quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Brazilian literature, de Érico Veríssimo



Cunha e Silva Filho


Tenho dúvidas se muita gente sabe que o grande romancista Érico Veríssimo(1905-1975) publicou, em inglês, uma história da literatura brasileira, vinda a lume em 1945. 1 Seu título no original é Brazilian literature – an outline.
Conheci a ficção de Érico, pela primeira vez, adolescente, lendo a bela narrativa A vida de Joana D’Arc2.Depois, li outra obra, comovente Olhai os lírios do campo (1938).Mais tarde, outros livros dele.
Um dia, porém, descobri, não me lembro em que espaço literário, que ele havia escrito essa breve história da literatura brasileira. Sabe-se que – e ele mesmo o confessa – o estimado escritor gaúcho não era historiador literário, nem, a meu ver, pretendia sê-lo.
Sou um aficionado de leituras de histórias literárias e, no meu caso, por dever do ofício, sou obrigado a conhecer as principais histórias literárias brasileiras, escritas ou não por brasileiros. Folheei a conhecida - uma das melhores que temos - História concisa da literatura brasileira -, de Alfredo Bosi e nela não consta a referência à obra de Érico Veríssimo, como não cita outras da mesma forma. Será que dela não gostou? Não é possível que dela não tenha tido notícia ou não a encontrou. Não pretendo aqui ser exigente com os historiadores, mas uma verdade é evidente: alguns historiadores são omissos com nomes que deveriam constar em seus estudos de historiografia. Citar uma obra, ainda que seja menor, não compromete o pesquisador. Sabe-se que, no meio acadêmico, não é de bom tom citar um autor didático. É pelo menos isso que tenho visto, por experiência, do meu tempo de mestrado e doutorado, e de professor em universidade. Até faz pensar que autor didático nivela por baixo os altiplanos dos mestres universitários.
A breve obra de história da literatura brasileira de Érico longe está de ser uma obra didática, pelo menos em muitas de suas páginas, ou melhor, na maioria delas. Naturalmente foi planejada para atender a um público estrangeiro, público composto por estudantes que formaram a assistência das conferências sobre literatura brasileira proferidas por Érico Veríssimo na Universidade da Califórnia, em Berkeley, em pleno período da Segunda Guerra Mundial. Veríssimo estava lá a convite do Departamento de Estado americano, além de ser e membro do quadro da Casa Panamericana do Mills College, Oakland, no verão de 1944.
Érico, àquela altura da vida, já era um escritor aplaudido no país e nos Estados Unidos com livros traduzidos para o inglês, como Caminhos Cruzados (1935). As orelhas dessa pequena história literária bem demonstram o quanto o escritor era respeitado na América do Norte.
Já no prefácio, Érico avisa aos leitores que não é um crítico, mas um contador de histórias, um ficcionista. Nessa declaração está, no meu entender, a chave para que se possa empreender a leitura dessa história literária, que abrange a nossa produção desde os primórdios até referências a nosso escritores a partir de 1930. As suas derradeiras referências bibliográficas chegam a nomes novos mais conhecidos hoje em dia como Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles. A obra deve ter sido provavelmente concluída por volta de 1944. Daí que o historiador não tenha feito nenhuma menção à geração de 45 da poesia brasileira.
Outro fato curioso que a leitura nos permite constatar é que o apêndice que o livro inclui no final do volume está repleto de autores brasileiros que hoje estão completamente esquecidos . E mais: há autores de que a grande maioria do público leitor de literatura provavelmente nunca ouviu falar. E de público especializado, não seria exagero acrescentar. Isso me permite uma reflexão: como o escritor brasileiro é esquecido e desconhecido mesmo pelos estudiosos de literatura que, na maioria, das vezes, estão mais com o pé na pós-modernidade. Reconheço, entretanto, que o futuro é que vai peneirando aqueles que realmente perdurarão como figuras que vão constituir o corpus dos autores vitoriosos para a contemporaneidade, o que não significa o mesmo que para as gerações futuras.
Três qualidades, a meu ver, possui a história literária de Érico Veríssimo: o historiador prima por uma absoluta objetividade no desenvolvimento da sua obra, e o faz de forma agradável contando, aqui e ali, passagens engraçadas, pitorescas e mesmo ilustrativas, tanto da vida literária quanto da nossa formação social, política, histórica e cultural. Ele próprio, no prefácio, havia antecipado aos leitores essa maneira de narrar os fatos literários tendo em vista o público–alvo: os estudantes americanos. Com isso, não cansaria seu auditório.
A segunda qualidade seria a enorme capacidade do autor em articular os fatos históricos com os literários, ou seja, ao falar sobre a literatura dos anos 30, ele ilumina o leitor com esclarecedoras explanações da situação política brasileira, sabendo dosar as análise de tal sorte a mostrar, com rara limpidez informativa, como se desenrolaram alguns acontecimentos históricos do país que, em geral, nos livros especializados e mesmo didáticos, não são tão claramente explicitados. Nisso, julgo que o auxiliou muito a sua destreza de ficcionista, de captar a essência, o que é fundamental saber. São dignas de observação suas análises sobre o Brasil colonial, o reinado de Dom João VI, o Primeiro Império, o Segundo Império, a recém-proclamada República, o papel de Luiz Carlos Prestes, os integralistas, tendo à frente Plínio Salgado, as revoluções de 30 e de 32, a rebelião militar frustrada de 1935 no Rio de Janeiro, o Estado Novo. Por falar nesse aspecto histórico da obra, Érico nos narra, de forma lapidar, todo aquele tumulto social em torno dos integralistas, agravado, mais adiante, pela eclosão da Segunda Guerra Mundial e com a situação de saia justa em que ficou por certo tempo o governo de Vargas sob o Estado Novo no que concerne à questão de sua política com a Alemanha nazista, num país com uma considerável população de alemães e descendentes destes nos estados do Sul brasileiro.Isso tudo é narrado com clareza e objetividade pelo historiador-ficcionista.
A terceira qualidade prende-se à própria análise ou comentários de ordem crítica, se bem que o autor já advertira no mencionado prefácio que seus julgamentos serão subjetivos, questão de gostos, preferências ou aversões. Não é tanto assim, visto que muitos comentários que faz sobre alguns autores têm um inegável peso do julgamento sério e fundamentado.
Seus juízos são certeiros, tocam no âmago do espírito do livro Cabe acentuar um dado de seus comentários. Érico Veríssimo, ao contrário do que os desavisados possam pensar, é um prosador que revela amplo conhecimento da literatura, e da literatura universal. É homem culto, de excelente gosto na apreciação de temas e de livros. Dá prazer ler todos os seus pareceres críticos sobre autores brasileiros. É instigante o que diz ele sobre escritores mais valorizados hoje pela alta critica, como Manuel de Antonio Almeida, José de Alencar, Lima Barreto, Raul Pompéia, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Graciliano Ramos, Lins do Rego, Jorge Amado ( embora este último divida a crítica entre prós e contras), sem esquecer os finos comentários que faz acerca do nosso Machado de Assis, ensaiando até um comparativismo com William Sommerst Maugham (1874-1965), uma das preferências de Érico, no que diz respeito a certos complexos de inferioridade que repercutem, de alguma forma, nos estilos literários de ambos e na sua vida pessoal. Entre outros autores, na poesia, altamente estimados por ele poder-se-iam citar Gonçalves Dias, Castro Alves, Carlos Drummond, Manuel Bandeira, Mário Quintana , Cecília Meireles, inclusive – é bom que se registre nesta resenha - a visão panorâmica do historiador nem mesmo esqueceu os piauienses Da Costa e Silva (este mereceu-lhe o seguinte elogio:”Zodíaco é uma obra poética notável, na qual encontramos algo inteiramente novo no ritmo e nas imagens,”3 Félix Pacheco, e Permínio Ásfora ( os dois últimos constam apenas do Apêndice).
Brazilian literature - an outline não se reduz só a catalogações e ligeiros comentários. A despeito da brevidade do volume, a obra abarca um considerável leque de autores nos mais diversos gêneros literários (inclusive o gênero dramático) não somente com relação ao passado mas também quanto a escritores do presente da escrita da obra, quase toda a primeira metade dos anos 40 do século passado. Ao oferecer esse panorama a estudantes e público estrangeiro, o autor teve uma oportuna iniciativa: não se limitou a informar sobre o Brasil literário apenas. Alargou seu espectro, complementou sua obra, admiravelmente, com uma séria de cuidadosa incursão sobre o nosso povo da perspectiva de sua época, mas, em alguns ângulos, ainda válida para os nossos dias, o que, de resto, está em consonância com o processo lento de modernização do país dentro daquela ideia de estágios sociais assimétricos de modernidade brasileira tão bem estudados por Eduardo Portella.

O historiador foi a fundo na apreciação do temperamento de nosso povo mestiçado, com diferentes qualidades no convívio social. E assim fala dos nordestinos, dos paulistas, dos gaúchos, dos cariocas. O resultado é um quadro perfeito e favorável a nosso povo, costumes, psicologias, temperamentos, hábitos e maneiras de ser. Por esta razão, não acredita ele que se poderia tentar escrever uma obra que retratasse o país na sua inteireza , seja física, seja social, seja cultural, seja principalmente literária. Para essa empresa, o certo seria que, em cada região, seus escritores se dessem ao trabalho de particularizar seus temas com seu talento e sua visão local, sem perder a unidade da língua, cuja diferença, nas várias regiões, é mínima, não indo mais do que na entonação e nos regionalismos vocabulares.
Como todo escritor fora do eixo Rio São- Paulo, Érico Veríssimo puxa brasa para sua sardinha e dá um certo relevo a escritores da sua terra. Isso é mais do que natural em tal situação.
Mas, o que fica de perdurável e definitivo nessa história literária é a honestidade do historiador em tentar mostrar ao público estrangeiro uma literatura que, embora não seja conhecida lá fora, já pode contar com um expressivo número de autores, nos vários gêneros, que não mais exploram de forma subserviente temas ou estilos literários de procedência européia. Seus autores, conforme ele satiricamente insinua, deixaram de ser meros imitadores encastelados friamente nas suas torres de marfim, seres fantasmagóricos. Nossos escritores descobriam seu caminho, o do homem comum,4 com pé na terra, procurando universalmente “um mundo melhor de paz, fraternidade e liberdade”, acrescenta ao término de sua história literária.
A história literária de Érico Veríssimo, feita com intenção primeira de ser um conjunto de conferências, ao ser publicada em forma de livro, bem deveria formalizar-se posteriormente, com um aparato biobibliográfico, com notas e referências sobre fatos, datas e títulos que nem sempre aparecem na extensão do livro.
NOTAS:
1 VERÍSSIMO, Érico. Brazilian literature – an outline New York: The Macmillan Company, 1945, 184 p.
2 Até então, não localizei a data de publicação deste livro.
3 VERÍSSIMO, Érico, op. cit., p. 106.
4 Idem, p. 163.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Tributo amoroso a Vivien Leigh

Tributo amoroso a Vivien Leigh


Cunha e Silva Filho



Deixo as leituras mais cansativas e me volto para o retrato de Vivian Leigh (1913-1967). De pronto me vem a primeira imagem daquela inglesinha, ( posto ter nascido na Índia, em Darjeeling) de porte pequeno (1,61 de altura), muito clara, com a sua cintura fina, seus cabelos não tão lisos, seu rosto perfeito e, principalmente, seu olhar – que olhar fascinante, especulativo!
Sua voz – que voz tão feminina! - delicada, suave, encantadora, belíssima, sobretudo se consideramos o todo do rosto, o nariz, a boca, a testa, as sobrancelhas, mostrados na tela do Rex (ou do Theatro) em Teresina, naquele papel de bailarina desempenhado numa história de um grande amor que teria sido completo se não fossem as circunstâncias históricas mundiais (Segunda Guerra Mundial) provocando mudanças no destino dos personagens; num, a frustração do amor incompleto, noutro, a tragédia individual diante da vergonha moral, no filme “A Ponte de Waterloo”(1940), onde Vivien contracena com um dos maiores galãs americanos, Roberto Taylor - admiração superlativa de mamãe e certamente de tantas jovens nascidas nos anos vinte).
A história daquele par amoroso me fascinou. Entretanto, mais me encantou para sempre foi a figura dessa mulher belíssima, que me marcou a memória estética, o conceito de beleza feminina.
Não creio que outra atriz me chamou tanta a atenção desde a juventude como a minha doce Vivien Leigh. Que estranho fascínio exerce uma bela jovem estrangeira na memória de um adolescente e que, com o tempo, não se desfaz?
Olhando-lhe uma bela foto (presente de meu filho Francisco Neto) reconstituída pelos novos recursos da tecnologia no campo da arte fotográfica, percebo que Vivian Leigh está ainda viva. A beleza não morre mesmo; ao contrário, se intensifica com o passar do tempo.
O belo olhar, com aqueles olhos esplendorosamente azuis e com um quê de interrogação só não fascina aos que não sabem ver a beleza de uma mulher.Você se lembra, leitor, daquele close inesquecível em que, na tela, praticamente só se viam os lindos olhos azuis de Vivien, supervalorizados pelo gesto sensual do levantar um das sobrancelhas? Isso está em “O vento levou,” filme que, mais adiante, cito e brevemente comento.
O mesmo olhar me transporta para outro filme famoso, que fez época no mundo todo: “E o vento levou”(1939) Ah, que fascinação aquele início do filme quanto, na suntuosa casa de Tara, a linda Scarlet, na flor dos anos e na mais perfeita das formas físicas femininas, encantava a tantos pretendentes! Sua figura querida descendo aquela escadaria enorme para ir ao encontro dos convidados, tem a duração do eterno, do belo e do trágico. Scarlet, a jovem filha dos prósperos proprietários de uma Tara ainda não tisnada do sangue dos infortúnios da Guerra da Secessão, ali estava diante da fascinação de milhares de film-goers pelo mundo afora. O Sul dos EUA ainda convivia com restos de paz e de esperança. Não tardava a eclodir a conflagração entre irmãos americanos. No filme, o centro de tudo é Scarlett O’Hara, com todos os defeitos morais da personagem na trama.O filme é baseado no belo livro de título homônimo, escrito por Margaret Mitchell.
Sim, no filme tudo é Scarlett. Sem ela, ele seria diferente, não teria o sucesso que teve. Sempre torci para que, no final pelo menos, a bela jovem terminasse com o estouvado e simpático capitão Bret . Como, dizia eu na adolescência em Teresina, essa linda mulher se apaixonaria pelo feioso Ashley (interpretado por Leslie Howard) que, além do mais, a preteriu para a doce Melanie, protagonizada magistralmente pela bonita Olivia de Havilland?
Olho novamente para o retrato de Vivien Leigh e penso no tumultuado casamento (o segundo) dela com o grande ator inglês Lawrence Olivier. Sei bem que Olivier não era feio, mas ao lado da belíssima Vivien, era pouco para ela. É difícil separar Vivien Leigh de seus personagens, além do mais porque para mim, que me tornei seu fã incondicional, vencido pela sua beleza e pelo seu olhar, a Vivien que conheci na tela é a que me seduz, visto que foi por esse meio que a conheci. Ama-se a imagem que nos seduz. E essa imagem tem força de perenidade.
Vivien, na vida privada, não foi feliz. Não sei – me pergunto – como pessoas tão fascinantes não tiveram vida feliz, harmônica, cheia de amor, cercada, no final da vida, de paz? As estrela do cinema nascem, a meu ver, para seus papéis, não para a vida no seu cotidiano amorfo, repetitivo, afundado em frustrações.. Quando as estrelas, na vida real, usam o álcool e outros vícios ou estimulantes artificialmente fabricados, parecem reforçar a idéia de que apenas na tela nossas amadas soam mais reais do que o cansaço da vida. Olho pra você, Vivien, e a minha paixão pela sua beleza e pelo seu mistério permanece num tempo que é eternidade.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Há mortes demais no mundo

Não sei lidar com estatísticas e gráficos e, se o faço, enfio as mãos pelos pés e o resultado disso torna-se desastroso pra mim e pros leitores. Contudo, me safo pela poder de síntese ou de generalizações intuídas pelas observações diárias, pelos noticiários da imprensa escrita mundial e nacional, leituras de livros e, finalmente, pela poderosa e utilíssima internet que, se empregada para o bem, o bem faz.
Mas, uma coisa está me espantando ultimamente: está morrendo gente demais, até me leva a pensar que, indiretamente, vivemos tempos de guerra ou de pandemias, pois só, pelo menos, nesses dois caso mais graves, se assiste a tantas perdas humanas.Mortes por toda a parte, aqui, ali,, acolá, mortes de toda a natureza. Não estou falando simplesmente de mortes por velhice, por doenças do coração, do câncer, por erros médicos , por acidentes de carros, de aviões.
Estou antes falando de mortes por brigas entre pessoas, de assaltos cruéis, de lenocínios, de crimes por motivos fúteis , de crimes por vingança de natureza política, econômica, de interesses contrariados, de crimes pessoais, de crimes diabólicos de filhos contra pais, de crimes por divisão de herança, de crimes contra quem recebeu um prêmio de loteria que aguçou a inveja de outros que, por essa razão, mataram o milionário para ficarem com a dinheirama, de crimes, de crimes contra crianças que choram muito e, por isso, são vítimas de padrastos- monstros, de crimes contra velhos em lares ou mesmo em asilos.
São inumeráveis os exemplos de diferentes modalidades de crimes causados por esse bicho que andam ainda chamando de humano, de crimes cometidos por inversões de papéis em que a polícia, paga pelo Estado com o dinheiro público, assassina inocentes a quem devia proteger.
Até aqui falei de crimes terríveis envolvendo certas razões injustificáveis. Entretanto, não falei de outros tipos de crimes que levam a mortes fatais. Quero me referir a mortes por acidentes da natureza, algumas incontroláveis, de dimensões ciclópicas, as chamada catástrofes das eras, os tsunamis, os terremotos, as inundações e finalmente, as mortes por motivos ideológicos, religiosos, políticos, geopolíticos, até o seu grau maior, os genocídios de que a Terra já tanto padeceu ao longo de sua História remota e de sua História contemporânea, com vítimas calculadas em milhares e até milhões de seres. Dá arrepios só em pensar quantas vítimas foram imoladas injustamente ao longo da História da humanidade. Pensemos só nas duas grandes guerras mundiais.
Pensemos em Hiroxima, em Nagasaki, no Holocausto, na guerra do Vietnam, só para ficarmos com três casos amedrontadores do passado e acontecidos num só século, imagine! Pensemos nos conflitos mais recentes nos quais as guerras são filmadas como se fossem espetáculos pirotécnicos de fim de ano, com imagens instantâneas, sob olhares horrorizados ou embrutecidos, dependendo do caso, dos telespectadores mundiais - imagens apocalípticas vistas pela internet! Estamos em plena sintonia da era da “banalização” diante da morte do próximo.
A morte é tão natural, seja qual for a sua natureza, quanto o olhar de alguém para um poste. Tantas são as mortes, ao longo dos tempos, que já se tornaram algo descartável ou sem tanta importância. Quem está vivo pensa que é eterno. Doce ilusão. Quem é moço pensa que tem a juventude eterna, tão preso está aos acenos do presente imediato. Com tantas mortes parece que está acabando a capacidade de o ser humano poder chorar ou se compadecer do outro.A morte nos tem anestesiado diante da dor última.
Veja-se o exemplo dos repórteres ou apresentadores de noticiários. Num minuto, fala de preparação para o carnaval, em outro minuto, de uma grande tragédia, em outro ainda, de um grande desastre, e assim sucessivamente vai nutrindo o telespectador de emoções diferentes, díspares, contraditórias, anestesiantes. Ao término do programa, só resta a eles e a nós uma indefinível sensação de naturalização do bem e do mal.
Um leitor, porém, poderá, com direito que lhe assiste, argumentar: “Mas, não socorremos tantos em casos de tragédias, por exemplo, agora no Haiti? Sim, é verdade. Mas, isso não basta nem reponde por toda essa carnificina onímoda que devora a essência do ser do homem. Haja vista, a defesa agora fria e cruel de Tony Blair justificando toda a carnificina da invasão do Iraque em parceria com o ex-presidente Bush filho.
As tropas americanas de Bush filho e daquele ex-primeiro ministro britânico arrasaram o Iraque impiedosamente sem uma grande e plausível justificativa. Apenas o fizeram em nome da prepotência e do desrespeito diante dos organismos internacionais de Segurança. Agindo como criminosos réus confessos, não se pejam de seus atos bárbaros e, no caso de Tony Blair, de reafirmar que faria tudo de novo. Uma das justificativas da invasão iraquiana, segundo se afirma, foi o ataque de 11 de Setembro do World Trade Center.
Claro que não aprovo isso, mas não aprovo com mais veemência o ato de carnificina perpetrado contra o povo iraquiano, com inumeráveis perdas de inocentes, de adultos e idosos civis que nada tinham com a ditadura de Saddam Hussein. Matar civis indiscriminadamente é crime contra a humanidade. A reportagem informa que pais de soldados ingleses mortos na invasão do Iraque (2003), em protesto contra as declarações hediondas de Tony Blair,, consideraram este um criminoso de guerra.(JB, Internacional, 30/01/2010) Onde fica, leitor, a chamada civilização ocidental? Quem são os novos bárbaros da Terra? É fácil responder e apontar.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Fernando Pessoa: "Sonnet XVIII"

Fernando Pessoa: “English sonnet XVIII”



Sonnet XVIII


INDEFINITE SPACE, which, by co-substance night,
In one black mystery two void mysteries blends;
The stray stars, whose innumerable light
Repeats one mystery till conjecure ends;
The stream of time, known by birth-bursting bubbles;
The gulf of silence even of nought;
Thoughts’s high-walled maze, which the ousted owner troubles
Because the string’s lost and the plan forgot:
When I think on this and that here I stand,
The thinker of these thoughts, emptily wise,
Holding up to my my thinking my thing-hand
And looking at it with thought-alien eyes,
The prayer of my wonder looketh pas
The universal darkness lone and vast.


Soneto XVIII


ESPAÇO INDEFIIDO, que, por noite cossubstancial,
Num escuro mistério dois mistérios funde;
Perdidas as estrelas, cuja infinita luz
Um mistério repete até a final hipótese;
Do tempo o fluxo, da vida a origem na explosão das bolhas;
Do silêncio o abismo, até do nada vazio;
Elevado e protegido labirinto do Pensamento, perturbação do expulso dono
Porquanto perdido está o cordão, e olvidado o plano:
Aqui permaneço quando nisso e naquilo penso,
Destas idéias o pensador, vaziamente sábio,
Com a minha mão-objeto o meu pensamento sustentando
E com olhos de pensamento-alheio para ele olhando
Do meu espanto a prece bem perto está
Da universal escuridão, solitária e vasta.
(Tradução de cunha e Silva Filho)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Obama e o sonho americano

Obama e o sonho americano


Cunha e Silva Filho



Recordo-me da posse de Barack Obama, do seu discurso, da sua desajeitada maneira de fazer o juramento (teve que repeti-lo no dia seguinte a fm de completá-lo corretamente), repetindo, perante a Bíblia Sagrada, as frases do encarregado da cerimônia. Confesso que não gostei muito do discurso. Não me causou impacto. Me soou até fraco, incompleto diante da importância do evento. O que, todavia, me prendeu mais a atenção foram os closes das câmeras em direção à população, especialmente quanto focava a grande presença de negros que afluíram para o evento.Vi que os negros americanos, nos seus semblantes, pareciam indicar uma nova era de esperança e de saudável expectativa.
A impressão que tinha era que ali só havia a sofrida etnia negra, afoita, orgulhosa de ter, pela primeira vez na história norte-americana, um presidente mulato, ou seja, com cor e traços físicos aproximados dos negros, um half-bred, a me lembrar daquele vaticinado romance, O Presidente negro (1926) que ainda não li, de Monteiro Lobato (1882-1948) no qual os EUA conheceriam um presidente negro.
Do discurso me ficaram alguns fragmentos indicadores de mudanças efetivas na estrutura social-econômica e na geopolítica do país. Dei-lhe, pois, um voto de relativa confiança. Quanto à desativação da prisão de Guantánamo, em Cuba, essa promessa me agradou sobremodo, e bem assim me contentou saber que as tropas americanas logo deixariam as regiões conflagradas, pelo menos do Iraque, para não falar no Afeganistão, no Paquistão e nos cruentos ataques contra os chamados terroristas da Al Qaeda. Essas regiões ainda se encontram solidamente militarizadas, dando gastos colossais ao bolso do povo americano. Com o passar dos meses, eu não mais via qualquer expectativa de promessas cumpridas. Antes o que os meus olhos viam era uma espécie de continuidade de estratégias voltadas para a política externa feitas pelo próprio governo Obama, o que me deixou perplexo quando soube que o prêmio Nobel da Paz havia sido concedido para o presidente ianque.
A realidade americana, com todos os seus defeitos e qualidades, se manteve, inalterável, particularmente na esfera da política externa, segundo já frisamos. Os combates, no Iraque, no Afeganistão, no Paquistão, prosseguiram e prosseguem. Guantánamo continua ilesa e fagueira.Como fica o prêmio Nobel da Paz nas mãos de Obama? Estamos no reino da imprevisibilidade.
Obama, nas pesquisas de opinião, sofreu elevada queda (desculpe-me pelo oxímoro) de popularidade. No entanto, o novo presidente abriu o debate sobre a crucial questão da saúde pública americana. Nesse ponto, Obama desejou ser destemido e peitar, pelo menos, retoricamente, os grandes conglomerados dos planos de saúde privados. Mas, para isso, não dependia só dele a aprovação de milionários investimentos a serem injetados na saúde com o objetivo de romper com os grandes tubarões da medicina privada e muitas vezes mercantilista. Será que Obama vai sair vitorioso dessa empreitada? Acho difícil.
Lendo uma entrevista concedida pelo romancista americano Russell Banks a Gilles Anquetil e François Armanet, publicada no Le Nouvel Observateur, e republicada em tradução portuguesa de Clara Allain, na Folha de São Paulo (24/01/2010), sob o titulo “Meio Obama”, de resto, uma magistral análise desenvolvida por aquele ficcionista americano, percebo, com mais evidência, certos pontos obscuros que me rondavam a cabeça no que tange às reais possibilidades e poderes que um presidente dos EUA pode ter. Não são poucos, mas também não são muitos.
O nó górdio a ser desatado é algo quase intransponível, dado que, rigorosamente, entre os dois partidos americanos, o Republicano e o Democrata, não há tantas diferenças de metas e visões pragmáticas. Em resumo, tudo depende, para substanciais alterações, de entendimentos decisivos entre conservadores e progressistas. Administrar essas possibilidades de acertos e compromisso conseguidos na Câmara e no Senado estadunidenses, é tarefa das mais espinhosas, a ponto de o mencionado entrevistado afirmar que, nos EUA, não há “democracia” na real acepção prática do termo. Nas palavras de Russell Banks, que, aliás, foi um dos primeiros a dar apoio à candidatura de Obama, conforme assinalam os entrevistadores, acentuo o seguinte trecho digno de atenção dos historiadores e analistas políticos: “”Somos uma República que se esforça há séculos para tornar-se uma plutocracia, e que está a caminho de consegui-lo.”
A se ver por aí, deduzo que Obama, se tem a boa intenção de resolver as graves questões no plano social, melhorando efetivamente as condições de vida da camada pobre dos americanos sem teto, alimento, emprego, saúde e outros benefícios sociais minimamente condizentes com uma sociedade reconhecida como o coração do capitalismo mundial, não dispõe mesmo do poderes constitucionais para solucionar boa parte dessas demandas do segmento sacrificado da população do país.
O sentido geral da análise de Russell Banks se resumiria no seguinte: Obama vai conseguir pouca coisa que possa diferenciá-lo do seu antecessor ou antecessores imediatos. Não vai fazer um mandato do tipo realizado por Franklin Delano Roosevelt ( 1882-1945)). Não vai mudar a estrutura do sistema econômico-financeiro americano vigente, fortemente blindado contra rupturas radicais em direção a mudanças progressistas ou de esquerda. Os banqueiros de Wall Street continuarão mandando. O conservadorismo não vai ceder muito no terreno social. Os pobres que se virem como puderem. A riqueza do americano se manterá imperialmente.
Afinal, entre, nós, Obama se diferencia de Bush filho nos seguintes aspectos: retórica, cultura, lucidez e ausência de rancor tresloucado de belicosidade e de paranóia. Isso já lhe confere uma inequívoca superioridade na alta função de presidente. Obama, ademais, tem sensibilidade, e é homem lido, sabe usar da palavra, sabe emocionar o povo com sinceridade. Tem boa intenção. Só lhe falece uma arma indispensável:: a de poder enfrentar as hordas da força do capitalismo e da riqueza de sua minoria, refestelada no alto consumo, no fetichismo do dólar pensado em cifras bilionárias e na certeza de que seus banqueiros e seus corretores de ações serão – sempre - regiamente recompensados com polpudos dividendos em suas contas faraônicas.
Enquanto isso, o simpático Obama vai tocando o governo dentro das suas relativas possibilidades a fim de não parecer tanto quanto seus predecessores, principalmente com a herança maldita do Bush filho nas façanhas da intervenção e da belicosidade ao arrepio da lei dos homens. Obama tem toda a pinta da esquerda, inclusive é canhoto. Entretanto, não lhe basta ter o physique du rôle para as mudanças concretas na vida dos norte-americanos desafortunados. É preciso ter a coragem dos grandes lideres, incluindo os riscos.

sábado, 23 de janeiro de 2010

O menino, o pai e a garapa

O menino, o pai e a garapa


Cunha e Silva Filho


Até hoje, não sei explicar por que razão meu pai gostava de que saísse com ele para resolver alguma coisa no centro da cidade, em Teresina. Outra vez, me convidara para a posse dele como diretor do Liceu Piauiense. A solenidade fora no Karnak. Uma outra vez, era um dia muito importante para ele: a sua defesa de tese para ocupar a cadeira de História do Brasil da Escola Normal “Antonino Freire.
Era no início dos anos cinquenta. Ainda ouço a voz vibrante de orador defendendo seus pontos de vista na sua tese, com vitória conquistada com muitos sacrifícios e até injustiças da parte de um professor que viera de fora para compor a banca ( se não me engano do Ceará) adredemente indicado para prejudicar papai. Papai, como jornalista, andou fazendo duras críticas a um figurão do setor da educação brasileira e, como represália, para o concurso, fora compor a banca um pau mandado. Papai, tempos depois do concurso, me dissera que um dos examinadores- creio que o pau mandado -. não gostara da sua postura ao proferir a aula de defesa de tese. Achava que ele dava aula como se estivesse fazendo um discurso.
Ora, era justamente essa maneira de ser que tornava meu pai uma figura admirável, visto que, ainda que não fosse didaticamente correto, dar uma aula, em tom de tribuno, era-lhe algo inseparável, fazia parte de seu temperamento vibrante e indomável, a par de lhe ensejar uma oportunidade de mostrar seu talento e facilidade para a comunicação oral. No momento da aula, lá estava um menino calado, talvez um tanto amedrontado com a assistência presente e em silêncio, com examinadores carrancudos, com a solenidade e a seriedade de uma sala pública, vasta e hostil para a sua pouca idade.
Foram inúmeras as vezes que saíamos de casa, papai e eu. Ele, de terno claro, nos seus cinquenta anos; eu, bem pequeno, mas muito seguro porque estava com ele. Metros adiante, me pagava pela mão. As mãos de papai eram lindas, cálidas, macias, me faziam bem, Um conterrâneo dele me dissera em Amarante que papai tinhas as mãos mais lindas da cidade. Um filho meu, o mais velho, o Francisco Neto, tem também lindas mãos parecidas com as do avô...
Lá íamos os dois juntinhos, papai e eu, caminhando pelas ruas de Teresina, saindo da zona sul para o centro da cidade. Este era o cenário para o qual tudo convergia. Passávamos por várias ruas da velha Teresina. O sol abrasador. O suor, os passos firmes de papai, que vendia saúde. Papai dificilmente se queixava da saúde. Era um touro. Às vezes, tinha um pouco de dor de cabeça, talvez resquícios de uma ressaca de final de semana. Adorava uma cervejinha até que, numa determinada fase de vida, teve que deixar de lado esse hábito. Até aos setenta e poucos anos, não dera sinal de problemas com a saúde.
Eu conhecia as ruas de Teresina, ou seja, o centro e partes da zona norte e sul. Mas, a nossa caminhada não podia deixar de passar pela Praça Pedro II ou pela Praça Rio Branco. Não era, porém, um conhecedor exímio de Teresina. Poucas vezes, mesmo na adolescência, ia além da altura do Liceu, do Barrocão, da Piçarra ou da Vermelha. E só. Conhecia, ademais, as ruas de Teresina pela posição, pelo lugar. Nunca me dei ao trabalho de esmiuçar os nomes de rua. Hoje mesmo, não sou um bom informante até do bairro em que moro. Só sei que, se estivesse sozinho, saberia como chegar em casa, mesmo pequeno, naquela época..
Havia, no entanto, nas minhas andanças com papai a perspectiva do coroamento do “passeio”: a certeza de que, antes do retorno pra casa, ele entraria comigo numa lanchonete. Poderia bem ser a bombonière entre o Rex e o Theatro. Poderia ser o Cantinho do Tufy ou uma garapeira não muito longe desse recanto. Tudo isso não mais existe, como não mais existe o Bar Carnaúba e outros bares, lanchonetes e restaurantes daquela época.Uma segunda certeza,: se papai pedisse para nós dois um copo de garapa gelada ou, como se dizia então em Teresina, frapê, com pastel de carne moída, sem sombra de dúvida me faria esta pergunta, cuja sonoridade do enunciado de sua voz se me gravara para sempre na memória de adulto: “Você quer tomar mais um copo, filho? Mais um pastel?” Era claro que iria aceitar mais uma rodada do precioso lanche.
Papai adorava garapa. Meu filho mais novo, o Alexandre, e eu, amamos igualmente a garapa, o caldo de cana como é conhecido aqui no Rio e tão apreciado, sobretudo pelas camadas mais humildes da população. É uma delícia quando acompanhado de pastel de carne moída ou, para meu filho atrás mencionado, pastel de queijo. Prefiro, sempre, o de carne moída e que esteja bem quentinho, feito na hora.
O gosto extremado por garapa data de há muito. Lembro-me de que, quando estudante do saudoso “Domício”” (Colégio “Des. Antônio Costa”), uma escola, já extinta, dos irmãos Domício Melo Magalhães e Francisco Melo Magalhães, havia uma espécie de confraternização anual (não tenho certeza da periodicidade correta), para a qual os professores do “Domício” eram convidados a passarem uma manhã (ou tarde) de um sábado tomando garapa à vontade. Papai era professor do colégio. O convite se estendia à família de cada professor. Ah, como eram boas as “garapadas” do “Domício”. Virara uma tradição da escola, verdadeira festa e regalo para o paladar! “Garapada” das melhores, fizeram história nos anais daquela instituição de ensino. Eu, como fá do caldo de cana, jamais perderia aquela oportunidade de tomar garapa até não mais me aguentar.
O nível do preparo da garapa, feitinho na hora, com cuidado e limpeza, transformava aquelas manhãs (ou tardes) de sábados de “garapada” em verdadeiros marcos festivos do calendário informal daquela escola na qual fiz o exame de admissão e todo o ginásio.
A festa da garapa era também uma grande motivo para que professores pudessem palestrar à vontade sem as formalidades dos dias de aula, além do regalo do dulcíssimo sabor do caldo de cana, para os piauienses, da garapa.
Da distância do tempo me ficaram rostos meio esquecidos de mestres, funcionários administrativos, inspetores, os rostos nunca esquecidos dos irmãos Magalhães.Havia particularmente um rosto que me era caro, um rosto ainda novo, sempre conversando, ora com colegas, ora com os diretores. Era um rosto corado, com os cabelos grisalhos, um corpo gordo mas não flácido, uma voz forte, firme e uma simplicidade de causar inveja. Assim, era meu pai, o professor Cunha e Silva (1905-1990). O fluxo rememorativo não pára seu curso e me traz de volta, por associação, aquele lema do educandário dos irmãos Magalhães, que se encontra no meu diploma de conclusão do ginásio. É uma citação de Platão (c. 429-347 a. C.): “A Educação é a mais valiosa herança que os pais podem deixar aos filhos”.
O mesmo processo de associação me leva ainda à lembrança da minha querida caderneta escolar (Onde andará ela?), numa das páginas da qual havia o hino do “Domício,” cuja autoria me escapa agora da memória. Todavia, de um pequeno trecho dele não consegui esquecer: “Não há profeta que honre a sua terra./ Eis um Ginásio que lhe fizeram guerra./ Desembargador Antônio Costa é do Piauí / da mocidade o porvir.”

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A cruz de Cristo e o terremoto

A cruz de Cristo e o terremoto


Cunha e Silva Filho



Há algo quase inexplicável que presenciei no recente terremoto em Porto Príncipe.Em meio a tantos escombros, perdas humanas - as mais deploráveis -, perdas materiais, não escapando até as construções mais sólidas, como a sede do governo federal, a cidade desolada, nos vários ângulos das câmeras dos repórteres, de repente, aponta para algo que nos chama a atenção: no desabamento de uma igreja local, tudo veio por terra, esfarelando-se, mas um objeto escapou à fúria do sismo: uma cruz de Cristo, que permaneceu intacta, solitária, símbolo verdadeiro da resistência divina no meio da total desolação. A cruz ali sinalizava para uma
Certa esperança de que nem tudo se perdia, sobretudo a força da esperança e da resistência de um povo profundamente sofrido nos seus objetivos de vida .
A lição da cruz de Cristo, em sua imensa solidão, não é um sinal de fracasso da luta da humanidade para um caminho mais seguro. Sua lição resiste às forças da Natureza, aponta para um recomeço, nunca para a desistência. O país não pode ser riscado porque ali houve um cataclismo, um desastre natural nas acomodações das camadas fundas do solo. É preciso haver perseverança, paciência, abnegação e sobretudo amor às pessoas que estão sofrendo enormemente.
A cruz de Cristo bem pode ficar na mesma posição quando ali for reconstruída a mesma igreja, com o mesmo espírito de cristandade. Oxalá que, dentro de algum tempo, pessoas que sobreviveram ao desastre de agora possam ali rezar uma missa reunindo não só os cidadãos do país,mas todos os povos que, esquecendo algumas divergências político-ideológicas, se uniram para dar apoio material e moral aos sobreviventes. Vejo ações desse tipo como modelos que devem ser imitados nas relações entre os povos ainda que estes sejam separados por religiões diferentes.
O símbolo da Cruz vai servir como instrumento da passagem das rivalidades para a paz e união dos haitianos. Que a cruz de Cristo possa ser um elo constante na ação reconstrutora da capital haitiana.
Daqui desta coluna me congratulo com as forças de paz da ONU, com os abnegados militares das diferentes nacionalidades que receberam essa missão de trabalhar para a organização política, social, econômica e cultural do Haiti. Me congratulo também com os chefes de governos das nações envolvidas na reconstrução deste país e sobretudo me regozijo com o afanoso e beneditino trabalho da Cruz Vermelha Internacional, dos Médicos Sem Fronteiras, das representações diplomáticas ali baseadas.
A cruz de Cristo estará pairando acima de todos os obstáculos que com certeza se defrontarão todos esses segmentos humanos que ali estão a serviço da humanidade e da paz. Daqui a algum tempo, ainda que custe muito tempo a cruz de Cristo estará novamente abençoando todos os que, dentro e fora de sua igreja, procuram a comunhão entre os povos.