segunda-feira, 17 de outubro de 2016

O HOMOSSEXUALISMO NA LITERATURA BRASILEIRA








                                                          Cunha e Silva Filho


      A questão do homossexualismo na literatura brasileira é tema complexo e altamente polêmico. Entretanto, numa reportagem do Segundo Caderno  do jornal  O Globo 16/10/2016)  o assunto  é tratado tendo como  base alguns escritores contemporâneos (Samir Machado de Machado, Bernardo de Carvalho, Víctor  Hering e Michel Laub que estão  escrevendo  sobre  essa que se poderia já   definir como  uma  vertente ficcional  brasileira  tematizando  histórias (ou estórias, como preferir)) protagonizadas  por  homossexuais, escritas  ou  não  por autores  heterossexuais ou mesmo  homossexuais, assumidos ou não.
     Caberia assinalar que o tema na literatura brasileira poderia  encontrar um  exemplo no período realista, ou melhor,  naturalista,  como  o ficcionista Adolfo Caminha (1867-1897)). com o romance O bom crioulo (1895).
    Paralelamente a isso,  seria igualmente   curioso   acentuar que, na telenovela   brasileira,  o mesmo tema precedeu  o domínio  da ficção, assim  como  no cinema,  e no teatro ao nos depararmos com  novelas  que  têm  amiúde    colocado em cena  personagens  secundários e  mesmo   protagonistas  gays.
    Conviria ainda  frisar que autores há e até ensaísta  homossexuais  que aberta e democraticamente   abordam  o tema   que,  de resto,  jamais  poderia ficar   silenciado  diante das variadas  situações  da condição  humana,  e aí  não se poderia   excluir   a sexualidade e suas  diversas formas de manifestação.
   Do ponto de vista do  aparato teórico sobre a questão  das minorias e  dos movimentos LGBT, já é rica a bibliografia  disponível que tem  levado  em  consideração  com   seriedade  de análises os estudos  avançados  do que  se denominou  Queer theory através principalmente de autores como Eve  Sedgwick, Judith Butler, entre  outros (Cf. CULLER,  Jonathan. Literary  theory. – a very short introduction.  New York: Oxford University Press, 2000, p. 94-107. Ver ainda,   resumidamente,  p. 131-132).
    Estudos  neste campo da investigação  da sexualidade e da marginalidade,  aqui  entendida como  um tipo de indivíduo  desprezado pelo  preconceito  e vilipendiado  pela  sua condição  de ser diferente  em termos  da sexualidade.          
   A literatura  universal, mesmo no século  XIX,  nos deu uma romance no qual  a questão  do homossexualismo  é flagrante,  ainda fortalecida  pela condição de o  autor  ser um  homossexual,  Quero me referir ao romance  O retrato de Dorin  Gray (1890)), de  Oscar Wilde.(1854-1900)),  poeta,  ficcionista e dramaturgo   que,  em plena época vitoriana, engolfada na hipocrisia e no preconceito, foi     perseguido e estigmatizado.
    A ficcionalização  do homossexualismo   em todas as suas formas, a meu ver,   não poderá  cair  numa espécie de modismo  no qual  escritores de talento  se sirvam  do tema  para  fins  de popularidade   ou  mesmo  financeiros  dado que   o assunto, hoje na ordem do dia, termina por  ser uma  boa isca  para o oportunismo   editorial   no país.
     É preciso que o escritor  contemporâneo seja  o mais cuidadoso  possível para não ser  levado  pelo mencionado   oportunismo, quer dizer,  é condição  sine qua non  que o tema  seja  levado  para o domínio  ficcional, não por  qualquer outro motivo   escuso ou apelo utilitarista,  mas por  necessidade íntima da criação literária, através da qual  qualquer  escritor tem de  se posicionar  corajosamente diante  de sua época e das condições   que  a literatura gay  apresenta   como  dado   inapelável. Se  se  transforma em modismo, é bem provável que  o nível  estético  se ressinta  substancialmente.  
   Na citada reportagem,  o jornalista  Bolívar Torres em colaboração com Sílvio Essinger,  lembram que  o  respeitado  ensaísta, crítico literário, ficcionista   e poeta  Silviano  Santiago aduz a um neologismo  que  lhe chamou a atenção  identificado  num artigo que lera   no  jornal  New  York Times.O neologismo  leva o nome de “bromossexuais’que,  segundo  Santiago,  diz respeito a uma nova  e saudável relação entre “homens gays” e “héteros.”
      É curioso  que  essa suavização  das relações entre  sexualidades diferentes se deve aos avanços  alcançados  por  leis  que aprovaram ,  por exemplo,  o casamento  entre  homossexuais (masculinos e femininos) e por outras  formas de abertura da sociedade,  quem sabe,  até modificadoras de mentalidades  recalcitrantes que  não acompanharam  a história  do desenvolvimento da sociedade  planetária  atual.
     As resistências,  presumo, ainda continuarão  enquanto prevalecerem   focos  de  desaprovação  de comportamentos   em face de  interditos   de viés  religioso.O própria  Papa  Francisco   já dá sinais de maior   compreensão aos  problemas  ligados  a opções  sexuais. Já é um salto de qualidade. Qualquer fechamento  a discussões desta natureza   estará  movimentando-se na contramão   das conquistas sociais  e de condições de vida social.
     Não afirmaria eu que seja um  “nova tendência”  essa interação  de sexualidades opostas.  A meu ver,  é a consequência de uma abertura  sem hipocrisia  entre  praticantes de  sexualidades  diferentes, na qual  ganham as duas partes  e da qual  se abre um  canal  de comunicação e  de sociabilidade  sem  as amarras do preconceito e da hipocrisia., dando  um golpe  notável  nas gerações   passadas    marcadas pelo machismo brutal  e  heterocêntrico, anda que persistam, em nossos dias, as discriminações   retrógradas  que só produzem  o apartheid  no esfera da sexualidade.
      É preciso  atingir-se um elevado   senso de discernimento e de desideologição  para nos livrarmos  do malefício  provocado  pela estigmatização das minorias. Para mim, esta é uma vitória sobre a hipocrisia e a ignorância de nossa  proclamada  civilização.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

A VIOLÊNCIA NO CONTO DE MILTON BORGES



                                                                         Cunha e Silva Filho



                        Só conhecia o autor, Milton Borges, dos comentários gerais e breves que lhe faz o poeta, historiador, literário e ficcionista Francisco Miguel de Moura na sua indispensável obra Literatura do Piauí.(Teresina: EDUFPI, 2 edição revista, ampl. e atualizada, 2013, 387 p). O historiador me informa sobre a produção do ficcionista Milton Borges, sobre o prêmio “Fontes Ibiapina” que lhe foi concedido pela FUNDAC (Fundação Cultural do Piauí), pelos romances Destino sobre rodas (2002) e Vale dos mal amados, este último inédito, segundo o historiador. Esclarece ainda que Borges participou de antologias e de outras obras coletivas.

                      Na mesma história de autores piauienses, Miguel de Moura o enquadra no grupo de autores denominados, de modo geral, de “Geração marginal.” Na presente resenha, não é minha intenção discutir esse tipo de classificação geracional. Na obra de Miguel de Moura, logo após considerações em torno da posição de Borges na história da literatura piauiense, o historiador inclui um conto de Milton Borges, de título “ O passeio” (p.263-265) que, de alguma maneira, me permite refletir sobre alguns traços particulares e temáticos da forma de narrar do autor.

                    Não faz muito tempo, em artigo, falei que a literatura piauiense é muito mais numerosa em poesia do que em prosa de ficção. Ora, tal circunstância, por si só, nos deixa mais animado quando mais um ficcionista surge no panorama dos autores piauienses.
                   Este é o caso também de Milton Borges (assim como de outros até mais jovens) que nos surpreende com o seu mais recente livro, Sabor de vingança (Teresina: Editora Nova Aliança, 2015, 173 p.). A edição tem orelhas, de resto, em síntese admirável sobre a obra, de outro ficcionista piauiense bastante conhecido, sobretudo do público piauiense, José Ribamar Garcia. O livro tem sugestiva capa de Ângela Rêgo.
                   Situemos criticamente algumas características evidentes na escrita literária de Milton Borges sem a pretensão de avaliá-lo por inteiro, já que só havia lido o citado conto “Passeio” que, por sinal, abre um flanco para o conhecimento de sua temática e, além do mais, nele pinço uma particularidade facilmente à vista: a tematização da violência e a força do seu diálogo, muito vivo, muito ágil, que me remete de alguma maneira, para uma estratégia de natureza cinematográfica, quer dizer, iniciar suas histórias, em geral, in medias res, e por diálogos que, a princípio, podem embarcar o leitor quanto a saber quem é quem dos interlocutores.
                    Este incipt do ato de narrar ficcionalmente, de representação fílmica ou de telenovela é muito comum na atualidade. Este estranhamento inicial faz, a meu ver, parte do desenvolvimento de uma obra de ficção nestas três formas de representação dramática. No entanto, à medida que vamos lendo o texto ficcional, que é o tipo que me interessa aqui, o narrador nos vai aclarando quem é quem e, desta forma, nos vai pondo diante da identificação dos personagens.
                    Obviamente, este modo de iniciar uma narrativa pelo diálogo não é uma constante única, mas é efetivamente uma das constantes no livro de Milton Borges. Mais ainda, se o diálogo assim configurado não surge no início de cada história, ele é frequente na narrativa de Milton Borges a partir do que constato pela incursão no seu texto.. Por outro lado, o dado digressivo ou descritivo, da mesma forma é utilizado pelo narrador. Entretanto, isso nos leva a uma dedução, Milton Borges me parece dar grande importância à oralidade do discurso .
                A estruturação do seu texto se constrói por uma liberdade que o narrador se permite, observando-se mesmo, em algumas frases, uma forma sintática que nos lembra um anacoluto. Seria nele uma traço estilístico ou uma defeito de estilo? Creio que seja um traço estilístico ou venha desta tendência nele, inconsciente ou como recurso literário, de escrever ficção como se estivesse por vezes conversando. Ou seja, uma maneira de escrita literária que se vale da riqueza da oralidade, no discurso ficcional a fim de mimetizar ao máximo o recurso da verossimilhança, uma aproximação tanto quanto possível do discurso do narrador conectado à oralidade do próprio leitor. Esta estratégia narrativa resulta numa possibilidade renovada de narrar sem as peias de um discurso linguisticamente bem comportado.
              Sabor de sangue, composto de vinte e oito contos, de extensão breve, a maioria não ultrapassando três páginas, é uma outra forma de estratégia narrativa que, de nenhuma maneira, deseja entediar o leitor, uma vez que a trama, a intriga,o desfecho e o epílogo se realizam tecnicamente dentro dos limites da sua brevidade de tempo de leitura, embora o espaço seja diversificado e dinâmico - a cidade de Teresina,  de preferência sua periferia, seus lugares humildes.
              O conjunto de contos gira em torno de um tema, a violência urbana, opção no livro que é explicitamente reconhecida pelo narrador num dos contos, “Um copo de tentação,”(p.133-13) um dos pontos altos da narrativa de Milton Borges. Nesta história o protagonista, Edilson, é uma espécie de símbolo da policial brasileiro às voltas com a sua precária condição de vida, carência de alimentação, baixos salários, falta de preparo para a sua missão de defender a lei, flagrado num instante de fraqueza diante da insistência de beberrões, resultando na capitulação, na prisão dele por embriaguez envergando a própria farda e desmoralizando a corporação a que pertence.
               Sangue de vingança se alinha ao  tipo de narrativa que, nos anos setenta e oitenta, já fizera surgir notáveis autores brasileiros que tematizaram a marginalidade, a violência urbana, como Aguinaldo Silva, João Antonio (1937-1996), Rubem Fonseca, José Louzeiro, entre outros ficcionistas. Com o processo de industrialização crescente por que passava o pais e com o crescimento desordenado das capitais brasileiras, estas se inflaram de um grande contingente de despossuídos do interior dos estados, migrantes que invadiam as nossas metrópoles e as nossas capitais, i.e., inclusive o espaço geográfico de Teresina, onde se desenrola todo o cenário de crimes, do surgimentos do tráfico de drogas e da escalada da violência sem precedente na cidade e, por extensão, no país inteiro.
           O aparato policial ganha destaque nas páginas dos contos. Entretanto, ainda o narrador não problematiza as relações subterrâneas entre a polícia e os bandidos. A presença da polícia é relevante e o narrador mantém com ela um certo clima favorável e compreensivo, não a criticando mas dela dando uma imagem em geral burocrática  diante das dificuldades em lidar com a criminalidade.
           Milton Borges se inclui neste filão de ficcionistas que têm como tema nuclear a exploração, no campo ficcional, de histórias nas quais os protagonistas pertencem à galeria de criminosos e de todos os vícios que apareceram nas urbes, quer nos redutos das favelas verticais (os morros cariocas, por exemplo)), quer na horizontais, nos bairros da periferia, onde a miséria e a promiscuidade prosperam de forma crescente.
           É bem provável que estamos diante do ficcionista piauiense que mais se tenha concentrado em narrar todas as mazelas trazidas pela nova marginalidade que assola o país atualmente e até no interior. Sabor de sangue radiografa, sem papas na língua, este underground do crime e abre espaço para a discussão da marginalidade tentacular que, reforço, tomou conta do Brasil sem a correspondente competência dos governos para reduzir este gravíssimo problema social.
        Usa, por vezes,  da  técnica da surpresa no desfecho de um conto, como o primeiro do livro, de título ”Segredo de confissão” (p.7-13), em que uma mulher, fingindo manter uma vida limpa, após confessar-se, subtrai o celular do padre, provocando um instante  de comicidade, ou dá tratamento ficcional a outros variações da temática da violência: o marido galinha, história com um fim tragicômico, posto que o crime havia sido cometido não pela  esposa , mas por uma amante desaforada e dominadora, inclusive por ser comadre do casal,. no conto"Faca no peito" (p.35-37); denúncia social, a brutalidade escancarada, o tráfico de influência, como no conto “O maioral”(p73-79), em que um funcionário da Secretaria de Segurança, um espertalhão, por ser primo do governador, não permitia que lhe cortassem o fornecimento de luz por fala de pagamento, deixando em situação embaraçosa o funcionário designado para desligar a luz de sua casa;.o conto do vigário de que foi vítima uma viúva metida a esperta, no conto “Loteria premiada” (p.57-62); um deficiente bancando de assaltante, no conto “Pavor coletivo” (p. 103-109); a delinquência juvenil, no conto “Amor de mãe” (p. 149-150); o trágico drama de um jovem epilético e doente mental, no conto “O cadáver disputado” (p. 157-161); outro drama trágico de dois amigos de infância que se tornam marginais de “gangues rivais,” no conto que dá título ao livro, “Sabor de sangue”(111-115); a violência doméstica no conto "Fuga para lugar nenhum" (p.139-147); Este livro de contos - pode-se dizer - é o cartão de visita às avessas da marginalidade e da violência em que se transformou a velha Teresina tranquila e provinciana dos anos 1960, aproximadamente. .
            Milton Borges se coloca, assim, no que tange à sua temática focalizando a violência urbana,  como um dos seus principais intérpretes e como um ficcionista que traz para as páginas desta obra a fisionomia de uma Teresina que reclama por soluções mais efetivas e urgentes no enfrentamento da criminalidade, da brutalidade, da selvageria e do desamparo em que se encontra a sociedade local, desde as camadas mais humildes até as mais sofisticadas. Violência que se equipara, em muitos ângulos, àquela enfrentada pelas grandes metrópoles brasileiras.
           Por outro lado, fica uma sugestão ao autor:  que não restrinja a sua imaginação e o seu talento apenas ao tema da marginalidade. Que abra espaços do seu universo ficcional para novos temas visto que me parece ter domínio e condições de amadurecer tanto a linguagem literária quanto a sua disponibilidade para novas obras.

NOTA: No que tange à  afirmação (primeiro parágrafo do resenha  acima),   de como  tive  o primeiro contato com o contista Milton Borges, por esquecimento  involuntário,  eu esqueci de mencionar  a leitura que tinha feito da "Apresentação"  do livro  Sabor de vingança a cargo  do professor, critico literário   e ensaísta  Carlos Evandro  Eulálio na época do lançamento  da obra, na Livraria Entrelivros, Teresina,PI. O texto  de apresentação  do Carlos Evandro  é um modelo  de  acuidade crítica  e de  reconhecimento   do  valor dessa obra   do Milton Borges.

domingo, 9 de outubro de 2016

DA CAUSA AO CAOS: O EXEMPLO BRASILEIRO






                              CUNHA E SILVA FILHO



          Por mais que os defensores do lulopetismo  afirmem  que não têm  nada ver com o caos  financeiro de alguns   estados da Federação – e citaria  o exemplo  paradigmático do Estado do Rio de Janeiro -,  qualquer  pessoa, qualquer leitor  leigo em economia, em ciências  políticas, porém que seja  regular  leitor  de jornais,  revistas e acompanhe a mídia, as redes sociais,  os blogs,  os sites, e até os jornais  internacionais e tenha  boa percepção da realidade  brasileira,   não se furtará  a ratificar que os governos de Lula e Dilma são  efetivamente  não somente  os responsáveis diretos pelo desmoronamento das finanças   públicas do país., mas  principalmente  em razão  de se comportarem  como chefes de  Estado.
       A instauração da política minúscula, aliada a  desídias praticadas  continuamente  contra o Tesouro  Nacional,  quer dizer, o poder  exercido  pelo que se poderia denominar “criminalidade de governança,” cujos  exemplos mais gritantes são do conhecimento  da sociedade   brasileira.    Agora, mais do que nunca, está  a nação  sentindo na  carne  os efeitos  deletérios de como  não se deve gerir  um país, máxime  governar  um país das dimensões  de nosso.  
       Os males de que foram responsáveis os dois  mandatários  petistas mais que revelam  até que ponto  podem   chegar  governos  incompetentes,    oportunistas e falaciosos. Não só oportunistas, porém conduzidos  por  orientação nefasta   e demagógica,  da empulhação e da rapinagem  tipificados  nos escândalos do Mensalão,  do Petrolão e da prática  contumaz  da improbidade  administrativa impune. Não houve, durante toda a história política  nacional,  um partido que tantos males  provocou nos fundamentos  do nosso arcabouço administrativo,   nas contas públicas  no nos gastos astronômicos.
      Aí se incluem as despesas faraônicas do governo federal, estaduais  e municipais, com a preparação  para a Copa mundial e, em  seguida, com as Olimpíadas. Ora,  todo esse custo  redundou  em  prejuízos  enormes aos cofres  públicos.
       A par disso, as obras realizadas   não se fizeram   com  lisura, pois há forte  indícios de superfaturamentos  e desvios  do dinheiro público. Por outro lado,  o  inchaço do Estado  Brasileiro  com  o aumento substancial e desnecessário   do número  de ministérios,   os altos salários  pagos  aos três poderes  nas suas faixas  mais altas, as ajudas  a governos  de esquerda   que se beneficiaram  do suposta esquerda  brasileira  representada pelo PT  foram  fatores determinantes  do colapso financeiro  que venho  reiterando  neste artigo.  
         Para quem  era leitor assíduo do Jornal do Brasil,   todo esse  imbróglio  em que está  encalacrado  o país e suas finanças  já vinha  sendo   atentamente   denunciado por  jornalistas  corajosos, intelectuais   de renome e  mesmo  por chargistas.  
     O jornalista, ficcionista e tradutor  Fausto Wolff (1940-2008)  o ficcionista Antonio Torres, o tradutor e ensaísta   Ivo Barroso e um  excelente chargista de cujo nome não me recordo agora, foram vozes dissonantes e altivas, entre outras,    que se levantaram  contra os primeiros sinais  dos malefícios que o  lulopetismo   estava  preparando  para o  país.
       Tudo o que aquelas vozes  lúcidas  já denunciavam sobre   os desacertos  do  petismo foi posteriormente  confirmado  nos anos seguintes do poderio lulista-dilmista: um partido  governando o país graças  a manobras   indecorosas  e a falcatruas   com vistas a desviarem  dinheiro  público  para  se perpetuar   no poder  sob  a forma  de pressão  contra  empresários   que se deixaram  corromper graças  ao esquema de corrupção  de mão dupla.
      Ou seja,  manter-se no  poder  por longos anos  e  locupletar-se   do Tesouro  nacional  era uma das metas  do lulopetismo  que tinha como disfarce o populismo,  os fisiologismo,  o nepotismo, a inclusão social,  as cotas da educação,  o apoio, com objetivos  populistas às minorias, à libertinagem,  a  deslavada compra  de partidos para fortalecer à chamada  base aliada,   a fim de  aprovar  o que desejasse  tanto na  Câmara dos Deputados quanto no Senado  Federal, 
     O vale-tudo  da malandragem  da  politicalha  do petismo  era sua bandeira. O seu aparente esquerdismo    era de fachada. No fundo,  adoravam as delícias  dos produtos do capitalismo   com viagens   milionárias  dos presidentes   e sua comitiva  nos melhores hotéis da Europa  e de outros continentes.
        Para tanto,  não poderia haver  lisura,   probidade  e compostura   ética.  Tudo isso foi lançado  às favas. O que  importava  era  o poder  para  o enriquecimento  ilícito de uma  espécie de quadrilha organizada, de um esquema  cleptocrático, conforme  assim definiu o ministro Gilmar Mendes  e, como outro disfarce,   distribuir  migalhas  ao povão,   miserável e analfabeto, presa fácil dos   esbulhadores   e vigaristas   no trato da coisa  pública. De disfarce em disfarce,  o petismo  conseguiu por um tempo   sustentar-se no Palácio da Alvorada. Gastou muito,  gastou mal, gastou. O seu desfecho trágico  era uma morte  anunciada.
        Entretanto,   a mentira tem pernas curtas,   de tanto   dilapidar  o dinheiro do brasileiro e escangalhar   as contas públicas,  de tanto  praticar  a improbidade  tinha que vir à tona   pelos observadores  políticos  e pela própria sociedade, através das manifestações  em massa,  todo um esquema  monstruoso,  de   falcatruas  que resultaram  na megaoperação  Lava Jato  que, até hoje,   tem se dedicado  a  prender   os ladrões  da nação e entregá-los -  políticos e empresários corruptos - à Justiça e, quando necessário, trancafiá-los  por  peculato, lavagem de dinheiro ou formação de quadrilha.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

TERESINA: MAIS UMA VISITA DE SAUDADE







                 

                                                                                                  Cunha e Silva Filho


          O cordão  umbilical  que me prende a Amarante, a Teresina e aos autores  piauienses  ainda está bem  preso. A parteira o cortou no tempo, mas não na memória que, metaforizada,  em resistir   teima aos solavancos  do  passado.
         O tempo está impregnado ao meu/nosso mundo interior. É indissociável da matéria presente. Não depende de meu controle, da minha razão.  O tempo faz de mim o que bem lhe aprouver. Está além das minhas  parcas  possibilidades de comando, nem para trás nem para o futuro.  uma vez que,   com ele, não se brinca, assim  também  com  o amor, a se ver o que  um autor  francês num texto antigo   afirmou : “On ne badine pas  avec l’amour.”
        O presente  é, por instantes,  subjetivamente  eterno. E por isso, de alguma maneira,   a ideia do finito não  nos assombra tanto. O presente,  assim,  nos sustenta ou faz calar, por instantes,   os limites   da condição  de mortais. Aproveitando-me dessas aporias, façamos uma deambulação  pelo   tema  desta  crônica : Teresina.   
        Em 1974, escrevi uma crônica, na qual   dava minha impressão de Teresina depois de dez anos de ausência. Tinha sido a minha primeira  ausência. Um decênio não é um dia. Tudo ficou  diferente,  declarei  na crônica. Outras poucas vezes,  voltei  a Teresina. Dá até pra contar nos dedos.
        Mais diferenças  constatei. A cidade ainda acanhada, calma,  que deixei nos idos de sessenta já me assustava  pelas modificações  visíveis, inexoráveis  e inapeláveis  que ia tomando,  fazendo dela uma  cidade  com ares de modernidade. A minha visão dela  se restringia  ao Centro,  à zona sul, à zona norte,    ao Barrocão, à Piçarra. à Vermelha. A cidade  que se  prolongou com   arranha-céus, com os espigões,  já despontava  altaneira,  desafiadora,  com ruídos  próprios das metrópoles.
        Teresina, por mim  configurada   na mente do tempo  pretérito,  até aos limites da margem  direita do rio Poty, escapava dos meus dedos,  estendia-se   pela zona  leste, com novos bairros, alguns elegantes, com casas suntuosos,   avenidas com nomes desconhecidos,  pontes,  iluminações,    ruas  arborizadas, movimentos   intenso  de carros, com seus novos   shoppings,   seus novos hotéis, alguns muito bons.Teresina, meu amor:  a cada visita que lhe fazia,com  intervalos relativamente longos, sentia que a   ia  perdendo  de vista por não ter acompanhado  no seu crescimento vertiginoso.
       A antiga  província só existe nas páginas  de  bons escritores  que  a  perpetuaram  na história  de tempos  variados, dependendo  de cada    autor, ou melhor, de cada um de seus cronistas e da respectiva  geração: Abdias Neves (1876-1928), A. Tito Filho (1924-1992),  H. Dobal (1927-2008) Afonso  Ligório,  José Ribamar  Garcia, Geraldo Almeida Borges, em  alguns magníficos  poemas  de  Paulo Machado,  entre outros. A minha é a que medeia entre   a infância de três anos  até à adolescência   dos  dezoito anos,  naquele  divisor de águas , que é o ano de 1964.
     Estou encalacrado,  já não sei  me movimentar  por estas novas teresinas em que se transformou  em cinquenta e dois anos.  Como vou  reencontrar  a Teresina  dos meus dias   de teresinações? Acho que foi A.Tito  Filho que inventou  o verbo “teresinar.” Pois é,  leitor,  o que farei agora  com   a visão da beleza antiga  dos meu  tempo vivido nessa cidade que não deixa de crescer e que encravada eternamente  está  na minha lembrança?  Foi por minha culpa ou por culpa dela?   O melhor  não é  transformar   essa cidade amada em metafísica.  O melhor mesmo  é poder contar com  o que   permaneceu   ainda  intocável.
    E, por falar em intocável quero  significar  o que  internalizei  de vez  na memória: o velho Centro  ensolarado  com as suas  ruas  tão conhecidas de mim   repercutindo    vozes do  passado,  rostos familiares,  meus parentes, hoje,  alguns, tão afastados) vitalidade   juvenil,  moças bonitas,   carnavais antigos, os    filmes americanos de faroeste,  Fellini (1920-1993), Vitorio de Sica (1901-1974), Chaplin (1889-1977), O Gordo e o Magro,  Bud Abbot (1897-1974) e Lou Castello (1906-1959),   filmes italianos, mexicanos, franceses, os impagáveis  Oscarito (1906-1970), Grande Otelo (1915-1993),Zé Trindade,(1915-1990), Ankito (1924-2009), Cantiflas (1911-1993).
     E mais: as atrizes, nacionais  e estrangeiras,    de beleza  esplendorosa,  os meus  atores (brasileiros e estrangeiros) inesquecíveis, namoros fortuitos,  o  Parnaíba com "as barbas brancas alongando" - ícone da paisagem  piauiense,  Igreja de São Benedito, as  belas curicas, os coleguinhas de infância,  os  amigos  da juventude, os amados  professores,  a Igreja do Amparo,   o Clube dos   Diários, a    Praça  Pedro II,  a  Praça Rio Branco, o Karnak,  os Correios,   as velhas  casas de outrora, os velhos palacetes, os presépios de natal, o bacuri,  as cuscuzeiras,  as belas   plantas que, menino,   andava caçando, os natais   em casa, a galinha assada por mamãe,  a missa do GaloPraça João Luis Ferreira,  o velhusco  prédio  do Instituto (agora,  uma ruína que dói), o Rex e o Theatro 4 de Setembro,  as velhas   ruas  tão amadas e   imortalizadas  no tempo. A enumeração  será sempre incompleta. Por isso,   funciona como metonímias.
          São tantas as memórias,  tão densas   as visões,  as vozes,   os entes queridos,   o Domício,  o Liceu,   a Rua  Arlindo Nogueira esquina com a São Pedro (eu  as revisitei nesta recente  viagem, pegando um táxi e dando uma boa volta até às ruas  por detrás do Liceu Piauiense.A minha casa  da Arlindo Nogueira virou  comércio,  Perdeu o antigo  encanto.  Ubi sunt  as lindas meninas que  passaram? – repito  no mesmo   tom  nostálgico de uma antiga  crônica.    A aulas de francês do meu pai, um mestre  ainda bem  forte, eloquente  naqueles  discursos  que, de quando em vez,  pronunciava  em dias festivos do Domício.
         O que eu mesmo  queria  era ficar  andando sem rumo pelas desgastadas ruas  e logradouros  de Teresina, Olhe, ali vai  meu  pai em direção ao Liceu, à Escola Normal, ao Domício,  ao Bar Carnaúba (só lembrança). “Veja, ali   vou eu,, menino,   ao Mercado Velho  com mamãe”. Espero não  me encontrar  com  o padre  e ter que dizer-lhe novamente:  “ Não, padre   veste  roupa de mulher”. Mamãe ficou  ruborizada. Mas,  quem mandou o padre me perguntar se eu queria ser padre? Até  outra vez,  Teresina!

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

"ATO DE BIBLIOCLASTIA ": MEU REPÚDIO





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                                                                           Cunha e Silva Filho


            Senti  calafrios  ao ler uma reportagem  no Segundo Caderno  do  GloboProsa & Verso (sábado, 01/10/2016) Acredito que  outros leitores tenham  sentido  também  algum incômodo com  o assunto  da matéria.
          O impacto da matéria  tratada se deve ao anúncio da editora Cosaf & Naif  de que está saindo  do mercado de livros. Fechou as portas e, ao fazê-lo, terá  que  saber  o que  vai  fazer com  os chamados  encalhes,  livros que foram  bem vendidos e cujo destino,  segundo   a editora,  será  o que  normalmente, no campo  editorial,  se faz: queimam-se  os estoques dos worst-sellers, expressão  usada  por um ensaísta da Venezuela,  Fernando  Baéz,  que é um estudioso  de situações   de encalhe de livros  como a da Cosaf  & Naif e de outras editoras..
        Fernando Baéz, que igualmente  empregou   a expressão  “Ato de Biblioclastia,”  da qual me servi  para título deste artigo,  é um escritor  já conhecido  pelas denúncias  que fizera   a propósito  da destruição  de “10 milhões de  documentos históricos e culturais durante a Guerra do Iraque.” Segundo a reportagem do Globo,  esse  escritor, em 2010,  publicou   uma obra  de título  bem  definidor e alusivo  a esta situação  anômala  por que  passa  o mundo  editorial   no que concerne ao destino  dos livros que se tornam  encalhes. A obra tem por título  A história  universal da destruição dos livros (Ediouro)
      Chega a causar  “dor “ a todos nós  que, por amarmos   os livros, a leitura,   nos  defrontamos   com  a tristeza de que  os livros  que não  têm boa aceitação  do público são comparados a lixo e merecedores de se tornarem   material  para  papel reciclado. O pior é que, consoante os editores, esta prática é legal (sic!). Legal,  mas não  moral, acrescentaria.
     Não sou  um especialista em  editoração  nem entendo do riscado dos bastidores  da vida  da editoras e  das livrarias. No entanto,  o que me  causa espécie   é que, num país como o nosso, com ainda enorme carência de boas  bibliotecas públicas,  ao contrário da Argentina,  que,  há algum tempo, se dizia  que só em Buenos Aires   havia mais bibliotecas do que no Brasil, aconteçam   coisas desse tipo.
      Não sei  se o procedimento  relativo aos encalhes  deveria ser como   é. Só tenho a certeza  de que haverá outras formas de se mudarem  tal procedimento, o qual, vou forçar uma imagem dura, me lembra um certo  obscurantismo  dos tempos da Inquisição, ou dos  lúgubres  e apocalípticos  tempos  da nazismo em que livros eram queimados  por não  se enquadrarem  na ideologia  nazifascista.
      Queimar livros, aqui no  país,  é algo  que  machuca os  bibliófilos, os bookworms,   os leitores compulsivos, os amantes  da cultura. Queimar livros, para mim,  se afigura um crime  amparado  por lei, uma insensatez, uma prática  indecorosaautoritária.
       Eu perguntaria simplesmente  por que os editores não pensaram  duas  vezes antes de bancarem alguns  livros que não teriam sucesso de  venda? Por que o governo federal  não  formularia   um programa  de assistência aos encalhes,   fazendo com que  os milhares de livros fossem  distribuídos  pelo país afora? 
        Por que não se facilitariam mecanismos,  através dos órgãos  governamentais,  municipais, estaduais e federais,  a fim de que  pudessem,  organizadamente,   fazer  doações a bibliotecas, ou mesmo  criar  novas formas  de  bibliotecas  volantes   que dariam   oportunidade a tantos  brasileiros  amantes da leitura  e que não podem  comprar  livros  de bons autores   que, por um ou outro  motivo,  não foram sucesso  de livraria,  como ocorre com os best-sellers estrangeiros, sempre mais  vendidos do que os livros de autores brasileiros?
       Ora,  tudo  o que está     no mercado  de livros e na publicação de  obras   não necessitaria  de   ser queimado,   tratado como   um refugo   quando  tantos  leitores,  repito,   estão  ávidos   para   adquirem  tantos   encalhes.
      Temos muitas  bibliotecas de universidades  públicas  e muitas de universidades privadas que poderiam abrigar  e receber esses milhares de livros chamados  pejorativamente  de encalhes. Nenhum autor merece ser tratado dessa maneira. É um despropósito  convivermos  com  práticas  desta natureza.
         Os livros e seus autores merecem respeito e consideração. Enquanto editoras tratarem  o livro só  visando ao lucro sem limites – e o livro no país está muitíssimo  caro,  inclusive os livros usados, os chamados  sebos -  quem sofrerá  primeiro  será o leitor  de poucos recursos e,  em segundo lugar,  os autores.
        Diante dessa triste realidade  que vivemos  no país,  torna-se  imperativo  que  o governo federal, através  das políticas  públicas, cuide de  urgentemente mudar  essa situação    ultrajante  por que  passam  autores, livros e leitores. Ao maltratarem  assim  nossos  livros e autores,  o país  está dando  mostras  de  tremendo retrocesso cultural  com  consequências    dramáticas  para o desenvolvimento  geral de nossos  bens   imateriais, produto de  nossa   inteligência e de nossa criatividade.