terça-feira, 30 de julho de 2013

BRAZIL'S OVERVIEW CORNER: Wars that have proven useless


 [This article is followed by a translation into Portuguese after this text]

                                                By Cunha e Silva Filho

             The American  presence in Iraq, even  with the withdrawal of the majority  of military  force still  deployed in the country,  has not  prevented  the  continuous  intolerance  among  rival factions, i.e., among  Xiitas and Sunitas.
             The extremists   go on with  their attacks, without truce, with neither side  wishing a dialog, word which, as it seems,  is not to be found in the dictionary  of civil war tragedies   that leave behind  more  dead bodies, car-bombs,  bloodshed and losses  of lives and destruction in  cities and  towns. It all   points at a lack of control on the part of  country living  in fratricidal  conflicts, whether in Egypt, in Syria,  in  Iraq or other regions. It even looks as if  we do not  possess any more  international  peace organisms that would   have the  main  purpose  to  reduce  conflicts among nations  which destroy  one  another  in order to take power  by means  of  bloody  religiosity  and  by other unknown   arguments. I wonder if we have come to a degree in which  struggling nations are doomed to  destruction  without having  anyone  to  help them  concretely solve their problems and lead them  towards  achieving  peace.
               Governments have been   ravaged,   their leaders dead.  New  leaders  have  been  taken over by elections or by coups who, in turn,  have not got to maintain   the  integrity  of their  people or their unity  as a nation.  This is  a stage  of Mankind History which is not at all  the best  one  to please  nations  and  peoples. Far otherwise.

             At this gloomy moment for the human being universally  taken,  it would be  necessary to  draw water out of stone, never say die, never fall into   lassitude and call together all good hearted-men of the Planet so that they may have their voices  heard and taken into account by those who  are daily killing one another led by  extremisms,  partisanship, intolerance, fanaticism -- these great evil human  creature is sometimes  unfortunately  endowed with.
         The History of the peoples do not have so far been serviceable   as a lesson to all nations in   conflict,   inasmuch   as the atrocities of civil wars go on among several  peoples. How can one  build a city, a state, a country in a solid ground and with  lasting  peace if  guerillas, wars, battles, terrorism – this  last one the most  inhuman  tool of cowardice  that  in our days   human kind  has ever give as an   example!
        To be quite frank,   international security organisms, like UN, NATO and others,   little success   have actually  obtained in the dialogs and negotiations  made with   countries’ delegations in  warfare. I can only see a way signaling some hope: a spiritual dimension without fanaticism: a balance with  transcendental force that may turn fanaticism, intolerance and terrorism into attitudes taken by man   which, without forgetting the logical limits of human condition, manage to  lead peoples towards  a frank dialog, open-minded  to mutual  concessions, by recognizing differences  and  diversified world views. I understand that, by  compromising  a part of  their opposing views, there shall be a way which may be opened to a universal understanding. If man, for example,  is able to learn a foreign  language,   like English,  Spanish or other widely  spoken language, and get his meaning across other  peoples,  why couldn’t he do so as far as peace  goals are concerned among nations and children of the  same country?
               There exists a kind of Babel Tower that is still very active in our contemporary time: the diversity  of voices and political, ideological and religious views. However, this confusion of  languages, here metaphorically  considered,   that troubles the coming of peace  could well be a sort of solution, the  decisive tool of  a  universal human language, i.e., the use of  a dialog, as I suggested some lines  behind, but an unbiased use of communication, without subterfuges, without an attempt to  hide  unwanted  intentions, a dialog in which would be no  room for  one  of the biggest evils of life: hypocrisy.  Indeed, this dialog would be a way out  towards sharing understanding others without hegemonic connotations of whatever nature,  without submissions and  opportunism. That would not  be a Utopian ideal  of a young man, because this columnist is no longer a youngtster, but  just someone whose greatest aspiration is to see the world, the nations, the Planet in a time ruled by lasting  peace.

 Guerras  inúteis

                                                 Cunha e Silva Filho


                           A presença  americana no Iraque, mesmo com  o afastamento  da maior parte da força militar lá instalada,  não tem  impedido a continuidade  da intolerância entre facções  opostas, ou seja,  entre  xiitas e sunitas.
Os extremistas  persistem, não dão trégua,  nenhum dos dois lados  deseja o diálogo,  palavra que, ao que tudo indica,  não se encontra no dicionário  da  tragédia da guerra civil que  se alastra com mais mortes, carros-bombas,  derramamento de sangue e perdas de vidas  com destruição  das cidades. Tudo  aponta para  um descontrole  de países  em  conflitos   fratricidas, seja no Egito,  na Síria, no Iraque e em  outros  regiões Até parece que não mais existem organismos  de paz  internacionais que serviriam   para  dirimir  conflitos entre  nações  que se matam por tomada de poder,  por religiões  sangrentas,  por outras razões  desconhecidas. Será que chegamos a um ponto em que  as nações  tendem a se destroçar sem que ninguém  faça algo  concreto em direção  à paz?
Governos  foram  destruídos,  mortos  seus líderes, os quais foram substituídos  por outros que,  por sua vez,  não  têm  contentado  a unidades dos povos.   É uma fase  da História da Humanidade  nada alvissareira. Ao contrário.
Neste momento  triste para o ser humano  universal é preciso  extrair água  da pedra, não desanimar,  não cair  na indiferença e conclamar  todos os homens de bem  do Planeta  a fim de que possam  ter sua voz  ouvida e  tomada em consideração  por  aqueles que diariamente  estão se matando levados  por extremismos,  facciosismos,  intolerância,  fanatismo  esses grandes  males  de que a criatura humana  mostra-se  por vezes  dotada.
A História dos povos  não tem, até agora,  servido de lição às nações  em conflito, já que  as atrocidades da guerra  civil  prossegue  entre  vários  povos. Como se poderá construir  uma  cidade, um estado, um país de forma sólida e de paz duradoura  se  as guerrilhas,  as guerras,  os combates,   o terrorismo – este o mais desumano  instrumento de   covardia  de que deu exemplo o ser humano em tempos atuais.
Ora, se os organismos de segurança mundial, como a ONU, a OTAN  e outros,  pouco  têm   atualmente   obtido sucessos  no diálogo e na  negociação  entre  conflagrações  de países,  só vejo  um caminho  com alguma  esperança: a dimensão  espiritual  sem  fanatismos:  um equilíbrio   com força  transcendental  que  possa  transformar  o fanatismo,  a intolerância e o terrorismo  em   atitudes   tomadas pelo  homem  que, sem abdicar  dos limites  lógicos   da condição humana,  consigam  levar  os povos  ao diálogo franco e aberto às concessões mútuas, reconhecendo  diferenças  e  visões  díspares. Contudo, entendo que, cedendo  uma parte  de suas  divergências,  há de se encontrar um caminho   que  tenha   uma abertura ao entendimento   universal. Se o homem é capaz de aprender e se comunicar  num  língua, como  o inglês ou o espanhol, ou outra língua  bastante falada  por habitantes   do Planeta,  por que não o poderia fazer   no tocante  à consecução da paz  entre as nações e entre os filhos de uma mesma nação?
Existe uma espécie de Torre  de Babel  que ainda está muito atuante na contemporaneidade: a diversidade de vozes e  visões  políticas, ideológicas  e religiosas. Porém,  essa confusão  de vozes, aqui considerada metaforicamente,   que atrapalha  a chegada  da paz  pode bem ter  como  forma de  solução,  o instrumento  decisivo  da linguagem  humana universal, i.e., o uso  do diálogo, segundo  já sugeri linhas  acima, mas o uso  sem preconceitos,  nem subterfúgios,   nem   tentativas de  ocultar   intenções escusas,  um diálogo onde não haveria espaço  para  um dos grandes  males  da vida, a hipocrisia. Este diálogo, sim,   seria uma saída para a partilha,   a compreensão  do outro  sem conotações  hegemônicas,    sem sujeições e oportunismos.Isso não é uma  utopia de um jovem,  porque não o sou, apenas alguém   cuja aspiração maior   é ver  o mundo, as nações, o Planeta num tempo   no qual  reine  duradoura  paz.


sexta-feira, 26 de julho de 2013

Quanta inveja do Papa Francisco!




                                                        Cunha e Silva Filho


               Imagino o que se passa na cabeça de tantos governantes brasileiros nesta semana em que o Papa  visita o nosso país  e leva a multidão de fiéis ao delírio graças ao seu carisma,  à ternura que  transmite ao  povo brasileiro de todas as classes sociais. Não foi um só dia essa apoteose em que se transformou  a presença do Papa  em terras cariocas. Até as manifestações  das ruas contra  o governador  fluminense e contra  a política brasileira  diminuíram. A cidade parece encantada. Aleluia! Aleluia! Deixem o Papa  passar com o seu sorriso constante, o seu  olhar doce, o seu abraço, beijos e carícias nas cabecinhas das crianças. “Sinite parvulos venire ad me.” Seria um slogan  bem apropriado  à sua figura  e aos seu modos  angelicais. Papa dos pobres, desde os  tempos argentinos. Não falando bem  português, mas lendo a nossa língua  bem razoavelmente,  pode se comunicar à vontade com  o brasileiro.
Creio que em popularidade   já superou  o grande  João Paulo II, cuja presença no  Brasil  foi também admirável e  fez muito bem ao povo. Entretanto,  Papa Francisco é diferente. Está  conquistando  o coração  dos brasileiros.
A imprensa  vinha  declarando que  seus pronunciamentos, suas homilias,    teriam um  tom incisivo no que concerne à situação social  brasileira. Explicitamente,   isso passou pra muitos  despercebido. Se, no entanto,  olharmos  mais fundo,  as entrelinhas  dirão muito sobre  questões  sociais e sobre  o sofrimento  de parte do povo  brasileiro e, particularmente, do  carioca.. Pois Francisco andou  falando  em  segurança,  saúde,   fome,  pobreza,  abandono  das  classes  desfavorecidas, consumismo, falta de solidariedade  e corrupção. É só prestar  muita atenção  em  algumas  frases  por ele proferidas dirigindo-se  aos necessitados, seja,  na visita a uma casa humilde em Varginha,  conjunto  de favelas de Manguinhos,  seja em homilias,  seja na magnífico evento  em Copacabana, na Tijuca, quando ali  foi  assistir a uma inauguração  de  um hospital para dependente químicos, seja em outros   lugares.
Com cuidado diplomático,  vai ele,   aqui e ali,  soltando  algumas pistas de  seus  pronunciamentos  à população  jovem e aos adultos. Ele sabe de tudo,  utiliza  a internet, o twitter e de aceno à direita e à esquerda no seu papa-móvel aberto  e sem blindados,  vai  semeando  seus grãos  de   esperança,  de entusiasmo e de  desejos  de mudanças para a humanidade, sobretudo  quando estão em  jogo    os injustiçados,  os deficientes,   os velhos, os marginalizados,   as crianças  indefesas e,  principalmente,  os humildes.   É difícil  expor tantos ângulos  dessa personalidade e dessa viagem  ao encontro da juventude  mundial.
Papa Francisco marcará  o coração  de todos os brasileiros de forma  indelével. Sua presença  é uma  epifania. Veio ao Rio em momento delicado e conturbado.  Sua passagem tem sido um oásis,  um brisa  acalentadora e, enquanto estiver  no Rio,   a esperança  se espalhará   pelos quatro canos do país.
Papa Francisco, nos atos  litúrgicos,  permanece  sério e compenetrado,  no semblante  do qual  podemos  vislumbrar  a profunda   preocupação  com a  dimensão  transcendente  do que lhe vai na alma. Disso deu mostra  em Aparecida diante  da festada imagem de Nossa Senhora, ou dentro da capelinha  simples de Varginha, ou nos momentos  de orações em Copacabana,  na Catedral com os jovens argentinos. Fora  desse contexto  sagrado,  volta à  alegria  que lhe é  característica,  nos abraços,  nos apertos de mãos,  nos acenos  de bênçãos ao povo.   
Todos lhe querem  estender  a mão,  tocá-lo, falar  com ele,   dizer-lhe  do amor e  afeto  que por ele sentem. São milhares, milhões de mãos estendidas,  desejosas  de um toque que seja, de um olhar que seja,  de um sorriso que seja. E aí vai  esse  senhor  setentão  conquistando os corações  de todos e até de pessoas de outras religiões.

Não creio que  sua passagem  pelo Rio de Janeiro e, por extensão,  pelo  Brasil,   ficará   em vão. Papa Francisco  tem o  dom de  entrar  na vida interior das pessoas,  instilar   em nossas  vidas   confiança  de dias melhores  não só para o Brasil mas para o mundo inteiro. Num país  em que  praticamente  não temos  um líder  com a envergadura  moral,   a simpatia,  o carisma e a simplicidade  natural  desse Sumo Pontífice,  é de esperar  que  o povo brasileiro  se tenha  apegado tanto  a ele. Tenho certeza de que da parte   dele  levará  do nosso  povo  uma imensa  alegria do tamanho  da Mundo.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Como conciliar o inconciliável: Papa Francisco e os governos do Brasil





                                                                  Cunha e Silva Filho

                     Ontem  estive  preso à tela da tevê, acompanhando  tudo o que dizia respeito  à vinda do Papa Francisco ao Brasil. Do avião ainda em  voo até  o  pouso lento e bem conduzido em avião da Alitalia. Foram  horas de voo com o Sumo Pontífice, sua comitiva eclesial,  os seguranças e  jornalistas credenciados.
Enfim,   do avião desce o Papa Francisco,  um argentino  descendente de italiano. Sorriso  largo,  simpático,  de estatura mediana.. Lá vem ele, em  movimentos   firmes,  descendo a escada encostada à porta do avião. No outro  extremo do avião   de outra porta  haviam  primeiro saído os homens de segurança.
 Papa Francisco chega   ao  país   em   momento  difícil  por que  passa  a sua  população, aquela que saiu  às ruas  gritando por mais justiça em todos os aspectos  da estrutura do Estado brasileiro.
Aguardavam-no as autoridades locais e nacionais. Todos bem vestidos  e  compenetrados. Entre uns e outros,  havia um homem  amável,  carismático,  observador, de voz  mansa e frágil. Na sua agenda,  o objetivo mais  elevado  dele seria  estar com  os jovens  de diversas partes do mundo. Jovens que vieram ao Rio para  se alegrarem com a  presença e  a mensagem  do Sumo Pontífice nos dias em que acontecerá a Jornada Mundial da Juventude. Portanto,  na  realidade, o  Papa Francisco aqui veio  para esse encontro  multirracial. O Brasil serviu apenas  de  espaço na geografia  do Planeta  Terra.
A figura  de um Papa  traz por si  mesma  um  clima de  festa,  de paz,  de esperança. Por isso,  é bem-vinda. Eu me lembro  do tempo em que  João  Paulo Segundo esteve no Rio de Janeiro. Foi uma  comoção geral. Uma semana  de  tranquilidade, de  união  de pessoas,  de todas as idades. Nem  se falava em  violência. Desconfio até de  que os próprios  marginais  se recolheram,  fugindo aos seus  hábitos  selvagens. Tudo em nome de um homem  que  representa  o  líder máximo da religião católica. Não há quem  não se sinta  emocionado  com  essa figura  do Vaticano conquanto se sabe que  o catolicismo  não vai bem em muitos aspectos  da vida  material, moral    e espiritual.O momento da visita  do Papa,  contudo,  apazigua, infunde  um clima  inédito  de  esperança  e  fraternidade.
Papa  Francisco,  cujo  nome  foi tão bem escolhido para o  momento  conturbado  universal, ao chegar ao Brasil, traz  novas energias de certeza de que  alguma  coisa tem que ser  feita ou mudada para o bem  do  povo brasileiro que,  a um tempo  que  se torna  enfurecido,  como  dissera bem ontem  uma    manchete  de jornal   inglês, sabe  também se comportar  com  espírito  pacífico,  alegria,   brandura e carinho.
Vejo como  o  povo é sábio no que faz por vezes.Sabe ser  grande hospitaleiro,  carinhoso, cuidados  com  essa figura  frágil  do Papa  Francisco cuja atuação  como  líder   do catolicismo  tem-se pautado  por  uma  postura  de decisões   firmes  e de humildade na função  que ocupa   na Igreja.
Desde  aquele  momento em que  ficou  ouvindo, no aeroporto,   o coral de crianças cantando uma canção  em sua homenagem, em português,  espanhol e, se não me engano, em inglês,  até o seu  deslocamento do Aeroporto do Galeão  em direção  ao Centro do Rio de Janeiro presenciou-se  um exemplo do quanto o brasileiro se  sente órfão  de afeto  de líderes  que merecem  respeito e em quem  confiam de alma  aberta. A multidão  que o cercou  na Avenida  Presidente Vargas,  cada qual querendo segurar-lhe a mão,  dar-lhe um abraço e dizer-lhe palavras  afetuosas  é uma cena  de encantamento da  alma simples  do povo brasileiro,  de todas as idades e  níveis sociais. O povo sabe a quem  prestar  tributo, essa é uma lição que  tiro  da  permanência  do Papa Francisco em  solo brasileiro.
Por outro lado,  fico imaginando  a distante  grande  entre o afeto  dedicado ao  Papa e  a indiferença  do povo em geral  pelas autoridades. Não há o menor sinal  de  admiração  pelos governantes e por toda   a estrutura do  poder  público. No caso do Rio de Janeiro,  temos  o exemplo   de divórcio  completo  de laços de   consideração  e respeito  entre  o povo e o governador atual.
O encontro  do Papa Francisco no Palácio das Laranjeiras,  residência oficial do governador,  é que se pode  ver com  nitidez o poço fundo  entre  o  governador  e o  povo. Lá dentro,  no palácio,   os discursos   incompatíveis  entre  o que  a Presidente  da República disse sobre o seu governo  e a realidade  que  o país   está atravessando. O grupo seleto,  lá dentro,  não  representa  de forma  alguma  as aspirações  do povo  brasileiro. Lá fora,  o aparato  policial  pronto para qualquer eventualidade a serviço do poder.
Os discursos  não passam de formalidades  diplomáticas  entre  dois chefes de Estado, visto que a   verdade da nação  ali  não se encontra, mas  sim nas ruas,  no grupo de manifestantes  pacíficos que não podia   se aproximar  do Papa Francisco. O boneco  de pano  queimado  simbolizando a figura  impopular do governador  é o maior testemunho  de  quanto  o anfitrião fluminense  está  distante  das aspirações   populares.
Como deve ser triste e solitário o mundo interior  de um  governante    detestado  por considerável parte dos  habitantes  do Estado que  dirige!
                    A presença  do Papa Francisco, pelo que  traz de alegria,  paz e verdade humana e espiritual,  destoa em todos  os sentidos  do grupo  de  representantes  do  poder  do Estado.Brasileiro.


sábado, 20 de julho de 2013

Crime de lesa-língua?!



                                               Cunha e Silva Filho



            Não sei se meus leitores  ficaram sabendo  de uma  Lei  Federal,  a de Nº 12.605, de 03 de abril de 2012, que dispõe  sobre a forma gramatical de, nos  diplomas do ensino superior brasileiro, referir-se ao diplomado ou graduado através de desinência  de gênero pela  troca  do morfema –o pelo morfema –a, assim  simplesmente e elaborada ao arrepio  de   fundamentação  linguísitca e de respeito  à índole da língua portuguesa e de sua  formação  histórica, ou melhor dizendo,  do  português brasileiro, sintagma  classificatório  que, a meu ver,  melhor  se adapta  às modalidades  e variantes  léxico-prosódicas  do português lusitano,  matriz  primeira  da língua  portuguesa.
Em questões  de ortografia  e morfologia,  não se alteram  formas  linguísitcas  ao bel-prazer  de alguém ou de uma autoridade,  ainda que  essa autoridade seja   o/a  Presidente da República.O fato  me recorda o tempo  da Reforma Ortográfica de 1943,  quando, por razões  de bairrismo,  inseriu-se a letra “h” no vocábulo  “Baía” para  designar  o  Estado nordestino apenas para  se atender  a um sentimento  de um imortal  ilustre  da Academia Brasileira de Letras  na época  em que era dela presidente José Carlos Macedo Soares, signatário do documento “Das Instruções  para a Organização do Vocabulário Ortográfico da Língua Nacional, 12 de agosto de 1943),  natural  daquele  estado.Ora,  isso não tem cabimento nem a mínima   base  científica, porquanto,  para  designar  o natural  da Bahia,  o locativo  “baiano,”  não  se grafa com  um “h” epentético.
Vejam, leitores, o que  com justa  razão, para  reforçar o que  relatei acima,    afirmaram  sobre  esse  fato  o eminente professor  Enéas Martins e Barros e o  distinto  filólogo  e gramático  Modesto  de Abreu a propósito da Reforma Ortográfica  de 1943:

(...) “ Na reforma de 1943, até o bairrismo imperou. Por proposta de um acadêmico baiano, a palavra Bahia manteve o h, contra todos os princípios em que se  louvava a citada reforma, para satisfazer um único imortal, como se essas questões secundárias pudessem  influir num assunto de fundo científico (itálicos dos autores. Cf. M. Barros, Enéias e ABREU,  Modesto de. Curso de Português. 7 ed. Primeira série,Curso  Colegial. São Paulo: Editora do Brasil, 1958, p.154).

O que  fica  evidente  é sanção    de uma Lei  que  “aprova’  o uso  de um  erro gramatical para designar  os gênero  masculino e feminino em  substantivos  considerados do gênero  comum de dois, cuja   forma  de designar  o masculino   deve ser  pelo   uso  do artigo  ou adjetivo   masculino ou feminino,  conforme o caso, como,   por exemplo,  “motorista,”  “dentista”,  “presidente’ etc.
Entretanto,  ao tomar  posse na Presidência da República a Sra.  Dilma Rousseff   fez questão  de “ inovar’  o português  brasileiro, ao se dar  o tratamento  de “Presidenta”, enfatizando  a flexão feminina em ” -a “ como se fora  correto  esse uso designativo  de sexo para a relevante  função pública. Exemplo de “feminismo”? De parecer  diferente  por ser a primeira mulher  brasileira a assumir  o mais alto  cargo  do país? A mim  pareceu apenas  um mero  capricho  de exibição do poder  da mulher, algo  bizarro, sem   importância alguma. Quanto à sua entourage,  essa  se  superou  no aulicismo,  na  bajulação palaciana  de serem  os primeiros  a empregar  o substantivo  no feminino. Felizmente,  o  jornalismo  não  aderiu  a essa bizarrice  infundida  de  parti-pris de estofo  petista.
Um tipo de Lei  assim é aprovada, não tem repercussão e não me consta  que algum  estudioso  da língua portuguesa  tenha  feito  algum  comentário  sobre  ela. Não  é possível que tenham  ficado  calados os lingüistas,  os filólogos e os nossos gramáticos.  Não sei tampouco  que atitudes tiveram os membros  da Academia Brasileira  de Filologia ou outras entidades   ligadas  aos estudos   linguísticos e filológicos, tendo à frente a Academia  Brasileira de Letras.
Conforme  li  num texto  da internet,  será que, de agora em diante,  teremos   gente  que,  aderindo  a essa  excrescência de Lei,  irá  empregar, aproveitando os esquema de abusos contra  o nosso idioma cometidos  por  ignorantes (deputados federais )  dos usos  linguístico-gramaticais,   substantivos, para  designar  os dois gêneros no que diz  respeito a profissões e formas de tratamento   oficiais,  em moldes  bizarros tais como  “o dentisto,  a dentista,    o oftalmologisto, a oftalmologista,  o motoristo, a motorista, ou,  quem sabe, o presidento para combinar com a presidenta, conforme  ironizou um amigo espirituoso e criativo.. Eu não sabia que o português brasileiro era uma terra de ninguém, um vale-tudo, um samba de crioulo doido.

Têm a palavra  os gramáticos,  os linguistas e os filólogos. O que não  se  pode  continuar   é  com esse  tratamento  sem base científica e sem  o devido respeito  ao uso   escrito  de nossa  língua,  agora  submetida  a  humores e  caprichos  excêntricos  e fascistas, interferindo atabalhoadamente em campos de estudos  de linguagem  dos quais  não têm  nenhuma  formação sólida. Por acaso, foram consultados  os especialistas no  assunto   ou deles foram  solicitadas  opiniões criteriosas e  abalizadas? Creio que não. Daí o absurdo da Lei.Nº 12.603.
Pergunto-me: que ideia estapafúrdia é essa  de o  Congresso decretar  e a Presidente sancionar  uma lei  dessas?  Ou, como um  amigo  me  confidenciou: o Governo não tem coisas mais  importantes e urgentes a fazer, por exemplo,  - acrescento eu -, atender  aos  gritos  das manifestações nas ruas? 

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Tradução do poema "Because I Could Not Stop for Death," de Emily Dickinson (1830-1886)-





Because I Could  Not  Stop for Death


Because I could not stop for Death—
He kindly stopped for me—
The Carriage held but just Ourselves—
And Immortality.

We slowly drove—He knew no haste
And I had put away
My labor and my leisure too,
For His Civility—

We passed the School, where Children strove
At  Recess—in the Ring—
We passed the Fields of Grazing Grain—
We passed the Setting Sun—


Or rather—He passed Us—
The Dews drew quivering and chill—
For only Gossamer, my Gown—
My Tippet—only Tulle—

We passed before a House  that seemed
A Swelling of the  Ground—
The Roof was scarcely visible
The Cornice—in the Ground—

Since then—‘tis Centuries—and yet
Feels shorter than the Day
I first surmised the Horses’ Heads
Were towards Eternity—


Porque não poderia temer  a Morte

A morte temer   não poderia
Já que amavelmente à minha  espera  estava.
Na Carruagem lugar havia só pra Nós duas
Mais a Imortalidade.

Vagarosamente, andamos. Ela, sem  pressa.
Para trás  igualmente, intactos,  deixei
Trabalho e diversão
Só para a  Gentileza atender.

Pela  Escola  passamos, na qual Crianças competiam
No Recreio – no Pátio
Campos e Pastagens  de Cereais atravessamos.
O  Poente  passamos.

Ou melhor: Ele por Nós passou.
Trêmulos e friorentos  surgiram  os orvalhos.
Só um Leve  Vestido trajava
Com uma Echarpe de Tule.

Estacamos  diante de uma Casa que  semelhava
Um Inchaço do Chão.
Mal lhe víamos o Telhado.
No Chão,  uma Cornija

Dali em diante – durante  séculos, contudo,
Mais curto que o Dia  tudo parecia.
Desconfiei logo de que as Cabeças  dos Cavalos
A caminho  estavam da Eternidade.


                                                                   (Trad. de Cunha e Silva Filho)

Tradução do poema "Because I Could Not Stop for Death," de Emily Dickinson (1830-1886)-





Because I Could  Not  Stop for Death


Because I could not stop for Death—
He kindly stopped for me—
The Carriage held but just Ourselves—
And Immortality.

We slowly drove—He knew no haste
And I had put away
My labor and my leisure too,
For His Civility—

We passed the School, where Children strove
At  Recess—in the Ring—
We passed the Fields of Grazing Grain—
We passed the Setting Sun—


Or rather—He passed Us—
The Dews drew quivering and chill—
For only Gossamer, my Gown—
My Tippet—only Tulle—

We passed before a House  that seemed
A Swelling of the  Ground—
The Roof was scarcely visible
The Cornice—in the Ground—

Since then—‘tis Centuries—and yet
Feels shorter than the Day
I first surmised the Horses’ Heads
Were towards Eternity—


Porque não poderia temer  a Morte

A morte temer   não poderia
Já que amavelmente à minha  espera  estava.
Na Carruagem lugar havia só pra Nós duas
Mais a Imortalidade.

Vagarosamente, andamos. Ela, sem  pressa.
Para trás  igualmente, intactos,  deixei
Trabalho e diversão
Só para a  Gentileza atender.

Pela  Escola  passamos, na qual Crianças competiam
No Recreio – no Pátio
Campos e Pastagens  de Cereais atravessamos.
O  Poente  passamos.

Ou melhor: Ele por Nós passou.
Trêmulos e friorentos  surgiram  os orvalhos.
Só um Leve  Vestido trajava
Com uma Echarpe de Tule.

Estacamos  diante de uma Casa que  semelhava
Um Inchaço do Chão.
Mal lhe víamos o Telhado.
No Chão,  uma Cornija

Dali em diante – durante  séculos, contudo,
Mais curto que o Dia  tudo parecia.
Desconfiei logo de que as Cabeças  dos Cavalos
A caminho  estavam da Eternidade.


                                                                   (Trad. de Cunha e Silva Filho)