Os temas discutidos neste blog se concentram sobretudo na área de Literatura Brasileira, mas se estendem a outros temas e áreas culturais afins. Os gêneros literários da preferência da produção do autor são crítica literária, ensaios e crônicas. tradução de poesia estrangeira. Áreas de pesquisa e interesse do autor: teoria literária,história literária, vida literária.relação entre literatura, pobreza e violência, literatura universal e literatura de autores piauienses
terça-feira, 23 de agosto de 2016
A CRÍTICA LITERÁRIA NÃO PODE MORRER
Cunha e Silva Filho
Creio que o estado da atividade da crítica literária no país me leva a
uma antiga questão ventilada com muito interesse pelo crítico
impressionista Álvaro Lins (1912-1970) a propósito da discussão do estado de
crise na poesia em que se encontrava naqueles tempos de militância
dele em rodapés de jornais, mormente do Correio da Manhã,
no qual atuou, por muito tempo, como seu mais arrojado
analista de obras lançadas ao público, quer literárias
(ficção, poesia, teatro), quer históricas, filosóficas ou de
outra natureza.
Lins,
sempre lúcido, afirmava que a alegada “crise” na poesia não era
sinal de decadência, mas de vitalidade, de efervescência, de
superação, renovação, que antes acentuava as
energias criativas, nunca sendo, portanto, a
morte de um gênero. Era mais ou menos isso que intentava
transmitir naquele estilo seu tão pessoal como se estivesse sempre
dando aulas ao leitor, porém sem dogmatismos e soberba.
No sábado passado, li
no Segundo Caderno do Globo, Prosae Verso,[1] uma resenha de título
entre polêmico e irônico, “Crítica literária, você ainda está
aí?”, de Victor da Rosa. O resenhista, também ele próprio um
crítico literário, comenta três publicações
recém-lançadas que têm como eixo central estudos
críticos de três livros, As formas de romance, de Felipe Charbel,
Henrique Guimarães e Luiza de S. Mello (org.), Literatura e
animalidade, de Maria Esther Maciel, e Armadilha para Ana Cristina e
outros textos sobre poesia contemporânea, de Sérgio Alcides.
Não tendo
evidentemente lido nenhum dos livros mencionados pelo resenhista, apenas
desejo assinalar algumas considerações em torno do que me
suscitou o resenhista no tocante à discussão, de resto, polêmica,
do estado atual no país da crítica literária como prática desenvolvida
principalmente por professores universitários, em particular pinçado algumas
observações afloradas pelo resenhista, observações que há
tempos têm se tornado igualmente do meu interesse teórico e
de práxis crítica[2]
Meu intuito é mais provocativo,
ou seja, de suscitar novos questionamentos sobre a condição hoje da
crítica literária brasileira tendo em vista que o número de
críticos e ensaístas (não falando aqui de tantos e tantos autores
novos surgidos ultimamente no país) nos tempos correntes, se multiplicaram
enormemente, a ponto de não mais nem podermos acompanhar o que uns
e outros estão fazendo no momento e em que lugares do país.
É certo que, hoje,
existe um leque mais amplo de correntes críticas seguidas por
tantos outros críticos e ensaístas nossos, cujo divisor de águas, no
Brasil, se iniciou a partir das querelas travadas, no
passado, dividindo os críticos entre o Impressionismo e a Nova Crítica
(através do esforço pioneiro, entre nós, de Afrânio Coutinho, 1911-2000).
Daí então, foram-se se
adaptando no país novas correntes críticas importadas da Rússia, da França, dos
EUA, do México, da Inglaterra, da Itália, da Espanha, da América
latina, da América do Sul, e da Alemanha já despojadas de subjetivismos
superados, sobretudo com o surgimento do estruturalismo no
país na década de setenta, embora seu início remonte aos anos de
1950 e 1960, quando pensadores franceses, inspirados na
teoria de Saussure, procuraram aplicar conceitos da
linguística estrutural aos estudos sociais e culturais.
Surgiram, depois,
autores que foram desenvolvendo novas teorias do pensamento
critico-teórico de ponta, como I.A Rchards, T. S.Eliot Roman
Jakobson, René Welleck, Austen Warren,John Crowe Ransom, Eric Auebach,
Lucien Goldman, George Poulet, Roman Ingarden, Hiller, Stanley
Fish, Hans Robert Jauss, Lévi-Strauss, Emil Staiger, Michel Dufrenne, Roland
Barthes,Todorov, Julia Kristeva, Foucault, Blanchot, Derrida, os estudos da
Psicanálise freudiana, Walter Benjamin, Bataille, Genette, Deleuze, Michail
Bachtin, Lacan, Williams Raymond, Charles Sanders Pierce,
Althusser, Bachelard,Hans-Georg Gadmer, Terry Eagleton, Jonathan
Culler, Umberto Eco, Harold Bloom, Frederic Jameson, Wofgang
Iser, Susan Sontag, Edward Said e muitos e muitos outros.
Podemos citar, em Portugal,
Vítor Manuel de Aguiar e Silva (por sua exposição teórica
fundamentada nas mais atualizadas leituras de teóricos de maior evidência
no cenário cultural do Ocidente), assim como fez Luiz Costa Lima
nos dois volumes de sua Teoria da literatura em suas fontese, e, de
certa forma pioneira, Massaud Moisés pela contribuição notável de obras
de referência sobre teoria literária e prática de análise
literária.
Poder-se-ia
citar a obra Teoria da literatura, organizada por A. kibédi
Vargas, professor de literatura francesa na Universidade Livre de
Amsterdã, Holanda, com apresentação de Jacinto do Prado Coelho
traduzida em Portugal, que reúne uma série de textos teóricos
de teóricos europeus menos conhecido até de estudiosos de
teoria literária. Uma outra obra menos densa do que a de Aguiar e
Silva, seria O conhecimento da literatura, do críticos e
ensaísta português Carlos Reis, muito útil pela excelência de
informações bibliográficas atualizadas no campo da teoria literária.
No Brasil, contamos
também com a Teoria da
literatura, de Antonio Soares Amora, Notas
de teoria literária, de
Afrânio Coutinho (1978, 2ª ed.) Teoria
literária, de Álvaro Lins (1970),Teoria
literária, de Helênio Tavares,Teoria literária(1979),
organizada pelo crítico e teórico Eduardo Portela, reunindo ensaios
importantes de autores nossos. Para estudantes de
letras,podiam-se citar as obras Formação da teoria da literatura(1978), Teoria da literatura (1990)),
de Roberto Acízelo de Sousa, o Manual de teoria e técnica literária, de Orlando Pires (1985, 2ª ed.), as obras de Rogel Samuel, Manuel
de teoria literária (Org., 2001), Novo
manual de teoria literária (2007) e Modernas teorias literárias: breve
introdução, publicadas pela Editora Vozes. No passado, um
eminente autor didático, Estevão Cruz, editou a obra Teoria
literária (1940). Ainda no Brasil se publicou uma obra de grande repercussão na época, década de setenta do século passado. Aludo ao livro Teoria da literatura (Editora Globo, em edição traduzida ao português,1973) formalistas russos. um conjunto de textos sobre importantes questões nessa área do conhecimento compreendendo três partes: a) A problemática do formalismo; b) O poema; c) A narração.
Diante de tantas correntes
críticas surgidas nos últimos anos, voltadas para aplicações
de análises de literárias nos campos do marxismo, da fenomenologia,
teoria pós-colonial, teoria feminista, discurso da minoria,
teoria queer, do pós-estruturalismo, da desconstrução,
da psicanálise, do novo historicismo, materialismo cultural, além das mais
remotas, formalismo russo, new critcism, seria
muito temerário falar-se em morte da crítica literária.[3]
Todo esse
imenso corpus teórico estará sempre acenando
para seguidores que se afinem com a sua base
teórica e até as leve a maiores investigações do fenômeno literário e da
práxis da crítica.
Não faltarão críticos
literários e ensaístas que levem adiante suas pesquisas, seja de
autores passados, seja de autores contemporâneos, nacionais e
estrangeiros. E eu arriscaria ainda asseverar que, no domínio da crítica
literária no futuro, haverá mais autores se especializando em
determinadas épocas da história literária universal, ou
em determinados autores, ou mesmo num só autor, Isso já se
tem feito em centros adiantados,sobretudo americanos.
Não é, pois,
uma novidade. Contudo, vejo esse como um dos caminhos pelos
quais a crítica literária, em
livro, na internet, na universidade, de autores e pesquisadores independentes
terá um lugar,voz e vez.
Onde houver
um espaço de divulgação e de interlocução, aí
estará a crítica literária ainda fecundante e pronta para novos
agenciamentos. E diria mais, sem pessimismo algum, uma espécie de
competição intelectual saudável caracterizará os novos
tempos da crítica literária e dos estudos teóricos. O que os tempos
atuais mudaram foi a relação entre o crítico e o
leitor. Desapareceu o estrelismo, marca dos tempos do antagonismo
entre Impressionismo e Nova Crítica. O espaço da
discussão globalizou-se, arejou-se, não se confina mais
aos grandes centros do país mas se alastrou por todas
as regiões brasileiras. Não há mais tão forte hegemonia do eixo
cultural Rio de Janeiro-São Paulo.
A atitude diante da
crítica deverá ser feita de igual para igual, de pesquisador para
pesquisador, seja ele da universidade, seja da internet, em
sites e blogs. Todos estarão contribuindo para um avanço dos estudos
literários. Acabou a o tempo do mandonismo intelectual, dos barões
das letras. Vale o trabalho de cada um somado aos trabalhos de todos. O
diálogo entre teóricos e críticos, desta forma, será muito mais
democrático, sem firulas de superioridade, de se arvorarem
em patriarcas do domínio dos saberes. O que deles todos devemos
esperar é humildade, competência, originalidade e
avanço no domínio cultural. A crítica literária não
pode morre. Sem ela, o que há de ser do julgamento, da
avaliação e e da formação de melhores leitores? A crítica é
uma bússola. Nesta condição única, singular, específica, vitalizada
permanecerá como um aviso aos navegantes de todos os tempos.
NOTAS
[2] Cf. Alguns breves artigos meus sobre questões
relacionadas à situação brasileira da crítica literária. Ver meu blog.
“As ideias no tempo,” ou os mesmos textos na minha
coluna “Letra Viva,” do site “Entretextos”, de Dílson Lages Monteiro. Ver
também no site Academia.edu., - Francisco da Cunha e Silva Filho.
Consultar ainda minha pesquisa de Pós-Doutorado em Literatura Comparada ,
sob o título Álvaro Lins e Afrânio Coutinho: dois
críticos e uma polêmica. Coordenação dos Cursos de Pós-Graduação em
Ciências da Literatura. Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de
Janeiro. .Supervisor: Professor Titular Doutor Eduardo de Faria
Coutinho.. Faculdade de Letras da UFRJ, 2º semestre de 2014, 167 p.
sexta-feira, 19 de agosto de 2016
TURQUIA E SÍRIA: AUTORITARISMO A CAMINHO E PERSISTÊNCIA DA GUERRA CIVIL, RESPECTIVAMENTE
Cunha e Silva Filho
Tendo
iniciado seu mandato de Presidente da Turquia em 2014, Erdogan,
diante da ameaça de um golpe político-militar, segundo ele, arquitetado fora das fronteiras desse belo país por um
adversário de seu governo, um respeitado
teólogo e intelectual, de nome Fethullah Gulen,
ora residindo nos Estados Unidos
está exigindo que o governo americano determine a extradição do seu
opositor. Ora, conhecendo o valor intelectual
e moral de Gulen, cabe aos Estados Unidos não permitir
que o pensador sírio seja
extraditado para a Turquia numa hora em
que o governo de Erdogan realiza
uma agressiva escalada de perseguição contra todos que se lhe pareceram inimigos políticos e desejavam o seu banimento do poder na Turquia.
Segundo
as informações transmitidas pela
imprensa mundial, quase se pode prever o que poderia acontecer com
Gulen caso ele fosse repatriado.
Por conseguinte, o governo
americano não poderá
transigir de nenhuma maneira sobre essa questão e acredito que Barack Obama não o faça, sobretudo sabedor de que os expurgos na Turquia
já atingiram número considerável
de presos tanto militares de alta patente políticos, juristas, intelectuais,
quanto jornalistas que lhe fazem oposição.
O clima
de caça às bruxas está se tornando cada vez mais violento, contando com mortes e, pelo andar da carruagem, o número
de países que passaram a
governar seu povo com mão de ferro
está crescendo.
A Turquia agora, junto da
violência síria, aprofunda a crise político-institucional nesse pais que,
geograficamente, reúne parte da Europa e
parte da Ásia, ou seja, passamos a ter
menos democracia, menos liberdade nas duas
nações vizinhas.
Ao estrangular o golpe de opositores ao
seu governo, Erdogan, por sua vez, foi
mais rápido e logo desarticulou
os adversários, porém dando logo sinal de que agirá agora de forma
discricionária, rompendo
com alguns traços democráticos
que o começo de seu mandato parecia
indicar.
Algumas considerações são
dignas de reflexão no mapa político mundial. Nitidamente percebo que, em
nossa época, as estruturas políticas dos países, seja no Oriente, seja no
Ocidente, conquanto montadas
e sob princípios democráticos,estão se mostrando porosas
quanto aos caminhos de governança política na mediada em que,
por uma série de razões
econômico-sociais, permitem que democracias sejam administradas com um maior peso de autoritarismo claro ou
implícito.
Quer dizer,
o Estado democrático, por si
só, diante das dificuldades múltiplas
da sociedade, tende a reger-se por decisões que entram em choque com a
real liberdade dos indivíduos,
provocando neste insatisfações
dirigidas aos diversos setores
públicos e privados.
Quando
esse adensamento imposto de cima
para baixo cresce, a liberdade do
cidadão se apequena, e o cidadão se sente tolhido dentro de um contexto solidamente alicerçado e protegido por
inúmeros mecanismos de segurança e constrições de ações mais livres do indivíduo.
O indivíduo passa a sentir-se impotente diante da engrenagem
da máquina do Estado que age
realmente como se fora uma
“máquina” mesmo com toda a sua
complexidade interna, seu funcionamento
previamente programado, na qual não há espaço para sentimentos de indignação ou
possibilidade de alguém ´ pensar em
lutar sozinho contra o “vasto mundo” drummondiano. Ou, por outra,
cria-se no interior do indivíduo uma sensação de sufocação diante de situações
absurdas determinadas por essa
objetividade fria e cruel do Leviatã – cruel, sim -
este é o termo - de um mecanismo
vazio de qualquer
possibilidade de transigência de
natureza humana.O homem
contemporâneo é, deste modo, esmagado
por essa engrenagem somente entendida
se vista pela sua absurdidade na
esfera humana.
Na Turquia, mais ainda na Síria, na
Venezuela e em outras regiões do Planeta não é difícil tirar ilações
dessa monta provocadas os golpes e contra-golpes de governos
ainda não definitivamente consolidados e amadurecidos em suas instituições político-jurídicas. .
Por
outro lado, o que me causa espécie é o fato
de que os organismos
internacionais que foram idealizados
para defender os países
sujeitos a radicais mudanças na contramão
dos princípios democráticos me dão quase a certeza de que cruzaram
os braços diante das atrocidades genocidas, que presenciamos à distância, cometidas
na Síria e em outras partes de povos convivendo com o
martírio e a truculência de
tiranos.
Ontem mesmo, um comentarista de assuntos
internacionais estava chamando a atenção para esse estado de
inércia, de falta de vontade política no campo
das relações diplomáticas em que se encontram os Estados Unidos e
Rússia, países-chave que bem poderiam
minimizar a agressividade da guerra
civil síria. Vias
para a solução desse
conflito devastador não podem
ser deixadas de lado.
Seria até uma forma de cumplicidade diante
da hediondez dos crimes
perpetrados por um governo
tirano e perverso.No mundo contemporâneo não deveria haver mais lugar
para os horrores das guerras entre
nações. Isso significaria a capitulação
de países bem estruturados
politicamente e com liderança
diante da aceitação passiva
da covardia das guerras.
Se
entendemos que a globalização já é uma
fenômeno reconhecido e incontestável na história contemporânea e nos vários aspectos em que
podemos considerá-la, nações fortes, através de órgãos
responsáveis e efetivos, já
deveriam limitar ao máximo as
conflagrações bélicas que ainda assolam
alguns países. Não é possível tanta indiferença, em particular destas duas potências referidas atrás.
Se o desejassem primeiro por meios
diplomáticos e não conseguissem
colimar seus objetivos de paz,
por um acordo de um cessar-fogo prolongado
entre as partes principais envolvidas, i.e., os rebeldes e as forças do ditador Bashar
Al-Assad, haveria,em segundo lugar, um
recurso extremo - a tomada de uma decisão mais drástica de sufocar militarmente as tropas do ditador
sírio, destituindo-o definitivamente do
poder autocrático a fim de
reconstruir o pais regido por um estrutura política democrática a salvo de golpes militares ou civis.
Infelizmente,
continua a Síria sob o jugo do
ditador cujas suas mãos de ferro estão sujas do
sangue dos inocentes nesta carnificina que, praticamente, destruiu o patrimônio material e histórico
de cidades sírias, sobretudo
Aleppo transformando o país em ruínas e destroços. Se não se fizer alguma coisa
para conter as ações discricionárias do presidente Orgedon, não ficaria
descartada a possibilidade de um outro conflito fratricida caso ele aprofunde as medias lesivas à liberdade e aos direitos
humanos do povo turco.Uma guinada dessa proporções ainda tornaria mais difícil a passagem dos
refugiados pelas fronteira turca.
O segundo exemplo-símbolo exibido na
mídia global dessa tragédia síria foi o
daquela criança de cinco anos que conseguiram resgatar dos escombros em estado deplorável,
causando a indignação mundial contra a desumanidade a que podem chegar a
brutalidade e a insensatez de um guerra civil, cujas vítimas mais prejudicadas
são as crianças, os velhos, os desvalidos. São populações horrorizadas e enxotadas de suas pátrias por
ditadores e criminosos
que se passam por dirigentes de nações, cujo pior exemplo hoje
é o da Síria e de sua ferocidade
contra inocentes e desprotegidos.
São 300 mil pessoas assassinadas numa
guerra civil que parece não mais
acabar.É fácil entender por que
há tantas ondas de
refugiados em busca da
vida, da paz e da felicidade em terras distantes.
.
terça-feira, 16 de agosto de 2016
E SE DILMA ROUSSEFF, A PRESIDENTA, VOLTASSE?
Cunha e Silva Filho
Temer é interino. Todos sabem
disso. Já compôs o seu ministério. Inclusive diminuiu uns dez. O seu
governo teoricamente já está
organizado e, bem ou mal,
dando seus resultados, ainda que descontentando parte
do eleitorado, sobretudo petista.
Somos dilmistas ou somos temeristas Que valham os neologismos. Afinal, a
gramática da língua já entrou no rol das flexibilizações. Está terceirizada.
Os usos da língua se tornaram funcionalmente políticos. Nada a obstar. Nihil obstat, conforme o
figurino dos maristas na aprovação de uma obra
a ser editada há décadas, na famosa
coleção antiga da F.T.D. Os
erros, a agramaticalidade está na
ordem do dia. Ela é inclusiva e, neste
sentido, é petistas. Não gosta das
tmeses ( vi essa palavra usada, pela
primeira vez, por um secretário de um deputado da ARENA) consideradas hoje
coisa de museu da norma culta e
gozação dos novos conhecedores do vernáculo.
Uma senadora inova a língua por influxo,
analogia ou contaminação da flexão
empregada por Dona Dilma, a presidenta,
embora isso não seja um
erro, mas passou a ser estranho
que a política
partidária mudasse a língua no
seu uso mais consagrado. Nunca vi uma
ideologia política ser tão linguística. Penso: o que é capaz de
fazer uma esquerda tupiniquim servida a caviar e com temperos à la propina.
Contudo,
essa introdução já vai me cansando e, quem sabe, cansando igualmente o leitor. A minha “narrativa” (esse termo
está na moda. Hoje, tudo se resume a “narrativas.”) versa sobre a
hipótese de Dilma voltar do afastamento legal. Primeiro, constato uma premissa: a
volta de Dilma,no mínimo, seria o
maior evento piadístico
que o Brasil poderia introduzir nos anais da história
política brasileira.
O leitor já imaginou a situação
excêntrica de, mais uma vez, reforçar-se
a ideia cristalizada no inconsciente
brasileiro a partir da célebre frase
de De Gaulle 1890-1970): “Brésil n’est pas un pays sérieux.” Como
iríamos enfrentar essa reviravolta digna
de uma comédia de Martins Pena (1815-1848)? Gargalhadas gargantuanas se espalham, reboando pelos quatro
cantos do planeta: “Dilma voltoooooou!” Tudo vai ser revertido para a estaca zero. Um furdunço, uma
embrulhada geral, um país às avessas, um povo entre o espanto e a alegria
do populacho - epicentro da
desordem político-social-econômica. Manchetes de jornais estrangeiros morrendo de rir. A piada
universal.
Eis o leit-motif:
os senadores, no último instante, viraram a casaca e deram um voto de confiança à presidenta. Temer seria destronado, assim como seus ministros.
O Meireles, então, sairia
cabisbaixo, sem aquele modo de, friamente, dizer que, se precisar, vai
aumentar impostos, tudo por
amor ao emblemático “ajuste fiscal” - a pedra
de toque da administração Temer.
Dona
presidenta baixou o primeiro decreto: “Tudo vai ser como sempre foi: ajudar os pobres e ao mesmo
tempo enriquecer mais os ricos.” As migalhas ( “Minha Casa, Minha
Vida,” o bolsa-família, o bolsa-estudo no exterior, as cotas, a Lei Rouanet, a bolsa-gás e quejandos) ficarão imunes a retrocessos. Serão causas pétreas em sua nova fase de governo. “O salário mínimo - prossegue a primeira mandatária -, não se preocupem com ele, vou aumentar, já para este segundo semestre, por decreto, para
R$3.000,00 (Três mil reais).
Os empresários que se virem para pagá-lo.” E as pedaladas,
senhora presidenta: “Ora, darei continuidade e até a intensificarei.”
E a dívida pública? “Essa é o que de menos
me preocupa. Vou mandar
fazer dinheiro na Casa da Moeda sempre que necessitar. Não tenho que dar contas ao Tribunal de Contas”. E a Previdência, os altos juros, os maiores do mundo,
a educação pública, a saúde em
pandarecos, presidenta, a insegurança das pessoas nas ruas, em casa, em qualquer lugar? “Isso não são grandes problemas, darei conta de tudo isso
com uma canetada só.”
Só para finalizar, mais uma
pergunta, presidenta: como enfrentará a oposição agora mais raivosa, indignada e humilhada do
que antes tendo que, legalmente, interromper o brevíssimo
tempo de interinidade do Temer? “Isso é
o de menos, pois agora vou mesmo agir
como o Maduro, o bigodudo. Tudo será conseguido na marra, para isso tenho as Forças Armadas de unhas e dentes. Ninguém me
manda e eu sou a “cara”( mais uma neologismo dílmico que vai repercutir
às gargalhadas entre os brasileiros
da oposiição).
Faria voltar todos os ex-ministros,
inclusive o José Dirceu para a
direção da Casa da Moeda. Todos os implicados no “Mensalão”, no Petrolão e em
outros escândalos serão readmitidos com cargos do primeiro
escalão. O primeiro a ser cogitado foi Lula. Para onde? Para a Casa Civil e
ponto final. As afirmativas de Lula “Eu sou o Brasil. Não posso ser preso” tornar-se-iam o bordão do ex-sindicalista
e, hoje,
um cidadão bem endinheirado,
assim como sua família nuclear.
A Polícia
Federal, o Ministério Público, os
incriminados e tornados réus, por pior
que fossem, seriam beneficiados com a anistia geral e irrestrita.
O Nordeste, sobretudo, faria um carnaval durante uma semana celebrando a volta da presidenta Dilma. Tudo
é consumado. “Vou engarrafar
o vento. Vou falar como bem quero a ‘última flor do Lácio, inculta e
bela” e vou continuar a viajar com
largas comitivas (incluindo sempre o Mercadante) e me hospedar nos melhores hotéis
do mundo. Continuarei a ajudar os
médicos cubanos. Darei apoio ao Irã”.
“Darei apoio ao ditador Maduro e, se possível, ao Estado
Islâmico. Só terá vez comigo, seja para que for, se for pobre ou rico. Classe média, nem que a vaca tussa.Ninguém, de agora em
diante, terá o topete de me enfrentar.
Sou ilibada. Vou cumprir inteirinho o
que me falta e aviso: Lula, alegria do povo e dos intelectuais da esquerda, no pais e fora dele, voltará
eleito, como meu sucessor, em
2018.É só ver para crer. Quem manda aqui
(traduza-se Palácio do Planalto) sou eu” (soltando uns palavrões).
Com o retorno de todos os ministros da primeira fase do seu segundo mandato de governo, Dilma recriou
todos os inúmeros ministérios
anteriores. Fez mais: aumentou em
mais cinco do antigo ministério, um deles com o nome de Ministério da Propina, incluindo os Departamento de
Vigilância contra a
Honestidade, e criou
um outro departamento, o Departamento contra
as Investigações do tipo Lava-Jato.
O ministério Público se calou, assim como outros órgãos da Justiça. O Supremo teve um desfalque. Aquele ministro que denominou o governo petista
de “governo da cleptocracia” foi destituído para o bem do serviço público.
O empresariado vinculado aos maiores
escândalos contra a economia brasileira
foram todos regiamente beneficiados com uma lei de anistia sine diem..
Declarou
Dilma: ao lhe ser devolvido o mais alto
cargo da nação: “Tudo que faço é pensando no bem do Brasil e da
felicidade geral da Nação. Todos são livres para fazerem o que bem quiserem.Se fui afastada por pedaladas fiscais,
outros, que me precederam,
inclusive o FHC, já haviam feito o mesmo e ninguém piou, muito menos o Tribunal de Contas.
Não sou
alegre nem sou triste, sou
presidenta com “a” mesmo e que se lixem
os gramáticos que nem estou aí.
Vou continuar cometendo meus
solecismos, silabadas, flexionais,
léxicos, semânticos e o escambau, e tudo
o mais que me dê na telha. Minha língua é minha pátria. A educação faz o ladrão. No entanto, a pátria continua
educadora. Lula, bem posto no cargo da Casa Civil, com foro
privilegiadíssimo, blindadíssimo e, numa voz entre estentória e rouquenha, esbraveja, furioso, aos quatro ventos: “Ninguém me manda. Sou o
segundo pai dos pobres” ( e eu com os meus botões, acrescento: e dos ricos
também). Viva o povo brasileiro! [Este é um texto ficcional (quase uma crônica à clef. Qualquer dessesemelhança é quase
uma mera incoincidência.]
sexta-feira, 12 de agosto de 2016
A TIJUCA E A CRISE ECONÔMICA: UMA METONÍMIA DO BRASIL
Cunha e Silva Filho
Acompanho minha esposa para o médico.Estamos na Tijuca.
O movimento das ruas é grande. O vaivém das pessoas de todas as idades. Agora mesmo, escrevendo esta crônica, estou
ouvindo o tema de Lara na música tocada ao piano. Um deslumbramento!
Não consigo impedir-me de associá-la ao filme “Doutor Jivago,” adaptado do
romance de Boris Pasternak (1890-1960), de título homônimo, aliás, filme belíssimo, que vi mais de uma vez
protagonizado brilhantemente por
Omar Sharif (1932-2015), no papel de um médico e poeta russo, de família aristocrata,
vivendo um amor fatal desencontrado e incompleto, com a bela Laura, enfermeira, de família simples, tendo como pano de fundo o tumultuado período da Revolução Russa de 1917
até o final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918).
Para mim, a música e o ato da escrita me
deixam completamente enlevado de emoções e
sentimentos múltiplos. Me fazem um bem enorme o som e o signo.
Entramos numa galeria numa das lojas da qual fica a clínica. Olho ao redor e vejo lojas
que fecharam as portas por causa
da famigerada crise.Ao mesmo tempo
penso com meus botões: como um governo
perverso e irresponsável
consegue mudar a vida
de um país e de
seu povo! Meu Deus, lá, a uma distância de quase três
esquinas do ponto em que estava na Praça
Saens Peña, já de volta pra casa,
depois de ter entrado numa padaria
cheia de guloseimas, sobretudo produtos açucarados
que não posso comer, me lembro de
que, no Shopping principal do conhecido e populoso bairro, algumas
portas de lojas foram também fechadas pela
crise, cujos tentáculos vão arrasando
o bolso de todos, dos comerciantes, do
povão, da sociedade assalariada. Por outro lado, há um contraste, as farmácias estão abarrotadas de remédios e outros produtos, tudo muito caro, pela hora
da morte. Olho para os prédios de apartamentos e vejo alguns
anúncios de apartamentos para vender
ou alugar, dependendo da situação
de cada um. Ninguém quase compra uma vez que falta comprador.Alugar se consegue ainda.
Conversando com o médico, ele me diz que a coisa está feia e fala mal
do ex-governador do Rio de
Janeiro que deixou o sucessor, Pezão, a ver navios
enquanto ele, segundo se noticia
de vez em quando, ficou milionário. A Lava-Jato passou
por ele batida. Vai-se entender tudo isso, pois se está falando que, na Câmara dos Deputados, já estão
arquitetando um projeto - isso mesmo
- para anistiar (sic!) a
corja dos corruptos dos escândalos financeiros. Certamente vão começar
o perdão da rapinagem desde o governo do Lula com
o Mensalão. Continuo a ouvir
música em meio a esses pensamentos sombrios.
Ontem mesmo, o Henrique Meireles, ministro da Fazenda, mais uma vez, justificando
as maldades, afirmou que cabe aos governadores dos Estados
dar aumento ou não, ou melhor,
declarou, com a frieza que o caracteriza
como ex-presidente de um grande banco americano de que é aristocraticamente
aposentado, que governador não é obrigado a dar aumento ao funcionalismo. Ora, esquece ele de que
o governo federal abriu a torneira
para que o comércio, a indústria e tudo
reajustassem os preços de tudo que é produto, seja alimentício, seja de outra natureza, além da agravante de que é o próprio governo federal que determina os aumentos das tarifas
públicas, quer dizer, o poder central
é que dá o primeiro mau
exemplo. Esqueceu ele ainda que seu salário de ministro foi majorado, assim como o foram
os salários do presidente
interino da República, dos deputados e
senadores, de todos as categorias
da Justiça Federal.
Ora,
novamente repito, isso
é injusto e tem o dedo da maldade e da discriminação
contra quem não faz parte dos que
estão no topo dos poderes e também do seu entorno, os funcionários palacianos,
os da Câmara Federal, do Senado, dos ministérios, dos assessores
diversos. Eu me pergunto: como o PMDB e outros partidos querem ganhar
eleições para vereadores e
prefeitos se o eleitorado está insatisfeito
e indignado com tudo que é imposto
pelo governo federal?
A música, “a arte de expressar
nossos sentimentos por meio de sons,” definição daquele livrinho de canto orfeônico do meu tempo de
ginasiano no “Domício,”
parou. O aparelho de som
foi desligado. Agora, só
ouço o som do teclado
do meu computador.
Os jogos olímpicos prosseguem.Alguns atletas chineses se queixaram das condições
ruins em que estão sendo
realizados os jogos. Nem tanto
assim. Há coisas que devem ser elogiadas: o esforço enorme de
nossos atletas. Nem sempre fazem o melhor,
porém o que conta
é praticarmos o fairplay em todas a modalidades de esportes sem o mau-caratismo do asqueroso doping.
Mas, não se pense que o país é só sofrimento pecuniário. Contenção de despesas familiares. Aperturas disfarçadas em
mais uma suposta nova classe média. Há os indivíduos de outras atividades que não foram
afetados ainda pela
ciranda financeira. Há ainda muita gente que vive
como marajás, como
se estivéssemos numa Suíça, pois os ricos e famosos se parecem e têm gostos
praticamente iguais. Vivem bem mesmo em tempos bicudos, a começar da classe
política e de algumas categorias
de cargos públicos, sempre bem
aquinhoados, no conforto da elegância
desmedida, do requinte, dos bailes suntuosos,
da mesa farta e pantaguélica, assim como do far-niente dos hotéis de mil
estrelas... Sem falar nos seus paraísos
fiscais - frutos das propinas de
corruptores e corrompidos numa simbiose
garantida pelo foro
privilegiado da politicalha nacional
e do lado podre do empresariado
supostamente enjaulado no papel
da burocracia jurídica capenga do faz
de conta.
A arraia-miúda chafurda no lamaçal, na ignorância, nos expedientes pícaros,
na exploração dos otários, no
parasitismo familiar ou condominial, nas frinchas
de quem indiretamente lhes propicia vida mansa aproveitando as
sobras do sibaritismo dos bem postos. Nouveaux-riches, emergentes, biqueiros conhecidos
em todos os cantos da sociedade
heterogênea, desunida, classista, hipócrita e, no fundo, nadando no elitismo e suas variantes, enfeudada,
trambiqueira nos altos negócios
da alta malandragem dos wheel-dealers.
E
eu não estou falando de países ricos, estou falando
dos tupiniquins, aos quais nada falta e tudo permanece na incolumidade
dos privilégios sólidos como rochas. O país
continua o mesmo, sob o comando intransigente e mandonista, travestido de práticas
democráticas, de bom-mocismo imaculado, sob a sua ordem imperial, despótica com os
humildes e os sem voz e sem vez, sobreviventes
da miséria e da empulhação crônica. Esta
é a metonímia do país tendo
por parâmetro o quotidiano de um
bairro que, no tempo do Brasil Império,
já foi aristocrático.Viva o Brasil!
.
terça-feira, 9 de agosto de 2016
INJUSTIÇA FLAGRANTE
Cunha e Silva Filho
Tanto o governo fracassado de Dilma quanto o atual governo
interino de Temer cometeram o mesmo
erro palmar e, o que é pior,
injusto. A primeira não
vinha dando nenhum reajuste ao
funcionalismo geral há uns quatro ou
cinco anos. O segundo, mal começado o governo, já reajustou regiamente seus altos escalões dos três poderes e outras categorias
de funcionários federais que
têm poder de barganha, como, por exemplo,
a Polícia Federal que, acenando
para o governo com uma
possível greve, foi logo atendida
pelo interino Temer. Quer dizer,
está sacrificando o grosso do funcionalismo determinando o congelamento de
seus salários já defasados desde o
governo Dilma.
O ministro Henrique Meireles já avisou aos governos estaduais que
não deem reajuste aos funcionários
por dois anos. As três situações
claramente injustas se tornam, deste modo, bode expiatório da roubalheira que assolou
o governo federal com os
bilionários prejuízos acarretados pelos desvios de dinheiro para
pagamento de propinas a partidos políticos, inclusive, segundo noticia
continuamente a imprensa, de
alguns políticos do atual governo.
Mais uma agravante, o governo
federal interino dá continuidade às determinações de aumentos de tarifas nos
diversos setores da economia, acarretando a alta do custo de
vida, com o crescente aumento dos mais importantes itens
que fazem parte das despesas
diárias do consumidor brasileiro. Ao fazer isso,
o governo federal ganha em
arrecadação graças ao arrocho salarial que impõe, a ferro e fogo, à
sociedade, sobretudo aos
que têm renda média, baixa
ou ainda estão no fundo do
poço da miséria.
O que o governo federal está fazendo é o que há pouco tempo já vinha sinalizando: tomar medidas
impopulares que - eu diria - só vêm
prejudicar os assalariados
encolhendo seus salários com a carestia dos preços de tudo: comida, remédio,
plano de saúde etc. Parte dos comerciantes gananciosos
estão se aproveitando dessa liberalidade governamental
às expensas das aflições pecuniárias do povo
para ainda mais ajustar seus
preços sem aviso nem justificativa.
Historicamente, esse círculo vicioso não é de hoje. Basta reler
jornais de décadas passadas
para vermos como o povo
brasileiro tem sofrido na carne
por causa de sucessivas más
administrações de governantes.
O que
significa afirmar que, no país,
a exploração, a partir dos governos e secundada por maus comerciantes e empresários, é uma constante e, assim,
governo entra, governo sai, e o brasileiro, como um Sísifo, vive rolando com as mãos uma pedra até
ao topo da montanha e, antes de alcançá-lo,
a pedra novamente se despenca montanha
abaixo e, nesse esforço, ele é obrigado a subir
o rochedo indefinidamente.
Sabedor dessa “cordialidade” do caráter do brasileiro, os donos do poder pouco se importam se
alguém está sofrendo aflições
causadas pelas mudanças na economia
do país.
O que não fazem é punir
duramente os culpados do
estrago que se fez, com a rapinagem sem precedentes de governantes já bem conhecidos do público
brasileiro, cujo pontapé
inicial remonta às revelações escabrosas do escândalo do Mensalão e de outros
crimes de governantes contra o
Erário do Estado Brasileiro. Solapando o dinheiro
público da Petrobrás que foi para os bolsos de facínoras
de estatais e bem assim de governantes estaduais e municipais que se
locupletaram como verdadeiros quadrilheiros com os desvios
e bem urdidos esquemas de
superfaturamentos junto a empresários rufiões, não é novidade que as contas públicas
resultassem na quebradeira de
estados e municípios e no estrago
financeiro das contas públicas
federais.
Ao invés de prenderem efetivamente políticos e
empresários desonestos, assim como
governantes envolvidos em corrupção,
obrigando-os a devolverem aos cofres públicos
o produto da rapina generalizada
e recalcitrante, o governo, ao contrário
do que se esperava, faz recair
sobre os ombros dos cidadão brasileiro todo o gigantesco prejuízo sofrido
pela Nação.
O povo brasileiro não tem
culpa alguma desses assaltos às finanças
públicas. Não merece pagar o pato sozinho. O prejuízo da roubalheira de colarinho
branco teria que ser
dividido entre todos nós e, de forma proporcional, aos salários da cúpula governamental.
Melhor
dizendo, o governo federal,
para dar exemplo de sua vontade
de passar a limpo o país, não deveria ter concedido
aumentos elevados para aqueles
que mais ganham nos altos cargos: presidente da República, ministros,
deputados federais, senadores e de outros setores privilegiados da máquina do Estado. Ao fazer isso, está
prestando um desserviço à sociedade que não mais confia em políticos
e governantes, seja da esquerda, da direita ou
das mais diversas colorações
ideológicas. Estamos fartos da má
política e da falta de respeito à sociedade
brasileira.
quinta-feira, 4 de agosto de 2016
RELUZ MAS NÃO É OURO
Cunha
e Silva Filho
Moro pertinho do Maracanã, o mais
famoso estádio de futebol do mundo. Com as reformas ficou
majestoso, solene, digno do respeito que merece por uma longa folha de serviços prestados ao país e ao nosso
futebol. Só uma vez nos deixou tristes: em 1950, com a derrota do Brasil para o Uruguai na Copa do Mundo. Gol de
Ghiggia.Costuma-se dizer que o Brasil, nessa derrota em casa, silenciou de
tristeza. Eu estava com 5 anos na época,
menino em Teresina.
Agora, perto do Maracanã, que será o
centro das atenções amanhã, dia da abertura dos Jogos Olímpicos, tudo no entorno desse estádio virou medida de segurança, a quadra de esporte do
centenário Colégio Militar do Rio de
Janeiro (CMRJ) está fazendo o papel de
lugar de pouso de helicópteros do Exército. Nas
principais ruas que dão acesso ao grande estádio estão postados
homens do Exército, guardas
municipais, Polícia Militar. Polícia Civil. Guarda Naional.
De vez em quando, da minha janela, vejo muita coisa e escuto o barulho ensurdecedor
dos helicópteros. Me lembra um estado de
guerra.Ainda bem que é só uma lembrança.Alguns caminhões cobertos do Exército e outras viaturas estão
estacionados no campo de hipismo do
Colégio Militar. Os soldados do
Exército, desde pelo menos a semana
passada, já estão em pontos estratégicos,
bem armados, da Rua São Francisco Xavier,
num ponto da qual se localiza o
velho Colégio, que é parte também de
minhas lembranças por ter exercido a docência
de língua inglesa nessa prestigiada
instituição educacional, modelo
de ensino-aprendizagem no país com um corpo docente de primeira grandeza.
Na
semana passada, passando por dois militares fazendo a segurança em frente do
portão principal do Colégio Militar,
vendo que um deles tinha um
semblante simpático, lhe fiz uma pergunta só por cortesia e ele me tratou
com muita atenção . Na rápida conversa, me disse que
tinha vindo do Rio Grande do Sul
somente para fazer parte da segurança da Olimpíada de
2016. Com ele estava uma colega militar,
que era de Curitiba, um moça discreta
e também cordial.
Se me perguntassem se estou feliz com os Jogos Olímpicos, eu diria que sim e não. Sim, porque não é qualquer tempo em que
um país é anfitrião de um megaevento tão importante. Um país que sedia um
acontecimento destes torna-se foco das atenções do mundo inteiro e,
principalmente, propicia o encontro
dos povos que, pelo inestimável valor
dos esportes, se vê
congregado, unido, trazendo
alegrias e um sopro de esperança de paz entre as nações no momento em que a
nossa Terra está tão conflagrada e tão sofrida em
tantas regiões dos continentes.
Na essência, sim, os Jogos Olímpicos são
alvissareiros, bem-vindos. O melhor, o
certo é tratar bem os que aqui
chegam como desportistas
competidores ou como turistas
estrangeiros e nacionais. Em suma,
é um período de confraternização, de uma pausa que se dá a divergências variadas entre
os povos. O seu cerne é a alegria
do fairplay, a vitória dos grandes
atletas, o fortalecimento dos valores humanos, como a paz, a concórdia, a troca de experiência entre culturas diferentes
ou semelhantes, a
consagração de alguns competidores.
Seria uma festa ecumênica, um
encontro universal entre povos, a continuidade de um elo que teve sua origem na admirada Grécia antiga. Seu símbolo maior é a
decantada tocha olímpica que,
percorrendo o país inteiro, chega
ao centro irradiador
dos Jogos – a bela cidade de São
Sebastião. Não poderia ser outra.
Por outro lado, diria que não estaria alegre
pelos Jogos Olímpicos no Brasil dado o fato de que o momento em que vai ocorrer
o megaevento, por um desses infortúnios da vida, é aquele
em que o país não vai bem na mente e no corpo.
Oscilando entre um governo interino e um
governo afastado, o país é caudatário dos muitos desmandos
do governo anterior e, a par
disso, não está sendo, em alguns aspectos
de sua nova administração federal, bem recebido por parte da sociedade
civil. Ambos me parecem resultar de uma espécie de simbiose entre
o fracasso do governo anterior e as incertezas de um governo que já está tomando
medidas impopulares pelas quais o
povo vai ter
pagar a conta.
Ou seja,
o governo afastado dilapidou as finanças do país com o acúmulo de
desvios do dinheiro público que
foram parar nas mãos dos beneficiários das propinas milionárias
responsáveis pela grave crise
econômico-financeira.
Esta constatação não foi uma quimera inventada pelos que não desejavam a continuidade do governo Dilma.Foi a
incompetência combinada com a rapinagem
do governo Dilma que a afastou do cargo. A Operação Lava-Jato não nasceu ex-nihilo. Fundamentou-se das
investigações das diversas operações
implementadas em consonância
com a Justiça e com a resposta
da sociedade civil que manifestou seu repúdio a um governo que estava se despedaçando pelos seus malfeitos,
desmandos, desídias e sobretudo
corrupção generalizada conluiada
com parte do alto empresariado e com a impunidade que o governo
afastado não combateu de vez que
ele era parte intrínseca desses desvios de conduta de administração pública, cujo ponto mais
alto do desastre financeiro
foi justamente uma estatal do porte da Petrobrás – pivô dos maiores
escândalos da história política brasileira.
Num país assim assolado pelo desemprego, inflação,
violência, criminalidade galopante, falência de alguns Estados brasileiros, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, por exemplo, sucateamento de setores
vitais à normalidade do funcionamento das cidades, como saúde,
educação, segurança, transporte,
pensar-se em gastos
faraônicos com a preparação dos Jogos
Olímpicos seria uma temeridade
pra o Erário. Quer dizer, os gastos com o megaevento esportivo acentuaram
as já combalidas finanças dos Estados da Federação e do governo
federal. Tudo junto, resultou e tem resultado no agravamento da crise financeira do país.
O governo interino, já desde o início de sua composição
ministerial, não deu bom exemplo de contenção de gastos. Veio logo
o anúncio de aumento de salários das categorias de cargos
do mais alto escalão do governo:
presidente da República, ministros, membros do Supremo, deputados, senadores e,
por efeito cascata, os
outros cargos ligados ao Poder Judiciário, seguido, por sua vez,
pelo aumento de salários da cúpula governos estaduais nos três
poderes.
Ora,
leitor, que pior exemplo
deu o novo presidente ao permitir tudo isso? Por que privilegiar primeiro os que mais têm salários
elevados no pais? O funcionalismo
público federal de outras categorias,
mormente os chamados barnabés, não
mereciam também reajustes, sobretudo
porque, desde o governo Dilma não tem
sido beneficiados por reajustes salariais?
Não se justifica uma discriminação destas
para com o funcionalismo público que, faz uns cinco anos, não tem aumento. Contudo, o atual governo permitiu
e autorizou aumentos nos preços de
tudo, elevando o custo de vida e arrochando,
desta forma, mais uma vez os assalariados
em larga escala em itens que têm impacto no bolso dos consumidores das classes médias e mais
onerosamente os menos aquinhoados: taxas
de luz, telefone, gás, IPTU, os preços
dos remédios, dos alimentos em geral, dos planos de saúde, dos setores de serviços etc.
Um governo que mal começa e age
assim não está dando prova
de que assumiu o poder para melhorar
a vida das pessoas.
Além disso, o que os três poderes em
Brasília gastam daria bem para melhorar muitos problemas enfrentados
pela população sofrida do país.As
mordomias palacianas neles continuam
soltas e fagueiras. Os gastos continuam astronômicos
até parecendo que estamos vivendo
num país
sem crise financeira e no melhor dos mundos possíveis..
Como poder confiar numa
Estado brasileiro que muda de partido
mas não muda as suas práticas nefastas: o nepotismo, os mesmo
donos do poder e da
política, a herança política
familiar em cargos-chave.
Para concluir esta crônica, volto à minha
ambiguidade inicial, entre a alegria da
sedução da Olimpíada e a decepção dos
desmedidos gastos públicos do governo federal e os
de alguns estaduais e municipais.
A pátria amada idolatrada é mesmo uma mistura. Não é pura, mas causa dor,
espanto e indignação.
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