terça-feira, 21 de março de 2017

AVIDEZ PELO DINHEIRO, FALTA DE ÉTICA E SOLUÇÕES VIÁVEIS PARA O BRASIL





                                                                                              Cunha e Silva Filho



          Tudo que se fez para desmoralizar a imagem do Brasil tem uma origem comum, ou  melhor  dizendo,  tem um objetivo:a ambição desmesurada  de nossos homens pelo dinheiro.Assim aconteceu com  o Escândalo do  Mensalão,  do Petrolão, do Caixa 2, até  chegar, entre outras maracutaias políticas,  à Operação Lava-Jato que tem dado bons resultados  com a prisão de vários figurões da política brasileira e do alto empresariado.Por último,  mais um escândalo resultante da  Operação Carne Fina realizada pela Polícia Federal para desbaratar os malfeitos  produzidos  por fiscais  federais  e grandes frigoríficos  brasileiros, como a BRF, a JBS e o frigorífico Peccin Agroindustrial Ltda, em Curitiba.
       Desta vez,  as ações criminosas   têm um efeito ainda mais desastroso por estar pondo em risco a saúde da população brasileira  consumidora de carne de boi, porco e de outros  produtos  comestíveis como  salsicha, mortadela, aves e até ração animal.Um tal situação de  desprezo  de grandes  agroindústrias pela  saúde do brasileiro  beira as raias  da alta criminalidade  com  consequências  danosas  à economia   do país, sobretudo   às exportações    feitas atualmente com  150 países.
     Pelo que se tem visto,  a cultura da propina   tem se alastrada  pelos vários setores   da máquina do Estado e, se providências  urgentes não forem  tomadas pelo Presidente da República,   qualquer  boa intenção que o atual governo tenha  a fim de melhorar  a crise econômico-financeira que ainda persiste  forte entre nós  estará fadada ao fracasso.
     Mais uma vez,  já declarei  em artigos anteriores  que a maior crise do país é a ética. Como  seria  impossível mudar, da noite para o dia,   o caráter  de homens que servem  ao governo  federal ou que têm  relações econômicas  com esse governo,  a única saída  concreta é fazer   valer o peso da lei contra  organizações criminosas  de colarinho branco. E, posto que a lei seja, em muitas situações ineficiente e parcial,  ai de nós se não  dispuséssemos  dela. Seria a barbárie sem trégua e o caos do Estado.
      No caso  em exame,   implementar  transformações   profundas  no campo da fiscalização   de todos os setores  do governo, podendo ser, para início de decisões governamentais,    a punição   rigorosa  de funcionários  que burlam  a legislação  fiscal  a fim de  permitir  que crimes contra a saúde pública   se proliferem  no país.  Fiscais  inescrupulosos,  que fazem  vistas grossas às  suas atribuições  do cargo, devem ser sumariamente   demitidos  do quadro do funcionalismo  e  condenados  pelos seus crimes, no caso específico, de pôr em perigo a saúde e  a vida dos consumidores tanto no país quanto no exterior. 
    Há que diga que as investigações foram  algo precipitadas  em apontar  irregularidades  nas empresas de frigoríficos. Alegando  que a totalidade  delas não foi   investigada uma por uma , mas apenas  casos  pontuais de   de crimes contra a saúde pública.Há, pois, que se  aprofundar  o assunto  em todos os seus  ângulos para que não sejam  prejudicadas  a imagem do país no exterior  e internamente  junto aos consumidores  brasileiros .
    De qualquer maneira,  é sempre  indispensável  o  papel  da Polícia Federal  no cumpri mento  de suas atribuições de   investigar  quaisquer práticas   criminosas que venham afetar   as instituições brasileiras,  as suas  exportações  e o consumo  interno. 
    Em quase duas  décadas o papel  da Polícia Federal  tem  sido cada vez  mais  indispensável  no sentido de tornar  o Brasil  um país  mais transparente,  mais  moralizado  e mais livre de  criminosos  identificados no meio  político e nas várias  instituições públicas e privadas.   Se as investigações da  Polícia  Federal  se mantiverem  nesse nível de  eficiência, é  bem possível que,  em  médio prazo,   governos e empresas  privadas   pensem  duas vezes antes  de  cometerem  crimes de lesa-pátria.
    Com  a logística  de que dispõem órgãos  como a Polícia  Federal  na era  do  pleno  funcionamento da  informática avançada ,    indivíduos que almejem  abraçar a carreira   política  ou que   pretendam  tornar-se  altos empresários (o mesmo valendo para os médios, os pequenos e os microempresários), penso que  atingiremos  um nível  de moralidade  e de maior  responsabilidade   da parte dos dirigentes de nosso  país.  
    Retorno à questão da ética  que,  no país,  tem andado  no seu  nível mais  baixo. Vejo, no entanto,  uma das saídas  para atingirmos  patamares  de  maior    seriedade  no gerenciamento   tanto  da coisa pública quanto do setor privado. Tal questão  está  muito  ligada à ausência de certos valores  que vão da família à educação. Em outras palavras,   se não  direcionarmos toda a nossa atenção à formação  humanística de nosso jovens a fim de que possam  cultivar  conhecimentos, além das ciências  e matemática,  língua portuguesa e línguas estrangeiras, as línguas clássicas (grego, latim),  aqueles    oriundos da  filosofia  (estudo  do saber, do ser,  do sentido da vida, do universo, "as causas últimas de todas as coisas," na afirmação de Aristóteles)), da sociologia (estudo da sociedade), da história (dos  fatos e acontecimentos  do homem no tempo), da geografia (estudo da natureza física e humana, diversidade do espaço), das artes (literatura, teatro,cinema,   música, pintura,  dança, escultura, ),  religiões (dimensão espiritual  do homem),
    Tais disciplinas não podem ser excluídas do currículo do ensino médio sob pena de tornarem  a formação do educando  incompleta e falha.  A antigamente chamada  “educação  integral” de que falava o educador  português Mario Gonçalves  Viana,   está fazendo muita  falta aos dias  de hoje.
   Todas ela adaptadas  ao tempos de globalização,  ampliadas com  os instrumentos  modernos  das conquistas  do conhecimento  adquirido  pelo  mundo  virtual, uso planetário dos  diversos  meios de pesquisa e aquisição de conhecimentos de que dispomos  atualmente.Basta ver a importância que o Google  assume na pós-modernidade), como  os celular,  a internet,  a imprensa virtual, os vídeos,  os blogs, os sites,  as redes sociais, entrelaçadas  pelo   meios eletrônicos  cada vez mais  sofisticados.   
    Ao educador de todas  as matérias  curriculares, em trabalho conjugado e  interdisciplinar competiria  orientar os  discentes, subsidiando-os, dentro do locus da sala de aula,   com momentos  de elocução que internalizem elevados princípios   de práticas   formativas (não apenas informativas) objetivando uma retomada do  que sejam os reais valores   de  uma conduta social saudável e   voltada para  o respeito  ao próximo,   para os valores espirituais e   para a necessidade imperiosa  de  conduzirem  suas vidas  com  responsabilidade, integridade e    dedicação  a um trabalho. Este último só  valeria a pena se   realizado com dignidade, retidão de caráter, altruísmo,   sem os excessos  da competitividade  malsã  e egoística  tão prejudicial  à vida  social,  ao convívio harmonioso  entre os pares e a uma atitude  de respeito  à ética no trabalho,  nos estudos,  na universidade, nas pesquisas e nos cargos  que jovens  e jovens adultos venham a ocupar  no futuro ao lado dos mais maduros  e mais experientes.
     Se esses valores  forem  assimilados  pelos jovens e adultos, é possível  pensar com  alguma esperança   de  ainda podermos    viver num país que, se não atingir  um nível de civilidade e de conduta  social, por exemplo, de uma Noruega,  uma Suécia,  dele se aproxime, num tempo futuro  no qual ninguém  possa mais  sentir o nosso país   como uma nação  deformada e aviltada  em seus  costumes  políticos corrompidos, na violência desbragada, na indiferença   pelo outro e pelo diferente, i.e.,   na ausência de urbanidade e civilidade.  Ou seja, que não mais tenhamos  que repetir indignados  essa frase da boca dos que perderam  suas esperanças  de um Brasil melhor: “Que país é este?”

quarta-feira, 15 de março de 2017

POR QUE SÓ AGORA?





 
“ Os homens criaram chefes para   defender sua liberdade!”

    Jean Jacques Rousseau


                                            Cunha E Silva Filho


            Se os políticos, alguns até aliados aos governos  Lula e Dilma,  apearam do poder  a senhora Dilma Rousseff, por que antes não se prepararam  para realizar uma reforma  conjuntural  do país, seja pela moralização, seja pelas reformas que atendessem aos trabalhadores  brasileiros e à sociedade em geral em questões  que  há tempos  vinham se mostrando cada vez mais  urgentes, como  normalizar a Previdência  Social e, em especial,  melhorar a vida dos que  se aposentam livrando estes de longo tempo das aflições dos minguados  vencimentos  de inativos? 
          Quem tem um mínimo de experiência de vida brasileira sabe que essa urgência e açodamento de, a fórceps, desejarem   realizar  uma reforma da Previdência Social, se deve a fatores exógenos, i.e., ao fato de que  o rombo   da corrupção via desvios  multimilionários   dos cofres públicos,  é o bode expiatória   que o atual governo Temer quer  impingir  ao cidadão brasileiro.
         O que não pôde, ou deliberadamente, não quis  o governo federal fazer  para recuperar  os assaltos   ao Erário  Público, que dilapidaram  praticamente  as nossas finanças através dos inúmeros  escândalos  financeiros   investigados  pela Operação Lava-Jato,  agora  o governo federal, para tapar seus rombos   gerados  pelas falcatruas  e  graves  lesões aos ativos financeiros, levantaram a bandeira  de salvar a Previdência  às expensas   dos que  mais   trabalharam para o desenvolvimento do país, os aposentados com as suas parcas  aposentadorias, segundo  já assinalei atrás.
     Não são somente  os gastos do governo  federal  com  os aposentados   que  impossibilitam   o gerenciamento da folha de pagamento da Previdência, mas sim  os gastos  gigantescos, estratosféricos  que  as mordomias (altos salários dos parlamentares, de ministros,  de assessores, dos altos escalões da administração  publica) dos três poderes  acarretam (sobretudo dos poderes   executivo e legislativo).
     Por que só agora,   num mandato-tampão,  tanta pressa  de querer  passar o país a limpo  quando o governo atual   tem vários  membros  que  participaram (base aliada) tanto dos  dois mandatos do senhor Lula quanto do mandato  da senhora Dilma?  
      Seria muito mais  verdadeiro  politicamente se o atual  governo  Temer, usando de suas prerrogativas   e de sua promessa de cumprir  a Constituição Brasileira,tomasse  decisões que atendessem aos  reais  direitos do povo brasileiro,  agindo com  isenção e com  civismo mais no sentido de moralizar a imagem  do seu  curto  mandato do que  permitindo que alguns de seus ministros permaneçam  na Pasta tendo  o nome  relacionado   entre políticos denunciados  nas investigações da  Operação Lava-Jato.
       É claro que  a crise  financeira que ainda ronda pelo país é uma prioridade  a ser atacada  com firmeza. Porém,  realizar  reformas   ditadas de cima para baixo sem um  amplo e profundo debate  entre o governo e a sociedade não seria  agora oportuno.
     A maior crise por que passa o governo  federal é de ordem moral e de credibilidade. Se a classe   política  está  praticamente   desmoralizada diante da  opinião  pública,  não só de iletrados como  também  de pessoas  com  boa formação  cultural, seria mais do que urgente que  o  presidente da República  procurasse se comportar como um  estadista e o exemplo que melhor me vem à mente  é o do presidente  americano  Abraham  Lincoln (1809-1865), aquela figura sisuda  para quem  um governante  ideal seria  aquele que  está ao lado  “do povo,  pelo  povo e com o povo,” conforme proclamou no famoso  discurso de Gettysburgo (Gettysburg Address) em 19 de novembro  de 1863.
       O Brasil  está carente de homens públicos dessa estirpe.
     

segunda-feira, 6 de março de 2017

VERDADE E PÓS-VERDADE NA POLÍTICA COM REFLEXOS NAS MANIFESTAÇÕES ARTÍSITICAS E CULTURAIS




 

                                                   Cunha e Silva Filho



          Estamos no século XXI e, já nesses  quase dezessete anos, sentimos o preço  alto de suas acontecimentos catastróficas  e de seus  paradoxos, não só no chamado  campo da  realidade  empírica, na qual vivemos bem ou mal, mas da mentira em forma de deformação da verdade, de opiniões relativizadas e das “verdades” chegadas a nós pelos meios de comunicação de massa. Ora,  num mundo tumultuado,  violento,  bárbaro  e indiferente pelos valores  do espírito –ausência de valores humanísticos -    toda essa desarticulação  do equilíbrio lógico-racional  se desmorona  e nos atordoa a todos espantados que ficamos  com  tanta  desordem e caos  instalados  nas sociedades ditas civilizadas, nas quais  o termo  “civilização” já não vale um vintém furado  diante  das fragmentações  do tecido social.
       Clivados em  tribos diferentes  com pensamentos  opostos, entre estagnação  cristalizada e desejos  insopitáveis de mudanças em  todos os níveis da convivência dos seres, somos, agora,  surpreendidos, no campo da  informação   do espaço  político, sobretudo  originário  da eleição   de Donald Trump  para a presidência dos EUA, dos fatos  que a precederam e  da sua  plataforma  de campanha  recheada de  promessas heterodoxas, algumas de natureza estapafúrdia só  causando  mais  tumultos logo no início de seu mandato, acrescidas  de novas  formas de   relações diplomáticas com a Rússia. Se isso tudo, de alguma maneira,   ajudou Trump  a colimar  sua vitória, não sabemos com certeza. Porém, o  fracasso  de Hilary Clinton, em parte, se deveu, entre outros motivos,    à chamada  contra-informação,  a fatos reais  ou  manipulados  que deixaram  a candidata   abalada junto a seus eleitores,  pois as informações referiam a  dados secretos governamentais  que Hilary  não podia  armazenar em seus e-mails de maneira  privada.
       É nesse ponto que entra em cena  uma palavra nova que logo  adquiriu se tornou  moeda corrente no mundo da informação, a  “pós-verdade,” a qual tem, como expressão semanticamente   aproximada,  a expressão “fatos alternativos.”  Ora, se a busca da verdade que é uma atitude   natural  de cada ser humano é complexa  e depende  de tantas correntes do pensamento filosófico,  imagine-se a mera verdade relativa aos acontecimentos  e aos fatos   da política  internacional  ou nacional,  porquanto o nosso país já vem também  atuando em cima desse conceito meio difuso  e, muitas vezes,  comprometedor   no relacionamento  das sociedades  de alta complexidade   do nosso apocalíptico  século,  onde fatos,  imagens,   versões e  mensagens    se nulificam diante de fatos, imagens, versões e mensagens expondo o mesmo conteúdo, porém   se lhes opondo   vertiginosamente e com a mesma força  destruidora.
      O perigo é que as repercussões dessas lorotas da “pós-verdade” ou dos “fatos alternativos, com narrativas  enganosas, podem ser consideradas pelos incautos e ingênuos como  verdades comprovadas. Desse modo, o discurso de um presidente  que se utiliza desses artifícios  passa a ser uma contrafação,  um simulacro. 
      Da mesma maneira,  por exemplo,   nos chamados  editoriais  ou  mesmo  matérias  de jornalismo,dependendo  das suas linhas   ideológicas,  podem  também ser  arrolados como  exemplos de  pós-verdades. E, lamentavelmente,  há seguidores  contumazes, cm boa  ou ótima formação  acadêmica ,   que só acreditam naqueles jornais,  revistas,  publicações  que julgam  dizerem a verdade. Os outros são mentirosas e  tendenciosos.        
      Num impasse dessa envergadura,  ficam os leitores  em geral, sobretudo médios ou de pouca  instrução inteiramente confusos,  enquanto  outros  indivíduos  tomam o partido a favor  ou contra  determinadas  situações   no caso,  da política e da realidade de cada país. Obviamente,  a pós-verdade não é algo  tão novo assim. Sob outros roupagens  já foi  praticada  no passado, em nosso país e em outros países,quer democratas, quer ditatoriais.
       Por exemplo,  os entreveros  entre  partidos  políticos diametralmente opostos em sua visão  ideológico-partidária   davam ensejo  à crença de que  uns  detinham  as verdade sobre  governança e poder, enquanto  os adversários  ideológicos  reivindicam para si   serem donos da verdade. Os estudos de  filosofia,   com  todas limitações que possam ter,  seriam a melhor forma  de  preparar o  indivíduo  na busca da verdade.
     Conforme já se manifestaram analistas da "pós-verdade",  não é gratuito o fato de que  algumas obras  como  O admirável  mundo novo, de Aldous Huxley (1894-1963) e 1984, de George Orwell (1903-1950), ganham  nova relevância e interesse do  leitor de hoje. Outros autores, conforme assinala o jornalista Bolívar Torres no artigo “Literatura de ilusão” (O Globo, Segundo Caderno, p. 05, 18/02/2017), escreveram  nessa mesma  vertente de ficção distópica, como Margaret Atwood, Stephen King, Erick Larsen, Evegueny Zamiantin e Ursula K. Lei Guin, segundo  li
      São conhecidas como  obras literárias  distópicas, ou seja,  obras que, até podendo do estar falando do presente,  se projetam  ao futuro   e têm  traços  ostensivamente   controladores, totalitários avessos, assim,à verdade,à lógica ao raciocínio,  ademais, usando, no caso de Orwell em 1984, uma língua  própria, a novilíngua,  engenhosamente inventada na narrativa,  cujo característica mais  marcante é impedir  que  o indivíduo  pense por si mesmo e tenha   pontos de vista  autônomos, tudo sob o jugo  da linguagem   São dois livros  que  abordam  mundos  futuros  imaginários,   nos quais   o indivíduo  perde toda a sua capacidade  de  racionar por si,  sendo todos  controlados  por  Big Brothers de matiz totalitário.
     É bem verdade que as conquistas  do espaço virtual com o advento da internet, do  Google, verdadeira enciclopédia planetária,  e das redes sociais, tornaram   a comunicação  entre pessoas  em escala  global e essa  revolução, no campo  vastíssimo da informação, remodelou   também  os paradigmas  e os recursos e meios   de trocas de informações  que, se não forem filtradas pelo   usuário com  competência,pode servir   igualmente de   ferramentas  que,mal usadas,  distorcem  fatos,  notícias  e contextos  culturais,  políticos  e ideológicos.  
    Nessa mesma linha de raciocínio,  podemos invocar o exemplo da  regime  nazista   implantado  por Hitler  com influência tão poderosa  que  capturam   a simpatia  da maioria dos alemães e forma  responsáveis pela s extermínios dos judeus cuja fase mais perversa  ficou  conhecida  por Holocausto.
   A verdade que nós buscamos  não pode  estar submissa a facciosismos  ideológicos  que não  resistem  a nenhuma crítica  mais  criteriosa, seja da esquerda,seja da direita ou da extrema-direita. Ou de outra  natureza  ideológica.  Enquanto  houver  extrema divergência  entre  sistemas políticos,  dificilmente  se poderá  vislumbrar uma aproximação  com a verdade pura  e isenta. Da mesma forma,  não poderá  se praticar  democracia   quando  o sistema de governo  se diz  democrático, mas,  na práxis,   age  por imposições  discricionários ainda que sob a capa  de representatividade  institucional.
   Veja-se como  se comportam  os  porta-vozes dos governos  instalados  no poder ainda que  ditos democráticos: as informações  transmitidas  nem sempre  com dizem com a verdade dos fatos. As narrativas passadas a quem  recebe as notícias   ou são  repudiadas  ou são  acolhidas de acordo com  os princípios   formados  pelos  indivíduos  em matéria de  política. Quer dizer, podem-se  transmitir  versões,mentirosas,  opiniáticas  que são,  enfatizamos,  aceitas como verdades ou  recusadas como  mentiras.
      pouco tempo,  assisti  a um vídeo  em que um jornalista  português entrevistava o ditador Bashar al-Assad no seu  gabinete. Para quem  não conhece  o histórico da atuação  de Assad,  o seu depoimento,  feito com  voz tranquila e semblante  simpático,   parecia  estar diante de nós  um  homem  defensor  dos oprimidos   e da justiça e bem-estar de seu país. Melhor exemplo para ilustrar a "pós-verdade" é difícil de encontrar.
    De outra parte,  no mundo contemporâneo, fica mais  árdua  a tarefa de se distinguir a verdade da mentira. Os jornais, as revistas,  os marqueteiros,  os propagandistas   estão aí  para  orientarem  verdades para uns e mentiras para outros, de tal sorte que quem perde é a credibilidade dos sistemas  de  informações, os leitores e a sociedade.
     Se no mundo da realidade  referencial somos vítimas  de logro  público  ou privado que se espalha como  vírus  destruidores   da ordem democrática e da paz entre as nações,  o seu efeito se  refletirá  claramente  no domínio das artes, de forma mais  intensa ou menos intensa, de acordo com o tipo ou o gênero  das obras. Só que, no domínio artístico, malgrado  sofrendo  influências  das ambiguidades e enganos  do mundo  contemporâneo, fará disseminar  outros distopias  que se  ajustem   aos tempos  modernos, tanto quanto a visão  do mundo criado  pelos artefatos fake,  pela mentalidade  apressada e extremamente  individualista das sociedades  hoje hegemônicas, via Estados Unidos, sobretudo. A compreensão mais  profunda  dos embricamentos  entre  pós-verdades e artes ainda está  a merecer   formas    diferentes  de debates tanto a partir  do agora quanto  dos anos que  virão. Necessariamente serão debates multidisciplinares dado  o amplíssimo  espectro   que nos oferece  o momento    presente de um mundo cada vez mais  complicado e difuso.
    Diante  das empulhações que se disseminam  no campo  político tanto nos EUA (onde Trump  se tem revelado o principal  paradigma da "pós-verdade") quanto no Brasil (aqui com as investigações  da Polícia Federal  em busca da verdade dos fatos  a fim de  punir  os culpados das inúmeras   práticas de deslavada  corrupção ativa e passiva contra o patrimônio público brasileiro, tipificadas  desde o Escândalo do Mensalão, no governo Lula até o Escândalo do Petrolão e outros  tipos de  corrupção  que tomaram conta  do governo federal durante a administração  de Dilma Rousseff e respingaram em novas  corrupções  praticadas por alguns governos estaduais e empresariado, cujo exemplo mais escabroso culminou com a prisão do ex-governador  Sérgio Cabral e do empresário  Eike Batista.   .
    A Operação Lava-Jato, em virtude dos  seus  elementos implicados em desvios  do dinheiro  público, nos crimes de propinas,de lavagem de dinheiro e de formação de quadrilhas,   podia ser uma espécie de  batalha  travada contra  comportamentos  de ações de ilicitudes  de políticos e  de altos dirigentes de estatais que recorreram  à prática  da “pós-verdade” ao negarem   fazer parte  dos vários esquemas de corrupção, alguns dos quais  já transformados em réus pela Justiça. A continuarem as investigações da Lava-Jato seguramente  novos  denúncias  surgirão com  mais indivíduos envolvidos  nos crimes de colarinho  branco.
         

quarta-feira, 1 de março de 2017

Tradução de um poema de Auguste Angelllier ( 1848-1911)




Sonnet

Les caresses  des yeux sont les  plus adorables;
Elles apportent l’âme aux limites de l’être
Et livrent des secrets autrement ineffables,
Dans lequels seuls le fond du coeur peut apparaître.

Les baissers les pus purs sont grossiers auprès d’elles;
Leur language est plus fort que toutes les paroles;
Rien n’exprime que lui les choses immortelles,
Qui passant par instants dans nos êtres.

Lorsque l’âge a vieilli la bouche e le sourire,
Dont le pli lentement s’est comblé de tristesse,
Elles gardent encore leur limpide tendresse;

Faites pour consoler, enivrer et séduire,
Elles sont les douceurs, les ardeurs et les charmes.
Et quelle autre caresse a traversé  des larmes?

Soneto

Dos olhos os carinhos  mais adoráveis são
Porquanto aos limites do ser a alma  transportam
E os segredos, indevassáveis de outro modo, revelam
Somente neles surgir pode o coração  profundo.

Diante deles os mais puros beijos indelicados  seriam.
Mais poderosa que todas as palavras é a língua.
Apenas ela sabe imortais sentimentos  exprimir
Que, por instantes, nossos seres invadem

Quando os anos pesarem sobre  a boca  e o sorriso
Nos quais a ruga lentamente na tristeza se afunda
A límpida ternura ainda teima em conservar-se.

Feitos são pra consolar, embriagar e seduzir.
São as  doçuras, os  ardores, os encantos.
Haveria outro  carinho para  lágrimas  verter?

                                                                       (Trad. de Cunha e Silva Filho)
                                    



sábado, 25 de fevereiro de 2017

SEM DOURAR A PÍLULA






                                                                                                              Cunha e Silva Filho



        Se dirijo a minha atenção ao país  e à sua realidade multifacetada, com  pontos  positivos e com pontos negativos, posso  imaginar que nem tudo está perdido e há muita   coisa está a feita por parte dos que nos governam  cercados  de mil manchas de violência,   de impunidade e de desrespeito  aos eleitores.
      Sei que o Brasil,  na condição de ainda emergente,  procura saídas para uma recuperação  financeira. Por outro lado, vejo  que a espada de Dâmocles ainda se vê claramente suspensa sobre algumas  cabeças   de políticos envolvidos na famigerada  Operação Lava Jato, dando-nos a estranha sensação de que poucos de nossos  homens públicos atualmente estão inocentes no que  concerne  a seu currículo  político. Nem a figura do atual  ocupante da Presidência da República está incólume no mapa labiríntico  dos conchavos,   do recebimento de supostas   propinas e do conluio  degradante  com parte  do alto empresariado.
    Ora,  numa situação   moralmente  suspeita,   na qual se meteram  tantos  homens públicos   dos altos escalões  da governo  federal e dos governos  estaduais e municipais, agrava-se cada vez mais  a antiga  boa imagem  em que grandes políticos do país desfrutavam, uns mais, outros menos,   junto ao eleitorado.
  O discurso  político se abastardou,  foi para o fundo do poço e, mesmo havendo  ainda  exceções de  homens públicos  zelosos  que realmente desejam  o bem do Brasil, esse diminuto número  de políticos  competentes e sérios não tem  força  suficiente para   fazer a necessária faxina  da podridão que se alastrou e contaminou  a maior parte dos setores vitais  de nossa  República.
    Alguém  com razão poderia  argumentar: “E os políticos  jovens  não seriam os mais indicados  para  fazer uma varredura  da politicalha nacional?”  Não necessariamente. Já pensaram que muitos políticos das gerações mais novas, ao chegarem  aos seus mandatos  são filhos  ou parentes  dos velhos caciques   e sobas  da tumultuada  nossa história política. Claramente há também algumas exceções, porém as exceções não alteram  a maioria  inepta e  não confiável. A mocidade nunca foi atestado  de idoneidade moral de um cidadão. Jovens há que têm  dignidade  tanto quanto  velhos  há que não a têm.Os exemplos, em nossa  política,  se multiplicam.
     Na realidade,  muito pouco se altera na vida  política  em termos de qualidade de seus quadros em razão  de que a estrutura  política brasileira  está fadada a manter  o mesmo estado   de anacronismo  de nossa antigas   práticas   de nepotismo, de fisiologismo,  de compadrio, de troca de favores  e do jeitinho  brasileiro  de encontrar  uma maneira de atuação dos partidos e de seus regulamentos  internos  corporativos  mantidos e assegurados  de tal sorte que, na aparênciafinge-se  modernizar-se   e moralizar-se para uso externo.
      Contudo, intramuros, os privilégios, sempre  salvaguardados a todo custo,  não são alterados. Há sempre delongas para empreender-se uma robusta  reforma  política  que, assim,  vai sendo empurrada pela barriga. 
    Na minha experiência de observador da  realidade  política,  primeiro regional,  e depois, nacional,  sei de inúmeros casos  de bons candidatos, no passado e no presente,  que  nunca foram eleitos  porque  são  pobres e honestos.Na política,  eleger-se depende  de dinheiro para campanhas, de patrocínio, de fundos  políticos   públicos  e, por ser desta forma,  candidatos  bem postos na vida,  endinheirados  ou amigos de endinheirados, empresários, conseguem se eleger.
       Em linguagem  política de hoje,  depende de caixa 2, de propinas, de marqueteiros inescrupulosos,  de dinheiro sujo,  de lavagem de dinheiro e até  de fontes  financeiras  do tráfico. Daí,  chegamos ao estado mais  execrável   da história  política nacional que resultou nesse  atoleiro  de indignidade  em que se transformou nossa vida  pública,  sobretudo nos últimos  quinze anos  com uma série de escândalos   envolvendo  a maioria  dos mais  conhecidos  políticos  brasileiros da atualidade e e do passado.
     A Operação Lava  Jato, com o apoio da logística  da Polícia  Federal  e do Ministério  Público, em todas as suas diligências,  tem  inegavelmente  procurado  moralizar  e dignificar a estrutura  do Estado Brasileiro, principalmente  nas investigações e apurações  de práticas  espúrias  envolvendo    milionárias  somas de dinheiro  desviado  do Tesouro  Federal   que foram para as mãos de  políticos  corruptos, alguns hoje presos ou sob investigações.
     Isso tudo conseguido graças a um conluio, por longo tempo, entre grandes empresários e políticos em relevantes funções  da administração federal, como também    altos funcionários de empresas  estatais. Os dois lados,  governo federal ou estadual, ou municipal, recebiam  propinas vultosas em  licitações com cartas marcadas   beneficiando  regiamente  aqueles  empresários mediante  custos   superfaturados.
      Todos esse fatores resultaram dolorosamente na quebradeira   de alguns estados  brasileiros, sendo exemplos o sucateamento   do governo  do Estado do Rio de Janeiro, a partir  das duas desastrosas  administrações de Sergio Cabral,  além  da situação  delicada das finanças de outros estados  brasileiros,  como  o Rio Grande do Sul,  Minas Gerais,  Espírito Santos, de que se tem notícia até agora.
       Mas não só de políticos nocivos  quero  falar. Há um outro  lado da questão, a meu ver, muito conexionado  com  o tipo de educação  propiciada ao brasileiro: o papel do eleitorado. Há uma longa  prática  abjeta   que campeia entre os eleitores, ou seja,  a falta de educação política,  de formação cultural,  de aprendizagem dos conhecimentos,  componentes que  formariam  um  leitor mais  competente, menos propenso a ser engabelado por  políticos de má índole, caçadores  de votos dos incautos e dos ignorantes.
          Se hoje está um  pouco  melhor  a visão do eleitor  quanto a questões  políticas, sociais e culturais, persiste ainda  fortemente  o tipo de eleitor  que se vende -  é o termo  adequado -  ao  candidato a um  mandato  por migalhas,  por um par de calcados,  alguma  pequena ajuda financeira e outras  vantagens mínimas. Isso ocorre sobretudo nas camadas menos letradas, sem  nenhuma consciência de cidadania e de seus próprios direitos  constitucionais.Esse comportamento do  eleitorado  ignaro se repete em outras  eleições onde os mesmos candidatos da ciranda da malandragem voltam s serem  eleitos  indefinidamente   e o que seria  um voto  virtuoso se torna  um voto vicioso e impatriótico. Paradoxalmente,  a questão do voto é muito complexa,  em todas as camadas, letradas ou não,  existe o voto inescrupuloso.
       Somente com  o aperfeiçoamento  de nosso ensino e de nossa educação, reduzindo ao mínimo a taxa de analfabetismo  absoluto e de analfabetismo  funcional é que haverá um salto qualitativo  no desempenho melhor e na  conquistada autonomia  de escolha  feita  pelo eleitor brasileiro. No entanto,  para que isso  venha a acontecer,  urge que  homens  responsáveis pelos   órgãos superiores  da educação  estejam dispostos   a um reforma  profunda  do ensino  em todo o  território nacional,  respeitando as particularidades regionais e fazendo cumprir  os programas  curriculares, aperfeiçoando  a formação dos professores públicos e privados   da pré-escola, do ensino fundamental e médio, e valorizando  a carreira do  magistério  – esta uma velha  questão que não foi até hoje tratada em profundidade e com a vontade política efetiva (não no papel e nas promessas  de governantes  populistas) de se  desejar  melhorar  a situação   de quase completa desvalorização da figura do professor até o ensino médio. A sociedade que não respeita seus professores  jamais alcançará  um alto nível  de civilização. Na China,  no Japão,  em alguns países europeus, o professor  é valorizado e o ensino é de alta qualidade.  
      Uma vez,  um educador brasileiro  fez referência ao ensino brasileiro que, segundo ele, se dividia em escolas  para ricos e escolas para pobres. Essa indecência ainda perdura em todos os sentidos.  O pais,  neste terreno, ainda marca passo para vexame das nações desenvolvidas.
       Por outro lado, a educação  que atinge um elevado patamar  de eficiência anda pari passu  com um país bem administrado  em todos os setores da vida pública e privada.
        Para isso,  teria que haver  moralização  de nossas instituições públicas  e da competência de nossos  governantes (a começar do Presidente da República) os quais deveriam, antes de tudo,  ter um  altíssimo  compromisso  com  o bem-estar da sociedade  e um conhecimento   profundo das suas desigualdades, das suas misérias e das suas  injustiças nos  dos setores  que mais   estão exigindo a presença e a autêntica liderança   da autoridade não imposta mas  conquistada pelo voto válido e consciente: a mão segura e firme do Estado   diante do mais alto índice de violência  a que chegou  o nosso  país: a saúde,  o transporte, a  habitação,  a já mencionada educação  - fator nuclear  do qual realmente depende a grandeza  de qualquer país.