sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Violência no trânsito

Cunha e Silva filho


As notícias vêm de toda a parte. São as vítimas fatais de um trânsito tresloucado que desrespeita continuamente todas as leis e portarias oficiais. Diante destas não se intimidam os infratores recalcitrantes. Ao contrário, até avançam mais nas suas ações delituosas de todos os tipos: dirigem bêbados, drogados, enfim, fazem as mais escabrosas atrocidades ao arrepio da lei, dando, assim, demonstrações de que o limite da lei é sua transgressão e absoluta indiferença pelos regulamentos do código de trânsito e por seu aprendizado nas auto-escolas. Seriam melhor definidos como vândalos do trânsito, criminosos soltos e prontos, a qualquer instante,a matar inocentes.
Os transgressores do trânsito continuam matando nas estradas, nas ruas, nas cidades e nos campos. Posto que conscientes de seus atos bárbaros na direção dos volantes, prosseguem na contramão da lei e da certeza da impunidade – talvez a maior responsável pelos altos índices de óbitos no trânsito desse imenso país.
Enquanto não aumentarem as penalidades de infrações, os motoristas, de todos os níveis sociais e culturais, não modificarão os seus hábitos violentos e desumanos. Não me surpreenderia que, entre esses desalmados, se encontram psicopatas e outros indivíduos psicologicamente despreparados para dirigirem veículos. Só exames rotineiros psicotécnicos não são suficientes para detectarem anomalias mentais nesses candidatos a motoristas.
O exemplo da cidade do Rio de Janeiro ilustraria bem esse estado anômalo e perigoso do trânsito do qual tudo se pode esperar em termos de desvios de conduta no volante. Vive-se um estado permanente de tensão por parte dos pedestres. Desrespeito pela faixas de parada dos veículos, avanços de sinais, altíssima velocidade, estacionamento em áreas proibidas, estacionamentos indevidos em calçadas impedindo os transeuntes de se locomoverem livremente e outras distorções ilegais são a imagem comum nesta cidade. O desrespeito se estende a outros veículos e formas de transportes: caminhões, motos e até bicicletas. É preciso haver regulamentação também para as bicicletas que fazem misérias no seu absoluto desrespeito aos transeuntes quando atravessam ruas ou mesmo nas calçadas. Causam, da mesma forma, acidentes, sobretudo às pessoas idosas. Creio que, na Índia, apesar daquela confusão de carros, animais e outras coisas, respeita-se mais as pessoas do que em nosso país.
Basta que o transeunte permaneça observando com cuidado o fluxo dos carros, numa avenida ou em ruas compridas, para constatar a extrema velocidade imprimida por motoristas insanos.
Há dois dias, uma jovem senhora estava empurrando o carrinho do filho de um ano, da escola para casa, numa das ruas do Méier, movimentado e adiantado bairro do subúrbio carioca, quando um automóvel, desgovernado, subiu a calçada e atropelou o bebê e a mãe. O bebê teve morte instantânea e a mãe está internada em hospital em estado grave. Sabe-se que o carro desgovernado era dirigido por uma mulher, uma policial civil. Ela alegou que dirigia em baixa velocidade, porém foi de repente atingida por outro carro em alta velocidade, que, chocando-se com o dela, fez este perder o controle e subir a calçada. Mais uma tragédia.
Este é apenas um exemplo entre milhares que ocorrem no país, o que indica ser gravíssima a realidade do trânsito no país.
Se as autoridades de trânsito não tomarem as medidas cabíveis e urgentes em relação ao problema, se as leis de trânsito não endurecerem para o lado dos motoristas, a sociedade brasileira estará sempre à mercê da marginalidade no trânsito.
Há pouco saiu uma lamentável notícia de que jovens adultos, bem postos na vida, inventaram uma moda de sentirem o nível máximo de adrenalina: simplesmente dirigirem, em altíssima velocidade, ou melhor, em velocidades só vistas nas grandes corridas de carros, diga-se 300 km /hora - imaginem! – em rodovias brasileiras. Isso é uma insensatez impensável, que deve ser de imediato inibida pelas autoridades competentes e esses motoristas devem ser enquadrados rigorosamente nos crimes de trânsito com perda de carteira e tudo. São potenciais criminosos e indivíduos estúpidos e perniciosos à sociedade.
Entretanto, tenho notícias de que o Poder Judiciário, em sua instância mais alta, está pretendendo modificar a penalidade do infrator de trânsito, passando os crimes de natureza dolosa para culposa. Ora, se tal acontecer, se me afigura um desrespeito absurdo contra o cidadão brasileiro vítima fatal da extrema violência no trânsito.
Só pode ser uma piada de péssimo gosto se uma decisão dessa espécie prevalecer e se efetivar.
O país está aumentando alarmantemente o número de veículos motorizados. Há carros em excesso nas ruas das grandes cidades e nas estradas e, por outro lado, as montadoras não acessam de colocar à venda milhares de novos carros que, pelo menos, duas consequências gerais nefastas terão: a) o crescimento desproporcional do número de carros; b) a elevação da poluição do gás carbônico (CO2), fonte criminosa da deterioração crescente do meio ambiente, da saúde da população e do aumento crescente e perigosos do efeito estufa.
O de que o país sempre precisou foi de estradas de ferro cortando este Brasil continental, melhorando o movimento de transportes de carga pesada transportando nossas riquezas e nossas importações, diminuindo, desta forma, os altos custos dos fretes hoje largamente dependentes do transporte rodoviário.
Imitemos os países que deram relevo ao desenvolvimento do transporte ferroviário, como os EUA e alguns países europeus, por exemplo.
O ex-presidente Juscelino Kubitscheck (1902-1976) e outros que o sucederam erraram neste aspecto, privilegiando abertura de rodovias e o incremento da indústria automobilística.. Com o passar do tempo, as rodovias brasileiras não acompanharam, em infraestrutura, o crescente aumento de veículos, nem se manteve adequadamente a conservação de nossas rodovias. É tempo de alterar em parte essa visão das quatro ou mais rodas que só faz enriquecer os ativos dos empresários das concessões - via privatização - encarregadas de cuidar de nossas rodovias, com seus altos pedágios e, muitas vezes, o fracasso de suas administrações neste setor.
Portanto, não se aplicaria mais o lema de campanha presidencial de Washington Luís (1869-1957) de 1920, quando afirmava: “Governar é abrir estradas”. O excesso de veículos concentrado nas estradas e nas grandes cidades brasileiras em parte responderia por mais um componente de nosso doentio e criminoso trânsito.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Um poema de Francis Jammes (1868-1938)

La présence de Dieu


Voilà ce qu’il faut redire
Malgré l’insulte ou ler ire.

Vous ne serez pas hereux
Si vous vivez loin de Dieu.

Trop longtemps ou a eu peur
De nommer notre Seigneur.

Je le sortirai de l’ombre,
Même seul, devant le nombre.

Car Il est toujours vivant
Et il vous parle à present.

Plus jeune que la jeunesse
Il noous noourrit à la messe.

Et voici à l’horizont
Une generation.

Elle sati où est la force,
Et elle fend son écorce.

Et elle éclate de fleurs
Et revient à vous, Seigneur!


A presence de Deus

Eis o que se deve reafirmar
A despeito do insulto e do riso.

Felizes não sereis
Se de Deus longe viveis.

Por longo tempo receio se teve
De o nome do Senhor declinar.

Das sombras tirá-Lo-ei,
Ainda que eu seja um só ante a multidão.

Visto que vivo sempre esteve
E agora vos fala.

Do que a juventude mais jovem
Ele, na missa, nosso alimento se torna.

No horizonte eis
Uma geração.

A energia bem sabe Ele onde está
Do fruto a casca rachando.

Arrebentando em flores,
A Vós retorna, Senhor!

(Trad. de Cunha e Silva Filho)
.

domingo, 11 de setembro de 2011

WTC: dez anos depois

Cunha e Silva Filho


Eu estava vindo das minhas aulas.. Entrei em casa. A tevê estava ligada. De repente, surge na tela uma imagem que me deixou sem palavras. Fiquei calado, sem ação. O que via era algo que, à primeira vista, parecia ser um filme de aventuras, com ações violentas e chocantes tão comuns em filmes americanos.
Mas, qual nada. Logo ouço a voz do apresentador narrando o acontecimento pavoroso, inimaginável. Era um avião dirigindo-se a um arranha-céu e, o que é pior, indo chocar-se contra uma parte elevada do edifício. De imediato, bolas de fogo tomam conta daquela parte atingida e se espraiam abalando toda uma estrutura de ferro e de cimento. Logo depois, vem outro avião atingindo em cheio o outro arranha-céu. . Tudo, ali, no alto, parecia se esboroar em meio ao fogo, à fumaça preta. Quase ao mesmo tempo, em Washington, um outro avião atinge o Pentágono. Com isso, se completam três ataques aéreos terroristas contra os EUA.
O quadro final da imagem tétrica, além de todas as suas sequelas hediondas – vidas estraçalhadas, corpos queimados, corpos vivos e desesperados, saltando dos andares altos das chamadas Torres Gêmeas para o vazio do espaço em direção à morte, bombeiros, em seguida, enfrentando a morte para salvar vidas entre tantos outros detalhes, pessoas, ainda vivas, sãs, telefonando, por celulares, pela últimas vez, para seus entes querido. Era essa a imagem que se tinha praticamente ao vivo de Nova Iorque. Enfim, o clímax do crime: os dois edifícios desabam deixando no entorno que uma fumaça grossa de poeira invadisse lentamente as ruas próximas da capital do mundo.
No mesmo dia do ataque fatal contra as Torres Gêmeas, não sei se pelo rádio ou mesmo em notícias posteriores da tevê, comentava-se que um grupo de alunos de uma conhecida universidade particular, logo ao saberem das notícias do ataque terrorista, davam vivas aos responsáveis por esse crime inominável. Nenhuma vida de inocentes merece o aplauso de opositores de regimes em qualquer parte do mundo.
Hoje, os americanos homenageiam os mortos do WTC (World Trade Center). Tributo justo de uma nação. Por isso, mesmo, com toda a pompa que a data merece, os americanos recordam a memória dos que estavam nos dois prédios e perderam a vida e dos que, lutando para salvar vidas, perderam também as suas próprias vidas: os bombeiros, principalmente.
As feridas, com os tempo, cicatrizam em parte, porém fica o substrato de toda aquela tragédia, combinando ressentimentos e saudades.
A década passada me convida também à meditações sobre causas e consequências. Distanciados no tempo, posso agora falar com mais objetividade dos fatos acontecidos, tentar procurar as raízes dos atentados, separar o joio do trigo e adiantar algumas conclusões.
Os americanos deram enorme contribuição em defesa das causas da paz universal. Haja a vista, a sua participação decisiva na Segunda Guerra Mundial, se excetuarmos os crimes de Hirochima e Nagazaki. Entretanto, os governos americanos da últimas décadas têm uma parte considerável de culpa pelo que o povo americano está passando no que concerne ao terrorismo internacional contemporâneo.
As repetidas intervenções armadas dos EUA em países que não se alinharam aos ditames da sua hegemonia ( Cuba, Vietnam do Norte, países do Oriente Médio), culminando com as invasões do Iraque, do Afeganistão, para citar dois casos paradigmáticos, invasões o mais das vezes sem sentido e decididas manu militari sem consultas e aprovação do Conselho de Segurança da ONU e todos os acordos e tratados internacionais de organismos e instituições que lutam pela paz no mundo, pouco a pouco foram transformando a imagem dos EUA, i.e., de uma nação que se proclama democrática e, na práxis, se comporta com a força do seu poderio bélico e econômico, portanto, incompatível com a convivência harmoniosa entre as nações menos desenvolvidas e vulneráveis a invasões.
Por tudo isso, a nação americana perdeu prestígio e, o que é mais grave, passou a ser motivo de ódio xenófobo por parte dos humilhados e ofendidos. Não foram poucas as vezes que o mundo viu a bandeira americana sendo pisada, rasgada ou queimada em praça pública por países que colocaram o EUA entre os seus piores inimigos. Talvez uma das razões mais fundas do terrorismo seja proveniente dessa realidade permeada de ódios, de ressentimentos e de indignação contra os americanos. E seguramente essa aversão ao militarismo americano não se limita a países do Oriente, mas se estende a outras regiões do mundo, como a América do Sul, a América Central e outras partes da Planeta. A aversão aos governos americanos se nutre de antagonismos geopolíticos e econômicos. Os EUA, ao longo da História, são, em última análise, os principais responsáveis pela imagem ruim e demonizada que o grande pátria de Lincoln construiu contra si mesma.
Em meio aos agudos problemas econômicos e sociais enfrentados hoje pelos Estados Unidos, essa homenagem aos mortos da tragédia de 11 de Setembro de 2001 deve ser um momento oportuno para que os governos norte-americanos despertem para os seus desatinos belicosos e deem solução urgente através da retirada de forças de combate no Afeganistão.
Que as promessas de campanha do presidente Barack Obama sejam de fato cumpridas, retirando de imediato suas tropas daquela região, não repetindo os erros do seu antecessor, que tanto mal fez aos EUA com guerras desnecessárias causando perdas humanas tanto do contingente militar americano quanto de inocentes civis mortos no Iraque, no Afeganistão, na Guerra do Golfo.
Vejo, hoje na tevê, na abertura da cerimônia em honra aos mortos do WTC o paradoxal encontro de Obama e Bush filho.A figura de Bush filho, diante das câmeras, não combina bem com o perfil de Obama.
Não se constrói a paz, nem se combate o terrorismo trazendo à tona um dos piores exemplos de comportamento político diante dos princípios democráticos. A presença de Bush filho não faz sentido face à realidade da História. Os Estados Unidos ainda têm tempo de reavaliar seus erros e se redimir diante dos massacres de suas invasões em terras alheias. A guerra ao terrorismo se faz com os instrumentos da paz e de mudanças de política externa. A paz e reabilitação norte-americana só serão alcançadas se diálogo franco e aberto houver entre os Estados Unidos e os seus declarados inimigos.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O Brasil literário

Cunha e Silva Filho


Não estranhe, leitor, o título desta crônica. É mesmo assim abrangente. Verá por que o escolhi.
Foi pensando no quanto nós brasileiros somos inclinados às veleidades literárias. Este aspecto da nossa vida cultural merece, sim, um discussão não apenas com o intuito de aplaudir nossos compatriotas por esta sede de mergulhar no universo das letras, da produção literária, de mostrar nosso lado exuberantemente beletrista, o de desejar ser autor, ter obra publicada, divulgada, conhecida e, se possível, reconhecida pelo grand monde literário-brasílico. Há poetas e prosadores (me desculpe pelo anacronismo do termo, ó beletrista “revolucionário” e sofomaníaco que conheci em tempos passados!) pipocando por toda a parte.
Não quero que o leitor pense mal de mim, entendendo toda esta argumentação pelo lado meramente destrutivo, de ferir suscetibilidades lânguidas, modorrentas, plangentes. Longe de mim, o simples pensar por este prisma.
O país é vasto. As diferenças entre estados são grandes, assim também como os valores de cada terra. Cidades, capitais, rincões, regiões distantes, afundadas no desconhecimento dos mesmos irmãos brasileiros, esquecidas dos outros.
Somos ainda talvez o “arquipélago cultural” conforme a visão interpretativa formulada por Viana Moog (1906-1988), dividindo geograficamente a nossa literatura em sete núcleos: Amazônia, Nordeste, Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul (Ver Interpretação da literatura brasileira. Editora Antares Universitária, 1983 ). Existiria para aquele autor uma unidade literária nos núcleos regionais, ainda que não uma uniformidade.A unidade estaria presa a tipos de produção, clima e geografia semelhantes. Para ele, em todas esses núcleos poder-se-ia divisar uma marca de que a literatura ali produzida seja inequivocamente brasileira.
O Brasil literário se confunde, o mais das vezes, com o beletrismo, ou seja, a pior forma de se fazer literatura, que é a das igrejinhas, de compadrios, a mais perfeita imagem da subliteratura. Espalham-se as “academias de letras” por toda a parte como praga vicejando em campo fértil. Nada mais arcaico, nada mais longe do que se entende como o estudo das letras com objetivos sérios de desenvolver a literatura em nosso tempo pela pesquisa, alta cultura, desejo de mudanças, livres de ritualismos de sodalícios que se apeguem a práticas acadêmicas e a formalidades estéreis, discursos vazios, retórica de efeitos e malabarismos oratórios que não mais têm sentido algum para os novos tempos. Não há progresso nos estudos literários onde a mediação da produção ficcional, poética, dramatúrgica, crítica e ensaística seja feita pelo anacronismo de surradas práticas de beletrismo, de literatice e falta de talentos e vocações à atividade literária.
As Academias de Letras dignas desta denominação devem, se quiserem sobreviver culturalmente, livrar-se dos velhos modos solenes e pomposos de atuação. Devem, pois, modernizar-se, atualizar-se, sair dos nichos e enfrentar a vida trepidante lá fora, nas ruas, nas praças. A questão mais polêmica e fundamental que terão que enfrentar diz respeito à escolha de seus membros.Nenhum escrutínio vitorioso deve ser o resultado de submissão a subterrâneas ligações políticas, econômicas e de compadrio.
Seus requisitos básicos têm que passar pelo crivo da produção cultural do postulante, o nível de seu trabalho e o seu compromisso com a literatura, ou as ciência, ou as artes. Nada de fisiologismos, mal que acomete o seio da política nacional. Ser membro de uma Academia de Letras de respeito pressupõe que o ocupante de uma vaga seja alguém de reconhecido mereci mento, de notável saber, de grande amor aos estudos e à cultura no sentido mais lato da palavra.
Penso que as Academias de Letras devem existir na medida em que se tornem instituições culturais que tenham um missão a cumprir na sociedade civil, a de serem representativas do legado do passado, cultivando-o porém, com as forças criadoras da inteligência do presente, prestando um serviço inestimável ao país, no caso da Academia Brasileira de Letras, aos estados, no caso das Academias estaduais e em alguns municípios que se distinguiram historicamente como locais onde a alta cultura, o saber e a produção intelectual encontraram largo espaço entre a tradição e a modernidade.
No entanto, sou contra as academias fundadas sem nenhum lastro da tradição e sem nenhum compromisso com a real produção acadêmica. São instituições sem funcionalidade, sem objetivos claramente estabelecidos no âmbito da cultura, das ciências e das artes. Essas academias só servem aos anseios de veleidades intelectuais provincianas e, por sofrerem dos defeitos provincianos, tendem a ser elefantes brancos sem nenhuma razão de ser e, portanto, suscetíveis a cedo se anularem como instituições. O nosso país está inundado desse tipo de academia constituindo o exemplo menos indicado para a atividade fecunda no campo intelectual e um desserviço à autenticidade da literatura.

domingo, 4 de setembro de 2011

Um país e seus mortos


Cunha e Silva Filho


O mundo está cercado de objetos artísticos de alta ou altíssima qualidade. Digamos, por exemplo, a Arte que, se manifestando no teatro ou na ficção, dramaturgia, cinema, telenovelas e em outras formas de expressão, nos leva à catarse, ao choro, às lágrimas, a um sentimento verdadeiro da dor alheia, na práxis do nosso cotidiano insosso, a dor alheia, o sofrimento da perda inexorável de entes queridos, pouca ou quase nenhuma reação de perplexidade provoca nas pessoas estranhas. A dor alheia já não nos leva às lágrimas. É apenas uma constatação de uma realidade miserável e abandonada na anomia e indiferença das grandes cidades. Os mortos na Arte nos comovem, assim, muito mais do que na dura realidade dessa vida severina.
Há pouco, um jovem arquiteto, na Zona Sul do Rio de Janeiro, em bairro elegante, dirigindo seu carro em direção à residência, quase ao chegar a esta, se vê abordado por dois facínoras usando motos. O jovem arquiteto não quis entregar o que lhe pediam, se o carro, se dinheiro, se o relógio, se o que não sei mais... O arquiteto reagiu aos assaltantes malditos mas levou a pior. Armados, um deles lhe deu um ou dois tiros e os dois patifes partiram para as profundezas do inferno terreno. O arquiteto, gravemente ferido, foi levado para um hospital. Antes teve duas paradas cardíacas. Ao chegar ao hospital, não suportou e veio a falecer.
É isso, leitor, o que está ocorrendo aqui no Rio de Janeiro e em outros lugares do país, sendo que, no Rio, a situação é gravíssima. A morte do arquiteto não passa de um quadro deplorável e metonímico de uma realidade que se alastra e se instaura num todo do tecido social do país. Morre-se à toa no Brasil.
Quem são os culpados? Eis uma questão intrincada e até hoje insolúvel. As autoridades policiais, ao que tudo indica, já se acostumaram a mortes por assassínios de inocentes. A família reclama, dá entrevista aos canais de televisão. O morto é sepultado e fica por isso mesmo. São crimes que atingem todas as classes sociais.
Já é tempo de que os órgãos de segurança pública despertem .para essa situação desastrosa da qual também as próprias autoridades policiais não estão imunes. O mal circunda por toda a parte. É preciso aumentar as blitz sobretudo abordando indivíduos -, não importa se jovens ou mais maduros -, e revistá-los com rigor. A imagem de motociclistas há bom tempo já se confunde com a de bandidos. As pessoas comuns, quando percebem que motos estão se aproximando delas, já sentem um certo mal-estar, supondo que ali vem mais um assaltante, mais um criminoso, mais um meliante. Nas periferias, da mesma sorte, a polícia deveria fazer abordagens criteriosas revistando pessoas, sobretudo jovens, que estejam dirigindo esses veículos. Nos morros, principalmente, a entrada e descida de motos deve ser constantemente vigiada pelo policiamento.
Além de estarem se associando à imagem de marginais, as motos são meios de transporte que em geral não respeitam sinais, andam a toda velocidade, pondo em risco a vida dos transeuntes. Deve haver urgentes providências no sentido de até diminuir a produção desse tipo de transporte, sobretudo nas grandes cidades. Deve haver todo rigor na concessão de carteiras de habilitação para motociclistas.
Se algumas dessas providências que acima sugeri não forem tomadas, além de outras advindas da experiência dos órgãos de transporte municipais, estaduais e federais, mais mortes aumentarão as estatísticas oficiais de crimes hediondos que se alastram pelas ruas e estradas das grandes cidades brasileiras, sobretudo no Rio de Janeiro e São Paulo.
Não é possível que o país esteja continuamente sofrendo perdas irreparáveis de jovens que são covardemente assassinados hoje em dia. Não é possível que a sociedade civil fique de braços cruzados e não exija de nossos governantes medidas austeras de modo a reduzir ao máximo esses crimes covardes.
Grandes investimentos são necessários a serem injetados na formação integral, via educação, de nossas crianças a fim de que não se tornem jovens e adultos promíscuos, homicidas e indivíduos destituídos de qualquer dignidade e amor ao próximo. São monstros que aí estão soltos esfolando incautos e indefesos . Eles têm armas, nós, não. A raiz do mal está precisamente nesta desigualdade.
Por conseguinte, o combate ferrenho e aguerrido ao contrabando de armas nas fronteiras não pode sofrer solução de continuidade. O Brasil é um país a caminho de maior prosperidade. Possui suas Forças Armadas, competentemente treinadas para servir em várias causas e em vários frentes em benefício da paz de seu povo.Essa contribuição das Forças Armadas no setor social é um dos mais importantes trunfos de que dispomos no combate contra a criminalidade em larga escala, no combate ao tráfico de drogas e principalmente na defesa das vidas de nossos cidadãos, de nossas famílias. Se a polícia estadual não está dando conta da seguranças dos brasileiros, as Forças Armadas, sobretudo o Exército, deve dar a sua contribuição indispensável na luta contra o crime.
Que a data festiva da nossa Independência, que completa mais um ano no próximo dia 7, seja a ocasião mais do que oportuna para que toda a estrutura do Estado Brasileiro seja alertada e desenvolva ações efetivas e drásticas contra criminosos que continuamente têm ceifado as vidas de tantos jovens e adultos saudáveis e promissores. Em luto, a família brasileira.

sábado, 3 de setembro de 2011

Um poema de John Masefield (1878-1967)

Um poema de John Masefield (1878-1967) )



Beauty

I have seen dawn and sunset on moors and windy hills
Coming is solemn beauty like slow old tunes of Spain:

I have seen the lady April bringing the daffodils,
Bringing the springing grass and the soft warm April rain.

I have heard the song of the blossoms and the old chant of the sea,

And seen strange lands from under the arched white sails of ships;

But the loveliest things of beauty God ever has showed to me,

Are her voice, and her hair, and eyes, and the dear red curve of her lips.


A beleza

Vi o amanhecer e o pôr-do-sol nos charcos e nas colinas tempestuosas

Manifestando-se em solene beleza semelhante às velhas e lentas canções espanholas:

Vi a dama de abril surgindo com os narcisos em flor,

Com o germinar da relva e o suave calor das chuvas de abril.

Ouvi a canção das flores do velho canto do mar.

Vi ,ainda, estranhas terras sob as arqueadas e brancas velas das embarcações;

Contudo, as coisas mais fascinantes da beleza que, até hoje, Deus ver me permitiu

São a voz dela, o cabelo, os olhos e, da sua boca, a delicada curva vermelha.



(Trad. de Cunha e Silva Filho)




quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Garimpando no sebo e outras ponderações



Cunha e Silva Filho



Não sou leitor compulsivo, mas, dentro do meu ritmo, procuro, ainda que tardiamente, dar conta de algumas leituras fundamentais. O importante é o preparo, com critério seletivo. A leitura, uma atividade intelectual in process, ou aproveitando a quase sutileza de quem disse que nunca se sabe ao certo quando acabamos a leitura e um Guimarães Rosa (1908-1967) ou de um Clarice Lispector (1920-1977) São escritores múltiplos, formuladores de enigmas.
Porém, não é minha intenção aqui nessa conversa analisar aqueles dois ficcionistas. Deixarei para o espaço do ensaio. Quero-lhe falar, leitor – longe de mim pluralizar este termo – teria que brigar com os leitores de Machado de Assis.O que é pior, por cima de tudo, não sou ficcionista – hélas! – mas o que hei de fazer se os deuses da prosa não me bafejaram com o talento dos que têm criado, bem ou mal, mundos de criaturas “de papel”?
Estive, hoje, no Centro do Rio, e para não quebrar a regra, deu um pulinho na velha São José, um dos mais antigos sebos cariocas. Só o proprietário, o Germano, tem sessenta anos de atividade nesse ramo de venda de livros.
Desta vez, comprei muito pouco, pouquíssimo.A safra não estava boa no terreno das letras. No velho sebo da São José já houve dias gloriosos, com um oferta de fazer inveja a qualquer bibliófilo ou bookworm. “Garimpei” aqui, “garimpei” ali, e dei de cara com dois autores, antigos tanto quanto a São José e o seu acervo: um velho livro que há anos queria comprar, do filólogo Silveira Bueno, Manual de califasia, califonia, calirritmia e arte de dizer ( 4.ed. São Paulo: Edição Saraiva, 1952) O outro, As fontes da criação literária, de Carmelo M. Bonet. 1 ed. Tradução de Antonio G. Gonçalves, (São Paulo: Ed. Mestre Jou, 1970). Óbvio, que a São José também vende livros novos, mas a sua especialidade é o sebo que, por sua vez, torna-se o ganha-pão do livreiro.
Por falar em livro usado, o Germano lamentou que as vendas estão em baixa. A coisa está preta. Já fecharam sebos conhecidos no Centro do Rio. Não, só sebo, uma livraria i importante como a Martins Fontes, que também é editora de grande porte, fechou seu endereço na principal avenida do Rio, a famosa Avenida Rio Branco. Mau sinal para o comércio dos livros. Essa livraria mudou-se para a Zona Sul carioca. Antigamente, entrar na seção de livros estrangeiros da Martins Fontes era um grande prazer: o tratamento dado ao cliente era nota dez. O nível de atendimento foi caindo, caindo... até chegar àquele desfecho amargo. Não sei não, contudo prevejo que há o dedo aí de outros modos de vender livros, cujo principal responsável seja talvez a Internet.
Não culpemos só a Internet. Pode estar havendo uma decadência de poder aquisitivo da população. O livro é produto caro, mesmo o do sebo. Há também a concorrência forte de livrarias online, brasileiras e estrangeiras. Com vendas remetidas pelos Correios, o cliente, um pouco acomodado, prefere fazer a encomenda via Internet.
Um outro agravante, a meu ver, seria um certo desinteresse geral por obras antigas (dirá melhor estudos antigos) em determinadas áreas do conhecimento humano. Vejamos no terreno dos estudos lingüísticos, filológicos. Basta dizer que, numa recente conferência, a que assisti na Academia Niteroiense de Letras o filólogo Maximiano de Carvalho e Silva, professor emérito de língua portuguesa da Universidade Federal Fluminense, a certa altura de sua exposição acerca de aspectos culturais de Niterói, sobretudo a constituição dos cursos de letras e seus fundadores, mencionou o triste fato de que alunos (e bem provavelmente alguns professores universitários, diria eu) não dão tanta importância a alguns teóricos de um passado não tão remoto assim, tais como os já falecidos Said Ali, o português Herculano de Carvalho, Serafim da Silva Netto, Sílvio Elia, (vai ver até que venham a incluir o grande linguísta Mattoso Câmara Jr. e outros autores tidos por eles como desatualizados para os estudos linguísticos de hoje). Ora, isso não passa de um absurdo e de falta de alta visão diacrônica da linguística e da filologia numa época, a dos dias que correm, em que o que mais importa é o imediatismo, a sincronia de um saber afundado, algumas vezes, na superficialidade do “primado do instante”, para usar, mais uma vez, o título de um artigo meu escrito há um bom tempo.
Se o aluno de letras hoje persistir em votar sentimento de indiferença pela filologia e pela história das teorias linguísticas estará construindo castelos de areia O conhecimento filológico e o estudo das humanidades clássicas nunca serão matéria morta, mas sim matéria arqueológica viva que deve ser dominada e conhecida pelas gerações atuais. Sem os estudos helênicos e latinos estará em perigo toda uma vasta cultura erudita que deverá ser cultivada por jovens estudiosos do presente. Imitemos o que seja bom neste aspecto os países adiantados da Europa e mesmo dos Estados Unidos e de certos países das outras Américas.
Enquanto isso, Germano se queixa e com razão. O custo do aluguel de espaço para um a livraria no Centro do Rio é muito caro e a tendência é encarecer mais cm as modificações que essa parte da cidade vai sofrer. Falam da construção de shopping centers. Os olhos dos senhorios vão crescendo. Business is business, friends apart! Não há amizades ou concessões de descontos quando o negócio é aluguel.
Saí da livraria um pouco triste com o que ouvi sobre a situação dos sebos e da vida do livro em geral, aí incluindo alunos, professores, pobreza de ideias, escolas públicas de baixa qualidade, desamor às grandes obras e autores e um certo enfado de estar vivendo no meio de tudo isso. Ainda bem que a 15ª Bienal do Livro no Rio de Janeiro está chegando. Aproveitemos para refletir sobre tudo isso e.... a comprar e ler os livros com o respeito que merecem. Que me perdoem a casmurrice!