quinta-feira, 13 de março de 2014

Das amargas, sim!




                                   Cunha e Silva Filho


              Não vou na onda dos que   se recusam a ver o lado  áspero,  injusto   e violento da vida. Não, disso não levarei a  culpa  de ninguém. Absolutamente  irei fazer  o papel  ingênuo  do Cândido, ou O Otimismo ((1759) de Voltaire (1694-1778). A realidade  que  nos rodeia  tem que ser  observada em seus  muitos aspectos,  nos doces,  nos amargos,  nas injustiças e nas prepotências  de pessoas, sociedade,  políticos,  governos e tudo o mais.
Como silenciar  o  barulho da vida com todas as suas teias  de aranhas  tentando  nos entretecer  de pílulas  de otimismo   de baixa  qualidade.   Como silenciar o Holocausto,  os malfeitos de Hitler e do  nazifascismo,  os horrores do general  Franco, de  Mussolini, de Stálin,  as ignomínias  de Salazar,  dos ditaduras  militares pelo mundo afora? Não,  o silêncio é capitulação  da condição  humana. Os crimes contra a Humanidade  têm  que ser  repassados  pelas gerações novas a fim de elas  avaliarem  até que ponto a barbárie  foi capaz de chegar. Como silenciar as bombas lançadas  na Segunda Guerra Mundial no Japão? E as guerras fratricidas,  as guerras religiosas (que paradoxo das ações  humanas!), as atrocidade  da política  norte-americana na guerra do Vietnã,  a manutenção de Guantánamo  ainda  em nosso dias,
Como silenciar  os preconceitos de todas  os tipos  que só  levam  às  dissensões  entre as pessoas, tal como  há poucos dias  aconteceu com um jogador nosso  porque  é negro? Que  povo é esse que ainda mantém  hipocritamente o preconceito de cor num pais  mestiço que, se medido  etnicamente  pelos  padrões norte-americanos,  não sobraria nele  praticamente  nenhum branco “puro”, ariano,  alto,  bonito,  de olhos azuis e cabelos  louros e lisos?
Sair  do corpo-a-corpo da vida como dizia  o  grande contista  João Antônio (1937-1996), jamais!  O poeta  Carlos Drummond  de Andrade (1902-1987), em versos  célebres, diz: “Chegou  um tempo em que não adianta morrer,/Chegou um tempo em que a vida é uma ordem,/A vida apenas, sem mistificação.”
Fugir do social, da  situação  do país, com suas qualidades, suas muitas misérias (morais,  política,  sociais, religiosas etc) não é certo e me soa  uma atitude  de desesperada  ignorância,  indiferença  e  insolidariedade. O mundo,  o país procuram  por nós em face de suas  carências,  de seus  mil problemas,  de suas  injustiças, de sua desesperança. Isolar-se somente se for para a solidão  à procura de inventar  a Arte          Solidão apenas  aparente, porque  em seu momento  todo o universo está  contido  na  plasmação  de uma obra artística, seja na ficção, na poesia,  no teatro, em todas as artes, tão necessárias  ao sentido do viver, já que  a  força  dos elementos  convocados para  a feitura  de um  objeto artístico   se encontra na  própria  experiência  da vida,  sendo tais elementos  “transfigurados,” como  diria  o crítico literário   Álvaro Lins (1912-1970)
Jamais pensarei  em  me isolar  da condição de ser social,  de “animal  político’, através do que faço, do que escrevo e do que, dentro das limitações  pessoais,   posso  comunicar  a outrem. 
Não seja egoísta, leitor,  fugindo  da sua condição   de cidadão desse país e do mundo.  O mundo não se resume a um único país. Não somos  o umbigo  do mundo.  Somos todos  partes do Universo e, ipso facto,   cabe-nos  uma parcela de responsabilidade e de participação de alguma  maneira, ou seja, na  prática política  séria, no serviço  voluntário, na   consideração  e respeito  pelos  direitos  dos outros, na convivência dos  prédios,   na sua atividade  profissional,  no seu comportamento  na rua,  dentro de um carro, num trem, num metrô, no avião  no navio. Em todos esses lugares  há que  praticar   atos  de boa vontade  e de cooperação.
Mas nunca  subestimar  a condição  gregária,   o encontro entre amigos,  uma palavra  de conselho a quem  está  sem esperança. Pascal (1623-1662) esta  extraordinária  figura de gênio  nunca perdia  a oportunidade para  falar   da importância da caridade. E como estamos longe  desse ato  de  doação do que não nos falta, do que nos sobra  da matéria da vida. A vida moderna, na sua pressa cada vez mais  agressiva,  nos  faz esquecer  tantos  atos  bons que poderíamos  executar sem  nenhuma  perda ou prejuízo  para  nós. O olhar  do ser para fora,  para o exterior,  que nos faz sair  de nosso  bolha de proteção  interior, é a manifestação  mais viva de exclamar sem medo : “Das amargas, sim!”




AO PÉ DA PÁGINA,

 Dois gigantes

                                     Cunha e Silva


“Dois gigantes da democracia – Sobral Pinto e Tristão de Ataíde (Alceu Amoroso Lima) – com justiça merecem o respeito e a admiração do povo brasileiro; Tristão de Ataíde, já falecido há pouco tempo, aos oitenta e nove anos de idade, ainda era  lúcido, e Sobral Pinto há pouco completou noventa anos de idade, está no gozo da mais perfeita lucidez e vivacidade de espírito. Tristão de Ataíde e Sobral Pinto foram  defensores intransigentes do Estado  de Direito, da democracia e das liberdades jurídicas, impertérritos baluartes em defesa dos direitos humanos e opositores corajosos aos regimes  de força, de arbítrio, quer através de pronunciamentos  memoráveis, quer através da imprensa.  Tristão de Ataíde escrevia no “Jornal do Brasil”, do Rio de Janeiro, até quando morreu. Era um dos homens  mais cultos deste país, escritor,  emérito,  humanista,crítico literário, líder e pensador católico, um dos luminares da Academia Brasileira de Letras, autor consagrado de vários livros de valor, inclusive estudos literários. Nunca transigiu diante dos poderosos do dia,  propagando as suas  ideias, o seu pensamento político, religioso e filosófico com destemor e bravura cívica. Sobral Pinto é advogado dos mais notáveis do Brasil, conhecido pela coragem  indômita com que se prontificou a ser o advogado de Luís Carlos  Prestes, por solicitação  da ordem dos Advogados  do Brasil quando o país estava em ESTADO DE GUERRA em consequêcia da intentona comunista de novembro de 1935.” ( Nota do colunista do Blog: Este fragmento do artigo, recorte de meus arquivos, não traz a data nem o nome do jornal. Creio que foi  publicado no jornal  Estado do Piauí, Teresina,PI)

sexta-feira, 7 de março de 2014

Salada mista






                                   Cunha e Silva Filho




1.. Crimeia:  A Crimeia faz parte da Ucrânia, com  um povo  de maioria  russa e que, ao que parece,  deseja  ficar pró-Rússia. Mas há uma pedra no meio do caminho, a Península  autônoma é também constituída de tártaros muçulmanos,  contrários à Rússia. Aí vem, a Rússia disfarçada em  soldados milicianos  e toma conta do aeroporto,  invade o Parlamento e  dá as ordens. A barafunda  se instalou. Qual vai ser o outcome de tudo isso? Estranho mundo  de irmão  divididos e com  visões do mundo e da política diferentes. Quem vai  entender  esse Planeta  terra? O fato de Putin  anexar a Crimeia na marra é ato de força e  truculência  política. Não estamos mais nos tempos  de Stálin et caterva  de outros  poderosos  russos que tiveram  suas estátuas  derrubadas  pelos ucranianos nas sangrentas  manifestações  já ocorridas  recentmenete em Kiev.

2 Tio  Sam: John  Kerry me parece um  Secretário  de Estado  sério e competente. Talvez ainda seja  Presidente dos  ianques. Obama  soube  bem escolhê-lo para o cargo e tudo leva a crer  que  Os EUA não  podem se calar  diante das  ameaças   russas(soviéticas?) nem   temer Putin, a não ser em luta  corporal, porque, se não me engano,   Putin  é  atleta   de  lutas  marciais, ou não ?  O certo é que neste imbróglio todo há um  fato  decisivo  entre as nações  envolvidas e os organismos que as representam:  o econômico,  o gás vendido para a Europa pelos russos. Tudo, hoje no mundo,  se resume nas conclusões e desfechos  monetários, traduzido-se – no dinheiro,  no euro, no  dólar -  o mais poderosos  fetiches da Pós-Modenridade.


3..  Venezuela: Com manifestações, sobretudo de estudante,  os venezuelanos  desejam  reformas urgentes e até a cabeça do  Presidente, aquele altão bigodudo  que  substituiu o  Hugo Chávez, considerado  por alguns  nacionais como  herói da nação .O certo  é que Caracas se tornou uma das mais violentas  cidades do mundo e seu  povo, assim como de todo o país,   enfrenta  problemas  de  abastecimento de alimentos e inflação  tentacular, caos  político,  mortes  de civis  , segundo  diz a imprensa internacional,  provocadas  por forças do governo  federal. No meio de tudo isso,  o país tem  muito  petróleo e um  povo dividido, mais uma divisão entre  irmãos  patrícios.

4.  Brasil:  Ora bolas(sem trocadilho com a  Copa), no    Brasil,  aqui a coisa está feia: os mensaleiros, ao que tudo indica,  não estão rigorosamente  presos; um   teatro se instalou nos bastidores  dos poderes  da lei e das togas. Em votações pr-s e contras há sempre uns gatos pingados que são contra a prisão, a comutação  e até a liberdade  plena, livre de quaiquer máculas  morais e  pecuniárias. Um  distinto  jornalista da velha guarda, ontem, em entrevista na televisão,  afirmou que, num pleito à Presidência  da República,  Dilma  pode  conquistar um segundo mandato. Contudo, se alguma coisa der  errado,  Lula  entra em cena,  em estilo  apoteótico  de populismo  sul-americano, e  pleiteia  mais uma mandato. 
O jornalista  assegura : “É imbatíve!”. Realmente,  Lula é o sujeito que mais teve sorte na política brasileira contemporânea. Além de ter-se tornado  Doutor Honoris  Causa de várias universidade  importantes do mundo,  tem bastante   gás político-eleitoral-empático  para abiscoitar um terceiro mandato,   completando um círculo  sem precedente na História  brasileira,,  ou seja,   vinte anos de petismo, ou lulismo,  como quiserem.
Lula, diante dos  candidatos como Eduardo Campos,  Marina,  Aécio Neves ou outro que venha  se enfileirar  na  disputa  presidencial,  se agiganta e tudo isso  porque, no país,  não surgiram, nos últimos anos,   grandes  lideranças  de  elevada  estatura moral,  competência  política e, o que muito vale para a vitória  política de um candidato,  de  magnetismo,  sebastianismo,  populismo  inteligente e manha, jogo de cintura e boa  malandragem, espírito  piucaresco. Onde se há de encontra  um homem que reúna assim tantos atributos  para se  ombrear  com o Lula  e vencer o político  brasileiro   que sempre negou  qualquer   envolvimento  no  famigerado  Mensalão meio pizza.. Só não convenceu  alguns  brasileiros e o brilhante, corajoso e saudoso   jornalista,  Fausto Wolff.
 Lula é tão sortudo que até  sociólogos franceses ou americanos  o têm na conta (santa  ignorância dos scholars  estrangeiros) de esquerdista, quando, na verdade, não o é. Ele está mais  paras delícias  do capitalismo com todas as  facilidades e conforto  propiciados  por este  sistema de livre mercado. 
 Hoje ele e sua família  vivem bem e não mais comem  feijão  com arroz  ou  rapadura com farinha, ou   para ser mais  preciso, segundo  o próprio Lula  falou numa entrevista  pela televisão, acabaram-se os  ásperos dias de  trabalho na  ainda pacífica   urbe  paulistana,  quando  levava,  na marmita,  feijão  arroz e ovo,  que  ainda lembravam   os magros  tempos de  secura     nordestina.. Lula é o Milagre brasileiro (não confundir com o Milagre Econômico do Delfim Neto da ditadura   militar  de priscas eras)  do  populismo e de um  país .há séculos entregue  aos bruzundungas  aperfeiçoados  de  macunaíces.



AO PÉ DA PÁGINA

                                                     Cunha e Silva 

"Há democratas sinceros que admitem executivo forte, mas não autoritarismo, que traz os demais  poderes do Estado em subalternidade, como é exemplo  o executivo brasileiro, em que se vê o homem da papada, o gorducho  Delfim Neto, cantar de galo, falar mais alto  do que o Presidente da Republica no Palácio do Planalto. Os assessores do presidente Figueiredo tremem diante dele, como o ministro  Ueaki se tremia  diante de Geisel, Executivo forte, mas no bom sentido,  isto é, no sentido de moralizar a administração  pública e de punir no duro os ladrões da República, que são muitos em todo  o País, de afastar dos cargos os incompetentes, os corruptos e os inoperantes". Artigo “Executivo  Forte”(Jornal  Folha do Piauí, s.d., Teresina,PI)

quinta-feira, 6 de março de 2014

Uma cidade abandonada no lixo






                                               Cunha e Silva Filho



               É incrível  que  o Rio,  uma das cidades  mais lindas do mundo, esteja, logo após a farra do carnaval, com uma greve de garis -  estes abnegados limpadores   da cidade sem o trabalho dos quais  a cidade para,  perde o brilho,  choca  a  população e, aos  olhos do turista,  provoca   indignação, desrespeito a quem, vindo de outras cidades ou de outros países, espera encontrar  um lugar   bem conservado,  com ruas  limpas,  varridas,  sem toneladas  de lixo espalhadas por todos os bairros. Que belo  cartão de visita de uma cidade  que se prepara para receber  os torcedores  nacionais e estrangeiros na Copa  Mundial de Futebol!
A culpa não é dos garis, é do prefeito que paga  salários  miseráveis a quem, até de madrugada,  vem  recolher  lixos das ruas. Uma função  altamente   relevante  ao funcionamento  da cidade, tanto  quanto outros abnegados, como os bombeiros. Os últimos governos  têm  tratado mal  seus bombeiros, seus garis e  um dos piores  descasos de que são vítimas   estes últimos,  repito,  são,  para mim,   os  vencimentos  que  a prefeitura  lhes dá.
O bom governante,  responsável,  é aquele  que fica atento às condições de trabalho  de seus  funcionários, de seus servidores em todos os setores  da máquina administrativa. Pagar   o que pagam  a esses homens  é abastardar-lhes  a dignidade  de funcionários, é esquecer que têm  famílias  e precisam  viver  com  dignidade.
Esta censura  faço a todos  os  níveis de  governaça: municipal,   estadual  e federal. O Brasil provavelmente seja um dos países que  pior remuneram  alguns setores  da  máquina do Estado,  ao passo que mantém, no Congresso,  burocratas  cm salários de marajás.
Ao saber que A  própria   Justiça  do Trabalho considera a greve dos garis   uma ação  ilegal me parece  uma atitude  de  covardia  para com  os humildes  garis  cariocas. Mas, os  juízes do trabalho  ganham  altos salários,  não têm problemas de  sobrevivência, de aperturas  financeiras, têm vida confortável  e têm poder. Os garis, não. Quem há de socorrê-los senão  o   recurso extremo da paralisação  a fim de chamar a atenção da sociedade e principalmente da Prefeitura  para  os aviltantes  salários que lhe são  pagos. 
O prefeito Eduardo Paiva  está agindo  autoritariamente,  demitindo  sumariamente  seus  garis. É fácil para ele  que dispõe de  regalias, viagens  ao exterior,  ótimo salário e tantos  outros  benefícios do cargo. Não é chamando de “delinquentes e  vagabundos” a um grupo de liderança    grevista  que  o prefeito  vai  conseguir  indispor os cariocas  contra os garis. Não vá o prefeito Eduardo Paiva querer  fazer carreira  política no estado do Rio de Janeiro maltratando e   usando  agressões verbais incompatíveis ao seu cargo  ao se dirigir  publicamente aos garis  em greve. Um  político  trata bem  os seus servidores e os garis  têm, ao longo dos anos,  provado  o quanto são   fundamentais e vitais para  a vida saudável do Rio de Janeiro. Os garis,  por conseguinte,   merecem todo  o nosso  apreço.
Não me venha  o  alcaide  bon vivant dos espaços  londrinos,  parisienses  ou  nova-iorquinos,  à custa do  dinheiro  público, posar de  grande  moralista  e  bom administrador que não é  e está   gastando  rios de dinheiro da  prefeitura  explodindo a Perimetral sem consultar a  população e, ainda por cima,  provocando  atualmente  transtornos sem precedente  e caos  no centro da cidade com engarrafamentos diários,  e  confusões  de linhas de ônibus, atrasando  os usuários de ônibus, de carros na passagem  pelo Centro  do Rio e Janeiro em direção  `Zona Sul e vice-versa, ou,  da mesma forma,  em relação  ao subúrbio, Zona Oeste,  Baixada Fluminense.
Resolva,  senhor alcaide,  de imediato  a situação dos garis  do Rio,  reajustando-lhes os salários, não com  porcentagens  de migalhas que não irão sair do lugar, mas com um  salário  decente que lhes permita  viver  como cidadãos  úteis que são à sociedade  carioca. Faça o mesmo com   respeito a outras  categorias, senhor alcaide, se quiser mesmo,  porque é ainda jovem,  ser um  político  digno  da admiração  do  povo carioca.



PÉ DE PÁGINA



“Ainda estou  sentindo  o prazer intelectual da última carta que V. me escreveu, Que carta  bonita! V., meu filho, é um estilista admirável, antológico.  Tudo o que sai da sua pena tem  muita coisa de elevada expressão,  correta na forma, brilhante nos conceitos e agradável  no amanho  das palavras bem ajustadas.Em sua missiva, meu filho, se vislumbra logo o fulgor duma inteligência incomum.” (Cunha e Silvacarta de 06/11/1984, Teresina, PI).  Comentário do colunista do Blog: “- Desculpe-me, leitor,  pelo excesso de  efusão  afetiva de meu pai.”

quarta-feira, 5 de março de 2014

UMA NOVA SEÇÃO NO MEU BLOG

 


                                                       CUNHA E SILVA FILHO




         Leitores, a partir de hoje, além dos meus artigos e outros  textos de minha autoria,   segundo venho fazendo desde o  início deste Blog, inaugurarei, uma seção  de título Ao pé da página em homenagem a meu  pai, o  professor  e escritor Cunha e Silva (1905-1990) com fragmentos de artigos dele, antigos e menos antigos.   
       Os textos, todos  publicados em jornais do estado do Piauí,  se constituirão, além dos fragmentos de   textos,  fragmentos  epistolares dele para mim, pois  lamentavelmente  não disponho da minha correspondência com ele durante trinta e seis anos,  que suponho tenha sido  extraviada  por falta de melhor organização de meu pai ou de familiares.
      Segue abaixo o primeiro fragmento de um artigo intitulado “O panorama é outro.” O  recorte não traz data nem  o nome do jornal, que presumo seja O  Estado  do Piauí, no qual  meu pai  colaborou e foi  redator durante  oito anos:


AO PÉ DA PÁGINA

“José Serra é economista notável, apesar de muito moço ainda, formou-se na Europa e tem curso nos Estados Unidos. Com admirável competência e descortino, sanou as finanças paulistas no governo  construtivo de Franco Montoro. Seria bom que Tancredo Neves o aproveitasse para o Ministério do Planejamento, não se esquecendo também de Celso Furtado para ocupar posto de destaque na área econômica.” (Cunha e Silva, Teresina, PI)





segunda-feira, 3 de março de 2014

Kiev, capital da Ucrânia






                                      Cunha e Silva Filho



   Naquelas  horas do café da manhã, sentados à mesa de nossa  casa na Rua Arlindo Nogueira,  em Teresina, Piauí,  todos  falavam, nós meninos e as  meninas, mamãe e também  papai. Talvez fosse um dia de fim de semana,  um sábado ou um domingo. Não importa o detalhe exato. O importante é a emoção,  o sentimento, o resíduo da memória e – por que não? – da saudade.
Chega a vez de papai falar – estávamos, não todos,  falando  de países  do mundo. Meu  pai, professor também de geografia,  era rígido sempre que a conversa se transformava em  improvisada sala de aula. e  por vezes até  me constrangia quando,  por exemplo,  testando  a todos,  perguntava de repente: “Qual  a capital da Rússia, da Polônia, da Alemanha Ocidental, Oriental? " e assim  por diante.
Chegara a minha vez de responder à pergunta sobre a capital da Ucrânia. Respondi-lhe errado. Deu-me  um quinau severo.  “Como é,  logo você, filho de um professor de geografia?"
Fiquei calado e  envergonhado. Papai era assim em casa no que dizia respeito à competência dos filhos, não de todos, mas provavelmente daqueles que ele percebia eram os mais  dedicados aos estudos, como eu. Contudo,  a severidade dele me ajudou muito na vida, me fez compreender  para sempre o valor de ser estudioso, de ser aplicado e bom  na escola. Assim o fiz pela vida afora, com a  exceção, naqueles tempos de ginasiano do Domício, de algumas matérias nas quais era um tanto fraco ou para as quais, melhor dizendo,  não tinha  tão grande  interesse.
Mal sabia eu que, tantos anos mais  tarde,  Kiev seria um  preocupação minha na vida de adulto. Tão longe estava do tempo em que a política  internacional, mesmo a nacional, ou a estadual, ou a municipal. Aqui tem alguma coisa de um poema de   Carlos  Drumond de Andrade. Deixo que o leitor faça a correlação intertextual.
Não está nada bem a condição  atual de Kiev e, por extensão, da Crimeia. O mundo político  não quer, ou não deseja, que  os povos, as nações  pensem  por si  mesmas, ou seja,  tenham  voz  coletiva para  saberem  o que melhor seja para seu  povo. 
Os ucranianos, ou parte  ponderável da nação,  são  favoráveis  a ter relações com  a União Europeia, outra parte é favorável ao alinhamento  político-econômico-ideológico com a Rússia. O presidente Viktor Yanukovich, segundo  reportou a imprensa  internacional,  foi quem  determinou  o covarde ataque contra os civis, provocando  os sangrentos confrontos entre as tropas do governo e a população civil, com um saldo de  mortes de cem manifestantes.
A coragem e  a bravura da oposição civil  se fizeram  sentir e até com  o apoio de alguns  militares que se   bandearam para o lado da oposição diante  certamente  das agressões  homicidas do governo   ucraniano. Por fim,  não suportando a pressão do destemor  demonstrado  por um  povo varonil,  o presidente ainda  acenou com algumas  mudanças para atender à sociedade, mas,  tais  mudanças não  atingiam  o cerne das reivindicações  da nação, que era estabelecer  relações com a União Europeia.
A pressão popular  se intensificou  com  novas manifestações  que resultaram na  deposição  de Yanukovich, sendo este obrigado a deixar Kiev e se homiziar  numa parte da Rússia. Instalou-e um governo interino, sob a liderança de Oleksander Turchinov.
Vale  ressaltar que o descontentamento  do povo ucraniano  tem  um motivo mais  fundo e mais  definitivo: os povos, sob  regimes de governo ditos  democráticos,   embora com   promessas  de  agir  democraticamente e  desenvolver  o  país,  de repente mostram a que vêm:  apertar o povo,  aumentar seus poderes   presidenciais e frear as pretensões  justas  da sociedade civil. Por último,  vem à tona  o imbróglio da Crimeia,  sendo  invadida, de repente,  por  militares não identificados, provavelmente  a mando do Kremlin. Outra região com ameaças geopolíticas e de  confrontos  bélicos. Ali se encontram  tártaros muçulmanos,  a minoria,  e  russos, a maioria.  Estarei atento ao desdobramento da crise que, espero,  não seja  sangrenta. Que se entendam os dois lados.
O caminho  mais acertado  para os governos  de todas as nações é um só e o mais  justo: a democracia   praticada  com   seriedade de propósitos e visando ao interesse da nação e da sociedade com liberdade  de ir e vir, de imprensa, de livre expressão do pensamento  dos cidadãos,  de respeito   aos direitos universais  de todos os povos,  direitos  civis  plenos,  eleições  honestas e periódicas, respeito  às suas Constituições,  combate ao terrorismo  e defesa por parte dos organismos   internacionais contra nações  que agridem a sociedade civil.
Precisamos de governos  abertos e favoráveis a consultar os anseios  da sociedade na eventualidade de  fazer  mudanças  que  terão  consequências na vida das pessoas, como as efetivadas  nos setores da economia,  do câmbio,  da ciência,  da tecnologia, do comércio e da indústria internacional, dos intercâmbios  culturais com pesquisas nas mais diversos áreas do conhecimento   e da   diplomacia  com sensibilidade e injeção de humanismo que  possa  diminuir e mesmo  resolver,  através de negociações regidas pelo direito  internacional e da soberania dos  Estados, os mais  graves  problemas enfrentados  hoje  por  muitas  nações.
 Países, de resto,  com  gravíssimas disparidades  de vida   social, com  extrema  miséria convivendo com extrema  riqueza, não poderão  nunca solucionar  questões prementes da atualidade  como  a violência urbana e do interior,  as drogas e a delinquência  juvenil.
A paz internacional  só será  atingida  pela via democrática, pela Educação  integral aliando  respeito às diferenças e eliminação   de tantos  preconceitos, seja étnico, seja sexual, seja  religioso. A  tão sonhada paz entre as nações  se concretiza pelo  respeito aos direitos  das  diferenças. Abaixo os extremismos,   os fanatismos, a violência,  as hipocrisias sociais  planetárias!




domingo, 23 de fevereiro de 2014

BRAZIL'S OVERVIEW CORNER: Politically divided nations;a challenge for Post-Modernity



[A Portuguese translation of this  article   appears below the English text]




                                                                        By Cunha e Silva Filho



                       

              We have at least three examples of  countries which   are identified with   different  ideological  viewpoints, i.e, their  populations are not  united when  facing  opposite political  and  social trends. This fact entails dangerous  problems ahead as they  present  themselves as children of the same country  who think  as though they  were  each  one,  two countries in  one. This is what is happening to   Syria, Venezuela and now,  in a less degree,  Ukraine as the latter actually seems to  stand for  the indignation of the larger  portion of the  population.
            These  nations  thus  split tend to take two ways: either they may  lead to a civil  war, or they  have to find  out  forms  to compromise and  arrange to  change their government chief of  states or presidents.
The main  reason   that  brings about  difficult political and social upheavals  has, in most cases, its  root in countries  that do not  answer to  the  desires and   claims  of  their societies as a whole.  In other words,   countries which  decide vertically  what they  think of  as  appropriate for  their people tend to  forget  that  people’s will  is the  component sine qua non  for a government  to comply with  the aspirations  of  individuals. Should they   use   intelligence and an accurate   view of necessary  needs of a nation, they would certainly  change their  one-sided position and rather  would try  to meet the most fundamental  demands  of a country.
To make decisions that affect   lives of so many   people is risky for a government, even for the so-called   democratic  nations.  The source of   solutions  lies  in the hands  and the  kind of  way of life of a society. Therefore, a wise ruler first of all  ought to listen to the  people’s claims  on the streets because  without the  people’s support,  a government  will hardly  remain  in power.
The generalized world  protests against political leaders, including   Brazil,  practically  derive of one  basic   factor:  bad governments,  authoritarian  rulers, either dictators or  democratic ones,  tend not to  last long in their  functions with a few exceptions nowadays,  such as Cuba,  Syria,  China,  North Korea and other  countries.
It is felt as a world   trend in the field of  political institutions that there is  one single and  fair  way  to effectively  reduce  world  wars,  civil  wars and social  trumoil  all the  world over, and this is only  accomplished by   democratic  ways,  elections,  press  freedom,  speech  freedom and respect to human  rights. Of course,  one should never be naïve to  blindly  believe that  in democratic  countries  we are  safe from  a good many  problems   in the multiple areas  of   a government.
Should one abolish   social   differences in democracy? Is it feasible? Is it a Utopian   dream? These are   tremendously   complex issues that should be a constant   debate in countries of  high level  of decent life and high level of  an educated  society.
I know that we still  have a long way to  go towards  devising  strategies  that might lead to a   better  modern  society  under   democratic   principles that  would lead to    deep changes  in several  areas of  social  life: better education, transportation,  better hospitals, higher  salaries  for   vital   functions, such as  teaching, medical  practice, scientists,  researchers, pilots, bus drivers, train drivers, subway drivers, scientists  and so on.
If these  problems  are not  tackled  aggressively and with a determined  policy  will, none of the current  social  evils (political  corruption, violence, drug   traffic,  high rates of  crimes,  juvenile  delinquency), political, economical or cultural, will be reduced. It  is high time that our world authorities  should  draw their attention to all these  issues that are  causing so many bloodshed the world over.
Therefore, all the  above mentioned  countries  should  bear in mind  one  simple  truth:  should they   want to have a country  ridded of all the  troubles  as seen by  massive demonstrations  in   public  squares, with the bulk of  people  demanding  for  a better social  life with  freedom  of speech, they  ought to  give up their  present  form  of government and treat  their  people  with   due respect,  by  allowing these  inalienable   rights: to live in peace and  free from  poverty,  violence, drug traffic,  extreme  violence,  torture,  lack of essential    needs, having time for leisure and opportunity  to  improve their  cultural  level,  compatible salaries according to  the  competence and  ability of  each  person. I emphasize these  statements to all  rulers: either take  the way  to  public  disorder and confrontation  between police forces and demonstrators,  or even worse, bloodshed, or  want  a  long-hoped lasting   peace  in the world. Remember, leaders of the world over,   how many innocent   lives would have been saved if  peoples’ cries were  given  importance by you all.  Finally,   remember  Charles Chaplin’s words and their  universal appeal “Thou art  not machines,  thou art men!”



Nações divididas: um desafio na Pós-Modernidade


                                          Cunha e Silva Filho


Três exemplos, pelo menos,  temos de países que se distinguem  por diferentes  posições ideológicas,  i.e., com  populações   no enfrentamento  de antagônicas correntes  políticas  e sociais.. Este fato enseja problemas  perigosos pela frente na  condição de  filhos da mesma   pátria que pensam como se fossem, cada um dos lados,   dois  países.É o que  está  ocorrendo com a Síria,  Venezuela e agora, em grau menor, com a Ucrânia, já que esta  representa a indignação da maior parte da  população.
Estes países assim divididos tendem a seguir dois caminhos: ou podem ser levados  a uma guerra civil, ou  têm que  encontrar  formas  de  entendimento e acordos  para  mudar seus chefes de governo ou  presidentes.
A razão principal que  acarreta tumultos sociais,  na maioria dos casos,  tem suas raiz em países que não  atendem aos anseios e  reivindicações  das sociedades como um todo. Em outras palavras,  países que decidem de cima para  baixo  o que julgam ser  certo para seus  povo, tendem a esquecer que a vontade popular  é o componente sine qua non   a fim de que  um governo   corresponda às aspirações dos indivíduos. Se por acaso  empregassem  a inteligência e  tivessem uma  visão  apurada das necessidades de uma nação, certamente  modificariam sua  posição  unilateral e, ao contrário,  procurariam  ir ao encontro  das  exigências  fundamentais  da nação.
Tomar decisões que afetam as vidas de tantas  pessoas é um risco  para um governo, mesmo  para as denominadas  nações democráticas. A fonte das soluções  está nas mãos  e no modo de vida  de uma sociedade.  Portanto,  um  governante prudente, antes de tudo,  deveria  ouvir  os reclamos  do  povo na rua, porquanto sem  o apoio  popular um  governo  dificilmente se  sustenta no  poder.
Os protestos  mundiais  generalizados contra  líderes  políticos,  inclusive o Brasil,  praticamente se originam de um fato  básico: maus governos,  governantes autoritários ou ditadores  ou  democráticos,  tendem a não  durar muito em seus  cargos com  poucas  exceções hoje em dia, como   Cuba, Síria, China,  Coreia do Norte e outros países. 
No campo das instituições políticas, sente-se que há uma  tendência mundial segundo a qual  somente existe um único  e correto  caminho   que  efetivamente  reduziria  as guerras mundiais, as guerras civis e as desordens sociais no mundo inteiro, e isso  se concretizaria por vias democráticas, eleições,  liberdade de imprensa,  liberdade de expressão e respeito aos direitos humanos. Obviamente, seria ingênuo de nossa  parte se acreditássemos  cegamente que, em países democráticos, estaríamos   a salvo de inúmeros  problemas nas múltiplas  áreas governamentais.  
Dever-se-iam abolir as  diferenças sociais  na democracia? É exequível isso? Seria um sonho  utópico? Estas são  questões  imensamente   complexas que deveriam  constituir um debate  permanente  em países  de alto nível de vida decente e de alto  nível  de uma   sociedade instruída.
Sei que estamos  longe  de equacionarmos  estratégias que poderiam  levar a uma  sociedade moderna melhor com princípios democráticos que  ensejariam profundas  modificações  em várias áreas da vida social: melhor  educação,  transporte, melhores hospitais,  salários mais altos para funções  vitais, tais como  ensino,  prática médica, cientistas,  pesquisadores, pilotos, motoristas de ônibus, maquinistas de trens, condutores de metrôs etc.
Se tais  problemas não forem  atacados de frente e com  uma vontade  política,  nenhum dos  atuais  males sócias ( corrupção política,   violência,  tráfico de droga, altos índices de crimes, delinquência juvenil),  políticos,  econômicos e culturais,  será  reduzido. È hora de nossas autoridades mundiais  voltarem  a atenção  para  todas estas questões que estão  provocando  derramamento de sangue pelo mundo afora.
Por conseguinte,  todos os  países  acima citados deveriam  ter  em mente esta verdade simples: caso eles desejem  ter um país  livre de todos  os   incômodos -  haja a vista  as manifestações  maciças em praças públicas -, com  toda a  população  exigindo uma vida melhor com liberdade de expressão,  deveriam desistir  de sua  atual  forma de governo e tratar o povo com o devido   respeito, permitindo estes inalienáveis direitos: viver em paz e livre da pobreza, tráfico de drogas,  extrema violência,  tortura, carência de necessidades  essenciais, com tempo  para o lazer e  oportunidade de  desenvolver seu  nível  cultural, salários compatíveis  com a competência e habilidade de cada um. Encareço estas afirmações  aos governantes: seguir o caminho  conducente à desordem e confrontação  entre  forças  policiais e  manifestantes, ou  ainda pior,  banho de sangue, ou um paz mundial duradoura  há tanto tempo ansiada  
Lembrem-se, líderes mundiais, quantas mortes  inocentes teriam  sido  evitadas se os gritos  dos povos tivessem  sido ouvidos  e tomados em consideração  por todos os senhores.

Finalmente,  lembrem-se das palavras de Charles Chaplin (1889-19770 e de seu alcance universal: “Máquinas não sois,  sois  homens!”

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Os super-salários: a volta dos marajás do Poder Legislativo





                                               Cunha e Silva Filho


            Não há conserto para o Brasil. Um  exemplo danoso vem, agora,  de um  dos  três poderes, justamente aquele  que deveria  ser o mais  rigoroso com a decência  pública: o Supremo  Tribunal Federal (STF) Um membro do Supremo que,  por sinal,  foi  escolhido  pelo  ex-presidente Collor,   concedeu uma liminar  com a qual  funcionários da Câmara  dos Deputados, que haviam  tido seus  faraônicos   salários  reduzidos para patamares  mais modestos,  recuperaram, agora,  os mesmos  altíssimos  vencimentos.    
        Se o ministro do STF argumenta que apenas cumpriu  a lei  constitucional,  então   esses funcionários  foram  reabilitados   financeiramente de forma  legal. Porém,  não sabe o ministro que  o legal não é muitas vezes  justo. Não é correto, é imoral. E a Constituição Federal, posto  seja  o  instrumento  maior  dos direitos e deveres do cidadão,  não é obra de inspiração  divina,  mas obra  humana e,  portanto,  falha,   incompleta,  injusta  e passível de modificações e emendas que, à medida que o tempo  passa,  tem que ser atualizada com  o  objetivo  precípuo de  proteger   a sociedade.
  O ministro em causa  cometeu um  tremenda  injustiça com a cidadania  brasileira, principalmente se levar-se em conta o quanto  ganha um funcionário  público federal, um professor universitário, um professor do ensino médio,  um médico, um cientista, um pesquisador em diversas áreas do conhecimento humano, com  diplomas de doutorado e até de pós-doutorado. Nem que estejam no último nível de atividade,  esses profissionais, que tanto bem fazem ao Estado  brasileiro e à sociedade, estão longe de receber vencimentos  estratosféricos à custa do Erário Público.
Quem são esses  privilegiados,  o que fazem  pelo  bem  da nação,  eles que  trabalham  em instituições  representativas  do povo e que,  por isso,  têm que dar  exemplo de  virtudes, de equilíbrio e de  austeridade. A mídia noticiou  o fato, entrevistou  o homem comum na rua e a resposta  foi  sempre de indignação  contra  atos dessa  espécie. Nenhum  governo  se faz respeitado   quando  permite  que regalias  deste jaez aconteçam. Os privilégios  excessivos   atribuídos  financeiramente a funcionários  marajás  no país da impunidade, da violência extrema e da desfaçatez  de políticos só infundem no espírito da nação  sentimentos de  rancor,  de desesperança e   de desprezo  pelas  instituições  governamentais.  Ora,  salários  de vinte,  trinta, quarenta,  cinquenta mil reais  e até mais  só  provocam  repúdio  total  do homem brasileiro  que  trabalha  duramente  para, no final do mês,  receber  minguados  salários  e pensões  miseráveis  que não  lhes permitem  nem mesmo   comprar remédios para a a saúde alquebrada e uma  velhice  cheia  de  carências de toda a sorte.
Um país que age assim não pode ser levado a sério, nem  pode atingir  um elevado grau de civilização  e de cultura. Não conheço  tempos tão  frívolos quanto  os que  enfrentamos  atualmente  no  Brasil. Alguém  pode rigorosamente chamar   de democracia  a um país  que é tão  desigual  com seus filhos?  A democracia  se arranha profundamente  quando  nela  persistem  os   sempiternos   desmandos  governamentais e  abusos  no uso  da leis. A farra dos salários  astronômicos de uma  casta   privilegiada  de funcionários  encravados nos três poderes  de Brasília é um  chute na cara  dos cidadão  brasileiros que constroem esta nação.
Acabou-se o tempo da história  republicana brasileira  em que, no Senado e na Câmara dos  deputados, pontificavam  congressistas  competentes, éticos e homens de  palavra,  políticos de vocação   e voltados  para  o aperfeiçoamento do Estado  brasileiro,   ministros  do STF  e de outros  setores  federais que se distinguiram  como  figuras  de grande reserva moral, com se dizia  antigamente.A política brasileira  ficou  confinada,  em grande parte,   a  politiqueiros,  arrivistas e aventureiros  que, no Planalto,  se instalam  para   se locupletarem e se aproveitarem  das  mordomias  de seus mandatos e da influência  de suas funções. Daí tantos  escândalos surgidos na política  nacional  em conluio com  o setores  privados resultando  nos  mensalões da vida. 
Enquanto  persistirem  os altos índices  de  analfabetismo puro ou funcional, de escolaridade de baixa qualidade em geral,  de  falta  de consciência  política  e de cidadania,  enquanto  votos  forem   dados a candidatos  demagogos, populistas, despreparados  para  suas funções  de  alta  responsabilidade  cívica, enquanto o voto  continuar sendo  “comprado,”   "traficado,"  malbaratado  pela  ausência de  patriotismo  da sociedade, elegeremos  políticos  sem vocação nem  dignidade - oportunistas que, ao final dos mandatos,   deixam  atrás de si   a mancha nauseabunda  da corrupção,  do desrespeito  ao  povo, do  autoritarismo e da     indignidade  popular. Isso não é nem será  nunca  o que  entendemos  como  democracia  no sentido mais  genuíno de “governo   do povo,  pelo o povo e  para o povo.”  (Abraham Lincoln,  Discurso em Gettysburg, a 19 de novembro de 1863)
A história mundial no passado e no presente tem  demonstrado que as democracias  não se sustentam  quando  se sobrepõem  à  vontade da soberania  popular,   quando  governantes  esquecem  o  princípio  fundamental, que é  governar  afinado com as  aspirações da sociedade  unida, coesa,  solidária.  As democracias  só caem  quando  a sociedade  se divide demais,   provocando   confrontos   ideológicos, econômicos e dissimetrias  exageradas de  renda individual na sociedade, as quais     podem se encaminhar  para  perigosas   lutas   de classes e  profundos fossos   sociais.     A democracia  pode cair  ainda   quando, no centro  do poder,    se aninham prerrogativas de abusos  e regalias palacianas, que custam  milhões aos cofres  públicos em flagrante   desrespeito e indiferença   às condições precárias  da vida  social. O Brasil está vivendo  esta    realidade e não está dando a devida atenção  a uma  possível  dura  resposta das  urnas que se aproximam minuto a minuto.