sábado, 27 de abril de 2019

A CRÍTICA DE RODAPÉ: ANTECEDENTES E OS ANOS DE APOGEU




               
 Situado entre a crônica e o noticiário, o rodapé era assinado por intelectuais que, a exemplo de Álvaro Lins, cultivavam a eloquência e a erudição com o intuito de convencer rapidamente os leitores num tom subjetivo e personalista.
                                                                  
                                                                                               CLÁUDIA NINA


               Na definição do verbete “rodapé,” o dicionário Aurélio consigna quatro acepções, uma das quais nos interessa  aos objetivos  deste capítulo, a 4, como segue: (...) 4. “A crônica, folhetim, etc. de jornal ou revista, publicação no rodapé da folha e geralmente separado do resto do texto por um filete horizontal.” [1]
               Afrânio Coutinho, o escritor que por tanto tempo  verberou contra o rodapé da imprensa nos decênios de 1940  a  1960, considerando  estas datas  sempre com  a devida flexibilidade, é justamente  um dos estudiosos brasileiros   que mais  aprofundou  a questão tanto  no jornal quanto principalmente  nos  seguintes livros: Correntes cruzadas (1953), Da crítica e da nova crítica (1957) e Crítica & críticos (1969).
               Não só  o crítico esmiuçou o assunto, mas também  procurou  situá-lo nos  termos  que, no  juízo dele,  ensejaram   esclarecimentos  isentos  de parcialidade,  ou seja   Coutinho não era  contra o rodapé em si, conquanto algumas vezes  em livro demonstrasse  sinais  de contradição, em especial quando  polemizava sobre  duas questões  que o colocavam  na defensiva  de seus  princípios  teórico-conceituais:a defesa da Nova Crítica e o combate sem trégua  contra o  Impressionismo  crítico, cuja  práxis  embutia  a questão da crítica de rodapés. Disso fez, durante  pelo menos  duas décadas um  exaustivo exercício de defesa de suas ideias  no campo  teórico.
               Empregou um artifício retórico em seus artigos, ensaios e críticos que jamais negou: a retomada de seus temas  prediletos na área da crítica  literária, da teoria literária e da historiografia  literária, mas retomada no sentido  progressivo, de alargamento  de visões  teóricas,  de aprofundamento atualizado  das questões desenvolvidas sob o signo da redundância conscientemente  usada como  estratégia  para repisar  temas e assuntos para os quais   desejava  soluções  de  mudanças   efetivas  e saneadoras  nos  estudos  de crítica literária e na pedagogia do ensino  de literatura, de que foi no país um dos maiores  doutrinadores.
              Chegou mesmo a usar uma espécie de lema de suas pesquisas e investigações, uma epígrafe extraída  de Napoleão:” A repetição é a melhor  figura de retórica.”[2] 
               No que  dizia respeito ao rodapé, foi, sim, contrário ao uso inadequado   dessa forma de  jornalismo  literário e, neste sentido,  entendia ser  ela um modo de apenas  informar  o leitor sobre livros  recém-lançados, contudo, sem intenção alguma de analisá-los em  profundidade e com pretensões de  fazer crítica literária,  a qual   era algo  a ser exercido  propriamente em livros, revistas especializadas,  na universidade, em congressos,  na cátedra, e  não  pelo  uso do espaço  do jornal, em suplementos  semanais.
               O rodapé deveria ser um texto breve,  superficial, sem aparato crítico-teórico, atividade do resenhista,   não do  critico literário, a quem caberia  a atividade de análise,  interpretação e julgamento de obras implicando disponibilidade de maior  tempo e instrumental  crítico-metodológico
              Coutinho se opunha a este exercício  de crítica, o qual,  para ele,  não passaria  de book-review do tipo  que, nos Estados Unidos, era largamente difundido  pelos jornais.   Segundo  ele, o espaço de tempo de uma semana não era suficiente para avaliar-se uma obra recém-lançada. Entretanto, acentuava, em alguns casos excepcionais  de  competência e erudição  do crítico,  era possível a judicatura  crítica  nestas condições.
               Convém, antes de tudo,   aclararmos  uma questão  que  se  tornou  controvertida  na biografia  intelectual do crítico Coutinho:   é voz corrente que ele foi  um aguerrido   inimigo da  crítica de rodapé,  período  em que  dominava  a corrente critica  conhecida pelo nome de  Impressionismo.
              Quem, todavia,  se  der ao  trabalho de  ler  os três livros de Coutinho citados linhas atrás,  verificará  que os fatos  não foram exatamente  assim. Coutinho  reprovava  o rodapé,  repetimos, daqueles     críticos sem  nenhum preparo  para o ofício de  julgar  livros. Entretanto,  não se dirigiam  suas    diatribes  contra  figuras  de reconhecida  capacidade  e erudição para o  exercício da crítica  militante. Ele não citava  nomes,  somente  generalizava suas ponderações.
               Enfatizava, ademais, a circunstância  de que escrever artigos  sérios e profundos   em  exíguo  período de  tempo, i,e, em coluna semanal, não poderia   se definir  como  crítica literária,  disciplina que requer  leitura e releitura,  paciência e metodologia combinada com  levantamento e atualização  bibliográficos, normas  técnicas de preparação  de  trabalhos  ensaísticos, técnicas de documentação,   conhecimento de edição de texto.                                      
               Comentando  historicamente  alguns acidentes por que  passou a crítica militante, “jornalística,  de folhetins  periódicos” [3] de rodapé, ou  review,  lembra Coutinho  que,  tendo-se  popularizado  a militância  crítica da França para outros países,  que passou a valer  como  “padrão da crítica,”  com o tempo, segundo  ele,   surgiram  “divisões” incontornáveis  no “sistema” sobretudo   “entre a crítica e a história literária”[4] em que a primeira  cuidaria  da produção  do presente, praticada nos  jornais, e a segunda, se ocuparia da produção  do passado,  com a denominação de erudita, historiográfica,  ensaística. Quando  do desenvolvimento  dos estudos literarios  brasileiros,  estas duas divisões, a meu ver,  corresponderiam, respectivamente,    às atuais  resenhas  e monografias, dissertações e teses  universitárias,  guardadas as proporções e as grandes  modificações sofridas no tempo
               Todavia, o próprio Coutinho  utilizou  por décadas em jornais a militância  crítica, porém  mais dirigida  a analisar  questões  teóricas de literatura,  história literária e sobretudo de crítica literária, o que levou Antonio Candido a chamá-lo de “critic’s critic.” Julgamos  que Candido teria sido   mais  exato se definisse Coutinho como  o “critic of criticism.”
               A rigor,  esta classificação  não pode ser tomada  ao pé da letra,  porquanto   Coutinho  tinha  uma  concepção de crítica muito mais ampla,  não se restringindo  apenas à militância  crítica. Ou seja, não concordava com  aqueles  que só  consideravam  crítico quem  militasse nos rodapés.
               Na realidade, sempre se cobrou do autor de A tradição afortunada  uma militância crítica, a análise, interpretação e julgamento de  livros  do momento. Mesmo no concurso  a que  se submeteu para provimento da cátedra de literatura  no Colégio  Pedro II,  um dos examinadores, Affonso Arinos de Melo Franco, indagou, em tom  de  severidade  que o momento  exigia, por que  Coutinho não passava da teoria para a prática. “não se confinasse à crítica da crítica, aplicasse sua  instrumentação à crítica  das obras de arte”[5]
               Esta posição de Coutinho  torna-se bem mais  explícita  numa  passagem  de sua  longa  introdução à obra  Correntes  cruzadas -  texto fundamental ao conhecimento do  pensamento do crítico  e do caráter combativo que imprimiria ao seus estudos do fenômeno  literário. 
               Talvez haja lugar aqui para mais uma nota  pessimista,ou ao menos de humildade: nossa  incompetência para  realizar-nos, para concretizar aquilo que idealizamos ou  visualizamos.  Falecem-nos as disciplinas, os recursos, mesmo quando não ignoramos onde estão.  As gerações como a de quem  aqui escreve, comprometidas por graves deficiências de formação e falta  de orientação, agravados  tais defeitos pelas circunstâncias locais,  é natural que se vejam peadas no realizar a operação de passagem dos princípios básicos e dos planos teóricos para o campo da prática.[6]
               Entretanto, na “Apresentação” de seu livro Crítica & críticos, pondo de lado  aquela atitude  tíbia, acima-citada, Coutinho  assume aberta e corajosamente  a sua posição quanto ao fato de  a crítica brasileira   dele estar sempre exigindo  militância  no  sentido de  analisar e julgar  livros  novos lançados  no mercado. Para  essa insistência  dos críticos,   Coutinho  dirige estas  palavras: “Afirmar  que não faço  crítica só porque não escrevo rodapés (deitados ou verticais) sobre os livros do momento é uma total deformação dos fatos.”[7]
               Em seguida, em forma de indagação ao leitor, Coutinho apresenta uma série de  atribuições  fundamentais  do papel  de um crítico que, a  despeito de  sua decisão  de não  exercer o julgamento de obras  novas,  não  estará abdicando  de sua função quando  faz a crítica da crítica,  quando especula  sobre teoria literária,   quando  planeja, organiza e edita uma história literária,  quando prepara edições de autores, quando analisa  problemas  literários e críticos.
              O que faz – se pergunta – não seria  também crítica estudar  o passado e o presente, empregando  o instrumental crítico, a erudição,  a história, a pesquisa dirigida ao passado ou ao presente? Sua assertiva é  direta e firme: “Sim,  crítica  é tudo isso,  disciplina global de análise, aferição, interpretação, compreensão do fenômeno literário.”[8]
               Nos períodos do recorte que assinalamos atrás,  houve críticos  de alto fôlego que  mantiveram  este tipo  de  atividade, quer dizer, a militância  crítica, tais como  Tristão de Athayde,  Agripino Grieco, Álvaro Lins,  Sergio Buarque  de Holanda,  Mário de Andrade,  Wilson Martins, Antonio Candido, entre  tantos outros, mais  importantes ou menos importantes  críticos  militantes de então.
               Na realidade, a ligação entre o jornal  e  o leitor e, em seguida, a convivência  entre  jornalismo e literatura,   historicamente  se inicia com  a  introdução  da imprensa no  Brasil, ou melhor com  a criação da Impressão Régia conseguida graças  à maquinaria necessária  trazida  pela Corte  portuguesa (1808), propiciando, assim,   a instalação do  primeiro  jornal  em nosso país, a Gazeta, lançado a 10 de setembro de 1808,  publicação não-oficial, conforme  afirma Massaud Moisés, que  veio  preencher um atraso  de completa ausência  de jornais e revistas durante o  período  colonial, embora,  ainda  de acordo com  Massaud Moisés,  nos anos de 1706 e 1747 e 1807 tivesse havido  “tentativas” de  implantar  tipografias no país.[9]
               A publicação daquele jornal deveu-se aos esforços de D. Rodrigo de Sousa Coutinho, Secretário dos Negócios Estrangeiros e da Guerra. Com a transferência da família real  da  Bahia  para a cidade do Rio de Janeiro (1808), o príncipe D. João VI alçou esta cidade  à dignidade de capital da monarquia lusa. Seu governo  foi  produtivo em muitos aspectos, porquanto  ainda realizou outros melhoramentos: construções de prédios,  fundação do Jardim Botânico,criação de uma fábrica de pólvora, fundação de uma academia de marinha e da Biblioteca Nacional, com  importante acervo  trazido de Portugal.[10] No passado mais remoto,   tivemos o  exemplo de José Veríssimo que,  segundo  Nelson Werneck Sodré,[11] militou intensamente na imprensa como crítico literário nos rodapés do Correio da Manhã, jornal fundado  em 1901 por Edmundo Bittencourt Era um tempo  em que  o Rio de Janeiro  imitava  as modas  francesas e até comportamentos intelectuais   da  imprensa  parisiense.
             Um exemplo referente ao mimetismo  de  atitude intelectual e de voluntária  dependência  da influência francesa da época,  é o do crítico José Veríssimo, o qual, por imitação do crítico Sainte-Beuve, cujos artigos rodapés saíam às segundas-feiras (Causeries de lundis), igualmente   publicava seus rodapés  nesse mesmo dia da semana..
 Tudo que vinha da França era motivo de encantamento e subserviência  cultural. O maior exemplo disso  é o de Olavo Bilac. O mesmo diríamos da construção da Academia brasileira de Letras, também conhecida como Petit Trianon, por imitação  arquitetônica  da Académie Française, que tem o mesmo  número de membros eleitos, ou seja,  quarenta ocupantes.
               Sodré, aludindo a esse período  de influência francesa  na cultura  brasileira, afirmava  com  razão: “Literatura e mundanismo confundiam-se, então.”[12] Ironizando ainda  este colonialismo cultural em relação à França e tendo  como  protagonista Olavo Bilac, acrescenta:

(...)  O cúmulo do prestígio estava, para quem se dava às letras, aqui, era viajar à Europa. Mais do que isso: estava em detestar o Brasil e delirar por Paris. Bilac de lá escrevia a um amigo no Rio: ‘Paris 2. Cheguei. Dormi primeira vez em meu berço. Sinto-me um recém-nascido, Vou aprender a  falar.’ Terceiro, que passava na capital francesa  largos períodos, ia longe, também: ‘Dizia gastar o quádruplo do que ganhava, fazer dívidas para seguir o exemplo de luminoso de Balzac e distrair o tédio, pois alguns julgavam também  muito chique entediar-se em Paris’ [13]

               Desde o final do século   XIX, e na maior parte do século XX, a moda do rodapé crítico  se estabelece no país e se estende aproximadamente   até os anos  1960, sendo que,   seu  ponto culminante, pelo menos  quantitativamente, pode ser  localizado nos  anos 1940, ou seja,  quando  o  Impressionismo  crítico  é duramente  questionado em seus  alicerces pelas novas correntes do pensamento  crítico  mundial no tocante aos estudos da obra literária.Este aspecto será analisado com maior  profundidade   ainda neste capitulo, nas seções 3.1 e 3.2 ao  discutirmos  a crítica de Álvaro e a de Afrânio Coutinho.
               Além do citado Veríssimo e, mesmo antes dele ou simultaneamente à sua militância em jornal, revista e livro, contamos com  notáveis  críticos e historiadores  brasileiros, no Realismo e Naturalismo  Sílvio Romero, Araripe Júnior, Machado de Assis;  no Simbolismo,  Nestor Vitor; no Pré-Modernismo,  João Ribeiro; no Modernismo, Tristão de Athayde,  Agripino Grieco,  Álvaro Lins,  Olívio Montenegro, Eugênio Gomes, Lúcia  Miguel  Pereira, Brito Broca, Augusto Meyer, Sérgio Buarque de Holanda, Astrogildo  Pereira, Sérgio Milliet, Antônio  Candido,  Wilson Martins, Temístocles  Linhares,   Afrânio Coutinho, Roberto Alvim Correa, Otto Maria Carpeaux (este de origem austríaca).           
               Em seguida, já pelos anos 1950 e 1960, novas gerações de críticos de diversos  approaches da nova crítica, servindo-nos aqui do conceito abrangente de Afrânio Coutinho, iam surgindo,  Massaud Moisés,  Fausto Cunha, M. Cavalcanti Proença, Antônio Olinto,  Hélio Pólvora,  Cassiano Nunes, Paulo Rónai (este também   estrangeiro, de origem húngara) Darcy Damasceno,  Mario Faustino,  Eduardo Portella, Cassiano Nunes,  Fábio  Lucas, Assis Brasil,   Luiz Costa Lima,  José Guilherme Merquior, Oswaldino Marques, entre muitos  outros.
               Uns e outros representam correntes do pensamento crítico da sua  época, com suas limitações  de meios e dos mais  diversos  contextos políticos, econômicos, históricos e ideológicos  enfrentados pela  história  mundial e brasileira:    Revolução  Russa (1917),  Primeira Guerra Mundial (1914-1918),  Segunda Guerra Mundial (1939-1945)  e ainda,  no país,  fundação do  Partido  Comunista, em 1922,  Semana de Arte Moderna de 1922 em São Paulo,  Revolução de 30, Estado Novo (1937-1945) os interregnos dos  períodos democráticos, ditadura  militar nos anos 1964 a 1984, redemocratização  do país, processo crescente  de industrialização e urbanização (formação de megalópoles (São Paulo e Rio de Janeiro), grande aumento populacional, êxodo rural, ascensão da classe média, fortalecimento do operariado,  entre tantos  outros  fatos  de natureza  político-social-ideológica 
              Antes mesmo do Romantismo brasileiro, é difícil pensar em literatura sem vinculá-la ao jornal, à imprensa. Basta pensar-se em Hipólito da Costa e Evaristo da Veiga,  publicistas  de grande  talento, representantes  do “liberalismo de centro” [14]  no período    do Pré-Romantismo, ambos  destinados a defender  princípios  da  liberdade, de consciência  histórica, de nosso “direitos civis,’ de “respeito a Constituição” e de desvinculação  de nossa cultura das recentes  pressões colonialista-lusas.  Ainda conforme Bosi, os dois jornalistas  inauguram  entre nós  um “molde brasileiro de prosa jornalística de ideias, não superado no século XIX.”[15] Deram inegável contribuição à cultura brasileira  com as agudas  análises políticas sobre  questões  cruciais. Hipólito da Costa focalizou  o governo de D. João VI, através  do seu  Correio Brasilense, jornal  que fundou em Londres,  onde passou grande parte de sua vida. Evaristo da Veiga abordou  questões do  Primeiro Império,  com seus escritos  estampados na Aurora Fluminense.[16]   
               Lembra ainda Bosi a contribuição de seus textos, os quais, conquanto não  tenham  diretamente   influenciado  o campo das letras, serviu enormemente para  despertar  no leitor brasileiro o interesse  ainda pouco   voltado  na época  para  a vida  política. Agiram eles,  pois,  como formadores  do  “público ledor,” o que significava um  grande passo para o amadurecimento e conscientização do público.[17]
              Nos albores do Romantismo  brasileiro, pela  imprensa   já ficara conhecida uma  polêmica travada entre Gonçalves de Magalhães e José de Alencar a propósito da  publicação  do poema  do primeiro, A Confederação dos  Tamoios,” poema indianista de feição  épica, ao qual    nos reportamos  anteriormente.
               No capítulo 2 deste estudo, comentamos o episódio da polêmica entre o poeta  Gonçalves de Magalhães e o ficcionista José de Alencar a propósito daquele  poema. Alencar fez dura crítica à elaboração estética  do   poema, o que, como vimos, deu azo à polêmica. Recordamos que a crítica de Alencar, no futuro,  lhe daria  razões sobre os  aspectos  falhos apontados   não só na sua  construção  técnico-poética como também  nas ideias acerca do elemento indígena. No que tange à polêmica “A Confederação dos Tamoios,” Afrânio Coutinho partilha das posições de Alencar reconhecendo-lhe a validade e a “justeza’ das críticas,  para ele “(..) ainda  hoje válidas, provando-se que a tentativa de Magalhães foi  malograda sob todos os pontos de mira..” [18]
               A vida literária, no passado e no presente, tem lá seus  percalços   e seus caprichos tanto no que concerne ao esquecimento de autores quanto no que respeita ao destino de um autor. O que critica é, depois, vítima   cruel de   outros   críticos, tal como  aconteceu  com Alencar  nas polêmicas entre ele e os mencionados autores  na defesa  de Magalhães, até mesmo  de além-mar, como os escritores  portugueses  Antônio Feliciano de Castilho,  Pinheiro Chagas,  do brasileiro, médico e escritor Antônio Henriques Leal, natural do Maranhão,  autor de Elocubrações (1874) além de  mais um  adversário brasileiro Franklin Távora, com  Cartas a Cincinato (1871),  subestimando  o regionalismo  ficcional de Alencar.[19]
               Praticamente, toda a fase do Romantismo  é pontuada  de  controvérsias e debates  calorosos e por vezes  hostis. É neste contexto de ambiente de vida literária  que a imprensa  tem  sua  relevância e sua  singularidade, já por   mostrar ao  público   a produção ficcional  nos  chamados folhetins dos jornais, já por ser veículo de trocas de ideias ou de controvérsias  entre  escritores.
               Se, a princípio, não havia rodapés críticos, havia os múltiplos jornais  que  estampavam  artigos,  crônicas,  notícias  culturais  a um  público  que se ia  conquistando, sobretudo os leitores de folhetins, em geral,  um publico feminino  que,  à semelhança da telenovelas   de hoje, de resto,  classificadas  por Afrânio Coutinho como um novo gênero  literario, “(...) misto do antigo folhetim, da ficção, do teatro e do cinema (...).”[20] Os nossos  folhetins, construídos sob o modelo  francês que se  popularizou no século XIX, dos quais  se destacaram os romances de Eugene Sue, com especial  atenção para  Os mistérios  de Paris, traduzidos para  várias  línguas,  eram aguardados ansiosamente pelo  publico  que  se deleitava   com  a sequência  dos  desdobramentos  de  aventuras amorosas, de lances aventureiros e  rocambolescos 
               Entre leitores brasileiros, sobretudo do sexo feminino, o mesmo ocorria, seduzidos  com a ficção  publicada em folhetim  ou em livro posteriormente, de Joaquim  Manuel de Almeida,  Joaquim Manuel de Macedo,  José de Alencar. Com eles ganhou a ficção brasileira do Romantismo foros de legítima criação literária, a despeito das diferenças  de qualidade  estética que entre esses autores   existem.
               Já com os folhetins e calhamaços de Teixeira e Sousa, injetando no espírito do leitor peripécias e destinos dos personagens, em romances com ações romanescas,  amedrontadoras  e misteriosas,  o tempo  mostrou, tanto da parte do público quanto da crítica,  a indiferença e o esquecimento, conforme esta passagem de avaliação  de Antonio Candido que, aliás,  dedicou  uma seção de boa  análise crítica, do capítulo  III sobre  o infortunado  escritor de  Cabo Frio:
  No entanto, embora a qualidade literária seja realmente de terceira plana, é considerável a sua  importância histórica, menos  por lhe caber até nova ordem a prioridade na cronologia do nosso romance, (não da nossa ficção), do que por representar, no Brasil, maciçamente o aspecto que se convencionou chamar  folhetinesco do Romantismo Ele o representa, co m efeito, em todos os traços de forma e conteúdo, em todos os processos e convicções, nos cacoetes , ridículos,  virtudes..[21]
               
              O crítico e historiador da vida literária  brasileira, Brito Broca, autor, de resto,  já citado,  na sua  indispensável obra, A vida literária  no Brasil – 1900,  inesgotável fonte de pesquisa para qualquer  estudioso da literatura brasileira, realiza um levantamento  exaustivo  dos mais  importantes acontecimentos envolvendo  os bastidores  de livros e autores, modos de vida dos escritores da época,  de escritores  famosos  que visitaram o  país,  os seus  defeitos e qualidades de nossos  homens de letras, sua grandeza e sua  miséria,  suas atitudes ridículas, suas posições  e atitudes desconcertantes,  pedantes,  medíocres em alguns  casos,   seu mundanismo e beletrismo  vazios,  suas polêmicas  e desavenças em período conhecido como  Belle  Époque que, para José Guilherme Merquior  na vida cultural brasileira duraria,   “no mínimo,”  até 1930.[22]
               Não conhecemos outro livro similar que tenha retratado tão bem o homem literário de então e  propiciado ao leitor de hoje  o que de mais   relevante  foi  observado sobre  o tema. Brito Broca, que, pela segurança  do que  nos relata e analisa com  admirável  clareza,  nos dá  um magnífico testemunho do que foram aqueles  primeiros anos  da vida  literária  brasileira.
               Na obra de Afrânio Coutinho, Da crítica e  da nova crítica, [23] consideramos   de particular  relevância  ao  esclarecimento dos  pontos de vista desse crítico  e historiador o debate da crítica  de jornal, ou crítica de rodapé, que, no país,   conheceu  seu tempo áureo, dos anos  1940  a 1960,  aproximadamente,  a partir  das inovações que  se operaram  nas  práticas  da chamada Nova Crítica,  a qual em Coutinho teve   seu    principal  divulgador, doutrinário e teórico  no país.
               Para  uma das finalidades deste  capítulo, ou seja propiciar uma visão  mais ampla  da crítica de rodapé,  vale ressaltar e mesmo  reafirmar  a contribuição  daquele livro de Coutinho que de perto fala das relações entre jornalismo e literatura e, em particular,  discute dois conceitos  da prática  crítica, o da crítica militante, correspondente ao rodapé, oriunda dos franceses, sendo  Sainte-Beuve (1804-1869) seu mais  notável cultor com  os seus famosos artigos  semanais  conhecidos  como lundis, e da crítica escrita especialmente  para o livro, que  principiava a dar seus primeiros  passos e encontrou, mais tarde, o lugar  mais  propício ao seu  desenvolvimento -  a universidade - quando  no Brasil   surgiram paulatinamente   os cursos de  filosofia e   letras.
               Podemos situar como  o ponto mais  brilhante da crítica brasileira, o seu apogeu  mesmo, no Modernismo  brasileiro, tendo como  sua figura mais  respeitada  o crítico  Tristão de Athayde  que, em 1919  assumiu  a coluna de O Jornal, no Rio de Janeiro, e nele  militou  por longos anos, acompanhando  de perto  todas as transformações pelas quais  passou  a produção  literária brasileira. Polígrafo notável, de vasta cultura literária e humanística, abrangendo  vários  domínios do ser humano,  seus  estudos  sobre  o Modernismo  têm  um valor  perene se vistos  pelo  tempo em que foram  escritos e pela  atualidade de seus  conhecimentos  teóricos de literatura,  não só nacional, mas estrangeira.
               Ele próprio se definia como crítico expressionista e, no fim dos seus anos  dedicados  à literatura,  teve a humildade de afirmar  que a sua geração  era de amadores  do ofício  crítico.  
               Não era  verdade,  porque sua formação  fora  rigorosa como estudioso  de nossas letras e, ainda  por cima,  as obras  que deixou  no terreno  da crítica,  do ensaio e da história  literária, eram  obras que,  em muitos aspectos, ainda são  fontes de reflexão  profunda e original sobre  o fenômeno  literário, tais como  Afonso Arinos (1922)  sua obra de estreia,  A crítica e o crítico literário, Introdução à literatura brasileira, Quadro sintético da literatura brasileira, afora seus  números  trabalhos críticos  publicados  durante a sua   militância  na  imprensa.
.           Tendo sido também professor de literatura brasileira na PUC-Rio e na Faculdade Nacional de Filosofia da ex-Universidade do Brasil, Tristão de Athayde formou  gerações  de  ensaísta  e de pesquisadores  e, pelo  exercício da cátedra de literatura brasileira do curso de letras naquelas universidades,    foi um  exemplo  de um scholar e  grande crítico-universitário.  Sua atuação  foi  imensurável na primeira fase do Modernismo.
               Outro crítico  que  utilizou  o rodapé foi  Agripino Grieco, inclusive foi ele que substituiu  Tristão de Athayde em O Jornal.  Grieco, autodidata, ganhou renome como  crítico,   autêntico  bookworm e, por seus dotes intelectuais e  competência,   pertenceu aos  quadros docentes da ex-UEG, hoje UERJ, na condição de professor de literatura  luso-brasileira. Angariou vários adversários ao longo da vida em decorrência de sua  crítica ferina sobre autores  por ele  julgados  de ínfima   qualidade.
               Atacou os medalhões da sua época, com um alvo certo e mordaz contra  membros da Academia   Brasileira de Letras, conforme se vê na sua  obra Zeros  à esquerda,[24] de leitura  recheada de humor inteligente   e de  espírito  sarcástico inigualável, em estilo  com forte empatia. 
               Deixou obra vasta sobre história da literatura brasileira. Sua abordagem crítica  era impressionista, mas de um impressionismo  revelador  de  forte vocação  para  a critica,  de um  escritor  forrado de  vastíssima leitura, um verdadeiro  depositário de fatos e curiosidades da vida literária de seu  tempo, do qual parecia um demiurgo, altamente  informado sobre  obras,  escritores e  fastos da vida literária  brasileira.
               Se sua crítica  agora nos parece ultrapassada,  o  que nos legou  da vida literária ainda  merece leitura  dos estudiosos  de hoje. Da mesma sorte, é válido também seu  profundo conhecimento de literatura universal, já que  lia  em  pelo menos,  quatro línguas modernas.
               Álvaro Lins é apontado como o último grande crítico de rodapé e, conforme    ressaltamos  neste  estudo, sua militância  crítica  concentrou-se  na segunda fase do Modernismo. Acompanhou a nossa produção literária e de outras  áreas do conhecimento  humano a  partir dos anos 1940 e sua  atividade no jornal e no livro  chega até aproximadamente o início dos  anos 1960. Se não foi o melhor dos críticos brasileiros da fase em que atuou  incansavelmente, teve a consagração  de ser talvez o mais influente de sua  época.
              A sua liderança era tão forte que uma geração  de novos críticos ,na década de 1950, através do jornal e do livro,   como  Fausto Cunha, Darcy  Damasceno, entre outros, desejaram  desbancá-lo de seu pedestal. Era, nessa época que  aqueles  jovens críticos  se aliaram de certa  forma  ao combate que lhe vinha dando   Afrânio Coutinho.
               Lins, consoante tantas vezes temos acentuado neste  estudo, constituía  o grupo de críticos  rotulados de impressionista, no caso dele, de um  crítico  de formação  intelectual   haurida  em amplas  leituras  de Sainte-Beuve, de Anatole  France, do que de melhor  havia  no domínio francês de  crítica literária. Segundo Alfredo Bosi, Lins  aliava a “percuciência  e de formas de “leituras mais próximas dos franceses pelo  “gosto de análise  psicológica e moral.”[25]
               Na sua fase de apogeu a produção  crítica  intensa e contínua de  Lins  conheceu interrupções apenas quando se afastou  de sua  atividade  no magistério como  professor  interino do Colégio  Pedro II,  e quando se afastou de sua atividade de  jornalista  político e  de crítico literário, para, em missão  oficial do   Ministério  das Relações  Exteriores,  lecionar  Estudos Brasileiros na  Faculdade  de Filosofia e Letras da Universidade de Lisboa de 1952 a 1954.  Mais uma vez se afastou do país para  se dedicar  a uma outra  função   pública, a de  embaixador do Brasil  em Lisboa de 1956 a 1959.
               Nascido em Caruaru, Pernambuco, formou-se  em direito, mas  desde bem  jovem revelava  tendência  para a  política, o magistério  e a crítica literária. Em Recife, ainda  estudante,  lecionou  história da civilização  no Ginásio do Recife. Como representante do Diretório dos Estudantes da Faculdade de Direito do Recife, na abertura do ano letivo da Faculdade,   pronunciou, aos vinte anos,  uma  conferência  sob  o título “A universidade como  escola  de homens públicos.” A conferência  causou  tão  grande impressão que  o seu nome  ficou  conhecido. Ainda em Recife, ingressou no jornalismo escrevendo para o Diário da Manhã, de 1937 a 1940.
               Tinha aspirações de ingressar na política local.  Atuou em movimentos  políticos, chegou  a ser Secretário do Governo de Pernambuco e seu nome  já estava certo para  compor  uma das chapas  de candidato a deputado  federal. A chegada do Estado Novo, em 1937, cortou-lhe a esperança da carreira política. Transfere-se para o Rio de Janeiro,  ingressa fundo no jornalismo  e dá continuidade ao  campo de atividade que lhe deu notoriedade nacional, a crítica literária. Fez logo figura  na imprensa  carioca, escrevendo para o Suplemento  Literário do Diário de Notícias e dos Diários Associados (1939-1940) assim como  tornou-se redator-chefe e dirigente  político do Correio da Manhã (1940-1956)]
               Seu Jornal de crítica  - o núcleo temático de maior  abrangência de sua  atividade crítica -  agasalha  a suma mais significativa da   militância  em rodapés. A fase da crítica de rodapé declina com o afastamento de Lins e a substituição  de novos  atores  no campo da crítica  literária, do ensaio, da teoria, i.e., o “bastão”  do  Impressionismo  foi substituído, não sem  grandes  resistências  dos  principais  críticos  ditos  impressionistas, por novas correntes da crítica literária mundial, ou seja, entre elas a Nova Crítica. Já entrávamos na era  da convivência,  não diríamos  pacífica,  de  novas mentalidades de críticos que despontavam a partir da década de  50 do século  passado.
               Com muita  argúcia  observa Cláudia  Nina, em seu  pequeno e   proveitoso  livro,  Literatura nos jornais: a crítica literária dos rodapés às resenhas:
  
Os recém-chegados críticos-scholars foram colocando os impressionistas em desconforto. Enquanto isso, pouco a pouco, os editores dos suplementos  eliminavam os rodapés dos jornais e privilegiavam textos mais curtos,  menos  digressivos e mais objetivos.[26]
              
              As querelas, daí em diante declinavam, sem mais a intensidade que havia nas brigas  intelectuais  entre  Sílvio Romero e José Veríssimo[27], entre,  Lins e Coutinho. Sumiram as polêmicas. Passou-se ao primado das resenhas, feitas por jornalistas ou  por acadêmicos ou mesmo autodidatas.
               Contudo, há algo completamente diverso entre   a resenha atualmente  praticada nos jornais  de maior renome  e a velha crítica  de rodapé  exercida pelos críticos  franceses do século XIX.  Afrânio Coutinho criticara com  rigor os chamados  “reviews” quando desvirtuados   de seu papel de apenas  informar  ligeiramente  sobre  livros lançados.  A crítica  literária, conforme  foi  propugnada   por Coutinho  durante décadas,  finalmente encontrou seu grande espaço no livro e nas revistas  especializadas das universidade públicas ou  privadas.
               Lins, por sua vez, reconhecia que, nos rodapés, “pequenos ensaios ou artigos, podiam  ser escritos desde que versassem  sobre  um “aspecto caracterizador,” ora um tipo de crítica que exigia   “.. o  estudo dos livros do dia, ou dos mês” em rodapés ou  revistas, ou ainda a crítica de um “tema” em  breves e “espontâneos ensaios” sob  enfoques  específicos: o estético,  o psicológico, o histórico, o sociológico, o folclórico, entre outros aspectos.[28]   
               As resenhas, agora, sofreram substanciais mudanças em seus pressupostos  técnicos de linguagem;  falam uma linguagem  jornalística, objetiva, clara,  além de  dar exemplo de excelência de elaboração na maioria dos casos Assim o atestam  alguns críticos como  João Cezar de Castro Rocha e a citada Cláudia Nina. Tampouco há maior interesse de  divergência explícita entre  o que seja melhor, se  a resenha escrita por um jornalista, se  a de um  professor  universitário, que já procura, salvo exceções, adaptar-se ao público  leitor, optando, em geral,  pela  eliminação dos jargões acadêmicos  nos cadernos  de cultura.
               E há algo mais a acrescentar: o caderno “Ilustríssima” amiúde publica  até ensaios ou  parte de ensaios sobre  literatura, de autores nacionais  ou  estrangeiros  traduzidos, e ultimamente textos  acerca de assuntos variados, tais como  artes plásticas,  quadrinhos,  cartuns, fotografia, música, cinema, filosofia,  ciências,   entrevistas, notícias sobre   livros  lançados,  exposições,    página de  poesia, páginas  destinadas a publicações  de contos  de autores  mais conhecidos,  colunas  com  publicações    espaçadas,  notícias culturais etc.
               Já o “Prosa & Verso” do Globo se divide mais em  resenhas,  entrevistas,  textos  de colunistas  publicados  periódica ou eventualmente,  sínteses sobre  enredos de livros recém-lançados, a coluna semanal de José Castelo, notícias sobre  eventos  literários, listas dos mais  vendidos em ficção e não-ficção, e-books, cursos,  workshops,  encontros literários,  palestras, conferência e uma última página em que se publicam  artigos  de relevância   cultural.        
               De outra parte, de vez em quando se publicam na imprensa, nos  cadernos culturais, tomando-se como modelos  os dois acima-mencionados, alguns  artigos  duros e sinalizadores de uma  possível  polêmica, mas  no embate há uma  réplica e, no máximo, uma tréplica Os contendores se afastam, cada um,  para seu canto.
              Cláudia Nina, na mesma obra, em tom de  certo desapontamento sobre o que  denomina  “esvaziamento das polêmicas” critica (sem trocadilho) em  relação aos “cadernos literários,” a “complacência,” o “consenso” e a “superficialidade” das polêmicas; daí, falar ela de  “esvaziamento  do debate, das ideias e, acrescentaríamos de nossa parte,  da ausência e coragem de analisar obras e julgá-las.
               O crítico, o resenhista, ao discutirem sobre  um livro novo, fazem análise ou interpretam, mas não  mostram defeitos, o que dá ao leitor a convicção de que o  livro que lhes chega às mãos  é quase  sempre,  pelo  elogio ou admiração subjacentes à leitura que fazem, mais uma obra  de boa ou  ótima qualidade. Seria o momento de o leitor arguto ou o especialista perguntarem: onde ficou o julgamento, o juízo crítico? Cláudia Nina simplesmente desabafa: “É raro ver um crítico, seja ele jornalista, ou acadêmico, criando algum tipo de discussão no ambiente intelectual e literário, A crítica está morna e acomodada, Falta o debate das ideias.”[29]




  [1]  HOLANDA FERREIRA, Aurélio Buarque de.  Novo dicionário da língua portuguesa. 1. ed.  Rio de Janeiro: Nova Fronteira,. s.d., p. 1242
[2] COUTINHO, Afrânio. Impertinências. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Niterói: EDUFF, 1990.  Essa epígrafe se encontra no verso da  segunda página.
[3] COUTINHO, Afrânio. Da crítica e da nova crítica. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1957, p. 53-61.
[4] Idem, ibidem, p. 54.
[5] COUTINHO, Afrânio. Correntes cruzadas. Op. cit., p. XXXIII.
[6]  Idem, p. XXIII.
[7] COUTINHO, Afrânio. Crítica & críticos. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1969, p. 14.
[8] Idem, ibidem.
[9] MOISÉS, Massaud. Ver verbete  “Jornalismo  no Brasil”  In: Dicionário de literatura. v.1. PRADO COELHO, Jacinto do (Dir.). Op.cit., p. 510-512.
[10] BASTLHA, José. História da América. 2ª série ginasial. Rio de Janeiro/São Paulo/Belo Horizonte:  Francisco Alves,  1955, p; 113-114..
[11] WERNECK SODRÉ, Nelson. Literatura e história no Brasil contemporâneo. 2.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Graphia,  1999, p. 22.
[12] Idem, p. 17.
[13] Ibidem.
[14] BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira, Op.cit., p. 85.
[15] Idem, ibidem.
[16] Ibidem.
[17] Ibidem.
[18] COUTINHO, Afrânio. A tradição afortunada. Op. cit., p. 97.
[19] BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. Op. cit., p. 135.
[20] COUTINHO, Afrânio. O processo da descolonização literária.  Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,  1983, p. 173-179.
[21] CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. (Momentos decisivos).  6. ed. v.2. (1836-1880). Belo Horizonte: Itatiaia, 1981, p. 126.
[22] MERQUIOR, José Guilherme. Indicações para o estudo da de Da Costa e Silva. Revista Presença. Teresina, 6 (13): Edição comemorativa do centenário do poeta. Publicação da Secretaria de Cultura, Desporto e Turismo do Piauí. s.d., p. 40-41.
[23] COUTINHO, Afrânio. Da crítica e da nova crítica. Op. cit. Para o desenvolvimento do tema relacionado às concepções de “crítica de rodapé, “review,  crítica militante em jornal e outras questões correlatas  e, dentro da perspectiva histórica em que foi escrita,  a leitura  dessa obra  é indispensável a quem  deseja  conhecer   o pensamento autor do  em  terreno tão  controvertido.
[24] GRIECO, Agripino. Zeros  à esquerda. Rio de Janeiro: José Olympio,  1947.
[25] Bosi, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. Op. cit., p. 492.
[26] NINA, Cláudia.  Literatura nos jornais: a crítica literária dos rodapés às resenhas.  São Paulo: Summus, 2007, p. 26. 
[27] Sobre a polêmica entre os dois críticos,  ver BROCA, Brito. A vida literária no Brasil – 1900. Op. cit., Ver  sobretudo o capítulo XVIII, p. 199-204.
[28] LINS, Álvaro. O relógio e o quadrante. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964,   p. 380.
[29] NINA, , Cláudia. Literatura nos jornais. Op. cit., p. 36-37

sábado, 13 de abril de 2019

MINHA EXPERIÊNCIA COM A LÍNGUA E A LITERATURA FRANCESA

CUNHA E SILVA FILHO
          
        O interesse meu pela língua francesa(1) iniciou com o meu ingresso no ginásio. Naquela época estava com meus doze anos e, para a minha alegria, era o meu pai o meu professor de francês, Cunha e Silva (1905-1990, nome copleto, Frncisco da unha e Silva), que, aliás, foi também um destemido jornalista político muito respeitado. No curso científico, tive ainda uma mestra de francês, chamada pelos alunos “Madame.”
No entanto, seu renome era Helena. Era casada com um veterinário de nacionalidade francesa, Não me recordo do seu nome. Nem tampouco sei como chegara ao Nordeste. No caso, ao estado do Piauí onde nasci.
No ginásio, o livro adotado por papai se chamava Le français au gymnase e o autor era um professor que tinha um nome francês: Marcel Debrot. Na prmeira página de seus livros havia essa informação: Professor da Faculdade de Filosofia da Universidade de Minas Gerais. Como adorava as lições de suas obras para o ensino da língua de Victor Hugo!
       Que eu saiba, ele havia publicado dois livros, um destinado ao primeiro e segundo anos do ginásio, o outro, ao terceiro e quarto anos do ginásio. Dois bons volumes eram eles! Alguns parágrafos destes livros aqui citados sei i de cor até hoje como, por exemplo, este quase parágrafo de Jean-Jacques Rousseau:
“Je ne conçois qu’une manière de voyager plus agréable que d‘aller à cheval.: c’est d’aller à pied.”(Não concebo senão um modo de viajar mais agradável de andar a cavalo: é o de andar a pé.”)
       No curso cientifico, que abrangia três anos, não me recordo do título do livro adotado para o francês. Me lembro vivamente que os alunos somente tiveram esta matéria por um ano, ou seja, no primeiro ano.
Minha boas lembranças do aprendizado da língua francesa não se restringiram aos livros adotados, mas iam mais longe. Queria ler os autores didáticos que meu pai tinha em casa. Havia vários grossos dicionários. Eram importantes dicionários de francês-português e português-francês que meu pai possuía em sua biblioteca. E lia muitos esses livros e dicionários. Eram dicionários importantes. Os melhores daquele tempo. Que fase abençoada para mim! Passava uma, duas ou muitas horas lendo livros e dicionários, seguindo literalmente o bom conselho do grande escritor francês Théophile Gautier: “Jeunes gens, lisez les dictionaires!” (“Jovens, leiam os dicionários”)
      Sempre fui alguém que gostava de estudar sozinho. Me sentia muito bem assim. É verdade que, na minha infância e juventude em Teresina, , capital d eu estado natal, Piauí, não dispúnhamos de cursos particulares para aprender a língua francesa, coo nos grandes cidades brasileiras, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Recife etc.
       Posto que não falasse fluentemente, isso me permitiu adquirir um relativo conhecimento da língua escrita. É bem verdade que um bom tempo quando cursava letras na universidade, quase nunca lia francês, porquanto nesse período me encontrava estudando mais inglês.
      Concluído o tempo da graduação, comecei a retomar o francês, dando sequência aos estudos já conquistados no tempo da infância e juventude com meu pai.
       Me lembro bem que, quando meu pai preparava as aulas, por várias vezes lhe dei sugestões para um melhor correspondência em português de traduções do francês, Eram expressões francesas mais difíceis para as quais se urgia dar o melhor da equivalência em vernáculo. A par disso, papai me pedia que o ajudasse as correções de provas escritas de francês, submetidas aos alunos, Vibrava muito como se eu fosse um mestre de verdade do francês!
        Outra fase de grande entusiasmo pela língua francesa foi, aproximadamente, a partir dos meus dezoito anos quando ensaiei traduções de poesia francesa para a minha língua, sobretudo de autores do século XIX, ou seja, dos românticos.
        Este artigo é endereçado a todos os que se dedicaram a amar e cultivar a língua francesa, sua cultura e sua rica e encantadora literatura.
NOTA:
(1) Este artigo, com o título "Mon expérience française", foi originalmente escrito em francês e revisado pela poeta e tradutora francesa, Noelle Arnoult a fim de ser publicado na Revista romena ORIZONT LITERAR CONTEMPRAN, cujo número 69, An XII, Nr 1/ lanuarie - februarie 2019 , 68 pagini. 

quarta-feira, 10 de abril de 2019

O PORQUÊ DAS INUNDAÇÕES MAIS FORTES E OUTROS ACIDENTES NATURAIS

                                                                                            CUNHA E SILVA  FILHO
Quanta calamidade na tragédia do Rio de Janeiro, algo que, em cinquenta e cinco anos de residência aqui, nunca vi nesses níveis atuais. Num artigo que não me lembro se postei ou não aqui, intitulado "O sinal das águas," chamo a atenção para o gravíssimo problema das mudanças climáticas no planeta ta Terra, mudanças, de resto, a meu ver, mais provocadas do que espontâneas ao longo das últimas décadas. 

A Terra ficou muito mais quente devido sobretudo ao aumento da poluição, com emissão gigantesca de CO2 pelo planeta afora, principalmente causada pelos seus vilões, à frente os Estados Unidos, China e outros países, os quais têm dado as costas às recomendações dos organismos internacionais de proteção ao meio ambiente, mantendo, outrossim, suas ações predadoras e indiferentes aos males infligidos à NATUREZA-MÃE. 

Ora, resumindo, esses países, grandes potências mundiais, não vão abrir mão de seus projetos de crescerem cada vez mais nos setores da Economia, quer seja de orientação comunista, quer capitalista, com seus desejos incontroláveis de lucros e mais lucros a fim de manterem as demandas de produtos de consumo em grande escala. 

Nessa ânsia de crescimento ilimitado, as indústrias sugam continuamente as matérias primas do nosso planeta vilipendiado pelos próprios governos das nações poluidores. O efeito estufa surge em proporções ciclópicas, cresce mais e mais a evaporação no planeta Terra. 

Essa Wasteland martirizada pelas mãos dos potentados globalizados torna-se mais quente com tamanha intensidade que seus efeitos se fazem logo sentir no derretimento das calotas polares, no aumento do nível das águas do mar e dos rios. 

Daí em diante, é um salve-se quem puder, pois de quebra vêm com toda a violência e fúria a reação inclemente da NATUREZA-MÃE fazendo justiça com as próprias mãos através dos inúmeros acts of God espalhando-se pelo mundo inteiro e em forma de, por exemplo, mais fortes inundações, furacões. tufões, tsunamis, maremotos etc. 

Tais efeitos estão agora ocorrendo, mais do que nunca, em nosso país. Vejam-se as inundações violentíssimas no Rio de Janeiro, em São Paulo, deixando atrás de si um rastro de vítimas inocentes - 
tragédias humanas - as mais dolorosas, assim como prejuízos materiais incalculáveis nessa duas grandes cidades brasileiras. Tenham pena da Terra! 

domingo, 7 de abril de 2019

SOBRE A OBRA DO CONTISTA MAGALHÃES DA COSTA: TEMÁTICA E LINGUAGEM




                                     CUNHA E SILVA FILHO

             Nem é preciso ir a fundo  na análise  de toda  a  obra  ficcional no gênero conto de  Magalhães da Costa (1937-2012)  para emitir  um  juízo critico muito favorável a ele não só no quadro da literatura  produzida no Piauí mas também  no nível  de sua  narrativa considerada  nacionalmente.  O autor escreveu, pelo menos, cinco livros no gênero  que   criteriosamente  elegeu como  o  seu  principal projeto literário, dado que também exerceu a crítica literária   e escreveu  poesia.  
           Convém recordar aqui o período em que  escreveu para o excelente  Jornal  de Letras, nos bons tempos  da direção dos  irmãos Condé e, nessa seção,  fez brilhar   seu talento de comentarista e divulgador  de obras de autores piauienses. De resto,  essa seção  de que se ocupou se destinava a autores piauienses.  
          Magalhães da Costa – releva anotar - conquistou  prêmios literários   tanto no seu estado natal quanto em âmbito nacional. Teve três livros  lançados  por editoras  do Rio de Janeiro e com divulgação   nacional, Casos contados e outros contos (Rio de Janeiro,  Rio Fundo Editora,1996), com prefácio de Assis Brasil, Traquinagem (Imago, 1999), com  a primeira orelha escrita  por Altevir Alencar e a segunda, por Hardi Filho, apresentação  de Maria Figueiredo   dos Reis e  quarta capa de Assis Brasil e Crime & mistérios, de 1977, uma antologia  de ficção  policial, publicada no Rio de Janeiro.   
      A produção do  contista nascido em Piracuruca,   sua  cidade natal -   fonte inspiradora de suas inúmeras   histórias -,  vai     dos anos 1970,  data  de seu livro de estreia, Casos contados (1970) até 2002, quando escreveu  e publicou mais um  livro de contos,  de título Agrado. Todavia,  em 2012, saiu  de sua lavra uma obra  póstuma no mesmo gênero, Histórias com pé e cabeça. Entre essas  obras, saíram   antologias organizadas  por escritores do seu estado natal.  Para completar a menção de seus dados bibliográficos, seja mencionada mais um livro de contos:   Estação  das manobras (1985),  seu terceiro livro.
       Pode-se afirmar,  à  vol d’oiseau,  sem medo de errar,  que a ficção  de Magalhães da Costa, não tendo sido ainda,  a meu ver,   matéria de estudos  críticos de maior fôlego,   se inscreve   num   campo de investigação,  cujos  polos mais   relevantes  são a  potente   imaginação do autor   trabalhada, com mão de  virtuose e conhecedor  profundo    do gênero   short story, a partir do material   da realidade local   não só da cidade  de Piracuruca  como  também  de outros  espaços físicos variados atentamente  observados e  filtrados pelo  sua condição de   professor e magistrado  nas suas andanças  pelo interior piauiense:   a vida, os costumes,   os hábitos, as relações  sociais,  religiosas,  as relações do  trabalho  braçal, por vezes tensas, entre  “coronéis” e  agregados,  com as submissões  e adulações entre estes para com aqueles  e, no meio delas, as desconfianças entre patrões e empregados,  tão bem vistas   no conto  “O cortador de arame” (apud Novos contos piauienses. Teresina,  Fundação Cultural  do Piauí, 1984, com Apresentação de Jesualdo Cavalcanti Barros, p. 22- 27).
        Magalhães da Costa  pertence à linhagem de contistas brasileiros  que  optaram,  em primeiro plano,  pelo regionalismo renovado  de temas e linguagem,  a se ver pela espaço geográfico em que  escreveu  a sua obra  ficcional. Escreveu sobre o que  sabia a fundo da paisagem, do linguajar   e da realidade humana    vista,  em certo sentido,  num plano   universal,  pois suas histórias  falam  de  traição amorosa, ciúme doentio, paixões desenfreadas (contos “O bilhete,” “Enquanto viajava”); ambição e sentido trágico (conto “Cartomante”);  frustração   no relacionamento  conjugal (conto “Cantar de galo velho”)   maldade infantil (conto “Corte de palha”);  amizades e inimizades  passageiras, sentimento íntimo ferido, bullying na infância (conto “Briga de meninos”);  iniciação sexual (conto “Noitadas com negra Zu”; religiosidade (os contos “Catecismos,” “Terços” );   relações de trabalho na vida  rural, coronelismo. relacionamento  submisso  de agregado com  o patrão ( conto “O agrado” );  tipos populares com traços meio pícaros (contos “Casca grossa,”  “Conversa de pé de bodega”).
     Entretanto  um dado é inestimável entre outros da sua fatura literária: é a  linguagem  que, ao lado  do enredo, da trama,  aparece com maior visibilidade na  obra  deste contista. É por ela que  o ficcionista  se eleva  e se distingue, pois tem como  recurso estratégico   fundir  harmoniosamente  o enredo com  a técnica. Tudo  isso    elaborado com  a intimidade que tem  com  os efeitos  que  visam  atingir a sensibilidade  do leitor.
      Essa  modo de aliciar  o leitor, de prender-lhe a atenção e  de seduzi-lo a espontaneamente penetrar  no interior do universo ficcional   é típico dos ficcionistas  hábeis  e meticulosos  na urdidura  dos histórias, causos, tal como  ele próprio  ilustra com a estratégia de um  personagem em diálogo, por vezes silencioso, com um  interlocutor,   vai  conduzindo   o relato no qual o que é importante  é a segunda narrativa encaixada  à primeira  que logo cede vez  como se fora empregar a técnica da  mise en abîme, segundo se pode  verificar  no conto “Terços (op. cit. p.29-36),  da obra Traquinagem, onde humor,  divertimento  e  encanto  são vividos pelo menino Zezinho deslumbrado com   as histórias do  velho  Damião Olho de Pata Choca. Este, inicialmente, não  se dispunha  a atender aos rogos de Zezinho para que  contasse   muitas histórias. Acabou cedendo  logo que Zezinho lhe ofereceu,  falando-lhe ao pé do ouvido, “umas peles de fumo” ( idem, ibidem p.3).
         Vale  assinalar  na temática  da obra ficcional de Magalhães  da Costa  um traço  muito forte: o memorialismo que se reparte por boa parte de seus contos,  sobretudo em Traquinagem, no qual  a infância se apresenta como  um largo  espaço de afetividade  vivida  pelo  menino  Zé do Branco – uma de símbolo da dessa fase da existência humana com todas as suas surpresas,  mudanças de humor,   ludismo, folguedos, ingênua rebeldia  de alguns momentos,   e aprendizado que, em tempos futuros,  poderão ser quase apagados  da memória  dos adultos. Traquinagem, por exemplo,  seria também  a saga da infância dos  interior brasileiro, com  as suas variações  e suas   afinidade de estado para estado e de cidade para cidade.
       Dois aspectos estruturais de sua narrativa, no que tange ao tratamento  dispensado  à linguagem literária,  gostaria de mencionar nestes comentários :1) o traço  visceralmente  oral das suas narrativas, sobretudo aquelas  ambientadas  no meio   rural; 2) a arquitetura dos enredos como  forma  particular de sua  narrativa.
          O primeiro  está intimamente  conexionado ao discurso  de um  narrador  que se coloca  como  um personagem, seja em terceira ou  primeira pessoa,  fazendo parte  da história reportada. Ora,  esta estratégia o faz mergulhar  num discurso  estilizado  produzindo um impressão verossímil   do modo da fala dos personagens   segundo os seus  registros  do nível de escolaridade   ou de ausência dela. Portanto, não é meramente a cópia servil da imitação clássica, romântica  ou   realista  do discurso ficcional tradicional,  o qual bifurcava dois tipos de linguagem: a do narrador culto, do autor,  e a do discurso  dos personagens em cena, nos diálogos.  Este sensação puramente  estética  no uso a linguagem  literária  foi uma conquista admirável dos ficção contemporânea. Essa mesma estratégia foi  talentosamente  utilizada na ficção urbana de João Antônio, em Guimarães Rosa e em outros  autores  contemporâneos. 
          No segundo aspecto  depreende-se mais uma  forma diferente da tradição  literária:  é quando o  conto, do princípio ao desfecho se constrói    por diálogos. Disso tem-se  o exemplo do conto ”O cortador de arame” (op.cit.).  O dialogo serve igualmente como  traço  identificador  e recorrente do caráter  de oralidade dos contos.  Esta adequação  premeditada   com técnica  narrativa também vai  mostrar   um dado relevante da construção sintática   dos textos ficcionais do autor: a mudança da linguagem  segundo  o tipo do narrador e sua condição  cultural.
     Para quem não está acostumado a ler textos formulados  nestes termos  do contista  piauiense,  muitas  expressões  regionalistas, populares , bem com  léxicos   localizados produzem  por vezes ruídos  na dicção dos personagens,  tanto nos diálogos quanto  no enunciado.  O pitoresco  léxico regionalista  do discurso do narrador e dos personagens ou mesmo do narrador-personagem é opulentíssimo, em muitos  casos  nem  dicionarizado  ainda está.  E, assim, oferece um amplo espectro  a estudiosos  da linguagem. Veja-se o exemplo abaixo no conto ”O bilhete.” As expressões ou  vocábulos em itálico  ilustram bem a minha afirmação precedente:
 ...Ah, meu patrão, pra que falar nessas coisas! Pra que falar da minha, que era uma porqueirinha de nada.  Dizer que era chegadeira que só, e não temia homem não. Era que nem lagartixa pra gostar de moita. Pra quê ? Vancê não entende?
     O  que expusemos,  ao longo destas breves   considerações, se não consegue  propiciar uma mais  ampla visão  da importância do contista  Magalhães da Costa,  pelo menos  aponta linhas  de força  para pesquisas    que seguramente poderão  ser desenvolvidas e  aprofundadas por  outros  estudiosos  da ficção  brasileira. Os autores de ficção que estrearam   a partir dos anos 1970,  geração a  que pertence Magalhães  da Costa,  sem dúvida conquistaram avanços   com novas formas de linguagem, temas  e técnicas   no gênero da  também chamada  história curta, a qual   por isso mesmo   vem,  nas últimas décadas,   crescendo em importância e na preferência dos leitores de hoje.


domingo, 31 de março de 2019

FESTEJANDO O MEU BLOG "AS IDEIAS NO TEMPO": 9 ANOS.




                                                                          CUNHA E SILVA FILHO

         
        Há nove anos,  a princípio, não me  agradava o termo “blog”. Não sei explicar  porque não me agradava. A primeira vez que vi a palavra achei-a sem graça, meio tosca. Não me soou bem ouvi-la. Me dava a sensação de coisa  usada por gente  desocupada, fofoqueira, de segunda classe. etc. Tudo era apenas  questão  de gosto só sentido positivamente  depois de algum tempo quando  não mais  havia de minha parte nenhum ranço elitista ou preconceituoso     a respeito  dos blogueiros, os quais, por  sua vez, se se referenciam aos usuários de uma atividade virtual.
      Toda essa aversão  foi apagada.   Em lugar  dela, surgiu  com o tempo   o meu   saudável apego com o blog,  me tornando, eu mesmo,  um blogueiro. Não vou hoje  pesquisar as origens do blog e como na verdade apareceu na internet. Só sei que, hoje,  sou  um  viciado nesse espaço virtual. Virou  uma extensão  da minha pessoa,  da minha biblioteca,  da minha casa,  dos meus hábitos de escrever, de pesquisar, e sobretudo,  vendo  outros blogs,    senti que  era uma  ferramenta  utilíssima que se  me  descortinava  à atividade da escrita. Era uma mina  finalmente  descoberta, valorizada    e digna  de ser explorada em todos os seus  sentidos, em todas as suas possibilidades. Da antiga aversão  se originou  o encantamento  pela manutenção  do uso dessa  ferramenta da qual dificilmente  me apartarei,  porquanto já faz parte  das minhas ações  e do meu cotidiano.
    O hábito de blogueiro  tornou-se um antídoto contra quaisquer veleidades de que tinha de  outros meios escritos para divulgar  o que penso sobre  alguns temas. Nesse nove anos  tenho  usado e abusado  da liberdade  de refletir, discutir,  me zangar, me  indignar,  espalhar algum conteúdo cultural  aos que  por acaso o encontrem  nesse gigantesco espaço  para todos e em esfera global. O meu blog representa uma espécie de trincheira  das minhas convicções, dos meus pensares,   do meu ver o mundo,  os homens e as instituições em eu país e alhures.
    Seria impensável deixar de  manter  essa minha coluna do blog, chamada “As ideias no tempo,”  cujo nome  escolhido  dei também  a um dos livros meus, “As ideias  no tempo – crônicas, artigos, resenhas e ensaios(Academia Piauiense de Letras /Gráfica do Senado Federal, 2010, ) lançado, em Teresina, na APL.   em 2010.
    Reconheço, todavia, que o formato do meu blog não é lá essas coisas. Nem mesmo  o transformei em site, se bem que  não tenho   essa pretensão   por enquanto. Há tempos nem mesmo o tenho modificado a fim de distribuir melhor  as minhas postagens e montar  o uma espécie de arquivos  mais  atraentes e com maior  facilidade para o leitor  ter a ele acesso.  Sei que procurei  me ater  aos tópicos  indicados  na apresentação do blog.
    De alguma coisa  estou  certo: todos esses anos  foram  de prazer  partilhado  com  os meus eventuais leitores, espalhados  no país e no exterior. Hoje, vendo  os dados  de acompanhamento  do blog, ou seja,  o mapa estatístico, me convenci   de que  não fiquei tão  minguado no tocante à quantidade de  leitores que, assim, me revela:
Países:

França (135) Brasil (106), Ucrânia (89), Rússia (49),  Estados Unidos (43),  Alemanha (17), Reino Unido (3),  Portugal (3),  Coreia do Sul ( (3) Região desconhecida (2).
    
    Cumpre  salientar que o quadro estatístico  tem altos e baixos, dependendo  das postagens e do seu impacto  junto aos leitores. Mas, sabe, leitor,  no mundo globalizado como o nosso  agora,  eu me sinto até   contente  com  esses números.  É sinal que  estou sendo  lido em alguns  períodos de postagens  mais   importantes,   as visualizações   aumentam  muito, não muitíssimo.
   Imagine, leitor,  que mundialmente se espalham  milhares  de blogs com diversas  modalidades de conteúdos e por vezes  blogs sofisticados,  atraentes  nos seus formatos,  nas suas   exibições de matérias   e variabilidade de assuntos, nos seus alcances etc. Diante dessa realidade, só tenho que agradecer  aos meus leitores e sua paciência de me acompanharem  ainda que não tão assiduamente.
    Poderia até ter mais  leitores  se me empenhasse  mais nos postagens e estivesse mais presente a esse espaço vital. Entretanto,  descontando  os meus afastamentos,   penso que  está, para as minhas modestas pretensões, de bom tamanho. Oxalá   que eu possa  manter essa atividade gratuita  e espontânea  por mais algum tempo.
     Para concluir, há dois   itens sobre  os quais gostaria de lhe falar no que concerne aos leitores: os seguidores e  os comentário. Tenho observado, ao longo desses anos,  que, no meu caso,  a quantidade  de seguidores é bem  reduzida, senão reduzidíssima.  Quanto ao número de  comentários,  posso  afirmar que  os leitores em geral   só leem  os textos  postados e não se dão ao trabalho, provavelmente  por não saberem como  proceder  nas indicações  para preenchimento dos comentários. Ele até pode gostar  do texto mas,  por comodidade ou falta  de tempo nesse mundo apressado de hoje, deixa de comentar o artigo, o ensaio,  a tradução ou outro tipo de texto lido. Espero contar sempre com  a sua  bem-vinda visita ao meu  blog. Abraços.
  


domingo, 24 de março de 2019

FIZ MEU IMPOSTO DE RENDA. UFA!




                                Cunha e Silva Filho

          Antigamente, no final da década de 1960 e nos anos  1970 e 1980, por aí,   mesmo  recebendo  salários  baixos do magistério  público e privado, era obrigado, no meu caso, a ter que  pagar  o imposto de renda. Veja só, leitor,   o “Leão,” sempre guloso e ávido de dar um mordida no cidadão. Devemos pagar com alegria ao Fisco? Sim, é claro, mas não no país que é duro com  alguns enquanto  que os endinheirados de todos os tempos nunca foram mordidos conforme seria de se esperar do governo federal.
        Entra governo, sai governo,  e as grandes fortunas  não são tratadas pela Receita Federal com alíquotas  compatíveis   com as  suas riquezas,  as quais, por isso mesmo,  continuarão sendo  riquezas e sendo bem tratadas por aquele órgão público. Quanto mais dinheiro os ricos têm, tanto mais agraciados são pelo  governo federal.
        A indignação do homem comum com  os impostos  já vem de longa  data, como foi  bem ilustrativa a  passagem bíblica do Novo Testamento em que Pedro, o pescador,  a princípio, tinha horror ao cobrador de impostos  representado pela figura de Mateus que, depois,  deixou essa atividade,  para seguir Jesus na condição de mais um discípulo.  Afinal,  foi  o próprio Jesus, nas sua doutrinação pela Palestina, quem afirmou, alicerçado na lei de Moisés: “Se deve dar a César,  isto é, à   autoridade civil, o que é de César e a Deus o que é de Deus.”  
          O assalariado com carteira assinada e a média dos funcionários públicos,  civis e militares, não têm como fugir  ao acerto de contas com a  “derrama” anual. Em seus  magros contracheques, na fonte,  já têm  o governo como certo  e líquido o que lhes tirar do bruto.
        Por algum tempo, eu não tinha paciência de fazer    a declaração anual do imposto de renda. Sempre pedia a um  colega meu  da área de contabilidade. Encontrei  muitos bons colegas  que me preparavam a declaração, sem cobrar nada de mim..Faziam apenas por amizade,ao contrario dos dias de hoje em que a declaração de imposto de renda virou  um  bom negócio, a cada  ano, aos escritórios de contabilidade  que cobram  de acordo coma a  renda do contribuinte.
      Anos mais  tarde, com dificuldades, comecei a  preencher a declaração. Já não era mais  aquela documentação  por escrito, preenchida mesmo a caneta e com o formulário comprado nas papelarias  de qualquer bairro e entregue preenchido  nos postos da Receita Federal. Tempos depois, ingressávamos na era do computador, do preenchimento eletrônico,   respeitando os  modelos  que, de ano a ano,  foi-se tornando, pelo menos para mim,  bem mais  complicado porque seguiam os procedimentos técnicos  virtuais, primeiro fazendo  o download,  depois,  preenchendo  tudo conforme  os modelos baixados da Receita Federal. O meu problema era com  o preenchimento,  ou melhor,  a tormenta  começa a partir  dos lançamentos dos dados  dos comprovantes  fornecidos pelas  fontes pagadoras, com toda a sua parafernália,  os seus  labirintos  e os seus itens diversos.. Haja saco pra tanto.
       Qualquer erro  de um algarismo  mexia com o todo da declaração. E lá ia eu refazer tudo. “Diacho” Ás vezes, até por uma vírgula posta entre algarismos. Meu Deus! Que loucura essa feita pelos homens! Era aí, então, que praguejava contra  os responsáveis pela  Receita e contra que inventou  essa geringonça  virtual toda.
       Lembro-me   de que ela se aperfeiçoou no tempo da  ditadura militar e, se não incorro em erro,  foi  o Francisco Dornelles  que  trouxe dos EUA  a novidade dos formatos  adaptados  ao país.  Tampouco sei se essa é a verdade. O preenchimento  me tirava o sossego de  uns dois ou três dias.  Os dias de preenchimento se me tornavam verdadeira dor de cabeça  que  me atrapalhando a normalidade do  meu quotidiano.  Bastava se aproximar   tempo de declaração  do imposto que eu começava a me sentir  inquieto prevendo  a trabalheira toda que enfrentaria diante do computador. Isso, conforme sabe também o leitor,  acontece por volta do mês de março.      
     Sentia-me   vítima solitária da técnica e da robotização  ao ponto de não saber se quem  bolava tudo aquilo  era mesmo  um ser humano ou  um  máquina e aí, me  recordo da frase  cáustica e desafiadora   do meu querido ídolo, principalmente da fase do cinema mudo,  Charles Chaplin (1889-1977) proferida no seu último discurso de “O grande ditador”:  “Não sois máquinas. Homens  é que sois.” Digo isso pensando no pôster que tenho e guardo com carinho  há tempos colado na parede da dependência de empregada do meu apartamento, que uso como parte principal de minha biblioteca. A segunda parte fica na sala  de visitas e no meu quarto-escritório, numa pequena estante com três prateleiras cheias de livros e  papéis.  
            Este ano novamente passei por dissabores às voltas com o preenchimento. Lembre-se de que todo ano embutem novidades. O problema,  leitor,  é que não é somente  o preenchimento que  é chato e mexe com os meus nervos, porém tudo aquilo que antecede  a inciativa de preparar a declaração: reunir, pela internet, todos os comprovantes, seja de fontes pagadoras,  seja de planos  de saúdem, seja de outra natureza.
         Hoje,  tudo se faz virtualmente. Antigamente,   o Correio nos mandava pra casa. Agora, nem os contracheques nos enviam a não ser pra algumas categorias de funcionários  públicos. Pensam  as autoridades que todo mundo tem um computador  ou um celular mais sofisticado para atender a tudo isso. Quem não tem há que recorrer a um amigo ou às lan houses da vida. O planeta Terra virtualizou-se e, depois, viralizou as imbecilidades  nas redes sociais.
       Mas,  sabe, leitor, que já está um tanto    aborrecido com  este texto  insosso, o que mais atazana  a minha cabeça  no preenchimento da declaração são os pontos de “pendências”  nos alertando com sinal parecido com um “i” a fim de que  consertemos alguns  erros no preenchimento de alguns  itens. O pior é que,  por vezes,  corrijo e, quando vou  ver  nas “pendências,”  o sinal de alerta ainda me diz que errei. Quem tem paciência pra tanto, me diga, leitor? Pra concluir, graças a Deus, consegui enviar, sem “pendências” azucrinantes, a minha declaração  pra Receita. Descontei meus pecados  nessa empreitada  a contragosto. Um abraço a todos.
     

sábado, 23 de março de 2019

SUGESTÕES PARA UM MELHOR CONHECIMENTO DOS ESCRITORES BRASILEIROS REGIONAIS


Cunha e Silva Filho 
 RESPOSTA A UM IMPORTANTE ARTIGO DO ESCRITOR E POETA GEOVANE MONTEIRO SOBRE A POSSIBILIDADE DE TORNAR MAIS VISÍVEIS ESCRITORES BRASILEIROS DE TALENTO QUE AINDA PERMANECEM ILUSTRES DESCONHECIDOS NACIONALMENTE:
Um artigo que mais parece um manifesto de um moço ficcionista piauiense, que é o Geovane Monteiro.Seu artigo pertence àquele tipo de escrita que nos obriga a prestar atenção ao que ele acentua, enfatiza e chama à razão, ao debate, às discussões pertinentes e momentosas. Sim Geovane. V. nos leva, assim, àqueles pontos nevrálgicos da questão maior: como saber lidar com a minimo espírito de justiça com os escritores regionais, deles alguns de grande valor que ainda não ultrapassaram o apartheid (pegando o seu gancho vocabular) do eixo Rio -São Paulo e de outros estados com intensa produção literária? Precisamos desregionalizar os escritores menos conhecidos e procurar meios de os levar à visibilidade do público brasileiro.Para isso, teremos que enfrentar uma batalha difícil e cheia de meandros conexionados com a realidade editorial brasileira, e com todos os óbices ainda a serem superados nessa luta contra o anonimato. Creio que as universidades deveriam se empenhar nessa campanha de fazer uma espécie de intercâmbio, através de encontros, conferências ou seminários, de escritores regionais menos conhecidos e os aproximarem dos estudantes do ensino médio e superior. O próprio MEC deveria jogar um papel importante nesse sentido, alocando recursos e estabelecendo estratégias e logística a fim de tornarem essas metas em realidades que só fariam avançar o conhecimento de todos os envolvidos - escritores, alunos, professores, pesquisadores - para a diversidade de nossos talentos ainda pouco ou nada visíveis no cenário cultural-literário nacional. Esse assunto precisa ainda ser amadurecido junto a outros interessados nessas novas descobertas de bons e ótimos autores brasileiros. Deixo, pois, em aberto essas sugestões.

NOTA:.VEJA ABAIXO O ARTIGO DO ESCRITOR GEOVANE MONTEIRO

Das amenidades

Sempre a história dos literatos injustiçados. Pior quando lembramos dos superestimados em detrimento dos bons autores que inexistem a um público leitor menos acanhado - isso quando lhes resta ao menos o acanhado na figura do pequeno ciclo de amigos. Nesse cenário, também a crítica especializada parece buscar no midiático a rigor, salvo raras exceções, o sentido de ser, porque "não lhe há outra saída".
Hoje, com o infindo espaço virtual para publicações, não seria razoável desconsiderar o intento hercúleo de um mapeamento, mesmo sério, sem as inevitáveis lacunas, mas que não justificam uma elitização. Se antes havia os " missionários do cânone", imaginemos agora com tantas produções nas redes sociais especialmente em espaços mais particulares como blogs e sites. Entanto, o mercado editorial no geral, sob a conveniência da " difícil tarefa da demarcação" contempla - e por que não lembrar de seu marketing digital, seu controle de dados!?- deliberadamente aqueles que escrevem com o carisma para um público maior, e nem sempre a qualidade das obras faz a diferença nesse processo . Os, digamos, mercadológicos - inclusive quanto a estratégias de tertúlias com grandes divulgadores culturais. Estou frizando uma realidade existente quando nem se imaginava um dia haver a era digital. Resultado nada negociável : uma aritmética ainda maior de bons e dedicados autores fora de cena....
A esse respeito, aludiu o crítico literário Cunha e Silva Filho, uma exceção de crítico honesto porque não falacioso, em seu ensaio intitulado Os autores desconhecidos e outras reflexões sobre literatura brasileira :" Todas as histórias literárias são incompletas, lacunosas e por vezes injustas e, ao procederem assim, privam o leitor de entrar em contato com os autores dignos de reavaliação. Carecemos, em nossa historiografia literária, de uma obra que se destinasse a propiciar uma visão em síntese, mas de amplo espectro da literatura brasileira de autores contemporâneos e que abarcasse pelo menos da última década do século passado até os dias atuais. Poderia ser um trabalho coletivo". Mas como nem tudo são espinhos, Cunha me informa, nessa mesma fonte, que há um trabalho com propósito menos segmentário em "Ficção brasileira contemporânea", de Karl Eric Shochhollhammer, livro que registra nomes de autores mais novos. Que surjam muitos outros navegadores sem medo de piratas federais!
Uma outra intercessão interessante me veio do escritor João Pinto, quando arrisca que os estados poderiam divulgar seus artistas locais desde as universidades às escolas públicas através, por exemplo, da adoção de obras de autores locais. Eis uma sóbria e simples e fácil política pública que custaria iniciativa sem ônus, já que escritores já são divulgados. Seria uma troca ( melhor falar em prioridade, para eu não cair no pecado do rigor) sem nenhum risco, senão salvar muita gente boa do anonimato inclusive local. Sim, na melhor das hipóteses, um pequeno número de escritores longe dos ares Sul/ Sudeste são conhecidos somente em suas províncias, em seus rincões - a exemplo de Nauro Machado, H. Dobal e Assis Brasil, entre outras tantas grandes figuras praticamente desconhecidas do grande público. Quando muito, alguns deles seguem pelos ventos como apenas nomes e não autores. Ventos sem os dribles nas comodidades ideológicas, nas convenções históricas, nos discursos geopolíticos em que o tempo já disse.
Quem mais ganharia com o fim do" apartheid literário" com a " proteção das fronteiras" seria o horizonte de leitores, no sentido de um incentivo a mais à leitura, já que novas propostas na luta com as palavras nos levariam às diversas realidades no viés da ficção. Assim, literatura não seria apenas conteúdo de vestibulares, ordem dos bispos dos grandes centros.
Mas então, se podemos visualizar iniciativas de percurso tão básicos, sem complexidades alguma, embora a médio ou a longo prazo e não absolutamente corrigíveis em razão das infindas manifestações anunciando o tempo; no raso do pensamento, no discurso até piegas, por que a resistência com o que é tão possível, tão previsível? Por que divulgar, repetir aqueles que já são festejados no país inteiro pela grande mídia? Até quando tudo estará restrito ao insumo do mercado? Os artistas locais, num dia de sorte, teriam então que estudar o mesmo evangelho da autoajuda, do empreendedorismo, e de tudo que se busca para o carisma business? Acontece que cantar a São Luís, versejar sobre o calor e a cajuína de Teresina ( esquecendo aqui o estrelato de um Caetano) não justificariam os Paulo Leminskis e os Thiagos de Mello da vida.
O negócio então é ser visceral em si e pronto!? Até porque ser visceral é indiferente a circunstâncias. Não se trata de consolo, mesmo enquanto os muitos obstáculos durem... Escrever não espiritualiza tal qual fazer uma prece em secreto dentro do quarto!? Eis o off price!
( G. Monteiro a 24. 03. 2019)