quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Fernando Pessoa: "Sonnets V"

FERNANDO PESSOA: “SONNET V’

Cunha e Silva Filho

Volto, leitor, aos “English sonnets,” desta vez com a tradução do “Sonnet V. ” Veja abaixo:


Sonnet V
HOW CAN I THINK, or edge my thoughts to action,
When the miserly press of each day’s need
Aches to a narrowness of spilled distraction
My soul appalled at the world’s work time-greed?
How can I pause my thoughts upon the task
My soul was born to think that it must do
When every moment has a thought to ask
To fit the immediate craving of its cue?
The coin I’d heap for marrying my Muse
And build our home i’th’ greater Time—to-be
Becomes dissolved by needs of each day’s use
And I feel beggared of infinity,
Like a true-Christina sinner, each day flesh-driven
By his own to forfeit his wished heaven.
Soneto V
COMO PENSAR POSSO, ou em ação meu pensamento transformar
Se a pressão mesquinha da diária necessidade
Anseia pela carência de maiores distrações
E minh’alma se assusta com a avidez do tempo de trabalho do mundo?
Como interromper posso sobre as minhas obrigações meus pensamentos
Quando minh’alma nasceu com o pensamento de realizá-las
Quando, a todo instante, a questionar tem um pensamento
A fim de se ajustar ao anelo imediato de sua sugestão?
As moedas que acumularia para minha Musa desposar
E nosso lar formar num Amanhã mais grandioso
Se tornam nulas com as necessidades do seu diário uso
Assim, me sinto na orfandade da infinitude
Qual pecador, autêntico cristão, a cada dia da carne escravo
Em face de, pelo próprio ato, no céu perder, por castigo, a desejada vez.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Planos de leituras

PLANOS DE LEITURAS


Cunha e Silva Filho


Leitor, você não pode comparar o nosso tempo, que vive sob o signo da urgência, com o tempo do século 19 ou até mesmo o das primeiras décadas do século passado ou de todo os séculos que remontam à descoberta da imprensa pelo alemão Joahnnes Gutemberg ( c. 1390-1468), embora você me possa responder com justificativas indefensáveis que, em qualquer fase da história da humanidade, somos nós que fazemos os nossos horários, os nossos esquemas e planos de leitura, porque, afinal, este artigo tem como núcleo temático ou provocativo a leitura ou a falta dela e suas consequências danosas.
Agripino Grieco (1888-1973), o temível crítico impressionista, famoso até por ter morado no subúrbio do Méier, que é atravessado pela antiga Estrada de Ferro Central do Brasil, afirmara num dos seus livros, ou artigo, não me lembro bem onde, que Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde, 1893-1983)) – outro crítico grandioso, de orientação expressionista, do Modernismo, era daquele tipo de escritor que, toda a manhã, praticava uma ginástica intelectual que se lhe tornara hábito e que consistia em dedicar aquele período do dia a intensas leituras, seja de escritores brasileiros, seja dos bons autores estrangeiros, que lia no original. Era o que se chama de leitor compulsivo, lia intensa e extensivamente. Há outros escritores brasileiros devoradores de livros, sacrificando até horas de descanso para poderem dar conta da leitura de tantos volumes. Confesso que não estou na lista desses leitores contumazes. Leio muito, mas dentro de uma normalidade, sem desesperos nem compulsões. Entretanto, admiro quem o é. Sou mesmo um grande adiador de leituras, o que é um defeito. Mas, vou ver se me corrijo desse defeito. Não se pense, no entanto, que sou um leitor indolente, pois costumo retomar as leituras já encaminhadas e as concluo rigorosamente.
A quantidade de livros que saem a cada semana e os lançamentos estão aí pra provar -, é imensa. Basta contabilizar cada caderno semanal de literatura nos jornais que ainda felizmente encontram umas poucas páginas para uso exclusivo de publicar resenhas, entrevistas, crônicas e notícias sobre o que estão publicando no país para concluirmos que o número é assustador. Impressiona o volume de novos livros, nos diversos gêneros, que são colocados ao repertório do leitor.
Imagine-se o que pensariam aqueles dois críticos antigos se hoje fossem vivos. Livros por toda a parte, de todos os tamanhos, de todos os gêneros, livros para todos os gostos, até para a falta de gosto. Não importa. Cada um que se imagina autor lá vai preparando seu volumezinho ou mesmo seu calhamaço, e haja publicações, e haja impressora! Pouco importa a qualidade. A falta de autores virou excesso de autores que, por sua vez, redundou em carência de leitores. Escreve-se mais do que se lê.
Não deixa de ser fascinante um estudo que relatasse o que está acontecendo com a vida editorial no país. Daria uma ótima pesquisa de campo, quiçá uma dissertação ou tese que fossem levantar dados refletindo a realidade do universo da história dos livros, que examinasse a imensa quantidade de livros impressos e sua contrapartida, a história dos leitores desses livros.
Um exposição do percurso do livro desde a saída das oficinas impressoras até chegar às mãos do leitor. Isso sem se falar dos estudos de estética de recepção, e de outras campos de investigação literária dos nossos tempos.
A par disso, há ainda a concorrência assombrosa da internet, através dos blogs, dos e-books, das grandes bibliotecas virtuais, espaços gigantescos que chegam mesmo a atordoar o leitor perplexo diante de tanta massa de textos que se lhes colocam à disposição, bastando para isso dominar um pouco o uso do computador. Ultimamente, li de um jornalista ou escritor, ou crítico, não sei ao certo, que ninguém lê blogueiros, que estes escrevem para si próprios. Não concordo com ele. Sua crítica não deixa de ser um tanto cáustica e, por vezes, injusta. Há blogueiros e blogueiros, como há bons autores impressos e péssimos autores impressos e ainda há autores ruins que, não sei por que motivos, em escala mundial, vendem milhões de livros. Me tornei blogueiro, em razão de uma vantagem que eles têm : o espaço amplo, ilimitado que os jornais não nos permitem ter, já que o espaço no jornal é muito caro. O grande problema do blogueiro é que sua visibillidade demora para surgir. É preciso que sejam bem habilidosos e consigam ampliar o leque de leitores que o irão acompanhar e lhe serem fiéis. Dado esse passo, o blogueiro se tornará respeitado e até pode alcançar um grande número de leitores. Porém, é preciso que seu texto seja honesto intelectualmente falando, além de ter que ser atraente.
Me desculpe, leitor, se fugi do tema central do artigo, pois falei no início de plano de leitura. Entendo por plano de leitura aquela situação do leitor que, tendo de fazer leituras de autores-chave não o fizeram ainda por diversos motivos: falta de organização, falta de recursos financeiros para a compra do livro, falta de tempo, indisposição física ou psicológica, doença etc.Há ainda o fato de que são tantos os autores de importância ainda não lidos que o leitor em falta fica receoso de não ter tempo suficiente de vida para realizar tais leituras, o que lhe causará frustração. Por isso, vejo como um gesto lindo de leitor compulsivo o do professor e escritor piauiense M. .Paulo Nunes, que, de vez em quando, diz em artigos de jornais ou mesmo em livros: “Leitor, antes de morrer, não deixe de ler estes autores ”.
Um plano de leitura convém fazer-se, ainda que algumas vezes, por uma impossibilidade ou outra, não possamos cumpri-lo na íntegra. Uma regra última: afastem de si, leitor, o fantasma do adiamento. Não somos eternos

domingo, 11 de outubro de 2009

Uma poeta (ou poetisa) de Curitiba:Roza de Oliveira

Uma poeta (ou poetisa) de Curitiba: Roza de Oliveira


Cunha e Silva Filho


Leitor, dessa vez esta coluna pede um espaço para uma referência a uma escritora, a Roza de Oliveira, que conheci, faz pouco tempo, numa viagem do Rio de Janeiro a Curitiba. Ela estava acompanhada de seu esposo, Julio Enrique Gómez, um argentino com coração de brasileiro, virtuose da música, pianista talentoso. Os dois formam um tipo de casamento que eu diria perfeito, não só porque essas duas criaturas se harmonizam no amor, mas sobretudo porque são almas gêmeas dedicadas às duas espécies de arte já mencionadas.
Roza foi professora de literatura, fez mestrado em literatura brasileira, defendendo uma dissertação sobre a poesia de Tasso da Silveira, de título As imagens do ar nos poemas de Tasso da Silveira, em 1988, na Universidade Federal de Santa Catarina, posteriormente publicada em livro pela Secretaria de Estado de Cultura do Paraná em 2001.157 p.
Roza não é paranaense, pois nasceu em Santo Antônio de Pádua, estado do Rio de Janeiro. Aos sete anos, sua família foi para o Paraná. Seus estudos primários e secundários fez em Paranavaí. Graduou-se em Letras pela Faculdade de Filosofia e Letras de Paranavaí. Foi professora desde a adolescência .Em 1979, transferiu-se para Curitiba. Em seguida, a partir de 1996, foi lecionar na Universidade Tuiuti.
Roza de Oliveira, antes de mais nada, é visceralmente poeta, sobretudo distinguindo-se como trovadora e declamadora de mérito indiscutível, além de ter dado importante contribuição ao ensaio literário, à ficção infantil(contos), entre outros gêneros. Roza me dá a impressão de que é uma artista da poesia totalmente envolvida com sua arte. Tem belíssima voz e sabe declamar como poucos. Além disso, é dotada de uma extraordinária memória, que a auxilias muito como declamadora. Conversando com ela, no aconchego do lar do casal, pude verificar o quanto Roza significa como artista do verso. Improvisadora, parece ter aquele talento que só encontramos em grandes repentistas do cordel. Erudita no conhecimento teórico da arte poética, amante das grandes vozes da poesia brasileira independentemente de estilos de época, Roza nos surpreende com a sua versatilidade, com o seu convívio íntimo com a poesia.
Escritora querida entre seus pares, respeitada em todo o estado do Paraná, Roza vai, assim, espalhando poesia por toda a parte, em eventos, em palestras, em conferências. O mais belo nisso tudo é que ela está sempre ao lado de Julio, trabalhando em conjunto. Ele,, ao piano, ela, declamando poesias de grandes poetas e dela própria. Ativos ambos, viajam muito, sempre e sem pré fazendo apresentações lítero-musicais e com sucesso.
Uma vez, perguntei à Roza se ela declamava qualquer grande poeta, seja nacional, seja de outros países. Ela me respondeu que só gosta de declamar o poema que a emociona. Nisto, a meu ver, se revela como uma poeta seletiva e cuidadosa com a sua sensibilidade e critério estéticos.
Roza merece estudos mais desenvolvidos tanto com respeito à sua produção poética , que é considerável, quanto com respeito às sua publicações ensaísticas.
A escritora é Presidente da Academia Paranaense da Poesia. Pertence à Academia Sul Brasileira de Letras, à Academia de Letras José Alencar, à Academia Feminina de Letras, ao Círculo de Estudos Bandeirantes, ao Centro de Leras do Paraná e à UBT.
A propósito do lançamento que hoje, fiz do meu livro Breve introdução ao curso de Letras: uma orientação (Rio e Janeiro: Editora Quártica, 2009, 120), Roza me mimoseou (reconheço que o termo é um tanto antigo) com as seguintes trovas, todas dedicadas àquele evento e, com isso, quero homenageá-la nesta coluna, em retribuição ao seu gesto elegante e carinhoso:


ALGUMAS TROVAS PARA A TUA TARDE DE AUTÓGRAFOS

Roza de Oliveira

Que a luz de Deus te ilumine
neste sagrado momento.
Que o livro a todos fascine
na tarde do lançamento.
*

Que a luz de Deus seja o norte
em todo e qualquer momento.
Que o teu livro brlhe forte
na tarde do lançamento.
*

Que a luz de Deus, majestosa,
exponha o livro ao sedento.
Desejam o Júlio e a Roza
na tarde do lançamento.

Um poema de Longfellow

Um poema de Longflellow


Cunha e Silva Filho


Em 1969, publiquei , em jornal de Teresina, uma artigo com título “Incompreensão dos Moços,” que nascera da indignação minha contra uma crítica que um colega universitário do Rio de Janeiro fizera contra um crítico literário a quem admirava muito.. Não me lembro, agora, exatamente do crítico. Mas, era um crítico da velha guarda, talvez Agripino Grieco (1888-1973) não sei. Só sei que, me colocando em defesa dos velhos, soubera que o grande cronista, professor, jornalista e escritor A. Tito Filho (1924-1992) havia feito elogios ao meu artigo para um amigo de papai. Meu pai, por sua vez, me transmitira a referência do meu ex-professor do Liceu Piauiense.Ora, são trinta anos que se foram desde a publicação daquele artigo. O elogio da velhice conheceu, na literatura norte-americana, um grande intérprete, o poeta Henry Wadsworth Longfellow (1807-1882), através do belíssimo poema ‘Morituri, salutamos”. No meu artigo, além de fazer o elogio à velhice digna e produtiva, aproveitei para fazer uma tradução livre desse poema que, com algumas melhorias da antiga tradução, aqui reproduzo, leitor, na sua forma bilíngüe.
Henry Wadsworth Longfellow pertenceu, no século 19, ao grupo aristocrático de escritores chamados de “Brahmins”, sendo a maioria deles pertencente a tradicionais e ricas famílias de Boston. No geral, conforme informa Peter B. High,1 esse grupo admirava a literatura inglesa, cujos autores muitas vezes não só o influenciavam, mas eram por ele imitados literariamente. Esses escritores norte-americanos viam Boston como “o centro do pensamento americano do próprio planeta.”2 Reuniam-se num espaço chamado “Saturday Club”, e se encontravam uma vez por mês num sábado.
Os”Brahmins’ eram o alvo da admiração dos estrangeiros cultos. Do grupo faziam parte, além de Longfellow, Hawthorne, O.W. Holme, J. G. Whittier, James Russell Lowelll e os conhecidos historiadoesr Prescott e Motley. O grupo fundou uma revista, a Atlantic Monthly, que teve forte influência na vida intelectual da época em Boston, e durante pelo menos três décadas, foi a publicação de maior penetração nos Estados Unidos.3
Longfellow, durante muito tempo,foi um poeta querido e admirado e amado pelos leitores. Foi o primeiro poeta americano a viver de poesia. Seus poemas são simples na forma e até no pensamento. Seus versos diziam o que o povo comum queria ouvir de um poeta. Nada de interiorizações ou formas sofisticadas de construção poética. Veja-se como ele definia a vida: “A vida é verdadeira! A vida é séria!/E a sepultura não é seu objetivo último...”4 Entre os temas de sua poética, se encontram a perserverança, a transitoriedade da vida, a melancolia
Era otimista, direto, prático, patriota, admirador do otimismo e do trabalho árduo do seus compatriotas. da vida saudável. Os críticos lhe reprovam falta de originalidade. Mas, recorrendo a uma afirmação do ensaísta Peter B. High, Longfellow, expressava o ideal do homem comum americano daquele século.Pouco importa a crítica que se lhe fazia e tem razão High quando assinala que Longfellow sabia aproveitar o material colhido graças ao conhecimento literário que tinha de várias línguas europeias, como o alemão, o holandês, o finlandês.5 Essa culpa não se lhe pode imputar. Haja vista o caso de Shakespeare, que se aproveitara frequentemente de material fora de sua imaginação para o tornar obra-prima . Manuel Bandeira (1886-1968) foi outro poeta por vezes criticado por alguns críticos que nele alegavam falta de originalidade. Até Da Costa e Silva(1885-1950) o foi. Dessa pecha sofrem muitos poetas que, por serem demasiado cultos, produzem obra cheia de citações e alusões, as quais são por vezes mal interpretadas como carência de criatividade.
Longfellow, entre outras produções poética, deixou: Evangeline (1847); Hiawatha (1855) e The Courtship of Miles Standish (1858 ). Veja-se abaixo a tradução de “Morituri, salutamos”:

“Morituri, Salutamos”


..................Ah, nothing is tôo late
Till the tired heart shall cease to palpitate.
Cato learn ed Greek at eighty; Sophocles
Wrote his grand Oedipus, ad Simonides
Bore off the prize from his compeers,
When each had numbered more than foourscore years, --
And Teophrastus, at fourscore and ten,
Had but begun his “Characters of Men”.
Chaucer, at Woodstock with the nightingales,
At sixty wrote the Canterburt Tales;
Goethe at Weimar, toiling to the last
Completed Faust when eihty years were past.
These arae indeeed exceptions; but the show
How far the gulf stream
Of your youth may flow
Into the Artic regions of our lives,
Where little else than life itself survivees.
Whatever poet, orator, or sage
May say of it, old age is still old age.
It is the waning, not the crescent moon;
The dusk of evening, not the blaze of noon;
It is not strength, but weakness; not desire
But the surcease; not thr fierce heat of fire,
The burning and consuming element,
But that of ashes and of embers spent,
In which some living sparks we still discern,
Enough to warm, but not enough to burn.
What then? Shall we sit idly down and say
“The night hath come, it is no longer day”?
The night hath not yet come; we are not quite
Cut off from labor by the failing light;
Something remains for us to do or dare;
Even the oldest tree some fruit may bear;
Not Oedipus Coloneus, or Greek Ode,
Or tales of pilgrims that one morning rode
Out of the gateway of the Tabvord Inn.
But other somehting , would we but begin;
For age is opportunity no less
Than youth itself in another dress,
And as the evening twilight fades away
The sky is filled with stars, invisible by day.6



“Morituri Salutamos”

................. Ah, nada é tarde demais
Até que o coração, cansado, cesse de pulsar.
Aos oitenta anos Catão grego aprendeu; Sófocles
Escreveu seu Édipo e Simônides
Conquistaram a admiração de seus pares
Quando ambos contavam mais de oitenta anos;
E Teofrasto, nonagenário,
Havia iniciado seu Caracteres dos Homens
Chaucer, em Woodstock, junto aos seus rouxinóis,
Escreveu, sexagenário, os Contos de Canterbury;
Em Weimer, Goethe, mourejando até ao derradeiro instante,
Concluiu o Fausto quando passadas oitenta primaveras.
Sem dúvida, são exceções; porem, provam
Até que ponto se prolonga o fluxo criativo na juventude
Em direções às regiões árticas de nossas vidas,
Nas quais pouco mais sobrevive do que a própria vida.
Seja qual for o poeta, orador ou sábio
Que sobre ela fale, a velhice é ainda a velhice.
Não é ela a lua crescente, mas a decrescente;
Não é o brilho do meio-dia, mas o crepúsculo da tarde;
Não a força, mas a fragilidade; não o desejo,
Mas a cessação; não o calor medonho do fogo,
O elemento candente e devastador,
Mas aquele consumido pelas cinzas e brasas,
Por entre as quais algumas fagulhas persistem visíveis,
Suficientes ainda para aquecer, porém incapazes de queimar.
O que, então, fazer-se? Devemos sentar-nos indolentemente e dizer:
“A noite chegou, o dia já se foi?”
A noite está chegando; não estamos ainda
Ao cair da noite desobrigados do trabalho
Alguma coisa nos resta para fazer ou ousar;
Até mesmo a árvore mais velha algum fruto pode dar.
Não é o Édipo Coloneus, ou a Ode grega,
Ou os contos dos peregrinos que, certa manhã, saíram
Pelos portões da Estalagem do Tabardo,
Porém, outras coisas mais que mal havíamos começado;
Porquanto a velhice é oportunidade não menor
Do que a juventude com roupa diferente.
E, à proporção que a tarde vai morrendo,
O firmamento se nos desvela prenhe de estrelas, invisíveis à luz do dia.


NOTAS:

1HIGH, Peter B. An outline of American literature. New York: Longman, 2002, p.61.
2 Idem, ibidem.
3 Idem, p.62.
4 Idem, p.59.
5 Idem , p.61. Para outros dados contidos neste artigo, consultar também SKIPP, Francis E. American literature. Barron’s EZ-101 study keys. Hauppage, New York: Barrons’s Educational Series Inc., 1992, p. P.34.
6 O poema “Morituri Salutamos” foi extraído da obra de SCHORSSKE, Geoçre. The new applied English grammmar. 2nd vol. Porto Alegre: Edição da Livraria do Globo, 1942. Outlines of English literature.(Fifth Part), p. 245-246.

Geografias literárias

Geografias literárias


Cunha e Silva Filho


A idéia é auspiciosa, essa de se levar a bom termo pesquisas interdisciplinares envolvendo a geografia, a estatística, a literatura e a historia.
A idéia partiu de geógrafos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), todos eles já familiarizados com trabalhos de campo por várias regiões brasileiras. O objetivo da pesquisa se concentra, agora, no levantamento de dados históricos e geográficos partindo da leitura de escritores brasileiros, antigos e modernos.
Interligar a geografia à literatura brasileira como instrumental complementar dos dados estatísticos e históricos oferece-se, assim, como um novo filão nos estudos literários que só enriquecerão a pesquisa no campo da literatura brasileira.
A idéia dessa forma de pesquisa não é nova nem original, pois, ao que tudo indica, ela se inspira nos trabalhos pioneiros do ensaísta italiano Franco Moretii, que já vinha imprimindo a marca de suas investigações nos estudos de literatura servindo-se do arsenal interdisciplinar das disciplinas geografia, teoria da evolução e história quantitativa.
Os pesquisadores do IBGE almejam traçar um Atlas das Representações Literárias de Regiões Brasileiras. Escritores brasileiros como José de Alencar ( um autor de talento indiscutível, mas discutível no seu “imaginário geográfico” de fundo romântico de um Brasil que, em parte, segundo se sabe, não conhecia in loco), Guimarães Rosa, Ariano Suassuna, Coelho Neto, Dinah Silveira de Queiroz já foram contemplados pelos volumes concluídos.
Torcemos para que, mais uma vez, ao abordarem na pesquisa a região nordeste, não se esqueçam de escritores piauienses que, por suas características locais e de validade literária, bem poderiam se enquadrar no escopo dessas pesquisas. No exemplo da geografia literária do Piauí, creio que não faltará interesse por autores tais como Francisco Gil Castelo Branco, Bugyga Brito, Fontes Ipiapina, Abdias Neves (Um manicaca,1909), Alvina Gameiro, Artur Passos, Permínio Ásfora Magalhães da Costa, Assis Brasil, William Palha Dias, Afonso Ligório Pires de Carvalho, O. G. Rego de Carvalho, Humberto Guimarães, Chico Miguel de Moura, Adrião Neto, Oton Lustosa, José Ribamar Garcia e outros autores que não me chegaram ao conhecimento.
A divisão do trabalho de pesquisa feito pelos estudiosos do IBGE, auxiliados por informações colhidas em especialistas de literatura e história, levou em conta a “ocupação do território brasileiro: Costa, Sertão, Brasil Meridional e Amazônia.” (Cf. Carolina Leal, “A literatura brasileira, enfim, está no mapa”, Jornal do Brasil, Caderno Ideias, 01/08/09).
Acredito que, em algumas situações, não só caberiam autores de ficção, mas também alguns poetas brasileiros com obras bem coladas à geografia brasileira e que bem poderiam ampliar o leque das pesquisas do IBGE. O “espaço” poético, bem diverso do tratamento do “espaço” trabalhado pelos ficcionistas, apresentaria também, a meu ver, inegáveis subsídios ao “conhecimento humano” dentro dos parâmetros de pesquisas que poderiam ser empreendidas pelos trabalhos desses geógrafos brasileiros.
Se a geografia como ciência se concentra no estudo do espaço físico da região, de sua topografia, clima, flora, fauna, ser humano, costumes, usos, cultura, folclore e manifestações artísticas, a importância desse Atlas Literário ganha ainda maior vigor quando aliada às inúmeras investigações, no campo da teoria literária contemporânea, dedicadas aos estudos da espacialidade da obra ficcional, espacialidade esta que não se cinge apenas à physis brasileira mas também à psiquê humana. Essa categoria literária tem muito a oferecer aos pesquisadores.
Aguardamos, pois, que o Atlas das Representações Literárias de Regiões Brasileiras não olvide os contributos que autores piauienses, antigos e novos, podem propiciar a esse novo campo de investigação literária.

O sinal das águas

OS SINAIS DAS ÁGUAS


Cunha e Silva Filho


Creio que o leitor já o tenha percebido. Hoje, mais do que no passado, as águas nos invadem impiedosamente e com elas vão levando todo pela frente, sujeiras, objetos, carros, pedaços de árvores, numa fúria sem precedentes. Sua fúria, porém, não se contenta só com isso. Vai mais longe na sua devastação inconsciente e aí é que se vem se tornando a tragédia dos campos, da periferias pobres e das áreas nobres. A fúria das águas tem se mostrado um grave problema comum a todos os níveis de vida, pois até destrói palacetes e invade as principais avenidas, das cidades pequenas e das grandes urbes, dos barracos das encostas até os prédios de luxo.
A fúria derruba tudo que encontra como obstáculo: invade casas, desmorona paredes, muros, casas, inundando tudo e todos. Sua força não conhece limites, sobretudo quando vira tragédia ceifando vidas humanas sem dó nem piedade, trazendo prejuízos ao comércio, à indústria, à vida normal das cidades e da as população.
Com os meios avançados de comunicação, somos informados de que a violência das águas não se confina a um estado do país. Não, o fenômenos das enchentes violentas tomou conta de todos os continentes habitáveis. Globalizou-se, para usar essa palavra tão cara aos amigos do livre mercado. A devastação das águas aumenta substancialmente quando vem em forma de tsunamis, dessas assustadoras ondas gigantescas lembrando os tempos bíblicos de Noé e sua Arca.
O que temos visto no noticiário das diversas mídias causa calafrios, sobretudo em países asiáticos já de si assolados por frequentes terremotos em níveis máximos na escala Richter. Parte da Terra tem sido sistematicamente castigada por esses acts of God, por essas ações perversas da natureza, vitimando milhares de pessoas, destruindo povoados, cidades, ilhas, como se fossem formas de punição divina infligida aos terráqueos. A expressão inglesa atrás mencionada nem apropriada é porque deixa visível a acepção de perversidade associada ao nome do Criador. Contudo, convém assinalar, aquela associação apenas é aparentemente contraditória, porque os desastres que ocorrem no planeta Terra sempre existiram, mas em níveis não tão severos e freqüentes quanto em nossos tempos pós-modernos.
Aí, então, é que cabe invocar as razões científicas de causa e efeito. As águas que despencam sem misericórdia das nuvens ou que, em forma de tsunamis, arrasam as cidades e os campos, de certa maneira podem ser explicadas pelas mudanças climáticas deflagradas pelo conhecido efeito estufa, ou seja, pelo aquecimento da temperatura do nosso planeta. E tal aquecimento não e gratuito, não vem sponte sua. Sua causa são as mãos do homem, ou melhor, das suas ações com efeitos destruidores. Portanto, sua causa é cultural e envolve outros componentes, em especial de ordem econômico-financeira. Vamos encontrar suas raízes na sociedade super-industrializada, exigente em sua voracidade de produtividade a todo custo, estimuladora do consumismo desenfreado com reverberações danosas atingindo todos os níveis sociais neste reino encantado do deus-consumo, do deus-luxo, do deus-individualismo, do deus-egoísmo, dos objetos e seres descartáveis, anulando quase por completo as relações humanas verdadeiras e sólidas. Mundo de países que não têm cumprido acordos internacionais de combate à poluição no planeta, que viram as costas para os perniciosos efeitos das emissões de gases, desse vilão do clima que é o CO2. O pior é que alguns desses países, entre os quais os Estados Unidos, têm reiteradamente, em particular durante a era Bush filho, se negado a assinar acordos internacionais de redução nas emissões de gases, mesmo a longo prazo.
Reuniões recentes das Nações Unidas têm sido improdutivas no sentido de chegarem a acordos com objetivos de diminuir a poluição no planeta. Alguns países são refratários à reduções mais drásticas das emissões de gases causadores do crescimento do efeito estufa.
Países que agem assim estão preparando fogo para a sua própria destruição. On ne badine pas avec la Nature, parafraseando uma antiga frase lida na minha juventude,. e principalmente com as águas provindas do derretimento das geleiras polares que, a pouco e pouco, vão aumentando o nível do volume das águas oceânicas.
Em dezembro próximo, vai haver encontro das Nações Unidas em Copenhague.Recorde-se que, após 2012, deverão vigorar novas metas de redução das emissões de gases poluidores, a serem obedecidas sobretudo, creio eu, por parte dos países mais ricos, ocasião na qual vencerá o “primeiro período de compromisso” do Protocolo de Quioto.
Desnecessário afirmar que esses compromisso entre nações desenvolvidas e as em desenvolvimentos, como o Brasil, China e Índia, envolvem interesses cruciais (leia-se econômicos) a fim de chegarem a conclusões plausíveis. Nosso representante, embaixador Luis Alberto Figueiredo, teme até a possibilidade de alguns países desejarem acabar com aquele Protocolo, abrindo uma vazio lamentável e perigoso no enfrentamento da questão climática mundial. Isso seria um contrassenso e até mesmo uma pretensão criminosa de países que pensarem dessa forma.
O que está em jogo é o destino de nosso planeta. Os governos que jogarem contra a solução dessa questão vital para a saúde do planeta deveriam ser punidos por instâncias internacionais competentes. Até agora são muito tímidas as porcentagens, se confrontadas com as recomendações do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), de redução de gases poluidores. Dever-se-ia criar uma espécie de Corte de Justiça Internacional para defender com firmeza e isenção as condições climáticas já em níveis de alerta. Tal instância de defesa não poderia abrir mão de medidas permanentes que de fato proíbam nações infratoras de acordos internacionais sobre condições climáticas. Nações irresponsáveis põem em risco a segurança a Terra - planeta que pertence a todos nós e não apenas ditos aos países ricos.
O sinal das águas já se faz notar entre as nações. Não será por falta de avisos dos homens de boa vontade aos poderosos grupos dos ricos, mortais eles também. Fatores econômico-financeiros não devem, por conseguinte, sobrepor-se ao sinal das águas.

Tradução de um poema de Charles Lamb

Tradução de um poema de Charles Lamb


Cunha e Silva Filho


Charles Lamb (1775-1834), como poeta, não seguiu nenhum movimento literário, nem ninguém e, de acordo com George Schorske,* não conheceu nenhum seguidor. Acrescenta o mesmo autor, Lamb foi único. Além de poeta, notabilizou-se como romancista e ensaísta.
Londrino da gema, Lamb, dos oito aos quinze anos, teve, no Christ Hospital, como colega escolar Samuel Taylor Coleridge(1772-1834). Foi empregado em escritório de contabilidade, o India House, até 1825.
Com Coleridge se uniu para escrever sonetos para o “Morning Post”. Fez, depois, amizade com Robert Southey (1774-1843). Tempos depois, deu a lume um breve e “patético” conto em prosa, Rosamond Gray , no qual faz alusões a um aspecto biográfico triste que rondou a sua família, a loucura a tal ponto que sua irmã mais velha, Mary, num dos muitos surtos de loucura, terminou por matar a própria mãe, apunhalando-a. Entretanto, Mary, quando lúcida, colaborou com ele na elaboração dos seus Tales founded on the plays of Shakespeare (1807). Nesse trabalho conjunto, a irmã cuidava das comédias e Lamb, das tragédias. Essa obra tornou-o respeitado e estimado.
No ano seguinte, Lamb publicou um livro de ensaios insuperável contendo observações críticas de vulto, Specimens of English dramatic poets. Editou ainda Poetry for children, em colaboração com a sua irmã Mary. Uma década depois, apareceram Works em dois volumes.
Àquela altura, Lamb deu como encerrada sua carreira literária, Todavia, animado pela “London Magazine”, ainda escreveu uma série de outros ensaios, tendo por título Essays of Elia, obra com a qual sua reputação literária atingiu seu ponto mais alto.
Em 1833, conseguiu reunir sua melhor produção em prosa. Sob o título The last essays of Elia. Foi essa obra o seu “canto de cisne”, segundo assinalou o citado Schorske. O poeta Robert Southey dele afirmou: “ Lamb foi um homem bom de quem me lembro com ternura.”
O poema que você, leitor, ira ler, em tradução bilíngue, explora o tema do “ubi sunt?”, tema encontradiço em muitos poetas de diversas épocas e países, como, entre nós, em Manuel Bandeira, Da Costa e Silva e outros. Veja-o abaixo:


The old familiar faces


I have had playmates, I have had companions
In my days of childhood, in my joyful schoool-days;
All, all are gorne, thee old familar faces.

I have been laughing, I have been carousing,
Drinking late, sitting late, with my bosom coronies;
All, all are gone, the old familiar faces.

I loved a Love once, fairest among women:
Closed are her doors on me, I must not see her –
All, all are gone, the old familiar faces.

I have a friend, a kinder friend has no man;
Like an ingrate, I left my friend abruptly;
Left him, to muse on the old familiar faces.

Ghost-lide I paced the haunts of my childhood,
Earth seem’d a desert i was bound to traverse,
Seeking to find the old familiar faces.

Friend of my bvosom, thou more than a brother,
Why wert thou born in my father’s dwelling?
So might we talk of the old familiar faces.

How some have died, and some they have left me,
And some are taken from me; all are departed:
All, all are gone, the old familiar faces.


Os velhos rostos conhecidos

Amigos tive de folguedos, companheiros tive
Nos dias da minha infância, nos meus alegres dias de escola;
Todos se foram, os velhos rostos conhecidos.

Muitas risadas, tantas farras homéricas.
Libações noturnas, varando madrugadas, com os meus velhos amigos do peito;
Todos, sem exceção, se foram, meus velhos rostos conhecidos.

Certo dia, o Amor bateu-me à porta. Era a mais bela mulher:
Vê-la mais não devo, suas portas se me fecharam –
Todos se foram, todos, meus velhos rostos conhecidos.

Um amigo tenho, igual não há;
Ingrato, irrefletidamente, o abandonei;
Sim, abandonei-o só para meditar sobre os velhos rostos conhecidos.

Qual fantasma, percorri os lugares de minha infância,
Um deserto a Terra se me afigurava, cuja travessia cumpria fazer,
Procurando encontrar os meus velhos rostos conhecidos.

Amigo de verdade, tu vales mais do que um irmão,
Por que, no seio da minha família, não nasceste
Para que pudéssemos falar dos velhos rostos conhecidos?

Perdi a conta dos que se tornaram eternos, alguns de mim se afastaram,
Outros me foram arrancados; todos partiram;
Sim, não sobrou um sequer dos velhos rostos conhecidos.


* As referências biobibliográficas e de história literária foram colhidas em SCHORSKE, George. The the new applied Grammar. 2º tomo. V. Parte: Esboço de literatura inglesa. Porto Alegre: Edições da Livraria do Globo, 1942, p. 203-204.