, no Judiciário, com igualdade de poderes, sem  baixos cleros,  sem delongas  macunaímicas nem  bruzundanguices.   A imagem do Brasil não pode ser mais  arranhada do que já está. Mudanças morais são necessárias na mentalidade  do povo e dos  governantes.