domingo, 27 de janeiro de 2019

EDUCAÇÃO E LÍNGUA ESCRITA



Cunha e Silva Filho


     Dois problemas momentosos almejo discutir sumariamente aqui nesta página: a) o uso da língua portuguesa dito culto; b) a educação do usuário da língua escrita. É apenas uma artigo, um repto, um desagravo a uma pessoa querida, sem pretensão alguma de escrever um ensaio linguístico, gramatical ou filológico. 
    Porém, pretendo tecer algumas considerações de natureza ética e linguística quanto a práticas imoderadas e deselegantes de usuários do Facebook ou de outras mídias de, vez por outra, particularizando uma pessoa de méritos incontestes e de abalizado conhecimento de uso do vernáculo comprovado em esmerada argumentação do seu discurso técnico-jurídico e até literário e devidamente comprovado com a sua sólida formação acadêmica em instituições de ponta no país. 
Desnecessário nomear aqui o elevado nível de competência entre os seus pares na área de atuação intelectual e profissional. Não vou exibir tampouco os títulos e o rico curriculum da pessoa atingida por ser desnecessário e por ser o autor um estudioso de primeira linha.
      A qualquer usuário do Facebook e quejandos não cabe a leviana pretensão de arvorar-se em sair por aí “corrigindo” a esmo textos alheios visto que, se assim proceder, dará um exemplo de absoluta falta de educação e de desrespeito com o autor do texto, principalmente sem ter a mínima intimidade ou privacidade com o autor do texto criticado quanto a usos da língua escrita ou mesmo oral. 
     Palpitando às cegas sem ser autorizado e sem a vênia do autor, em questões gramaticais envolvendo mais do que um mero uso normativo ou culto do vernáculo é se expor ao ridículo e dar atestado de ignorância extrema de uma boa educação exigida no relacionamento social. Melhor seria afirmar mais categoricamente como um péssimo exemplo de grosseria com alguém que não conhece. A querela do certo ou errado foi praticamente alijada da visão avançada dos linguistas mais atualizados em nosso país. Já se foi o tempo do certo do errado em assuntos de linguagem nos moldes do velhusco gramático e filólogo luso Cândido de Figueiredo, entre outros, inclusive brasileiros.
   Tenho observado, no espaço do Facebook, que muita gente anda se comportando com se fosse detentora do conhecimento da língua portuguesa e é, nesse sentido, que o presente artigo tem a sua razão de ser e se torna oportuno. Procurar catar solecismos e outros vícios de linguagem em usuários virtuais não é o procedimento correto. Há outros modos de se corrigir alguém sem constrangimento que cometa um deslize gramatical, uma erro de concordância ou um uso controvertido do infinitivo flexionado ou inflexionado. – questão, de resto, controvertida em muitos ângulos, porquanto não só está atrelada ao fato meramente gramatical, mas à estilística fônica, por exemplo. 
     O conceito de erro gramatical, de certo ou errado, mudou drasticamente após os desenvolvimentos da linguística no mundo e no país. Após estudos apurados no campo da sociolinguística, nos conceitos de níveis da fala, de registros linguísticos. Tudo passa a ter um novo enfoque a me lembrar aquela observação do gramático Brian Kelly ainda pertinente aos nossos tempos:[...] “Se as regras de gramática diferem do uso culto, então a gramática tem que mudar, pois a gramática foi construída para a língua, e não a língua para a gramática.(An advanced English course for foreign student. London: Longmans, Green and C., 1940, p. 352.).[Tradução minha]
    Por conseguinte, o vício errôneo de enxergar erros gramaticais nos outros não é recomendável a uma pessoa instruída e polida. Uma derradeira observação, não precisamos arrolar tantos autores mais avançados na questões de correção gramatical e uso do português. 
Recomendo um pelo menos, que aborda tais questões com alta competência e atualidade: Marcos Bagno, Veja dele o opúsculo Preconceitos linguísticos - o que é, como se faz. 52ª edição. São Paulo: Edições Loyola, 1999.

sábado, 5 de janeiro de 2019

NATHAN SOUSA: UMA POETA EM ASCENSÃO



CUNHA E SILVA FILHO


Não se pode negar ou ocultar fatos concretos e realidades palpáveis, mas tudo está levando a crer que a produção vertiginosa do poeta e ficcionista Nathan Sousa, natural do Piauí, se encontra em franca ascensão. A princípio. o julguei um tanto narcisista ou autocentrado porque vivia falando de si, dos seus projetos sucessivos, nos dando a impressão de que era uma máquina de fazer literatura que veio para se dedicar de corpo e alma à nobre atividade da poesis, com a qual divide as suas incursões no campo da ficção e do ensaio breve e atilado em que tem a destreza incomum de fazer belos perfis sobre autores/obras em panorâmicas que dão gosto de ler.
Ele é desses autores que não dão trégua ao tempo, transformando este em novos trabalhos de sua lavra incansável. Procurou ler o máximo em reduzido tempo do que seja melhor da grande literatura, dos grandes poetas e ficcionistas, até mesmo das respeitadas obras de história da literatura universal. Parece querer devorar o tempo exíguo em tempo de antropofagia literária assimilando rápido e se inteirando célere no meio ainda hostil aos novos quanto é a vida literária e cultural brasileira.
Já lhe saíram da sua pena, pelo menos uns 8 livros. Conquistou, por quatro vezes, prêmios da UBE, foi finalista em concursos literários, como o famoso Jabuti e, agora, foi também contemplado entre os finalistas de um concurso literário de peso, o I Prêmio Internacional de Poesia Antonio Salvado, com a obra poética O tecido das águas, reunindo uns 400 concorrentes de outros países e em concurso destinado à obra de estreia em português e espanhol.
Natan Sousa atende bem àquele pensamento em inglês que li alhures: “Cuide bem dos seus talentos.”´É assim que, a meu ver, ele faz com o que foi dotado literariamente. Digo isso porque geralmente no Piauí, por exemplo, há bons e grandes talentos poéticos que são prejudicados por falta mesmo de dedicação e de continuidade a seus projetos literários. Ora, uma poeta de raça tem que sustentar-se no tempo e no espaço. Faz seu percurso até onde lhe é possível escrever mas não desiste nem desanima diante dos reveses inerentes à própria condição de ser poeta, a não ser que seja tolhido pela morte ou por alguma doença que impossibilite o vate a escrever mais, tal como se deu com o poeta-mor do Piauí, Da Costa e Silva ( 1885-1950).
Ainda não li a produção poética de Nathan . Entretanto, só com a leitura de uma de suas obras, Dois olhossobre a louça branca (Guarantiguetá,SP.: Penallux, 2016, 86) que resultou numa resenha minha sob o título “Diálogo com todas as coisas, objetos e seres: a poesia de Natan Sousa”, de certa forma, pude fazer algumas considerações preliminares sobre o poeta piauiense, campeão de concursos. Aproveito o ensejo para inserir aqui a referida resenha, a qual já foi lida em alguns países importantes do mundo:
DIÁLOGO COM TODAS AS COISAS, OBJETOS E SERES: A POESIA DE NATHAN SOUSA
CUNHA E SILVA FILHO
Com pouca informação sobre o autor, o poeta piauiense Nathan Sousa, 43 anos, sem lhe conhecer a produção até agora editada, me agarro a seu mais recente livro publicado, Dois olhos sobre a louça branca(Guaratinguetá: Penalux, 2016, 85 p.). Essa editora vem publicando outros poetas e ensaístas, alguns dos quais conheço, como Luiz Filho de Oliveira, poeta piauiense, e Valdemar Valente, ensaísta.
Residindo no Rio de Janeiro há tanto tempo, não tenho condições de acompanhar tudo que tem sido publicado no Piauí, sobretudo seus autores mais jovens ou menos jovens..O que me vem ao conhecimento é quase por acaso. As minhas referências aos novos autores vou buscar nos poucos historiadores literários de que o Piauí dispõe, como Francisco Miguel de Moura e Herculano Moraes.
Como diria os mais velhos até do que eu, de um assentada li o livro em exame. Leitura rápida que me impulsionava a ir adiante. Foi o que fiz e posso adiantar: não foi tempo perdido. O jovem poeta como aconteceu com Luiz Filho de Oliveira, me surpreende por várias razões, (com a sensação estranha e satisfação com que li o poeta Elmar Carvalho nos anos 1990 e quando lhe analisei a obra poética nos anos seguintes), em especial pela qualidade inquestionável de seus versos.
Eu tentei ver se na obra de Nathan poderia encontrar uma imperfeição, seja de natureza da linguagem literária, seja da própria elaboração da sua fatura poética, a meu singular, orignal, na qual, a palavra, a frase, a estrofe e o poema inteiro vão-nos deleitando pela leque de situações formais e humanas levantadas pelo autor. Aposto na consagração desse poeta e logo logo na sua visibilidade fora dos limites do Piauí.
Nathan Sousa nos enseja uma poética que muito se aproxima do âmbito filosófico, sem, no entanto, desprezar a concretude da vida, a realidade quotidiana e seus problemas e impasses, os objetos inanimados, a flora, a fauna, coisas em geral, i.e. o mundo natural e o mundo cultural, Tudo no livro parece querer atingir uma dimensão universal. Em Nathan nada lhe escapa ao que se convenciona denominar de mundo real e mundo abstrato. Luz, sombra e mitos. Por isso, sua poesia é tão invadida por objetos, coisas, seres humanos ou irracionais, pela frequência alusiva, ou seja, pelo intertextualidade, quer endoliterária, quer exoliterária (Cf. Vítor Manuel de Aguiar e Silva. Teoria da literatura. 8 ed. 19ª impressão. Coimbra: Livraia Almedina, 2011, p. 629-630), um traço muito comum nos poetas de hoje e já anunciado, conforme amiúde tenho repetido, desde a previsão do crítico literário inglês I.A. Richards (1893-1979).
Optou – seria o termo certo para uma poesia constelada de signos, metáforas e símbolos? - por um poesia de corte contraditoriamente aristocrático, na qual os verso resultam de poderosa imagística que toca em muitos ângulos do se podia rotular de grande poema em todas as épocas. Contudo – cabe ressaltar - o adjetivo “aristocrático,” aqui particularmente empregado, não tem nada a ver com um poesia tradicional parnasiana ou neo-parnasiana. Longe disso. O adjetivo refere a um tipo de poesia inapelavelmente pós-moderna no sentido mais lato possível. Quer dizer, uma poesia que supera as vanguardas brasileiras a partir das mudanças efetuadas pelo Concretismo de 1956 e outras formas de vanguardas pós-concretistas. Nathan faz parte de um grupo de poetas que pertenceriam a uma fase na qual os ismos datados forma superados e, em lugar dele, a poesia teria em cada poeta uma forma individual de composição. Não significa por isso que há nesses novos poetas que estão surgindo no pais a anarquia da forma e de temas, mas um percurso poético pessoal que tenha recebido as mais diversas contribuições tanto da tradição literária quanto das diferentes vanguardas pelas quais passou a poesia brasileira..
A poesia de Nathan Sousa, em alguns aspectos formais e de comportamento com a linguagem, me lembra outro poeta brasileiro que conheci muito, o Jurandyr Bezerra (1928-2014), autor de um único livro publicado, Os limtes do pássaro (Belém: Editora SEJUP, 1993), bem recebido pela crítica especializada. Tinha prontos, pelo menos oito livros de poesia a serem editados. Bezerra nasceu no Pará e, em seguida, radicou-se no Rio de Janeiro. Recebeu prêmios e teve poemas traduzidos para o italiano e eu mesmo verti um poema dele para o inglês, de título “Poema para Izabel,” extraído do livro já mencionado, Os limites do pássaro.
Como Nathan, ostenta uma poesia de fino senso de beleza, onde o sentido do poema se encontra no próprio fruir da linguagem e dos seus recursos imagéticos, em sua potência criativa e no seu substrato profundamente humano além de musical, visível influência dos simbolistas.
Jurandyr Bezerra foi leitor voraz dos grandes poetas não só brasileiros (Cecília Meireles, Cruz e Sousa, Murilo Mendes, Fernando Pessoa), mas um do porte do expressionista alemão Georg Trakl.(1887-1914). Tinha especial interesse pela leitura de respeitados ensaístas, por exemplo, um Mário Faustino, um Benedito Nunes, um Antônio Olinto, um Antonio Carlos Secchin, um José Guilherme Merquior.
Recordo vivamente que Jurandyr citou especialmente o último dos citados poetas no parágrafo anterior, da mesma maneira que gostava de citar Cecília Meireles, os simbolistas. Foram, assim, uns mais outros menos, os que, segundo ele, lhe ensinaram finalmente o que é poesia depois de tanto tempo e canseiras de releituras, porque, acrescentava ele, a poesia é também um aprendizado do domínio técnico – uma espécie de epifania, uma porta aberta aos olhos espantados dos que amam e querem para si a entrada firme e certeira do sentido da linguagem e da matéria poética que se traduz, ao fim, em criação verbal e de apreensão do que seja o grande verso, a grande poesia.
Jurandyr, tal qual todo bom poeta, passou a vida inteira lendo o que havia de melhor na poesia universal tanto de brasileiros quanto de estrangeiros. E como sabia ter a vocação e a maneira cavalheiresca de ofertar obras da grande poesia aos amigos! Uma desta ofertas foi uma antologia de poetas expressionistas alemães.
O livro Dois olhos sobre a louça branca, de resto, de título insólito e enigmático, compõe-se de quatros partes, respectivamente intituladas “Ogiva de Vidro” “Lágrima de quartzo,” “China,” e “Estuário / Saliva.” As quatro partes reúnem cinquenta e um poemas. É obvio que, numa simples resenha, não daria conta de um comentário abrangente o suficiente para apreender a riqueza facilmente detectável em seus poemas, em que a linguagem da poesia é medida milimetricamente e se encaixa no tema eleito.Esse frêmito também, em relação a novos poetas do Piauí, experimentei na leitura da poesia de Sonia Leal Freitas, O cedro do Éden (2002) e na poesia satírico-social mas também estruturalmente refinada de Luiz Filho de Oliveira na obra Das bocadas infernéticas (2016).
Não seria neste espaço que adensaria minha análise da poesia de Nathan Sousa, mas me impulsiona o desejo de tecer alguns breves comentários gerais do livro. Tomemos, por exemplo, três poemas, entre tantos no livro, que me suscitam a curiosidade crítica: “Eu e a Cidade” (p.32-33), “Sabor”(p.75) e “Ceia de cegos” (p.85) e
O primeiro escolhido retoma um tema já poetizado por outros autores piauienses, um deles sendo Paulo Machado. Todavia, o tratamento entre este o de Nathan é bem diverso e reflete outros tempos poéticos. Nos poemas de Paulo Machado sobre Teresina a poesia, num lirismo distanciado, se entronca com a denúncia social e o testemunho do tempo histórico, enquanto que em Nathan Sousa existe uma relação mais íntima entre o sujeito lírico e o tema de Teresina, ou seja, entre o sujeito lírico e o objeto amado complicado desta vez pelos tempos de agora, líquidos e apressados no torvelinho da pós-modernidade impessoal e brutal.
O poema é uma mini-autobiografia do poeta que se debruça corajosamente sobre o seu tempo presente e o passado. Fala do presente da sua cidade, Teresina, em constante metamorfose. É um belo poema, um dos melhores do livro costurado entre a saudade dos entes queridos e as transformações que o amadurecimento vai exercendo sobre o homem-poeta: “retorno à cidade onde nasci/e onde vi meu pai e (pouco depois) minha mãe partirem/para sempre”.(p.32, primeira estrofe).
Nesse poema há um controlado halo de nostalgia indefinida do que foi a cidade do período existencial do autor por ele mesmo situado: “Será esta a Teresina/que se abriu em cores e vozes/ naquele distante ano de 1973? (p. 33, estrofe 7). É evidente que essa sensação de estranheza sentida por alguém que se afastou da sua cidade berço é compartilhada por outros pessoas, até pelo “homem comum,” porém sobremodo pelos artistas, poetas, escritores em geral, gente com maior sensibilidade de transmitir emoção e beleza através da comunicação literária.O poema é um grande mergulho no sentimento da saudade contida pela emoção controlada pela mensagem sintética tão afinada que deve ser com o ato poético e pela consciência e razão metapoética.
No poema ‘O sabor,” existe um “topos,” o da imagem da “louça branca” que, por sinal,faz parte do título do livro. Ele, portanto, é recorrente, aparece aqui e ali na obra.Não é meu intuito aqui me éter neste sintagma ou no lexema “louça.” Sua hermenêutica será certamente uma das linhas de força do poema. Nathan, tanto quanto outros poetas de hoje, usam de alguns artifícios que já foram empregados por poetas da modernidade, como um Vasco Graça Moura (1942-2014)poeta português, ou um mais antigo, e o norte-americano e.e.cummings (1894-1962). Eles usaram letra minúscula para nomes próprios, assim também as empregaram depois de um ponto. Outra traço tipográfico semântico-visual igualmente encontrado na poesia de Luiz Filho de Oliveira) é, entre parênteses, incluir um enunciado alusivo ao poema ou mesmo de sentido enigmático ou indecifrável.
Cumpre não esquecer que a poesia atualizada de Nathan Sousa tematicamente se irradia para múltiplas direções, não somente para o olhar dirigido aos objetos, coisa e seres, segundo assinalei, mas para outras questões que embutem no poema voltadas ao universo das artes, da temas sociais e globais, Combina os mundos ocidental e oriental. Desloca-se como uma espécie de globe-trotter.
Há uma visada para uma abrangência universal atingindo, além disso, outros espaços naturais, a água, o líquido, os pássaros (frequente nele também é suas referência a essa espécie animal. Voltemos ao poema “Sabor.” Há sempre um segundo ou terceiro ou mais sentidos num só poema que converge para uma opacidade de sentido abrindo-se ao hermetismo e a um esteticismo acessível a poucos iniciados.
Neste ponto, sua poesia é muito mais sofisticada do que foram os poetas da geração-70, com o mimeógrafo, com alguns poetas reunidos em antologia a cargo de Heloísa Buarque de Holanda, antologia que se tornou, por assim dizer, um clássico, sob o título de 26 poetas hoje ou mesmo com os da geração-90, que teve duas edições (Editora Aeroplano) e mereceu uma outra antologia intitulada Esses poetas, também organizada por Heloísa Buarque de Holanda.
No poema “sabor” é evidente uma dicotomia entre o abismo de uma hecatombe natural insinuada pelo binômio “goela e o big bang e um desejo meio que incerto, a despeito do risco, do recurso à poesia. O poema se inscreve entre o disfêmico ( big bang, “mefistofélico”, “combustão desavisada” e “armas” e o eufêmico ( “louça branca,” “canto de louvação,” “educada”). O poema não afirma abertamente, se camufla semanticamente.
No poema “Ceia dos cegos,” o derradeiro do livro, que exibe uma epígrafe de escritor português Miguel Torga, está associado à religiosidade cristã na acepção do conhecimento atento do Novo Testamento, do qual é citado uma frase de Mateus (não sei por que o poeta grafou em inglês mathew, quando poderia fazê-lo em português).
As referências ao “mito” e ao “sono da caverna” são bem indicativas das intenções oblíquas (se é que há intenções num poema) da natureza do tema do poema. Apontam para muitos questionamentos de cunho mitológico, social, estético e filosófico. A citação de Mateus, por sua vez, reenvia ao topos dos “olhos” e da “louça branca” que formam o título da obra. O poema “Ceia dos cegos” não se torna por isso religioso, católico ou de outra denominação. A uma afirmação do sujeito lírico corresponde uma desconstrução. O conceitual se desfaz, muda de rumo e causa estranhamento não pelas aporias existentes como ainda por sua súbita metamorfose semântica, levando àquela opacidade, àquela conceituação de Mallarmé:
(...) referir-se a um objeto pelo seu nome é suprimir três quartas partes da fruição do poema, que consiste na felicidade de adivinhar pouco a pouco; sugeri-lo, eis o que sonhamos. É o uso perfeito desse mistério que constitui o símbolo; evocar pouco a pouco um objeto para mostrar um estado de alma, ou, inversamente, escolher um objeto para e desprender dele um estado de ama por uma série de decifrações.” (apud Tavares, Hênio, Teoria literária. Belo Horizonte: Editora Itatiaia Limitada, 8.ed. rev. e aum., 1984, p.89).
As múltiplas vozes de espaços e tempos diferentes tornam a poesia de Nathan Sousa um poliedro que, num melting-pot, sabe agasalhar ou recusar todos os caminhos possíveis da poiésis – um desabrochar de temas cruciais e de questões filosóficas, que atravessam rios, oceanos, mares, lagos, continentes do Ocidente e do Oriente e tentam encontrar ressonâncias ao seu canto de pássaro ávido para ao menos tornar o nosso universo mais humano e fecundo, onde o lirismo se faz onipresente mesmo em meio à contramaré da contraditória e tumultuada existência contemporânea na Terra.
 

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

A AGENDA MÁGICA



                                                                                      PARA ELZA



                                         CUNHA E ASILVA FILHO



          Era uma agenda diferente, entre o sonho e o sono. No entanto, tinha algo que me chamava por demais a atenção: a sua brancura, a sua luminosidade  de  forma tão  intensa que doía na minha vista. Era um clarão  como  um olhar um  sol   a pino  num verão carioca  de mais de quarenta graus.   Que agenda exótica! Estava  colocada numa prateleira  de  uma das minhas estantes,  na parte que dá espaço depois da organização dos livros. Em comparação com as outras agendas que tive, ou melhor, que ganhei  de presente (já que, por sinal,   nunca comprei  nenhuma agenda pra mim  na vida) nos dias  festivos de final de ano,  essa agenda era algo quase impalpável.

        Ali estava naquela estante da sala, a agenda impressa (sim, sei que era impressa) que surgiu ali   de repente e se mostrava pra mim  como se fosse uma pessoa  viva desejosa de que eu a examinasse e  a folheasse em cada página   com aquelas  divisões  de praxe: os meses em três  idiomas, os números de dias,   uma mapa-múndi,  uma mapa em que aparecia só  o Brasil verde-amarelo,  os espaços destinados  às anotações  à semelhança de diários,  enfim,  uma agenda  como tantas que   se espalham  por aí, quer nas papelarias,  quer, já compradas,  nos  diversos  lugares  ( ou lares) nos quais por ventura se encontrassem.

     Eu a chamei de mágica  em razão  do inusitado    encontro meu com ela  naquela prateleira   mencionada linhas atrás. Nem mesmo sei por que foi se alojar ali,  com aquele brilho todo,  a luz  intensa, aquele clarão   em torno  dela  ofuscando a minha vista e  ao mesmo tempo   me deslumbrando  por   tê-la encontrado  ali. Como foi surgir ali? Não me recordo   quem pudesse tê-la levado pra aquele  canto  cercado de livros e de lindas lombadas. Oh, aqueles livros queridos e amados por toda a vida! Uns dois ou três velhíssimos, do tempo do Brasil  Império.

     Até agora, não posso atinar   quem seja o verdadeiro  dono daquela  agenda  luminosa. Quem seria? Decerto  não era minha. Por que  se exibiu ali  num piscar de olhos? Me lembro de que ainda estava deitndo na cama  de manhã bem cedinho quando me veio  à lembrança  um tanto difusa  a imagem da agenda mágica.   O pior é que, ao lado da agenda mágica, havia uma  impressa bem  simplória, do mesmo tamanho   que teimava em aparecer  ao lado da agenda  mágica. Que confusão  pra minha  mente agora  que agora  não sabe se tudo fora um  sonho ou se era verdadeira, concreta,  aquela agenda ofuscante  de tanto brilho   lembrando   raios laser  cortando, em movimentos pra cima de pra baixo,   o espaço   de uma tela  de cinema.

       Não nego que  gosto de agendas impressas,  da mesma forma que ainda  me fascinam  os cartões de Natal  impressos  e com belas mensagens  de final de  ano. Tenho  várias  de diversas épocas, todas  anotadas  com certa  confusão  espacial  e  falta de cronologia. Nuca fui uma pessoa muito  organizada  com  papéis e impressos. É defeito de nascença.  Não tem  jeito de consertar.    Por outra lado nunca me atraíram  as agendas  eletrônicas. Tenho-as no  meu celular, no meu computador,  porém  ali ficam   virgens pra sempre.

     Volto para a agenda mágica, junto daquela outra impressa,  cuja presença não sei  explicar.Vejo ambas e não  sei por que  insistem  em  se mostrarem  uma ao  lado da outra. Levanto-me da cama,  vou direto à sala. Qual não foi  a minha surpresa! Vejo que só  a agenda luminosa  se encontra na prateleira.

         A outra que   aparecia junto dela  se evanesceu. O que eu pensava que era a verdadeira  não era. Nem parecia somente uma ilusão de ótica.  Entretanto,  a agenda mágica ali estava me atraindo pra junto  de si, como a me pedir que a examinasse toda,  em todos os seus   detalhes: a textura do papel,   a cor  da página,  os números,  os meses, os anos,  os outros  itens  comuns  a uma agende que  se preze. De inopinado, tive a sensação de que aquela agenda  era minha. Mas  quem  a deu pra mim? Que eu me lembre, ninguém  me falou  que  era um presente de um amigo,  de um filho, de um parente,  de um não sei o quê. Ora,  essa sensação de que aquela magia de  agenda  fosse minha me exultava, me deixava mais leve,  menos tenso. Sim.  Seguramente  era minha, sim.  

  Comecei a examinar  novamente  todo aquele encanto e formosura de agenda.  A luminosidade   quase a  me cegar os olhos  curiosos  e  ávidos  de   ter a certeza  de que  era minha e de não  mais ninguém.  Quando  me levantei da cama e  fui pra sala, não havia nenhuma outra pessoa  já acordada. Todos ainda dormindo  naquela  manhã que mal  iniciava. De repente, alguém  veio por detrás de mim e disse:  “É minha.”     

           

domingo, 16 de dezembro de 2018

CRIMES NA CATEDRAL : MIMETISMO IANQUE?


CUNHA E SILVA FILHO
Não é esta que lhe estou agora escrevendo uma crônica-reportagem nem colhi tampouco dados mais consistentes e de natureza policial-investigatória. O que me chamou a atenção de observador para os crimes da Catedral em São Paulo pelo menos, duas coisas básicas: 1) o inusitado do lugar do crime horripilante; 2) uma associação que faço no que diz respeito à poderosa influência que os países hoje sofrem do mundo civilizado e do mundo bárbaro.
Sempre tenho meditado muito sobre assassínios cometidos, sobretudo no EUA, com matadores bem armados que, de repente, chegam a um local e começam a atirar em pessoas inocentes, sejam crianças, adultos, adolescentes, idosos, pouco importa. O palco do crime vira uma tragédia sem proporções e ganha manchetes pelo mundo afora. O mais terrível: o culpado comete suicídio e reduz todo poder de punição legal a nada. Só restam mortos, inocentes e, geralmente, um culpado. O ato insano, abominável vira metafísica para filósofos farta matéria investigações e pesquisas de psiquiatras, psicólogos, sociólogos e antropólogos.
Óbvio que crimes hediondos sempre houve na Humanidade. Os EUA nem se fala. Tanto assim que lá o cinema americano é muitíssimo fértil na produção de filmes de horror, de crimes inimgináveis, tanto por cineastas menores quanto por gênios como o emblemático Alfred Hitchcock.
Uma hipótese minha e que venho há algum tempo amadurecendo é que o fato de uma civilização centrada cada vez mais no locus urbano e num mundo globalizado e virtualizado com crescente aumento de tecnologia e sofisticação de modos de vida e de automatismos tende a exercer uma forte influência deletéria na psique do ser humano, principalmente de indivíduos muito inclinados, seja por tendência inata de desarranjo mental, seja por outros motivos inconfessáveis, a partirem para maquinar atos diabólicos contra inocentes e indefesos. O caso desse homem ainda moço em São Paulo seria um paradigma desse tipo de gente com potencial para atitudes brutais e letais. São verdadeiras armas humanas a serviço de um cérebro estiolado e talvez até sem cura por parte da Medicina, porém que pelo mens poderiam ser tratadas pelos órgãos de saúde do país. O que não pode é ficarem livres nas ruas com um perfil desses de estranhos hábitos. Esse foi o caso do atirador da Catedral.
Outra circunstância reveladora é que o atirador que mato quatro ou cinco pessoas, consoante demonstraram as investigações policias e divulgadas pela imprensa escrita televisa e nas redes sociais, era um criminoso anunciado dado que, em casa e recluso no seu quarto, usava como divertimento, ou não, jogos eletrônicas, desses que mostram ao usuário como atirar em seres humanos aleatoriamente – é isso mesmo o que quero dizer.
Ora, esse tipo de jogos, nas mãos de psicopatas, pode ser uma prévia de futuros atos criminosos por parte de doentes mentais não tratados. Cumpre repensar até que ponto esses jogos eletrônicos podem estimular ações violentas e crimes macabros. No entanto, vejo com preocupação esse tipo generalizado de brincadeiras virtuais de matança indiscriminada. Os multimilionários fabricantes desses gadgets deveriam pensar duas vezes com o que podem provocar de pernicioso e de deformação de personalidades nessa meninada que se utiliza desses jogos banalizadores desse valor inestimável e sem preço, que é a vida.
Observe-se, ademais, o fato sinalizador de que o atirador em casa parecia ter o costume de fazer anotações, formulando, na loucura de seu conturbado mundo interior, possíveis planos de cometer uma agressão inaudita e trágica. Ele estava seguramente, por conta do seus delírios alucinatórios, pronto a perpetrar um crime ominoso como o fez ao final Tudo aponta nessa direção, nesse comportamento doentio nesse ensimesmamento, nesse isolamento, nessa vida antissocial, reclusa, na solidão trágica dos alienados.
Essa barbaridade não será certamente a primeiro nem a última de que temos notícia aqui e no exterior, sobretudo nos EUA. Mais uma vez, estou pronto a repensar os meus conceitos sobre o uso indiscriminado de armas de fogo no meu país, porém deixarei para um outra ocasião esta questão espinhosa e altamente polêmica.

Gosto
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segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

O AUTOR E AS GRALHAS






                                            Cunha e Silva Filho



                Alguns escritores nem querem ouvir  falar  em gralhas, essas coisinhas  tipográficas   que saem da impressão  de um livro  para atormentar  ou mesmo  atazanar  a vida dos  autores. Contudo, elas existem  e como! Nuns mais que em outros. Colegas de atividade da escrita me falam  que não devo  me preocupar tanto com  esses indesejados  defeitos, os quais de resto, já vêm de longa data.

               Do tempo das impressões algo medievais, da preparação impressa quase manual dos velhos  jornais  até chegar aos  linotipos,  que havia no interior, nas redações dos jornais provincianos, no meu caso,  os jornais de Teresina dos anos 1950. Certo é que jornais havia  no meu tempo de menino  quando ia à Redação do jornal  O Dia,  de Mundico Santilho, pegar uma prova de artigo de meu pai a fim de que, em casa, ele corrigisse  à mão  os erros e, depois, levasse de volta para a Redação. Quantas vezes não  apanhei  na Redação desse jornal  artigos de meu pai! Na época,  não me interessava  pela leitura de jornais, coisa  que  só vim a fazer lá pelos  14 anos.

              Me pai era rigoroso  demais com os erros de  impressão e, mesmo  assim, se queixava de que, ao sair  o jornal  para circulação, ainda encontrava gralhas. Não tinha jeito. Um diplomata brasileiro chegou  uma vez  a  afirmar que em seus livros publicados por  editoras  de prestígio,  sempre encontrava erros  de digitação,  mesmo depois de uma, por assim dizer,  rigorosa revisão feita.

             Ora, isso me leva a  mencionar  a seguir trecho de Monteiro Lobato (1882-1948) citado  por um dos  melhores ficcionistas regionalistas   de Santa Catarina, o Enéas Athanázio. No trecho, Lobato  alude à agonia  de autores diante de  erros  de revisão,  dessa maneira   definindo-a exemplarmente:   “A luta contra o erro tipográfico tem algo de homérico. Durante a revisão erros se escondem. Fazem-se positivamente  invisíveis. Mas, assim que o livro sai, tornam-se visibilíssimos sacis  a nos botar a língua em todas as páginas, Trata-se de um  mistério  que a ciência ainda não conseguiu decifrar.” 

            Tudo o que  expus linhas atrás   se prende ao fato de que, na minha produção  publicada, que  é pequena, mas  a não publicada  em livro é bem maior, três de quatro livros meus  tiveram um só edição até hoje que não me agradou por inúmeras gralhas  e outros defeitos   de edição, não só por minha culpa, mas por culpa do editor. 

            Entretanto,  posso lhe afirmar, leitor, que toda essa produção editada já passou agora pelo meu crivo de revisão  escrupulosa,  malgrado aquela certeira    observação de Monteiro Lobato.

            Não concordo com aqueles  que julgam  os autores pelos erros tipográficos de sua produção. Um bom autor vale mais do que um mau autor com livros publicados  em edições  limpas de  gralhas. Não se  deve medir a   qualidade de um livro pelos erros tipográficos  da edição.

           O valor  da obra  vale pela  elevação  e a densidade de pensamento, por  sua originalidade, por seu alcance  logrado numa determinada  área do conhecimento,  pelo que a constitui  nos seus  componentes literários, estilísticos, expressivos,  intrínsecos. O bom leitor de obras literárias  ou de  outra natureza  está mais  interessado é na substância   do livro, não nas suas exterioridades  e adereços.       

          Quem pensa que um autor  seja  avaliado  pelo número de erros tipográficos  contados  pelo leitor  está equivocado,  porque o leitor perspicaz, tolerante,  como deve ser um bom leitor,  conhece  uma obra  boa ou ótima ainda que com falhas  tipográficas  e sabe distinguir entre a aparência   de qualidade de um livro  da essência da sua  qualidade. Portanto,   um autor não vai se queimar junto aos seus pares ou  fiéis leitores somente por  ter falhas de revisão mais escrupulosa.

            Lima Barreto (1881-1922) foi, por algum tempo,  criticado  por ser negligente com a  sua linguagem literária, o que,  na realidade,  não passava de estratégia do autor de um discurso ficcional  moldado às característica  não alinhadas  a uma   linguagem literária  sequestrada e desgastada   já à altura do que  se chamou Pré-Modernismo. Os críticos da sua época não souberam em geral  reconhecer-lhe  os méritos  de grande prosador  e inventivo  ficcionista da realidade dos mais humildes e injustiçados, ou seja, da voz e da linguagem  dos oprimidos. A conquista de seu real  relevo como ficcionista  só lhe veio mais tarde e sobretudo  graças aos críticos  e ensaístas brasileiros  das gerações mais recentes.   

            Enfatizo, por fim,   reafirmando que  os  bons autores,  os críticos, os ensaístas, sejam de que gêneros literários forem,  serão, sim, julgados e  avaliados pela grandeza  das suas obras, não pelas gralhas de sua produção  editada.

domingo, 18 de novembro de 2018

NO FACEBOOK: ENTRE O COMENTÁRIO E O ARTIGO




                   

                                                                       Cunha e Silva Filho





             Habituado que fui, desde adolescente,  a escrever em jornais de Teresina,  mais  do que receber feedback  ou comentários por escrito do tipo dos  que  hoje se fazem,  sobretudo no  Facebook,  não ignoro o fato de que, nas redes sociais de  tempos  de intensas   e velocíssimas  virtualidades, ainda sinto um certo  incômodo  ou mal-estar com algumas reações  de usuários  intempestivas e nada civilizados. Vemo-nos  agora amiúde com uma desvantagem, a de sermos  por vezes alvos de comentários  desairosos,  repugnantes e pernósticos, partidos de qualquer  indivíduo desconhecido.     

          Ao passar  por aquela  antiga experiência de jornal que, de ordinário, é  mais  independente e muito menos exposto à  pluralidade de público-leitor, percebi um sinal  de iminentes ameaças e verifiquei  que,  nas redes sociais,   o alvo é mais vulnerável se não observarmos as devidas   precauções.                    

        Na experiência do Facebook,  rede social a que já me ajustei em alguns aspectos da comunicação  instantânea e ao mesmo  tempo efêmera, por umas  três  ou quatro vezes me defrontei com  pessoas,  por exemplo,  do universo acadêmico brasileiro que adentraram  a minha página do Facebook e tentaram me  desancar até  do ponto de vista  intelectual, ou seja,  perversa e gratuitamente, sem demonstrar o mínimo senso de ética profissional. Tal foi  o caso de um tal de  Pós-doutor Camilo de não sei das contas.

        Procurou me desqualificar   esse mentecapto  de Letras Falidas e Hipotecadas do invólucro  de conhecidos feudos universitários  desalojados de humanidade (máxime da vocação para as  Letras, campo da sensibilidade exigida pela própria condição de servidor das Letras)   e de respeito aos pares  que não se alinham às suas  preferências  e gostos   literatoides e teoricatras. Vade retro,  capadócio da contraliteratura  e dos sentimentos invertidos e avessos  do seu caráter   crapuloso de  docente do ensino superior   de um anônimo campus universitário dos rincões  baianos possa  exibir  

        A esse tipo de cafajestismo de “qualificado” professor de universidade pública, o meu repúdio  veemente e a minha  consciente constatação  de que não passa de um  mestre-escola de fancaria,  um mero copiador de  papel carbono  do mais abastardado  valor  moral e ético.

       O pior é  que um energúmeno desses anda praticando desmandos no domínio da Literatura e da Linguagem. Indivíduos desta laia somente merecem  o desprezo  e  os açoites devidos ao mau-caratismo do qual esse pulha perfila um paradigma de desrespeito  à sua própria classe. Diria dele como faria esse guru da alma humana, o chamado Bruxo do Cosme Velho, através da boca de um dos seus personagens: ”Que a terra lhe seja leve.”

           Depois dessa digressão que não podia silenciar, volto ao centro semântico  deste artigo. É preciso diferenciar  o comentário de um usuário-escritor de um artigo  por ele  escrito no   espaço de um  jornal,   revista,  livro.  O primeiro expressa apenas um reação intelectiva  espontânea, mas quase sempre  pouco densa;  o segundo,  é uma escrita de caso pensado, um vontade  de desenvolver com mais fundamento um determinado tema que necessite  de mais elevado   tratamento de linguagem e da maneira de aproximação do tema a ser abordado.  O comentário usualmente é feito  com menos rigor, mormente por ser  fruto da impulsividade de,  num átimo,  ser alinhavado no espaço vertiginoso   da página do Facebook. 

          Por outro lado, no tipo de escrita como é o comentário  feiciano, da mesma forma não se pode negligenciar certos princípios básicos de redação: correção gramatical (ortografia,  concordância, uso da crase, regência,   pontuação,  uso do hífen etc.),   cuidados com  a coesão e a coerência  textuais e, finalmente, revisar o que ficou  impresso antes  de clicar o “enter.”

          No artigo, o usuário da língua, ao se dispor  a escrever acerca  de um assunto relativo  à natureza de seu texto, deve observar com extremo cuidado  o seu repertório  de conhecimentos, a consulta  a fontes, a verificação  dos dados referenciais, o seu   estilo  de escrita, a contribuição pessoal  a ser incorporada  ao texto e uma maneira toda particular de captar a atenção do leitor e seduzi-lo a dar continuidade à leitura do seu texto.

         Portanto,  no comentário, a ênfase dever ser posta na página  virtual com elegância, apreço a quem se dirige o seu comentário, sem o vezo de sofomania tão  encontradiço   nas pessoas  pernósticas. Mais: respeito  à inteligência  alheia, sem o recurso abominável  de uma mente estiolada pela  ausência  de  ética  e de acato ao  pensamento alheio dissonante. Uma  outra boa dica ao usuário do Facebook: ao ser atacado verbalmente  por um conhecido ou  estranho, o primeiro passo deve ser o do bloqueio do intrigante e a sua eliminação  sumária  da lista  de amigos ou conhecidos.

      Essas ponderações que estou  fazendo aqui nasceram de experiências desastrosas por não haver selecionado  com critério as pessoas  que me  permiti serem  arroladas à minha  lista de amigos feicianos.Por não ter eu me acautelado a fazer essa seleção, por algumas vezes  me tornei vítima de maus usuários ou até mesmo   por usuários  que julguei serem  meus amigos. Com uns pouco encetei breves polêmicas que reusltaram no  aumento de desafetos que venho infelizmente   colhendo, até de conhecidos ou daqueles que se rotulavam meus amigos. Só com o sofrimento e a experiência, passamos a separar  cautelosamente o joio do trigo.

      Para finalizar este texto, eu diria que preferencialmente me sinto mais à vontade quando  escrevo meus artigos ou outros  tipos de textos improvisados inerentes ao comentário – uma espécie de composição escrita sob   o   calor da discussão desencadeada por um  primeira e ligeira leitura, ao contrário  do artigo, deliberadamente  amadurecido  e mais alicerçado  nas ideias  expendidas.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

COMENTÁRIO-REFLEXÃO SOBRE ESQUERDISMO E DIREITISMO NO BRASIL E NO MUNDO

                                                                                     CUNHA E SILVA FILHO
           Meus estimado amigo, V. afirmou tudo de forma clara e convincente, até ricamente fundamentado nas duas principais vertentes político-ideológicas, ambas nocivas à continuação da espécie humana: a Direita fascista e a Esquerda cavilosa e assassina (basta, entre outros, o exemplo do stalinismo). 
        Tudo bem: quero registrar aqui o meu sentimento de profunda aversão e repúdio à direta - cancro sanguinolento do fazer histórico pela supressão de vidas. Entretanto, não podemos esquecer de que a esquerda, ou melhor, a práxis do comunismo ( não os princípios do marxismo autêntico) não fica atrás na sua selvageria e no seu repugnante modus operandi de governar os povos, a começar dando apoio bélico a países cujos autocratas têm perpetrado os mais infames assassínios da contemporaneidade. 
       Haja vista o emblemático apoio bélico dado pela Rússia ao genocida Bashar Al-Assad. Outra coisa a considerar: tanto a direita perversa e covarde quanto a esquerda abolem aquilo que é mais caro ao espírito dos homens : o amordaçamento do livre pensamento. 
        Só isto é suficiente para abalar qualquer tentativa de viver humanamente, quer dizer, sem ter liberdade de ir e vir, sem ter liberdade de pensar, de escrever, de divergir etc. Independência e pensamento dialético seriam impossíveis à bem-aventurança na sociedade humana. 
        Se o Brasil fosse governado discricionariamente, ou por regimes de força, como foi na ditadura militar-civil de 1964 a 1985 e em outros tempos sombrios da ditadura varguista (Estado Novo), por exemplo, não estaríamos aqui com liberdade de falar, escrever, opinar, contraditar, argumentar, xingar mandatários, juízes, instituições governamentais etc. como, repito, estamos fazendo agora., pois a censura desses governos de exceção nos obstaria a tudo isso e ainda nos mandaria para a masmorra, ou mesmo para o pelotão de fuzilamento, esquadrões da morte, ou outras práticas hediondas de ceifar sem julgamentos e conformidades legais, vidas e esperanças de felicidade. 
       Estes são, entre outros a que aqui não desejo me estender, os motivos mais candentes para que eu abomine tanto o Fascismo quanto o Comunismo. Forte abraço do amigo Francisco da Cunha ( Cunha e Silva Filho)