sábado, 31 de julho de 2010

O Piauí não é mais uma província literária

Cunha e Silva Filho


Me permita o leitor uma autocitação de um pequeno trecho de uma crônica de título “Impressões da cidade”, título, de resto, sugerido oportunamente por meu saudoso pai, que publiquei no jornal “Estado do Piauí”, em 1974, e que constará de um dos textos reunidos do meu livro As ideias no tempo ainda a ser publicado: “Hoje possuímos a Universidade Federal do Piauí. A Universidade dá uma nova dimensão à vida cultural de um estado. Ela é seu porta-voz maior, evitando o marasmo cultural. O desenvolvimento intelectual de Teresina se intensifica. Nota-se que há uma ânsia de se fazer alguma coisa que nossa e identifique valores culturais nossos. Nossos homens de letras sentem vontade de escrever, de publicar. A COMEPI é um exemplo edificante do governo”.
A observação citada acima tem uma distância de trinta e quatro anos! Ou seja, três décadas e uns quebrados. É uma vida. De lá pra cá aconteceram, na esfera cultural, muitas coisas que, pouco a pouco, foram mudando o perfil daquele Estado que deixei ainda com fortes traços provincianos. No intervalo desse longo período, a história da inteligência piauiense longe ficou de qualquer óbice entrópico.
Ao contrário, a cultura literária, antes mais circunscrita aos redutos da Academia Piauiense de Letras e à benevolência e espírito de visão de alguns donos de jornais, eles próprios, em geral, ligados à causa cultural, foi esgarçando lentamente alguns comportamentos e atitudes que não mais se coadunavam com os novos tempos agora impulsionados pelos ventos da comunicação de massa, pela criação de novas universidades e proliferação de campi das universidades públicas, sem se falar no aperfeiçoamento do corpo docente de professores que foram realizar cursos de alto nível nos centros mais adiantados do país ou mesmo no exterior.
Assim, se foi desenvolvendo não só a universidade em si, mas sobretudo o que dela se irradia na conquista de novos saberes, de novas tecnologias em todos os domínios do conhecimento e, agora, mais do nunca, da inimaginável experiência haurida pela Internet, universalizando e democratizando mais as fontes do conhecimento humano.
Era de se esperar que o impulso advindo das universidades de forma indireta repercutiu nos arraiais ainda presos ao anacronismo e , assim, foram aparecendo fundações culturais, conselhos de cultura, revistas culturais de expressão nacional, e, no que se refere ao capital humano, o surgimento de uma massa crítica mais tecnicamente preparada para dar continuidade ao passado. No âmbito da comunicação escrita, criaram-se vários jornais de alta qualidade de impressão e diagramação, com um corpo de redatores graduados por universidades atuando profissionalmente, sem mais o amadorismo dos velhos tempos idos e vividos, e servidos de colaboradores pertencentes à alta cultura do Estado piauiense.
Ainda por força do progresso provocado pela chegada das universidades públicas e particulares, novos escritores foram surgindo em todos os gêneros e bem assim novos talentos nos domínios das artes plásticas, do cinema, da humorismo, do teatro.
No campo específico do ensaísmo e da crítica literária, é de se notar a efervescência. de talentos que estão surgindo e procurando ocupar os espaços que o presente e o futuro estão a eles reservando. Sirvam-se de exemplos livros como Os sinais dos tempos, de João Kennedy Eugênio (Teresina, Halley S.A. Gráfica e Editora, 2007), Cantigas de viver – leituras, de João Kennedy Eugênio e Halan Silva (orgs., Teresina, Fundação Quixote, 2007), As formas incompletas apontamentos para uma biografia de H. Dobal, de Halan Silva (Oficina da Palavra, 2005), São os novos teóricos graduados e pós-graduados e, portanto, especificamente mais treinados, como diria Terry Eagleton, nas universidades para a atividade literária no sentido técnico-científico do que em geral havia no tempo em que deixei Teresina, quando o intelectual, o crítico, o ensaísta contavam mais com o talento e os estudos autodidáticos a fim de dedicar-se à vida literária. Mas, essa realidade não era só no Piauí de então, mas nos estados mais pobres.
Li uma publicação sobre estudos lingüísticos e ensaios literários em grosso volume, PHOROS ( Rio de Janeiro, Editora Caetés,2006 ), reunindo trabalhos de mestrandos e doutores da Universidade Federal do Piauí que me surpreenderam pela profundidade de reflexão crítica, da alta pesquisa na área multifacetada de Letras. Obviamente, todo essa produção que está sendo feita no Piauí ainda não recebeu o tratamento de correspondentes estudos nos campos da teoria literária, da histografia literária e da crítica literária. Dado ser já considerável atualmente essa produção cultural-literária do Piauí, é bem provável que o levantamento e a transformação desse lastro conquistado em forma de livros de referência, tenham que ser tarefa para equipes a fim de poder abarcá-la em profundidade de estudos e atualidade de pesquisas.
Da mesma forma, digno é de salientar que o Piauí já dispõe de editoras – a exemplo da novíssima Editora Nova Aliança - com disposição de crescer e lançar autores novos como, entre outros, o próprio editor, Dílson Lages, e antigos, como Assis Brasil ,cujo retorno ao Piauí foi benéfico para a vida literária local).
Ora, como não deixar de reconhecer esse nítido florescimento de uma nova mentalidade de autores piauienses, nos diversos gêneros literários e em gêneros afins com os estudos literários , como a história ( campo de estudos no qual o Piauí tem conhecido bons autores e uma boa produção científico-acadêmica ou fora do estrito espaço universitário.), a sociologia, o jornalismo, a filosofia. Nem seria justo assinalar, nestas longas três décadas, as inúmeras gráficas, editoras particulares, editoras oficiais da importância da Fundação Monsenhor Chaves, da antiga COMEPI, da atual Fundação Quixote, de publicações do porte da revista Presença, editada pelo Conselho Estadual de Cultura sob a operosa presidência do escritor e crítico literario M. Paulo Nunes, de outras tantas editoras já existentes no Piauí, das publicações feitas em convênio com a Academia Piauiense de Letras e a Universidade Federal do Piauí, de outras publicações entre o setor privado e instituições públicas e mesmo, do esforço próprio, digno de aplausos, das edições particulares. Isso tudo é inequívoca evidência de uma afirmação de um Piauí consolidado nas suas raízes culturais e nos desdobramentos futuros de um Estado que, no seu universo de produção intelectual, dá exemplo de pujança e perene desejo de ultrapassar fronteiras regionais e lançar-se corajosamente rumo a uma posição merecedora do respeito nacional sem mais receios de parecer - porque efetivamente não o é -, provinciano frente aos Estados brasileiros mais adiantados.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Um poema de James Montgomery (1771-1854)

FRIENDS

Friend after friend departs:
Who has not lost a fried?
There is no union here of hearts,
That finds not here an end.
Were this frail world our only rest,
Living or dying, none were blest.

Beyond the flight of time,
Beyond this vale of death, -
There surely is some blessed clime,
Where life is not a breath,
Or life’s affections transient fire,
Whose sparks fly upward to expire.

There is a world above,
Where parting is unknown, -
A whole eternity of love,
Formed for the good alone;
And faith beholds the dying here
Translated to that happier sphere.

Thus star by star declines,
Till all are passed away,
As morning higher and higher shines
To pure and perfect day;
Nor sink those in empty night, -
They hide themselves in heaven’s own light.

AMIGOS

Um após outro, os amigos nos deixam:
Um amigo quem nunca perdeu?
União profunda na Terra não há,
Que não se finde aqui mesmo.
Fosse nosso derradeiro refúgio esse frágil mundo,
Não seriam abençoados a vida ou a morte.

Além do fluir do tempo,
Além deste vale de mortes, -
Seguramente bendito lugar há de existir,
Onde a existência um suspiro não seja,
Nem fogo fugaz as terrestres afeições,
Cujas fagulhas se elevam e desaparecem no espaço
Um mundo superior existe,
Sem lugar pras despedidas, -
Amor eterno e absoluto,
Digno apenas da bondade;
Lá a fé os mortos daqui contempla
Mais ditosos àquela esfera transpostos.

Dessa forma, sucumbe estrela após estrela,
Até se esfumarem todas,
À medida que vai clareando cada vez mais a manhã
Um dia puro e perfeito alcançando
Sem aquelas estrelas ofuscar numa noite sem fim, -
Posto que na própria luz celeste se escondam.

(Tradução de Cunha e Silva Filho)

domingo, 25 de julho de 2010

É tempo de desapego: a morte anunciada

Cunha e Silva Filho

Conheci o Jornal do Brasil, ou como era afetivamente chamado pelos seus leitores cativos, o JB, quando ainda no Piauí, naturalmente através do meu pai. É certo que não o lia com assiduidade, visto que a própria distância dificultava qualquer estreitamento de amizade entre jornal e leitor. Mas, já àquela época, nos primeiros anos dá década de sessenta, dava para avaliar o quanto era um bom jornal, não só na forma gráfica, como no conteúdo apresentado, nos editoriais, na excelência de alguns articulistas que nele passaram anos e anos escrevendo e iluminando de cultura e de informação válida os leitores espalhados pelo país fora.
Acredito mesmo que, por aquele tempo e, depois, já no Rio, tomei contato com a coluna de Tristão de Athayde, assim como de outros articulistas de renome, como Wilson Figueiredo (hoje com 86 anos) Carlos Castelo Branco, Carlos Drummond de Andrade( na condição de cronista, sobretudo) e um outro de que gostava muito, Moacyr Werneck de Castro, tremendo jornalista e intelectual, que, felizmente, ainda está vivo, conforme recente entrevista que concedeu à imprensa.
Entretanto, me parece que não mais escreve pelo menos na imprensa escrita. Que pena privar-nos de todos eles e de outros articulistas do melhor quilate do jornalismo e da cultura brasileira. Sinto mesmo falta de Moacyr Werneck, de Tristão de Athayde, pela sua cultura universalista, e profundo sdabaer literário e filosóficos e pela trincheira que abriu nos momentos mais sombrios dos governos militares a partir de 1964, de Barbosa Lima Sobrinho, pela firmeza de sua convicções democráticas em defesa de um Brasil autônomo e mais justo, como sinto falta, em tempo mais recuado, dos poucos textos que tive a oportunidade de ler de Gilberto Freyre, Rachel de Queiroz, de Astrogildo Pereira, Austragésilo de Atayde, na revista O Cruzeiro. A coluna de Rachel chamava-se, se não me engano, Última Página, a de Austragésilo de Vana Verba. Não me recordo, contudo, do nome das colunas de Gilberto e de Astrogildo Pereia. Pena é que também, , naqueles idos, não conseguia assimilar, como deveria, com mais profundidade de leitor, as matérias lidas. Apesar de tudo, valeu a pena. Alguma coisa ficou deles todos.
Mais tarde, já no Rio, foi a época em que o Jornal do Brasil iniciou o Caderno Ideias, que se tornou famoso e acatado, e era leitura aguardada com ansiedade e prazer, sobretudo numa fase áurea de tantos bons articulistas, ensaístas, críticos, jornalistas, escritores em geral, que marcaram aquelas páginas com a tinta de papel da sabedoria e do brilho das ideias. (sem trocadilho, é claro!) . Interessante, não acompanhei, no Piauí, a fase em que o Jornal do Brasil conheceu uma período de fastígio intelectual inesquecível, verdadeira ponta de lança da vida cultural do país. É óbvio que estou falando do famoso SDJB (Suplemento Dominical do Jornal do Brasil), que se estreou em 1956, com o surgimento do movimento de vanguarda chamado Concretismo. Infelizmente, àquela altura, ainda estava usando calça curta, e nem de longe pensava em assuntos mais sérios de poesia sofisticada, quando a minha cabeça apenas se emocionava com os sonetos bilaquianos ou outros poetas tradicionais do Romantismo. Nem sabia que Mário Faustino já era um intelectual de grande reputação apesar da juventude dele, quanto mais ouvir falar de Concretismo, Neoconcretismo, ruptura entre neoconcretistas de São Paulo e Rio de Janeiro.
Mais tarde, tendo o Jornal do Brasil alcançado seu apogeu de diagramação e de jornal de estilo moderno e inovador, que já vinha do tempo do SDJB pela via indireta de um seu Suplemento feminino - de onde eclodiu, conforme informa o criador do SDJB, Reynaldo Jardim, o próprio SDJB, apresentando, como matérias, contos e poemas, além de textos crítico-teóricos sob a liderança de Mário Faustino. Anos depois, surgia o Caderno Idéias, cuja leitura acompanhei durante anos, sobretudo na fase em que brilhava uma coluna de Jose Guilherme Merquior, provavelmente um dos primeiros grandes ensaístas da cultura que o país já conheceu em todos os tempos, denominada O mundo das idéias. Além disso, o Caderno Ideias acolheu grandes figuras da inteligência brasileira nele colaborando, ou a ele concedendo entrevistas.
Algum tempo atrás, tinha eu uma coleção de numerosos números desse Caderno cultural, mas a perdi em algumas mudanças de residência por que passei e, por motivos de espaço físico, tive que me descartar, com o coração despedaçado, de coleções de jornais e de revistas e um bom número de livros didáticos sobretudo.
Aos poucos, fui observando que o velho JB de tantos leituras, sobretudo depois da morte de sua proprietária, a Condessa Pereira Carneiro, começava a dar sinais de decadência, primeiro sob a alegação de se tornar mais ágil e enxuto, com a drástica redução do número de páginas, em seguida, pela sintomática redução do número de páginas do Ideias, que me deixou desconfiado quanto às possibilidades da sobrevida do outrora grande jornal brasileiro. Agora, sou informado de que deixará de circula,r na forma impressa, em setembro próximo, passando a sobreviver na forma eletrônica. Não será nunca mais o mesmo sob todos os ângulos, inclusive o de não se poder mais manuseá-lo e sentir a sua forma física que tanto encanto nos causa e dá indizível prazer a quem ainda pertence a uma geração nascida e crescida sob o signo do papel impresso. Isso dói e traz saudade.
Já que não sou tão cético, ainda nutro esperanças de que haja uma reviravolta positiva e essa morte anunciada do JB impresso não se torne uma definitiva realidade da comunicação jornalística no país. Mesmo sem conhecê-los pessoalmente, associo-me às vozes de lamentação que já estão irrompendo, como as de Ferreira Gullar, de Wilson Figueiredo, do vice-presidente da República, José Alencar, e de outros leitores e leitores ex-colunistas de longa data do histórico e respeitado Jornal do Brasil.

sábado, 24 de julho de 2010

Uma sextilha de John Dryden (1631-1700)

ON MILTON
John Dryden

Three poets, in three distant ages Born,
Greece, Italy, and England did adorn.
The first in loftiness of thought surpassed,
The next in majesty; in both the last
Therefore of nature could no further go;
To make a third, she joined the other two.

A PROPÓSITO DE MILTON

Nascidos em três épocas diversas três poetas,
A Grécia, a Itália e a Inglaterra aos píncaros elevaram.
Do pensamento venceu o primeiro na profundidade,
O segundo, em grandiosidade; em ambos, o último
Da natureza a força um passo adiante não logrou;
Para criar o terceiro, os dois primeiros fundiu.

(Tradução de Cunha e Silva Filho)

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Um poema de Jean Aicard (1848-1921)

La Montre

“Une montre à moi! quelle affaire!
Mon père m ‘offre ce cadeau
Pour m’encourager à bien faire.
Elle marche seule: c’est beau.

Quelle heure est-il? – Six heures! Diable!
Le soleil est déjà levé.
Mon livre est ouvert sur ma table,
Mon devoir n’est achevé!

Finissons! – La besonge est faite,
C’est drôle comme on est content!
Sept heures!! Ma copie est prête,
Et ma montre va; ça s’entend.

Mademoiselle, êteves-vous folle?
Huit heures déà? – J’ ai raison!
- Il faut donc partir pour l’école
- Viens, ma montre! – Oui, mon garcon!”

Et voous deux arrivent ensemble
À l’heure juste, sans retard.
”Je suis le premier, il me semble;
Remercions-la d’un regard”

Alors, parlant comme un bon livre,
Avec ses ressorts palpitants,
La montre a dit: “Fille, pour bien vivre,
Il faut savoir régler le temps.”

O Relógio de Algibeira
“Um relógio pra mim !
Presente de papai
Pra bom uso dele fazer.
Sozinho trabalha: beleza.

Como vai o inimigo? – Seis horas!
De pé já está o sol.
Sobre a mesa, aberto, meu livro,
Do dever dar conta me falta !

Terminemos! – Tarefa cumprida,
Engraçado, como estamos felizes!
Sete horas! A cópia concluí,
Andando, continua meu relógio; sua parte faz.

Você enlouqueceu, senhorita?
Oito horas, já ? – Sem dúvida!
Ir pra escola é preciso, pois.
Vem, relógio meu! - Sim, meu rapaz!”

E, juntos, ambos chegam
À hora certa, sem atraso.
“Cheguei primeiro, quero crer;
Agradecemo-la com um olhar.”
Então, que nem um bom livro,
Com seus recursos fabulosos,
Diz o relógio: “ Filho, pra viver bem,
Saber urge o tempo dividir.

(Tradução de Cunha e Silva Filho)

quinta-feira, 22 de julho de 2010

As águas pelo mundo afora

Cunha e Silva Filho

Não sou cientista, mas tenho os olhos voltados para o que me cerca. Não só no meu país, mas, no mundo, o que estou presenciando, ou melhor, vendo claramente visto - obrigado, Camões! -, é preocupante para o destino da Terra.
Há poucos dias li uma reportagem sobre o Himalaia, que não é mais o mesmo, tem reduzidas drasticamente, em pelo menos, em duas décadas, as camadas de neve sobre ele. O que se vê são partes descobertas de gelo, mostrando a nudez da montanha. Isso é mais do que um sinal e, a bom entendedor, meia palavra basta. Só não enxerga quem não quer, ou se quer, se omite por irresponsabilidade ou por interesses esconsos de natureza vária e em escala mundial.
Repetidas vezes tenho declarado, por pura observação, por puro amadorismo – o que não significa - desídia ou desinteresse pela defesa de nosso planeta, que o aumento do calor da Terra não foi devido a razões comumente justificadas por certa visão científica, alegando que, na história do nosso planeta, já houve variações drástica e destruição de fauna e flora.
Contudo, o que não me parece exato é a forma como estão tratando o nosso mundo físico, o nosso solo, as nossas florestas, os nosso rios, a Amazônia. Continuam depredando o planeta com o aumento descomunal do CO2. Aumentando o efeito estufa, sufocando os nosso céus e terras, exaurindo nosso solo e subsolo até as suas camadas mais profundas, modificando a paisagem, fabricando os mais variados produtos em excesso para atender as mais diversas demandas da economia e da indústria, poluindo nossos mares e oceanos, o espaço físico da Terra começa a reagir aos açoites do homem global, do homem consumista, desses terráqueos de todas as raças, línguas, costumes e religiões que parecem desconhecer que os recurso naturais tem suas medidas ditadas p elas leis rígidas da Natureza..
Como resultado, temos as mudanças bruscas de condições meteorológicas que, no passado, não existiam com tanta violência por parte da Mãe-Natureza.
Vejam-se, por exemplo, o que tais mudanças trouxeram para a divisão das quatro estações, muito nítidas e precisas nos séculos passados e, hoje, infelizmente, escapam a esse antigo ciclo harmonioso, como se notava sobretudo no Hemisfério Norte.
Reparemos em nosso país como as condições climáticas se misturaram, parecendo mais um pandemônio da Natureza. As chuvas torrenciais que têm castigado impiedosamente o Brasil inteiro são mais que evidentes para concluirmos que o tempo mudou para pior e, o que é mais grave, tem causado milhares de mortes e prejuízos financeiros incalculáveis, desestruturando os lares, o comércio, as habitações, a normalidade da vida urbana ou rural Estamos diante de um quadro climático inimaginável se comparado com tempos passados.
Países frios, como a Rússia, hoje sofrem altas temperaturas, provocando mudanças de condições de vida de seus habitantes, obrigando-os a procurar as praias, os lagos, as fontes, e até levando-as a mortes por excesso de calor e por afogamento em razão da corrida para as águas por causa das altas temperaturas que não conheciam antes.
A região Sul do nosso país tem sofrido com a chegada de temporais devastadores, com ventos de velocidades semelhantes àquelas que sofrem os Estados Unidos com seus vendavais, tufões e furacões.
O clima mundial sofre de inversões jamais pensadas em tempos passados. As inundações que têm apresentado os rios em escala mundial têm uma natureza aproximada. Não são pontuais esses desgovernos do comportamento climático do planeta. Antes, há até uma relativa uniformidade de comportamento da Natureza. Essa aproximação, essa similaridade nos leva a algumas conclusões: 1)É preciso que os organismos internacionais responsáveis pelas condições do meio-ambiente se reúnam não para discussões estéreis que não têm levado a uma caminho seguro para a melhoria do nosso planeta; 2) os países mais ricos e mais devastadores dos recursos da Terra devem repensar suas políticas ambientais e encontrar uma forma de efetivar os pontos comuns encontrados para reduzirem o aquecimento global; 3) O tempo de soluções que possam conduzir a uma melhoria e salvação do planeta está se esgotando; 4) Os países, com suas ambições e seus individualismos sem limites, hão de pagar caro pela postergação do enfrentamento das reais alternativas que livrariam a Terra de um golpe final e sem volta.
A Terra não é reduto de decisões de países que se arvoram em donos do mundo e não respeitam os limites dos recursos da Natureza, sejas de que espécie for. Segundo bem diz um provérbio inglês: “o tempo e a maré não esperam por ninguém.”

O menino que sabia muito

Cunha e Silva Filho

Falou-se que Wesly até seis ou sete anos, dava sinais de capacidade mínima para aprender a ler. Tinha até sido considerado como portador de retardo mental, como dizem ter ocorrido com o sociólogo Gilberto Freyre(1900-1987) ou com o padre Antônio Vieira (1608-1697).Trocara várias vezes de escola. De nada adiantava.. Escola pública, o então chamado Grupo Escolar, escola particular ou mesmo com uma professora parente que lhe ia em casa dar algum reforço. Nada acontecia de bom. Tentou-se de tudo e nada que fizesse a criança desenvolver sua habilidade de leitura e de escrita. Os pais já não sabiam o que fazer para solucionar o problema. Pobrezinho do Wesley!
De repente, houve o estalo. A criança se descobriu lendo. Mais ainda, nela despertou um interesse inusitado para conhecer e saber de tudo. Sua curiosidade não tinha limites. Suas perguntas deixavam as pessoas perplexas. Não só estava lendo bem, como sua letra, a princípio, ininteligível, passou a ser legível e bonita.
Os pais, seu Antônio e dona Margarida, de descoroçoados, mudaram para eufóricos de alegria sem tamanho. O pequeno Wesley deixava definitivamente para trás o medo da escola, da professora, dos colegas. Da terceira serie pulara para o admissão ao ginásio., dando prova crescente de que era o melhor aluno da Escola em todas as matérias, posto com justiça seja dito que ele tinha um interesse especial para línguas.
Dava show nas aulas de português, latim, inglês, sempre tirando nota máxima No científico, já em outro colégio, uma instituição de renome na época, os colegas o consideravam uma espécie de gênio. No inglês, no espanhol, no latim, no francês era insuperável. Wesley se fizera respeitado pelos colegas e professores. A admiração por sua inteligência tomava conta da cidade. Continuava bom aluno em todas as disciplinas, com exceção de educação física, pois era franzino e não gostava muito das aulas, sobretudo quando o professor lhe pedia que corresse. A esta altura já ia completar dezoito anos.
Seus pais, que eram comerciantes de porte médio, pensaram em encaminhá-lo a um centro mais adiantado do país. Logo veio a idéia de mandá-lo para São Paulo. Por coincidência, neste estado, morava um irmão mais velho do seu pai, que era gerente de uma agência do Banco do Brasil.
Wesley chega a São Paulo. Já estava na hora de enfrentar o vestibular. O difícil para ele foi tomar uma decisão com respeito à carreira a seguir. Seu tio, Oswaldo, conversou com um amigo, um educador famoso que bem poderia ajudar o sobrinho nessa espinhosa opção de carreira para ingresso numa universidade. Marcou-se uma entrevista com o educador, o Prof. Diógenes Dudley, da USP.
No dia e hora marcados, lá estava, Wesley já com dezoito anos, a conversar, um sorriso sempre à mostra, com o Prof. Dudley.
- Então, você está decidido a estudar línguas? Não pense em ganhar dinheiro com o curso de Letras. O professor brasileiro sempre foi mal remunerado, em todos os níveis, e sobretudo no ensino primário e secundário.
- Sim, professor, é isso que quero.
O prof. Dudley examinou o jovem detidamente, olhou para ele vendo-lhe as feições harmoniosas: um rosto quase oval, olhos azuis, cabelos levemente ondulados, emoldurando-lhe a cabeça com um penteado partindo o cabelo ao meio. Sua pele era alva em ele havia sempre um largo sorriso nos lábios. O sorriso era tão largo, tão espontâneo que lhe irradiava pelo corpo todo. Uma simpatia de jovem.
_ Bem, acho que estamos conversados. Desejo-lhe sucessos na sua escolha, com estas palavras o professor arrematou a entrevista.
Wesley enfrentou o vestibular de Letras da USP. Foi o primeiro colocado, o que obteve a maior média geral de toda a Universidade, merecendo um entrevista da Folha de São Paulo.
Logo no primeiro semestre do primeiro ano do curso de Letras, chamou a atenção do corpo docente da Faculdade de Letras. O chefe do Departamento de Línguas Modernas o chamou ao seu gabinete:
- Wesley, vamos arranjar-lhe uma bolsa para estudar na Inglaterra. Você fará o resto do curso lá.
Wesley estava radiante, mandara telegrama aos pais falando dessa nova etapa de sua vida de estudante. Na Inglaterra, foi alvo da admiração dos colegas de sala e principalmente do corpo docente da Universidade de Oxford. Concluída a graduação com louvores fora logo convidado a ingressar no mestrado, especializando-se em línguas modernas. Terminado o mestrado, novamente foi convidado a fazer o doutorado, o PhD. Já se passaram dez anos na velha Álbion. Wesley foi nomeado professor daquela universidade. Estava com vinte e oito anos.
Seu curriculum cada vez mais se enriquecia. Tornara-se professor de renome mundial, com oito livros publicado pela Oxford University. Já havia dado palestras em outros países: Estados Unidos, Alemanha, França, Itália, Portual, Espanha, México.
Wesley é, agora, um linguista conceituado. Escreve em cinco línguas. Domina o grego e o latim. O latim começara a estudar ainda no Ceará, seu Estado natal, no ginásio.
Wesley retorna sempre ao Brasil a passeio, na temporada de férias. É um professor ocupadíssimo, com vários encargos acadêmicos, dando aulas, orientando teses, escrevendo numerosos artigos em diversas revistas especializadas na área da linguística e viajando com frequência para dar conferências no exterior.
O professor brasileiro naturalizou-se inglês. Casou-se e teve dois filhos, um casal. Agora, é o que se chama no Brasil de professor titular.
O governo brasileiro o convidou como visiting professor da USP durante quatro anos. Foi um sucesso estrondoso, pois Wesley colocou toda a sua inteligência, saber e experiência a serviço dos seus alunos. Entretanto, seu grande serviço prestado ao país foi sobretudo estabelecer avançada orientação no campo dos estudos linguísticos voltados para pesquisas de métodos de ensino de idiomas para crianças, adolescentes e adultos. Ele chegou mesmo a elaborar um projeto destinado a recrutar adolescentes, com grande talento para línguas, a empreender aprofundados estudos no campo da linguística aplicada. Costuma afirmar que todo mundo tem capacidade intelectual de aprender línguas. Isso é apenas uma questão de método adequado, assegura ele.
O Dr. Wesley Silva Monteiro na Universidade de Oxford continua pesquisando intensamente, e dedica-se também a consultoria pela Internet sem custo algum para os interessados. Milhares de estudantes, no mundo inteiro, acessam seu site procurando orientação segura para seus estudos . O prof. Wesley, até agora, tem editadas dez obras no domínio da linguística, sendo que as mais conhecidas são: The art of learning languages ( 1974), Applied linguistics for graduate students in modern languages ( 1978), What if men did not challenge God’s powers in building the Tower of Babel (1983), The story of a child who loved languages (1990), este ultimo uma autobiografia de sua trajetória intelectual, best seller tanto no meio acadêmico londrino quanto de público interessado em línguas pelo mundo afora.
Um jornal britânico recentemente informou que o Dr. Wesley Monteiro faleceu de repente de ataque cardíaco aos quarenta e nove anos.
A Universidade de Oxford tributou-lhe grandes e merecidas homenagens e já prometeu homenageá-lo e à sua obra num simpósio a ser realizado no segundo semestre deste ano.
Na sua terra natal, Crato, seus pais, seus familiares e amigos ficaram profundamente consternados com o falecimento prematuro do grande linguista.O prefeito da cidade decretou luto oficial por três dias.
O eminente professor e linguista cearense está sepultado num conhecido cemitério de Bourrnmouth,Inglaterra.*

Notado autor: Leitor, o sepultamento na verdade foi em Ealing, Middleessex, perto de Londres, e não como o texto informou. Houve erro do jornal que transmitiu a notícia do falecimento e sepultamento do Dr. Wesly. Lamento o meu involuntário descuido.