sábado, 30 de setembro de 2017

ALOCUÇÃO PRONUNCIADA NA ACADEMIA BRASILEIRA DE FILOLOGIA




                                                              Cunha e Silva Filho


                                         



         Hoje, às 14:00h, numa tarde meio chuvosa, na Academia  Brasileira de Filologia, situada  numa das dependências da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ),  fui empossado na cadeira nº  30, antes ocupada pela Professora Doutora Maria Antonia da Costa Lobo, cadeira cujo  Patrono é o  Professor Candido Jucá,  e que tem  como  antecessores  os  eminentes professores Candido Jucá (filho) e Jayr Vasconcellos Calhau.
       A ABRAFIL, como é abreviadamente  conhecida, é   uma das mais  importantes  instituições  culturais  a serviço  dos estudos  e pesquisas  de Filologia,   Linguística e Língua Portuguesa do país  e foi fundada em 26 de agosto de 1940, numa reunião composta por 30  estudiosos da língua  portuguesa. Esse primeiro encontro naquele  já distante ano aconteceu numa das salas do Colégio Militar do Rio de Janeiro. 
       Atualmente,   consoante ocorre com outras academias, a ABRAFIL  se constitui de  40 membros efetivos  e vitalícios  com seus correspondentes  Patronos. Ademais,  ela mantém  um Quadro Especial de Membros  Honorários, os quais, antes,  já  haviam a ela  pertencido como membros efetivos e vitalícios
     Na composição da mesa estavam presentes  o Professor Doutor Amós Coelho  da Silva (Presidente da ABRAFIL) e o Professor Doutor Manoel P. Ribeiro, a quem coube dirigir a sessão. Segue abaixo o meu texto:



Estimados acadêmicos:


      Antes de tudo, quero  de coração agradecer  aos ilustres confrades  e confreiras   da Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL) que me honraram, no escrutínio,  com a escolha do meu nome a fim de  que  pudesse  ser o sucessor da cadeira nº 30 que tinha como  ocupante a distinta  Professora Doutora Maria  Antonia  da Costa Lobo, prematuramente   falecida, porquanto ainda  tinha muito  o que dar de si como estudiosa das questões de linguística e de filologia  portuguesa. Além do pesar por sua repentina ausência do nosso convívio,  a estudiosa era minha amiga  de muitos anos.
      Ao adolescente do final dos anos 1950 e princípios dos anos 1960,   jamais passaria a ideia de que,  um dia,  seria galardoado com o privilégio   de ser membro da Academia  Brasileira de  Filologia. Naquele  dia em  que li, num  capítulo do compêndio de Língua e Portuguesa de Modesto de Abreu em coautoria com Enéas Martins de Barros, destinado as cursos científico  e clássico, informações  sobre a fundação da Academia Brasileira  de Filologia, sobre seus objetivos   culturais voltados  para os estudos de  língua  portuguesa e de filologia, reparava atentamente nos  nomes dos  patronos e membros ocupantes,  então,  das  quarenta cadeiras (inclusive de um dos autores  daquele mencionado compêndio  didático, Modesto de Abreu, de quem li  algumas obras  importantes.
      É claro que, em conversa com meu pai,  ele costumava falar-me de nossos  grandes  filólogos  e gramáticos  bem antigos, como, entre outros,  Mário Barreto, Carlos Góis, Eduardo Carlos Pereira,  Otoniel  Motta,  Laudelino Freire, Carlos de Laet,  Rui Barbosa, Ernesto Carneiro Ribeiro, Said Ali, Antenor Nascentes, João Ribeiro, algumas obras dos quais  ele possuía em sua  biblioteca, em Teresina.
    Ora, sempre  tive em casa  a presença de obras filológicas, gramáticas normativas,  gramáticas históricas, de sorte que o adolescente  ia-se  familiarizando  com  elas, assim como  com a saudável  mania de ler dicionários  de línguas, como  os de português,  latim,  inglês,  francês. Por isso mesmo,  é que,  vindo para o Rio de Janeiro estudar medicina,  logo  me afastei dessa ideia  e resolvi   cursar Letras na  famosa Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, hoje UFRJ. Desse fascínio não mais me afastei e faria tudo de novo se me perguntassem  hoje. Parte dessa passagem de  minha vida  narro  no meu livro de memórias, de título Apenas memórias ( Rio de Janeiro: Quártica, 2016).
   Não tive  tempo para  pesquisar  sobre o patrono  da cadeira nº 30,  o acadêmico Candido Jucá. No entanto,  cheguei a conhecer pessoalmente o filho dele, Candido Jucá (filho), douto  estudioso  de língua e literatura  portuguesa, autor de valiosos livros didáticos  e de estudos  fundamentais  no campo  filológico,  alguns deles  lidos  por mim. Conheci-o  uma vez, à noite,   quando fui, na companhia de outros jovens  estudantes secundários,  pela primeira vez,  assistir a uma conferência,  antes mesmo de ser estudante universitário,  na Academia Brasileira de Letras. A conferência versava sobre   o capítulo 63, do romance Esaú e Jacó, de Machado de Assis.
        Naquele mesmo  local,  tive o prazer de conhecer, além do  citado professor Modesto  de Abreu, já cego, uma  pessoa  simpática e educada, que estava acompanhada de um  familiar, o gramático e filólogo Arthur de Almeida Torres, igualmente bem receptivo à mocidade e o historiador  e grande orador  Pedro Calmon, membro  do Petit Trianon. Este último,  pessoa  polida e de  trato  agradável, olhando para nós, falou-nos  com entusiasmo: “Esta é  a geração  futura.”    
        Do  segundo ocupante da cadeira nº 30, o filólogo Jayr Vasconcelos Calhau,  em síntese, diria que foi  um  estudioso  da língua  portuguesa, do latim, cuja obra talvez mais destacada, segundo o professor Horácio Rolim, foi um estudo sobre o eminente  filólogo  Clóvis Monteiro, intitulado Clóvis monteiro e a filologia portuguesa (1974), com o qual obteve o grau de Doutor e Livre Docente pela PUC do Rio Grande do Sul.
      A terceira ocupante da cadeira nº 30 foi a Professora  Doutora Maria Antonia da Costa Lobo. Após  concluir seu  curso de licenciatura em  Português-Literatura nas Universidade Gama Filho e na  Sociedade Universitária Augusto Mota (SUAM) e em Francês pela Universidade de Nancy e complementação na Universidade Santa Úrsula,  a Professora Maria Antonia não se deu por  satisfeita. Almejava  muito mais.  Incentivada  por professores, como, entre outros,  o Dr, Walter Verga e pelo Professor Dr.  Antonio Hauila e principalmente a Professora Maria  Aparecida Lino Pauliokonis e Luis Marques de Sousa,  que nela perceberam   forte potencial  para avançar  no campo do magistério  superior de Letras. Maria Antonia  matriculou-se no curso de Atualização, em 1987,  da Faculdade de Letras da  UFRJ. Posteriormente,  fez o curso de Mestrado e Doutorado pela mesma  Universidade; no Mestrado,  defendeu a Dissertação  sob o título Meios e instrumentos de transporte: uma abordagem onomasiológica e, no  Doutorado,  defendeu, no ano  de 1997, Tese  nas áreas de Linguística e Filologia Românica sob o título Chão de ferro: a gênese textual de uma obra de Pedro Nava, numa abordagem de crítica genética.
Nesse estudo recebeu  nota  “Excelente.”
     A Dra. Maria Antonia lecionou  na rede municipal  do Rio de Janeiro, na Universidade Estadual  do Rio de Janeiro (UERJ), na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na  Universidade   Castelo Branco (UCB), da qual foi, durante um período,  Coordenadora  do Curso  Letras. Foi nessa função que, pela primeira vez e graças ao seu  dinamismo  e profícuo trabalho de Coordenação, que conseguiu, decerto com o apoio do então Diretor  do Centro de Ciências Humanas, Professor  Reinério Luiz Moreira Simões, ver realizada a publicação de uma  revista  semestral do Curso de Letras, com o sugestivo título Itinerarium, que, pela qualidade  e alto nível de seus  textos,  prometia  ter  outras edições. Ao que eu saiba, só tenho notícia  do 1º número de estreia, Ano, jul/dez. de 1999. 
     Maria Antonia, a par de inúmeros artigos,  comunicações  de congressos nas áreas de Linguística,  Filologia   e Língua Portuguesa,  nos legou  trabalhos  como Conservatória, uma topônimo na unicidade, As relações sintáticas, semânticas e pragmáticas: uma aplicação (edição do autor, 1993, 51 p.), Discurso: um problema de busca, seleção, ordenamento, arranjo e intenção (Itinerarium, op. cit., p. 46-47.Riode Janeiro. Faculdade de Letras,  Universidade Castelo Branco).
      A Professora Maria Antonia, segundo me informou,  estava há algum    tempo escrevendo um ensaio sobre a linguagem do compositor Noel Rosa. Entretanto,  sem haver lido grande  parte da obra por ela deixada,   e me apoiando na leitura de sua citada  obra, As relações sintáticas, semânticas e pragmáticas: uma aplicação, é  possível  tirar uma  ilação: seu interesse de filóloga seguramente a levava  também aos estudos linguísticos.          
     Por conta disso,  igualmente,  sua grande acuidade e mente  especulativa a meu ver,  por força haveria, como complemento de sua formação  intelectual, de direcioná-la  aos modernos estudos de linguística   textual,  análise do discurso, gramática textual,  tanto quanto  outros colegas   que enveredavam por esses domínios  dos estudos  da linguagem, muito deles até provenientes da área de literatura. 
     Espírito  afinado com um pensamento  lógico, para as minúcias   do desvelamento    da compreensão e análise  do discurso não só  o de viés  referencial, do âmbito da  propaganda,  da publicidade, da mídia escrita,  quer dizer, , tanto quanto o da linguagem   técnica, donde se pode entender  sua atividade  de tradutora técnica exercida durante  bom tempo.
    Tenho informação de que  Maria Antonia  foi muito firme ao lutar  pela  autonomia dos estudos filológicos, os quais não  considerava  que poderiam ser  subordinados  aos estudos  linguísticos. Não concordava, no tocante  às divisões de áreas no curriculum de Letras, que a filologia  se tornasse uma sub-área dos  estudos  linguísticos, os quais  tomaram  vulto  desde o surgimento  do estruturalismo  no país na década de  1970.   Por esses e outros argumentos  não arredou  pé  da grande  prevalência que  dava à filologia românica, por exemplo.   
    Isso  já é suficiente para que  essa estudiosa,  tão amiga dos dicionários,  seja reverenciada   pelos seus pares   da Academia Brasileira de Filologia,  instituição científico-cultural  que soube  dignificar e da qual  fora  admiradora  até ao último instante  de sua   produtiva   vida.
  Chego a esta gloriosa  instituição com  um experiência não de um   filólogo,  linguista ou gramático,  stricto sensu, mas de um crítico literário, ensaísta,  articulista cronista e tradutor não profissional. Por outro lado,  a meu favor e talvez por uma dessas boas  coincidências,  tanto no meu Mestrado quanto no meu Doutorado, não descurei da pesquisa  filológica e da linguagem literária, pois no primeiro  destinei um capítulo  inteiro a comentar a origem da palavra “saudade, me valendo sobretudo da  filóloga Carolina Michaelis  e do  filólogo alemão  Karl  Vossler, a par de autores  galegos. Isso para  analisar  o lexema  “saudade” na poesia  de Da Costa e Silva (1885-1950), o famoso poeta  piauiense, autor  do  conhecido  soneto  “Saudade,” que se encontra na obra “Sangue;” no segundo  curso, desenvolvo todo um  capítulo para abordar  a linguagem  criativa   no contista  paulista-carioca,  João Antônio (1937-1996), numa tese   na qual  estudo  o conceito de “malandro” em quatro  importantes contos  do autor.
    Muito mais, meus confrades e confreiras poderia avançar nas minhas preocupações com assuntos  da Língua Portuguesa. No entanto, só desejo, finalmente, expressar o meu contentamento em pertencer a uma instituição nacional de alto porte intelectual, que é a Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL). Espero estar à altura para tão elevado encargo e compromisso no campo do saber humano. Muito grato mesmo.

      

      

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

UMA LUTA DE SÍSIFO




                                            Cunha e Silva Filho


      Se a vida é dinâmica, assim como  todos os nossos atos bons ou ruins,   o estado  de tranquilidade, de paz  e de alegria  é, todavia,  muito precário. Cada dia  tem sua história,   suas lutas, seus descaminhos, suas surpresas. Tudo é incerto,  volúvel, fugaz. E assim também é a Natureza que nos cerca, na qual  nada é duradouro, seguro, estável.  O próprio Universo, segundo os cientistas,  aumenta de tamanho.  A “Canção do Tamoio”("Não chores, meu filho:"Não chores, que a vida/ É luta  renhida: Viver é lutar/ A vida é combate/Que os fracos abate/ Que os fortes, so bravos/ Só pode exaltar"),  de Gonçalves Dias (1823-1864),  também se poderia  aplicar   a esse combate sem trégua entre o homem e a Natureza.
     A história da Humanidade é essa contínua refrega  de perdas e ganhos, talvez mais perdas do que ganhos. Vem-me à mente, guardadas as devidas diferenças, esse descer e subir da imagem mitológica do  rochedo de Sísifo simbolizando,   com propriedade,   as forças físicas  e morais entre o homem e seu meio ambiente, esse eterno   castigo  e  luta para alcançar  um desiderato.  Assim igualmente se poderia  invocar a imagem da Fênix da mitologia grega. Das cinzas, quer dizer,  da destruição,  renasce  a ave   indefinidamente, do mesmo modo que dos escombros  das construções  ressurge o trabalho árduo  e persistente do homem  em prélio contra  as forças naturais inapeláveis   e aquém  dos poderes  humanos.
       A Natureza constrói e destrói ao mesmo tempo. Não tem hora marcada  para que  se revolte contra a paz dela mesma. Assim, se explicam  os caprichos  e a selvageria  que  ela exibe  no que  os ingleses  denominam,  com sentido antinômico, de  acts of God (ações de Deus).
    Os exemplos mais   emblemáticos   da fúria da Natureza contra  a vida e a própria Natureza são os terremotos,  os furacões, os maremotos,  os tsunamis,   os ventos  assassinos  que, de vez em quando,   assolam  regiões diversas da Terra sem dó nem piedade. Nem as criancinhas são poupadas quando esses  flagelos  mortíferos  atacam  as cidades,   os países,  a humanidade. E o pior  e menos consolador  é que  a Natureza não paga pelos seus erros e defeitos. Nem ninguém  é  capaz de  puni-la. Ela permanece  indiferente como a baleia branca do romance Moby Dick de Helman  Melville (1819-1891)). Nada a atinge  mortalmente  quando ela   se manifesta em toda a sua  brutalidade  e crueza contra  nós, pobres mortais, que, diante  da sua ira ciclópica,  nos reduzimos  a ínfimas criaturas   desprotegidas.
   Não há avanço tecnológico e científico que  possa   ombrear-se com a pujança da  sua   destruição. Inclemente,  está  acima dos homens e da civilização. Seu ímpeto  é  destruir,  transformar  prédios, casas,    em pó, detritos, areia, poeira. Tudo vem abaixo na sua passagem  sem freios nem impedimentos, Não pede licença a prefeitos, governadores nem a  presidentes, monarcas e ditadores. Vem arrastando tudo, causando  inundações   e vítimas fatais.
    E, desse modo, foi agora com os furacões Harvey e  o Irma, e agora mesmo, com o terremoto no México, país assentado numa  parte do Planeta onde se concentra  a área mais  sujeita a terremotos.  O Brasil deve agradecer  sempre  à Natureza por não registrar  terremotos. Pelo que sabemos,   aqui  só temos tido  notícias de  tremores de  terra. Entretanto,  inundações de rios são constantes  entre nós e têm trazido muitas desolações e perdas de vida, infortúnios e pobreza.
    Os acts of God provocam  não só devastações e tragédias   humanas, mas também  prejuízos  financeiros incalculáveis. Atingem  pobre e ricos e nisso são democráticos. Mas, é claro que  os pobres são os que mais sofrem  com esses flagelos naturais. 
     Muita gente  atribui   a esses  males da Natureza  aos homens e suas maldades e neles veem  um recado  profético do Criador   dirigido   às perversidades  humanas  contra o ecossistema, contra  a cupidez   de  ações governamentais  que  maltratam  a  paisagem física, a flora e a fauna, as nossas florestas,  os nossos lagos,   rios,  mares   e oceanos. Espírito predador,  o homem mau se comporta diante da Natureza  de forma prepotente e dela só deseja  espoliar  seus  frutos,  suas riquezas que mais servem  aos potentados de todos os continentes.   
      Poluindo os rios,  praticando desmatamentos,   nos campos  e nas cidades,  o homem  vem se portando  indiferente às depredações que   estragam  as fontes  d'água, matam os rios,   secam as nascentes  nas cidades do mundo inteiro,  poluem o ar que respiramos  com   o veneno do CO2 vindo dos canos de descarga  dos carros, dos fornos das fábricas, das queimadas e vão,  desta forma,  brutal  e selvagem,   provocando  o aumento  do efeito estufa com todas as consequências deletérias  dele advindas e que,  por seu turno,  acarretarão  o aquecimento global  da Terra com forte  influência negativa para as regiões polares, cujo resultado  sãos o derretimento das geleiras, aumentando, assim,  o nível dos oceanos.
       Os organismos  internacionais em defesa  do clima e do meio  ambiente, em reuniões de cúpula, aprovam   propostas  de redução  dos níveis  de  CO2. No entanto,  países mais poluidores do Planeta  ainda resistem  a reduzir suas cotas   de poluição  atmosférica alegando  prejuízos  econômicos ou até  desemprego caso  diminuam os gases  venenosos  poluidores   do Terra.  Ora,  se essa é a atitude de alguns chefes de Estado, depois não venham  chorar  pelo   leite  derramado ao serem atingidos   pelos danos irreversíveis que provocaram e ainda provocam  na Natureza. Cumpre-lhes pensar  no bem-estar  do Planeta e não nos lucros  do capitalismo que, diante  da Natureza bravia, não valerão  um  tostão furado.  Repensar  formas de  preservar  o meio ambiente é uma questão   que deveria ser a pauta  constante  dos organismos mundiais  incumbidos da defesa  da Natureza e  da vida  humana. Nada somos  sem  o equilíbrio  ecológico, sem  os cuidados  que devemos ter  com a terra, a água e o ar.
     Não desejo nesse artigo  esquecer  de  acrescentar  mais um item  para discussão  em  escala global, que  são os testes  nucleares    feitos  por nações   belicosas. Qualquer  pessoa sensata  há de entender que, se os governos   que emulam entre si  pela a soberania  de  possuir  armas nucelares, pensam que estão agindo  corretamente,  estão  redondamente   equivocados.
      Os testes nucleares só  danificam  a estrutura  da Terra, podem  provocar  efeitos  catastróficos, como,  por exemplo, desequilíbrios  nas camadas profundas da Terra,  as chamadas  camadas tectônicas, causadoras  de  terremotos, tremores de terra e outros malefícios. Que esses governos  deixem de esburacar  o Planeta,  seja em testes nucleares, seja  para   extrair  riquezas  que só  ajudarão  no enriquecimentos  de  uma parte  menor  de bilionários   que povoam  os quatro  cantos do mundo.   É tempo de mudar mentalidades tacanhas  que só  valorizam  o vil metal. O planeta Terra está cansado de apanhar como se fora um escravo de tempos sombrios e desumanos que  a consciência dos homens de bem, em qualquer parte,  reprova  e repudia com veemência  e indignação.

    

sábado, 16 de setembro de 2017

FRAGMENTOS DO BRASIL ATUAL



                                                                Cunha  e Silva Filho



         O país vive  o inferno de Dante (1265-1321). Pode-se olhar para os quatro cantos   dessa terra e dificilmente se poderia declarar que ali reina a paz. Quase tudo é escuridão.  Surge uma paisagem lúgubre lembrando contos terríveis  de Edgar Allan  Poe ( 1809-1849) e de outroa autores do gênero e de tempos diferentes: caldeirões  em ebulição, espetos,  caveiras,  fantasmas,  vampiros,   zumbis, vodus,  névoas, sombras andantes, ossadas,  tumbas, carruagens em disparada  sem cocheiros. Epitáfios,  nos quais  reconhecemos  figuras  tenebrosas  que, no futuro,  viverão   em eterno   sofrimento. Gritos estridentes, capas escuras,  gravatas,   carros de luxo, homens com armas,  aviões federais, prisões provisórias, flashes, notícias escabrosas  na televisão,  trocas de informações e de  insultos nas redes  socais, sobretudo  Facebook, perdas de antigos, amigos por  mera ideologia   oposta a uma outra, prisões preventivas,  prisões mesmo.
       Homens de preto vigiando as noites infindas, ao lado ou atrás de homens querendo esconder os rostos  de vergonha provocadas por inúmeras malversações. Lulismo, dilmismo,  temerismo, o diabo solto da devassidão  da politicalha. O Inferno dantesco ressurreto. Mistura de verdade,  mentira e pós-verdade, contrainformações,  recurso  judiciais.  Réus, réus  réus! A política Brasiliae  em  adiantado estado de putrefação. O Planalto fede. O Legislativo   fede.  Congresso,   idem. Até o  Judiciário  é salpicado  de  suspeitas.  O pais – imenso  lençol  esfarrapado de crimes  financeiros e assemelhados.   
      De todos os lados se  ouvem  gemidos. Num canto aqui e ali, caixas  entupidas  de dinheiro. São milhões  surrupiados  do povo  analfabeto e pobre. Cisões entre pobre e miseráveis. A classe mérdea - este termo não é meu -, é do contista João Antônio (1937-1996), também cindida, meio a meio,  half and half. A classe média alta, continua  pensando nos velhos e novos  tempos, mas  o dólar ainda é forte e exuberante  no Leblon, na Barra,  em New York, em Paris,  em Londres, mesmo  em Brasília, a land dos  homens honestos, probos, plantados, desde os antepassados numa linha cronológica e hereditária manchada de  rapinagem e sem-vergonhice no país tão bem  cantado pelo endiabrado Boca do Inferno.   
      Roubo, Roubo, Roubo, teu limite é a impunidade. Prisão domiciliar, tornozeleira  eletrônica, ah, ah, ah!  Me engana que eu gosto. Que diabo foi  a Lei  inventar  essas formas  de fingir que alguém está preso, quando está  mesmo  é em sua casa. Comendo do bem e do melhor?  Um estado da Federação é  assaltado por um governador  crápula. Povo  engabelado pela insânia  e cupidez  do vil metal: o deus de barro  que povoa a imaginação do capitalismo mundial,  comunismo, socialismo  globalizado cheirando a Wall Street e às Stock  Exchanges dos wheel dealers de todos os tempos, dos  Shylocks  sedentos do sangue, ou melhor,  dos cifrões bilionários   ganhos facilmente mediante falcatruas  mancomunadas entre ladrões capitalistas e  políticos  delinquentes.   
      Procuro, como um Diógenes (412 a. C.- 323 a. C.),  naquela  escuridão, algum Al Capone da sempiterna atualidade  dos bruzundanguenses, cujo ápice mais  acentuado prevaricaçõoes decorreu  nos anos de 2005   a 2018. No passado, na Colônia, no Vice-Reinado, nos dois Impérios,  na República Velha,  na Nova República e  na Novíssima República já existiam muitos  males  político-financeiros, porém não tão  poderosos como  um tsunami de malversações, desídias,  peculatos,  perfídias e  deslavado cinismo. O ladrão chora  e nega que o é, mesmo diante de evidências flagrantes,  investigadas e comprovadas. Chorar é preciso diante de um  quarto  cheio de milhões   em poder de um  conhecido ex-ministro  fortemente ligado a um partido  muito conhecido pelos seus  malfeitos, inclusive com um vice-presidente  que virou  presidente  da República. No entanto, sempre que  tento  acender a lanterna,  esta se apaga, porque naquele Hades só há lugar para  a escuridão e o sofrimento  universal-brasílico. 
       Não há remissão para essa gente que habita  esse reino  eterno da escuridão. Quem ali  permanece, consciente  do que  fez contra  o povo cordial, o povo  ordeiro (ah, como eles apostam  nesse povo ordeiro!),  ficará para sempre presa ao mal que  tanto  praticaram   para a desgraça  de um Brasil varonil. Ali não há diálogo, muito menos  dialética. Não existe  ali diálogo porque essa gente perdeu a capacidade de se expressar na sua própria língua.  Não falam  em linguagem,  em vernáculo, falam em pecúnia, e quanta pecúnia direcionada para tantos às expensas do dinheiro  público!
       Sob a égide de uma suposta democracia,  o país  se habituou às arbitrariedades  de reformas  aprovadas  por político  que não mais têm   o respeito do eleitorado, et pour cause,  não têm mais representatividade   quanto às promessas  descumpridas em eleições ganhas  por força  do poder econômico, cujo defeito  maior foi se transmudar  em  mercadores de propinas entre corruptos e corruptores ou vice-versa,  pois não vejo qual diferença  de maior ou menor grau   de ética e de honradez  entre  um e outro.  São dois lados  em perfeita sintonia e  sentido de reciprocidade.
      A má governança  discricionária temeriana  chega a um  ponto em que o ministro da fazenda congela  os salários dos funcionários federais  por dois anos e, em contrapartida, por ação  pusilânime  e malvada,   permite  que a maior parte dos   produtos da alimentação aos planos de saúde,  aumente  os seus preços⁢, gerando alto custo de vida dosgêneros de maior necessidades: alimentos, remédios,  e outros  produtos.
   Isso é uma ignomínia contra o bolso  já  vazio dos   funcionalismo. No entanto,  como somos um povo  cordial,  bonzinho,  ordeiro,   individualista e salve-se quem  puder,  ninguém  grita,  ninguém clama e nem   os sindicatos   fazem nada por ninguém, mas apenas arrecadam a nossa contribuição para, no caso dos planos de saúde,  em assembleias conchavadas, terminarem  por aceitar  o que a ANS  determina juntamente com  as empresas dos planos de saúde. E, assim,  ficamos  sempre  sujeitos ao domínio dos  conchavos entre o público e o privado sob a chancela  meio constrangida  e malandra  dos sindicatos. Ah, como somos ordeiros para regalo  da política  brasileira!⁢



terça-feira, 12 de setembro de 2017

TRADUÇÃO DO POEMA "NOEL" DE THÉOPHILE GAUTIER (1811-1872)




                          NOËL

Le Ciel est noir, la terre est blanche;
-        cloches, carillonnez gaîment! -
Jésus est né! –La Vierge penche
Sur lui son visage charmant.

Pas de courtines festonnées
Pour préserver l’enfant du froid,
Rien que les toiles d’araignées
Qui pendent des poutres du toit;

Il tremble sur la paille fraîche
Ce cher petit enfant Jésus
Et pour l’échauffer dans sa crèche
L’âne et le boeuf soufflent dessus.

La neige, sur le toit coud ses franges,
Mais sur le toit s’ouvre le ciel,
Et, tout en blanc, le choeur des anges
Chante aux bergers: “Noël Noël!


                      NATAL

No Céu, a escuridão; na terra, a claridade.
Badalai, ó sinos, com júbilos!
Jesus nasceu! –  O rosto encantador a
Virgem sobre Ele inclina.

Não existem cortinas festoadas
Para do  frio  protegerem  o recém-nascido
Tudo ali escasseia salvo teias de aranhas
Nas vigas do teto suspensas.

Essa mimosa criancinha, Jesus,
Treme  na fresca palha.
Na manjedoura,  a fim de aquecê-La,
Resfolegam para o alto   o burrinho e o boi.

No colmo, a neve as franjas dobra.
Sobre o telhado desponta o sol
E, na claridade absoluta,  dos anjos o coro
Aos pastores entoa: Jesus nasceu! Jesus nasceu!⁢

                                                          (Trad. de Cunha e Silva Filho)



                            


                    

sábado, 9 de setembro de 2017

UM ARTIGO SUMIDO QUE GEROU OUTRO

                                                  
                                                                            

                                                                           Cunha e Silva Filho


        Hoje entro na minha intimidade com a parte técnica de  escrever  no computador. Vou logo dizendo, leitor amigo,  que me doeu muito e muito não poder  postar todo um artigo discutindo  o que penso  atualmente do uso da rede social  Facebook. Só sei que o meu texto sumiu  dos meus  arquivos e, entre as coisas que me aborrecem, uma delas é escrever no computador para  meu  Blog e a coisa não dar certo. É ocioso  afirmar que  sou um pobre digitador, um capenga, cata-milho de digitação,  que erra muito e digita rápido. O quer dizer que, nem sempre, rapidez é eficiência.
       Dos meandros  desse aparelho  tão útil  não entendo muito. Para tentar reverter a situação,  recorri até a um amigo que  conhece muito  dessas coisas  ligadas ao computador. Outro amigo,   a quem  relatei o fato,  me aconselhou a voltar a escrever à mão e, depois,  digitar. É uma boa dica, pois há tempos digito diretamente  no computador sem mais  recorrer  primeiro à velha e saudosa escrita manual. Estou até mesmo pensando em  voltar a ela. Passei três dias procurando recuperar meu texto. Até pensei em São Longuinho que me tem,  muitas vezes,   encontrado  o que que perdi. Paciência.
       O artigo perdido tinha o título “Volto ao tema do  Face  e outros pressupostos.” Há algum tempo atrás, escrevi e publiquei no meu Blog outro artigo sobre o mesmo assunto. Mas esse segundo artigo  estava bem melhor, sem modéstia à parte,  e  aprofundava   debates  e considerações em torno do tema. Podia até esnobar que  o artigo  perdido  estava nos trinques e iria dar o que falar.
      Ah, se tivesse  o poder mnemônico do grande contista João Antônio que,  uma vez  sendo vítima de um incêndio em casa,  perdeu os originais do longo  conto “Malagueta, Perus e Bacanaço” e, não desistindo do seu conto comido pelas labaredas, o reescreveu numa biblioteca de São Paulo. Que tento  vitoriosamente  conseguido pelo contista!⁢ "Malagueta, Perus  e Bacanaço" serviu de título a uma coletânea de contos  de  João Antônio, e com ela se estreou na literatura brasileira em 1963, publicação  da Civilização Brasileira, Coleção Vera Cruz,  volume 47.  O conto é uma obra-prima  da literatura  brasileira no gênero. Recebeu  o aplauso de notáveis críticos literários, como  Antonio Candido, Mário da Silva Brito,  Cassiano Nunes,  Malcolm Silverman (crítico norte-americano e grande estudioso da literatura brasileira), Luis Costa Lima,  Paulo Rónai, Alfredo Bosi,  Assis Brasil, Fausto Cunha,  Fábio Lucas, entre tantos outros.
       Não sei se farei o mesmo  com um simples artigo. Vou pensar. Contudo,  lhe aviso, leitor,  que,  pelo menos  para mim,  reescrever  um  texto perdido é uma tarefa  espinhosa. Jamais encontrarei  aquele  tom no qual a  exposição do tema foi vazada. Há, sim, algo de inspiração de mistura com  o espirito  racional no ato da criação de um texto literário.  Algo que no momento  em que escrevemos  vai  despontando em ideias e formas de construção verbal. 
      Aquele desejo de compor, da melhor forma possível, as orações, os parágrafos,  de escolher palavras e  ideias que nos afloram no processo da escrita, vai propiciar-nos o ritmo certo. O enunciado, soma   das palavras, das frases, das orações,  do parágrafo e deste aos outros  parágrafos, no conjunto, forma uma unidade de sentido, a  qual deve estar inextricavelmente    interligada   ao texto elaborado.
       Nada da escrita  é mero  escrever a esmo,  mas um processo  intelectivo em  que  as partes do texto completo,  do princípio (introdução) do meio (desenvolvimento) e do fim (conclusão) são processos  deliberados  onde predomina   a lógica  da textualidade. Contudo, o texto literário  não se exime,  no tempo  final da escrita, de um certo prazer do  dever cumprido com  amor e carinho, com a vontade  insopitável de  transmitir  com sinceridade  os pontos de vista, os argumentos convincentes,  a nossa visão sobre o tema  em exame.  Substantivo, adjetivos, verbos, advérbios,  conectores, preposições, interjeições, palavras de situação, efeitos retóricos,  aqui e alia no texto,   confluem para que  ele seja a melhor parte  de nossa capacidade de realização no domínio  da difícil arte  da escrita.
       Pelo  visto,  como deve ter sido  penoso  e ao mesmo tempo agradável  haver  João Antônio recuperado  todos os passos   da reescritura  de seu memorável  conto. Só a vontade   irrefreável  poderia  levá-lo ao final  de sua empreitada. No tecido  textual  tudo foi  tomado em conta:  os personagens,  o tempo, o espaço, os diálogos,   o desenvolvimento da narrativa,  os recursos  linguísticos,   rítmicos ( no contista paulista,  o ritmo musical, em muitos contos,  é uma  das características  de seu estilo  literário). Ora,  isso tudo  demanda  um  esforço hercúleo  para o trabalho da reescrita.

       O que  se  deve ressaltar  nesse processo de reelaboração de um conto  longo e de alta qualidade  é o fato de que  a sua   segunda escrita  nos permite   aventar uma  hipótese: o contista  deve ter se superado,  quer dizer,  na reelaboração   da estrutura  de sua ficção é bem provável que  a segunda escrita  foi ainda  superior  à primeira tamanho foi o seu  esforço  despendido  no emprego da memória  graças à ideia central do tema,  à construção  de uma escrita,  cujas partes já se encontravam     internalizadas e prontas  a  gerarem  um  reduplicação  do esforço  inicial  primeiro. Mas,  no processo   da  reescrita  lhe coube  também  virtudes  pessoais  para a prática  da ficção e aqui se pode  levantar  uma outra questão: o talento do escritor.    

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

UMA PÁGINA AUTOBIOGRÁFICA DO Pe. JÚLIO ALBINO FERREIRA





                                                                             Cunha e Silva Filho


       Conforme havia prometido ao leitor, vou-lhe apresentar um  pequeno texto   autobiográfico do Pe. Júlio Albino Ferreira. Digo autobiográfico  porque foi  o próprio  autor que, em nota de pé de página do anteriormente  referido livro An English method [1], nos informa sobre a autoria do texto. Segue a minha tradução da narrativa do padre português sob o título “Crossing the Channel”:

                          
                              
                                     Atravessando o  Canal

      
      Era uma e meia do dia 24 de março de 1916 quando parti de Folkstone para Dieppe a bordo do “Sussex.”O mar   mostrava-se mais calmo do que nunca.
   A bordo havia cerca de trezentas almas de diferentes países, América,  Itália, Espanha, França, Brasil e Portugal. A uma distância de aproximadamente duas milhas de Folkstone, avistamos o que restou de um  navio flutuando na água. Um marujo, ao ser indagado sobre o acidente,  informou que um submarino alemão havia sido levado a pique dois navios naquela mesma manhã, mas tranquilizou  os viajantes afirmando  que não havia perigo algum, porquanto o submarino tinha prosseguido em direção ao Ocidente.
       Todos a bordo  acreditaram  no marujo. Penso que,  dez minutos depois, haviam   esquecido o perigo de serem naufragados. O “Sussex” continuou firme no seu curso em direção ao Leste e ninguém avistava nem barcos nem navios subindo ou descendo.
     Às duas e meia desci para almoçar. Na sala de refeitório todos falavam  de negócios ou de coisas insignificantes. Contudo, ninguém  dizia mais nada   sobre os naufrágios daquela manhã.
    Assim que concluí  minha  refeição, subi  ao convés. Deixei  o refeitório às três horas e,  atravessando o setor de bagagens, passei pelo corredor que dá para as escadas. Em seguida, pude ver que a bordo havia escritores,  artistas,  sacerdotes, pastores, irmãs de caridade, capitalistas, comerciantes,  trabalhadores e crianças.
   Quando subia para o convés, ouvi um barulho  assustador, algo parecido com  o ribombar de um trovão, e o navio sacudiu com tal violência que julguei tivesse batido contra uma rocha ou havia sido  arremessado contra um banco de areia.
   Ouviu-se este grito horrível saído da boca  de duzentos  corações: - Naufrágio!⁢ Naufrágio!⁢Todos  estamos perdidos!  Deus,  tende misericórdia de nós! O “Sussex” fora atingido por um torpedo!
   Em segundos,  alcancei o convés. Procurei  por uma bote salva-vidas, porém somente  três haviam sido baixados. Só sobrara um e, ainda assim,  já estava tão lotado de gente que não me atrevi a  entrar  nele.
     Mas... onde estava o resgate que não vinha? Decidi pular para dentro daquele bote. Enquanto me segurava à amurada, alguém, subindo nos meus ombros, saltou  primeiro.
    Entretanto,  seja porque  as cordas estavam inadequadas, seja porque a carga era muito pesada,  uma das cordas rompeu-se e todos caíram no mar.
     Vi uma mãe agarrada ao filhinho, um senhor abraçado à sua esposa, duas  moças segurando-se a uma tábua... e, olhando para  longe, vi cerca de quarenta almas lutando, lutando, agonizadas.
     Cinco minutos depois,  havia apenas quatro homens flutuando.Eles se agarraram à verga do mastro grande da proa, a qual agora nos amparava.
     Era a primeira vez na minha vida  que senti, diante de mim, a presença da morte. Não havia mais esperança e me preparei para  morrer. Ergui a Deus meus pensamentos e comecei a rezar. Todos ao meu redor me acompanharam  nas orações.
    Ignorava se aquela gente  acreditava ou não em Deus. Contudo,   o que podia constatar  foi que naquele momento a bordo havia  livres pesadores. Todos rezavam! Mais ou menos às 5 horas, vimos à distância um navio a vela singrando em nossa direção. E de todos os corações a bordo irrompeu este clamor: “Esperança! Esperança!  Deus, tende  piedade de nós!”
     Durante 20 minutos  fixamos os olhos naquele inesperado  mas bem-vindo navio. No entanto... o navio mudou o curso e desapareceu! Novamente se dissiparam as esperanças!
    A noite desceu sobre nós com sua  escuridão  entristecedora e, para aumentar a  nossa agonia,  o mar começava a agitar-se. Nenhum sinal luminoso vinha da praia... Tampouco algum sinal de outro navio! Novamente, me preparei para a morte.
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   O relógio dava sete... oito ... nove horas. Nenhum sinal de luz se vislumbrava à distância. Quando já eram dez horas, vimos, muito longe,  um navio. Era o “Marie-Thérèse”  vindo nos salvar.
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[1] ALBINO FERREIRA, Pe. Júlio. An English  method.  14th edition. Oporto: Portugal,  1939, p. 370-373). 

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

A CONTRIBUIÇÃO DO Pe. JÚLIO ALBINO FERREIRA AO ENSINO DA LÍNGUA INGLESA




                                                                Cunha   Silva Filho


           Vim a  saber sobre o Pe. Júlio Albino Correia ao entrar em contato com os livros da biblioteca  de meu pai, a qual  dispunha  de um exemplar  de uma  das  inúmeras obras didáticas para o ensino do inglês, An English method, daquele   estudioso  da língua inglesa. Essa era a única do autor  que meu  pai possuía na sua  biblioteca. Ao vir para o Rio de Janeiro, trouxe o volume comigo. Porém, em Teresina,   já otinha lido quase por completo. Concluí a leitura aqui no Rio. O exemplar, em dois volumes num só tomo, que tenho data de 1939, 14ª edição, Imprensa Moderna, Ltda, Porto, 408 p.
         Aquele livro  traz a assinatura de meu pai (quanta saudade ao olhar para a sua letra manual, ainda mais   bonita e firme do que com um pouco de diferença que mostrava  na velhice!⁢Costumava assinar  assim: F. Cunha e Silva. Naturalmente foi  feita no tempo em que  lecionava em Amarante,  no seu  conceituado colégio Ateneu Rui Barbosa. Nas primeiras páginas da lições  elementares,  há marca nas páginas a lápis e umas a tinta, à página 18. Mesmo  dando aulas para o nível primário  e preparatório,  ele ensinava   aos alunos  noções de inglês e francês. Não dominava  o inglês como  o fazia com o francês,  o italiano, que estudara bem  com os salesianos em Niterói e  no Seminário  da ordem salesiana  em Lavrinhas São Paulo. Conhecia bem  o latim, porém  não tenho certeza se dominava o grego.  Mas, voltemos a falar sobre o Pe. Júlio Albino Ferreira e seu An English Method.
         A grande novidade dessa obra era que, já nos anos 1930, o autor  demonstrava  boa atualização metodológica no  ensino do inglês, tanto é que trazia a novidade do Alfabeto Fonético da International Phonetic   Association. Logo no início da obra, o autor informa  que  os sinais do alfabeto fonético  tinham sido  gravados em disco  gramafone pelo  professor  Mr.  John Opie, professor de inglês da Universidade de Coimbra.Era um conquista para aqueles tempos  o ensinar-se inglês com o recurso  do aprendizado do valor  dos  símbolos  fonéticos, tarefa  que de se  ocupa o Pe. Albino Ferreira  a elucidar criteriosamente nas primeiras páginas  da obra.
         Nessas páginas explicadas em português,  o autor inclui exercícios  para os estudantes se familiarizarem com os símbolos  que serão  parte  integral ao  longo  do livro, i.e.,  para cada  texto  de uma lição, ao lado direito aparece  todo o texto  escrito  em símbolos fonéticos.  No início, eu achava  estranhos aqueles símbolos que só  seriam proveitosos  quando  fossem  dominados pelos seus   valores falados  em consonância  com  os sons do fonemas  consonantais e vocálicos.  
        Não dispondo do disco  em  gramafone,  seria muito  difícil  ler  a parte dos textos  em símbolos fonéticos. O curioso  foi que nunca  mais em outro  livro didática  compulsado  por mim  eu via  aqueles  símbolos da IFA. Só, na coleção da série  de livros  do professor A. J. Hald Madsen, American  English Series, revi  o uso dos símbolos  fonéticos. Por sinal,  tive a honra de ter tido o Madsen como  professor de fonética  inglesa na Faculdade de Letras da UFRJ. Já fiz referência a esse ilustre  professor  no meu livro  Apenas memórias ( 1a. ed. Rio de Janeiro: Quártica, 2016,  304 p.).  Madsen era dinamarquês, e fora consultor de língua inglesa no Consulado Americano. Era baixo, atarracado,  muito corado e irradiava  simpatia. Anos depois, em escola municipal,  trabalhei com outro  livro dele mais atualizado  às conquistas da linguística para o ensino de línguas modernas. Já estávamos  atravessando  a época da introdução do estruturalismo,  da gramática   transformacional, da linguística aplicada ao ensino do inglês, de novos abordagens   para  o ensino de idiomas após a fase “translation method,”  do “direct  method” já bastante   empregados  por professores  brasileiros, tendo à frente o Colégio Pedro II (Externato),  o Colégio Militar do Rio de Janeiro e outros estabelecimentos  de ensino privado de ponta.
      O English method do Pe. Albino já se utilizava do direct method misturado,  nas  fases mais  elementares, com o que se denominou de  “semi-direct method.” Este último  utilizava-se da gramática  explicada em português enquanto  o primeiro estudava a gramática explicada em inglês, quer  dizer,  a aulas eram ministradas em inglês, sem o recursos da tradução. A prática oral, da conversação era ainda  reduzida. O velho método da tradução-versão  ia ficando  para trás, embora muitas escolas , durante anos,  ainda empregasse  a tradução  e o ensino de gramática  feito em  língua  vernácula. Os cursos  de idiomas de maior  prestígio, IBEU, Cultura Inglesa,  por muito  tempo  vinham usando a abordagem do “direct method.” Os livros didáticos escritos  por brasileiros ou estrangeiros também  seguiam  esse método, se bem que  de forma híbrida.
     Os dois volumes, num  único livro do  An English method, compreendiam  quatro partes, sendo as duas primeiras  dedicadas ao primeiro volume e as duas últimas ao segundo volume. Somente a partir do segundo volume  é que as lições  são  redigidas em inglês,  ou seja, tanto os textos  de leitura inicial quanto a gramática e os exercícios  de gramática. As dificuldades quanto aos textos e ao estudo gramatical  eram dosadas  desde as mais  elementares até as mais  adiantadas.
      Deve-se ressaltar  a variedade  de textos contidos na obra, que iam de textos dissertativos,  narrativos,  de conversação, até uma soma enorme de textos, sobretudo   poéticos, assim como  adivinhações,  provérbios  humor,  abrangendo um  amplo espectro   de assuntos  da vida cotidiana,  culturais,   históricos, geográficos,  bíblicos (compreensível numa obra escrita por um sacerdote) incluindo  orações  cristãs mais conhecidas,  como rezar o Pai Nosso, a Ave Maria,  a  Salve Rainha,  o Sinal da Cruz. 
      A obra  An English method, ainda naquela época,  marcou a presença de um  grande cultor da língua inglesa, um estudioso  alicerçado na leitura  dos melhores foneticistas, estrangeiros e brasileiros,  como  Daniel Jones, H. E. Palmer, Dr. Isaías A. de Almeida, e Pe, Luiz Gonzaga Van Woesnik. Já nos anos  1930 sabia  valorizar  o conhecimento da fonética  como  da maior relevância a um professor de línguas, conforme podemos  ver na epígrafe  de H. E. Moore abrindo o prefácio do Pe, Júlio Albino  à 14ª edição: “(...)_ and it can be said, without hesitation,   that a non-phonetic   teacher is out of date.” Como lexicógrafo,  seus dicionários receberam   grandes elogios de eminentes professores de importantes universidades, como Raymond Weeks (Universidade de Colúmbia, Nova York), A.C.L Brown (Universidade de  Illinois), Professor C. H.  Grandgent (Harvard University, Cambridge, Mass), Professor Geddes ( (Boston), entre outros.
       Observa-se, no entanto,  que  um volume espesso como o livro em  análise ressente-se de maior  e  melhor organização  na distribuição  de uma gama de  assuntos e mesmo  de certa  redundância no estudo  da gramática que poderiam ser mais   sistematizados e apresentados com maior economia.
      Por outro lado,  vale  assinalar que  obras didáticas da época em que foi escrito o  An English method  repetiam esse mesmo  esquema assistemático e rebarbativo, assim como  também  me parecem  exageros  em alguns  livros didáticos de  línguas modernas atuais a profusão  de  matéria  colorida  na apresentação a dos textos, numa certa mistura  e confusão  visuais que atrapalham, de certa maneira,  a alunos se professores. Isso  é muito comum no  material  de livros didáticos estrangeiros  que empregam  o chamado  “Communicative  approach,” o qual hoje esta prevalecendo.
    Por razões pedagógicas e para fins práticos,  bons autores  didáticos brasileiros escreveram  obras práticas  para o ensino do  inglês e de outras línguas,  à margem  de approaches  linguísticos    de ponta. Preferiram  ensinar  idiomas, sobretudo,  o inglês, usando  do artifício da chamada “pronúncia figurada” ( marked  pronunciation). Assim os fizeram, por exemplo, M. de Oliveira Malta, com o conhecido O inglês tal qual se fala no presente  J. L. Campos Jr.  no livro  How to learn  English (Como se aprende inglês), embora os outros livros  neste último autor já predomine o "direct metod."Não os reprovo por isso,  uma vez que eu mesmo  fui beneficiado  por eles. Se bem que  por tais recursos menos científicos  o aluno   saia falando com  algum sotaque, com o tempo e  em contato com   falantes nativos, irão seguramente  melhorar  o desempenho  oral  da língua estrangeira. Isso ocorria muito  no ensino de línguas no interior  onde o contato  com nativos  era muito escasso, mesmo  para  o professor.
     Hoje, com a difusão  do emprego de  fitas,  discos do tipo em vinil, CDs, vídeos, (antigamente eram os discos   reproduzindo  conversações da língua   falada por nativos), tais   deficiências são  facilmente sanadas, até porque,  com o desenvolvimento  do computador e da internet,  ainda mais  fácil se tornou     o ensino  de idiomas  para todos  o que  amam  aprender  mais de uma língua, além da possibilidade  à disposição do público  de canais de  TV a cabo levando aos lares  de outros países  várias línguas  ao vivo, filmes,  programas  diversos,  notícias. Com tudo isso,  tornou-se mais   fácil  melhorar  o conhecimento de  idiomas  estrangeiros.
     Ora,  acredito que se os livros didáticos  fossem mais   simples na apresentação da matéria a ser aprendida, sem perder a profundidade  e a importância da abordagem, lucrariam muito mais alunos e professores.
   O Pe. Júlio Albino Ferreira nasceu em Portugal em 1868 e faleceu em 1934( breve informação biobibliográfica do Pe. Albino  colhida no Dicionário prático ilustrado, em 3 volumes, Lello & Irmão Editores,  Porto,  1963). Além de autor sobre o ensino do inglês, contando-se 15 obras,  foi  escritor. Suas obras  foram sempre bem recebidas  pela crítica  especializada nacional e internacional, inclusive os dicionários de inglês-português e português-inglês que produziu. Pe.  Albino Ferreira morou  muitos anos na Inglaterra e tornou-se, em Portugal,  um  emérito   conhecedor do idioma de Shakespeare. Na minha próxima postagem,  farei uma tradução de um  pequeno  texto em inglês  do Pe. Júlio Albino Ferreira. Por fim, na minha biblioteca,  consegui  adquirir mais algumas obras desse festejado autor.  Sua validade atualmente  serviria mais a pesquisas   acadêmicas,  com vistas a   estabelecer comparações  entre métodos antigos e modernos na história do livro didático  para o ensino de idiomas no Brasil.