domingo, 31 de julho de 2011

O milagre da vida

Cunha e Silva Filho


Uma vez a saudosa professora da UFRJ Gilda Salem que, num semestre nos anos noventa, durante o período do meu mestrado, deu um curso sobre a crônica de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), no meio de uma de suas aulas, deixou escapar esta confissão, que tento reproduzir com minhas palavras e talvez misturando palavras delas em tom epifânico com imaginação rememorativa: “Que bom que estejamos vivos, é uma bênção. Sentir que temos algo a fazer, ver que a vida que pulsa dentro e fora de nós não deixa de ser um milagre”.
Suas palavras ressoam na minha retina e me estimulam a dar realmente peso às palavras da brilhante professora, ensaísta e crítica literária. Gilda era de origem judia. Tinha a tez clara e os cabelos castanhos claros também. Era séria, mas também acessível quando sentia que o aluno era responsável e aplicado. Fizera, se não me engano Letras, português-francês, na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil. Estudara ainda na Universidade de Brasília nos tempos sombrios da ditadura. Militar. Tinha um visão aberta e profunda da existência e de um pensamento filosófico bem afinado com a obra de Walter Benjamin (1892-1940) que, de resto, constava, na bibliografia do curso sobre Drummond, um dos poetas de sua estimação, como um dos autores-chaves do curso ministrado. Com ela, fizera mais um curso, desta vez sobre a poesia drummondiana.
Por falar na bibliografia que nos recomendou para o primeiro dos cursos, a maioria dos autores era de procedência judia, o que fez com que um dos meus colegas do curso, o Francisco Igreja, já falecido, chegasse até a ser-lhe um tanto irônico, ao comentar que a bibliografia oferecida pela professora tinha excessos de autores judeus. Gilda não lhe respondeu à ironia. Mas, Igreja era do tipo que dizia o que pensava e ainda, em outra aula, saiu com esta tirada mordaz: “Drummond não passa de um resmungão.” Nenhum colega do grupo que compunha o curso lhe deu atenção. Soube, mais tarde, através da revista Lavra, de Brasília, que o Igreja era poeta, professor, ensaísta e dicionarista. Com ele, na universidade, troquei poucas palavras. Nascera em Portugal e, antes de falecer precocemente, aos 43 anos, lecionava na Universidade Estácio de Sá.
Em Brasília, Gilda, a par de certo envolvimento político contra o regime militar, que lhe custou, se não me engano, a perda de uma gravidez, foi aluna de literatura brasileira ou portuguesa (não sei ao certo) dileta do grande ensaísta e poeta Cassiano Nunes (1921-2007). Foi ela que me pôs em contato com o Cassiano na época em que já estava iniciando o meu doutorado a respeito da obra de João Antônio ( 1937-1996). Gilda era, neste aspecto, muito obsequiosa e me forneceu o endereço do Cassiano, que, por sinal, tinha sido muito amigo de João Antônio, e lhe dedicara pelo menos três excelentes estudos que muito me auxiliaram na preparação de parte da minha tese. Cassiano, a quem escrevi e enviei um exemplar do meu estudo da saudade em Da Costa e Silva (1885-1950), respondeu-me gentilmente, falou sobre a Gilda e a satisfação de ter sido seu mestre.
Além disso, Cassiano me enviou livros autografados de sua produção poética e de um texto chamado Carta da Prisão (2000). Nele o ensaísta comenta magistralmente um original de um texto que lhe chegou às mãos e que o impressionou pelo inusitado do seu conteúdo e até mesmo pela sua expressão literária. O autor do texto, Manuel de Maria, é um presidiário, sem preparo formal no campo das Letras, mas com talento suficiente para narrar circunstâncias relacionadas à vida prisional e a formas de como resolver alguns problemas afetos a esse tipo de isolamento. A carta é dirigida a um amigo.
No Rio de Janeiro, Gilda foi aluna de literatura francesa do ensaísta e dicionarista Roberto Alvim Correia (1901-1983), autor do excelente Dicionário francês-português e português-francês, publicado pela antiga FENAME, MEC, do qual tenho um exemplar comprado no Rio, em 1964. Ela se deliciava com uma maneira de Alvim Correia desenvolver suas aulas. Segundo ela, Alvim Correia gostava de ler longos textos de autores franceses e de comentar sobre eles.
O leitor vê como a vida se faz de liames que se conectam uns nos outros e nos fazem descobrir que o mundo está todo interligado, pois não é que muitos anos atrás, antes mesmo de iniciar a universidade, eu já tinha lido um livrinho de viagens. Sabem de quem? De Cassiano Nunes. O título: A sedução da Europa, da Editora Saraiva. Perdi o exemplar não sei onde, mas dele me ficou uma frase que lança alguma luz de mistura com ironia quando declara dirigindo-se ao leitor: “O abracadraba, a palavra mágica, é personalidade”. Isso porque se costuma dizer que as viagens são metas que se devem cumprir durante a vida. Elas alargam nossos conhecimentos de outros povos e culturas. Porém, para o ensaísta santista Cassiano Nunes, que teve tantas experiências, sobretudo docentes em universidades de projeção na Europa e nos Estados Unidos, o que talvez a citação queira significar, em relação às viagens e ao conhecimento do mundo, nada tem a ver de relevo ou de mais vantajoso a quem não conheceu plagas estrangeiras . O que importa é a personalidade do homem, suas virtudes, sua integridade, sua determinação de aprofundar – mesmo sem viagens – um conhecimento mais visceral dos homens e da existência.
Ao Piauí Cassiano Nunes esteve ligado graças ao conhecimento e amizade que teve com o crítico e ensaísta Manoel Paulo Nunes que, por coincidência priva de minha amizade.
Gilda tinha mesmo motivos de se espantar com o milagre da vida, com essa concessão temporária de existência material propiciada aos homens da Terra que só pode mesmo ter sido obra de um Ser superior.
É mesmo um milagre estarmos vivos, falando, andando, executando uma tarefa, simples ou menos simples. É um milagre podermos ver o que nos cerca, a paisagem próxima ou mais distante, a linha do horizonte encontrando-se com o mar. É um milagre da vida sentirmos a força da vida entrando pelos movimentos duplo da inspiração e respiração. Milagre por temos ainda o coração batendo, o sangue correndo nas veias, por sermos úteis e partilharmos, de uma forma ou outra, da existência com todos os seus grandes percalços, com todas as suas ciladas e, ao final, sairmos ilesos e podermos afirmar que “amanhã será outro dia”, que “o sol novamente se levantará” e que o ciclo da vida, embora tão pequeno, tão frágil, por vezes tão atordoado pelo atropelo sobretudo dos dias atuais, valerá a pena ser percorrido.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

O mundo pode ter solução

Cunha e Silva Filho


Se olho para o panorama internacional, mais realidades vejo que desafiam a nossa perplexidade muito além dos limites dos absurdos:
1) Revoltas justas no mundo árabe, onde povos, que vêm sofrendo há décadas opressões de todos os tipos - falta de liberdade de pensamento, de dirigir suas vidas, matanças de civis rebelados contra déspotas sanguinários e genocidas, se arvoram em donos eternos do poder, do destino de seus povos e das regalias faraônicas de suas funções de mando;
2) Povos africanos, alguns vivendo como animais ferozes, se trucidando em revoluções fratricidas;
3) Na Somália – piedade para a Somália! – outra região africana, vejo criancinhas, só pele e osso, morrendo de fome e praticamente entregues à própria sorte;
4) Em outros países, no continente europeu, os ditos mais civilizados, os mais ricos, se defrontam com graves problemas econômicos provocados por más administrações, gastos galopantes dos governos com a máquina do Estado e ganâncias de minorias milionárias sedentas de mais lucros em investimentos nas Bolsas de Valores. Mesmo vendo tantos erros de natureza econômica cometidos no passado, sobretudo a partir da do período angustiante da Grande Depressão americana do final dos anos de 1920, com a queda da Bolsa de Valores de Nova Iorque, não aprenderam os governos e os homens de negócios quase nada no tocante a prevenções de crises financeiras agudas. Com tantas teorias econômicas e algumas sendo contempladas com o Prêmio Nobel concedido a seus teóricos, o mundo parece ter perdido o juízo, o senso do equilíbrio, e dado as costas para um enfrentamento árduo e apropriado às mudanças dos tempos modernos e pós-modernos com o surgimento da globalização e formação do Mercado Comum Europeu e sua implantação de uma moeda igual, o euro.
4) A expansão de atos terroristas que, agora, alcançaram até um país que tem sido reputado uma nação tranquila e bem organizada – a Noruega - -, onde um só terrorista, possivelmente um desequilibrado e com ideias extremistas sobre etnias, imigração e credos religiosos, consegue assassinar perto de uma centena de pessoas inocentes e desprotegidas, além de dirigir sua insânia e barbárie contra órgãos públicos.
Mencionei, para não me alongar, uma pequena parte de um mundo contemporâneo que parece ter perdido o rumo em vários aspectos da vida.
Não se pode negar que estamos atravessando uma série de crises que poderiam bem reduzir-se a um denominador comum: a humanidade falece de uma das mais profundas crises já vistas: a moral.
Não é preciso ser sociólogo, antropólogo, filósofo ou pensador para entender que a raiz de todas as crises se localiza na carência da moralidade das sociedades tanto desenvolvidas quanto em desenvolvimento ou mesmo atrasadas. Porém, paradoxalmente, nessas três situações, todas elas, em graus diferentes, convivem com os males da permissividade, da dissolução dos costumes e de hábitos primitivos, injustos e lesivos à integridade física e moral das pessoas, num laissez-faire de práticas de vida que não têm o mínimo escrúpulo de ampliar seu raio de comportamento social deletério mesmo em países mais estruturados e cercados de interditos, controles e vigilância em formas de leis, portarias, códigos civis e penais vigentes.
Isso porque, em geral, há um agravante escandaloso: grassa na sociedade, como é exemplo típico a brasileira, e em todos os seus segmentos sociais, um descaso pela possibilidade de haver punição a infratores. Ou seja, o homem de bem, a pessoa digna e responsável pelos seus atos se vão tornando raridade no seio da vida social. Quem tenha tido no passado a imaginação de prever que, com o desenvolvimento das ciências e da tecnologia, haveríamos de conhecer, em tempos atuais, uma comunidade mundial a salvo de tantos comportamentos perniciosos, sobretudo representados por um dos piores, a violência, deve, agora, em vida ou no além-túmulo, ter-se sentido desapontado com as suas projeções falhadas...
Custa-me crer que tão espantoso progresso material não tenha tido correspondente progresso moral.
Costuma-se afirmar ser o Brasil o país que detém o recorde de ter as mais altas taxas de juros do Planeta e, por extensão dessa assertiva, posso, sem medo de errar, dizer que talvez a nossa pátria seja – em tempos atuais – a que detenha um dos mais elevados índices de criminalidade e de comportamento indecoroso na política e no exercício das funções públicas em diversos setores do Estado brasileiro.
Alguém poderá argumentar: “Mas, isso não é de hoje.” Até concordo em parte. Entretanto, as circunstâncias de agora me levam a inferir que não estou faltando com a verdade.
Veja-se, neste ainda começo do mandato da Presidente Dilma Rousseff. No Ministério dos Transportes já houve mais de uma dezena de funcionários do alto escalão que pediram demissão ou foram exonerados dos seus cargos, a começar do próprio Ministro. Todos envolvidos ate à medula em práticas delituosas contra as finanças públicas.
Esta realidade melancólica e constrangedora por que está passando o país e, por extensão, o mundo afundado que está em outras formas de imoralidade, tem que ser mudada para melhor, do contrário, resvalará para o caos . E isso ninguém deseja para o nosso país nem para o mundo.
De braços cruzados, é que não se pode ficar. Há que vislumbrar, conquanto seja em médio prazo, saídas para os impasses dolorosos que nos impuseram governos e grupos inescrupulosos. Vejo que uma das saídas para contornar o conturbado mundo contemporâneo seja pela via mais correta e e sólida que devemos recorrer: levar educação e formação ética ao nosso país e ao mundo.
Quando falo “levar” e “mundo,” me refiro a ações humanas efetivas e organizadas em escala global através dos já conhecidos organismos internacionais de que dispomos, de sorte que eles, esquecendo diferenças políticas, econômicas, ideológicas e religiosas, se voltem para dotar as novas gerações de instrumentos educacionais e de conscientização para a importância capital de didaticamente instilar nas mentes das crianças e adolescentes os princípios saudáveis da dignidade humana e do espírito de abertura para as alteridades e respeito à pessoa humana.
Ao realizar estas metas educativas, é bem possível que teremos adultos que, inoculados, desde cedo, contra comportamentos moralmente reprováveis, serão seguramente indivíduos íntegros e úteis à sociedade ainda, até hoje, infelizmente, não de todo civilizada. Este seria o primeiro passo em direção a um Brasil respeitado e a um mundo mais justo e harmonioso.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Um poema de Mary E. Coleridge (1861-1907)

Street lanterns


Country roads are yellow and Brown.
We mend the roads in London town.

Never a hansom dare come nigh,
In between the turning wheels.

Quickly ends the autumn day,
And the workman goes his way.

Leaving, midst the traffic rude,
One small isle of solitude.

Lit, throughout the lengthy night,
By the little lanterns light.

Jewels of the dark have we,
Brighter than the rustic’s be.

Over the dull earth are thrown
Topaz, and the ruby stone.


Lanternas de rua

Amarelas e brônzeas são as estradas do campo.
Na cidade de Londres as ruas reformamos.

Um cabriolé nunca aproximar-se ousa,
Nem tampouco uma carroça ruidosa.

Um silêncio sem igual rápido
Se cala por entre as rodas em movimento.

Num átimo, um dia outonal se finda.
Segue um trabalhador o seu caminho.

Deixando atrás, em meio ao áspero tráfego,
Uma pequena ilha de solidão.

Iluminada, por lanterninhas
Por toda uma noite insone.

Da escuridão enxergamos joias
Mais rútilas do que as do campônio.

Por sobre a escura terra esparzem-se
Topázios e pedras de rubi.

(Trad. de Cunha e Silva Filho)

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Visibilidade e invisibilidade em novos e confusos tempos literários

Cunha e Silva Filho


O que é ter visibilidade restringindo-se este termo ao domínio da literatura? Faço esta indagação de sorte que não se confundam várias formas de visibilidade, já que a condição de visibilidade pode se instalar até no submundo da criminalidade, ou das chamadas celebridades do mundo contemporâneo.
O espectro da visibilidade – reconheço - está mais circunscrito às mídias, a formações de grupos acadêmicos e, quando digo acadêmico”, me reporto aos recintos das universidades, geralmente públicas, Lá é onde germinam as sementes que, positiva ou negativamente, se reverterão em sujeitos visíveis que, inter pares, ganharam notoriedade por algum tempo, porquanto notoriedade, fama, consagração são temporalmente conceitos limitados. São situações de projeção pessoal dependentes de momentos culturais históricos e perfeitamente demarcados. São diferentes dos consensos universais apenas restritos a algumas figuras de primeira grandeza na história da cultura e, neste caso, independentes dos humores temporais regionalizados.
O mecanismo dos grupos restritos é que propiciará os eleitos ou incensados. Só que essa eleição grupal sem voto, felizmente, também tem limites e seus valores são relativos. Funciona mais ou menos tal mecanismo sócio-cultural como nos grandes clubes de futebol ou de outros esportes mais em voga.
Se deslocarmos a visibilidade do campo estrito da literatura para outros domínios do conhecimento, notadamente o científico, o tecnológico, aquela visibilidade na literatura se apaga como vela acesa aos poucos se derretendo.
A história literária ocidental – fiquemos no nosso país – ao longo do seu percurso – tem provado suficientemente que a visibilidade tão prezada pelo elitismo intelectual brasileiro contemporâneo não é mais do que uma vã ilusão. Os tempos mudam, os homens morrem, as teorias (muitas) também envelhecem (?) como peças de museu e não mais exerceriam quase nenhuma influência ou utilidade face ao surgimento de correntes estéticas do pensamento crítico de nossos dias. Isso gera crise e impasses que levam intelectuais a, por assim dizer, falarem em morte da crítica literária, morte da poesia, morte do romance e assemelhados. A situação da literatura, em suas múltiplas formas e gêneros, fica tão frágil na atual conjuntura que nem seus próprios cultores parecem diferenciar o que estão escrevendo, se crítica , se resenha, se ensaio. Não paira dúvida de que o contexto literário está diante de impasses para os quais devemos divisar caminhos com objetividade e espírito desarmado.
O mundo contemporâneo se molda pelo tempo presente – sacrossanta era de uma certa ilusão de que o hic et nunc dita conceitos, normas, tendências nos vários segmentos da sociedade afluente e utilitarista, sociedade dos excessos, dos objetos e seres descartáveis. Ao dispensar todas as honrarias ao primado do presente, os fenômenos culturais, em todas as suas configurações de gêneros e estilos, tenderão, em pouco tempo, a provocar mais dissensos e crises do que encontrar uma via de equilíbrio entre a tradição e a contemporaneidade,sendo que esta, de resto, é sempre um termo de abrangência fugidia. O apressado homem do presente semelha um deus de barro mais pretensioso do que aquilo que lhe corresponde ao talento e saber, com seu olhar supostamente altaneiro no que concerne a valores e competências adquiridas em anos de estudos, pesquisas, atualizações de saberes e talento indiscutível.
Cada sujeito da visibilidade possui sua duração mais ou menos com data, marcada. Poucas são as exceções. O tempo do surgimento do sujeito visível se mede dentro da contemporaneidade. Por isso, comumente se reveste de um caráter cronológico. Quando deslocado para o passado, em razão de reavaliações e pesquisas feitas no presente, a visibilidade do sujeito, póstuma como é, tende a atribuir-lhe o devido merecimento. É o caso, por exemplo, do poeta Sousândrade (1832-1902), recuperado aos tempos atuais graças aos esforços dos irmãos Campos. Fernando Pessoa (1888-1935) não teve também visibilidade em vida. Ainda hoje sua obra poética se vai acrescendo de novos inéditos e o valor de sua poesia vai readquirindo novos sentidos de visibilidade e grandeza para os pósteros.

A questão da visibilidade está intimamente também conexionada com o fator negativo do olvido por parte da posteridade. Os movimentos literários confirmam validade e olvido, ou seja, visibilidade e invisibilidade. A chamada tradição literária nunca foi assim tão bem recebida pela posteridade, quer dizer, pelas gerações dos diversos estilos de escrita que a história literária ocidental já conheceu e se convencionou chamar de periodização literária, estilos que sempre se diferenciavam pelo movimento pendular entre razão e emoção, i.e., objetividade e subjetividade, para lembrar as duas tendências da alma humana que remontam aos conceitos de Friedrich Nietzsche (1844-1900) discutidos na obra Nascimento da tragédia ou helenismo e pessimismo (1872).
As vanguardas europeias aparecidas no final do século 19 e continuando até a década do século passado, como manifestações artísticas que adentraram igualmente outras artes, como a pintura, a escultura, promoveram uma radical ruptura das formas de artes literárias, bem como de outras artes, segundo referi acima, pondo por terra maneiras de expressão artística já superadas e que não mais poderiam ressignificar a realidade dos tempos modernos modificados pelas alterações da vida dos indivíduos nos centros industrialização, pelos desastres sociais e econômicos trazidos pela Primeira Guerra Mundial de 1914, pela queda da monarquia russa com a revolução bolchevique de 1917.
As vanguardas, no campo da poesia principalmente, e para o que interesse a esta discussão, foram responsáveis pelas profundas mudanças de índole experimental, substituindo o que se poderia chamar lato sensu de ordem clássica para a “desorganização” estética moderna de visões de vida e de formas de linguagem.
Após o Modernismo de 1922, a literatura entre nós conheceu movimentos de renovação tão amplamente estudados em nossas principais histórias literárias que não seria o caso aqui de historiá-los novamente. Entretanto, cumpre fazer algumas considerações com respeito ao sentido de subversão que eles tiveram para o atual quadro de valores, especialmente tendo em vista que seus autores, nas diversas vanguardas brasileiras, se assim as posso denominar, adquiriram visibilidade graças às alterações formais diante da tradição literária, embora muitos deles hoje retomam uma dicção poética que muito tem a ver com antigos ou menos antigos procedimentos na utilização do discurso poético – espécie de amálgama obtida por incansáveis buscas de exploração do poético em fontes tradicionais da lírica brasileira ou europeia.
A moderna lírica brasileira, em tempos de pós-modernidade, de imediatismo, de alta tecnologia, de bizarrias eletrônicas, da era virtual, da internet, da cibernética, da robótica, do homem-máquina, do vazio individualista – figura um momento de encruzilhada de uma contemporaneidade feita de diluídas fronteiras e de características múltiplas.
Lírica de tempos pós-modernos, de poéticas sem ismos, nas quais o lirismo se sente senhor de suas próprias escolhas, tendências, temas, ritmos e técnicas, porém tendo em vista, na maior parte de sua produção, não perder certos liames da tradição, retrabalhando-a e reajustando-a aos tempos correntes e aos modos pessoais de instrumentalizar a substância – ideologia, recursos formais e técnicas - pela fatura de versos que exprimam os anseios estéticos e temáticos do homem de agora.
Em síntese, a questão do sujeito da visibilidade se oferece, assim, como um desafio mais do âmbito da formação de grupos hegemônicos, compostos do tripé – imprensa literária, editoras de grande porte e de grupos da intelligentsia brasileira recrutados em geral nos umbrais das universidades. Dessa convergência, a que não faltam doses de protecionismo e reserva de mercado, poderão ou não surgir os novos midiáticos da cultura brasileira. Quem, por acaso, estiver fora dos parâmetros mercadológico-elitista-midiáticos desses grupos que se repartem em filiais pelo país afora, estará, pelo menos, para o tempo presente com pretensão de eternidade, relegado à condição de sujeito da invisibilidade.
Superar este óbice me parece tarefa quase instransponível porque, embutidos no emparedamento do sujeito da invisibilidade, existem componentes de natureza idiossincrática, de isolamento, de timidez, de ética individual e de certo enfado existencial que se colocam entre o artista e a arte literária.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Carros? Por que tantos carros?

Cunha e Silva Filho



O leitor, se abrir qualquer jornal de médio ou grande porte, deve já ter percebido a quantidade gigantesca de anúncios, os denominados “Classificados,” de vendas, trocas, aluguéis de veículos, especialmente de automóveis, de todos os tamanhos, tipos, anos e gostos. Todo mundo quer ter o seu.
É um absurdo que, em detrimento de outras matérias a serem incluídas em seções mais proveitosas ao desenvolvimento cultural das pessoas, o conjunto de uma edição de jornal ocupe, diria aproximadamente, uns dois terços só com esse tipo de anúncio. Um outro leitor poderia justificar o fato pelo lado financeiro, no que está certo mas não é justo. Da mesma maneira, não quero nem por sombra negar o valor que os veículos motorizados têm para a vida das pessoas.
Recordo de um texto ficcional de um autor norte-americano lido há anos no qual o narrador descreve aspectos da vida do povo americano, tão presa à posse e à alegria de um carro. Espécie de “sonho americano”, possuir seu próprio carro era uma das conquistas mais caros de um jovem americano. Aprender a dirigir, uma façanha a ser conquistada a todo preço.
. Nos EUA é praticamente impossível que um casal não saiba dirigir. Muito da vida particular do povo ianque depende de ter seu carrinho na garagem, notadamente se o casal trabalha fora e distante. Talvez no Brasil de hoje essa realidade já seja aproximada. A posse de um carro seria tão indispensável quanto a de uma casa própria. Não se podem isolar os hábitos dos americanos sem a presença de um automóvel, sobretudo daqueles imensos carros como costumam ser esses veículos nos EUA.
Uma vez, conversando com um velho advogado, ele me fez a seguinte afirmação: “_ Você sabe, um advogado sem carro próprio é mal interpretado pelo cliente. Já imaginou um advogado indo ao Fórum sempre de ônibus? Que cliente iria respeitá-lo?
Já escutei vezes sem conta pessoas comuns ou mesmo de classe média fazendo esta observação alienada: “- Já viu o “carrão “ dele? Ou seja, na valorização do carro e do ser humano, este é , de certa forma, preterido pelo primeiro.
Outra vez, um frentista imbecil, sem que nem pra quê, exclamou de repente, parecendo desejar ser ouvido por todos: “- Não respeito quem não é dono de carro. Pra mim, um zé-ninguém.” Veja o leitor a mentalidade tacanha do vulgo em se tratando de um dos veículos mais divinizados da Terra: o automóvel.
Em recente acidente de trânsito envolvendo automóveis de luxo, morreu tragicamente em segundos, num cruzamento da capital paulista, uma jovem e bela advogada pertencente a uma família abastada da Bahia. O sobrevivente do outro carro, que vinha em altíssima velocidade, se chocou com o dela. No hospital, recobrada a consciência, a primeira frase que lhe veio à cabeça oca de burguês afortunado foi: “- Acabaram com o meu carro!” É essa a medida de valor que algumas pessoas hoje têm entre si? O responsável pela tragédia é pessoa de posses, fanático por carros de alto luxo – os Porsches da vida.
Sim, deveria haver uma lei nacional que punisse exemplarmente os crimes de trânsito, dolosos ou culposos. Lei que saísse do papel e começasse a fazer parte das punições sem recurso a brechas na legislação. Lei pra valer. Lei que refletisse a seriedade de um povo e de seus governantes. Lei aplicada a pessoas que dirigem como se fossem loucos furiosos.
As punições deveriam se estender desde a perda definitiva do uso da carteira de motorista até ao recolhimento aos cárceres dos infratores - assassinos comprovados. Assassinos do trânsito são tão maléficos quanto os marginais de toda espécie. Não merecem misericórdia.
No Brasil, não parece existir punição para quem mata no trânsito das cidades, nas estradas Os automóveis, meio de locomoção tão útil a uma família, passou a ser arma de guerra nessa guerra de viventes em que se transformou o mundo.
Objeto de ostentação na vida real, no cinema, na televisão, na ficção, verdadeiro fetiche, reproduzido em escala mundial, muitas vezes servindo de inspiração a piadas de mau gosto pequeno burguês, o automóvel traduz à perfeição o alto conceito em que a sociedade, em toda a extensão da pirâmide, o coloca.
Quantas vezes, vejo alguém estacionando o carro que, depois de cuidadosamente fechado, põe-se a olhá-lo tridimensionalmente. .Deixa-o estacionado. Volta em instantes e o examina detidamente. Parte por parte, ângulo a ângulo: o retrovisor, os pneus, os vidros, o para-brisa, a mala, o capuz, o brilho da pintura. Verifica novamente se a porta está mesmo fechada. Olha-o, olha-o como se estivesse deliciando-se com o ente mais amado do mundo. Objeto antropomorfizado,
Um outro tópico digno de reflexão dos homens de bem concerne à fabricação desmedida de automóveis ou assemelhados. Exagero na quantidade de veículos saindo das fábricas para se movimentarem em megalópoles sem planejamento urbano adequado e engenharia de trânsito competente e atualizada, que pudessem dar conta do caos urbano medido ao cubo pelos engarrafamentos e deterioração do meio ambiente, trazendo mais e mais poluição às cidades e sendo mais um fator determinante do efeito estufa. O automóvel, que foi inventado pra encurtar as distâncias, substituindo cabriolés do século 19, tornou-se um objeto gerador de tragédias da vida contemporânea.
É preciso que a indústria automobilista sofra uma moratória, dê um tempo pra se respirar, a fim de que as cidades possam voltar a ser lugares de convivo e fraternidade.Enfim, à história das tragédias de veículos se soma às de discussões raivosas entre motoristas que, por um erro por vezes não tão grave de uma das partes, se transformam em mais um tipo de tragédia, levando amiúde à morte de uma das partes.
Por aí se vê até que dimensão vão a estupidez e o primitivismo do homem de hoje.

sábado, 16 de julho de 2011

Um poema de Carol Ann-Duffy*

“ o poema, ele mesmo, é uma busca por sua própria veracidade, um mapa de sua própria verdade.”

Carol Ann-Duffy


COLD


It felt so cold, the snowball which wept in my hands,
and when I rolled it along in the snow, it grew
till I could sit on it, looking back at the house,
where it was cold when I woke in my room, the windows blind with ice, my breath n dressed itself on the air.
Cold, too, embracing the torso of snow which I lifted up
In my arms to build a snowman, my toes, burning, cold
In my winter boots; my mother’s voice calling me in
From the cold. And her hands were cold from peeling
Then dipping potatoes into a bowl, stopping to cup
Her daughter’s face, a kiss for both cold cheeks, my cold nose.
But nothing so cold as the February night I opened the door
In the Chapel of Rest where my mother lay, neither young, nor old,
Where my lips, returning her kiss to her brow, knew the meaning of cold.


FRIO


Muito fria era a bola de neve que em minhas mãos dor causavam,
e, ao fazê-la rolar pela neve, se avolumava
a ponto de nela pode sentar-me, com o olhar para a casa voltado.
Quanto frio fazia ao acordar no meu quarto, as janelas de frio baças,
a respiração no ar propagando-se.
Estava mesmo frio quando abracei o tronco que com os braços ergui
pra um homem de neve construir. Meus artelhos de frio ardiam
nas minhas botas de inverno. A voz de mamãe me chamando
pra do frio proteger-me. Suas mãos gélidas estavam batatas descascando,
molhando-as logo na tigela, só a interrompendo pra cobrir
de beijos nas bochechas e no nariz glacial da filha a face.
Nada, todavia, foi tão frio como na noite de fevereiro ao abrir a porta
da Capela do Descanso, onde jazia mamãe, nem jovem, nem idosa.
Meus lábios, na fronte beijos seus devolvendo, entendeu o sentido do frio


(Trad. de Cunha e Silva Filho)



* Segundo notícia publicada no Jornal O Globo, Prosa & Verso ( p. 2, 16/06/2011), Carol Ann-Duffy é poeta laureada do Reino Unido, nascida na Escócia, estimada tanto nas escolas quanto no julgamento da crítica que já lhe conferiu “todos os prêmios possíveis”. Participou agora da 9ª Feira Literária Internacional de Paraty (Flip).

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Quero voltar no tempo

Cunha e Silva Filho


Pouco me importa se me infantilizo, que é melhor do que virar “o homem medíocre’ de José Ingenieros (1877-1925). Quero ir pro fundo da memória lá onde há tanto tempo a terra me viu primeiro sob o terno olhar de mamãe. Passagem do não ser ao ser. Do vagido aos primeiros segundos fora de mamãe, dela desejando umbilicalmente apenas os seios fartos de leite – força da vida e da saúde materna. Em verdade vos digo: era o início de tudo, da vida e das transformações céleres, continuas e irreversíveis com marcas corporais do tempo e cicatrizes da alma. Tudo, visto e posto: data, hora, - enigmas. Limite da matéria e passagem para a metafísica. Num e noutro caso, tudo são mistérios, campo do insondável.
O lugar: uma casa simples e velhíssima, com porta e janelas (duas, no máximo) que ainda não consegui precisar, visto que ninguém até hoje me disse onde se fincava como habitação. “Olha, lá adiante, do lado direito da Avenida Amaral. É uma daquelas casas. Já foi reformada, certeza não tenho.” O tempo é fumaça. Só volta se o transformarmos em arte ou História para não confundir com os ambíguos estória e história da ficcionalidade.
Uma vez que não sou historiador, escolho o caminho da arte ou o que imagino que o seja. Opção que nada tem a ver com os dois caminhos de Robert Frost (1874-1963) no poema “The road not taken” (1916).
Dando os primeiros passos da longa estrada, ali estou nos cueiros aos cuidados de minha mãe, uma jovem senhora de cabelos escuros ondulados, pele morena clara e ainda bela naquele sempre lembrado sinalzinho por sobre os lábios.
Amarante ... A calma Amarante do fim da Segunda Guerra Mundial. Era o início de dezembro. Lá estava eu na rede. Imagino que fosse rede, pois berço era raro. Ninguém me disse.
Papai, no Atheneu Ruy Barbosa, não muito distante dali. Umas duas ou três ruas. Estava com quarenta anos. Bem moço, ocupado com a preparação de suas aulas em tantas matérias: português, aritmética, álgebra, história, geografia, desenho rudimentos de física, de química, até noções de francês e inglês. Era o tempo em que imperavam os livros velhuscos de Antonio Trajano (aritmética e álgebra ), Suzanne Burtin Vinholes (francês), Jacob Bensabat (gramática inglesa), Pe.. Júlio Albino Ferreira (An English Method), entre outros.
Segundo me diria mais tarde, quando eu já era adolescente, sua disciplina no Atheneu era rígida. Os alunos o respeitavam. Por isso, muito feliz foi como professor com alunos que passaram pelas suas mãos e, na vida púbica e profissional se deram muito bem. Tornar-se-iam adultos ilustres: governadores,ministros, prefeitos, militares do Exército de alta patente altos funcionários do Banco do Brasil, médicos, engenheiros, dentistas, e uma gama de outras atividades nas quais se saíram vitoriosos. Seus ex-alunos de Amarante foram seu verdadeiro orgulho de professor nato, como ele costumava se definir.
Além da atividade do Atheneu, Ruy Barbosa, desde cedo começara a escrever artigos para jornais de Floriano e de Teresina. Eram artigos que já chamavam a atenção do leitor para o seu talento e competência. Isso tudo só mais tarde vim a saber por ele ou por outros meios de informação.
Eu, criança, ia me desenvolvendo: um ano, dois anos, três anos. Já falava alguma coisa talvez atrapalhadamente. Já andava, já brincava. De poucos incidentse me recordo plenamente. Um foi, quando pequenino, caí no chão de casa e tive um rasgão no queixo. Lembro-me de quem então mais se preocupou comigo: minha avó paterna, Candinha. Foi ela quem cuidou do ferimento.
Lavou-me o queixo sangrando, passou-me sal no local. Não sei bem se era sal, mas a sensação que tenho agora é que tinha o gosto de sal que seguramente se espalhou pela boca escorrendo – quem sabe – do colo dela onde pusera a criança chorando de dores. Resquícios do ferimento ainda tenho até hoje. Quase invisíveis.
Um outro incidente se refere à viagem de ônibus de Amarante para Teresina. Estávamos de mudança para fixarmos residência na capital. Ônibus que não era fechado dos lados. Só havia os assentos sem nenhum conforto. Era o ano de 1948. Esse incidente, porém, me foi contado por mamãe. O casal Cunha e Silva já contava com quatro filhos. Eu, o terceiro. Papai e mamãe cuidavam de segurar três: Sônia, Winston e Evandro, o quarto. Um senhora, companheira de viagem, pediu à minha mamãe que eu fosse para o colo dela, no que mamãe acedeu agradecida. Era menos um peso e cuidados.
Outros fatos ou circunstâncias da viagem não me vêm por enquanto à memória. Deixarei para mais tarde - seguirei o conselho de Álvaro Lins(1912-1970) - a narração desta primeira tentativa de uma aspiração de adulto saudosista ao espólio da memória – coisas da idade que já começam a borbulhar no espírito mas que deste fazem parte no” balanço da vida.”