sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Um poema de Gustavo A. Bécquer

Um poema de um poema de Gustavo A.. Bécquer


Cunha e Silva Filho


Leitor, hoje lhe trago outro poeta, desta vez do Romantismo espanhol. Seu nome; Gustavo Adolfo Dominguez Bastide, nascido em Sevilla, em 17/2/1836 e falecido em Madrid, em 22/12/1870. Entretanto, assinava Gustavo A. Bécquer, acompanhando a forma de assinatura vinda de seu pai, que foi conhecido pintor. Além de poeta, Bécquer fez ficção com muito êxito e foi crítico literario e, como o pai, também fez pintura. Abaixo segue o poema no original e a minha tradução:


Poema

¿Qué es poesia? Dices mientras clavas
en mi pupila tu pupila azul.
¿Qué es poesía? ¿ Y tu me lo perguntas?
Poesía ... eres tú.
¿Cómo vive esa rosa que has prendido
junto a tu corazón?
Nunca hasta ahora contemplé en la tierra
sobre el volcán la flor.



Poema

O que é poesia? afirmas, enquanto cravas
tua pupila azul em minha pupila.
O que é poesia? Por que me perguntas?
Poesia... és tu.
Como vive essa rosa que fizeste brotar
junto ao teu coração?
Até agora, na terra, nunca vi
uma flor sobre um vulcão.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Fernando Pessoa: "Sonnet IX"

Fernando Pessoa: “Sonnet IX

Cunha e Silva Filho


Leitor, segue a tradução de mais um soneto pessoano. Veja-a:


Sonnet IX

OH TO BE IDLE loving idleness!
But I am idle all in hate of me;
Ever in action’s dream, in the false stress
Of purposed action never act to be.
Like a fierce beast selfpenned in a bait-lair,
My will to act binds with excess my action,
Not-acting coils the thoought with raged despair,
And acting rage doth paint distraction.
Like someone sinking in a treacheroous sands,
Each gesture to deliver sinks the more;
The struggle avails not, and to raise no hand,
Thought but slowly useless, we’ve no power.
Hence live I the dead life each day doth bring,
Repurposed for next day’s repurposing.

Soneto IX

AH INDOLENTE SER a indolência amando!
Sou, porem, indolente pelo simples ódio contra mim mesmo;
Na pressão falsa em atividade o sonho sempre
Da ação como alvo sem alvo ser.
Tal qual uma fera indomada presa numa toca-isca,
Cola-se por excesso a minha vontade de ação à minha ação,
E a ativada ira, na realidade, do desespero o transtorno retrata.
Como alguém se afundando, mais se afunda;
De nada vale a luta ou a mão erguer,
Quanto mais lento o pensamento, mais inútil, força não temos.
Daí, cada dia que, firme passa, a vida morta viver,
Tudo retomar para, a cada dia, uma retomada.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Fernando Pessoa: "English sonnet"

Fernando Pessoa: “Sonnet VIII”


Cunha e Silva Filho


Prossigo, leitor, com mais uma tradução dos “English Sonnets” pessoanos. Ei-lo:


Sonnet VIII

HOW MANY MASKS wear we, and undermasks,
Upon our countenance of soul, and when,
If for self-sport the soul itself unmasks,
Knows it the last mask off and the face plain?
The true mask feels no inside to the mask
But looks out of the mask by co-masked eyes.
Whatever consciousness begins the task
The task’s accepted use to sleepness ties.
Like a child frighted by its mirrored faces,
Our souls, that children are, being thought-losing,
Foists otherness upon their seen grimaces
And get the whole world on their forgot causing;
And, when a thought would unmask our soul’s masking,
Itself goes not unmasked to the unmasking.

Soneto VIII

QUANTAS MÁSCARAS usamos, quantas máscaras menores
Sobre nosso semblante d’alma e, quando,
Embora por diversão, a própria alma a si mesma se desvela,
Sabe ser ela a última máscara revelada e o rosto, enfim, descoberto?
A máscara genuína não sente o que oculto está.
Porém, com olhos mascarados da máscara se defende.
Seja o que a consciência por dever tenha
O uso aceito deste ao estado de sono se une.
Tal como uma criança assombrada com o rosto em espelhos refletido,
Nossa almas, que são crianças, sendo pensamento em declínio,
Através de visíveis caretas a alteridade forçam
E, ao provocarem o esquecimento, o mundo inteiro para si ganham;
E, quando a máscara de noss’alma em pensamento revelasse,
Ele mesmo, ao revelar-se, não se revela.

O poeta menor

O poeta menor


Cunha e Silva Filho


Já escreveu alguém que os escritores menores, os que não atingem o estrelato, são muito úteis à vida literária, porque é neles que os historiadores vão buscar apreciáveis subsídios para a compreensão da história literária. Por isso, eles fazem parte do rol de escritores como um todo.
A posição secundária deles não os impede de serem lidos e até estudados. Os ingleses até têm uma denominação para esses escritores de projeção restrita: minor writers, em oposição aos major writers.
Os autores menores, ficcionistas, poetas ou dramaturgos, têm muito a nos ensinar e a nos transmitir. Todavia, o gênero poético é o que mais inflaciona um contingente enorme de autores menores, os quais tanto podem aparecer nas metrópoles quanto nas cidades menores.Há quem os chame depreciativamente de poetoides ou poetrastros, versejadores ou por outros epítetos análogos. São denominações constrangedoras, que suscetibilizam as pessoas, que devem ser usadas com muito cuidado. Alguém já afirmou que a literatura não só vive de gênios ou de grandes talentos. Não teria graça se assim o fosse. Os gênios são poucos. O que, porém, não falta são escritores de menor expressão. Ainda mesmo entre os talentosos há os que não alcançam notoriedade nacional e muito menos universal.
Basta examinarmos o número de poetas que já apareceram no Brasil para concluirmos que a maioria deles não vinga. Desaparecem como fumaça pelo tempo afora. São nomes que estão mais nos registros da historiografia literária. Os que se distinguiram são proporcionalmente pouquíssimos. Os que dominam as nossas antologias poéticas atuais são relativamente poucos e quase sempre são os mesmos nomes, os happy few do cânone brasileiro e isso não deixa de ser uma tremenda injustiça.
Tomando, por exemplo, como marco o período do Modernismo na poesia brasileira, constatamos que o número de poetas conhecidos do grande público é muito reduzido: Bandeira, Drummond, João Cabral, Cecília Meireles que, com outros, formam um pequeno círculo da nossa poesia. O país tem dimensões continentais. Em cada estado da Federação, há uma quantidade considerável de poetas, sem falarmos nos municípios. Somando tudo, a estatística oferece uma número gigantesco. E não estamos falando nos vários estilos, fases ou movimentos por que passou a poesia brasileira.
Com relação a poetas menores e anônimos, que seria um tipo mais abaixo do poeta menor, com uma produção que não atinge mais do que um único pequeno volume, publicado em edições particulares – autores que casualmente nos chegam ao conhecimento -, inexiste registro deles. Ficam de fora das histórias literárias.
O que diferencia o poeta menor do poeta maior: Eis uma questão que não é tão fácil assim de resolver, pois depende de vários fatores valorativos e formais, tendo à frente a questão da expressão verbal, enfim, da linguagem literária, da literariedade, da densidade temático-conteudística, da formação intelectual, do talento, da genialidade, da atividade poética contínua, entre outros.
Em geral, o que separa o grande poeta do mau poeta é semelhante ao teste da diferenciação entre um bom compositor de música popular de um mau compositor. Numa palavra, é uma questão de valor estético.
Um dos traços pertinentes e caracterizadores da poesia é o seu caráter de imprevisibilidade,[i] e é esse traço distintivo que delimita a fronteira do nível elevado de expectativa lingüístico-formal. O poeta menor não é alguém visceralmente preocupado com a linguagem elevada ao estatuto metalinguístico. Esse nível altíssimo de elaboração formal tem por meta perseguida pelo artista da palavra a construção de metáforas e imagens que traduzam sentimentos humanos, emoções e realidades diversificadas. Poesia maior é “luta pela expressão.” É a “palavra mágica” drummondiana.
Sem preparo artístico, aperfeiçoamento de técnicas e sólida formação literária, não há grande poeta. Ao contrario, o poeta menor, o versejador, esse resulta mais da improvisação, do mimetismo fácil, do que do estudo. Seria poeta mais dependente do fogo da inspiração fácil e artificial, do narcisismo, da imitação ingênua, da espontaneidade circunstancial que pensa fazer poesia quando apenas está dando largas a desabafos subjetivos, a dores de cotovelo, a particulares circunstâncias enfrentadas em dado momento da vida. Alguns deles há que conseguem até ser felizes em alguns poemas escritos, mas, no geral, não conseguem um bom nível formal e inventivo de produção poética.
Os poetas menores por vezes nos causam alguma comoção, porquanto, em geral, nos vêm bater à porta. Decididamente, não devemos fechar-lhes as portas, quando não, pela educação devida, pela obrigação que temos de ler o que escreveram, ainda que não tenham sido ungidos pela consagração da crítica.
Todos conhecemos esses poetas que nos vêm com as suas pequenas produções impressas em alguma gráfica ou editora modesta, sem o chamado selo das editoras famosas. Seus livros foram escritos com o desejo - como é natural – de serem lidos. São autores que não vendem sua obra, antes saem distribuindo-a casualmente entre leitores acidentais, amigos, conhecidos. São os poetas anônimos, desconhecidos, esperançosos de elogios que nunca lhes chegam. Procuram por vezes, vender até alguns exemplares em bancas de jornal, nas estações rodoviárias, ou pessoalmente, como faziam os escritores marginais, os poetas do mimeógrafo dos anos setenta do século passado. Na rua, nos bares, nas esquinas, em todos esses lugares lá estão eles, esperançosos do aceno de alguém que manifeste a vontade de ficar com um exemplar, até mesmo para não o ler, mas apenas para sere solidário com eles.
Nenhum pesquisador até hoje, ao que eu saiba, se deu ao trabalho de catalogá-los pelo país afora. Seria uma tarefa que demandaria uma grande equipe nos moldes das pesquisas do IBGE.
Imagine-se a publicação em vida desses anônimos, rotulados de poeta menores. Causaria, por certo uma convulsão social, pois nenhum deles , em vida, se sentiria poeta menor. Portanto, afigura-se-me paradoxal o registro deles em vida, já que haveria a possibilidade de criar sérios constrangimentos e melindres de natureza bairrista. A publicação teria que ser mesmo póstuma. Alguns deles, de tão anônimos, nem mesmo chegariam ao conhecimento do historiador. Todavia, não se pode negar que a existência deles sirva para ensejar uma visão global da produção marginal,[ii] material farto e útil para a sociologia da literatura. As gráficas e tipografias espalhadas pelos quatro cantos do país seriam indicações certas para a coleta de informações sobre esses poetas menores.
Entretanto, alguns desses poetas se julgam ingenuamente com talento e dignos de publicação. Abrimos-lhes as primeiras páginas e ali vamos seguramente encontrar o déjá vu : os habituais acrósticos, as dores amorosas, versos às flores, o canto aos símbolos nacionais, os versos à natureza, e frequentemente o clássico lugar-comum: os poemas sobre o amor, correspondido ou não, as palavras adocicadas, com rimas, estrofes, a linguagem correta, a métrica certinha, tudo segundo o emparedamento tradicionalista do tipo romântico (mais frequente), simbolista ou parnasiano, que pensa que Poesia se faz apenas de rimas, métrica, estrofe, algum ritmo, sentimentos de boa intenção ou palavras de efeito. Nada tão distante da Poesia. ,

Notas:
[i] Ver SOUSA DANTAS, José Maria de. Discurso poético e Discurso não-poético, in: SOUSA DANTAS, Jose Maria de. Didática da literatura. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 1982, p. 18.
[ii] Emprego o termo “marginal” aqui no sentido de publicar uma obra sem as exigências de fichas catalogação nos órgãos competentes, i. e., trata-se de publicações particulares em gráficas ou tipografias. O termo, neste contexto, nada tem a ver com poesia marginal, ou ficção marginal, que são formas literárias diferentes e já bem conceituadas teoricamente.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Celso Barros Coelho: tempo e sabedoria

Celso Barros Coelho: tempo e sabedoria


Cunha e Silva Filho


No início dos anos sessenta do século passado, tive os primeiros contatos - diria -, indiretos, com essa figura de intelectual de primeira grandeza, que é Celso Barros Coelho. Havia um jornal, dos mais conhecidos de Teresina, para o qual, através de papai, mandava meus artigos juvenis sobre literatura brasileira e até tentativas de ensaiar textos ficcionais. Nesse jornal, havia um página dedicada a literatura – que luxo para aquela época! – e nela pontificavam alguns intelectuais já respeitados pela sua atuação nos meios culturais piauienses.
O professor Celso Barros era uma deles. Lia seus artigos, e confesso que, por ser eu muito imaturo ainda, alguns deles não conseguia entender bem, em razão do seu elevado nível de exposição. Mas, escrever ao lado de figuras já representativas do mundo das letras e da cultura piauienses, já me deixava envaidecido nos meus dezessete anos.
Outras informações que dele tive vieram de meu pai. Lembro-me até de um fato: numa manhã, em Teresina, quando eu já não mais morava nessa cidade e ali estava a passeio em visita a meus pais, o professor Celso Barros, dirigindo seu carro pela Avenida Frei Serafim, e vendo que papai e eu estávamos caminhando pela calçada em direção ao centro da cidade, nos deu uma carona até uma das ruas em que deveríamos ficar. Meu pai e ele conversaram um pouco sem que eu tomasse parte mais ativa no diálogo.Falaram, entre outras coisas, sobre línguas estrangeiras e me recordo de que o professor Celso Barros lhe dissera que gostava de italiano. Naturalmente papai lhe fizera alguma referência ao meu gosto por línguas estrangeiras.Daí, talvez o comentário do professor Celso Barros.
Com o tempo, fui conhecendo mais o papel influente que esse maranhense de Passos Bons desempenhava na vida cultural piauiense. O tempo foi passando e minha admiração por esse piauiense de coração foi aumentando. Li alguns textos dele sobre Da Costa e Silva, que, inclusive, fazem parte da bibliografia dacostina no meu livro Da Costa e Silva: uma leitura da saudade (1996) Me refiro a seus ensaios sob o título Três poetas de sua terra, Brasília, Câmara dos Deputados, Centro de Documentação e Informação, 1984). Li outros textos seus nas áreas de direito, filosofia, mas, confesso, li sobretudo seus trabalhos no domínio ensaístico-literário. Aos poucos, fui compondo o meu juízo intelectual desse estudioso maranhense/piauiense, e, dada a abrangência de sua larga produção, distribuída entre vários domínios da cultura, não tenho dúvida em afirmar ser ele um dos nomes mais significativos da cultura piauiense contemporânea.
Não por simples julgamento apressado, mas porque Celso Barros Coelho tem a seu favor um invejável currículo, dividido em áreas como, entre outras, literatura, direito, história, filosofia, ou seja, campos de atuação intelectual que só as individualidades de sólida formação humanística podem nelas se sentir à vontade para estabelecer diálogos fecundos com a cultura universal.
Faço esses breves comentários, ainda tão distantes das potencialidades desse escritor, a fm de aproveitar neste artigo para saudá-lo como autor de mais uma obra que me vem revelar outra faceta do sua múltipla atividade de notável publicista: o memorialista. Aludo ao seu mais recente livro, Pastos Bons: tempo de memória. ( Imperatriz, MA.:Ética, 2009., 163 p.), com elucidativa introdução e apresentação de João Renôr Ferreira de Carvalho e bem escritas “orelhas” de Adalberto Franklin.
Pastos Bons: tempo e memória, antes de tudo, é uma obra deliciosa, que encanta e ensina - trabalho de amor e de afeto. Livro saído do coração, em estilo que prima por um traço estilístico forte no autor, a originalidade de saber escrever, de encontrar aquele equilíbrio entre clareza e pensamento, entre concisão, correção e fluência, qualidades – diria -, só conseguidas por uns poucos eleitos, isto é, aqueles escritores que o tempo e o estudo são decisivos na plasmação daquela forma de escrita fluente e ao mesmo tempo elegante. Assim vejo a escrita de Celso Barros, escrita que não oculta do leitor atento o trabalho de estilo e forma literárias, fruto das lições de grandes autores do passado combinadas e atualizadas com as do presente, resultando num estilo moderno e criativo Celso Barros escreve num nível estético com plena autonomia da construção sintática. E essa excelência só o tempo e os estudos podem conseguir. Forma de linguagem e pensamento nele se unificam para o ato da criação literária, seja na complexidade dos assuntos tratados, seja, como na obra que ora lança, nos temas da sua memória afetiva, brotada do sentimento da saudade da infância e da rememoração, em idade ideal, de fatos e acontecimentos que lhe ficaram indelevelmente associados à sua experiência em idade mais avançada.
O binômio que está no subtítulo de recente livro explicita por si mesmo, as duas vertentes em que se divide e ao mesmo tempo se une: a memória centrada na meninice de sua querida terra natal – Passos Bons -, revisitada depois de tanto tempo, e o tempo, que lhe serve de veículo para recuperar proustianamente aquela idade da história de cada homem.
Na realidade, tudo circula tematicamente para justificar a rememoração, para a revivescência do que lhe ficou atrás, dentro daquele princípio comum de “recordar é viver”. E Celso Barros e o faz com a delicadeza do espírito no que este tem de mais terno e de mais saudoso.
Por isso, nas crônicas em que se volta para o passado, para o coração de sua infância, ali tem a forma mais lídima de explicar, de narrar, de contar, de observar temporalmente. E relembra, então, seus familiares, seus lugares queridos de Pastos Bons Recorda, na crônica”Heloísa – minha professora” a figura imarcescível de sua amada professora Heloísa, que lhe imprimirá marcas eternas no seu mundo interior, a ponto de colocar a figura de Heloísa num plano sentimental de natureza platônica, espiritualizada, chegando a compará-la à Virgem da Roca, de Da Vinci. Nas seis crônicas tematizando a infância, além da já citada, “A igreja de São Bento”, “Monólogo de um cego”,“Pequeno Memorial”, “Olho d’água de São Bento”, “A igreja de São Bento, o autor mergulha fundo nos tempos mais felizes de sua existência, nos quais cada detalhe, cada lugar, ou pessoa, ou monumento, ou templo, ou a natureza no passado passam a ter lugar privilegiado no seu universo de adultos e sobretudo na sua idade da sabedoria. Nada é esquecido, tudo se faz presente. É a transfiguração das coisas dos homens e da paisagem para um plano da transcendência, que é o da saudade. Não posso me furtar a dizer que, embora todas as crônicas em conjunto sejam significativas no livro, as de que mais gostei foram essas seis. Todas essa crônicas falam do passado na medida certa do contar, do expor e do narrar. Não dizem o excesso nem dizem o de menos. Por isso são todas lapidarmente concisas e não cansam o leitor com divagações desnecessárias.
O livro se compõe de 6 capítulos, todos estes precedidos de uma análise apreciativa de cada tema ventilado a cargo do professor João Renôr Ferreira de Carvalho, que introduz o leitor no contexto histórico-social-afetivo-cultural de cada crônica de Celso Barros. Convém lembrar ao leitor que todas as crônicas foram originariamente publicadas no jornal Pastos Bons, periódico criado pelo próprio Celso Barros Coelho em 2003, sendo que, dois anos depois, esse mesmo intelectual resolveu fundar também uma Academia, com o sugestivo nome de Academia de Letras, História e Ecologia da Região Integrada de Pastos Bons. A se ver pela denominação dessa Academia, sua meta ultrapassa os limites em geral das academias meramente com fins literários. Essa, não, visa à defesa dos temas ecológicos e históricos. Portanto, tem finalidades mais ambiciosas, porque passa a ser uma espécie de fórum privilegiado para levantar bandeiras em defesa de momentosos problemas nacionais, não apenas regionais.
As demais crônicas do volume enfocam temas diversos ligados principalmente ao estado do Maranhão e particularmente a Pastos Bons, à história, à literatura, à política, à ecologia e a discursos proferidos pelo autor.Entretanto, há uma espinha dorsal permeando todos esses trabalhos: Celso Barros, em quase todos eles, se revela um intransigente defensor dos valores humanos – ele próprio um humanista por formação intelectual e por princípios e convicções morais, dos quais não se afasta um milímetro a fim de preservar a sociedade e o mundo dos males provocados pela tempos modernos, como a destruição das nossas tradições culturais, do nosso patrimônio histórico , da nossa natureza, dos n ossos rios, enfim de todos essa mazelas que o nosso país ainda não se dispôs em debelar para o bem do homem e da sociedade.
Numa crônica das melhores do volume, chamada “O compromisso da Academia”, o ilustre professor de direito civil dá exemplo de seu incondicional papel de defensor do que representa o substrato do passado representado pelas academias, não vendo nelas nenhuma forma de retrocesso, mas antes uma forma até democrática de levar adiante objetivos ligados à defesa da cultura e da preservação e valorização de um presente não dissociado do passado.
Há um trecho dessa crônica que considero admirável pela força que seu verbo imprime ao seu pensamento voltado para a exaltação dos atributos inerentes a uma instituição acadêmica, e particularmente para a sua Academia de Letras, História e Ecologia de sua a querida Pastos Bons : “O compromisso das letras nos leva a um mundo de ficção. Nesse território penetremos sem a angústia da servidão humana, pois para ele levamos a esperança da libertação ...”(p.135).
Pastos bons: tempo e memória ainda inclui um brilhante discurso de Dom Franco Masserdotti, que é uma aula de ecologia e de amor a esta causa, de exemplo de um sacerdote estrangeiro perfeitamente sintonizado com as causas da defesa da natureza e da preservação da saúde do planeta Terra.
A obra, além disso, inclui dados biobibliográficos do organizador e do apresentador do volume, o professor João Renôr, assim como uma bem planejada biobibliografia, aos cuidados de Celso Barros Coelho Neto e Karine Campelo de Barros, respectivamente, neto e filha do autor.

sábado, 14 de novembro de 2009

Acordo Ortográfico

Acordo ortográfico
Cunha e Silva Filho

Tenho acompanhado com interesse o desdobramento da aprovação definitiva do Acordo Ortográfico celebrado entre Brasil e Portual e alguns países lusófonos, o qual tem gerado uma série de divergências entre escritores, gramáticos, filólogos, lingüistas, políticos e os próprios falantes em geral da língua portuguesa, sobretudo dos países que detêm maior poder de fogo, isto é, o Brasil e Portugal. Tenho lido sobre o tema e mesmo consultando gramáticas a fim de poder tentar tirar conclusões pessoais sobre o assunto. Me lembro de que a minha geração foi escolarizada seguindo as normas ortográfcas de 1943, época em que começou a vigorar o regime ortográfico resultante da Convenção Luso-Brasileira de 1943. As modificações que ocorreram decorrentes de um novo encontro de delegados das duas Academias, a Academia de Ciências de Lisboa e A Academia Brasileira de Letras, em 1945, em Lisboa, denominadas “Conclusões Complementares” do Acordo de 1931, passaram a viger em Portugal a partir de 1º de janeiro de 1946.
As alterações trazidas desse encontro de 45 foram tantas que provocaram protestos de conceituados professores brasileiros como Julio Nogueira e Clóvis Monteiro.Além disso, não vingaram no Brasil, que continuou com a ortografia de 1943. Tal ortografia foi consubstanciada no Pequeno Vocabulário Ortográfico de Língua Portuguesa, organizado pela Academia Brasileira de Letras com aprovação unânime na sessão de 12 de agosto de 1943 sob a presidência de José Carlos de Macedo Soares.
Em pleno regime militar, foi aprovado e sancionado o projeto de Lei Nº 5765, de 18 de dezembro de 1971, resultante também de um parecer conjunto da Academia Brasileira de Letras e da Academia de Ciências de Lisboa, obedecendo ao disposto no artigo III da Convenção Ortográfica selada em 29 de dezembro de 1943 entre os dois países, que dispunha sobre alterações referentes ao trema, acento circunflexo diferencial e acentos circunflexo e grave. As alterações foram, ainda de pouca monta no complexo universo do cipoal ortográfico da língua portuguesa.
Conforme ensina Rocha Lima ( (Gramática normativa da língua portuguesa. 27 ed., Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1986, p. 38), a história da ortografia portuguesa conhece três períodos: o fonético, o pseudo-etimológico e o histórico-científico. O primeiro se situa na fase arcaica da língua portuguesa, indo até o século XVI; o segundo surge no Renascimento e se prolonga até o século passado; o terceiro teve início com a chamada “nova ortografia”, e data de 1911.
É preciso acentuar que, de todas as reformas por que passou a ortografia portuguesa, o que lhe trouxe maior consistência foi o início dos estudos lingüísticos ( a partir de 1868, cf. Rocha Lima, op. cit, p. 39.) em bases científicas realizados em Portugal por Adolfo Coelho e, posteriormente, pelo eminente filólogo e romanista Aniceto Gonçalves Viana, através de seus estudos reunidos na obra utilíssima Ortografia Nacional, saída a lume em 1904. O trabalho desse estudioso foi tão influente que o governo português designou uma Comissão, em 1911, para elaborar as bases da reforma ortográfica portuguesa para a qual foram convidados os mais proeminentes filólogos portugueses de então, como, entre outros, Leite de Vasconcelos, Carolina Michaëlis, Adolfo Coelho, Julio Moreira, José Joaquim Nunes. As pesquisas de Aniceto Gonçalves Viana foram, segundo Rocha Lima, acolhidas com ligeiras alterações.
Ainda no ano de 1911, foi oficializada a “nova ortografia” em Portugal. No Brasil, em 1931, essa ortografia foi também adotada após Acordo celebrado entre a Academia de Ciências de Lisboa e a Academia Brasileira de Letras Nossos melhores filólogos da época, Silva Ramos, Mário Barreto, Sousa da Silveira, Antenor Nascentes, Jacques Raimundo, entre outros, a receberam com aplausos. Esse Acordo, porém, teve curta duração devido a motivos políticos (estávamos no período revolucionário de Vargas). Desta forma, a Constituição Brasileira de 1934 exigiu que a norma ortográfica refluísse para o sistema de 1931.
A proposta atual atende a antigas reivindicações de gramáticos e filólogos brasileiros, como, dentre outros, Rocha Lima, Antonio Houaiss. Na realidade a proposta presente reúne características da ortografia com base fonética combinada com o período histórico-científico. Portugal, Brasil e as antigas colônias portuguesas englobando o universo lusófono, compreendido por Cabo Verde, São Tomé e Príncipe já aprovaram o novo Acordo Ortográfico. Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Timor-Leste deverão certamente acompanhar aqueles países. A nova Reforma Ortográfica no país fica dependendo da sanção do Presidente da República, estando prevista para 1º de janeiro de 2009.Em termos práticos, contra ou a favor, já nos vamos preparando para o seu uso nas novas publicações respeitando os períodos de carência e outros expedientes protocolares envolvendo o espaço editorial e a mudança que se acena pra os nossos hábitos de escrita.
Me preocupa um pouco a exclusão dos acentos nos ditongos abertos e do acento circunflexo em hiatos formados de vogais iguais, forma gráfica aliás, já utilizada em nossa grafia anterior a 1943, uma vez que sendo fonético o princípio fundamental da reforma, essas mudanças ofereceriam dificuldades a quem está aprendendo a ler e sobretudo a estrangeiros que estão aprendendo o português. Também me parecem tímidas as alterações no emprego ou não do hífen – calcanhar de Aquiles tanto de professores de português quanto de alunos e usuários ou utentes – com se diz em Portugal - da língua escrita. Além disso, reincorpora as letras k, w e y que, agora, passam a integrar o alfabeto, o que me parece uma redundância.
Tenho restrições à extinção do trema nos vocábulos formados de qu e gu, seguidos de e ou i, que podem dar margem a erros crassos de pronúncia mesmo entre falantes de língua portuguesa. Imaginem os estrangeiros... A Reforma é muito restritiva nas suas alterações e está longe de uma reforma simplificadora e abrangente que viesse mesmo tornar mais racional, eficiente e menos

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O retrato na parede

O retrato na parede

­
Cunha e Silva Filho


O retrato estava ali, na parede, imutável, o mesmo que há uns poucos anos, tinham tirado numa dia feliz sem data agora. Quando, porém, olhava, havia sinal de que o sinal de que o reconhecia. Pelo menos, é o que suponho da cena presenciada aqueles poucos instantes em que ali fiquei E isso a deixava mais tranquila.Em torno daquela bela sala de biblioteca, com livros atrás da velha escrivaninha, livros com lombadas de diversos assuntos: literatura, direito, livros religiosos, história, filosofia, livros do autor , que ali, ao lado, na parede, continuava e continuaria imóvel. Nenhum pacto o modificaria. As feições dele não se desfigurariam como as do personagem Dorian Gray do célebre escritor Oscar Wilde.
Eu a encontrei, após ser anunciado por um parente, sentada, elegantemente vestida, de uma discreta elegância que ia dos pés à cabeça. Ela ali estava à minha frente, pois as estantes embutidas da biblioteca não mudaram de lugar, mas a escrivaninha foi invertida. Agora, ficava de frente para os livros, e não mais de costas para estes.
Cheguei, um tanto sem jeito e a cumprimentei. Ela, com um olhar distante, levantou a vista para mim e me cumprimentou, não com as palavras que esperamos de um cumprimento, mas assim:
- Olhe, ele está ali, apontou-me movendo a cabeça meio grisalha. Eu fiquei meio constrangido, sem saber o que dizer pra ela.
- Ah, sim, é ele.
Aquela mulher, uma bela mulher que conheci ainda bem jovem, na época, tinha uns quarenta e poucos anos, o que mais nela notei era sua sensualidade de andar, de falar, de movimentar os braços. A sensualidade ainda era mais intensa no olhar. Olhar de uma mulher cheia de vida e de desejos comuns às mulheres sensuais. Mas, agora, não passava daquela educada senhora com o olhar fixado na foto da parede, esquecida de seu passado e de seu presente, esquecida de todos e de quase tudo. Não me reconheceu nem reconheceria minha mulher. Tudo se havia apagado de sua memória fértil de outrora. Perguntou-me pelo meu nome e lhe respondi, inclusive lhe falei de minha mulher e de meus filhos. Ela nada comentou. Disse apenas novamente:
- Veja ele! Como está bonito! Na parede, aquele homem que conheci melhor quando eu já era casado e tinha filhos, lá, imóvel, permanecia na parede. Entre ele a mulher, uma vida de amizade e de cumplicidade, quiçá de amor mesmo. Davam-se bem. Não tiveram filhos juntos, mas criaram duas filhas, agora, já moças e uma delas prestes a e casar, como me falara a velha empregada da casa.
Não ia me demorar muito naquela velha, bela e confortável casa. Mas, eu me senti um pouco triste ao ver a cena de decadência de um ser que fora belo e ativo, cheio de sonhos, sobretudo quando adolescente na cidade de São Paulo, onde eu morava. Novamente ela se dirigiu a mim, sempre sentada, como se estivesse sempre pronta a sair pra fazer compras ou ir a um shopping center elegante tanto quanto ela o foi fisicamente no passado. Na cidade de São Paulo, morou nos anos cinquenta do século passado. Saíra do Piauí para passar uns tempos com um tio, que exercia funções importantes no governo paulista.
Naquela época, o tio residia no centro de São Paulo. Morava numa casa majestosa, com jardins e um pequeno chafariz jorrando água da boquinha de um anjo de chumbo. Belíssimo jardim bem cuidado tal como aqueles lindos e floridos jardins que encontramos na Inglaterra e na Escócia. Nela havia três bancos para a família conversar nas tardes dos sábados paulistanos. Jardim grande, com um coreto, à noite, sempre iluminado e com aqueles pequenos postes de iluminação espalhados nos quatro cantos. O seu tio, bonachão, sempre a deixava à vontade. Estudava numa escola conhecida pela sua educação com forte influência francesa. Por isso, ela sabia falar bem francês. Amava os romances de M. Delly, os poemas de Lamartine, de Musset, quase todos os românticos franceses. Seus passeios, seus namorados, sua íntima vontade de ser atriz. Voz bela possuía, assim como o rosto meio quadrado e os cabelos negros um pouco encaracolados, o corpo bem torneado, com aqueles volumes que nos lembram a arquitetura de Oscar Niemeyer.
Mas, os sonhos não se realizaram. Voltou pro Piauí, para sua Teresina. Lá casaria. Tornou-se funcionária pública do Estado, no Tribunal de Justiça. Aposentara-se.
Eu já me ia despedir quando ela me perguntou:
- Como está São Paulo?
- São Paulo está completamente diferente, acrescentei. Vida agitada, violência, trânsito sempre pesado. Ninguém aguenta. Ela, por sua vez, não deu importância ao que dissera e me veio com a mesma pergunta:
- Como está São Paulo? Aquela rua em que morei. Ah, aquela rua... Quanta alegria vivi naquela rua ! E me perguntou outra vez:
- Como está São Paulo? A Helena está bem? Helena é minha mulher e só usou o nome dela porque pouco antes havia eu mencionado o nome de minha mulher, pois as duas foram, apesar da diferença de idade, boas amigas.Não satisfeita ainda perguntou:
- Você está vendo ele? Como é o seu nome mesmo? São Paulo, com está São Paulo?
- Meu nome é Paulo Cardoso. Sua amiga Helena vai bem, e lhe mandou muitos abraços. Está com saudades de você. Ao que, antes de lhe dizer adeus, por fim interpelou:
- Como é seu nome? Olhe o retrato dele. Veja como está bem, e me apontou com o indicador um tanto trêmulo. Daquela casa bela e velha, já sem a alma da alegria me despedi despedaçado por dentro.