quarta-feira, 6 de março de 2019

TRADUÇÃO DE UM CONTO DE OSCAR WILDE (1854-1900)




O GIGANTE EGOÍSTA(1)

       Toda tarde, enquanto  vinham da escola,  as crianças costumavam ir brincar no jardim do Gigante  egoísta.
       Era um  belo e amplo jardim, com macio e verde relvado. Aqui e ali, havia, sobre  a relva, lindas  flores  semelhantes a estrelas, e havia doces pessegueiros que,   na primavera,  brotavam delicadas   folhas de cores  rosa e pérola,  as  quais, no outono,  davam  ricos frutos. Os pássaros pousavam  nas árvores e cantavam tão docemente  que as crianças paravam de jogar  a fim de poder acompanhar-lhes  o canto.
     Certa vez, o Gigante regressou. Havia ido visitar um amigo,  o Ogre Cornualês. Ao chegar,  viu as crianças brincando  no jardim.
   “O que estão fazendo aqui?” – gritou com uma  voz  ríspida. As crianças  dali sumiram.
    “O meu  jardim só  a mim pertence, disse o  Gigante, “qualquer um sabe disso. E não permitirei que ninguém aqui  brinque  exceto eu próprio. ”Dito isto,  construiu  um muro alto e colocou uma tabuleta – “INVASORES  SERÃO PROCESSADOS.
   Era um Gigante muito egoísta; As pobres crianças agora não tinham  aonde ir  brincar. Tentaram divertir-se na estrada, porém esta  era muito  poeirenta e cheia de pedras duras. Não gostaram dessa experiência. Habituaram-se,  no entanto,   a vaguear em torno  do muro alto  após as lições da escola e a conversar sobre o  lindo  jardim lá dentro.   “Quão felizes éramos!” –  exclamavam   umas para as outras.
  Veio, depois, a primavera  e, por toda  parte,  não se viam quase flores nem  pássaros. Somente no  jardim  do Gigante egoísta o inverno  ainda persistia. Os pássaros não mais desejavam  ali trinar, porquanto  não havia  mais crianças e as árvores  deixaram de  brotar. “Não posso entender por que razão ela  está demorando tanto a  chegar,”   acrescentou o Gigante,    enquanto  sentava-se  diante da janela e olhava para fora  vendo seu jardim  frio e branco. “Espero  que o tempo  mude.”
  A primavera nada de chegar., nem o verão. O outono trouxe  áureos frutos  a todos os jardins,. Somente no jardim  do Gigante o tempo permanecia  imutável.
  Certa manhã,  o Gigante,  encontrando-se  na cama  acordado, ouviu  uma música  maravilhosa. Parecia-lhe  tão  suave aos ouvidos que julgara estarem passando lá fora os músicos do Rei. Mas,  aquela música não era senão o canto de um pintarroxo  do lado de fora da janela. Contudo, fazia tanto tempo que não ouvia mais uma  pássaro cantando  no jardim que lhe pareceu ser a mais bela música do mundo.  Em seguida,  da janela aberta recendia  um  delicioso  perfume. “Creio que a primavera chegou  finamente,”  afirmou   o Gigante que,  então,  saltou  da cama e olhou pra fora.
   Visão mais  encantadora jamais   descortinara. Por um buraquinho do muro, as crianças  haviam passado furtivamente para dentro  do jardim e já se encontravam  sentadas nos ramos das árvores. Em cada árvore ele pôde ver  uma criancinha. E as árvores ficaram   tão alegres com a   chegada novamente  das crianças que desabrocharam e ainda agitavam suavemente  os ramos   por cima das suas  cabecinhas. Os pássaros adejavam e gorjeavam deliciosamente.  As flores, com risos, olhavam por sobre o verde  relvado. Que cena  encantadora! Apenas num canto  do jardim ainda  era inverno e nele havia um garotinho  em pé. Era tão pequeno  que não podia  alcançar  os ramos das  árvore. Gritava em desespero.
   Foi então que o coração Gigante começou a amolecer à medida que olhava para fora; “Como fui  egoísta!” –concluiu; “Agora sei por que a primavera não queria voltar aqui. No  topo da árvore, vou pôr aquele garotinho. Em seguida,   derrubarei o muro, e meu jardim  há de ser o pátio de recreio   para todo o sempre!”
    Seu lamento  por tudo que fizera  de mal era verdadeiro .Desta forma,  descera de onde estava e abriu a porta de frente  com muita  delicadeza e ,  dirigiu-se ao jardim. Entretanto, ao vê-lo, as crianças ficaram  tão amedrontadas  que  saíram todas  correndo. O jardim, outra vez,  voltou  ao tempo de inverno. Somente o garotinho  não correu, pois os olhos estavam tão cheios  de lágrimas  que não  viram  a aproximação do Gigante. O Gigante  subiu furtivamente até ele por detrás,  colocou-o  gentilmente na mão e  o levou até à árvore. Rapidamente em flores  desabrochou a árvore e os pássaros nela  cantar vieram. Logo depois, o garotinho  estendeu os dois  bracinhos enlaçando o pescoço do gigante e o cobriu de beijos. As outras crianças, vendo que o Gigante não lhes parecia  mais  um bicho papão,  vieram correndo  de volta ao jardim e com elas  chegava a primavera.
“ Este jardim  é vosso,  minhas crianças", arrematou  o Gigante e, segurando  um grande machado,  botou abaixo  o muro.  Quando  pessoas estavam indo  ao mercado às doze horas,  encontraram  o Gigante junto das criancinhas no mais belo jardim   que jamais   haviam  visto.

                                               (TRAD.. DE CUNHA E SILVA  FILHO)

NOTA: (1) Apud CAMPOS, JR.J. L. Springtime. 2nd. revised  edition. São Paulo: Companhia Editora Nacional,  1940, p. 158-161.


segunda-feira, 4 de março de 2019

UM COMENTÁRIO A UM AMIGO SOBRE O GOVERNO LULA



                                                                                      CUNHA E SILVA FILHO


         Em Lula votei no primeiro mandato e parei aí. Todavia, no segundo mandato, se não incorro em erro, houve a notícia-bomba do maior escândalo de corrupção político-institucional nunca antes ocorrido na história brasileira: o Escândalo do Mensalão - a revelação de um esquema ardiloso e maquiavélico urdido no seio e no centro nervoso do partido dos trabalhadores, o emblemático PT.
      Corrupção sistêmica, através da prática de propinas, que infestava o ambiente do Palácio da Alvorada e tinha como destinatários, em mão dupla, as grandes empresas conluiadas com o governo federal e realimentadora de um estado nababesco de assaltos ao Erário Público por meio de descaminhos propiciados pelas mil maneiras de desvios de dinheiro público.
       Aí foram apontados, nas investigações da Polícia Federal, membros-chave da política petista, como o paradigmático Jose Dirceu, Genoíno et caterva. Foi, em síntese, essa realidade da politicalha petista que me fez, daí em diante, um recorrente crítico das falcatruas do petismo posto que eu reconheça que, no primeiro mandato, Lula tenha empreendido substanciais e importantes mudanças na vida e destino de muitos brasileiros que se encontravam em estado de extrema indigência.

       Por outro lado, o meu repúdio às desídias praticadas por PT se deve essencialmente a desse desvio abissal da moralidade e da ética na condução do Estado Brasileiro. Quero, entretanto, deixar bem claro que não me agrada saber o que venho observando no atual governo Bolsonaro, sobretudo no campo das mudanças da economia, da política externa e de uma tendência à militarização de altos cargos da administração federal.Esterei atento a esse governo em princípio de mandato.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

SUBJETIVISMO E INTROSPECÇÃO: O BRASIL DE HOJE



                           CUNHA E SILVA FILHO

         Se me posicionar  de forma  não acadêmica,  não  distanciada  e até apolítica,  ou seja,  descambando para a subjetividade,  talvez me seja por enquanto  mais  cômodo, mas nunca menos   próximo do que pretendo  neste artigo. Às vezes,  um desabafo  vale  por  cem páginas de um ensaio, assim como se diz que, na ficção,  existam mais  verdades  sobre  um pais do que  as notícias  frias de um jornal.
        Se, por exemplo,  em diálogos  abertos  entre duas pessoas que se estimam, ainda  que com  ideias  bem divergentes,  pode-se  encontrar  a expressão  de hipóteses  muito   boas e caminhos  para soluções de  agudíssimos  problemas nacionais, é bem provável  que   pudéssemos   viver  melhor  aqui no país.
       Um governo  novo pressupõe trazer  novas e melhores  soluções desde que essas  não se afastem  um palmo  da dignidade  pública  e  do enfrentamento  dos  problemas   espinhosos. E o Brasil  figura nesta situação em que um Presidente já tomou  posse, e situações  reprováveis  já se mostrem   contrárias  aos pressupostos   de mudanças para   melhor e num sentido de resgate de valores  autênticos  nos setores  mais  vitais para que um país seja sério  nas suas propostas  de campanha eleitoral.
       No entanto,  medidas  de mudanças  substanciais que implicam  profundamente  na sorte  de gerações mais próximas já se estão desenhando, ou melhor, já estão  desenhadas para o bem ou para  o mal, visto que  nenhum  economista  tem a bola de cristal  para  vaticinar  como poderiam  fazer alguns  profetas  do Antigo  Testamento ou  certos  poetas,  inclusive nacionais,  o que  objetivamente  vai    ocorrer daqui a uma década ou mais tendo em vista que  a conjuntura mundial, no campo  da paz,   não é das melhores e  problemas vários   podem ser  vislumbrados. A Economia não é uma ciência exata, semelha muitas vezes,  a um   previsão  meteorológica  que nos pode   surpreender  em seus resultados.
    Ao  elaborar-se um  plano, diga-se,  da Previdência  Social,   a equipe de técnicos  e especialistas  na área encarregada  dessa tarefa  árdua  e complexa,  me parece  que está  corretíssima  e  laborando  em terreno  por demais  afeto  aos seus conhecimentos  e epistemologias, entretanto,  carece  assinalar  como   fundamental  nessa tarefa  não somente  permanecer  no seu território de ação mas  não esquecer   as razões   profundas que atrás  das precárias e alegadas insuficiências crescentes de recursos  pecuniários  desencadearam  a “tragédia”  da Previdência brasileira.
       Os brasileiros somos   um povo  com memória  curta  e  mais chegado a   pândegas. Esquecem,  complacentes,  que,  nos últimos governos federais,    tem havido um dado inquestionável que mexe com as finanças  gerais da República:  os faraônicos e sucessivos  gastos  públicos   com  mordomais, regabofes, viagens presidenciais suntuosas  ao exterior, acompanhadas de  régias  comitivas  presidenciais, congressistas,     ao exterior,  em que os   famigerados  cartões  corporativos   corriam soltos  e ledos nas mãos dos altos escalões palacianos.
    E, last but not least,  há um dado adicional   - um grande vilão – acoplado  àquela gastança pantagruélica   sem medidas  nem freios – que é a ruptura da maior  barragem  nacional: os  pustulentos  e criminosos rejetos tsunâmicos da corrupção tanto aberta quanto  sub-reptícia,  cancro  nacional   surrupiador contumaz    dos cofres públicos   de braços dados com  a  geral e irrestrita  avidez    de capitalistas  de macroempresas  a serviço  do  governo federal e até, todos sabemos, com escritórios  mantidos  a fim de  alimentarem a  politicalha   com  a prática  insidiosa  da propina  para dentro do Planalto e para as matrizes das macropempresas tão  conhecidas após as exitosas  investigações  da Polícia Federal.
     Ora, senhores, com esse desperdício vultoso e recorrente de  dilapidadores dos Erário Público  não existe país que aguente e resista  como se fora um  navio  posto a pique   em decorrência de um comandante    inescrupuloso e falaz. O desperdício de verbas governamentais em   setores  vitais ao  bom funcionamento da máquina administrativa  dos governos federal,  estaduais e municipais, quer por peculatos, quer  por  má gerência, é outro  fator  poderoso  da sangria  financeira que tomou conta  da   res publica.
     Governadores  inescrupulosos,  como o Sérgio  Cabral e ou outros destruíram a estrutura  de seus governos, mormente o  primeiro,   com  consequências perversas aos seus habitantes e aos servidores   estaduais e até municipais.  É como se, de repente,  o país acordasse  com  a falência  geral  dos seus governos    apontando para o suposto  mastodonte,  que é a Previdência  Social – o maior  bode expiatório  -      escolhido  pelo  governo federal  para  redimir  todas as gastanças faraônicas, os “malfeitos”  dos  políticos e governantes   dessas plagas brasílicas.
      Para concluir, não é a Previdência Social o maior  problema  enfrentado  pelo país. Os maiores  são a desastrada   política de segurança  pública e seus efeitos   no incremento da   violência  sem  limites,  a educação  pública  em decadência, os transporte  de massa que maltratam diariamente milhões de usuários pelo  país,  sobretudo no eixo Rio–São Paulo,  e a saúde desbaratada    pela incompetência  e  desídia  das autoridades   nos três setores  públicos. É nessas  razões abissais que vejo    que os responsáveis pelas  mudanças na Previdência  primeiro  deviam cuidadosamente  meditar e  levar em conta, não o caminho  inverso  da frieza  e objetividade  dos técnicos e economistas  de plantão, mas  a frágil  realidade   de um sociedade  em agonia.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

RESPOSTA A UM TEXTO DO ESCRITOR JOÃO PINTO: O CASO DA REFORMA DA PREVIDÊNCIA SOCIAL BRASILEIRA

                                                                                CUNHA E SILVA FILHO
       Triste país este, João Pinto, que propõe uma nova Previdência Social aumentando os anos de trabalho e,como V.bem assinala, aumentando alíquotas de descontos nos salário já baixos.
         O que esses técnicos estão fazendo, com ares de autoridade e de donos da verdade,não vai dar equidade alguma entre classes de funcionários públicos nem trabalhadores privados. É apenas um bem arquitetado sistema de engabelar a sociedade a promessa incerta de que vai melhorar a vida de quem quem trabalha hoje e no futuro.
          Ora,ninguém pode projetar algo dessa natureza num país instável financeiramente como o Brasil.Aqui só são estáveis os privilégios e regalias, os quais,vão continuar na mesma farra de antanho.Ora, essa urgência de Reforma nesse setor se deve à monumental dilapidação do Erário Público com as rapinagens sucessivas praticadas em governos anteriores,sobretudo durante o lulismo, o dilmismo e o temerismo
          E agora esses malandros e malazartes vêm pôr a culpa da derrocada deficitária da Previdência nos gastos que esta última alegam ter sem comprovação fundamentada.Os governos citados foram tão criminosamente perdulários que tudo ruiu financeiramente como se fora uma dessas barragens que já romperam em Minas Gerais enlameando de ilicitudes os estados, algumas prefeituras e sobretudo a gastança à tripa forra do Estado Brasileiro, mormente nos três poderes, ou seja, gastos gigantescos com salários dos seus altos escalões e a dinheirama de uma corrupção sistemática devastando os cofres públicos sem dó nem piedade.
        Ora, todas essas desídias recorrentes desembocaram num bode expiatório: a Previdência Social. O governo federal (inclusive o que mal começou) sem confessar a sua culpa e a sua irresponsabilidade, engendrou esse mastodonte - a propalada dívida crescente no setor previdenciário.
      O pior é que a sociedade seja quase unânime em concordar que tudo o que o grande Leviatã afirma seja a verdade dos fatos ainda que escamoteando os verdadeiros vilões da suposta quebradeira nesse setor.Só Deus sabe como vai ser esse futuro de nosso país.Já não estarei aqui para confirmar o que agora declaro e exponho. 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

ACHAQUES À BRASILEIRA




                         

         Muita coisa que logo no início deste ano  no meu país está  sucedendo  não me deixa  tranquilo. Uma delas poderia citar em primeiro lugar:  o rompimento  da Barragem de Brumadinho, em Minas Gerais. Mais  uma  grande tragédia de muitos mortos e poucos culpados.
        Desastre dos piores que  já aconteceram  entre nós,  país sem vulcões  nem terremotos, mas  agora,    se revelando   como  uma terra  capaz de   ser castigada por furacões com ventos de  mais de 100 km de velocidade  trazendo  mortes à Cidade de São Sebastião,  Padroeiro do Rio de Janeiro.
       Agora mesmo,  veio,  de lambujem, a esses maus momentos  brasileiros, essa tempestade  raivosa   deixando vítimas fatais  pela cidade que viveu  também  maus bocados de  perigos  e deslizamentos  nos locais  tanto  onde vivem  pobres quanto   nos lugares em  que  moram  os abastados   dessa país  de violência  extrema,   insegurança   em tudo  e carência  geral  em vários setores  da vida nacional ou seria nacionalista?
         O  país precisa urgentemente de ser  benzido pelo Papa Francisco. Está fazendo falta agora  um poema de Manuel  Bandeira (1886-1968) ou uma crônica de Drummond (1902-1987); do primeiro,  pedindo  uma poema-prece a Deus e a São Sebastião que livre o Rio de Janeiro  dos riscos inúmeros a que  tem andado sujeito; do segundo, pedindo uma crônica atualizada (daquelas boas que costumava estampar  no velho Jornal do Brasil, o famoso JB,  para que o  Presidente enfermo   logo se restabeleça  e consiga  dar  um kick-off de verdade  no que concerne às promessas de campanha  de limpar o  país da sujeira  e lamaçal  morais   em que ainda está afundado e dar uma mãozinha firme   em mudanças  que não deviam ter o dedo sujo   de muita gente   de Brasília  ainda aferrada  aos males  de nossa   crônica  miséria   republicana.
     Outra coisa,  o Presidente deve  chamar   a atenção  dos seus ministros  ligados à área econômico-financeira  para o fato de que  as mudanças  na vida dos trabalhadores  brasileiros   não sejam feitas  a toque de caixa  achando  que toda  a nossa   situação   financeira    seja  culpa  dos gastos com  os milhares   de aposentados  que  ganham salários irrisórios, ao passo que o Poder Central, digo,  os  altos funcionários da República  (políticos, ministros, ex-presidentes da República, presidentes de autarquias ou órgãos públicos,   diretores etc.) quando aposentados, viverão com  vencimentos    principescos e ainda contando com assessores, carros  renovados,    seguranças particulares    e outras mordomais  palacianas. Isto só para citar no caso de ex-Presidentes da República).
     Cumpre lembrar aqui  que a maioria desses potentados e igualmente alguns menos  potentados  saídos  dos  poderes têm  várias aposentadorias acumuladas e nem é  necessário  nomeá-los porque o  povo brasileiro consciente  sabe quem são todos eles.
    Com que autoridade  vem a  público um  banqueiro  agora  virado  superministro  das finanças  federais  dizer que  é tempo de  acabar com as desigualdades? Então,  esses potentados  ou menos potentados  também  se igualarão  aos barnabés? Todos ganharão,  no máximo,  o teto  de, em ganhos atuais de aposentados da Previdência Social,   uns R$ 5.000,00 reais? Que é isso, companheiro? Um general vai, na reserva, ganhar  esse teto  da Nueva  Previdência Social,  senhor superministro?
    As mudanças no campo da   aposentadoria,  pública ou privada,   não podem ser  iguais porque há funções diferentes e em níveis diferentes.  E o  empregado, reserva de mercado,  em tempos eufóricos de  neoliberalismo,  vai ter condições de  poupar em alguma banco  privado  ou mesmo público se ele mesmo  com o que  ganha  com o suor  de seu rosto mal terá  condições  para se sustentar mensalmente? 
   Senhor superfinancista, o que   me garante,  em futuro médio ou  distante, que  o país  atingirá certas metas de melhoria   anunciadas   hipoteticamente agora   como se os economistas   dispusessem de um  bola de cristal, quando se sabe que, em economia,  nada é  tão  instável  em termos de  prospecções, sobretudo num mundo  econômica e financeiramente globalizado?
   O que  na realidade o pais precisa  é de uma mudança radical, profunda, incomensurável,   na ética  de seus  políticos  e de todos  os seus governantes, em escala de alto a baixo. O que o país  com urgência urgentíssima  necessita  é de  seriedade com a  res publica,  com  o dinheiro arrecadado  pelo Tesouro Nacional  e com  o  seu uso  digno  para  todos os setores   que estão  em colapso: hospitais,  segurança pública,   educação pública de qualidade nos três níveis, com professores valorizados,   transporte  coletivo moderno  e  confortável.
   Faça, senhor superministro, uma mudança real com  um corte mortal às  pantagruélicas   mordomais  do Executivo,   Judiciário  e  sobretudo Legislativo.  Se querem  moralizar as finanças do pais,  que  se realize  essa  mudança apontada  acima  e  reduzam  as aposentadorias acumuladas   no setor  público. Com esse  corte  gigantesco,  senhor  superministro,   o país  há de   ter um alívio   e dinheiro  vai sobrar  para, assim, realizar uma  séria  e justa mudança  na Previdência  Social.
       Uma Previdência Social  sem  desvios  de dinheiro, sem    peculatos, sem desídias,    sem funcionários  fantasmas aposentados,  sem  corrupção  dos seus funcionários   em todos os níveis. Só um  Lei  poderia ser  uma nova emenda  na Constituição  Brasileira e seria nesse  teor: “Acabem-se de vez com  as regalias astronômica  palacianas  dos governos federal,  estaduais  e municipais. Não fiquem  jogando a culpa toda da famigerada   quebradeira     na Previdência Social   que não é  boa   -  reconheço -,  mas não é a vilã protagonista de nossos males  brasílicos.

domingo, 27 de janeiro de 2019

EDUCAÇÃO E LÍNGUA ESCRITA



Cunha e Silva Filho


     Dois problemas momentosos almejo discutir sumariamente aqui nesta página: a) o uso da língua portuguesa dito culto; b) a educação do usuário da língua escrita. É apenas uma artigo, um repto, um desagravo a uma pessoa querida, sem pretensão alguma de escrever um ensaio linguístico, gramatical ou filológico. 
    Porém, pretendo tecer algumas considerações de natureza ética e linguística quanto a práticas imoderadas e deselegantes de usuários do Facebook ou de outras mídias de, vez por outra, particularizando uma pessoa de méritos incontestes e de abalizado conhecimento de uso do vernáculo comprovado em esmerada argumentação do seu discurso técnico-jurídico e até literário e devidamente comprovado com a sua sólida formação acadêmica em instituições de ponta no país. 
Desnecessário nomear aqui o elevado nível de competência entre os seus pares na área de atuação intelectual e profissional. Não vou exibir tampouco os títulos e o rico curriculum da pessoa atingida por ser desnecessário e por ser o autor um estudioso de primeira linha.
      A qualquer usuário do Facebook e quejandos não cabe a leviana pretensão de arvorar-se em sair por aí “corrigindo” a esmo textos alheios visto que, se assim proceder, dará um exemplo de absoluta falta de educação e de desrespeito com o autor do texto, principalmente sem ter a mínima intimidade ou privacidade com o autor do texto criticado quanto a usos da língua escrita ou mesmo oral. 
     Palpitando às cegas sem ser autorizado e sem a vênia do autor, em questões gramaticais envolvendo mais do que um mero uso normativo ou culto do vernáculo é se expor ao ridículo e dar atestado de ignorância extrema de uma boa educação exigida no relacionamento social. Melhor seria afirmar mais categoricamente como um péssimo exemplo de grosseria com alguém que não conhece. A querela do certo ou errado foi praticamente alijada da visão avançada dos linguistas mais atualizados em nosso país. Já se foi o tempo do certo do errado em assuntos de linguagem nos moldes do velhusco gramático e filólogo luso Cândido de Figueiredo, entre outros, inclusive brasileiros.
   Tenho observado, no espaço do Facebook, que muita gente anda se comportando com se fosse detentora do conhecimento da língua portuguesa e é, nesse sentido, que o presente artigo tem a sua razão de ser e se torna oportuno. Procurar catar solecismos e outros vícios de linguagem em usuários virtuais não é o procedimento correto. Há outros modos de se corrigir alguém sem constrangimento que cometa um deslize gramatical, uma erro de concordância ou um uso controvertido do infinitivo flexionado ou inflexionado. – questão, de resto, controvertida em muitos ângulos, porquanto não só está atrelada ao fato meramente gramatical, mas à estilística fônica, por exemplo. 
     O conceito de erro gramatical, de certo ou errado, mudou drasticamente após os desenvolvimentos da linguística no mundo e no país. Após estudos apurados no campo da sociolinguística, nos conceitos de níveis da fala, de registros linguísticos. Tudo passa a ter um novo enfoque a me lembrar aquela observação do gramático Brian Kelly ainda pertinente aos nossos tempos:[...] “Se as regras de gramática diferem do uso culto, então a gramática tem que mudar, pois a gramática foi construída para a língua, e não a língua para a gramática.(An advanced English course for foreign student. London: Longmans, Green and C., 1940, p. 352.).[Tradução minha]
    Por conseguinte, o vício errôneo de enxergar erros gramaticais nos outros não é recomendável a uma pessoa instruída e polida. Uma derradeira observação, não precisamos arrolar tantos autores mais avançados na questões de correção gramatical e uso do português. 
Recomendo um pelo menos, que aborda tais questões com alta competência e atualidade: Marcos Bagno, Veja dele o opúsculo Preconceitos linguísticos - o que é, como se faz. 52ª edição. São Paulo: Edições Loyola, 1999.

sábado, 5 de janeiro de 2019

NATHAN SOUSA: UMA POETA EM ASCENSÃO



CUNHA E SILVA FILHO


Não se pode negar ou ocultar fatos concretos e realidades palpáveis, mas tudo está levando a crer que a produção vertiginosa do poeta e ficcionista Nathan Sousa, natural do Piauí, se encontra em franca ascensão. A princípio. o julguei um tanto narcisista ou autocentrado porque vivia falando de si, dos seus projetos sucessivos, nos dando a impressão de que era uma máquina de fazer literatura que veio para se dedicar de corpo e alma à nobre atividade da poesis, com a qual divide as suas incursões no campo da ficção e do ensaio breve e atilado em que tem a destreza incomum de fazer belos perfis sobre autores/obras em panorâmicas que dão gosto de ler.
Ele é desses autores que não dão trégua ao tempo, transformando este em novos trabalhos de sua lavra incansável. Procurou ler o máximo em reduzido tempo do que seja melhor da grande literatura, dos grandes poetas e ficcionistas, até mesmo das respeitadas obras de história da literatura universal. Parece querer devorar o tempo exíguo em tempo de antropofagia literária assimilando rápido e se inteirando célere no meio ainda hostil aos novos quanto é a vida literária e cultural brasileira.
Já lhe saíram da sua pena, pelo menos uns 8 livros. Conquistou, por quatro vezes, prêmios da UBE, foi finalista em concursos literários, como o famoso Jabuti e, agora, foi também contemplado entre os finalistas de um concurso literário de peso, o I Prêmio Internacional de Poesia Antonio Salvado, com a obra poética O tecido das águas, reunindo uns 400 concorrentes de outros países e em concurso destinado à obra de estreia em português e espanhol.
Natan Sousa atende bem àquele pensamento em inglês que li alhures: “Cuide bem dos seus talentos.”´É assim que, a meu ver, ele faz com o que foi dotado literariamente. Digo isso porque geralmente no Piauí, por exemplo, há bons e grandes talentos poéticos que são prejudicados por falta mesmo de dedicação e de continuidade a seus projetos literários. Ora, uma poeta de raça tem que sustentar-se no tempo e no espaço. Faz seu percurso até onde lhe é possível escrever mas não desiste nem desanima diante dos reveses inerentes à própria condição de ser poeta, a não ser que seja tolhido pela morte ou por alguma doença que impossibilite o vate a escrever mais, tal como se deu com o poeta-mor do Piauí, Da Costa e Silva ( 1885-1950).
Ainda não li a produção poética de Nathan . Entretanto, só com a leitura de uma de suas obras, Dois olhossobre a louça branca (Guarantiguetá,SP.: Penallux, 2016, 86) que resultou numa resenha minha sob o título “Diálogo com todas as coisas, objetos e seres: a poesia de Natan Sousa”, de certa forma, pude fazer algumas considerações preliminares sobre o poeta piauiense, campeão de concursos. Aproveito o ensejo para inserir aqui a referida resenha, a qual já foi lida em alguns países importantes do mundo:
DIÁLOGO COM TODAS AS COISAS, OBJETOS E SERES: A POESIA DE NATHAN SOUSA
CUNHA E SILVA FILHO
Com pouca informação sobre o autor, o poeta piauiense Nathan Sousa, 43 anos, sem lhe conhecer a produção até agora editada, me agarro a seu mais recente livro publicado, Dois olhos sobre a louça branca(Guaratinguetá: Penalux, 2016, 85 p.). Essa editora vem publicando outros poetas e ensaístas, alguns dos quais conheço, como Luiz Filho de Oliveira, poeta piauiense, e Valdemar Valente, ensaísta.
Residindo no Rio de Janeiro há tanto tempo, não tenho condições de acompanhar tudo que tem sido publicado no Piauí, sobretudo seus autores mais jovens ou menos jovens..O que me vem ao conhecimento é quase por acaso. As minhas referências aos novos autores vou buscar nos poucos historiadores literários de que o Piauí dispõe, como Francisco Miguel de Moura e Herculano Moraes.
Como diria os mais velhos até do que eu, de um assentada li o livro em exame. Leitura rápida que me impulsionava a ir adiante. Foi o que fiz e posso adiantar: não foi tempo perdido. O jovem poeta como aconteceu com Luiz Filho de Oliveira, me surpreende por várias razões, (com a sensação estranha e satisfação com que li o poeta Elmar Carvalho nos anos 1990 e quando lhe analisei a obra poética nos anos seguintes), em especial pela qualidade inquestionável de seus versos.
Eu tentei ver se na obra de Nathan poderia encontrar uma imperfeição, seja de natureza da linguagem literária, seja da própria elaboração da sua fatura poética, a meu singular, orignal, na qual, a palavra, a frase, a estrofe e o poema inteiro vão-nos deleitando pela leque de situações formais e humanas levantadas pelo autor. Aposto na consagração desse poeta e logo logo na sua visibilidade fora dos limites do Piauí.
Nathan Sousa nos enseja uma poética que muito se aproxima do âmbito filosófico, sem, no entanto, desprezar a concretude da vida, a realidade quotidiana e seus problemas e impasses, os objetos inanimados, a flora, a fauna, coisas em geral, i.e. o mundo natural e o mundo cultural, Tudo no livro parece querer atingir uma dimensão universal. Em Nathan nada lhe escapa ao que se convenciona denominar de mundo real e mundo abstrato. Luz, sombra e mitos. Por isso, sua poesia é tão invadida por objetos, coisas, seres humanos ou irracionais, pela frequência alusiva, ou seja, pelo intertextualidade, quer endoliterária, quer exoliterária (Cf. Vítor Manuel de Aguiar e Silva. Teoria da literatura. 8 ed. 19ª impressão. Coimbra: Livraia Almedina, 2011, p. 629-630), um traço muito comum nos poetas de hoje e já anunciado, conforme amiúde tenho repetido, desde a previsão do crítico literário inglês I.A. Richards (1893-1979).
Optou – seria o termo certo para uma poesia constelada de signos, metáforas e símbolos? - por um poesia de corte contraditoriamente aristocrático, na qual os verso resultam de poderosa imagística que toca em muitos ângulos do se podia rotular de grande poema em todas as épocas. Contudo – cabe ressaltar - o adjetivo “aristocrático,” aqui particularmente empregado, não tem nada a ver com um poesia tradicional parnasiana ou neo-parnasiana. Longe disso. O adjetivo refere a um tipo de poesia inapelavelmente pós-moderna no sentido mais lato possível. Quer dizer, uma poesia que supera as vanguardas brasileiras a partir das mudanças efetuadas pelo Concretismo de 1956 e outras formas de vanguardas pós-concretistas. Nathan faz parte de um grupo de poetas que pertenceriam a uma fase na qual os ismos datados forma superados e, em lugar dele, a poesia teria em cada poeta uma forma individual de composição. Não significa por isso que há nesses novos poetas que estão surgindo no pais a anarquia da forma e de temas, mas um percurso poético pessoal que tenha recebido as mais diversas contribuições tanto da tradição literária quanto das diferentes vanguardas pelas quais passou a poesia brasileira..
A poesia de Nathan Sousa, em alguns aspectos formais e de comportamento com a linguagem, me lembra outro poeta brasileiro que conheci muito, o Jurandyr Bezerra (1928-2014), autor de um único livro publicado, Os limtes do pássaro (Belém: Editora SEJUP, 1993), bem recebido pela crítica especializada. Tinha prontos, pelo menos oito livros de poesia a serem editados. Bezerra nasceu no Pará e, em seguida, radicou-se no Rio de Janeiro. Recebeu prêmios e teve poemas traduzidos para o italiano e eu mesmo verti um poema dele para o inglês, de título “Poema para Izabel,” extraído do livro já mencionado, Os limites do pássaro.
Como Nathan, ostenta uma poesia de fino senso de beleza, onde o sentido do poema se encontra no próprio fruir da linguagem e dos seus recursos imagéticos, em sua potência criativa e no seu substrato profundamente humano além de musical, visível influência dos simbolistas.
Jurandyr Bezerra foi leitor voraz dos grandes poetas não só brasileiros (Cecília Meireles, Cruz e Sousa, Murilo Mendes, Fernando Pessoa), mas um do porte do expressionista alemão Georg Trakl.(1887-1914). Tinha especial interesse pela leitura de respeitados ensaístas, por exemplo, um Mário Faustino, um Benedito Nunes, um Antônio Olinto, um Antonio Carlos Secchin, um José Guilherme Merquior.
Recordo vivamente que Jurandyr citou especialmente o último dos citados poetas no parágrafo anterior, da mesma maneira que gostava de citar Cecília Meireles, os simbolistas. Foram, assim, uns mais outros menos, os que, segundo ele, lhe ensinaram finalmente o que é poesia depois de tanto tempo e canseiras de releituras, porque, acrescentava ele, a poesia é também um aprendizado do domínio técnico – uma espécie de epifania, uma porta aberta aos olhos espantados dos que amam e querem para si a entrada firme e certeira do sentido da linguagem e da matéria poética que se traduz, ao fim, em criação verbal e de apreensão do que seja o grande verso, a grande poesia.
Jurandyr, tal qual todo bom poeta, passou a vida inteira lendo o que havia de melhor na poesia universal tanto de brasileiros quanto de estrangeiros. E como sabia ter a vocação e a maneira cavalheiresca de ofertar obras da grande poesia aos amigos! Uma desta ofertas foi uma antologia de poetas expressionistas alemães.
O livro Dois olhos sobre a louça branca, de resto, de título insólito e enigmático, compõe-se de quatros partes, respectivamente intituladas “Ogiva de Vidro” “Lágrima de quartzo,” “China,” e “Estuário / Saliva.” As quatro partes reúnem cinquenta e um poemas. É obvio que, numa simples resenha, não daria conta de um comentário abrangente o suficiente para apreender a riqueza facilmente detectável em seus poemas, em que a linguagem da poesia é medida milimetricamente e se encaixa no tema eleito.Esse frêmito também, em relação a novos poetas do Piauí, experimentei na leitura da poesia de Sonia Leal Freitas, O cedro do Éden (2002) e na poesia satírico-social mas também estruturalmente refinada de Luiz Filho de Oliveira na obra Das bocadas infernéticas (2016).
Não seria neste espaço que adensaria minha análise da poesia de Nathan Sousa, mas me impulsiona o desejo de tecer alguns breves comentários gerais do livro. Tomemos, por exemplo, três poemas, entre tantos no livro, que me suscitam a curiosidade crítica: “Eu e a Cidade” (p.32-33), “Sabor”(p.75) e “Ceia de cegos” (p.85) e
O primeiro escolhido retoma um tema já poetizado por outros autores piauienses, um deles sendo Paulo Machado. Todavia, o tratamento entre este o de Nathan é bem diverso e reflete outros tempos poéticos. Nos poemas de Paulo Machado sobre Teresina a poesia, num lirismo distanciado, se entronca com a denúncia social e o testemunho do tempo histórico, enquanto que em Nathan Sousa existe uma relação mais íntima entre o sujeito lírico e o tema de Teresina, ou seja, entre o sujeito lírico e o objeto amado complicado desta vez pelos tempos de agora, líquidos e apressados no torvelinho da pós-modernidade impessoal e brutal.
O poema é uma mini-autobiografia do poeta que se debruça corajosamente sobre o seu tempo presente e o passado. Fala do presente da sua cidade, Teresina, em constante metamorfose. É um belo poema, um dos melhores do livro costurado entre a saudade dos entes queridos e as transformações que o amadurecimento vai exercendo sobre o homem-poeta: “retorno à cidade onde nasci/e onde vi meu pai e (pouco depois) minha mãe partirem/para sempre”.(p.32, primeira estrofe).
Nesse poema há um controlado halo de nostalgia indefinida do que foi a cidade do período existencial do autor por ele mesmo situado: “Será esta a Teresina/que se abriu em cores e vozes/ naquele distante ano de 1973? (p. 33, estrofe 7). É evidente que essa sensação de estranheza sentida por alguém que se afastou da sua cidade berço é compartilhada por outros pessoas, até pelo “homem comum,” porém sobremodo pelos artistas, poetas, escritores em geral, gente com maior sensibilidade de transmitir emoção e beleza através da comunicação literária.O poema é um grande mergulho no sentimento da saudade contida pela emoção controlada pela mensagem sintética tão afinada que deve ser com o ato poético e pela consciência e razão metapoética.
No poema ‘O sabor,” existe um “topos,” o da imagem da “louça branca” que, por sinal,faz parte do título do livro. Ele, portanto, é recorrente, aparece aqui e ali na obra.Não é meu intuito aqui me éter neste sintagma ou no lexema “louça.” Sua hermenêutica será certamente uma das linhas de força do poema. Nathan, tanto quanto outros poetas de hoje, usam de alguns artifícios que já foram empregados por poetas da modernidade, como um Vasco Graça Moura (1942-2014)poeta português, ou um mais antigo, e o norte-americano e.e.cummings (1894-1962). Eles usaram letra minúscula para nomes próprios, assim também as empregaram depois de um ponto. Outra traço tipográfico semântico-visual igualmente encontrado na poesia de Luiz Filho de Oliveira) é, entre parênteses, incluir um enunciado alusivo ao poema ou mesmo de sentido enigmático ou indecifrável.
Cumpre não esquecer que a poesia atualizada de Nathan Sousa tematicamente se irradia para múltiplas direções, não somente para o olhar dirigido aos objetos, coisa e seres, segundo assinalei, mas para outras questões que embutem no poema voltadas ao universo das artes, da temas sociais e globais, Combina os mundos ocidental e oriental. Desloca-se como uma espécie de globe-trotter.
Há uma visada para uma abrangência universal atingindo, além disso, outros espaços naturais, a água, o líquido, os pássaros (frequente nele também é suas referência a essa espécie animal. Voltemos ao poema “Sabor.” Há sempre um segundo ou terceiro ou mais sentidos num só poema que converge para uma opacidade de sentido abrindo-se ao hermetismo e a um esteticismo acessível a poucos iniciados.
Neste ponto, sua poesia é muito mais sofisticada do que foram os poetas da geração-70, com o mimeógrafo, com alguns poetas reunidos em antologia a cargo de Heloísa Buarque de Holanda, antologia que se tornou, por assim dizer, um clássico, sob o título de 26 poetas hoje ou mesmo com os da geração-90, que teve duas edições (Editora Aeroplano) e mereceu uma outra antologia intitulada Esses poetas, também organizada por Heloísa Buarque de Holanda.
No poema “sabor” é evidente uma dicotomia entre o abismo de uma hecatombe natural insinuada pelo binômio “goela e o big bang e um desejo meio que incerto, a despeito do risco, do recurso à poesia. O poema se inscreve entre o disfêmico ( big bang, “mefistofélico”, “combustão desavisada” e “armas” e o eufêmico ( “louça branca,” “canto de louvação,” “educada”). O poema não afirma abertamente, se camufla semanticamente.
No poema “Ceia dos cegos,” o derradeiro do livro, que exibe uma epígrafe de escritor português Miguel Torga, está associado à religiosidade cristã na acepção do conhecimento atento do Novo Testamento, do qual é citado uma frase de Mateus (não sei por que o poeta grafou em inglês mathew, quando poderia fazê-lo em português).
As referências ao “mito” e ao “sono da caverna” são bem indicativas das intenções oblíquas (se é que há intenções num poema) da natureza do tema do poema. Apontam para muitos questionamentos de cunho mitológico, social, estético e filosófico. A citação de Mateus, por sua vez, reenvia ao topos dos “olhos” e da “louça branca” que formam o título da obra. O poema “Ceia dos cegos” não se torna por isso religioso, católico ou de outra denominação. A uma afirmação do sujeito lírico corresponde uma desconstrução. O conceitual se desfaz, muda de rumo e causa estranhamento não pelas aporias existentes como ainda por sua súbita metamorfose semântica, levando àquela opacidade, àquela conceituação de Mallarmé:
(...) referir-se a um objeto pelo seu nome é suprimir três quartas partes da fruição do poema, que consiste na felicidade de adivinhar pouco a pouco; sugeri-lo, eis o que sonhamos. É o uso perfeito desse mistério que constitui o símbolo; evocar pouco a pouco um objeto para mostrar um estado de alma, ou, inversamente, escolher um objeto para e desprender dele um estado de ama por uma série de decifrações.” (apud Tavares, Hênio, Teoria literária. Belo Horizonte: Editora Itatiaia Limitada, 8.ed. rev. e aum., 1984, p.89).
As múltiplas vozes de espaços e tempos diferentes tornam a poesia de Nathan Sousa um poliedro que, num melting-pot, sabe agasalhar ou recusar todos os caminhos possíveis da poiésis – um desabrochar de temas cruciais e de questões filosóficas, que atravessam rios, oceanos, mares, lagos, continentes do Ocidente e do Oriente e tentam encontrar ressonâncias ao seu canto de pássaro ávido para ao menos tornar o nosso universo mais humano e fecundo, onde o lirismo se faz onipresente mesmo em meio à contramaré da contraditória e tumultuada existência contemporânea na Terra.