segunda-feira, 6 de junho de 2016

O PLANETE TERRA É NOSSO, NÃO DELES



 Cunha e Silva Filho
            

          Estão brincando com  fogo, ou melhor, com  água,  pois as águas estão rolando em Paris,  em toda a  França,  e furiosas, não respeitando nem   as belezas das cidades nem o seus inesquecíveis e imponentes  monumentos, museus, sua invejável Torre Eiffel, seu Arco do Triunfo,  a Catedral de Notre Dame,  sua avenida Champs Elysées,  seu Bois de Boulogne, praças, quer  dizer, marcos históricos, arquitetônicos de incomparável beleza, os quais  podem  ser danificados com as inundações  sem trégua. Deus nos livre delas! Já imaginou o mundo sem Paris?
      Em termos de finesse, de encantamento, de civilização, de erudição, de vida civilizada, de alta filosofia, dos grande  poetas e  prosadores,  a primeira cidade que me vem à mente é  sempre Paris,  a “vitrine do mundo,” como diria um crítico brasileiro aludindo à sua densidade cultural  O Sena (Le Saône, em francês) que  elegantemente  atravessa a  capital francesa, com toda o seu charme   fluvial, seus barcos  turísticos,  desta vez  subiu além das medidas, tal qual fez em 1910, deixando mortos, e tal qual ocorreu em 1982, segundo  informa uma reportagem saída no Globo (04/06/2016), na seção “Mundo.”
       O que neste artigo quero ressaltar é a discussão das mudanças do  clima no mundo hoje.As inundações devastadoras na Europa e mesmo  em outros continentes,  segundo os cientistas, se devem ao velho e batido tema do aquecimento global,  questão à qual não se tem dado a devida  importância ainda que  consideremos  os órgãos ou entidades mundiais e as reuniões de países   que se debruçaram sobre essa questão sem que, todavia,  seus resultados  tenham  sido  aproveitados  para que o nosso  planeta  recue nas taxas altas de poluição,  de  esbanjamento  de dióxido do carbono  por todas as cidades  do mundo.
      Debates,  seminários,  reuniões de especialistas  têm sido realizados sem  que, até agora,  vislumbremos  um quadro  menos sombrio.Os sinais de situações catastróficas  estão à vista de todos. Até crianças  já sabem que os efeitos do CO2  são para valer e que a humanidade  aguente as consequências  que não são  alvissareiras. Muito ao contrário.
     A citada mesma reportagem,  refere duas  opiniões nada  otimistas  sobre o clima no planeta. Uma, de Chris Feild,   coordenador, em 1912,  de um  relatório do “Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas” Foram suas palavras: (...) uma atmosfera mais quente é capaz de reter mais água, e como consequência, as chuvas tornam-se mais pesadas.”  A outra é de Michael Oppenheimer, da Universidade de Princeton EUA),  ainda mais  dramática: (...) Chuvas forte? Inundações? Acostumem-se! Com as mudanças  climáticas, essa é a nova realidade.”
     Diante de um panorama  apreensivo como  o atual,  há que discutir  profundamente  o que se poderia mesmo  fazer  a fim de amenizar os desastres  das águas. Não é tão difícil de   equacionar, mas o difícil mesmo  é mudar as mentalidades dos chefes de Estado que, não obstante comparecendo alguns  às  reuniões de cúpulas,  estabelecem  limites   de diminuição  de níveis de poluição de CO2,  para seus respectivos  países,  inclusive com marcos temporais  para implementação  de medidas  visando à redução dos gases poluentes. Na prática,  não temos  segurança bastante de que se cumprirão esses acordos.
    A hesitação de chefes de Estado   é fácil  deduzir – tem profundas   implicações econômicas, i.e.,  a ambição natural dos homens  põe à frente  o dado econômico,  e , em segundo plano, o ser humano. Mas, isso é um raciocínio distorcido que não resiste   nem mesmo à mais frágil argumentação. Se, em primeiro plano,  só se pensa nos lucros  da economia, do capitalismo desenfreado  e cada vez mais  devorador  dos valores éticos do ser humano, a contrapartida  vem pelos golpes   mortais da Natureza-Mãe, que é sábia e não se dobra à avidez da produtividade  global  desmedida.
   Depois, não me venham se queixar  dos  bilhões de prejuízos ( o caso agora de Paris , da França) causados pelas  inundações  e outros   efeitos   destruidores do meio-ambiente,  os quais  lhes serão  mais  nefastos  do que os ganhos financeiros em razão da  insistência na produção  multiplicada e desenfreada para a  satisfação fútil do consumismo. Ou seja, nesse barco furado  de adesão das pessoas aos   produtos  do capitalismo ególatra  e hedonista, saem perdendo  todos  os consumidores doentios  mais  ainda  os grandes  empresários e  os governos.   É por essa razão que países  como os Estados Unidos, por exemplo, não  têm  presença tão marcante  em cúpulas   onde se discutem   as reduções  exigidas  em defesa  da despoluição  terrestre.   
   Daí ter dito linhas acima  que a questão   dos poluentes de todas  as formas, sobretudo do CO2,  exige uma reforma de mentalidades de líderes mundiais. Obviamente, se  não derem  a devida  atenção a esse debate, não podemos vislumbrar   nossas cidades livres de catástrofes e acts of  God  que porão em risco  a  continuação  da vida em nosso  planeta.  Os avisos das águas  não  são de brincadeira. São para valer.
  Nessa batalha contra a  poluição,  os escapamentos de  gases de veículos, de chaminés, de altos-fornos, de queimadas  criminosas,  do desflorestamento (da Amazônia, sobretudo), de desapreço  pela limpeza de nossos  rios e mares, nós, que não temos peso  ou voz de líderes  mundiais ou nacos de barganha  junto  aos países ricos e desenvolvidos, o que temos  que fazer de bom   é repudiar,   por todos os meios de comunicação,  com  o nosso clamor de indignação contra os  predadores  da Terra.
  V., consumista inveterado, pense em nosso  planeta, já por si, tão vilipendiado,  tão escavado,  tão esburacado (vejam as explorações contínuas das minas pelo mundo),  tão explodido em testes   de armas atômicas,  ou ameaçado por usinas  nucleares , pense nos seus semelhantes  que não têm a sua mentalidade,  e  nos deixe viver em paz e principalmente deixe em paz o nosso  planeta, lindo,  maravilhoso,  deslumbrante, que é a Terra, com a sua lua, o seu sol e o espaço sideral, à noite, pontilhado de estrelas.  

sexta-feira, 3 de junho de 2016

LÍNGUA E IDEOLOGIA NA POLÍTICA DO BRASIL




                                                                                Cunha e Silva Filho


      Entre o PT e seguidores  e o saco de gatos da oposição uma questão se interpôs, com repercussões cômicas, irônicas, desdenhosas  nas camadas  letradas, menos  letradas, com exceção dos extratos alfabetizados  e com  pouco   conhecimento  de fatos gramaticais. Os letrados da oposição viram  a fala do presidente interino como uma boa oportunidade de ironizar  o uso da mesóclise, ou  da tmese, como  gostava de denominar um conhecido meu, já falecido, secretário de um  deputado federal da ARENA, partido  de apoio à ditadura  militar  implantada no país  a partir de 1964. À ARENA se contrapunha o  MDB, partido de oposição consentida. 
    Os petistas agora encontraram mais um meio de luta política, a da aversão às formas cultas no uso da língua portuguesa que, por extensão, pertenceriam aos chamados, a toda hora, de  “golpistas.”  O uso da mesóclise se oporia,  então,  ao uso  de  solecismos  ou limitações  de linguagem  oral, além de falta da fluência notória na afastada  presidente Dilma, a qual, de improviso  jamais   - é de se supor -  empregaria a mesóclise do Temer.
     Vê-se, assim, que  o país se acha em  campos  opostos política e linguisticamente, ou seja, a suposta  esquerda culta  reprovaria  no Temer o uso da topologia pronominal culta no discurso do presidente interino mas, contraditoriamente, os letrados petistas não se furtariam a usar a  mesóclise nos seus textos escritos ou em algum  trabalho  acadêmico.
   Temer,  zeloso da língua pátria, semelha,  nesse ponto, ao  ex-presidente Jânio Quadros (1917-1992), de resto professor de português do curso secundário, outro que gostava de  falar como se  estivesse escrevendo, a exemplo do famoso “Fi-lo porque  qui-lo.” De um lado e de outro,   não deixa de ser cômico  como  a questão dos usos da língua, na oralidade, se misturam, à feição,  por exemplo,  no português do Brasil e   no discurso oral, do emprego  dos pronomes “tu e você” em certas regiões do pais ou da colocação dos pronomes átonos em próclise em início  de frase.
    Com  o desenvolvimento  dos estudos da linguística no país, sobretudo  com  o trabalho  pioneiro de Joaquim Matoso Câmara Jr.(1904-1970), “o pai da linguística”  no Brasil ,  na expressão  usada  pelo  eminente linguista Francisco Gomes de Matos,  a rigidez gramatical, conhecida como formas castiças  de procedência lusa, ou  por outra, a ortodoxia  do “certo e errado,” foi quebrada pelos novos  estudiosos da linguagem para os quais o rigor gramatical culto  não poderia ser o único  padrão de uso da língua, porquanto outras variações teriam, por assim dizer,  o mesmo  valor do ponto de vista de comunicação entre falantes de uma língua.
     Tanto os que  defendem o  rigor da norma culta, espaço de estudiosos ainda presos  à gramática  normativa, quanto os novos linguistas que defendem  formas  radicais  de  liberdade   no uso da língua,  laboram em erro  em razão de que, se os falantes já escolarizados  não forem bem orientados  para as variações  diversas dos registros linguísticos,  sai perdendo  o ensino  fundamental e médio. O laissez-faire de linguistas modernosos  pode estragar o trabalho dos docentes  e dos  estudantes sob os cuidados deles. A porta da linguagem deve ficar aberta, mas não escancarada. E o pior inimigo nisso tudo  é a questão da correção  ou não correção.
    Essa questão é antiga e passa pelas polêmicas  que vêm, em nosso país, desde a ideias  advogadas  por José  de Alencar (1829-1877)  ao propor a denominação  "língua brasileira," sobretudo no discurso literário  escrito. Alencar, nessa questão,  em pleno  Romantismo,  era bem progressista em relação a outros escritores brasileiros da época ainda presos ao lusitanismo.
    Mário de Andrade ( 1893-1945) igualmente,  se interessou   pelo assunto e procurou incorporar inovações  da linguagem literária  modernista   tanto quanto lhe   foi  possível  para, nesse campo,  libertar-se  da língua de Portugal. Por exemplo, a colocação dos pronomes oblíquos  átonos  em próclise era uma  de suas   defesas no uso do  português  do Brasil. Mesmo, na linguagem ensaística, Mário de Andrade usava da próclise em início de frase.
     Até  mesmo um crítico progressista, como  Álvaro Lins (1912-1970),   censurou o  uso da próclise no  ensaio de Mário de Andrade. Outro  escritor brasileiro, que não era gramático,  como Barbosa Lima Sobrinho (1897-2000), escreveu   uma obra  em defesa da português do Brasil. Outro grande  defensor  da língua brasileira foi o crítico e historiador literário  Afrânio Coutinho (1911-2000), que tinha o tema da língua brasileira como   um dos seus  preferidos até o final da vida.
    Filólogos e linguistas brasileiros, como  Sílvio Elia (1913-1998),  Celso Cunha  (1917-1989), Celso Pedro Luft (1921-1995),  entre outros, em livros,  se mostraram bem abertos às contribuições  incorporadas ao  português do Brasil e a posições  bem  renovadas  dos  avanços  trazidos pelos novos linguistas, brasileiros ou estrangeiros, necessários ao novos tempos no uso da língua  portuguesa, com abonações de exemplos de usos,  na linguagem literária,  até dos escritores  mais novos.
    Uma obra importante abordando as novas  contribuições  da linguística  sobre usos diversos  do português no  Brasil foi  o estudo Sociolingüística – os níveis de fala,  de Dino Preti. Os livros didáticos passaram a  aproveitar  esses avanços e maior liberdade e abrangência  da questão  dos usos  do português.  
   Dentro dessa perspectiva inovadora, o que não se pode tolerar  é a radicalização a que podem conduzir   as variações linguística sem um segura  orientação e senso das medidas dos docentes e dos linguistas, sob pena de o  aluno ou usuário do português do Brasil  confundir  os registros e cometer  erros  indesculpáveis como,  numa dissertação,   não saber  que variação  de uso da língua pode utilizar,  quer dizer,  ele tem que ser linguisticamente  ensinado a saber  que padrão de uso  deve seguir a fim de  exprimir seu pensamento sobre uma tema  dado.
    Da mesma forma, é descabido que um aluno mal avisado, num exame de vestibular, escrevendo sobre um tema,  o faça em forma de poema quando o que lhe é exigido é escrever   uma dissertação com todas as característica  dessa composição  escrita.  O que, no meu juízo,  passa a ser uso ideológico da língua, linguagem ou discurso, é desqualificar  a quem, por razões de formação cultural,  aprecia  o emprego de formas mais adequadas à linguagem escrita culta, como é o caso de Temer e  a aceitação de um  discurso mais estribado  nas formas incultas ou eivadas de erros da gramática normativa, o exemplo do Lula.
   Ora, esse político, consciente ou  inconscientemente,   mantém,  no improviso  diante  das camadas  populares, ou não,  o mesmo  nível de discurso (variação diastrática) a fim de manter-se mais próximo dessas camadas, populares ou  não. O que lhe importa é atingir a mensagem   de sua visão política como a de quem desejasse  exprimir  a sua completa adesão às necessidades reivindicatórias do seu público-alvo: as camadas desfavorecidas.
    Diferentemente, ao fazer um pronunciamento na ONU,  que é um discurso lido e escrito por  alguém de sua confiança,  o  nível  obedece aos princípios da norma culta (variações diafásica e diastrática).
     O populismo petista não perde vezo para  tirar dividendos político-partidários ao explorar o uso da língua  contrapondo  a correção gramatical  como forma de elitização  de um governo  regido por  adesões de estofo  neoliberal com os surtos de falta de  coerência  e surtos instantâneos  de fluência  da presidente  afastada, somados a anedóticas  demonstrações de desconhecimento  dela em outras  áreas culturais,  levando-a a cometer  erros  como, para ilustrar,  ao falar  que se poderia  “estocar  o vento.”   Lula,  que é inteligente e  tem o verbo fácil mas  claudicante nos  erros gramaticais,  não incorreria  em tais  apuros.
    De qualquer  maneira,  é curioso   ressaltar   como  a linguagem, como manifestação  cultural, presta-se  também  a fazer o jogo  político   do discurso  dos ricos letrados   ou menos letrados  assim como  dos letrados e não letrados  da esquerda, rica  ou pobre.
    
     


quarta-feira, 1 de junho de 2016

MAIS UM PEDIDO ATENDIDO





                                                   Cunha e Silva Filho


              Tinha mal começado a leitura de uma edição  de uma pequenina  obra de  Leo Tolstói (1828-1910), A confession (London: Penguin books - Great Ideas, 2008, 100 p), traduzida, possivelmente do russo,  para o inglês por Jane Kantish, quando me dei conta de que o livrinho  havia  desaparecido de um lugar em casa no qual tinha certeza de que o  havia colocado      
            E agora? Estou seguro de que a coloquei perto do computador, por cima do jornal  Folha de São Paulo, já parcialmente  lido e com as seções separadas da ordem  em que vem da banca. Minha  esposa, já sabendo de meu costume de não prestar muita atenção onde ponho alguns objetos do meu cotidiano, me olhou séria e falou: “Calma, que você vai encontrá-lo. Esta não é a primeira vez  nem a última que  uma situação  assim  acontece  Procure com cuidado que o achará”
             Lá fui eu irritado vasculhar aqui e ali pelo apartamento. Logo fui às prateleiras dos livros mais antigos misturados com alguns mais  novos. Olhei, olhei, olhei, mas sem sucesso. Meus Deus, onde fui botar esse livro?! E se o perder,  como farei para comprar  outro exemplar. O meu exemplar tinha comprado numa livraria  de um Shopping em Curitiba.  Tou perdido! Me lembrei de que uma vez escrevi um artigo de título “Livros perdido,” que incluí no meu livro As ideias no  tempo.Confesso meu trama por haver perdido alguns livros preciosos que, até agora,  não mais recuperei.
          Ao procurar o livrinho de Tolstói, passei pelas prateleiras de livros de autores piauienses, que guardo com  zelo, muitos dos quais nem  li. Até hoje,  não sei bem por que lemos  primeiro uns livros e não lemos outros. O tempo urge. E daqui a pouco não terei mais força para ler todos, o que vai me causar outro trauma,  o do tempo  não recuperado..
            Continuei tentando localizar o  opúsculo.  Mas debalde.
Não satisfeito em procurar nos livros das estantes,  fui para o lugar em que ponho jornais já lidos, revistas, envelopes grandes  com  artigos meus,  recortes de artigos antigos de meu pai em envelopes grandes, outros de artigos meus,   cópias digitadas de originais de livros  por  publicar,   cópias  xérox de alguns livros,   papéis A4  com o verso em branco   para servir de rascunho  de novos textos, caixas de cópias  de monografias, cópias de  dissertação, de tese, caixas de plástico duro  com fitas cassete, de CDs,  de discos para ensino de línguas, livros antigos embrulhados em  sacolas.Enfim,  uma mixórdia de objetos de minha estimação.  
        Escarafunchei tudo e nada de ver o livrinho. Fui à sala onde há os  livros mais novos e de maior quantidade. De prateleira em prateleira,  um por um,  repeti essa ação por umas quatro vezes e sem êxito.Perdi o livro. Só me lembrava da narrativa do grande escritor  russo falando de sua infância e sobretudo da questão religiosa, das hesitações quanto  à fé. Era um leitura tão  empolgante que não mais queria  interromper. Já estava triste e desolado. Até pensei que, por engano,  havia o livrinho sido  levado numa sacola de lixo no meio de jornais velhos.
       Perdi a calma. Desesperei-me. Perguntei a meu filho Alexandre se por acaso ele havia  visto o livrinho e lhe dei as característica da obra: é pequeno,  de cor branca e tem uma capa em que os desenhos em preto me lembravam  folhas, com  alguns galhos de um escuro mais forte mais visível combinado com um folhas mais finas.
      O curioso é o título graficamente era em forma  de escrita à mão. Nos quatro cantos da capa havia um desenhos, também verdes,  que me sugeriam tratar-se de cercas. Claro que essa descrição pictórica desses desenhos  em tamanhos  e formas  desiguais me  davam a impressão de – digamos – cercas. Estou falando do angulo de perspectiva das  formas geométricas. No canto superior esquerdo da capa havia uma citação: “Where there is life there is faith.” (“Onde há vida, há fé”).
      Não entreguei os pontos,  procurei em outras parte, desta vez numa prateleira que fica ao lado do me computador, onde ponho alguns livros de referência, dicionários,  bem como   livros que pretendo  ler. Faço isso para dar alguma organização a livros que estão na fila  esperando  pela leitura. Não pense o leitor  que sigo arisca essa programação. Pode haver  quebra de percurso e, em caso como  esse,  e vá ler oro livro  das estantes  que tenho. Não são muitas, mas o acervo é bem quente. Contar como os consegui vai  render muitas crônicas.
      Depois de me aborrecer  injustamente com a minha esposa, coitada, que nada tinha a ver com  a minha   desatenção, fui novamente às estantes dos livros mais velhos. De repente, me veio à mente o meu querido santo dos objetos perdidos -  São Longuinho -, que já me salvara em outras ocasiões de grandes apuros. São Longuinho!  Me acuda,  eu vos peço agora!
    Retornei ao quarto do computador. Tive um  estalo. Por eu não procurar numa  pastas de plástico e de outras de um material de plástico mais  mole. Quem sabe, eu, descuidadamente,  ao guardar  algumas daquelas pastas, não deixei se misturar no meio delas o livrinho?
    Abri o armário grande e  de uma prateleira interna no alto, retirei as pastas. Eis que, ao colocá-las numa caminha de solteiro perto do computador, me lembrara  de que aquelas pastas se encontravam  horas antes na caminha. Com as pastas havia seções do jornal O Globo de sábado. Olhei, com muita atenção, pasta por pasta e – para surpresa minha  -  o livrinho estava entre as pastas e as seções do jornal. Agora, vou devorar-lhe as páginas. Estarei em boa companhia me pondo dentro da narrativa de  Tolstói.
    Agora, leitor,  não é pra  crer mesmo   em São Longuinho? Quem ousaria  me contestar?


        

quarta-feira, 25 de maio de 2016

LUIZ FILHO DE OLIVEIRA: POESIA, SÁTIRA E OS ENIGMAS DA LINGUAGAEM




  Cunha e Silva Filho



       Terceira livro de poesia do autor piauiense, antes precedida de dois  livros, Bardo Amor (2009),  2º prêmio Torquato Neto de Poesia  da Fundação Cultural do Piauí,  e Onde humano (2003), os quais lhe renderiam  visibilidade da crítica em seu  Estado  natal, Das bocadas infernéticas (Guaratinguetá,SP.: Editora Penalux, 2016, 146 p)  surpreende o leitor, seja  o  especialista  em literatura, seja o leitor  entusiasta de poesia,  pelo arrojo  de, desta vez,  ainda mais  radicalizar  seu perfil  poético  de escrever poesia  provocando  perplexidades  e indagações  pelo inusitado de versos  ferinos que, no geral,  prestam  tributo à glória  da  mordacidade de Gregório de Matos,  o  conhecido  “Boca do inferno”  do Barroco brasileiro.
     Não pense o leitor que sua radicalização formal  se restringe apenas à poesia  satírica por mera  imitação de temas de Gregório de Matos (1636-1696) . Este lhe serve como referência principal  e por razões de  admiração, porquanto  outros  autores da poesia ou fora da poesia complementam  uma espécie de linhagem  de autores  com os quais  estabelece  diálogos  fecundos  e  por afinidades   de visão  poética  ou  do mundo em que está visceralmente   inserido.
    Isso se comprova  explicitamente na primeira parte de título desabrido, Das bocadas, desse novo livro, através do “Envite aos vates assinalados a chiste abaixo assinado”, e aqui despontam as citações, primeiro,  a preferida, do mencionado Gregório de Matos seguido de Tomás Antonio Gonzaga (1744-1810), Bernardo Guimarães (1825-1884), Luís Gama (1830-1882), Juó Bananére (1892-1933), Owald de Andrade (1890-1954), do humorista Millôr (1923-2012), do cronista Luís Veríssimo, do poeta Chacal e do poeta Glauco Mattoso, este também  prosador e, se não me engano,  dicionarista de palavrões. No entanto, ao longo do livro, outras vozes,  Mário de Andrade (1893-1945), Carlos Drummond de Andrade ( 1902-1987),  Fernando Pessoa (1888-1935), Da Costa e Silva (1885-1950), Bocage (1765-1805)  se agregam com suas ressonâncias,  por vezes mal percebidas  pelo leitor  desatento.
   Dividido em duas partes, a primeira, já nomeada,  Das bocadas,  parte I, e a segunda, Infernéticas, parte II e, neste último vocábulo, ainda lança mão de um neologismo  formado, por processo de aglutinação: inferno + internet + sufixo adjetival –ica,  por derivação imprópria. ou seja, num só vocábulo alia dois processos de formação de palavra. Acredito  que essa tendência no poeta  é recorrente e  variada no tocante  ao prazer lúdico com  a manipulação de natureza   libertária  com a língua.
     Luis Filho, a meu ver, intencionalmente  divide o título  da obra em dois grandes conjuntos  de poemas, quiçá com a intenção, de parecer  “quebrar”  a suposta ou aparente  unidade temática  do livro, numa  atitude  de composição muito do seu estilo poético, que  é  desarticular para, em seguida,  articular.
    Tal expediente técnico nele aparece nas duas obras anteriores, já citadas. No volume, ao todo são 100 poemas,  46, na primeira parte e 54, na segunda.Graficamente,  ele apresenta  na primeira parte todos os poemas em forma  de letra escrita à mão, ao passo que, na segunda parte, os poemas aparecem em  letras impressas normalmente. A opção pela  forma gráfica de escrita à mão já aparece no primeiro livro, BardoAmar, mas não a emprega no segundo livro, Onde humano.De qualquer sorte, os aspectos grafemáticos  percorrem os poemas  do autor escritos até o presente e, portanto,  julgo  constituírem  parte  significativa  da iconicidade  inerente à poesia de Luis Filho.
    O que ousaria  afirmar é que esse poeta  parece sentir  o gosto  de  desviar-se dos cânones do verso tradicional no uso do espaço da folha em branco. Sua predisposição é no sentido de  se afastar dos parâmetros  convencionais,  busca a fuga a outros  esquemas tanto na disposição de exibir na folha branca o lado figurativo  dos poemas quanto  se deleita em  acrescer aos poemas, além dos  títulos,  à feição de alguns autores  do passado,  não títulos  breves, mas rubricas, no sentido de dramaturgia,  de cunho narrativo, expediente utilizados por ficcionistas e  alguns  poetas,  inclusive Gregório de Matos. Isso imprime, em alguns poemas, uma feição de narrativa, de algum relato no espaço da poesia.
    Esse desvio de convenções datadas, no plano   textual  se repete como estratégia discursiva, semântica,  vocabular e frasal. Quer dizer,  é nos  planos morfossintático-estilísticos que os desvios aos padrões mais se agudizam de tal sorte que enunciado e enunciação  sofrem rupturas, pondo em choque o leitor em luta  com o texto e sua opacidade, o texto e sua capacidade  de  desestabilizar hábitos de  formas menos complexas de enfrentar a leitura de poemas.
  Em outros termos, o texto passa a ser fonte de proposital “estranhamento,” amplamente adotado  pelo  Modernismo  brasileiro e por outros  modos de fazer  poesia  vanguardista (servindo de exemplo  o poeta Oswald de Andrade nessa fase de ruptura com os movimentos poéticos do passado),  procedimento  operado  pelo  poeta que  a crítica   vê como um  traço  primordial  da modernidade  poética: desautomatizar os hábitos   já consolidados  do leitor que ainda procura  na poesia a emoção,  o halo sentimental  ou romântico, a subjetividade  simétrica ao lidar com os temas da tradição literária - aliado à linearidade do verso tradicional anterior ao  Simbolismo. 
    Enquanto em  BardoAmar radicaliza, reitero,  os recursos  visuais e grafemáticos, assim como as desarticulações e a imprevisibilidade  da ordem morfossintática, Onde humano se comporta com menos ousadias enquanto subversões dos recursos espácio-grafemáticos e, nesse aspecto está mais aproximado de Das bocadas infernéticas – cujo epicentro  temático  é seu caráter  satírico. Por outro lado,  na tematização,  o repertório  poético  ganha mais um  componente,  que é o de  trazer sobretudo para a segunda parte do livro  os temas e situações  da linguagem das mídias  sociais e é nesse espaço do virtual que  o livro se realiza com toda a sua  energia  renovadora, podendo-se dizer que o  universo da comunicação pela internet  se constitui em um dos temas da obra, como se fora um personagem no campo ficcional.
    Uma vez, o autor me confidenciara que um  dos objetivos de sua   poesia  é  divertir, o que me leva definir  essa atitude artística como um  trabalho lúdico de fazer poesia em todas as suas possíveis  modulações. Entretanto,  se efetivamente  não se pode negar o fato de  que em grande parte de  seus poemas  podemos  identificar essa dimensão  do ludismo,   do jogo de palavras ou mesmo de  composição de estruturas frasais, há, por detrás desse técnica  ou estratégia , uma profunda    seriedade em tratar  de questões  sociais pelo viés de uma crítica   contra   as mazelas, as injustiças e os destinos do comportamento  humano.
    Em outras palavras,  a vertente  profundamente  social de seus versos  acompanha  a sua produção  desde a primeiro livro e só não chega à panfletagem   porque, acima do lado social  crítico há  a primazia  do estético, da assimilação da crítica social  pelo mecanismos   estéticos bem identificados  pelo  elevada importância que atribui ao gênero que cultiva.  Reitero que,  em primeiro lugar,  no poeta Luiz Filho  existe visceralmente  o compromisso  estético  com a linguagem .
   Releva um  pormenor  que não se pode jamais  deixar de levar em consideração ao  analisar  a poesia de Luiz Filho: o funcionamento criterioso  da linguagem  como forma  de  construção de seus poemas  já muito bem  identificado pelos títulos, tanto na primeira parte do livro quanto na segunda, nos quais  a função metalinguística   nele    se mantém  sempre  presente, o que me remete, em certo sentido, por exemplo, à justaposição de palavras formando frases, ocorrente  no poeta norte-americano e.e.cummings (1894-1962)). Neste sentido, cabe  um exemplo de Luis Filho no poema  de título #LiçãoDeLínguasEm Lesbos, do qual citarei apenas uma parte inicial::#EmpênisSêmenDuro/#EEsseSeuPúbisEuchuloO/EBeijoONumLugarComumEEsses SeusLábiosEngulo-Os ( ...) 
   Com referência a modos renovadores e experimentalistas de fatura poética, no Brasil, poderia pensar em Manuel Bandeira (1886-1968) pela versatilidade de transformar  temas apóeticos em  grandeza poética. E, em certos modos de inventividade, em Da Costa e Silva, no poema “À margem de um pergaminho” e nos  conjunto de poemas  de título “Poemas à maneira de.”
    Na segunda parte do livro, o núcleo temático  imbrica  temas socais e situações  da experiência  da comunicação virtual,  cuja base é o mundo cibernético  que, embora  fazendo parte  da vida do autor, é ao mesmo  tempo   material  para fazer dele  objeto de crítica  desabrida. Por isso, usa e abusa do terminologia  virtual. Há uma profusão de termos  da informática percorrendo praticamente a obra inteira. Ao acaso,  veja-se o poema”Assalto à mão teclada” (p.93) percorrendo toda a extensão da segunda parte. Esse vetor tem que ser levado em alta conta na interpretação  de sua  poética  tipificada  no livro: Com a tela em coberta toda/por um tecido de códigos,/cobrindo o rosto de propósito,/um hacker./ Le-assaltou agora,/há segundos atrás num chat,/quando le-apontou um mouse velho/ e levou do bolso do poeta o quanto/Ele teclou texto em sua conta,/-Cpylantra!
   Os temas atingem uma multiplicidade de segmentos  da sociedade, sobretudo urbana: políticos,questão indígena,capitalismo, indivíduos desonestos, meio-ambiente,  sexo,  amor virtual, miséria, fome, publicidade  enganosa, redes sociais, a poética, a linguagem etc. Em síntese,  Luis Filho parece querer abarcar todos cantos do espaço sem fronteiras e os seus versos   cáusticos pululam aqui e ali  numa  acumulação  de nomes  literários,  de figuras  universais, de lugares e de    situações  múltiplas  da existência.
    Não é numa simples resenha  o lugar ideal  de abarcar  os diversos   segmentos linguísticos e temáticos do livro, todo ele  ubíquo,  multifocal, literariamente atemporal, combinando modos de vida e de  pensar plurais, num exercício de composição poemática que, do solene e do dessacralizado, da abundância escatológica  sem arestas nem preconceitos, sem receios de melindrar as hipocrisias das convenções sócias   oportunistas para uso externo, escolhe sua matéria  poética feita do bem e do mal,  do feio do belo, da comédia e da tragédia.
    Recolhendo a diversidade da condição humana até onde for possível   e mediante recursos vários, até não se furtando ao trabalho de aproveitamento de tudo que, em termos tradicionais, não é considerado digno de matéria poética,   está certo de que, no terreno da arte, não pode haver um discurso  único, mas vias multifárias de transformar  a vida e tudo  que possa haver no mundo  em arte, anulando  as  interdições  como formas de liberdade de linguagem e formas  desafiadoras   do lugar-comum.
    Se sofremos com  o excesso de  referências  e da  retórica  no estilo  do poeta, levando-o a um hermetismo  que pode afastar  leitores menos afeitos ao  fazer poético  da pós-modernidade, ganhamos igualmente em termos de novas maneiras de manifestação  poética da linguagem e pela linguagem.
   De tanta consciência o autor tem dessa quebra de normatividade de elaboração poética (trocadilhos,  inversões sintagmáticas e verdadeiros torneios  frasais que se aproximam do nonsense, dos jogos  engenhosos  de frases,  provérbios etc que,  no segundo livro, Onde humnano, ele oferece ao leitor, no final do livro, “notas numeradas” e “notas avulsas,” onde se elucidam alusões a autores, expressões linguísticas lexicais antigas e modernas e regionalismos brasileiros. Já em Das bocadas  infernéticas,  ele deixa  a tarefa de garimpagem e de decifrações  ao leitor  avisado ou desavisado.
     É bem provável que, mais tarde, passada essa fase experimentalista,  o poeta, como o fez um Ferreira Gullar na fase inicial de sua poesia,  retome o lado mais adequado ao lirismo  da poesia  do futuro, com maior discursividade embora não se  desfazendo de todo do traço  da imprevisibilidade que é fruir o poético ainda que  atravessado pela  apreensão da não-totalidade do  discurso poético de nossos dias, cada vez mais tão pleno de referências alusivas - já  há  tempos  profetizadas pelo crítico I.A. Richards (1893-1979) -   e, muitas vezes, impenetráveis. Quiçá seja isso o que  torna a poesia um gênero permanente, campo privilegiado  da sensibilidade e  da beleza.    
   
      

        

sexta-feira, 20 de maio de 2016

LEMBRANÇAS DE RUI BARBOSA





                                                              Cunha e Silva Filho


                 Não sou  especialista das obras  jurídicas e literárias legadas  por Rui Barbosa nem tampouco da sua biografia. Sou apenas um admirador  do seu talento. O que exponho neste artigo são comentários  alusivos  a esse brasileiro afamado sobretudo pela sua  grande inteligência, saber  jurídico,  sua erudição espantosa,  seu conhecimento  humanístico, sua vocação  para as línguas  clássicas e modernas, alguns lances de sua  vida pessoal  que vim a saber, um dos quais  através  do meu pai, ou que eu mesmo  colhi da pouca leitura que fiz  da sua extensa  e variada obra. Nem mesmo cheguei a ler por inteiro  a importante  biografia  de Rui escrita por  Luís Viana Filho, membro da  Academia  Brasileira de Letras. Um velho exemplar tinha  desse livro na biblioteca de meu pai que,  por lapso de memória,  não  mencionei em livro que vou lançar  brevemente.
             Tanto no  período de adolescência em Teresina  quanto  no meu  tempo  de residência  no Rio de Janeiro,  a figura  de Rui esteve de alguma forma  presente no horizonte de minhas leituras. Primeiro,  através de textos   dele incluídos  em livros didáticos  e aqui me recordo de que, num livro do professor  Enéias Martins de Barros para os anos  do ginásio,  havia uma epígrafe   utilizada numa das primeiras páginas de um volume, que dizia (e de que jamais  esqueci):”Uma raça, cujo espírito  não respeita  seu solo e seu idioma,  entrega a  alma ao estrangeiro antes de ser por ele absorvida” Não me dei ao trabalho  de localizar a obra em que  essa frase   se encontra nem é meu propósito  nestas linhas.
           Ora, ao  reler ou relembrar aquela citação de Rui,  sempre a associei à condição dos cidadãos, no caso,  brasileiros,  que  preferem  falar melhor e escrever  uma, duas, três ou mais línguas estrangeiras sem se aprofundar, primeiro e principalmente, no seu  próprio idioma. Não é exagero o que lhe falo, leitor,  sobre  esse tipo de pessoa.Delas há e muitas. Não dominam  o vernáculo e já saem por aí  vendendo a alma ao  estrangeiro.
          Entretanto,  me parece procedente a  crítica de Rui dirigida  a  uma espécie  de  gosto  e de submissão  eurocêntrica ou  americanófila  não só de hoje mas no passado. Sendo um vernaculista extremoso, um fascinado  pela língua  portuguesa,  um  prosador  clássico, que bebeu nas fontes de Vieira,  de Camilo e de Castilho, ou como  didaticamente, Enéas Martins de Barros definiu suas qualidades  de estilo de linguagem, ao dizer que de Vieira aproveitou   a correção, de Camilo,  o vocabulário de Castilho,  a harmonia. Alfredo Bosi ( na sua História  concisa da literatura brasileira) refere também, na aquisição de seu   estilo, as contribuições da cultura clássica de Cícero, Quintiliano, Isócrates e, em língua  portuguesa,  ainda  inclui a influência do potencial  léxico de Herculano, a sintaxe de Bernardes
         Diante de tais atributos estilísticos,  Rui tinha  condições  de  censurar  aqueles   que relevavam a sua língua-mãe a um plano  secundário com  relação   à  outras línguas modernas. Com o seu espantoso  conhecimento  da língua portuguesa,  podia-se dar ao luxo de dominar  outras línguas,  como  o inglês, o espanhol, o francês, o alemão.
       Me contou meu pai – admirador  de Rui a ponto de, em Amarante, PI,  fundar uma  escola  a que deu o nome de Ateneu  Rui Barbosa -  que, certa feita,  no tempo  em que  morava no Rio  como estudante  salesiano,  tendo ido a um colégio em Petrópolis, lhe disseram que há uma semana  ali  havia  passado  Rui Barbosa  em visita  ao colégio. Um estudante,   vendo Rui Barbosa caminhando por um corredor à sua frente,  lhe dirigiu  essas palavras: "Viva  o reverendo (sic!) Rui Barbosa!” Rui,  voltou-se para ele e lhe deu um sorriso. Houve uma  gargalhada geral dos coleguinhas  do  pequeno  estudante.
      Na Academia   Brasileira de Letras,  da qual  Rui foi  fundador  junto com Joaquim Nabuco,  Machado de Assis e Lúcio de Mendonça, meu pai  dizia que só  por  um acadêmico  Rui revelava   especial  respeito do ângulo filológico  e de polemista,  o  exímio latinista  Carlos de Laet.
      Na voz do povo, Rui  era o máximo, o mais  inteligente brasileiro de então. Nascera em  Salvador,  em 1845. Morreu em Petrópolis em 1923.
      Ainda me relatou meu pai,  em  costumeiras conversas  comigo em Teresina,  que, uma vez, indo para Petrópolis,  Rui  começou a  conversar com um companheiro de viagem  sobre assuntos  gerais,  os quais,  depois,   se voltaram  para  temas de  medicina. A uma  certa  altura do diálogo,  o companheiro de Rui lhe perguntou: “O Sr. é médico?” “Não, sou   advogado.” “Pois, senhor,  eu tinha quase a certeza de que o senhor era médico pelo conheci mento  que revelou ter dessa  área de  estudos.” 
      Perseguido por sua ideias políticas contrárias ao governo de  Floriano  Peixoto,   Rui viu-se obrigado a se exilar na Inglaterra.Logo que  pisou  em solo britânico,  Rui mandou afixar um cartaz  - creio -  no lugar em que foi  morar,  com os seguintes   dizeres: “Ensina-se inglês aos ingleses.” Esse período de residência em Londres, redeu-lhe uma obra Cartas da Inglaterra(1896).
     Jurista de fama  internacional, Rui Barbosa  teve o grande  privilégio de ser convidado  para representar o Brasil  na Segunda Conferência de Paz em Haia (Deuxième Conférence de la Paix. Actes et Discours, La Haye,1907), na qual  brilhantemente defendeu a situação das  “pequenas nações.” De sua  atuação formidável como orador   e  intelectual  de assombroso  conhecimento  jurídico, sendo aplaudido entusiasticamente por  diplomatas e estadistas presentes, veio-lhe a conhecida  antonomásia de  “O águia de Haia.”     
     Outra participação de alta relevância do grande estudioso, político, escritor,  tradutor   e orador  brasileiro  foi  a polêmica filológica   que travou com um seu ex-professor de língua  portuguesa de Salvador,  Dr. Ernesto Carneiro  Ribeiro a propósito da “Redação do Código  Civil Brasileiro.”  Dela   resultou uma obra   de alta profundidade filológica, Réplica (1903).        
     Essa  famosíssima  polêmica entre Rui e seu ex-professor de língua portuguesa merece uma síntese  de seus  fundamentos.  A raiz da polêmica   foi  a  redação do Código  Civil  a ser elaborado  pelo  jurista Clóvis Beviláquia  a pedido do  então Ministro da Justiça, Epitácio  Pessoa, no governo do presidente Campos Sales.  A redação  de Clóvis  Beviláquia  valeu-lhe  várias censuras  por parte de Rui Barbosa. Para contornar  esse impasse,  foi incumbido de  fazer a revisão do Código Civil o respeitado  professor, Dr. Ernesto Carneiro  Ribeiro.    
        Rui Barbosa, a despeito disso,   não  concordou com a revisão  feita pelo ex-mestre, sobretudo  no terreno da gramática e por isso apresentou, na condição de presidente da Comissão  do Senado,  várias  folhas de apontamentos  mostrando   suas discordâncias  gramaticais  em relação  à revisão de Ernesto Carneiro  Ribeiro, que, por suja vez, rebatendo as críticas de Rui, redigiu o texto “Ligeiras  observações sobre as emendas do Dr. Rui Barbosa”   e o fez publicar no Diário do Congresso
       O Código  Civil  foi  aprovado, mas a polêmica entre Rui e seu  ex-professor continuou até que  Rui,  organizou seus  apontamentos  e suas  divergências  numa das obras mais  respeitadas  no  domínio da filologia  portuguesa, considerada pelos estudiosos  como um “monumento”  de estilo e de profundidade  de  conhecimentos  do vernáculo.  
      Foi a mencionada  Réplica. Seu ex-mestre, por seu turno,  não se deu  por vencido e resolveu  dar uma outra resposta  às censuras  de Rui,  fazendo vir a lume  a obra Tréplica, a versão em livro  criticando as emendas  que  Rui Barbosa lhe  fizera à  revisão do Código Civil de Beviláqua.
     Assim que cheguei ao Rio, em 1964,  adquirira um livrinho  das Edições de Ouro que constituíam  um apanhado de cartas de Rui Barbosa dirigidas à noiva, Maria Augusta. Não recordo mais do título. Contudo,  ficava admirado  do estilo  epistolar  de Rui à sua amada, com  comoventes  declarações de amor  e de  afetividade, escritas em estilo  menos   arcaizante,  menos clássico, e apenas  refletindo  o gênero  mais leve da comunicação  familiar  e amorosa. Li aquelas cartas de Rui no intervalo de viagens de  trem   do subúrbio  da Central para o centro do Rio nos meus primeiros  meses de vida nessa cidade.
         Me lembro de  que eram  cartas  cativantes  onde o  grande  escritor e homem publico  mostrava  seu lado  mais  íntimo de manifestar  seus sentimentos  com traços  até românticos. Me  vem à mente  outro livro que,  à época,  li de  Rui  Barbosa. Era um ensaio  biográfico  sobre José Bonifácio, um livro  digno  do melhor  estilo  ruibarbosiano. Esse ensaio  mencionei  no meu livro As ideias no tempo (2010).  E uma frase  dele me ficou marcada  na memória: “A morte nos cerca de todos os lados.” – sentenciava  Rui.   Outro  texto  fundamental que li de Rui é o conhecido “Oração aos Moços” -  um belíssimo  texto atualizado, na sua abrangência  ética, até para os dias de hoje.

        Por outro lado,  outra carta  de Rui que,  salvo erro,  li na obra  de Luís Viana Filho era uma carta  em inglês  de Rui a alguém no Brasil, não sei se endereçada a uma amigo ou a um familiar. Só relembro que a reprodução da carta escrita à mão, em fac-símile,   tinha uma letra miúda,  com  rasuras no corpo da missiva e, por incrível que parece, foi nessa carta que  aprendi o que em inglês  queria dizer a  linda  palavra "orvalho" (em inglês,“dew”), assim aprendida naquele contexto  epistolar e não num  texto  de uma  obra  de ficção ou poesia. A memória tem dessas coisas que nos surpreendem na aprendizagem de uma língua. Minha memória é visual, léxica,  fisionômica,  em geral sinestésica.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

QUE NÃO VENHA MAIS UMA TRAGICOMÉDIA NACIONAL



                                                            Cunha e Silva Filho



                É claro que a permanência da presidente  Dilma Rousseff chegara a um  fase clamorosamente   inaceitável à situação financeira do país. Inflação crescente,  desemprego na casa de milhões, situação  extremamente  aflitiva  das finanças de alguns  estados  brasileiros (Rio Grande do Sul e, Rio de Janeiro)  sucateamento dos serviços da saúde pública, violência calamitosa,  escândalos  e mais escândalos minando os cofres  públicos em consequência da roubalheira via propinas, superfaturamentos e  descarados conluios entre o governo  e mega-empresários. Para  piorar ainda mais  os desmandos em que  ficaram as finanças do Estado Brasileiro,  vieram à tona   as chamadas  pedaladas fiscais proibidas  pela legislação  e feitas  à revelia  da aprovação dos Congresso.
            O dado técnico da improbidade fiscal  utilizada pela presidente, a meu ver,  não é matéria prima  da sua queda do poder, mas um conjunto de fatores   que, somados, vão configurar  um governo  perdulário, esbanjador,  excessivamente   permissivo  com o dinheiro  do povo. .Quer dizer,  a me ver,  foi a quebra de ética, a ausência de  decência no trato da coisa pública que levou  ao afastamento da  Senhora  Dilma Russeff.. Se é verdade o que o novo governo  recém- instalado  anda anunciando  à mídia, no que tange à falência financeira do Estado, que até pode haver a possibilidade de atraso de pagamento dos salários do funcionalismo federal, é porque algo muito  catastrófico  já iria surgir no  próprio  governo petista.  Não me lembro de que, na história dos governos federais,  tenha havido  semelhante  possibilidade  atraso de salários. 
         Ora, o governo atual, mesmo em grandes dificuldades  financeiras, que chegue ao  ponto  da tragédia de  atrasar pagamento  dos salários federais, não está isento  de culpabilidade   imputada  ao governo anterior, visto que foi  uma das bases aliadas  mais  sólidas do governo  petista. Refiro-me sobretudo ao PMDB. Agora,  como ficaria  se essa  situação chegasse a se materializar? As altas autoridades, a começar  do presidente,   já tiveram  aumentos em seus salários e mordomias sempre  generosas porque os aumentos são por eles mesmos   determinados  no poder legislativo  e no senado. No judiciário, idem e, no executivo,  idem.
        O atual  governo já vem anunciando indiretamente  por vezes o  ressurgimento da CPMF, o aumento de impostos,  dos juros, que são já considerados os mais altos do  mundo. Ora,  estamos   numa fase  de recessão,  de  desemprego, mas também  estamos  em inflação. O custo de vida está muito alto, sobretudo em remédios e alimentos. O transporte de massa é caro. Havendo falta de pagamento  para o funcionalismo  federal, como ficarão situações  do tipo  prestação da casa  própria financiada  pela Caixa Econômica? Como um funcionário  público  federal  irá pagar  a mensalidade  de mutuário se o governo deixar de pagar em dia seus  vencimentos?  Essa questões,  de alta  relevância social,  é que têm que ser analisadas com rigor  e com  responsabilidade  de quem  comanda  a vida  financeira nacional agora. 
      O governo  tem que cortar ainda muito mais o número de ministérios, retirando os funcionários desnecessários, os chamados cabides de emprego arranjados por vias do fisiologismo e do compadrio  político. O governo atual deve  reduzir  as mordomias  nos três poderes,  caso contrário,   ficará na mesma   regalia  do  governo  afastado.
    Sabemos  que,  a despeito de todas  as falhas, erros e  falcatruas do governo   anterior,  não me parece em absoluto  que  possamos  atingir  um quadro aflitivo  da máquina do Estado  no que concerne  aos vencimentos do funcionalismo  federal. O de que o atual  governo  necessita é de  baixar os juros  shyloquianos,  os impostos  exorbitantes,   os aumentos de todos os produtos determinados  pelo  próprio  governo federal a  fim de  arrecadar  mais e mais. Por que, nunca  pensam   os governantes  em,   temporariamente,  congelar  alguns produtos  vitais,  dos itens de alimentos e remédios? Quem sofre com  a inflação são os menos protegidos, os pobres e miseráveis.  Em seguida,  partes  da classe média (entendendo-se  que, no  pais,  há classes médias  e não  “classe média” simplesmente).
    Ora, ao anunciar  sacrifícios à sociedade,  o governo  deverá começar  pelos altos escalões de privilegiados  dos três poderes a fim de dar exemplo de  probidade administrativa. No país,  nunca houve redução de mordomias dos três poderes, sobretudo de deputados e senadores, ministros,  desembargadores,  dirigentes  de estatais,  dos bancos federais etc. Se o Estado  Brasileiro está mal de finanças, repito, então cortem-se as mordomias  de ponta a ponta.
  Não vivemos  numa  realeza em que os imperadores  ou reis  levam vida  de  milionários  à custa  da sociedade. Se o atual e  incipiente governo  quer mudar  a fisionomia  do país,  é preciso   refletir sobre  todas essas questões de interesse social. E com transparência. Não ajam as autoridades só tecnicamente, mas com o coração e a consciência  de dar mostras eficazes   de que estão   fazendo mudanças  para a  melhoria da sociedade, sobretudo dos mais  necessitados. Sem populismos Sem  novos escândalos. Sem propinas. Sem superfaturamentos. Sem novos-ricos. Sem arrivistas. Sem mistificadores. Sem presidentes parvenus às expensas  de malversações públicas.   Sem envolvidos  na Lava-Jato.  Sem  rapinagens. Sem mentiras perniciosas de campanha para ganhar votos de  pascácios ignorantes  e de fanáticos, incluindo  intelectuais  que  sonegam de propósito os erros  de canalhas  e de  vendedores de sonhos e simulacros.

  O lema do Brasil que queremos poderia ser  esse: ética no governar e respeito aos eleitores. Se não, as mudanças que  queremos como  povo  continuarão  sendo apenas palavras de retórica de início de  um novo governo que de novo  só teria  o significante do signo linguístico.  O Brasil não  precisa apenas  de significante  - mero som vazio  de verdade e de realizações  comprovadas.  O Brasil precisa do todo do signo: do significado.