sábado, 23 de janeiro de 2010

O menino, o pai e a garapa

O menino, o pai e a garapa


Cunha e Silva Filho


Até hoje, não sei explicar por que razão meu pai gostava de que saísse com ele para resolver alguma coisa no centro da cidade, em Teresina. Outra vez, me convidara para a posse dele como diretor do Liceu Piauiense. A solenidade fora no Karnak. Uma outra vez, era um dia muito importante para ele: a sua defesa de tese para ocupar a cadeira de História do Brasil da Escola Normal “Antonino Freire.
Era no início dos anos cinquenta. Ainda ouço a voz vibrante de orador defendendo seus pontos de vista na sua tese, com vitória conquistada com muitos sacrifícios e até injustiças da parte de um professor que viera de fora para compor a banca ( se não me engano do Ceará) adredemente indicado para prejudicar papai. Papai, como jornalista, andou fazendo duras críticas a um figurão do setor da educação brasileira e, como represália, para o concurso, fora compor a banca um pau mandado. Papai, tempos depois do concurso, me dissera que um dos examinadores- creio que o pau mandado -. não gostara da sua postura ao proferir a aula de defesa de tese. Achava que ele dava aula como se estivesse fazendo um discurso.
Ora, era justamente essa maneira de ser que tornava meu pai uma figura admirável, visto que, ainda que não fosse didaticamente correto, dar uma aula, em tom de tribuno, era-lhe algo inseparável, fazia parte de seu temperamento vibrante e indomável, a par de lhe ensejar uma oportunidade de mostrar seu talento e facilidade para a comunicação oral. No momento da aula, lá estava um menino calado, talvez um tanto amedrontado com a assistência presente e em silêncio, com examinadores carrancudos, com a solenidade e a seriedade de uma sala pública, vasta e hostil para a sua pouca idade.
Foram inúmeras as vezes que saíamos de casa, papai e eu. Ele, de terno claro, nos seus cinquenta anos; eu, bem pequeno, mas muito seguro porque estava com ele. Metros adiante, me pagava pela mão. As mãos de papai eram lindas, cálidas, macias, me faziam bem, Um conterrâneo dele me dissera em Amarante que papai tinhas as mãos mais lindas da cidade. Um filho meu, o mais velho, o Francisco Neto, tem também lindas mãos parecidas com as do avô...
Lá íamos os dois juntinhos, papai e eu, caminhando pelas ruas de Teresina, saindo da zona sul para o centro da cidade. Este era o cenário para o qual tudo convergia. Passávamos por várias ruas da velha Teresina. O sol abrasador. O suor, os passos firmes de papai, que vendia saúde. Papai dificilmente se queixava da saúde. Era um touro. Às vezes, tinha um pouco de dor de cabeça, talvez resquícios de uma ressaca de final de semana. Adorava uma cervejinha até que, numa determinada fase de vida, teve que deixar de lado esse hábito. Até aos setenta e poucos anos, não dera sinal de problemas com a saúde.
Eu conhecia as ruas de Teresina, ou seja, o centro e partes da zona norte e sul. Mas, a nossa caminhada não podia deixar de passar pela Praça Pedro II ou pela Praça Rio Branco. Não era, porém, um conhecedor exímio de Teresina. Poucas vezes, mesmo na adolescência, ia além da altura do Liceu, do Barrocão, da Piçarra ou da Vermelha. E só. Conhecia, ademais, as ruas de Teresina pela posição, pelo lugar. Nunca me dei ao trabalho de esmiuçar os nomes de rua. Hoje mesmo, não sou um bom informante até do bairro em que moro. Só sei que, se estivesse sozinho, saberia como chegar em casa, mesmo pequeno, naquela época..
Havia, no entanto, nas minhas andanças com papai a perspectiva do coroamento do “passeio”: a certeza de que, antes do retorno pra casa, ele entraria comigo numa lanchonete. Poderia bem ser a bombonière entre o Rex e o Theatro. Poderia ser o Cantinho do Tufy ou uma garapeira não muito longe desse recanto. Tudo isso não mais existe, como não mais existe o Bar Carnaúba e outros bares, lanchonetes e restaurantes daquela época.Uma segunda certeza,: se papai pedisse para nós dois um copo de garapa gelada ou, como se dizia então em Teresina, frapê, com pastel de carne moída, sem sombra de dúvida me faria esta pergunta, cuja sonoridade do enunciado de sua voz se me gravara para sempre na memória de adulto: “Você quer tomar mais um copo, filho? Mais um pastel?” Era claro que iria aceitar mais uma rodada do precioso lanche.
Papai adorava garapa. Meu filho mais novo, o Alexandre, e eu, amamos igualmente a garapa, o caldo de cana como é conhecido aqui no Rio e tão apreciado, sobretudo pelas camadas mais humildes da população. É uma delícia quando acompanhado de pastel de carne moída ou, para meu filho atrás mencionado, pastel de queijo. Prefiro, sempre, o de carne moída e que esteja bem quentinho, feito na hora.
O gosto extremado por garapa data de há muito. Lembro-me de que, quando estudante do saudoso “Domício”” (Colégio “Des. Antônio Costa”), uma escola, já extinta, dos irmãos Domício Melo Magalhães e Francisco Melo Magalhães, havia uma espécie de confraternização anual (não tenho certeza da periodicidade correta), para a qual os professores do “Domício” eram convidados a passarem uma manhã (ou tarde) de um sábado tomando garapa à vontade. Papai era professor do colégio. O convite se estendia à família de cada professor. Ah, como eram boas as “garapadas” do “Domício”. Virara uma tradição da escola, verdadeira festa e regalo para o paladar! “Garapada” das melhores, fizeram história nos anais daquela instituição de ensino. Eu, como fá do caldo de cana, jamais perderia aquela oportunidade de tomar garapa até não mais me aguentar.
O nível do preparo da garapa, feitinho na hora, com cuidado e limpeza, transformava aquelas manhãs (ou tardes) de sábados de “garapada” em verdadeiros marcos festivos do calendário informal daquela escola na qual fiz o exame de admissão e todo o ginásio.
A festa da garapa era também uma grande motivo para que professores pudessem palestrar à vontade sem as formalidades dos dias de aula, além do regalo do dulcíssimo sabor do caldo de cana, para os piauienses, da garapa.
Da distância do tempo me ficaram rostos meio esquecidos de mestres, funcionários administrativos, inspetores, os rostos nunca esquecidos dos irmãos Magalhães.Havia particularmente um rosto que me era caro, um rosto ainda novo, sempre conversando, ora com colegas, ora com os diretores. Era um rosto corado, com os cabelos grisalhos, um corpo gordo mas não flácido, uma voz forte, firme e uma simplicidade de causar inveja. Assim, era meu pai, o professor Cunha e Silva (1905-1990). O fluxo rememorativo não pára seu curso e me traz de volta, por associação, aquele lema do educandário dos irmãos Magalhães, que se encontra no meu diploma de conclusão do ginásio. É uma citação de Platão (c. 429-347 a. C.): “A Educação é a mais valiosa herança que os pais podem deixar aos filhos”.
O mesmo processo de associação me leva ainda à lembrança da minha querida caderneta escolar (Onde andará ela?), numa das páginas da qual havia o hino do “Domício,” cuja autoria me escapa agora da memória. Todavia, de um pequeno trecho dele não consegui esquecer: “Não há profeta que honre a sua terra./ Eis um Ginásio que lhe fizeram guerra./ Desembargador Antônio Costa é do Piauí / da mocidade o porvir.”

Um comentário:

  1. Caro professor

    Ontem falei para minha filha sobre o Prof. Cunha e Silva. Estávamos falando sobre História do Brasil e os professores que eu tive na Escola Normal. A gente o chamava carinhosamente de "Bolinha".Lembro que naquela época os professores usavam terno quase sempre e ele gostava de ternos de cor clara.
    Hoje resolvi procurar no Google algo sobre o professor que nós estudantes adorávamos.Vi logo esse blog e resolvi escrever algo. Não sei se o senhor irá ler, mas, de qualquer maneira, deixo aqui o registro de minhas lembranças de um tempo que foi maravilhoso para mim.
    Maria José
    (Teresina-Piaui)

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