quinta-feira, 23 de julho de 2015

Tradução do poema "The road not taken", de Robert Frost (1875-1963)





The road not taken


Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one  traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in  the undergrowth;

The took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for  that the passing there
Had worn them really about the same,

And both  that morning  equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back,

I shall be telling with a sign
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a a wood, and I__
Took the one less traveled  by,
And that has made all  the difference.


O caminho  eleito

Numa mata amarela dois caminhos havia,
Lamento, os dois seguir não  poderia.
E deles ser o escolhido  solitário viajante, daí um  tempo  esperaria
Examinando um deles tanto quanto  podia
Alcançar a minha vista até onde a curva fazia. na mata rala;

Segui, então, a outra  trilha, tão perfeita quanto  vistosa
Mas quiçá maior fascínio pra mim  exercendo
Visto ser virgem e de ramagem viçosa;
Conquanto o trilhasse como o outro,
Na mesma situação  o deixaria,

Naquela manhã, ambos permaneciam igualmente
Livres, sem nenhuma folhagem pisada e estragada.
Oh, ainda assim, o  primeiro  caminho pra outra vez deixei!
Posto que ciente  estivesse dos rumos de um caminho,
Dúvidas pairavam se algum dia  voltaria.

Suspirando, tudo isso direi
Em algum  lugar daqui a muitos e muitos anos:
Dois  caminhos havia numa mata e eu__
Resolvi seguir o menos  palmilhado.
Esse foi de tudo o divisor.


                                               (Trad. de Cunha e Silva Filho)
.



terça-feira, 21 de julho de 2015

Extremos que se tocam: política e violência no Brasil








                                                                      Cunha  e Silva Filho



           Aviso aos leitores: este texto não é um ensaio nem um  estudo  de especialista. É, antes,  de um observador dos fatos que acontecem em meu país e para os quais só aspiro a contribuir para lançar algumas  ideias com vistas à melhoria  de nossa sociedade.
Afastado há dias de temas  sociais, retomo  agora  temas que estão intimamente  interligados  no meio  brasileiro: as questões da  política  e da violência. Numa e noutra  há pontos  convergentes   que se equivalem, que se aproximam e são praticamente semelhantes se levar em conta componentes como  caráter  do  povo brasileiro,  condição  social  degradada  da população  e a famigerada   impunidade.
Creio que  o noticiário  da política  nacional,  mesmo  visto  pelas chamadas  das manchetes de jornais,  não é nada  abonador à imagem da situação – agônica -  em que  partidos  em geral e, sobretudo o PT, nos envolveram  e, o que é pior,  nos   envolveram  à nossa revelia.
As lutas intra-partidárias ou interpartidárias, ora  semelham a uma comédia, ora a uma tragédia  grega. A violência de parte a parte serve a um  propósito: confundir  as consciências alienadas  da maior parte da sociedade.O poder  delegado  aos  políticos  só é legítimo  porque  alguém,   sem  comprometimento   político algum,  por vezes por mera  farra ou molecagem, elemento  carnavalizador  do  votante  brasileiro,  vai às urnas  de forma  compulsória e vota  em  candidatos  sem a mínima   condição de  representar  o povo, e aí temos os  humoristas de segunda  classe, os artistas  oportunistas (até rimou), os esportistas   aproveitadores de seu passado de glórias  e de mau-caratismo. Seria isso  representação lídima de um  povo?
Não,  isso nunca  foi nem será  pleito eleitoral   verdadeiro, mas uma farsa  cooptada, consciente ou  inconscientemente, pelo  próprio  povo desunido,  dividido  em classes e,  assim,  presa fácil  do “reinado”  dos demagogos e dos politiqueiros de longa  e  breve data.
Por outro lado,  o  país  se modernizou. Funciona  até bem  em alguns setores  que até nos causa  espécie. O país é outro, se informatizou,   tem shoppings  espalhados  em muitas  partes  ao longo de seu  território. Os shoppings se tornaram uma espécie de segundo lar  do brasileiro. Desta  forma,  nos dá a impressão de que  vivemos bem no meio de  tanta   suntuosidade,  riqueza,  produtos sofisticados de comunicação  instantânea.
Os restaurantes de classe média, nos fins de semana,  sempre se encontram  lotados de gente com apetite pantagruélico. As bebidas  rolam  pelas goelas abaixo, os carros de luxo   desfilam pelas  ruas da alta   burguesia. A ilusão de ótica  nos dá a impressão de que estamos num mundo paradisíaco, num Éden, não  o bíblico,  mas o  do hedonismo  exibicionista,  uma afronta,  de certa maneira,  às camadas mais  precárias de nossa   sociedade, os merdunchos da vida, os esfolados  pela engrenagem  do capitalismo  mal  assimilado. 
Enquanto isso,  no Planalto,   as lutas  persistem  aguerridas.    Parte da oposição rompe com o governo  petista via presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, o qual, por seu turno,  é acusado de também ter recebido polpuda propina   de empreiteiras. Ou, por outra,   o oposicionismo  pró-governo federal (que confusão dos diabos e ausência de vergonha na cara a um só tempo!)  já não sabe  quem  é quem  no reinado  da luxúria  e da prestidigitação da politicalha.
Pipocam  as denúncias,  as delações   premiadas. Os executivos, com  a burra  cheia de dólares, depositados não sei onde,   surgem  perante os  telespectadores  das TVs ou das páginas dos jornais. Estão mesmo  presos ou apenas não passa  de um palco de encenação simbólica, de um simulacro?  Quero acreditar que não, que as prisões valerão  e serão cumpridas, não nos domicílios  dos acusados, mas atrás das grades para a execração pública e lição aos que  tentarem novas  maquinações   contra o dinheiro   do povo. Isso se as denúncias contra eles forem  realmente comprovadas. Aí sim,  passarei a crer em alguma  coisa séria do Estado Brasileiro e de suas instituições.
Entretanto,   enquanto os sinos  badalarem pedaladas   de reais  dos  governantes   no poder  à busca  voraz  de pecúnia   para  sustentar  a barriga  dos pobres e dos falsos  pobres que se beneficiam   do bolsa-família   e queijandos, manterei  minha  posição  firme  de descrença e de repúdio  contra o governo  petista. O Brasil, por enquanto, me parece caleidoscópico, camaleônico,  macunaímico, banânico,  bruzundanguense, em suma,   uma  miragem  perigosa  no deserto das ações  dos Palácio do Planalto.
Nesse ínterim,  na rua,  nua e crua,   a delinquência corre frouxa e sem medo  da decantada   redução da maioridade. Crimes hediondos são praticados diuturnamente,  notadamente nas grandes  cidades brasileiras, por  adolescentes  bandidos.  Oh, desamparados, coitadinhos,   “filhos” da  injustiça   social que,  no mínimo, em doze anos  de petismo   antropofágico, mistura  princípios  de  democracia de fancaria,  autoritarismo e  esquerdismo caviar.
Falso esquerdismo,  amante  dos louros do neoliberalismo, das viagens a Miami,  Nova Iorque e países  adiantados da Europa e de outros continentes  que estão na moda,  embora,   a todo  instante,   ameaçados do terrorismo  mundial fundamentalista. É a esquerda postiça, mui amiga dos pobres desde que fiquem sempre  pobres  e ganhem  as migalhas  do assistencialismo  populista. Contudo,  é uma “esquerda” que adora os  produtos  do capitalismo,  amam Nova Iorque,  os hotéis sofisticados,  a indumentária   dos milionários,  os carrões de luxo  e  a dolce vita  dos bacanas.”  Só  sociólogos europeus, norte-americanos e mesmo   brasileiros  de gabinetes,  avessos  ao contato com a arraia-miúda, posam de defensores do Lula, político  guindado a segundo  “pai dos pobres” de nossa  combalida Nação. Lula atualmente goza de uma posição  ambígua: a de  ser um  homem  bem  sucedido financeiramente  e de  estender  tudo isso à sua  família ilustre  que ama o doce capitalismo,  cujos frutos  já se multiplicam aos olhos   da patuleia basbaque e analfabeta
Esta a pátria amada  idolatrada, salve, salve que, com tantas evidências,  deixam, incólumes,  pelo menos  dois  responsáveis  pela  ópera-bufa  encenada  desde a guinada do embuste  esquerdizante do   voto  conseguido  às expensas  das  milionárias  propinas  do dinheiro  dos lucros das grandes estatais  através de diretores  nomeados pelo governo   federal  em conluio com grandes  empreiteiras e políticos  do governo   ou de partidos     aliados a ele.Tais  diretores de estatais se tornaram, destarte,      verdadeiros donatários baseados na Petrobrás e   disfarçados de bom-mocismo a serviço do “bem-estar” da Nação brasileira.
          Se no alto da pirâmide exemplos de lisura,  de  dignidade profissional,  de ética   pessoal é moeda  podre,  como  os que  estão na base da pirâmide podem se espelhar na ausência completa de caráter? Ora,  um país assim,  não pode dar certo. Conhecendo a estrutura  parcial  das leis brasileiras permitindo que a impunidade   passe ao largo dos graves  problemas   da violência  crônica  e   crescente  no dia-a-dia da nossa sociedade,  o cidadão  honesto,  contribuinte dos impostos,  vítima dos  juros  estratosféricos  que  funcionam como   se fossem  estelionatos   sob  a proteção  das leis do mercado, vive  sobressaltado de todos os lados, i,e,, vive  por sorte,  por milagre, em cidades   sem  a devida   e necessária  segurança que se espera há anos   das autoridades  responsáveis, tantos nos níveis municipais, estaduais  quanto federal. 
          O país está  hoje sofrendo a pior fase  de violência de toda a história brasileira. Os assassínios cometidos  se tornaram  banalizados. Apenas se noticiam  como dados  estatísticos. Os governos  estaduais e o federal não se importam mais com as matanças  de seres humanos. Assassinam-se pessoas de todas as idades por roubos de bicicletas, de motos, de carros,  de  “saidinhas de bancos,”  de assaltos à propriedade  privada,  de crimes  para compras  de drogas, de crimes no trânsito,  por estupros, seguidos de morte, de meninas  indefesas, de mortes sem motivação, ou seja,  mata-se  só por crueldade.
       Em quase todas  estas situações sumariamente   citadas aqui, sinto que  há um profundo vazio  de  compromisso do governo  federal para equacionar, com urgência  urgentíssima,   o teatro de horrores em que  se atolou o nosso país para  vergonha dos  povos  civilizados. Ainda mal  consigo  acreditar  como um país tão  atraente  turisticamente  como o nosso ainda  encontra   pessoas que viajam. É temeroso viver, agora,  no  Brasil,  sair sozinho a qualquer parte da cidade. Sempre ficamos com a pulga atrás da orelha. Infelizmente,  a população, sobretudo os mais  necessitados,  tem que sair de suas casas e enfrentar  o batente.
        Para os que creem só restam as orações,  os pedidos a Deus   a fim de que nos  poupe  do fantasma  da violência. Para finalizar, que Deus  nos  livre  da camarilha  pela qual é regida  em geral a  política brasileira. Que os órgãos de investigação da  Lava Jato encontrem os culpados da nossa  caótica crise financeira, não obstante intuirmos que não é tão  complicado assim indigitá-los com quase cem  por cento  de certeza.


quarta-feira, 15 de julho de 2015

O milagre, não o suave de Eça de Queiroz





                                                        
                                                                  “Obed é rico e tem servos.”
                                  

Cunha  e Silva Filho



       Chegando ao meu apartamento,  me dei conta  de que  não se encontrava na minha  carteira de dinheiro a minha  identidade. Eu havia  ido à farmácia com a minha mulher  comprar  um remédio.Senti um calafrio como se  tivesse  visto um fantasma.   
         Um fantasma diferente, um   fantasma que  nos provoca  medo e apreensões. Era a quase certeza de que, perdendo um  documento  tão  vital como a identidade, equivaleria a  vislumbrar um série de  problemas  que  iria enfrentar: não poder  fazer uma retirada  de maio  valor no banco,  não poder  abrir um  crediário,  não  poder  irar um  passaporte, não poder  fazer compras com cartão de crédito que exija a comprovação  da identidade  do comprador, enfim,  a perspectiva  de não poder fazer isso tudo  me  deixava arrasado,  apavorado,  perdido  como  uma criança  na multidão. Como iria  provar quem  eu era diante  de um situação que  me obrigasse a exibir a minha  carteira de identidade.
       Neste país chamado  Brasil,   o domínio da burocracia  tem força  de lei. Se você vai a uma repartição  pública e lhe faltar um item  de uma documentação   exigida,  você  fica  travado, de mãos atadas. Um vez, um ministro brasileiro desejou  desburocratizar a máquina  administrativa  do país,  mas tudo foi  debalde. Alguma coisa ele fez, mas o grosso  da mania  da exigência do papelório teima  em ser uma lei consuetudinária. Se não  se tem  tudo  o que se nos pede em matéria  de  documentos,  nada se consegue.
      O atendente  da burocracia fica  até  irado quando alguém  lhe entrega  tudo que lhe foi  pedido a fim de   conseguir alguma coisa de natureza burocrática. Somos uma sociedade cartorial,   tabelionária,   documentária.Até para morrer,  se o de cujus  não estiver  direitinho  com  as exigências  da burocracia para esta difícil  e traumática  passagem  da vida para o  andar  de cima,  ele ficará  em estado de putrefação ou senão  volta  para  a geladeira  dos necrotério.
    A burocracia  ainda tem  fortes elos  com  os tempos  do  Brasil  colonial, das capitanias  hereditárias, dos tempos dos  meirinhos do Rio de Janeiro  joanino. O que neste país  vale é o documento. A palavra  empenhada de nada mais vale. Tudo deve estar  escrito e  chancelado no cartório. Meu reino  pela  burocracia!  - a única  força-motriz que leva este  país  para a frente de não sei de quê...
     Diante de toda  esse calvário, me encontrava  completamente desolado e sem  chão. Onde foi  cair a bendita   identidade? Foi na farmácia? Perdeu-se em casa em alguma pilha de  papéis? Minha mulher me  sugeriu  a possibilidade de voltar à farmácia  a  fim de ver se eu  deixara  caída no chão  a minha  identidade. Então,  a minha pobre  mulher decidiu  ir  novamente à farmácia. Ao chegar lá,  perguntou  a  vendedor com quem  fizera a  compra do remédio se ele por acaso  não  vira uma identidade no chão, ou se um cliente  honesto  a pegara e entregara aos cuidados da farmácia. Qual nada! Ninguém  vira minha identidade. Voltou para casa  desolada.
   Enquanto minha querida cara-metade  estava  na rua para ver se encontrava a minha carteira,  em casa  eu revirava tudo: gavetas,  fichários,  armários,  pastas etc. Tudo fiz para  não ter nenhuma dúvida de que  a identidade não  estava comigo.
  Olhei,  examinei todas as divisões de minha velha  carteira de dinheiro e nada de encontrar a identidade. Meu medo era  que algum  malandro a encontrasse e fizesse algum mal  a mim, ou seja,   retirar a minha foto e, em lugar dela,  colocar a foto de alguém com  alguns  traços   que indicassem pertencer à minha   faixa etária ou,  por outras artimanhas, falsificar meus dados  pessoais,  inclusive  meu CPF, e transferi-los  para  terceiros. Meu pavor  era ser vítima  de um  estelionatário que até poderia usar meus  dados para fins de lavagem de dinheiro,  aposentadorias  falsas ou outras maldades  de que são tão  férteis  esses escroques em plagas basílicas...
   Foi, então, que pensei em São Longuinho, o santo dos que perdem  objetos  e outras  coisas. “Valei-me, meu São Longuinho!Valei-me,  meu São Longuinho!" Esse santo  é tiro e queda. Entretanto,  não desisti de  procurar em outros lugares do apartamento: quartos,  cozinha,  banheiro,  debaixo das cama,  das mesas, onde me fosse possível lobrigar  alguma   ponto do apartamento  em que pudesse  se ocultar a minha identidade.
     Exauridas  todas as minhas  energias, tomamos  minha mulher,  meu filho mais novo e eu uma decisão  para que  os meus receios  se tornassem menos penosos: ir à delegacia do bairro e fazer um  BO (boletim de ocorrência).  Nós três saímos  com passos  largos  em direção a uma  avenida  perto do meu prédio. Atravessamos e ficamos esperando acenar para o primeiro táxi  disponível que surgisse .Passaram  vários  sem  ligarem para o nosso  aceno até que um parou. Indicamos ao motorista  o nosso destino: a delegacia.
   Chegando lá, subindo uma rampa, entramos  no prédio e  nos dirigimos ao balcão de atendimento, atrás do qual havia uma funcionária de semblante amável. Lhe  contei todas as circunstâncias  do dramático incidente  e lhe disse que  desejava fazer  um BO. A funcionária  era  amável, simpática. No momento em que me pediu dados  pessoais consignados na  identidade,  de certa forma  involuntária, retirei minha carteira de dinheiro do bolso direito da calça e foi aí que  percebi um objeto  plástico que  surgiu de uma das partes da carteira. Era a minha identidade. “Milagre!  Milagre!- exclamei  numa alegria  incontida. A funcionária sorriu e entendeu tudo.
       Descemos a rampa. Na calçada, ainda cresceu a minha alegria. Queria compartilhá-la com  todos. Passou  um moço que,  pelos seus  modos de vestir,  via-se  que era um  investigador de polícia. Contei para ele o que ocorrera comigo. Ele mostrou-se receptivo.Nos despedimos e  caminhamos  em direção a outra rua que dava para uma praça.
        No caminho,  com voz embargada de tanta emoção, falei com a minha mulher: “É um milagre! O milagre existe.”  Sem perceber, estava  falando e chorando  baixinho. Nesse instante,  me lembrei  do meu apelo a São Longuinho. Ele me dera  ouvidos, me atendera. Era bem tarde da noite. Numa calçada,  acenamos para  outro táxi. Nele entramos e, com  o coração  esfuziante  de  contentamento,  resumi  o acontecido  para o motorista,  um moço   de fisionomia  bondosa.

        Não fora um grande milagre como  o daquela criança doentinha, pobre,  que procurava  pelo Salvador, o Rabi,   o Messias. No momento em que não esperava,  Jesus anunciou-se a ela:  “_Aqui estou.” O meu  pobre grande   milagre igualmente  se realizou. São Longuinho, que tantas  vezes  invoquei com sucesso,  naquela delegacia se fez  presente e o milagre, mais uma vez,   me convenceu  pela fé. Ó incrédulos,  não duvideis  dos milagres!

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Elmar Carvalho : a toga, a memória e o lirismo


                  


                                                            Cunha e Silva Filho


         
        A carreira do escritor  Elmar Carvalho se divide, a meu ver,  em duas  fases: a de  maior  expressão,  a poesia de vanguarda, que lhe deu  notoriedade e a da sua produção em  prosa  algo  conservadora, mas não anacrônica. A poesia, por enquanto, quero  crer que  possivelmente hoje  a cultive por via indireta,  ou seja, pelo saudável  exercício das leituras.
       Contudo,  ninguém  pode exigir que um  poeta que escreveu obra de  reconhecida  qualidade  estética seja obrigado a produzir  por vontade e desejo alheios. A poesia, como qualquer  obra literária,  não nasce por decreto ou  por injunções legais. Só ao poeta é dada a possibilidade de livremente criar  ou não.
      A criação literária   é um fenômeno  artístico que só medra  como manifestação   natural  da vontade de quem a produz, no tempo que lhe aprouver. O silêncio  poético só aos poetas  pertence. Em consequência,  não temos  o direito de  exigir deles  nada no domínio criativo.
      Ao falar da   prosa de Elmar  Carvalho, me refiro   ao  gênero  ficcional. Por outro lado,  não estou  insinuando que  em outras manifestações da escrita não-ficcional, ele  tenha produzido  obra inferior, porquanto no ensaio não acadêmico, na crítica igualmente não-acadêmica, assim como na crônica   de caráter lírico, dramático  ou lidando com matéria sobrenatural, o poeta Elmar  Carvalho  tem sabido   produzir alguns  textos  de  indiscutível qualidade literária.
     No autor, entretanto,  a poesia se insinua em sua produção  não-poética, i.e.,  o lirismo,  nele permanente  como estratégia de linguagem  de maior   imaginação criadora, não lhe permite  deixar de vez a poesia, ainda que não o queira. Por conseguinte,   no ponto mais alto de sua obra,    continua  poeta e, em segundo plano, o prosador, quer no  ensaio,  na crítica  esporádica e na  ficção. É dentro dessa perspectiva  de abordagem crítica que me volto para comentar-lhe o livro de memórias  recém-editado, Confissões de um  juiz (Teresina: Academia Piauiense de Letras,  2014, 193 p. Prefácio de Reginaldo Miranda).
      Determinadas vidas merecem transformar-se literariamente em memórias em face de  sua  específica trajetória  profissional e pessoal. No exemplo do poeta Elmar Carvalho, pelas circunstâncias  e impactos de sua vida  pessoal e profissional, o recurso do autor  a reproduzir  criativamente   certas partes  significativas de sua vida  não lhe veio  por veleidades  ou exibicionismos  subalternos, mas  para dividir com o leitor  o que de sua   percurso  existencial valeria a pena  ser compartilhado  pelos seus coetâneos.       
   Pode ter sido uma forma de  catarse, pode também  ter sido uma  vontade insopitável  de dar testemunho  da experiência de vida do seu tempo  tanto  na  carreira de magistrado  quanto na de  um homem que enfrentou  os   desafios  e os rigores  provocados  por uma doença que o atingiu por duas vezes e da qual saiu  vitorioso.
   Suas memórias, segundo assinalou no final do prefácio, são “confissões,”   o que  quer dizer que nelas  os  relatos se fizeram a bem da verdade, sem subterfúgios,  sem maquinações.
   Procurou,  assim, a verdade  limpa e desnuda, a que, enfim,  interessa como  lição de vida dividida entre o afeto,  a dor,  a saudade, as perdas, os ganhos  e o pacto com  a literatura  rememorativa,  que se alinha,   desde os primeiros  cronistas  portugueses, aos primeiros historiadores lusos, às primeiras biografias em língua   portuguesa a se interessarem  pelo experiência vivida em  várias situações  da existência humana.
     Aí se incluem os nomes que primeiro  vão  dando um contorno memorialístico  a narrativas   que fizeram história, aí se incluindo os nomes de Garcia de Resende, com  as suas Miscelâneas, e  de Fernão Mendes Pinto  com a sua Peregrinação. A linhagem  se avoluma com o passar dos séculos até chegar  à contemporaneidade.
     O mesmo se poderia   afirmar das primeiras   produções literárias  brasileiras  com acento  memorialístico, desde a carta de Pero  Vaz e Caminha até  aos tempos de hoje, em que o Brasil  pôde contar  com  grandes nomes  de autores de memórias, Joaquim Nabuco,   Gilberto Amado, Érico Veríssimo,  Álvaro Moreira,  Humberto de Campos ate culminar com  o grande memorialista   Pedro Nava.
    No Piauí,   penso que  temos ainda um   quantidade  considerável de  livros de memórias ou autobiografias. Do meu conhecimento, alguns autores já enveredaram  por este  gênero Sem  citar os títulos,  menciono  pelo menos os  autores: H. Dobal, Nasi Castro, Francisco Miguel de Moura,  Eleazar Moura,  Geraldo Almeida Borges, Celso Barros Coelho, Homero Castelo Branco,  José Ribamar Garcia, Assis Fortes, Olemar de Souza Castro e  o autor deste artigo, que acaba de  concluir  um livro de memórias, de título Apenas memórias. 
   Cada livro de memórias singulariza-se por uma traço  particular, por um  escolha geralmente  circunscrita à vida profissional  do autor, que pode ser um médico,  um professor, um escritor  profissional,  um  juiz, um cientista,  um político  um ator, um militar etc. A profissão  compreende as vivências   do memorialista e é a partir delas que  o autor  se alia ao papel do escritor-memorialista. No exemplo de Elmar Carvalho se repte esta  estratégia narrativa neste gênero  literário.
    No poeta Elmar Carvalho, do ponto de vista  profissional,  um ciclo de vivências  se fechou logo que lhe  veio a aposentadoria de juiz. É desse recorte de sua experiência  como juiz  que nele surge a possibilidade de contar  suas memórias. Dessa empreitada se saiu muito bem como  artista da palavra  a serviço das evocações de um juiz que percorre lugares diversos do interior  piauiense, do seu dia-a-dia de julgador de litígios, de conciliador  nos momentos em que era preciso  pesar na balança da justiça  os prós e contras a fim de  dar o veredicto mais  justo  possível ou, como o memorialista  deixa sugerir nos seus relatos, julgar  sempre tendo em vista o lado dos mais fracos.
   Seu percurso  de magistrado se realiza em várias comarcas, cada qual com suas  peculiaridades,   com a sua realidade  própria e com seus  diferentes  problemas. Poder-se-ia dizer,  o juiz Elmar Carvalho é sempre aquele viajante compelido,  por seu ofício,  a mudar  de lugares, a conhecer  outras  pessoas, a conviver  com  o provisório.  
  Poderia  chamar seus relatos de memórias telúricas,  visto que  o juiz com suas “confissões” não perde tempo para ir registrando fatos,  cenas,  paisagens,  natureza  diversa, pessoas  diferentes  que encontrou  em cada  comarca interiorana para a qual era designado.
   A paisagem   interiorana, os costumes,  os hábitos, a vida social,  a vida cultural,  se lhe fixaram  na retentiva. Tal  espólio da memória - “quase dezessete anos de magistratura” -,  se lhe tornaria farto material  de rememoração e   de  análises  instigantes em forma de  livro.
    Confissões de um juiz não se cinge apenas à experiência  técnico-burocrática de um   magistrado-poeta. As memórias se expandem a outras vertentes  de sua  função.   
  O memorialista não é só  o homem da Justiça, mas o cidadão que tem  suas   aspirações  e seu idealismo, além  de sua atuação  de escritor, de cronista,  de ficcionista, de ensaísta que não para de  publicar,  tem seu blog,  vive a vida  intelectual piauiense,  está em sintonia com  o mundo acadêmico e  com a vida literária de seu Estado. Participa  de questões  ambientais,  culturais,  desportistas, como, no caso da primeira,  a da preservação  do rio Parnaíba em páginas   contundentes  de reação  contra os inimigos  da natureza.
  A obra em exame não é só  depositário  de  fatos da vida de um  juiz,  mas  se compõe de textos  pictóricos onde  o estatuto  da linguagem  assume  toda uma força   lírica,  com belas  e comoventes  passagens onde se distingue  o talento  do memorialista  na pintura  da paisagem, da  flora e fauna  piauienses,  como são exemplos  paradigmáticos,  na segunda parte da obra, “Memórias afins,”  passagens de muita  beleza e vigor  descritivo (“Oração  à Vila de São Gonçalo de Regeneração”, p.57-65 “Evocação de Piracuruca,”  p.79-81).
   Porém,   a beleza de alguns textos não se fazem apenas de   paisagens   bem  descritas, mas também de textos alusivos  à condição  da justiça praticada para o bem e à necessidade  da prática da bondade consoante  lemos na seção “Exortação à justiça e à bondade (p.74-77).
   O memorialismo  de Elmar  Carvalho   reúne uma gama de  visões e perspectivas formando um painel  no qual  o autor  fala de  escritores,  pessoas comuns, servidores da justiça,  condição humana, injustiças,   prepotência,  vícios humanos,  erros  da administração  pública,  erros da justiça,  em que nada lhe escapa  ao olhar  de espectador  atento às misérias humanas.
   Outros  temas lhe são caros  nas relembranças,  a sua  participação  de atleta, de goleiro,  a sua  permanência no  Recife a fim de realizar  um curso de monitor  postal.
   Não lhe falta  fortaleza moral  para  reportar-se ao câncer de que foi vitima, da luta  para a sua recuperação e cura, de uma recaída, formando  estes relatos   um ponto algo trágico de sua  caminhada  existencial, felizmente  tendo  superado  tudo  com uma vida  renovada e pronta a seguir  sua travessia  agora mais  empenhada  no  universo  em que talvez  mais  se sente  bem e recompensado, que é o de  produzir literatura.
   Prende-me a atenção, de forma   especial,  por seu sentido  de humanidade, de afeto, e de saudade, a terceira parte das memórias, denominada “Memórias afetivas.” Neste capítulo  o poeta Elmar  despe-se  de qualquer formalismo  de linguagem e  adentra  o mundo  dos sentimentos, contudo, sem pieguismo.
  Discorre  sobre a perda da mãe, da família, da morte precoce e trágica de sua irmã Josélia, de seu amigo   inesquecível,  Zé Henrique,  de seus  antepassados,  da grandeza moral  de seu pai, Miguel Arcângelo, felizmente ainda lhe dando o prazer de seu convívio, da perda inconsolável de sua irmãzinha  Josélia,  falecida, aos quinze anos,   em acidente  de carro, de seus amigos, de seus irmãos e irmãs e last but no least, das mortes de duas cachorrinhas  de estimação, exemplos edificantes  da capacidade  de animais serem tão humanos, tão mais do que  alguns humanos, Belinha e Anita, em textos de  beleza  pungente,  em cujo tempo de leitura  não contive as lágrimas.
 Elmar Carvalho pertence à estirpe de escritores  que não deixam escapar a  conveniência de   entender  a “alma” dos bichos,  como o fazia  tão bem  outro  retratista de animais, o escritor  Guimarães Rosa (1908-1967), com a sua  modelar estória  de profunda  humanidade, “O burrinho pedrês,”  um conto de Sagarana (1946). Assim como  podíamos   citar outros  escritores que deram  estatura de humanidade a animais e bichos,  como   Graciliano Ramos(1892-1953), com a sua cadela  Baleia, de Vidas secas (1938) e o ficcionista  piauiense, Rivanildo Feitosa,  em clave cômico-erótica com a personagem-protagonista,  uma cadela  vira-lata, de nome Sabiá, do romance Reflexões de uma cadela vira-lata (2011)   

  A derradeira parte das Memórias de um juiz se destina ao que chama de “Memória fotográfica.” O bom é que a para cada  foto o autor  preparou pequenos  textos informativos alusivos  às fotos, num total de 29, representativas de  momentos marcantes de sua  vida pessoal, familiar  e profissional. Finalmente,  ao livro  acrescenta uma  quinta parte,  formada de depoimentos  sobre o autor  de figuras da vida cultural  piauiense. As duas  últimas páginas  contêm uma “síntese  biográfica do autor". 

sábado, 23 de maio de 2015

Na mesma situação do Velho Lima

            



                                        Cunha e Silva Filho


         Não sei se o leitor mais velho se lembra do personagem  de um conto  de Artur Azevedo (1865-1908), o Lima, funcionário  público do  final do  Segundo Império, que, tendo adoecido gravemente,   embora   não tenha procurado  a ajuda médica, permaneceu em casa durante nove dias, ou seja, a partir da véspera da Proclamação da República  brasileira, acontecida em 15 de novembro de  1889.
       Lima morava no Engenho  de Dentro, subúrbio da ex-Central do Brasil. O tom do conto é inteiramente farsesco e construído  com  extrema  habilidade narrativa.
      Restabeleceu-se   com  simples  “remédios  caseiros,” graças aos cuidados de uma  gorda   mulata que há vinte anos  lhe servia  não só como  cozinheira, mas também  na cama.  No dia 23 do citado mês, Lima   saiu de casa, pegara o trem e fora  trabalhar na sua repartição no Centro do Rio de Janeiro.  
     Para resumir,  Lima não tinha  o costume de ler jornais, nem tampouco aquela  com quem morava.  A República tinha sido proclamada  e, portanto,  derrubado o Império. E o velho Lima  ignorava a radical mudança  do regime  de governo do país.
    Durante a viagem, encontrou-se com  o comendador  Vidal, cumprimentando este pelo  título. Ao responder a saudação, o velho Lima estranhou que Vidal o  tivesse chamado de “cidadão.”  
   A grande  força  caricaturesca do conto  é esse diálogo com o Vidal  e  a permanência  desse estado de quiproquó  que se estabeleceu entre ele o  Vidal.  Lima  passou a  achar    pelo avesso  tudo que lhe respondia o companheiro de viagem de trem.
    Esta situação  equívoca chega a um  ponto em que  o velho Lima  passa a ver nos outros    um comportamento   de loucos. Enquanto  tudo se invertia, Lima  se mantinha convicto  de que ainda  vivia  sob o regime  imperial.    
   Ninguém o conseguia demovê-lo dessa  posição até o desenlace  da narrativa, cuja derradeira cena hilariante fora  a entrada na seção em que  dava expediente. Perguntou ao continuo por que haviam    retirado da parede o retrato de Dom  Pedro II. O contínuo, de forma  desrespeitosa  e  num “tom  lentamente “desdenhoso,”  lhe respondeu:
 “— Ora, cidadão,  que fazia ali a figura de Pedro Banana?”(grifo meu)
“—Pedro Banana! Repetiu  raivoso o velho Lima.” E, sentando-se, pensou com tristeza:
“—Não dou  três  anos para  que isto seja República!
  Pelo visto,  o velho Lima  acertara, mas a um alto  custo de três  anos  de risos e mofas por sua alienação.
     Pois, leitor,  foi assim que, hoje,  lendo  manchetes de O Globo, constato,  após algumas semanas  mergulhado num  projeto de um livro  de memórias, que o país anda   de ponta cabeça. O que vejo: violência descomunal  no Rio de Janeiro e em outras  partes do país,    arrocho do  governo  federal  contra o povo, situação caótica da Universidade  Estadual do Rio de Janeiro,  crescimento do desemprego,   aumento de juros   decretados pelo  governo federal,  ausência do  Ministro da Fazenda para anunciar  os  escorchantes   cortes   em setores  vitais  ao desenvolvimento do país,  educação,  saúde,  transporte, excetuado  a menina dos  ovos de ouro do  PT,  a bolsa-família  - maior  curral eleitoral  petista e, o que é pior,  em ações  tomadas pelo governo, no setor da economia,  que recairão  sobre os costados  do brasileiro.
    Me  pergunto: ainda não se tocaram  as nossas   autoridades que todos  esses  graves  problemas  que estamos atravessando  foram  provocados  pelo  desgoverno petista que nos enganou a todos,  ocultando,  por razões meramente  eleitoreiras a fim de se manter no  poder, que, nos bastidores  do Palácio do Planalto  estavam prestes a explodir  todas  essa bombas  atiradas contra  o  Estado  Brasileiro,  com dois  sucessivos epicentros   de  corrupção  deslavada, o escândalo do  Mensalão e o  da Petrobrás além de outros  que poderão surgir durante  mais  investigações da  Operação  Lava-Jato?  
    Já avaliaram  todos  os bilhões de reais que deveriam  estar  no Erário Público e que  foram  sugados  para os bolsos  de políticos  da situação e de dirigentes  de estatais e empresários    corruptos em conluio com  políticos de partidos  da base de sustentação do governo?
     E o povo nada faz. E a Justiça   até quando   fará  justiça  colocando na cadeia  ladrões da  República? O povo  é como  o brasileiro  que não lê jornais, como  o personagem Velho Lima de Artur  Azevedo, como a sua  serviçal e amásia.
     As raízes da nossa passividade  vêm de longe,  desde a Escravidão, pelo menos. Não imitemos  o velho Lima, estejamos  atentos aos fatos  atuais, lendo, ouvindo, falando,  escrevendo, agindo como cidadãos a quem  a Presidente  Dilma deve satisfações de seus atos   e de seus  erros. Não somos  escravos,  objeto comprado  pelos  poderosos do passado. Queremos liberdade, mudanças  da lei  da maioridade  penal e outros  pleitos  necessários  ao bem-estar  da sociedade.
   Não permitamos que o país  se torne uma tragédia  social, com a morte de inocentes em “cidades esfaqueadas” para usar um título de uma crônica  de Arnaldo Bloch. Por falar em crônicas,  a página de Opinião de O Globo de hoje, dia 23 de maio,  estampa dois artigos sobre a violência, um do cronista Zuenir  Ventura, de resto,  para ser mais  exato, uma  crônica  magnífica,   “Há sangue em cada notícia,” e um artigo,  “A violência do teste de virgindade,”  escrito a quatro mãos, de  Maria Laura Canineu e Phelim Kine.

  O país precisa  despertar os velhos Limas  para  a realidade trágico-grotesca  que nos angustiam  atualmente por todos os lados.

sábado, 16 de maio de 2015

Note to the readers [Nota aos leitores]

 [After the English text below  there is a Portuguese tranlation of it] 



Dear  readers:

           Up to now, I have been publishing  16 texts referring to my memories, by highlighting  the most important  facts of my life, involving  my childhood days in Teresina, State of Piauí, northeastern of Brazil, my moving to Rio de Janeiro in order to  take up a university  course, as well as  reporting a lot of  passages  showing the difficuties  and hardships  I came across in a big  city on  trying to  be successful  in the options I made  personally and  professionally.  
          As I intend to have these memories published  as  a book,  I thought it useful and feasible  to interrupt  this series of  texts. I guess I  have given a good glimpse of the purpose  I  wish  to carry out in terms of   a  period of time ranging , as I said above, from  childhood days,  teen days to adult  life
       
       If they  might serve  useful  to   young  people to  get an idea of how  a self made-man  - as I consider myself to be  -  overcame so many troublesome days, sufferings and injustices,  all  my efforts in putting my memories  to paper  would be worthwhile and would make me glad and rewarded 
        On the other hand,  I will continue  publishing my usual  articles and other different texts  in my blog "As ideias no tempo." 
Thanks kindly, 

Cunha e Silva Filho

Prezados leitores:

Tenho  publicado até agora 16  textos  relativos às minhas memórias, assinalando os mais  relevantes fatos  de minha vida, focalizando a minha infância em Teresina,  estado  do Piauí,  região nordeste, minha transferência  para o Rio de Janeiro  a fim de realizar  estudos universitários, e bem assim  relatando  muitas  passagens  mostrando   as dificuldades  e aflições pelas quais   passei   numa grande urbe na tentativa de  conseguir  sair vitorioso quanto às escolhas  que fiz no campo  pessoal e profissional.


Como pretendo  ver  estas memórias  transformadas em livro, julguei  oportuno e apropriado  interromper esta série de  textos. Presumo que já dei uma boa ideia geral do alcance disso no que concerne ao período  de tempo que  vai,   conforme acentuei acima, da infância, adolescência até à  vida adulta 

Se elas por acaso  forem de alguma  utilidade aos jovens propiciando -lhes compreender como um "self-made man"  - e é assim que me vejo - superou  tantos óbices, sofrimentos e injustiças, então foi  compensador  e agradável todo o meu esforço em  escrevê-las.

Por outro lado, continuarei  escrevendo meus artigos e outros diferentes textos  neste blog.

Com os meus  agradecimentos  efusivos,

Cunha e Silva Filho


quinta-feira, 14 de maio de 2015

Apenas memórias (16)

 Lembranças de parentes, Páginas atrás, mencionei  o nome do  Weyden, um primo  meu, irmão do Wellington e do Norberto,  todos  tinham vindo  para o Rio  à procura de emprego.O último veio  primeiro e foi  morar provisoriamente na casa de uma  tia avó, a tia  Chiquinha,  do lado materno.
     Norberto, depois de alguns empregos mais modestos,  entrou  como  praça  da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Casou-se com a Licinha, a qual, mesmo depois de casada, foi sempre  residente do bairro de Oswaldo Cruz. Teve dois  filhos, um deles falecido  precocemente. Hoje,  Norberto  está  aposentado como oficial  da Polícia Militar.  Tem uma filha médica e dois netos.  É um apaixonado pelo Piauí.   
    O Wellington trabalhava, segundo assinalei anteriormente nestas lembranças,   no  Laboratório Silva Araújo,  no escritório da Avenida Beira-Mar. O emprego fora  arranjado pela minha irmã Nélia, Depois,  regressou  a Teresina. Tornou-se  escrivão  da Polícia Civil  Constituiu família e ainda  mora em Teresina.  
    Tia Chiquinha  morava  também em Oswaldo Cruz no tempo em que vim para o Rio.Wellington,  por pouco tempo,  morou  também com  essa tia,  uma velhinha  bonita, de pele muito branca, alvinha, como se diz no  Piauí. Ela acolhia  sempre os sobrinhos da irmã, a tia Lolosa, apelido afetivo  pelo qual atendia a mãe desses primos.    Quando cheguei ao Rio, o marido dela ainda era vivo. O casal teve muitos filhos.  Me  parece que um só está vivo, o Jurandyr,  conhecido  como Jura, que é solteirão.Tia Chiqinha morava de aluguel. No tempo em que  o casal residia no Piauí,  vivia bem e confortavelmente, mas, no Rio,  sobretudo após a morte do marido,  tia Chiquinha  teve seu padrão de vida reduzido.
    Lolosa, cujo nome verdadeiro era  Aurora  Teixeira e Silva,  foi, na mocidade, uma   mulher  bonita, que conquistou de imediato  o coração do meu tio Luizinho   e com ele se casou. Mais tarde,  modificou  o sobrenome para  Aurora  Cunha e Silva, omitindo o sobrenome “Teixeira,” que, se não erro,  herdara  da parte do pai.  
     Professora  primária diplomada,  ficou  bem conhecida e conceituada por suas qualidades de  professora  em Amarante e Teresina. Inteligente como  era,   tinha  facilidade para escrever  e tinha um espírito elevado. Foi uma grande mãe.  Morava em Teresina,  teve dez filhos, dois deles já falecidos. Tio Luizinho, cujo nome por extenso  era Luís Cunha e Silva, era irmão  de meu pai, o mais novo de três irmãos. Era escrivão de polícia  e, por algum tempo,  saindo de Teresina,  foi  ser delegado  em Palmeirais, município do Piauí.
   Tio Luizinho era  um homem  muito inteligente, lido,  não  obstante  não ter-se formado em curso  superior, assim como o  tio   Enoch, sobre quem adiante  me reportarei. Sabia escrever com  correção, inclusive  por vezes  publicava algum artigo em jornal de Teresina. Amava ouvir o rádio, sobretudo as estações  do Rio de Janeiro da época.Tinha uns olhos  azuis  profundos. Ao deixar Teresina, fui me despedir dele. Se comoveu muito e me desejou  sucessos. Morreu ainda  moço. Na época escrevi para  a tia Lolosa um carta de pêsames  e de consolo. Ela ficou muito feliz pelo meu gesto, de vez que a carta relembrava a figura dele, não em termos formais,  mas como  um ente  amado e querido pela família e amigos.
   Havia outro  tio meu, o mais velho, irmão de meu pai, e de tio Luizinho,  o Enoch  Cunha e Silva,  homem de estatura  baixa, tinha   olhos  verdes. Foi ele quem  cuidou dos negócios de meu avô após o falecimento  dele. Porem, ao que todo  indica,  não tinha muito tino  para os negócios,  o comércio, assim como meu pai e tio Luizinho.
    Pessoa  humana, calma, foi, por mais de uma vez,   prefeito de Amarante e, pelo resto da vida,  foi  fiscal de renda. Pessoa  discreta,   honesta,  de  princípios   firmes. Casou-se  com uma mulher notável  pelo valor  humano,   a tia  Maricô, uma mulher santa,  que só enxergava nos outros  bondade. Tinha belos olhos  verdes e deveria ter sido bela quanto   jovem.
   O casal teve três  filhas:  a Dioneia, a mais velha,  a Valdineia e a Maria Nilza, a mais nova e a mais bela das três,  falecida ainda  moça. Maria  Nilza  era professora,  assim como o é Valdineia, agora aposentada e a  única sobrevivente das três. Quando adolescente,  sentia-me enamorado de Maria  Nilza, talvez por sua  beleza,  sua doçura,  sua feminilidade. Era mais velha do que eu. Como me  sentia bem sempre que   ela aparecia em casa vinda do Colégio das Irmãs, na Avenida  bela pessoalmente  histórico-amorosa  Frei Serafim.
   Todas nasceram com  olhos verdes, belíssimos. Tio Enoch ainda teve dois filhos: o Valdo e o Netinho. Não me  lembro se o Valdo  tinha  olhos verdes,  contudo, é possível que fossem. O primeiro  nasceu com  um problema  de nervos. Ficara  interno  no Meduna,  hospital psiquiátrico, em Teresina dirigido  pelo  Dr. Clidenor de Freitas Santos,  que pertenceu à Academia Piauiense de Letras e era homem  ilustrado. Uma vez,  fui  visitar   o Valdo com a minha prima, Maria Nilza, sempre linda.   
  Netinho, cujo nome completo era Manuel Aires Neto, possuía olhos muito azuis, tinha  ótima aparência, e um  palestra   fascinante. Era um  cronista ambulante de Amarante.  Sabia  tudo sobre a sua época, o passado de Amarante,  a vida da política  do município, a vida  íntima das pessoas, as aventuras  donjuanescas da rapaziada da época. Era um arquivo  vivo  de informações  sobre a sociedade de Amarante.    


    Na minha infância e até no princípio da adolescência,  tio Enoch, quando  vinha a Teresina, sempre visitava meu pai. Conversavam  por horas. Os dois se davam muito bem. Sua chegada à minha casa era sempre aguardada  com  ansiedade e tinha  um motivo  maior  que fazia a alegria da  criançada. Sempre  ao se despedir,  abria a carteira e dela tirava uma  boa   quantia em dinheiro, segundo ele,  para repartir entre nós. Quanta alegria para nós!
    Meu pai e seus irmãos  nasceram em berço de ouro, em Amarante,  onde meu avô era comerciante  de peso e um homem respeitado  por todos.  Segundo me contou meu pai,  o meu avô  Manuel  Alexandre e Silva, hoje nome de rua em Amarante,  era de estatura baixa,  tinha olhos  azuis(alguém me falou, não sei se papai ou foi dedução minha ao ver-lhe a fato de família) uma  aparência solene num rosto  bonito com uma bela cabeleira. Foi assim que o vi  numa foto  de família, ao lado de  vovó  Candinha.
   Papai me dizia que meu avô foi um pai extremoso. Gostava de  tomar banho no rio Parnaíba, à noite, num tempo que me dá inveja. Vovó Candinha,  ou melhor,  Cândida  da Cunha e Silva.  Foi a única avó que conheci ainda viva. Tinha eu três anos e estava perto de sair  de Amarante, porquanto meus pais foram  residir em Teresina.
    Em Teresinha, muito velhinha, já prestes a se despedir  desse “vale de lágrimas, a sua figura vem  à  minha lembrança como  algo esfumado, com alguém  que não tive o  prazer  mais  intenso de beijar a fronte querida, os cabelos branquinhos,  a voz  carinhosa, cheia de cuidados comigo, conforme eu  narrei em parte numa  crônica do meu  livro  As ideia no tempo. (1)Papai me contou  que era descendente de cearenses. Subiu ao Céu  bem  idosa. Me vem agora, à mente   a tarja  preta colocada numa  das mangas  do paletó de meu pai, em sinal de luto. Eu era menino.  Morava na  Rua  24 de Janeiro, Centro de Teresina.
  O Weyden era o mais  próximo  amigo  meu. Companheiro  das aventurosas  romântico-amorosas nas noites de Teresina, cujo  epicentro  era o adro e os fundos  da Igreja de São Benedito e de lá o dom-juanismo  adolescente  partia  para outras  partes da cidade, Cada um  com uma  mocinha  cheia de amor para dar, ainda que fosse por uma noite  só.   
     Éramos como dois irmãos,  primos pelo lado materno e paterno. Weyden  gostava de cantar  em inglês ou  cantar canções de  conhecidos   artistas da época,  todos praticamente  do Rio de Janeiro ou São  Paulo.Tinha bossa também  para fazer  a gente rir das piadas que sabia tanto  contar, me matando de rir, fora as imitações que  fazia de figuras  diversas. Era danado  para encontrar os defeitos físicos dos outros,  contrariando  a lição de Esopo, fabulista grego do século VI a. C e, com esta disposição para brincadeiras  de mau gosto, na minha companhia,  fazíamos as traquinagens,  provocando,  ocultos  pelas janelas ou portas semi-abertas,  quem  passasse por acaso  pela rua. Morria de rir de suas  brincadeiras e de  veia satírica..
    Outro hábito que tinha era  falar em inglês  comigo por onde passássemos – um forma de  esnobismo  ingênuo de adolescentes   sem rebeldia.Mesmo no Rio,  quando estávamos juntos,  falávamos em inglês diante dos balcões de bares do Catete, bairro da Zona Sul do Rio. Os garçons,  ignorantes,  se entreolhavam embasbacados. Dizia o Weyden  que era para passarmos  por gringos, tirando  onda com  as pessoas  que se encontravam  perto de nós.   Ele não tinha tanta fluência, mas dava para se safar porque era  inteligente e  espirituoso.
    No Rio de Janeiro, morando por pouco tempo na casa de tia Chiquinha, Weyden,  por algum tempo,  continuou com a   nossa amizade. Depois, tomou  rumo sozinho,  foi morar na Glória, Rua  Benjamim Constant, zona sul,  bairro bem perto do Centro   do Rio. Conseguiu emprego e nossos  encontros foram se rareando.  Com boa  voz, sempre  esteve  ligado  à atividade de rádio. Tornou-se radialista – suponho -  primeiro em  Goiânia,  onde morou depois que deixou o Rio de Janeiro e, de volta a Teresina,  firmou-se como  um conhecido  radialista e homem  relacionado com a imprensa local.
    Desde adolescente,  demonstrara  ter vocação para o rádio. Uma vez,  acompanhando, em campanha política   o meu pai, candidatos a cargos   políticos e eu, numa cidadezinha do interior do Piauí,  subiu a um improvisado  palco  sobre  um caminhão e discursou  para  os ouvintes que se aglomeravam diante  do carro.
    Discursou, primeiro,   meu pai e, em seguida,  usaram da palavra outros   oradores.  Ocorreu, na ocasião,   um fato pitoresco.  Meu pai me pediu que usasse também da palavra Não aceitei, alegando  ser tímido, encabulado. “O que eu tinha para falar? Nada,”  pensei comigo. Me deixaram de lado,  uma vez que  da minha “oratória” não iria sair nada,  nem que invocássemos  o talento do grande  Demóstenes.  Não tinha assunto nem interesse  em dirigir  algumas  palavras  de agradecimentos  aos que  estavam  formando  uma pequena   assistência. Entretanto, compensei minha timidez participando de um baile de interior, com  dança,  forró e tudo. O bom  foi que havia ali  moças bonitas  para um  breve namoro  de   uma única noite.
    Não toquei ainda na figura de meu avô  materno, cujo nome era Avelino Alves Setúbal. Não o conheci, dado que morrera muito jovem, com  pouco mais de trinta anos. A imagem que dele tenho é de fotos tiradas quando  era um jovem  militar do Exército. Tinha boa altura,  cabelos  meio crespos,  moreno, rosto  fino, e bem apessoado. Diziam ser namorador. Deve ter sido um militar disciplinado,  correto, sério. Sua figura me  faz lembrar, na aparência física, o  meu filho mais novo, o Alexandre, que mora  comigo e é solteiro.
    Por informações colhidas por terceiros,  era descendente de portugueses e, por coincidência, de um pai ou avô  militar que emigraram para o  Brasil. Casou-se com  uma das irmãs de Lolosa, a Cotinha, minha avó materna que, segundo meu pai,  quando  mocinha, era    muito bonita. Vovó Cotinha morreu  de parto muito jovem. Por coincidência, meu  pai,  meninote,  brincara  com ela e mal  previra que, anos depois, se casaria com uma filha  dela, Ivone, a minha mãe. Cotinha,  Lolosa,  tia Chiquinha, e mais duas tias e dois do lado materno que não tinha ainda mencionado,  tia Elira e tia Tudinha, tio Gonçalo e um outro  tio, que foi morar no Rio Grande do Sul, eram irmãos. Tio Dico,  sobre quem  anteriormente  comentei, era outro irmão de  minha avó Cotinha.
  Meu avô Avelino Setúbal  participou da Revolução Constitucionalista de 1932, em São Paulo e,  por causa disso,   galgou  a patente de oficial do Exército. Antes era  primeiro sargento. Por uma razão que não me explicaram,  lhe retiram, depois,  o galão de oficial, o que o deixou  profundamente acabrunhado e deve ter concorrido, a meu ver,   para  a sua  morte  precoce.
   Essa afirmação minha  tem um valor apenas de  suposição e não se fundamenta,  pois,  em  dados pesquisados. Contudo, o que me importa  é reafirmar que meu avô materno  era homem digno  e cuidadoso com a família.  Um sinal de seu  espírito empreendedor foi que,  depois de seu falecimento,  deixara  duas ou três casas  em Teresina.
   Logo que Cotinha faleceu,  meu avô teve que cuidar de     mamãe e dos outros  irmãos,  o tio Zequinha, o tio Carlitos, e o tio Cláudio.   Deste  último nem mesmo sei  o sobrenome  que lhe deram os pais adotivos.
 Sentindo-se sozinho e ainda muito  moço,  se uniu maritalmente com a tia  Tudinha e  dessa união  tiveram um filho,  o tio Ivon,, de quem  já falei nestes  relatos. Falecendo meu avô Setúbal,  tia Tudinha  ficou  cuidando de mamãe, de tio  Carlitos, e do tio Ivon.   
        O tio Cláudio, ainda com meu avós vivos,  for entregue bebê a um  família amiga e vizinha do meu  avô O que na verdade aconteceu foi o seguinte: os vizinhos tanto se afeiçoaram   à criança que terminaram  por ficarem  com ela  e a levaram  para o Rio de Janeiro. Entretanto,  esta é a história que me contaram e, na realidade, não sei  se tudo  ocorreu  assim..
     Ainda rapazinhos,  tio Carlitos e tio  Zequinha se mudaram para o Rio  - esta cidade que tanto  atrai os nordestinos  por tantos  motivos:  necessidade de encontrar  trabalho melhor do eu na terra de origem,     espírito   de aventura  dos jovens  desejosos de conhecer uma  metrópole famosa, vontade de se libertar da dependência  da família, entre  .outras  motivações. Há ainda uma razão  estimuladora da migração: outros parentes  que já se encontram  na grande cidade do eixo Rio-São Paulo..Até hoje, isso  acontece. O tio  Ivon foi também  para o Rio de Janeiro. de sorte que só minha mãe ficou com  tia Tudinha.
    Perto de morrer,  me parece que  meu avô Avelino  se casou  no católico com tia  Tudinha.Tudo leva a crer que ela já o admirava  mesmo  antes  quando  minha avó Cotinha  estava casada com  o meu avô.
   Tudinha não era bonita como minha avó. Magrinha,  pele branca,  cabelos lisos, altura média, junto com  tia Elira, foram pra o Rio de Janeiro morar algum tempo.Isso depois que tio  Carlitos e tio Zequinha já tinham  ido também para o Rio de Janeiro. Mamãe,  àquela altura,   estava  casada com meu pai e morando em Amarante.
  Tia Elira era uma mulher  de valor,  trabalhadora,  habilidosa,  tornou-se costureira de mão cheia. Como fosse excelente  costurei,  fazia amizades com  gente  de posse e terminava  costurando para essa gente. Costura e também  se hospedava na casa das clientes  que lhe eram  mais  próximas. 
    Era uma mulher  educada,  fina,  vestia-se bem,  tinha   elegância e muito charme, sobretudo quando  usava  óculos escuros  da moda. .Certo dia,  meu pai  me segredou  que tia Elira,  quando mocinha,  tinha um a atração  por ele.Porém, tudo foi muito discreto  e foi esquecido com o tempo, sobretudo  porque ela devotava   muito carinho à  minha mãe. Sempre que podia,  vinha a Teresina e os sobrinhos sabiam  que  presentes  eram coisa certa  e líquida. Sempre  elegante,  bem  penteada, com aquela  pele delicada de  morena clara, tia Elira   me cativou e senti muito   ao saber que,  já velhinha,  tinha morrido.
  Ambas,   após muito tempo  morando no Rio, decidiram  regressar  para  Teresina. Primeiro, veio a tia Tudinha, que,  para sobreviver,   conseguiu  um emprego público  como  inspetora  de alunas da Escola Normal  “Antonino  Freire.” Depois, veio  tia Elira. Tia Lolosa, que já estava viúva,  recebeu  ambas as irmãs de braços abertos. Tia Tudinha  era meio  ranzinza,  gostava até de corrigir  o português dos sobrinhos. Eu mesmo  fui  vítima de sua  indiscrição  gramatical. Não gostei. Ela sentiu  no meu olhar. Como no  poema de Bandeira,  todas  estão  “dormindo  profundamente.” (Continua)

(1). Op. cit., p. 30-31