sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Tempo de votar




                                            Cunha e Silva Filho


  Ontem, como estava previsto, houve  o último debate dos candidatos à Presidência  da República realizado  pela  TV Globo. O esquema do formato dos  debates conduzido  pelo  apresentador   e jornalista  William Bonner,   deixou  um pouco a desejar, pois ele se atrapalhou uma ou duas  vezes  na condução   da sequência  de blocos e na vez  correta  que  caberia a cada um dos  candidatos. As discussões  tiveram   momentos  de  acirramento   e de exaltação, dependendo   do tipo de  pergunta  temática   dos debatedores.
No geral,   foi  razoável   o desempenho dos presidenciáveis. Pode-se   até afirmar que  houve  instantes  de emoção  da parte   de alguns   candidatos.   Só lamentei  que  o tema  da “segurança pública”  não tivesse  tido mais  prioridade. Propostas   sobre ele   não vi  nenhuma   solidamente    convincente  e original, principalmente  tendo em vista  a realidade   da  violência   espantosa  nas cidades    e as perdas  humanas e materiais   que  têm  sido  por ela  produzidas
Resta, agora,  ao   eleitor  pesar  bem   o que ouviu sobre questões  que  de perto  interessam  ao bem-estar da sociedade  brasileiro,   do cidadão comum,  sobretudo. Os pobres e a classe média são  dois   pontos  sensíveis, espécies de termômetros    de como  vai   a vida dos brasileiros.  Os  muito ricos estão  já  protegidos   dos temporais  e borrascas  e, como no  Brasil,   são  poucos; nas emergências,  têm a seu favor   a força  do dinheiro e das benesses  com as  quais sempre foram   regiamente  aquinhoados. Costumo dizer que  os ricos são iguais,  tanto  vivendo no  interior, quanto nas metrópoles ou ainda no exterior. Eles falam a linguagem   das mordomias   e  do bem-bom, além de linguisticamente  muitas vezes   não necessitarem  de aprender idiomas  porque, neste caso,    basta  ter   dinheiro,  que todos os caminhos  levam  a Roma. Eles se entendem,  gostam de   festas e da vida  boa,  das viagens   e  dos cartões  de crédito  a perder de vista. Estão com frequência  em Nova Iorque ou na  Europa.  Vivem o paraíso  na  Terra.
Os mortais  assalariados, não,  têm que pensar  em que condições   podem  gastar  seu   dinheiro  limitado, em quanto montará   o total   dos remédios que  terá que   adquirir  mensalmente  nas farmácias, isso quando   estão  na “melhor  idade,”  expressão  um tanto  ambígua,  eufêmica  mas que  oculta   muitos sentidos, inclusive os desagradáveis e não aceitos.
Tempo de  votar e de voto  obrigatório, exceção feita para os que  já passam da idade   de exercer  sua  cidadania  com prazer  e gosto. Há destes  que não abrem mão  do voto. Querem  reafirmar  seu direito   de cidadão  que escolhe  seus  preferidos.
Uma  vez,  um  padre  dizendo a missa pela televisão e, vindo à baila  o direito de votar,   conclamou aos fiéis: “Votem no melhor.” Minha  esposa,  espirituosa  como  é,   respondeu-lhe: “E quem é o melhor?” Boa e  inteligente  pergunta, além de ter  um  fundo de uma passagem  bíblica.
A sabedoria  popular ensina que, em questões de   time de futebol,   de religião e de política, a  “lógica do voto”   não funciona e, ao contrário,  só dá confusão e  briga. Do mais sábio,  ao mais ignorante,   é a mesma coisa. Cada argumento  encontra um contra-argumento. O assunto  vira uma babel e ninguém se entende. O melhor  é  evitar   as discussões  que, por terem por si mesmas  um componente deletério de fanatismo,  não   chegarão  a uma   conclusão   amigável.
Filiar-se a uma partido  equivale,   de alguma  forma,  a  comungar  com  os mesmos    conceitos e visões. Não há como escapar  à contingência de que  visões diferentes de partidos  políticos, especialmente no  Brasil, onde  há partidos  para todos os gostos, resultam numa  barafunda   difícil  de ser entendida por um estrangeiro, ou mesmo  por nós mesmos, povo   parcamente   civilizado  em questões  de  política, seja por  não gostar de  política,  seja porque lhe falta   conhecimento  no assunto.
Dos meus  parcos conhecimentos de política, aprendi uma lição do comportamento  geral  do brasileiro   que, me perdoe o leitor se lhe serei  grosseiro,  injusto  mas não insincero no meu  juízo: o povão, ou até mesmo   parte da elite  intelectual,  não quer saber se o governo tem um  vergonhoso  recorde  de escândalos  financeiros. Ele,  o povo, rico, pobre, classe média baixa,  média-média, média alta,  pobre,  miserável reelege um Presidente por um ou outro motivo, desde que estejam   funcionando   regularmente as instituições  do Estado, desde que para alguns  o governo    seja visto  como regular,  bom ou mesmo  ótimo. Ou seja,  impera   aquilo  a que  inapelavelmente  associo, embora num plano  da ficcionalidade,   à rapsódia de “O herói sem nenhum caráter,”  o Macunaíma (1928),  de Mário de Andrade ((1893-1945). Somos um povo  separado  por um  individualismo  ambivalente,  imprevisível,  mutável,   que mescla  bondade  e  maldade,   sinceridade  e hipocrisia,   solidariedade e   desprezo. Somos, talvez,  “abarrocados,”  sofremos  do   defeito   do contraste  entre o bem e o mal. Não somos  unidos,  não brigamos  juntos,  somos  irremediavelmente   divididos como nação e como   indivíduos.

Não há também  como  negar  outros tipos de uso do voto:  votamos  em pessoas,  por interesse,  por necessidade,  por influência  de grupo,  por ideologias nem sempre autênticas, não faltando os ilusionismos   subliminares  da mídia,  dos marqueteiros,  dos eleitores   irresponsáveis,  alienados,  dos fanáticos e até dos  loucos que se passam  por  normais. Quem pensa que Pelé,  um jogador   genial  e  inteligente,    falou   besteira  quando há tempos  asseverou   que  o brasileiro  não sabe  votar, está errado, porquanto  o grande craque não    fora leviano. Apenas fora mal interpretado. Somos  carnavalizados, pândegos.   Levamos a vida na picardia, até  na destinação  de  nosso  voto.  Estamos longe da maioridade cultural.  "Ah, que preguiça!"

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Um país atacado pela bandidagem




                                               Cunha e Silva Filho


                      Se é certo que   vários  problemas  foram  discutidos   pelos candidatos  à Presidência da República,   também  não é menos  certo  que  o grande  problema  nacional  -  o mais  agudo deles, por sinal -  não foi   abordado nas suas raízes: a violência, a criminalidade,  os assaltos,  as mortes  de inocentes de todas as  idades. No Rio de Janeiro,  a cidade parece estar  vivendo  uma guerra civil,  não para   derrubar  governos, mas   para   disputar  o espaço   do  tráfico  nas favelas  cariocas.
                   A situação é tão apavorante  que os  marginais não respeitam mais nem  as Forças Armadas e o que as televisões  mostram nas ações  de malfeitores   são  rajadas   de metralhadoras, tiroteios  diários.   Por todos  os espaços  territoriais   da cidade, onde existam   favelas, para desespero dos moradores, enxameiam  líderes  do tráfico, dos que  decidem  sobre a vida ou a morte   de pessoas.  São eles que determinam, caso seja  conveniente, que o comércio   circunvizinho  seja  fechado. 
                As UPPs já não dão conta  dos fins a que se  propuseram seus  idealizadores.  A criminalidade  continua   atormentando os  moradores  das favelas, ditando  ordens,  transformando  esses  espaços, quer  nos morros, quer na  terra.   Quem  manda no pedaço  e  canta  de galo  são  facções  rivais que desafiam   a autoridade   constituída, ou seja,  o  governador.
                  A questão tem que ser tratada como  uma  rebelião, não  originada  de   luta pelo  poder   político ou governamental, mas   deflagrada  pela ausência   de estratégias   adequadas  dos órgãos de segurança  pública.  O país está sem leme  no  item da segurança  pública, tanto na  cidade quanto no campo. O mais  gritante  é que nenhum dos candidatos  à Presidente da República  não apresentou  nada  consistente e concreto  como  um  Plano de Reforma  da  Segurança  Pública   Nacional para a  elaboração do qual, de forma  emergencial,    ações  impactantes   das forças  militares  devem  ser  efetuadas com inteligência, alto  sentido de brasilidade,  num combate   sem trégua   a   criminosos de toda espécie.  
A sociedade mudou substancialmente  nas duas últimas décadas e o tratamento  a ser dispensado  à diminuição da violência não deve ser  adstrito  somente  aos poderes  armados,  mas   ao concurso    indispensável  de outras  áreas do conhecimento e de forma multidisciplinar. As áreas jurídicas, sociológicas,   antropológicas,   das ciências  políticas,  da história, da geografia, da  informática, todas,  devem se unir  na luta   incessante  para  debelarmos   o cancro endêmico   da  criminalidade.  Além disso, instituições  respeitadas como  as igrejas   devem   ter  igualmente papel  saliente, junto com   as escolas, as universidades. Cidades,  brasileiras,  que  outrora eram   modelos  de  vida   sossegada,  como  Florianópolis, Curitiba,  São Luís,   estão se transformando  em  lugares de  alta  marginalidade,  à semelhança  de São Paulo e do Rio de Janeiro.
Os governos do Lula e   Dilma, e mesmo  os anteriores,  pouco ou nada fizeram  para   melhorarem   as aflições  do povo   brasileiro. As estatísticas de vítimas fatais  da violência  de adultos e de menores   são assombrosas, Até me dá a impressão de que  o governo  federal  e  estaduais   não   estão  assistindo  a  programas   de televisão onde   a extrema    crise  da  criminalidade  é  reportada  diariamente. E não  vamos chamar isso de   sensacionalismo, pois  as reportagens  gravadas estão aí  para serem   vistas pelos governantes  e pelos  órgãos de segurança   pública. Basta  fazer  uma estatística  dos registros de ocorrência nas delegacias  brasileiras para   verificarmos  o caos em que  estamos afundados e sem  vermos   nenhuma    perspectiva  de  melhoria. A população não mais   aguenta tanta   covardia  perpetrada por bandidos. Os assassinos  matam  inocentes mesmo que  estes não esbocem   nenhuma  reação. É o crime  pelo crime cometido por  monstros que estão  soltos e sabem que,   matando   inocentes,   não vão para a cadeia.   Já perceberam que, no Brasil,  paga-se fiança e  o  criminoso  sai da delegacia   em liberdade.
Naturalmente,  se não houver  imediatas medidas   tomadas   no que  diz  respeito ao nosso  sistema   penal,  inclusive  com  propostas  como  a  prisão perpétua,  a diminuição da  maioridade   penal, estaremos   levando  a  sociedade   brasileira   a um beco sem saída. Ou seja,  enquanto não  alijarmos   o crime da impunidade,  ou outras  brechas das leis penais,   aqui existentes e  realimentadoras   da  própria     crise da  criminalidade,  assim como outras  indecências   da  legislação em vigor,  como “prisão  domiciliar,” comutação da pena  por “bom comportamento,”  a delinquência,   os crimes hediondos,  os crimes contra as mulheres,  os idosos,    os sequestros,   os atropelamentos  por  motoristas    embriagados,    as “saidinhas”de bancos, as mortes banais,  e a presença  nas ruas   de  marginais de alta  periculosidade,   menores e adultos,  as explosões de caixas eletrônicos  praticadas  por  quadrilhas de facínoras na cidade e no  interior, o país   virará  uma terra de ninguém,  um  faroeste  de malfeitores    que não mais  respeitarão    as leis e a convivência  harmoniosa  da sociedade brasileira,  ora  clamando  por socorro aos quatro cantos   do país.A criminalidade no  país não é  mais um caso de  polícia,  é uma questão  de segurança  nacional,  de desrespeito  ao Estado Brasileiro e à nossa Constituição.
Todos os candidatos nessa corrida presidencial  negligenciaram, por  desconhecimento ou incompetência,  o problema mais grave  do país simbolizado pelo binômio: violência-impunidade.  Vejo, por outro lado, que, nos  debates  entre os candidatos  existem mais  formalidades  e   limites de tempo e, assim,  as questões mais    complexas  não são  discutidas   com a relevância  e o sentido de urgência que merecem. A imagem do país no exterior não é de guerra civil  propriamente, se bem que as estatísticas   de mortes no país  causadas  por crimes contra inocentes  são  mais  altas 
Aguardo que, no último debate amanhã entre os  presidenciáveis,   os candidatos se lembrem de levantar  esse   problema  comentado   aqui, quer dizer,  o mais   aflitivo da sociedade brasileira.    


domingo, 28 de setembro de 2014

2 fragmentos : memórias

                                  
                                        Cunha e Silva Filho


1. O edifício era o da Casa d'Italia, na Av. Presidente Antonio Carlos, Centro do Rio de Janeiro. Estávamos eu e algumas colegas conversando sobre o nosso futuro, o nosso curso, mal iniciado, nas suas primeiras aulas. A maioria daquele grupo de  estudantes de Letras era composta de garotas.O grupo compreendia uns  vinte e três alunos, seis, incluindo  quem   assina  este texto, eram  rapazes. De repente, da sacada do terceiro ou quarto andar,  a minha colega Glória, com quem tinha mais  proximidade, soltara esta: “Meus Deus! Faltam  quatro anos para nos formarmos. É muito tempo, Francisco.” Eu mesmo,   naquele momento, devo ter sentido o mesmo que ela.  Sim, quatro anos (mal sabia eu  que, ao contrário de meus colegas,  ainda  iria  prolongar por três anos  o final de minha graduação) para  percorrermos   os  estudos. Era o início do  ano de 1966. Já se passaram quase cinco décadas. E aquela queixa de Glória (Onde andará a minha colega  Glória, de português-inglês?)  é, hoje,  um  ponto   de tempo minúsculo, um minúsculo lapso de tempo.Não sabia eu que o tempo às vezes não passa de uma  subjetividade. O tempo é um pulo, um virar de página, ou  uma sensação  proustiana   de um  romance,  o Dom Casmurro ( 1899), de Machado de Assis (1839-1908).   Na obra  do  escritor, é aquele que mais  me dá a  impressão   da finitude  do ser humano,   da  certeza de nossas  fragilidades físicas  e nossas dores   morais. O fluir  do tempo  nesse  romance  é  a passagem dos dias  e  da sucessão de mortes,  muitas mortes, ao longo da narrativa,  índice, na obra,  de que  o tempo  carnal   acaba mesmo e sobre isso   devemos   levantar boas reflexões  metafísicas.

2. Estava  passando  pelo lado esquerdo da  Igreja  Santa Luzia, Centro do Rio, e me encaminhando para a Faculdade quando, de repente,  vi a figura esbelta, alta, morena,  ainda moço, e  com uniforme de  militar da Aeronáutica. Era o Pandiá Pându, um poliglota, tradutor e professor de línguas, especialista em inglês e em esperanto, autor de vários  livros  práticos  para  o ensino  de línguas,  sobretudo do inglês. Fui eu mesmo que me dirigi a ele, pois já o conhecia de vista. Vendo meu interesse pelo  inglês,  me  perguntou: Você sabe mesmo  falar  inglês?  É que vêm muitos alunos até a mim   dizendo  que  sabem  falar  e, na verdade,  não  falam nada.Vamos ver você.” Trocamos algumas frases em inglês e, ele, vendo que  tinha numa das mãos  uma  obra de Shakespeare,  me fez esta observação? “Meu jovem,   agora,  vejo  que  você  está  bem adiantado. Então,  lhe   confessei que  era estudante  da  Faculdade Nacional de Filosofia,  cursando  português-inglês. Uma vez, me levou a uma livraria que ficava na  Rua Treze de Maio,  também no Centro, onde   se vendiam  muitos  livros  para o ensino do  esperanto. Pandiá me mostrou um  grosso volume  escrito  por ele  sobre  o ensino  do  esperanto. Soube, mais tarde, que Pandiá, pseudônimo  que  usava nos livros dele, tivera  uma  polêmica com  o grande tradutor e poliglota, além de  brilhante ensaísta, Paulo Rónai. Pandiá era o exemplo de um autêntico  autodidata. Era da Bahia e, anos depois, soubera que  falecera de repente. No prefácio a uma livrinho dele, Basic English,  um amigo confidencia que Pandiá  Pându  falava “... com relativa facilidade pelo menos 8  idiomas.”  Um dado curioso é que, sempre que o via nas ruas do Centro do Rio, ele andava acompanhado de senhoras que, tudo indicava,eram  estrangeiras.  Foi uma grande admiração minha naquela  época.






sexta-feira, 26 de setembro de 2014

OS PREÇOS SOBEM, DONA DILMA!

             


                                                         Cunha e Silva Filho


             O custo de vida atual no Brasil está subindo em três setores: na alimentação,  nos remédios e nos planos de saúde. Enquanto isso, a Presidente, nomeada pelos áulicos a “Presidenta,.” em flagrante atentado contra  as mudanças fonéticas e ortográficas que devem  seguir o  curso  próprio  de  suas  modificações  inerentes  aos  estados linguísticos diacrônicos e sincrônicos   segundo as tendências   e índoles de cada língua.  Mantém os salários do funcionalismo federal arrochados, imobilizados. Politicagem,  bajulação e questões linguísticas não se devem  misturar  e, quando isso acontece,  provocam  o caos comunicativo ou a entropia, necessários ao jogo do poder e às dissimulações.
           Ora,  para ela, Dilma,  se aumenta ou não o custo de vida do brasileiro,  pouco se lhe dá,  contanto que  o gasto que têm  ela e sua família para  os cofres do governo continuem jorrando como água das cataratas mediante o uso  liberal dos cartões   de créditos  oficiais para presidentes e outros membros do governo federal.
          O que os brasileiros  vivemos  é aquilo que meu pai  costumava chamar, na sua época  de jornalista corajoso e independente,  de “carestia.”  E esta está rondando  os assalariados  públicos que não têm tido  aumento do  governo federal  há, pelo menos,  três anos, posto que seja  campeão  de impostômetro, exibição iluminada e contínua  que há tempos não tenho mais visto  pela televisão numa rua de São Paulo  
         Comida temos nas prateleiras  dos supermercados, mas  os preços,   que sobem sorrateiramente,  estão   causando estragos nos bolsos   dos  consumidores. Aos remédios de uso continuado e obrigatório, sobretudo para as pessoas  idosas que deles mais  necessitam,   dadas as condições  do envelhecimento e   das doenças  que  dessa  fase adulta    resultam,  mês a  mês,  uma família destina   uma parte   considerável de seus  vencimentos.  
         No terceiro setor  assinalado, temos os  tão  propalados  planos de saúde, sempre ávidos para  subirem  seus preços,   seja para  crianças e  jovens, seja para adultos e  idosos; os últimos são  os que mais  estão sofrendo por culpa de planos de saúde que,  para  eles,    são elevados e, quando  chegam  a uma faixa de idade bem avançada,  nem são mais   aceitos  pelos  capitalistas   gananciosos da medicina mercantilista.  Numa palavra,  o  idoso, o muito idoso estão  desamparados, porém,  como  afirmei e é preciso  reiterar,  quando atingem  a longevidade  e caem doentes,  são  descartados pelos   “comerciantes” dos  planos de saúde no  Brasil.  O destino dos idosos  pobres e mesmo  de classe média é um só:  tentar uma vaga  num hospital público que,  em grande parte e em todo o  país,  não  tem condições  de  atendê-los com dignidade.  A morte para os  anciãos  é coisa certa e um fato anunciado.
Os planos  de cooperativas ou de associados   sindicalizados (professores,  por exemplo),  recebem  determinações da ANVISA (Agência  Nacional de Vigilância Sanitária) que é o setor   federal   responsável por   estabelecer  índices de reajuste  de preços   tanto  nas negociações com  os planos de saúde quanto com  as cooperativas  que  repassam  os aumentos  dos planos através de negociações   realizadas por assembleias, cujas  decisões são  comunicadas  aos   usuários dos  planos e cooperativados. Na  prática, o governo, através  daquele  órgão regulador,  é quem  impõe o aumento aos  planos. As cooperativas  fazem alarde,   “fingem”  não aceitar o que o governo  pede e,  no final das contas,  terminam   aceitando  algo próximo  ao que o governo   determina na  majoração  dos preços.
É um  tipo de   decisão   autoritária e anual que parte do  próprio  seio do governo, cujo  único  prejudicado  final  é o usuário, seja  de plano  individual,  seja  de plano   através de cooperativas  ou associações. O que estas últimas fazem, na realidade, é   aparentar  estar defendendo nossos direitos de usuários de  planos,    contudo,   no fundo,  o que   acontece  é o conluio  silencioso,  nos bastidores, num negócio   proveitoso  tanto  para o  governo federal,  que  arrecada mais  impostos, quanto para  as cooperativas  ou  associações   ligadas  a sindicatos  e a táticas do velho peleguismo bifronte  brasileiro.. É a roda viva de um “faz de conta”  que se retroalimenta  continuamente. 
Essas  mazelas,   negociatas,   embustes,    mistificações são próprias  de uma país   que vive à sombra  grandiosa da  impunidade  e do caos “organizado”   tacitamente   engendrado  pela estrutura  viciada  e de práticas   sociais  e econômicas anacrônicas,  fazendo com  que,  absurdamente,  o país   exiba aos olhos atentos  duas faces:  o atraso, a miséria e  modus vivendi  e operandi  de Primeiro   Mundo.
Entre tantos   desmandos  da  Nação,  em   período de  eleição  presidencial e representativa,  Dona Dilma  - se é que  realmente  pensa no bem dos brasileiros -  deveria atentar  para, entre tantos “malfeitos” ( termo da  semântica lulista)   ainda  arraigados  no solo   pátrio,  para  o desgoverno  e  completa   ausência  da Lei visíveis a olho nu  nos  três setores  que alinhei  na discussão   deste  artigo.

          

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Tradução de um poema de Manuel Machado (1874-1946)






             Cantares 


Vino, sentimiento,  guitarra y  poesia
Hacem los cantares de la patria mía.
                  Cantares...
Quien dice cantares dice Andalucia.

A la sombra fresca de la vieja parra,
La guitarra...
Um mozo moreno rasgue ala guitarra...
                  Cantares...
Algo que acaricia y algo que desgarra,

La prima que canta y el bordón que llora...
Y el tiempo callado se va hora tras hora...
                 Cantares...
Son dejos fatales de la raza mora.

No importa la vida que ya está perdida,
Y, después de todo, ¿qué es eso la vida?...
                Cantares...
Cantando la pena, la pena se olvida.

Madre, pena, suerte, pena, madre, muerte,
Ojos negros, y negra suerte...
              Cantares...
Em ellos el alma del alma se vierte.

Cantares, cantares de la pátria mia.
Cantares non sólo de Andalucia.
              Cantares...
No tiene notas la guitarra mia.

               
             Cantos

Vinho, sentimento e poesia
Formam os cantos da minha pátria.
              Cantos...
Quem diz cantos diz Andaluzia.

À sombra fresca da velha parreira,
Um jovem moreno dedilha o violão...
             Cantos...
 Algo que  acaricia  e algo que se separa
A corda fina que canta e a corda forte que chora...
E do tempo o silêncio se esvai a cada hora.
                     Cantos...
São  ritmos fatais da raça moura.

A vida pouco importa, pois já está  perdida,
E, ao final de contas,  que é isso chamado vida?...
                    Cantos...
A dor cantando, logo se olvida.

Mãe, sofrimento, sorte,  mágoa, mãe, morte,
Negros olhos,  negros, e negra a sorte...
                   Cantos...
Neles a alma da alma se iguala.

Cantos, cantos da pátria minha.
Cantos, só os de Andaluzia.
                  Cantos...
Do meu violão emudeceram os sons.

                                                                          ( Trad. de Cunha e Silva Filho)


terça-feira, 23 de setembro de 2014

A querela entre Álvaro Lins e Afrânio Coutinho

           

                                                            You are never too old to set another goal or
                                                             to dream a new dream.
                                                               C.S.Lewis                                
                                                                          
                                                                                                      Cunha e Silva Filho

              Em 1940, o  então jovem  intelectual  baiano Afrânio Coutinho publicou no Rio de Janeiro o ensaio  A filosofia  de Machado de Assis,  obra  que, na  opinião  de Tristão de Athayde, o grande  crítico do Modernismo da sua  primeira fase (1920-1945), o “consagrou.” [1]
            Coutinho, antes, só era mais conhecido na sua  província natal, onde exerceu o magistério secundário nas disciplinas de literatura e história, e, ao mesmo tempo,  desenvolvia  atividade na imprensa. Já dera a lume três ensaios, Daniel Rops e a ânsia do sentido novo da existência, publicado na Bahia em 1935, O humanismo, ideal de vida (1938), e L’Exemple du métissage,  editado  em Paris, em 1939. O segundo destes ensaios,   todavia,  não aparece na relação  do conjunto de suas obras completas no espaço  reservado  às edições   de sua produção  intelectual
               Como seria natural a qualquer  moço estudioso de literatura,  história, e filosofia,  Coutinho, no ano  em que saiu  publicado  seu  ensaio  sobre  Machado de Assis,   enviou exemplares a vários críticos  que militavam nos rodapés da imprensa  do Rio de Janeiro e   certamente de outros  estados, alguns  já firmados na vida literária brasileira, entre  eles, Sérgio Buarque de Holanda e Álvaro Lins. Este último atuava intensamente  como crítico literário numa coluna do Correio da Manhã, do Rio de Janeiro;  o primeiro, nos anos 1940 e 1941, fora  convidado  para exercer a crítica  literária no Diário de Notícias do Rio de Janeiro.
             Por  obrigação do ofício, as obras  recém-lançadas tinham que ser lidas com  certa  rapidez e simultaneamente serem apreciadas com a necessária seriedade, pelo menos   é o que se esperava  de um  crítico  de rodapé  consciente  e competente. Ao críticos  incumbidos de  ler, opinar e julgar um novo  livro, caberia  uma tarefa  espinhosa para a qual  era  de se  esperar    que fossem  eles  indivíduos  de reconhecido  preparo intelectual, sobretudo na esfera literária.  Em geral, assim como acontece até hoje, os críticos pertenciam  a  profissões ligadas à vida  cultural,  como  professores,  jornalistas,  escritores, autodidatas ou pessoas  de outras atividades  mas que também   tinham  vocação  para  os estudos   literários.
              A atividade crítica através dos rodapés de Suplementos Literários corresponde,   guardadas as diferenças   de estilo  de escrita, extensão  dos artigos  e de objetivos  associados aos interesses  da imprensa,  às chamadas  resenhas das seções  dos jornais  atualmente   que ainda  dedicam  um caderno ou seção de literatura, notas  de lançamentos  de livros,  anúncios de  eventos culturais, reportagens  sobre  escritores e outras matérias afins. 
             No mesmo ano de 1940, conforme era de se esperar, o ensaio de Coutinho sobre Machado de Assis foi lido, entre outros,  pelos dois críticos mencionados.          
             Inicialmente, posto que identificando alguns pontos meritórios no ensaio A filosofia de Machado de Assis,  os artigos de Álvaro Lins[2] e Sérgio Buarque de Holanda,[3] cada qual  à sua maneira, e dentro de seus  princípios estéticos  de  compreensão  no terreno  da  metacrítica, consideraram  a análise   de Coutinho  imperfeita no seu  conjunto, mal  planejada e carente  de argumentação  plausível no tocante  à defesa  do eixo central  da  tese,   a qual,  em  síntese,   seria  afirmar  ser Blaise  Pascal  o  ponto de apoio  fundamental   como elemento  de maior  influência sobre  o pensamento  do  escritor  Machado de Assis, principalmente,  para  mostrar  que  Machado de Assis,  como  autor e como  intelectual,  devotava  um sentimento  abissal  de “ódio à vida.”
               Foi essa visão de Coutinho, i.e., eleger Pascal como o autor  que mais  influenciou Machado de Assis, quer como  intelectual, quer como  ficcionista, agravada, além disso,  pelo  sentimento de “ódio da vida” na obra   machadiana,  que desencadeou algumas argumentações   desfavoráveis    de Álvaro Lins e de Sérgio Buarque de Holanda em torno do ensaio. Segundo Lins,  esta questão do “ódio à vida” foi igualmente levantada por outros exegetas de Machado de Assis. [4]
               Comentando a repercussão da polêmica sustentada entre Álvaro Lins e Afrânio Coutinho, o ensaísta João Cezar de Castro Rocha, em tom de desabafo,  conciliatório e favorável  a Álvaro Lins,  considerou ter sido o artigo de Sérgio Buarque de Holanda muito mais  devastador do que o de Álvaro Lins, consoante  as palavras de Castro Rocha: “(...) à luz dessa resenha, o artigo de Álvaro Lins transforma-se num grande elogio.”[5]  Não vemos  tanto  assim, porquanto   Lins é mais contundente e mais  incisivo ao  levantar  a questão  do estilo da escrita de Coutinho.
              A par  disso, o artigo-ensaio, conquanto, inicialmente   se mostre  receptivo com  o ensaio, ressaltando-lhe  algumas qualidades,  nos deixa  perceber certa  ironia   que bem pode ser  evidente  quando,  por exemplo,  alude ao ensaio de Coutinho  como  um ‘exercício’ literário indiciado   pelo sentido catafórico  do título do artigo-ensaio:   “O segundo Afrânio, um ‘exercício’  literário acerca de Machado de Assis” 
              Quem tenha maior conhecimento da obra de Lins sabe o quanto o crítico pernambucano valorizava nos seus julgamentos, além da personalidade literária de  um autor e o valor da obra,  a qualidade  de estilo de um escritor e, no caso  específico  de um crítico literário, a valorização  desse aspecto ainda  tinha  para ele maior peso.
             De resto, desde a publicação do seu  segundo trabalho, o  conhecido  ensaio  História literária de Eça de Queiroz,[6] escrito  quando ainda  muito moço, Lins,  já àquela  época  da edição  desse  ensaio sobre o romancista  português, destinara   um  importante capítulo, o de número onze, “O problema do estilo,” a uma discussão  sobre  o    “instrumento verbal”   do autor de O primo Basílio que, desde logo,  confirma   a importância  que  o ensaísta  brasileiro dava  à linguagem  literária no que tange  ao elemento   do estilo, e essa  preocupação estética  se faz patente ao longo  de toda a sua  obra  de crítico.
               Na realidade, ao censurar o estilo da escrita de Coutinho, Lins, embora  muito cedo  tivesse  demonstrado ser  um espírito   lúcido nos seus  juízos  críticos,   choveu no molhado  e não conseguiu lobrigar  um aspecto no desenvolvimento da vida de um escritor, e mesmo  do ser humano  em geral,  quer dizer, uma falha  estilística pode figurar apenas uma fase passageira na escrita de um autor, assim como um  mesmo   autor pode, em outros trabalhos,  escrever com uma  qualidade  bem superior.
                 Escritores há, em todos  os tempos, e aí podemos   incluir  igualmente os críticos  – por que não? – os quais se  modificam, se aperfeiçoam e atingem  uma fase  admirável  de sua expressão   escrita. A formação literária, em qualquer gênero, desde que   exercitada com   seriedade e  devotamento  à atividade, desejo  de  superar-se,   pode  alcançar  um   bom  ou mesmo  excelente  nível  de elaboração literária, ainda que  não  possamos  generalizar, como  é exemplo  o  caso do crítico José Veríssimo,  por sinal  lembrado  por Lins  no  mencionado   artigo.
              No entanto, vendo, sob outra perspectiva, o incidente biográfico-literário envolvendo Coutinho, nos inclinamos a reconhecer que qualquer mortal, em sã consciência,  não tende a receber  passiva e  generosamente uma  observação  severa de um  elemento   decisivo   da linguagem de qualquer   escritor, que é o estilo,  além do mais  em artigo-ensaio que,  na sua generalidade,   economiza    comentários  favoráveis a   um  texto escrito  com   competência, boa pesquisa e com   um objetivo indisfarçável de contribuir para o evoluir dos estudos machadianos entre nós. 
              Mesmo em faixas de maior amadurecimento intelectual, não faltam exemplos,  mais no passado do que no presente -  é bom que se frise -,  de esgrimistas de ideias discordantes,  reagindo contra um adversário, ao contrário  de  algumas  polêmicas  que, de vez em quando, surgem  atualmente nos cadernos  culturais dos   maiores jornais do  país. Geralmente,  são bem  mais  comportadas e não ostentam a virulência   expressa na linguagem desabusada  das antigas polêmicas,  que desancavam  os  oponentes e os  transformavam em  retratos caricatos e grotescos.
              Hoje, não, as divergências  de ideias  são expostas, em geral, com  maior respeito ao antagonista. Quando menos educada, de ordinário  não passam  da tréplica  no uso do espaço da imprensa ou de outros meios de comunicação, de parte a parte em defesa de  posições  supostamente  feridas.
               Ninguém gosta  de receber críticas de outrem em plano algum da vida social ou cultural, O troco logo vem de quem se sente  ultrajado com o que produz,  especialmente no plano intelectual. A vítima da crítica  geralmente parte para o revide, que pode  ou não se transformar em polêmica, a qual pode  ser duradoura - repetimos -  como  o foi na  refrega   entre  Coutinho e Lins.
               Por outro lado, o fulcro  dessa polêmica,   a nosso ver,  está  radicalmente atrelado a razões de política literária, de disputa de hegemonia intelectual no cenário  brasileiro, ao lado de outros motivos também  prevalentes: visões diferentes, em muitos  temas no campo da crítica literária,  da relação entre jornalismo  literário e  crítica, de  ensino universitário. Em outras palavras, o vetor  principal da polêmica foi  o embate entre o Impressionismo e a Nova Crítica.
               O que a nossa experiência de leitura da  obra crítica de Lins indica é que,  para  Lins,  não  seria  coerente e  sensato   fugir ao dever intelectual de apontar qualidades  e deficiências  de  obras que passassem pelo seu  julgamento. Por isso, não manifestava o mínimo gesto de  indulgência  diante de uma obra considerada por ele  sem qualidades, não somente . na área estritamente literária, mas também em outros domínios  por onde circulava  a sua curiosidade intelectual.
               Um exemplo  marcante dessa  postura do crítico foi o seu julgamento do romance naturalista, A carne, de Júlio Ribeiro,[7] obra que para Lins  não significava nada para a literatura brasileira, ou como  ele costumava  dizer citando   uma frase   no original de  uma das línguas   que possivelmente mais  dominava: “hors de  la   littérature...”[8] 
              Seu raio de ação na incansável  atividade  de crítico,  suas  posições  vigorosas,   destemidas e sua  independência  intelectual provavelmente tenham levado  o poeta  Carlos Drummond de Andrade a chamá-lo de “Imperador  da Crítica,”   antonomásia que  esconde um tanto  de  sutil   ironia, dado que o primeiro  elemento do sintagma, “imperador,” (do latim  “imperator, significando  “mandar,” “comandar,”  figurativamente,  “senhor”, “árbitro da  vida  de alguém”)[9]  não deixa de remeter a um  sentido  plurívoco,  i.e, soberania  crítica, espírito de liderança,  autoridade  intelectual, poder de controle  sobre   valores  estéticos, bem  ajustado, por sinal,  àquela declaração de guerra contra  Lins  feita  por Fausto Cunha, ou seja, a  “(...) da luta contra a perpetuação da mentalidade critica que lhe parecia  simbolizar.”[10]  
               Lembraríamos  a propósito e de relance que o lado relativo e  perverso da crítica é que, ao se rebelarem  contra    figuras e companheiros   da experiência  literária, sobre uma  forma  de práxis crítica ainda  utilizada, mas já  reputada como  ultrapassada   por uma nova geração,  invariavelmente,  mais adiante,   os mesmos   agentes detratores se tornam da mesma  forma   rejeitados pela outra   geração mais nova,  nessa  espécie de eterna  linha de tempo  volúvel de surgimento de  outros approaches e  visões  estéticas.
               Isto serve tanto para os gêneros literários  tradicionais   ou   para  novas  formas  de experiências  e ousadias  ficcionais  ou poéticas  quanto  para   essa forma de gênero de prosa  -   uma atividade  visceralmente  estético-filosófico-literária denominada crítica literária, em suas várias correntes  do pensamento  contemporâneo.
               Ora,  desfrutando de uma  posição  proeminente nos áureos  tempos como  crítico  impressionista, a vertente crítica a que se filiava  decerto seria o alvo mais indicado  a fim de que Coutinho  disparasse toda a munição de que dispunha na peleja  para ver  implantada   no país a Nova Crítica no nível  do ensino secundário e da  universidade – diríamos -  na “unidade de sua diversidade,” segundo  era sua  pretensão, num tempo em que mal  começava   a funcionar  o ensino superior de  letras.
              De 1940 à década de 1950, aproximadamente, podemos considerar   Álvaro Lins um dos maiores críticos  de  sua geração  com  inegável  prestígio na segunda  fase do Modernismo,[11] período em que a sua militância critica o alçava a uma  posição  de liderança no papel   por vezes nem sempre  confortável  de julgar  autores, novos ou já firmados  na produção  literária   brasileira.
  .      Tal  se deu   com o surgimento, em nosso país,  de novas correntes do pensamento crítico provenientes dos  Estados Unidos e   da  Europa  a partir das  décadas de   30, 40, 50 e 60   do século passado e cujos métodos aqui  foram   progressivamente  sendo aplicados   graças  à experiência de intelectuais brasileiros   com formação  em grandes centros  norte-americanos  ou europeus  em geral, ou   por via das leituras de  livros importados  com os quais estudiosos  nossos  se atualizavam, numa  época em que  no país iam  surgindo  as primeiras  Faculdades de Letras e de Filosofia.  
               Mais uma década após a publicação do artigo de Álvaro Lins, ou  seja,  precisamente, em 1951,  outro fato circunstancial coloca  Lins e Coutinho em situação  de confronto ou de competição, qual seja,  num concurso daquele ano  para duas  vagas  da cátedra de Literatura do Colégio Pedro II, se inscreveram quatro candidatos, dois dos quais   eram   Lins e Coutinho. Lins vinha lecionando  no Colégio Pedro II desde 1941. Coutinho, de regresso dos Estados Unidos, em 1947, da mesma forma fora nomeado professor  interino daquela instituição  federal de ensino, permanecendo nessa condição até 1951, ano do concurso.
             Realizado o concurso, Lins  e Coutinho foram aprovados.  O primeiro  apresentou a tese A técnica do romance em Marcel Proust, trabalho  depois  publicado em livro; o segundo a tese Aspectos da literatura barroca, a qual, da mesma sorte  foi  publicada em  livro.
         Coincidentemente, as duas teses, em forma de livro, tiveram grande repercussão, sendo que  Aspectos da literatura  barroca,  conforme  assinalou José Paulo Paes,  foi   estudo  pioneiro  no país,  inclusive,  é obra citada na bibliografia sobre o Barroco na notável  obra  Teoria  da literatura  de René Wellek e Austin Warren,  a qual, em   tradução portuguesa, veio a lume em 1962.  Aspecto da literatura  barroca  foi ainda citada  na monumental  obra Teoria da literatura, de Vítor Manuel de Aguiar e Silva.                 
          Um  estudioso  da vida e obra  de Afrânio Coutinho,  Odilon Belém,  no livro Afrânio Coutinho filosofia - uma filosofia da literatura,[12] apresenta,   todavia,   outra versão sobre  a realização do concurso  nestes   termos:

Concorreram a duas cátedras quatro candidatos. Dois deles bafejados pela maioria  da congregação, sendo que uma das duas cátedras, todos sabiam,  destinava-se ao  postulante  que faz carreira na imprensa e que tinha por  trás de si um dos  grandes jornais da época, de que era  redator. (...) (grifo nosso)[13]

          Na mesma  obra do trecho  citado  acima,   Odilon Belém  relata que o concurso  teve características de um  “evento”comemorativo, espécie de torcidas organizadas, acompanhando  pari passu as fases do  certame, as conversas dos bastidores, o que pensavam os componentes da banca, a congregação do Colégio Pedro II,[14]  e podemos  imaginar  o quadro que ali  se  desenhava  ou a paisagem física, humana, o clima de tensão  e nervosismo de candidatos de mistura com  a tranquilidade da   exposição de outros candidatos durante  a prova  oral, cujo tema sorteado para todos  era discorrer sobre Rousseau. Relata Odilon Belém que Coutinho estava “tranquilo” durante a exposição e  dela saiu-se de forma  brilhante.Belém ainda menciona um pequeno  trecho  lido na imprensa do momento que, acerca   do concurso, afirmou ter sido ‘um dos pleitos mais memoráveis do  espírito naquele  educandário’.[15] Não é preciso  grande esforço   da parte do  leitor  da obra de Odilon Belém para  identificar   que o “postulante” em  causa é o crítico  Álvaro  Lins e o jornal  não é nada menos do que o Correio da manhã, do qual  Lins  fora  redator-chefe  
      As circunstâncias nas quais transcorreu  o concurso são, en passant, relatadas na obra  A luta  literária,[16]   do crítico  e ficcionista  Fausto Cunha, intelectual que,  junto com outros,  no ano de 1951, se colocou  ao lado   de Afrânio durante o concurso, assim como  igualmente esteve a favor de Coutinho, na refrega que este travava contra o Impressionismo na sua  coluna dominical  “Correntes Cruzadas,” do Suplemento   Literário do  Diário de Notícias, do Rio de Janeiro.
            Fausto  Cunha e outros  companheiros, perfilhando  os mesmos   propósitos  de  desbancar  o Impressionismo crítico e   “o primado  crítico de Álvaro Lins”, escreviam na  revista  Ensaio e  Revista  Branca. A meta de Fausto Cunha e de seus  colegas era a mesma  de Coutinho,  lutar por  mudanças  e renovação    da crítica  literária brasileira.  No dia do concurso de Coutinho  Fausto Cunha   estava presente e torcia, como outros  companheiros,  pela vitória  de Coutinho.[17]
            Era a primeira vez que via o escritor baiano pessoalmente. Fausto Cunha aproveitou  a realização do concurso para, através da Revista Branca, fazer “uma cobertura  entusiástica” do evento.[18] Representa, ao lado de outros companheiros,  desse modo,  a claque dos que  queriam  a  cátedra  para Coutinho, assim como  provavelmente haveria   os simpatizantes  de Lins.
          Fausto Cunha e seu grupo já contavam com a vitória de Lins, dado o  seu  prestígio  na época, assim  podemos  deduzir. Por essa razão, segundo Fausto, a “participação  de Lins no concurso era de significação secundária.” [19] O que ele   e o seu grupo só  desejavam era, repetimos,   o sucesso de Coutinho ou como ele mesmo  declara: “(...) a vitória de um novo conceito de critica  e de uma nova atitude perante o fato literário”.[20]
               No capítulo  “A Nova Crítica’ da  mencionada obra de   Fausto Cunha, o crítico   assume abertamente a  defesa de Afrânio diante do clima  tenso  resultante da  polêmica  entre Lins e Afrânio,  que já durava até então dez anos:

 Tínhamos  naquele tempo, Afrânio Coutinho e eu  um  ponto   em comum:   a luta contra o primado de Álvaro Lins – dizendo melhor, a luta contra a perpetuação  da mentalidade crítica que ele parecia simbolizar. Na verdade, combatíamos em campos  quase opostos. Eu via no autor do Jornal de crítica um representante da ‘crítica colonial,’ mas via nele sobretudo a encarnação por excelência do banausismo literário.(...)  (grifo do autor)[21]

                 Porém, em nota de pé de página do citado livro de ensaios, Fausto Cunha, se não renega a sua  posição  crítica  na guerra contra o Impressionismo crítico de Álvaro Lins,   no início dos anos de 1950, da mesma forma  não deixa escapar esta confissão, a nosso ver,  reveladora na primeira metade dos anos de 1960:

 (...) Minha posição em relação a Álvaro Lins como crítico foi sustentada em vários artigos; hoje não valeria a pena evocá-los. São crises de idealismo literário, cuja importância o tempo e o meio se encarregam de esfriar. Hoje considero sua obra perfeitamente válida em muitos  pontos admirável.”[22] 

             Convém assinalar que aquela nota de pé de página  se reporta à data de  publicação  de A luta  literária, i.e., 1964. No mesmo ensaio, Fausto Cunha, em outra nota de pé de página, a de nº 1,  faz  outra afirmação  pertinente: “Também aqui vale o que ficou dito na primeira nota. Lembrar que tudo se passou em 1951 e que de lá para cá muitos ventos sopraram. Nada renego, mas também já não tenho as mesmas ilusões imberbes”. (grifos nossos)
               Naquele ano do concurso, 1951, a polêmica ainda estava bem acesa, notadamente pela continuidade  dos artigos  de Coutinho na já aludida  coluna dominical “Correntes cruzadas,”do Suplemento  Literário do Diário de Notícias. Persistiam os  ataques fulminantes  do crítico  baiano ao Impressionismo de alguns  críticos  brasileiros. Sua virulência, da mesma sorte, se voltava para  o estado, segundo ele,   deplorável da vida literária  de então, onde grassavam o compadrio, os grupelhos, os conchavos entre  escritores e lideranças intelectuais    cristalizadas.    
               Entretanto, a meta principal de Coutinho, consoante acentuamos anteriormente, era  atingir o Impressionismo de Lins e seus seguidores. Grande parte dos artigos saídos na coluna “Correntes cruzadas,” cujo  início data de 1948 e vai até 1953,   foi,  mais tarde, selecionada e reunida em livro  que levou o nome da coluna.[23]
                 Afirma  Coutinho,  na longa  introdução  ao volume, ter  incluído,  além dos artigos,  chamados  por ele de “crônicas,” outros textos  publicados em lugares e datas  diferentes. Da mesma sorte,  ele coligiu  outros artigos antes  saídos na imprensa datados de 1952 a 1959, que farão parte do livro No hospital das letras,   editado em 1963.  




[1] AMOROSO LIMA,  Alceu. Quadro sintético da literatura brasileira. Op. cit., p. 148-149.
[2] LINS, Álvaro.  O segundo Afrânio: um "exercício" literário acerca de Machado de Assis. In:__. Os mortos de sobrecasacas. 1. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 191963, p. 348-354.  
[3]  HOLANDA, Sérgio Buarque de. A Filosofia de Machado de Assis. In: __. Cobra de vidro. Coleção Debates.  São Paulo: Perspectiva,  p. 53-58.
[4] LINS, Álvaro. Os mortos de sobrecasaca, Op. cit., p.352.
[5] CASTRO ROCHA, João Cezar de. A crítica literária: em busca do tempo perdido? Op. cit., p. 190. Ver  o que afirmamos na nota  6.
[6] LINS, Álvaro. História literária de Eça de Queiroz. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1965, p. 247-269, capítulo 11.
[7]  LINS, Álvaro Lins. Júlio Ribeiro: hors de la littérature...In:_. Os mortos de sobrecasaca. Op. cit., p. 217-219.
[8] Ibidem.
[9] QUICHERAT, L. Novissimo diccionario latino-portuguez.  3.ed. Rio de Janeiro: H.Garnier; Livreiro-editor, s.d., p. 580. Conservamos a grafia original dessa  edição. 
[10] CUNHA, Fausto. A luta literária. .Rio de Janeiro: Lidador, 1964, p. 53.
[11]  Cf. AMOROSO LIMA, Alceu. Quadro sintético da literatura brasileira. Op. cit. p.145.
[12]  BELÉM, Odilon. Afrânio Coutinho – uma filosofia da literatura. Rio de Janeiro: Pallas,  1987. Em nosso juízo, a obra de Odilon Nunes, se excetuarmos  o seu lado de exaltação em decorrência da sua dimensão  afetiva e de laços de  grande amizade com  Afrânio Coutinho,  é o melhor  estudo,   quase uma  biografia  do crítico  baiano. Para quem  quiser  penetrar  em aspectos da vida pessoal e intelectual de Afrânio Coutinho,  julgamos  ser a melhor  obra neste gênero  sobre o crítico. Ademais,  contém um precioso  Curriculum Vitae de Afrânio Coutinho,  organizado por Juracy dos Santos Pereira,  uma  riquíssima   e bem  organizada bibliografia  ativa e passiva  sobre o  autor estudado a cargo de Maria da  Graça Coutinho de Góes e  capítulos  decisivos  -  todos  -  para  compreender  melhor  o perfil  do crítico e do intelectual: ”Uma vocação,” “A experiência jornalística,” “Jornalismo e Literatura,” “Segunda Guerra Mundial,”  “Amigos,”  “Volta ao Brasil,” “Faculdade de Letras e”Viagens ao Exterior”.
[13]  Idem, p. 120. O “postulante” de que fala Odilon Belém era, no caso,  o crítico Álvaro Lins, e o jornal  era o Correio da Manhã, do qual foi crítico  titular.
[14] Segundo  Odilon Belém, na obra  citada na nota  anterior, faziam parte da banca examinadora  do  concurso os seguintes professores: Clóvis Monteiro, Cândido Jucá [ Filho], que representavam  o Colégio Pedro II, e os examinadores  “convidados”:  Abgar Renault, Afonso Arinos de Melo Franco e Cassiano Ricardo. Ver BELEM, Odilon. Op.cit., p. 120. Como complemento  de informações sobre o  concurso,  recorri ao livro de João Cezar de Castro Rocha. Op. cit., p. 191, em que elenca os nomes  dos dois  outros concorrentes: Celso Cunha e Vieira Souto.
[15] Ibidem.
[16] CUNHA, Fausto. A luta literária.  Op.cit.,   p. 52-53.
[17] Idem, p. 53.
[18] Ibidem.
[19] Ibidem.
[20] Ibidem.
[21] Ibidem.
[22] Ibidem. Nota de pé de página  1.
[23]  O livro em questão é Correntes cruzadas. Ver COUTINHO, Afrânio. Correntes  cruzadas .-  questões de literatura. Op. cit.

Fonte da epígrafe do  ensaio: C.S. Lewis, extraída de uma página do Facebool.