sexta-feira, 25 de novembro de 2016

"Paradeiro", de Geovane Fernandes Monteiro: uma estreia e uma promessa








                                   Cunha e Silva Filho

     Escrever sobre um obra de estreia de um jovem ficcionista torna a  responsabilidade do crítico  ainda bem maior do que escrever sobre um autor já conhecido e bem  analisado  pela crítica. Desta vez, tenho diante de mim o livro de contos Paradeiro[1]  do piauiense Geovane Fernandes Monteiro.
      Segundo breves dados biobibliográficos  fornecidos no final   do pequeno  volume de contos, o autor, formado em Letras,  escreve também  poesia,  crônicas, artigos e já tem a seu favor alguns prêmios  conquistados fora do Piauí. Fez parte de várias coletâneas pelo país afora, o que é bom sinal  de que o ficcionista pretende mesmo  dar continuidade à sua  produção  e enfileirar-se ao número elevado de outros  jovens  autores  que serão acrescentados  à produção  ficcional  brasileira. O Piauí, quer-me parecer,  já vai  aumentando, ao contrário do que havia no passado com o predomínio de poetas,   substancialmente  o número de ficcionistas na contemporaneidade, de tal sorte que  muitos  escapam  ao conhecimento  de quem  faz  crítica literária, o que é, no mínimo,  natural nas condições hoje oferecidas a esta  atividade que, no passado, foi muito intensa em nosso  vida literária. 
     Para um  estreante, devem-se  acentuar de início alguns  pontos fundamentais de construção ficcional nele evidentes: seu domínio  narrativo, seu poder  descritivo, sua boa  dose de imaginação e sua forte tendência de fundir   a prosa e a poesia de molde a resultar  num texto que envolve  o leitor  num  espaço e tempo  tendentes  a um mundo ficcional  regido  pela força do interioridade do que  o mundo  empírico não é capaz de  dar conta.
      O que a leitura dos seus contos suscita é aquilo que, em poesia, se chama de estranhamento, os formalistas russos  denominam de ostranenie,[2]i.e., desfamiliarização ou desautomatização  dos modos  comuns  pelos quais  percebemos  a realidade e as situações  existenciais. Seu intento é o   de impactar  o leitor. O mundo empírico, a partir desse desvio  literário, assume  uma nova forma  de  “realidade” tanto em  lidar com  o narrador quanto  com a narrativa.  Essa estratégia, no passado, já fora usada por  poetas como Wordsworth (1750-1850)  e Shelley (1792-1822). A vanguarda, na ficção e na poesia,  da mesma maneira fez uso  desse traço linguístico-literário. O mesmo diria da nossa   poesia  modernista  nas suas fases mais   radicais.
        Em Paradeiro tal uso  do estranhamento ocorre não só ao nível  do narrador  mas também  no discurso literário. Ora, ao  utilizar-se de tal estratégia, Geovanne Monteiro  não vai satisfazer  o leitor  habituado ao romance de  corte tradicional,   mais focado  no enredo,  nas peripécias  da narrativa. Desta  forma,  o  horizonte  de recepção da obra  se encolhe para certas faixas  de leitores e não atinge  a maioria. Teoricamente,  se elitiza.
         Outro componente da linguagem que logo  nos chama  atenção é a recorrência  do emprego  da oxímoro ou do paradoxo ao  longo dos  contos.Vejam-se,  por exemplo, “(...) intenso e efêmero,”[3] primeiro conto, “Paradeiro,” da primeira parte da obra, ou “(...) pequenez profunda,”[4] ou estoutro “(...) harmonia da desordem,”[5]conto “Redescobrindo Teresina,” o quarto da primeira parte. Há também na sua linguagem, diria na sua sintaxe literária,   um recurso  bem original, que é o emprego de um sintagma no qual  o adjetivo e o substantivo  guardam um  inusitada combinação  de efeito antinômico a fim de configurar  um  estado  mental ou emocional de uma personagem, segundo se constata nos exemplos “(...) em difícil doçura,”[6] conto “Paradeiro”; “(...) severidade paciente;”[7] “(...) contradição animada;”[8] “(...) pobre  superioridade,”[9] conto “Redescobrindo Teresina.”      
          Tal feição conduz a narrativa  a exigir do leitor  uma constante  reflexão diante de frases em tom sentencioso,aforístico, hermetizando o discurso  literário da mesma  maneira  que,  na poesia contemporânea ou nas antigas vanguardas  do início do século  passado, a   descodificação torna-se antes mais  sentida do que explicitada, como se estivéssemos em pleno estado característico da poesia simbolista, guardadas as proporções,com a conhecida  recomendação  de Paul Verlaine (1844-1896): “sugerir sempre, nomear nunca.”    
         A sensação que passam ao leitor os contos de  Geovane Monteiro  é a de um  mundo ficcional  poetizado ou metaforizado  tanto no sentido  dos sentimentos  bons  quanto  maus ou indeterminados.
         O livro, segundo  aludi acima, se divide em duas partes, ambas com intenções bastante desarticuladoras: 1) “Histórias mal  contadas ou entre o medo e a saudade”. Esta se compõe de quatro contos, o primeiro dos quais  dá título à obra; 2) “De volta ao esboço ou fica comigo.” Reúne três contos.
        Há que considerar, na compreensão geral  dos contos,  o valor  das parataxes relativas à primeira parte da obra,  usadas  pelo autor, com citações de escritores universais, Dostoiévski (1821-1881), Lao Tsé (605 a.C-531 a. C.) e Fernando Pessoa (1888-1935); na segunda parte do volume, são citados, dois brasileiros  de peso, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)  e João Guimarães Rosa (1908-1967) e um estrangeiro, o famoso  Franz Kafka (1883-1924).
        O curioso e ao mesmo tempo  relevante  é o fato de  que em todos aqueles autores  nomeados, sem dúvida um  exemplo de “isotopia narrativa”[10] convergindo, é claro,  para a unidade temática  da obra por inteiro instaurada pelos termos “caminho,” “paradeiro”(que aparece mais de uma vez  na obra), ou equivalentes, “regressam, saída,”extraviados,” “chegada,”  “retorno,” “travessia” Propositalmente ou não, esses termos fazem parte dos enunciados dos parataxes ou epígrafes. presentes, segundo  referi antes, no livro. Por falar em parataxes,  não se deve esquecer  que o autor, no  início da obra,  com sua  maneira desconcertante de escrever, inclui uma nota prévia ao leitor, a qual  corrobora  a natureza estético-composicional  de  seus contos  no livro, sob o título “Aos outros”:Este livro esteve melhor escrito quando da falta de história tão fácil de contar. Apenas leitores inconscientes de sua escrita salvariam minha literatura. Este livro é minha pior bondade, pois – sem paradeiros – descubro o caminho.[11]
   
        Na   análise  destes contos, há que assinalar  em todos eles o componente  estrutural  do enredo, ou de uma trama, que, na  obra,  recebem um tratamento  "contra-ideológico" no que concerne às narrativas   tradicionais lineares ou mesmo  não lineares.
        Paradeiro persegue algum enredo? Conta uma  história? Contém ações? Sim, contudo de forma  subvertida. Assim se dá no primeiro  conto, “Paradeiro,”  uma história que fala de um  homem velho,   já vencido pelo cansaço da vida e do seu passado, Antônio Soares Monteiro. Seu presente é a sua relação com  os filhos, suas netas.  Sua vida consiste em tentar se equilibrar entre as memórias do passado no sítio e a sua pálida  vida presente  de idoso e divorciado.
       O narrador deste conto não  deseja apenas situar a figura do velho  Monteiro no espaço familiar e no  espaço exterior, da rua,  dos conhecidos,  das conversas. O que mais interessa ao narrador  é a vida interior  da personagem  nuclear, captar-lhe os anseios na fase de declínio vital,   as  boas lembranças,  as frustrações e o seu destino  humano e comum.
       Mais um elemento  a se acrescer  a esta personagem  típica do homem  do  interior é a sua  forma de aguardar o derradeiro dia  da vida,  com  a esperança  na vinda de Cristo. A sua morte não se manifesta direta na matéria narrativa.
     Ela vem obliquamente, graças a um   recurso  que, no conto se  repete, não agora com a intenção puramente de se valer da fé, mas com  o propósito de fundir  hedonismo  e alusão bíblica frente à sociedade do espetáculo tendo, por melhor ilustração o esvaziamento de valores positivos, o Big Brother Brazil  que vai  aparecer no  derradeiro conto do livro, “Travessia.”[12] Sobre este conto, voltarei a comentar nas páginas finais  deste estudo.
   No segundo conto, “Dona Maria,” o  narrador-protagonista, na fase adulta,  rememora o seu convívio, quando menino,com uma velha  viúva atravessando  os anos crepusculares de uma vida  simples,  cheia de lições a transmitir ao menino e   que decida, depois,   mudar  de lugar s fim de morar com os filhos até seus últimos dias. O que flagra este conto é a questão  mais uma vez da velhice e de seus percalços. 
      O terceiro conto, “O segredo da vida,” retrata psicologicamente os momentos decisivos de jovem Ada, pessoa simples,  trabalhadora, habitante de um bairro periférico. Os instantes do drama  pessoal mais intensos são  o  de pagar a passagem ao cobrador.  Este é um  ato simples e corriqueiro  de uma passageira  passar pela roleta, porém, no relato,  adquire contornos   de ordem pessoal e moral diante da situação  psicológica da personagem num ambiente fechado de um  ônibus  lotado de passageiros e insinuações. 
       O estar no ônibus era uma forma também  de pensar  fora daqueles limites  do carro e até pensar numa possível maneira de ser feliz dentro ou fora do veículo.  Verdadeira sondagem subterrânea na alma de uma jovem  pobre. Sobressalto e epifania. Alegria e dor. Fantasias de uma vida melhor, confortável   e lembranças   passadas.O ônibus  como metáfora do mundo  interior  intenso de uma  personagem presa à vida e às suas  surpresas e limitações.  Ada,  o nome da passageira, é, sim,  um poço fundo de vida interior. 
         Após descer do ônibus, dirige-se para  a sua casa. Toda esse monotonia de um vida  sem  horizontes no cotidiano urbano assume um alto sentido  do  drama  existencial   inescapável  nos seus segredos e nas suas finalidades de existir no anonimato.
       “Redescobrindo Teresina,” o quarto  conto,  narra a história de um personagem  conhecido apenas pelas iniciais de JS  (alusão kafkiana?),  esperado por um amigo num bar  sem luxo, numa noite de um sábado teresinense. O evolver da narrativa  bate na tecla  da espera do amigo que nunca   chega.
        Enquanto aguarda a chegada do  amigo, o mundo interior de JS ressurge forte e avassalador, indo às  recordações  de Água Branca, cidadezinha  piauiense,  onde viveram ele e  o amigo.  Agora, no presente da narrativa,  estavam ambos  em Teresina,  um cidade já crescida,  desconhecida,   que oferecia   perigos  e novidades.Já eram  estudantes  de universidade. No meio  de um gole de cerveja,  o espaço ao redor  quebrava  algum silêncio com um  música e  os movimentos  de um  jogo de bingo.
       Todo o conto  é essa espera que não chega,mas que  desperta a abertura para o  insondável da  existência humana e para a solidão.
      Até agora,  se vê que a atmosfera dos contos de Geovane Monteiro  é invadida  pela reflexão de  estofo filosófico, de questionamentos e tentativas de  interpretar os sinais da convivência humana,  sobretudo no  plano  familiar  e da amizade.   
        São narrativa pontuadas da “vaguidão,” de silêncios, de medos, de perigos  e de inquietudes  abissais. Ao analisar   estes contos,me vem à mente  algum   modo de  narrar  e de  olhar para o humano e o existencial  de  Clarice  Lispector (1925-1977), ficcionista cuja narrativa mergulha  densamente na contemplação e análise   da vida  e no destino de seus personagens, segundo a perspectiva  de uma certa  hesitação, de  mistérios, ambiguidades,  conceituações metafísicas, silêncios e indefinições,  ou seja,  de uma inconclusa  procura de caminhos,  num movimentar-se  sem fim,   propiciando ao leitor aquela sensação do texto  beirando  o poético e o dramático   da condição  do indivíduo no mundo.
      Um literatura em desespero,  em sofreguidão, em luta interior  contra  o vago e o indecifrável.Na ficção de autor piauiense, só consigo vislumbrar algo  parecido em O.G. Rego de Carvalho (1930-2013) no que tange ao mundo  interior, sombrio  e indevassável de alguns  personagens.
     O texto  se faz sensível,  ao leitor, mas não se lhe entrega de bandeja. Nesta  direção, é significativo, do ponto de vista  metaficional, o seguinte trecho que aparece no conto “A chuva,” que, adiante comento:”Há encantos em não desamparar  o desconhecido, hei de dominá-lo? Se o desafio é a falta de desfecho, o desconhecido é uma revelação.”[13]
         No conto “O alto da montanha,” o tema, de conotação visivelmente simbólica, faz girar seu eixo no desejo estético da personagem que aspira a encontrar a “beleza.” Esta é a sua busca: desentranhar  o belo no que lhe seja possível. É uma narrativa plena de sortilégios. Na procura por  nomear  o que fosse belo, no seu deambular  pelas ruas,  ao mesmo  tempo  se misturavam   sentimentos de liberdade,  de autobeleza   alcançada caso fosse relacionada a outrem,  até que uma amiga lhe oferece   de presente uma “pedra.” Ora, de posse desse objeto, a personagem inicia a sua perquirição  existencial cheia de contradições  e de aporias, tanto  quanto existem em alguns autores, por sinal  o citado Fernando Pessoa.
       Segundo o monumental  Dicionário de símbolos de Jean  Chevalier e Alain Gheerbrant, a pedra, entre outras  sentidos, está relacionada com a alma. A “pedra bruta” se considerava ainda como "símbolo  da liberdade.”[14] No Arcadismo,  o topos da “pedra” está muito  presente no poeta   Manuel da Costa (1729-1789)). Segundo Antonio Candido,  para aquele  poeta:
                
                                                        (...)
a presença da rocha aponta nele para um  anseio profundo de encontrar alicerce,ponto básico de referência que a impregnação da  infância e adolescência  o levam a buscar  no elemento característico da paisagem  natal.”[15]

        Recorde-se também o controvertido  poema de Carlos Drummond de Andrade “No meio do caminho”[16] aqui citado apenas na primeira  linha do verso:”No meio do caminho havia uma pedra...”
       No conto “A chuva” tem-se, sem dúvida,  o ponto talvez mais  evidente da capacidade de o autor  construir  uma narrativa  sem mácula, uma pequena obra-prima no meio de bons contos. O que dizer desse conto? Somente encontro uma definição: é pura poesia. Latejar de sons e palavras poderosamente  tematizando o fenômeno da chuva ressoando nos poros  da existência.O ritmo frenético,uma  enxurrada  harmoniosa  de enunciados  lírico,  num canto  à natureza  tendo por  elemento  nuclear   a “água” – fonte da  existência e equilíbrio na Terra.
          O eu do narrador  se espraia por todos os cantos de um espaço  indefinido. Fala de si e dos multifários contornos  da Natureza-Mãe abrangendo  todo um vasto movimento da paisagem  humana e da força da natureza no seu dinamismo natural e irreprimível,    construindo um caleidoscópio atravessado  pelos corpos, pelos objetos e pelos espíritos dos homens diante dos fenômenos naturais.
        Se há catarse do trágico pode-se asseverar que o há  igualmente no lirismo desta narrativa, na exaltação  assombrosa  dos movimentos,  das mutações,  das ondulações, do solo, do ar, dos ventos,   dos mares, e da “alma,” termo  que aparece reincidente na narrativa  destes contos surpreendentes e, a meu ver,  muito bem  elaborados, elaborados com  plena consciência  estética: “Viu o adeus da amiga no perigo de uma bondade. Ela obedeceu a seus mistérios.”[17]
       Atinge, finalmente, este  pequeno volume o  derradeiro   conto, “Travessia.”  Essa narrativa  retoma, em muitos traços temáticos a notação autoficcional do primeiro conto, a que, de resto,  não fiz  claramente alguma  alusão. Suas referências se alicerçam nas raízes  familiares  do autor e no forte  tom  rememorativo  da figura do velho Monteiro.  Só que no  conto  inicial,  o narrador  é de terceira pessoa, ao passo que, no conto final,  o narrado é de primeira  pessoa. O conto se desenvolve em seções, ao todo,  nove, sendo as últimas formadas  de pequenos  enunciados.
     Entretanto,  é uma conto  independente ainda que  retomando  aspectos  semelhantes do  primeiro conto  do volume. Tem-se, agora,  as lembranças de um adulto  que remontam aos  treze anos. Fala da infância, do início da adolescência, do sentimento do amor juvenil, da competição  pelo  mesmo  ser amoroso, dos sobressaltos, dos medos, das  incompreensões nunca   aclaradas ainda que   pelo distanciamento temporal e amadurecimento do adulto. Tanto é que o narrador, aqui e ali,  recorre à palavra “vagueza” ou suas  derivadas  ou sinônimas (e isso  vale praticamente para o livro todo).      
      O conto  oscila entre o passado e o presente do narrador. Ou seja, as recordações  se tornam  novamente vivas na elucidação do presente do jovem adulto da Teresina  moderna. 
     Durante o fechamento de um sinal de trânsito, no seu carro,  passa em revista  as mais  enternecidas  passagens de sua infância e adolescência no interior, Água Branca,  que, a caminho do trabalho, na cidade de Teresina,  já com  traços de  cidade grande.
    Neste vaivém de reminiscências e sobressaltos  existenciais,  o jovem adulto retorna ao presente tão ao logo  abre o sinal de trânsito. Suas reflexões, sempre  pontuadas pelos elucubrações de  natureza  existencial e vincadas de frases  sentenciosas,  conceituais, se concentra numa espécie de  surda denúncia  de modos e estilos   da vida  moderna, vida pautada pelos meios eletrônicos, pelo sensacionalismo  das mídias,  pelo  universos  virtual. Seu tom é de franca   crítica  à vulgaridade  da sociedade  de espetáculosdisfarces  do marketing e da publicidade,  espaço artístico sem sentido   e vazio.
    A narrativa reveste, então, ares de  montagem,  de  fusão  de realidades  artificiais. O exemplo mais contundente é sua  clara  referência ao  programa de TV  BBB -  fonte de  hedonismo  oco e disparatado conduzindo  massas amorfas e    alienadas. Parte de uma seção, a quinta  do conto, com evidentes[18] vestígios de pós-modernidade, é uma  contundente  denúncia  a esta nova modernidade  que mistura o profano e o sagrado. Daí o clamor  do narrador  invocando figuras de destaque   do Velho Testamento em tempos apocalípticos. É curiosa a  inclusão nesta  seção de  palavras da língua inglesa  que reforçam  o traço  globalizante das imitações midiáticas  ao mesmo tempo que  são  lembradas cenas de horrores   de guerras e mortos, de refugiados. O  texto,  assim   manejado  habilidosamente pelo narrador,  junta  objetos difusos e díspares,   num caldeirão semântico e conceitual  que nos   desconcerta  pelo impacto que pode ter o  leitor  em termos de comunicação literária.
     Não deixa esta seção de ser um belo libelo (valem a rima e o oximoro, por coincidência em consonância com  o espírito geral deste conto) contra os tempos(templos) atuais em qualquer cidade contaminada pelos big brothers  do capitalismo devorador da multidões famintas de consumo e de entretenimento  que estiolam a inteligência da massa de espectadores de programas  de baixo nível da televisão brasileira,  fenômeno que, aliás,  não é privativo  de nosso país.  
     Os períodos finais desta narrativa retomam  as lembranças  do pai e, como  sempre,   as aporias  prevalecem, dando apenas uma  posta final   na hermenêutica  da obra, que não deixa de ser uma epifania  à criação literária: “Retorno a casas, vivo minha pior bondade, pois – sem paradeiro – descubro o caminho.”[19] Este epílogo, em parte,  já se tinha  anunciado naquela  nota “Aos outros.” [20]
      Uma palavra ao  autor  não deixaria por menos: se  a posse dos segredos da ficção aponta para novas  excursões,  que  o autor, sem se desviar  de seu estilo de escrita,  saiba  também  penetrar  no mundo  ficcional   por caminhos  renovados  que não percam  um  pouco  da chama ardente  das grandes lições  das narrativas da tradição literária.  
     Que,  não abdicando  da originalidade de sua escrita,   possa  seduzir  os leitores a veredas  que ainda acenam  a um bom  enredo a despeito dos experimentalismos  necessários  à oxigenação   da narrativa contemporânea. Basta descer um pouco na escala  do hermetismo e  a estrada do imaginário  lhe estará aberta e lhe será  bem-vinda.



 



[1] MONTEIRO, Geovane Fernandes. Paradeiro. Introdução de Perce Polegatto e orelhas do editor.Teresina: Nova  Aliança, 2016, 104 p,
[2] GRAY,  Matin. A dictionary of literary terms.  2nd edition.  Essex:, EnglandLongman York Press, 1994, p. 206.
[3] MONTEIRO,  Geovanne Fernandes. Idem, p. 23.
[4] Ibidem.  .
[5] Idem, p. 75.
[6] Idem, p.20.
[7] Idem, p.25.
[8] Idem, p. 38.
[9] Idem, p. 71.
[10] Apud  PIRES, Orlando. Manual de teoria e técnica literária. 2 ed.rev. . e ampl.Rio de Janeiro: Presença, 1985, p. 288.
[11] Idem,  p. 13.
[12]  Idem, p. 91 -102.
[13] Idem, p. 84.
[14] CHEVALIER,  Jean  e GHEERBRANT. Alain. Dicionário de símbolos. 8 ed.   rev..  e aumentada. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1994. Trad. de Vera da Costa e Silva, Raul de Sá Barbosa, Angela Melim e Lúcia Melim. Verbete "pedra", p. 696..
[15] CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. momentos  decisivos. 6. ed. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, p. 88-89..

[16] ANDRADE, Carlos Drummond de. “No meio do caminho”. In: __. Poesia e prosa. Rio de Janeiro. Editora Nova Aguilar, 1983, p. 80

[17] MONTEIRO,  Geovane Fernandes, idem, p. 84..
[18] Idem, p. 99-101.

[19] Idem p, 102.
[20] Ver  p. 13.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

SOBRE LEITURA





                                     Cunha e Silva Filho


         Este texto, vou avisando-o,  leitor,  não visa a dar  lições teóricas sobre o assunto nem aqui,  no espaço de um crônica, seria  conveniente cuidar de um  tema tão vasto e variado quanto  falar  de leitura.
        É apenas uma conversa livre, descontraída, sem jargão acadêmico. Leitura simplesmente. Leitura de um texto, de preferência literário, ficcional,  poético, dramatúrgico,  memorialístico, um best-seller,  ficção científica, de humor, quadrinhos,  gibi, auto-ajuda,  revistas sobre televisão,  sobre fofocas da vida de  artistas (celebridades),   os policiais, ensaístico, críticos, mesmo um texto de jornal, revista,  um artigo, um editorial,  uma reportagem, uma entrevista escrita, em suma,  um texto que seja bem escrito, criativo,  o que não quer dizer que seja politicamente correto,  normativo,  vernacular.
     Tampouco do assunto estou   excluindo os textos políticos, nacionais, internacionais, regionais nem os históricos,  sociológicos,  artísticos, filosóficos, científicos, geográficos, antropológicos, de religiões, os educacionais,  os didáticos,  os de referências, os gramaticais,  os linguísticos e suas variações múltiplas e  complicadas.
           Com tão amplo espectro de opções textuais, para todos os gostos e tipos de leitores, torna-se árdua a tarefa de saber como  iniciar uma discussão  que pode ter um cunho frívolo ou pode até  ajudar alguém  que precise de uma orientação  sobre o que  ler e o que escrever. 
          Se não cometo um deslize informativo,  acho que livros de orientação  sobre leituras  têm muita voga nos  EUA. De lá talvez tenham vindo  as influências  desse tipo de livro. Eu mesmo li alguns de origem  americana. Os autores são muitos meticulosos neste aspecto. Eu até escrevi  um capítulo de um livro meu (Breve introdução ao curso de letras: uma orientação (Quártica, 2009)  sobre o curso de letras em que dou meus palpites e ainda  remeto o leitor a obras desta natureza. Será,  me pergunto  algo cético, que vale a pena alguém  orientar  leitores ou estudantes, ou  o público em geral  com  algumas dicas  propedêuticas sobre assunto de leitura? O último  livro  discutindo a questão-chave da leitura de que tive notícia foi Como ler livros, de Mortmer J. Adler e Charles Van Doren ( São Paulo: É realização, 2010, 430 p. Trad. de Edward Horst Wolff e Pedro Sette-Câmara).
          Não sei, tenho cá minhas dúvidas. Vai ver que nem  o   autor que escreveu  livros deste tipo seguiu os passos  dele  mesmo ou de outros  autores lidos  por ele. Tudo pode. Há um distância grande entre o  planejado e o realizado na prática. No entanto,  é indispensável  elaborarem-se  projetos,  planos, programas, pois tudo isso envolve  metodologias, as quais são de suma  importância ao desenvolvimento do conhecimento dos saber humano.  
           Em conversa com gente de culturas diversas e de níveis de conhecimento do mais baixo ao mais alto tenho   ouvido  coisas assim:”Ah, compro um jornal,  leio alguns textos que me chamaram a atenção e os outros deixo de lado. Nada achei de tão  atraente que me fizesse ler a matéria.” Ao final,  praticamente esse leitor,  não leu  o jornal, cujo destino  vai servir para auxiliar no recolhimento do lixo, cobrir  a área do tanque  para  proteger  o piso na limpeza da cozinha.
         Um outro amigo me  diz que, hoje em dia, ninguém quase ler mais nada de importante. Prefere fica  mexendo no celular  ou  brincando com algum  jogo eletrônico ou lendo  ou até  preferindo ler  gibis a ler  um  importante  autor, segundo anos atrás me falou  um  conhecido livreiro do Rio de Janeiro.
            Certa vez, um  professor de literatura brasileira  desabafou  com os seus alunos de doutorado sobre a má vontade de seus alunos de graduação que teriam que ler um livro  bem volumoso. “Professor,  qual é! Por que não recomenda um  livro com menos página? O mestre,  um conhecido  ensaísta, lhes respondeu amuado: “Logo vocês,  estudantes de letras, vêm me dizer que não   gostam   de ler, têm medo de livros  volumosos!!! O mundo está perdido!”  - sentenciou ele.
          Tenho uma pergunta de alcance geral: será que esta realidade sobre  índices de leitura  se restringe somente aos leitores comuns, a alguns estudantes? Não aconteceria com alguns  professores de língua portuguesa ou mesmo  de literatura? Não acredito que minhas indagações não  tenham  procedência.  Já ouvi  histórias  em torno  desta situação de penúria de leituras  da parte de  alguns docentes.
        Eu até  não os reprovo tanto  diante de certas  conjunturas de política educacional  em que  o professor brasileiro se  encontrou  no passado e se enocontra  ainda   no presente. Pressionado por vários  fatores negativos,  o  professor  se vê impedido de  melhorar  o seu  cabedal  de leituras por falta de tempo, por  se sentir  desanimado  num país  em que os governantes pouca atenção dispensam  ao magistério,  ou melhor,  à educação, ao ensino, à aprendizagem, diferente de países como a China, o Japão e mesmo os Estados Unidos  e outra nações  bem adiantadas.
      Eu próprio soube  por minha  esposa  que, anos atrás,  indo  ela à Secretaria Municipal do Rio de Janeiro  levar  alguns documentos  meus a fim de ser beneficiado  por alguma vantagem salarial (curriculum  vitae, certificados  de cursos,   presença  em seminários, congressos etc) e   conversando com  uma professora, desta ouviu  esta pérola: “Mas, por que  o seu marido  faz tantos cursos? Não servem pra nada.”  Mal sabia ela que aqueles cursos, aqueles certificados, aqueles seminários me seriam de muito valia  nos anos seguintes. Com uma mentalidade tacanha daquela  professora jamais  poderá  um país  atingir  um  elevado nível  de ensino e de educação.
      Pelo andar da carruagem, o leitor pode  perceber que a leitura é um instrumento formidável de  progresso intelectual e de realização profissional. Neste sentido, deixo implícito o quanto a leitura serve ao estudioso e só com muita leitura é possível sair da mediocridade. Não tenho pejo de afirmar que sou mais um leitor intensivo do que compulsivo.  Admiro os compulsivos, mas cada livro que li,  o fiz  com critério, profundidade   e  paixão. Francamente,  lhe declaro   que todos nós temos gaps de leituras que não  fizemos no passado, na mocidade. Entretanto,  na medida do possível,  aos poucos vamos  completando as nossas deficiências  e lendo aqueles autores que, por um circunstância ou outra, deixamos de ler nas mais férteis  fases de  nossas vidas: a  juventude, a mocidade.

      

domingo, 13 de novembro de 2016

O RIO DE JANEIIRO EM DESESPERO







                                             Cunha  e Silva Filho


       As várias mídias informam que a situação   financeira do  Estado do Rio de Janeiro  é a mais grave de todos os tempos. Todavia,  ela informa mas não  julga nem analisa os fundamentos  da  crise. O governo,  por seu turno,  culpa a queda drástica dos recursos   provindos dos royalties  do petróleo. Culpa  também a falta de autonomia  do governo estadual  diante do governo  central. Um e outro escamoteiam  a verdade  dos fatos, ou melhor,   das causas  do problema   financeiro  que devasta, sem misericórdia,   o Rio de Janeiro, cuja   situação  falimentar  atinge em cheio a saúde pública,  a segurança a educação, o funcionalismo, sobretudo os barnabés, enfim, toda a máquina administrativa   estadual. 
      O rei nu continua andando e ninguém  o  vê desta forma. Daqui a pouco,  vão culpar  a vitória de Trump como sendo a  primo ratio  da falência  do Rio. Não vai demorar  vão pôr a culpa no Estado  Islâmico... Os economistas  explicam a crise; contudo não a problematizam. As palavras voam nas elucidações técnicas, mas de palavras não sobrevivem as finanças de um município, de um estado e de um país.
     Não podem ser escritas nem ditas às claras,  nem apontam os verdadeiros   responsáveis diretos  pela bancarrota. Sabemos  onde estão, como estão  e o que fazem agora. Na realidade,  o culpado não é um só.Somos todos nós que votamos  nas pessoas erradas,  sem escrúpulos,  desonestas.  Impera no país a lei  do silêncio  para os  culpados de nossos fracassos e  desmantelos  públicos. Parecem mesmo pertencer a  corporações (o termo foi  oportunamente  usado em recente artigo do  senador  Cristovam Buarque publicado no jornal O Globo)) feitas adrede para  se saírem ilesas, impunes  e fagueiras.
         Explicitemos  em parte as raízes  destas desgraças  que assolam  alguns estados da Federação, notadamente o   Rio de Janeiro. É só olharmos  para trás, para os governos que precederam  a administração do Pezão, sobretudo  o antecessor dele, aquele que engendrou, desde os tempos de deputado estadual   uma plataforma  política, verdadeira   isca para  caçar votos de incautos:   defender os velhos,   olhar para a terceira idade. Captou   por inteiro  a simpatia  dos anciãos cariocas e fluminenses. Encantou com  os seus  propósitos,  os seus afagos,   as suas atenções  bem medidas  e cheirando a marketing  de campanha. Saiu vencedor  em dois mandatos. Oh, como nós votamos bem  neste pais  de  voto obrigatório!
         Desde o  período da Copa Mundial até as Olimpíadas,  o Rio de Janeiro  viveu   num estado  paradisíaco, cercado de canteiros de obras, pagas a peso de ouro...  Os cariocas, os turistas, nacionais ou estrangeiros, ficaram embevecidos. Realmente,  estamos na  “Cidade Maravilhosa,”  encravada no  estado  do Rio de Janeiro. Melhor não há.
        A gastança   pantagruélica estadual aliada à federal,  era o supra sumo do regabofe no país dos bruzundangas. Gastança  sem limites, cartões corporativos,   bolsa disso, bolsa daquilo,  o populismo  continuado e com  dias contados. Tínhamos o Lula, a Dilma, o poder e as propinas, os mensalões, os petrolões. As fotos, juntos e sorridentes,  do Lula, do Cabral,   do Eduardo Paes e do Pezão viralizaram  nas redes sociais,  mostrando  o quanto  o   país e o estado fluminense eram os donos da bola. A mentira,  diz o   velho anexim,  tem pernas curtas. Veio a desgraça do reino  do  populismo, a  queda da Dilma, a Lava-Jato, o espelho invertido,  escancarando  as “veias”  letais  do desgoverno federal em muitos setores  e das negociatas entre  o lulopetismo  e parte do empresariado ímprobo do país.   
    Os fundamentos da atual  situação caótica  do Rio  tiveram como consequência o desastre  das contas públicas  do governo do Pezão. Ou seja,  reunindo o que de mais danoso  tiveram o populismo  do  PT, o oportunismo do PMDB tendo como  ponto alto a figura impopular e mesmo  execrada do Sérgio Cabral, hoje,  homem  abastado,  e  a cumplicidade  do Pezão, porquanto  ele sabia  o que tinha sido o governo desastroso e autoritário  do  Cabral. 
        É mister que Temer, que não é   tampouco  isento de culpas  da crise  brasileira,  uma vez que foi vice de Dilma, se redima  de seus pecados e complacência  com o governo a que serviu e   venha  ajudar financeiramente o Rio de Janeiro, assim como outros estados brasileiros.
        Mas é preciso  que  seja feitam feitas investigações profundas da Operação Lava-Jato no sentido de  identificar  os  culpados   que concorreram  para que  o Rio  chegasse a  essa  profunda crise   em suas finanças. Que a Polícia Federal seja   rigorosa e puna  os responsáveis   que levaram  o funcionalismo  estadual à penúria por falta de pagamento de seus salários. 
        Em situação  também  de bancarrota estão a UERJ, os hospitais  públicos e a segurança. Falta tudo no serviço público  estadual, numa   situação  de guerra que se poderia  resumir assim: greve de funcionários  lutando  por  suas condições precárias  de trabalho, estudantes universitários sem aula, o que lhes acarretará  retardar  a conclusão de seus cursos,  policiamento sem gasolina  para dar segurança  em locais diferentes, delegacias sem material  para os serviços burocráticos. Ora,  em situação assim  tão aflitiva,  é difícil conter a onda de violência numa metrópole como o Rio de Janeiro.

          O governo  federal não pode  voltar as costas para o Rio de Janeiro sob pena de este  estado  perder  receitas no campo do turismo. Com os novos  espaços de lazer,  entretenimento e cultura de que  a capital  dispõe após as obras de reurbanização realizadas  pelo prefeito Eduardo Paes no centro do Rio de Janeiro, sobretudo  na área do antigo Cais do  Porto, Praça Mauá,  a cidade e o  Estado do Rio de Janeiro  ganharão   muito e terão  condições de superar  os grandes  problemas  que enfrenta no campo  econômico-financeiro. O presidente Temer não pode  deixar o Rio à deriva.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

USA: GANHOU O MAIS POLÊMICO




                                            Cunha e Silva Filho

       Na gangorra da corrida para a Casa Branca, Hillary e Trump, com a proximidade da eleição, já davam sinais evidentes de que o páreo seria muito competitivo.Campanha acalorada, com ofensas mútuas,  fanfarronice de Trump e sorrisos largos e  atitudes seguras  da ex-primeira  dama do governo  de Clinton, era de se esperar que ambos poderiam  ter elevada chance de governar o país mais  importante do mundo, sobretudo no poderio  bélico.
      Óbvio que o mundo ocidental  esperasse que  Hillary fosse a eleita, já que pertence ao partido democrata, que tem  posições  mais  liberais, mais  voltadas para um governo  aberto às demandas sociais internas, conforme foi pautada a administração de Barack Obama, posto tenha  descumprido  algumas promessas de campanha. Porém, no campo social,  deu Obama  um passo  relevante  na área da saúde americana das camada  menos  favorecidas  e numa condução de  política externa não tão agressiva quanto  foi na administração  desastrosa de seu antecessor,  o Bush  filho,  na questão  da invasão, com traços  genocidas,  do Iraque e  em outras   tomadas de decisões de um  político  cada vez menos  popular  fora dos EUA.
      Assumirá Trump e, se seu governo  realmente levar a cabo algumas promessas de campanha,  seguramente terá  graves problemas  internos  e externos. Isso, quer-me parecer,  ainda  se configura como uma simples hipótese, uma vez que um  candidato em campanha faz uma opção  de promessas que serve para  contentar  parte considerável do eleitorado  e descontentar  outra   parte também significativa. Uma situação  política dessa natureza facilmente leva à polarização, que não é boa  para ninguém. Trump bem sabe que, mesmo nas fileiras de seu partido,  o  republicano,  poderá  encontrar  dissensos  a diversas questões  que precisam  ser enfrentadas  pelo  país.
  Seriam  exemplos  a questão dos  imigrantes,  as invasões  clandestinas  de  indivíduos entram que, clandestinamente, transpõem  a fronteira  do México, a questão  da violência policial contra negros não foi devidamente  tratada por Obama, logo ele que, que por se um candidato  negro,   era a esperança  de melhoria  do odiento  racismo  americano  ainda   residual no país,  a xenofobia,  a questão do aborto, a expulsão sumária de imigrantes ilegais, o tema  do uso indiscriminado  de armas de fogo  pela sociedade americana, que, no país,  é um  dado cultural,  o enfrentamento da questão   da interminável  guerra civil   na Síria.
    E mais: a prisão de Guantánamo, que, infelizmente, ao que me consta,  não foi  ainda desativada por Obama; o complexo problema  do terrorismo  internacional,  tipificado principalmente no Estado Islâmico;  a política  externa para assuntos de Cuba, os quais  não poderiam ser interrompidos quanto a uma melhoria  das relações  com  o país caribenho de tal sorte a  dar continuidade ao que já se conquistou durante o governo  Obama.
    Ao contrário dos seus discursos de campanha  antiembargo para Cuba, que tomasse medidas, isto sim, para um aceno à suspensão desse  embargo econômico e injusto.
    A respeito do tópico da guerra civil na Síria,  se for levada adiante a idéias de  uma visão comum entre  os EUA e a Rússia ficará  mais   espinhosa   a tentativa de   encontrar uma solução para a paz nessa região em sangrento  conflito. Se Trump se bandear  - repito -  realmente para  alinhara-se a Putin,  os EUA   darão combustível  perigoso  à sua  política  externa  e aos seus pressupostos de ser um país democrático
     Julgo que se esse passo for dado,  o governo de Trump  dará um duro golpe contra os princípios inalienáveis da tradição  norte-americana   na linha do pensamento  dos  fundadores  da grande Nação de Lincoln.A mesma  coisa seriam passos errados do futuro presidente americano  na questão  de outros países que enfrentam  sérios  obstáculos de governaça e de instabilidade, como o Iraque, Afeganistão,  regiões da África e o sempre conflituoso  problema entre palestinos e israelenses.
    Quanto à  ideia  de querer  erguer um muro  separando  o México dos EUA, ela será uma insanidade que a ninguém  interessa e só causará  fortes relembranças  da Segunda Guerra Mundial.
  Quanto às relações com  os países da  America do Sul, não conviria aos EUA, segundo   declaram  os especialistas em relações internacionais, darem pouca relevância a países como o Brasil, Argentina por exemplo.Mesmo com outros países latinos, o governo Trump, em meu entender, deverá  manter boas relações bilaterais em vários setores,  tais como comércio, cultura,   políticas sociais, condições de vida, de direitos  humanos, de meio-ambiente, de condições climáticas.
   É de se esperar que países europeus  fiquem preocupados com  a vitória  de Trump dadas as declarações bombásticas e extremistas  que, se efetivadas,   não  hão de agradar as nações que lutam pela segurança  mundial, notadamente  a União Europeia. Não foi nada entusiástica a mensagem de Merkel ao saber da vitória de Trump. Para esta,  o perfil de Hillary  seria muito mais  palatável em todos os sentidos. A vitória de Trump está consolidada. Rezemos para que suas afirmações  intempestivas  não passem de marketing  de campanha e que seu governo  pense não só no bem-estar americano, mas na paz mundial.
   
     

 
           
            



segunda-feira, 7 de novembro de 2016

O CELULAR NO USO GLOBAL E PESSOAL





                                                         Cunha e Silva Filho

       Não serei eu seguramente, nem você, leitor brasileiro, ou não, nem mesmo os antropólogos que iremos explicar os motivos mais recônditos da disseminação do celular.    A Humanidade é a mesma, aqui ou nos  confins do mundo. Existem, é óbvio, as diferenças de alguns costumes,  de visões religiosas, de sistemas de governo, de culturas tribais na  África, de modus vivendi  variado, exótico, na Ásia, em partes   do Oriente, de estereótipos,  culturas diferentes.
       O que, a meu ver, mais nos iguala é um traço fundamental que nos separa, conforme no ensina a linguística, dos irracionais: a linguagem humana, não obstante se tenha de aprender algumas línguas modernas principais a fim de reduzir essa desvantagem.
      Todavia, com a globalização advinda do avanço formidável da comunicação, em suas várias formas:  jornal,  telefone, cinema, rádio, televisão, a intenet, trazida  esta pelo computador e que, segundo penso, tenha sido a maior invenção do homem depois da Imprensa de Gutemberg, o mundo pós-moderno, o homem global, se tornou bem mais igual, mesmo em países bastante diferentes dos Estados Unidos – o traço de união do fenômeno da planetarização dos costumes e hábitos da maioria dos países.O exemplo mais insofismável disso é o o do uso indiscriminado  do celular.
      Há pouco menos de uma década tinha lido um pequeno texto  em inglês  para uso dos meus alunos que dizia ser o celular, se usado com muita frequêcia, um mal para o funcionamento saudável do aparelho auditivo, inclusive argumentava o texto  que o celular poderia  causar câncer.
     Com a intensificação do uso desse aparelho, hoje em  dia, um companheiro inseparável da infância velhice, ninguém , segundo me parece,  abriu a boca para falar  mal desse aparelho que, ao contrário, ganhou novas configurações,  tamanhos,  utilidades, podendo–se se afirmar mesmo que, quando é de última geração, ele pode substituir os outros aparelhos de comunicação, comportando nele sozinho as funções exercidas antes separadamente pelos outros meios de comunicação, tais como o rádio, o disco, o CD, o computador, livro, revista, jornal etc., etc., etc. É o caso de se poder exclamar:”Meu reino por um celular!”
       O celular ganhou as metrópoles, as cidades, o interior, as selvas, as aldeias indígenas. Funciona  hojena terra, no mar e no ar. Está por toda a parte, pelos países afora. Conquistou o mundo, o capitalismo, onde certamente teve seu berço. Conquistou os países comunistas,  as ditaduras, as religiões, os ateus,   os políticos, os criminosos, a direita, a esquerda, a extrema-direita, o centro,  os ambientalistas, os pedófilos, os escroques, os terroristas,  os estupradores, os psicopatas, os refugiados,  os encarcerados,  os assaltantes, as falsas democracias, os católicos, os protestantes, os pastores, os puros, os inocentes, os salafrários, os sequestradores,  os ricos, os pobres, as minorias, o povão, os esbulhados,  os espertalhões, os enamorados, as famílias. Lá está ele na escola, na fábrica,  no trem,  no metrô, no ônibus, no táxi, no navio, no avião.  Tornou-se fetiche.Ganhou os mortais. Ganhou o mundo. Ficou mundano. Contam-se aos milhões.
      Com esse aparelho, ninguém ficou mais sozinho. Virou nossa companhia inseparável, pronto a ser usado a qualquer instante de dor, de alegria, de saudade,  de comunicação com alguém perto, longe,  muito distante, sem fronteiras, no aquém--mar e no além -mar.
      Já se disse muito que  o maior amigo do homem é o cão. Não sei não. Acho que o maior amigo do homem, agora,  é o celular.  Alguém há de me contestar por essa declaração, talvez até um filósofo, mas, infelizmente não tenho nenhum amigo filósofo, o qual seria talvez o primeiro a me   contrariar. Não vá, leitor, pensar que eu seja um desafeto desse aparelho.
     Alinhavei estas digressões e me esqueci de falar sobre a minha relação com o celular. Nem mesmo sei usar de algumas vantagens que ele me pode dar. Tenho dificuldade até de gravar  o número do telefone de um amigo, o que me deixa um pouco constrangido.  Entretanto, não tenho pudor de  confessar que não o domino sabendo o quanto de utilidades ele me possa proporcionar.
      No entanto, devo confessar que ainda não fui tomado desse fetiche, dessa febre de celular. Faço, muitas vezes, tudo para não o usar. Reconheço, porém,  o alto valor dele para algumas situações da realidade que nos cerca e por vezes nos apavora. Muitas vezes, o celular pode salvar vidas, resolver situações que, sem ele,  seriam desastrosas para muita gente.
     Há algo que ainda me causa estranheza com a presença desse aparelho tão ubíquo no cotidiano mundial. Ele mexeu com o comportamento dos usuários no sentido da redução do contato presencial, do aconchego que só o encontro ao vivo é possível de ser sentido, do olho no olho, do abraço amigo, do calor do convívio, da importância de saber que alguém a quem amamos ou admiramos está ali bem perto de nós com a voz, os gestos, o olhar,  a atenção física, o congraçamento, o aperto de mão ou o beijo na face. Disso o celular não é capaz de realizar porque ele é simplesmente um objeto de consumo...
    Há que se estudar ainda o que mudou no ser humano com o surgimento de tantos aparelhos eletrônicos. Na minha humilde condição de leigo em questão de psicologia humana, o celular tanto quanto utros gadgets provenientes da alta tecnologia e avanços incessantes da eletrônica, não veio para melhorar as relações sociais posto que reconheça nele vários benefícios do chamado conforto material. Parto do princípio de que o domínio  da máquina exerceu uma influência redutora no campo da sensibilidade entre os indivíduos de tal sorte que o convívio de múltiplas parafernálias, dessa engrenagem  crescente de um espaço tentacular, provoca no espírito e na sensibilidade do ser humano uma espécie de diminuição pelo que seja o mundo sensível, surgindo um embotamento imperceptível do que possa ser a parte mais humana do indivíduo.
    Cercados de tanta tecnologia, o indivíduo, independente de sua vontade, pod-se, assim, dizer, se brutaliza, e  se coisifica ante o seu semelhante numa relação em cadeia que, primeiro, atinge  o antes saudável contato  entre dois seres humanos e, em seguida, contamina a família, o círculo de amizades e, por extensão, a sociedade.
   É dessa perspectiva que vejo  a mudança comportamental e o apego a esse aparelhinho, que é o celular, como poderiam ser outros meios eletrônicos que, sub-repticiamente, estão desagregando o antigo, sadio e fraternal convívio entre as pessoas num mundo já robotizado que mais valoriza, diga-se a bem da verdade, a posse de um carro – isso é só um exemplo entre tantos da vida contemporânea  -  do que um bate-papo descontraído num bairro boêmio ao cair de uma tarde numa sexta-feira de uma grande cidade.
  
     
       
     


sexta-feira, 4 de novembro de 2016

LENDO "PULANDO NUVENS"









                                                             “Meu Deus,  creio que estais aqui presente!”*


             Cunha e Silva Filho


         Será, leitor, que existe crítica literária para certos  livros? Digamos, assim,  para a Bíblia Sagrada,  para As confissões, de Santo Agostinho (354 d.C- 430 d.C),  e para outras  obras  superiores   da cultura universal? Sim e não,  não importa. O que releva é a sua grandeza. Livros há que  são forjados por  inteiro  pelo  universo  fabuloso das subjetividades e sobretudo no terreno das  afetividades,  lexema do campo semântico  que tanto peso  tem na obra ora lançada, que é Pulando nuvens (Teresina: Bienal  Editora, 2016,148 p), do jornalista e escritor Zózimo Tavares, piauiense de coração, mas nascido no Ceará
        A pergunta acima não é uma blague,  mas uma  constatação que me inclina mais  para o não, visto que,  no domínio literário, o que prevalece  é a qualidade da linguagem e o sentido  específico  de como  o tema  foi  trabalhado  artisticamente pelo autor.
        Formalmente,  o livro  é ousado na sua construção e me lembra logo de cara  uma estratégia, tão bem entrevista  numa  ensaio “A ciranda da malandragem” de  Jesus Antônio Durigan acerca da  escrita do contista João Antônio (1937-1996), na  qual  o  ficcionista   não só se vale da imaginação - espaço  do domínio da ficção, da mimese -, mas do que lhe oferece a vida, a realidade que,  no caso do livro,  são textos que se contextualizam e se unificam ao mundo  de esperanças e de anseios de Daniel,  jovem  sintonizado com  os modos  de vida e os costumes  saudáveis de sua geração.
        Deste modo,  se inserem, de maneira alusiva,  ao  texto  geral dos relatos  o capítulo inicial de Feliz Ano Velho, de  Marcelo Rubens Paiva, uma letra de música de Gabriel, o Pensador,  o soneto “Amarante” de Da Costa e Silva (1885-1950),   um excerto de uma peça teatral de Ariano Suassuna (1927-2014), um famoso  fragmento  poético de Gonçalves Dias( 1823-1864), um fac-símile  do poema “O menino que descobriu as palavras,”  de autoria de Cinéas Santos e Gabriel Archango, marcado por Daniel  a lápis e com  as respostas  escritas à mão, um fac-símile  de um “manifesto redigido à mão,  dirigido aos condôminos  de um prédio  e  reivindicando  liberdade  e respeito aos direitos de brincar no espaço comum do moradores. O nomezinho  de Daniel (p.34) aparece no espaço  reservado aos subscritores, assinalado à mão,    um  texto de um jovem  que  sabe expressar-se literariamente,  como  o Dilson Tavares,  irmão de Daniel Tavares,este último assunto nuclear  da obra de Zózimo.  
        Escreve sobre si mesmo e principalmente sobre Daniel.  Ao mesmo tempo  busca  em outros  textos  complemento  de sua inquietação extravasada belamente,  harmoniosamente,  no texto em seu todo, gerando uma unidade de sentido e verossimilhança narrativa,   ao fazer convergir outra vozes que, ao cabo,  se confundem  e de alguma forma, mutatis mutandis, se equivalem.
       Ora,  construir uma obra  assim  exige esforço  e criatividade,  porquanto,  na ficção, ou no gênero híbrido em que se   materializa  este livro, misturando  memórias,  textos alheios,  inserções autorias compatíveis  no campo   da linguagem  literária, inclusive   a parte  referente aos textos virtuais, em forma de anexo  ao texto  geral da obra só a  vivificam ainda mais. Na realidade, decorre desses recursos  do autor a qualidade do texto.
       O  exemplo mais ilustrativo  dessa singularidade  textual, dessa recolha de textos diversos  mas que tenham  direta ou indiretamente  ligação cultural com a vida de  Daniel  Tavares,  é haver Zózimo Tavares pinçado o tocante   texto, acima  citado,  “Daniel mano” (p. 115) escrito para servir, como  título  e, a meu ver,  como  metáfora do livro e do seu  personagem  principal,  Daniel  Tavares,  um  jovem que, aos 21 anos,  filho  do autor,  com  toda  as esperanças  de uma vida  vitoriosa,  é de repente,  pelos insondáveis arcanos da vida terrena, afastado de nós mortais.
      Zózimo Tavares, jornalista   tarimbado,  de estilo  objetivo, contudo não destituído  de uma  profunda sensibilidade que, por vezes, alcança  as fontes do lirismo, como  seria  exemplo,  entre outros  no livro,  aquele  trecho  em que ele,  menino,  em Água Branca, Piauí,  avistava,  da calçada da igreja,  na distância, aquele tempo  católico que lhe parecia  cada vez maior  à medida que   dele se aproximava, situação  tão bem  expressa  da perspectiva  da memória e linguagem   infantis: “Chega dava tontura!”  (“De volta ao começo,” primeira seção,  p. 21).
     Pulando nuvens é mais um  livro sobre a vida,  e não sobre a morte, pela  vida  pulsando  delicadamente  na memória  do autor e cobrindo  todas as lembranças  tenras,   guardadas  no fundo do coração  do  escritor.
   É uma narrativa que se propõe provocar, na sensibilidade dos leitores, o compartilhamento  dos deliciosos  momentos  da presença   querida desse  jovem belo,  forte,   amante da vida  intensa e de todas  as alegrias que a  existência pode  propiciar a quem  sabe amá-la com  o peito aberto às amizades,  aos amores  de juventude,   às predileções culturais,  seja  na música,  no teatro, na   dedicação ao parkour, à arquitetura e às passarelas,  no campo da imagem  publicitária,  na vida familiar. E que exemplo  de  bem-aventurança  familiar   nos dá o autor, até mesmo  no sentido  pedagógico de um  pai extremoso, responsável e intensamente  amoroso de sua família!.
        Tudo isso é  muito bem   relatado  pela  voz paterna que, ao contrário de outros autores,  não faz  da tragédia familiar  um oceano  de  lamúrias, mas conserva, no limite do possível,   resguardar  o que de vivo e amado o filho lhe deixou. 
        O  espírito do  livro  se bifurca entre  as recordações  do autor e as do filho  trazido  ao texto  pela força  da linguagem   que  sustenta  a narrativa através da exaltação  à vida – urge sublinhar -   suscitada pelas  múltiplas e preciosas recordações do filho vivo,  falecido precocemente em acidente  ao pular da ponte sobre o rio Longá, em Esperantina,  interior piauiense.
       Em algumas passagens do livro  não há como não  se comover até às lágrimas   diante de situações  que são  verdadeiros modelos de amor, de amizade,  de solidariedade, entre o autor e o filho,ou entre o autor e a família.
     Confesso que, durante a leitura desse livro de afetividades – repito -   lamentei  não ter conhecido e abraçado (o abraço forte desse menino-gigante),  esse rapaz que, no verdor dos anos, admirado  pelos amigos e por todos os que por acaso o   conheceram. Daniel, na verdade,  não  foi embora, não. Está vivo e esbelto  não apenas na memória  impressa de Pulando nuvens – milagre do poder da linguagem -, a qual, em forma de arte, se torna, fenomenologicamnte,    vida  perene -  mas também  no pensamento fiel e recorrente das reminiscências   que duram  porque  são eternas.

*Cf. Orações do meu dia a dia,  coordenação do Pe. Lourenço Ferronatto.São Paulo : Associação Católica  Nossa Senhora de Fátima. 1ª ed.,  2016, p.7-8.

   
     

terça-feira, 1 de novembro de 2016

LITERATURA: UMA ENTREVISTA DE LEYLA PERRONE-MOISÉS









                                                    Cunha e Silva Filho


            Este artigo  parte de reflexões despertadas pela leitura  de uma entrevista da conhecida  e conceituada  ensaísta Leyla Perrone-Moisés, sob o título “Em defesa da Literatura”  concedida ao jornalista Leonardo Cazes, publicada no  Globo Caderno Prosa & Verso de 29/10/2016. O núcleo  do tema  é a discussão do papel da literatura  e da crítica literária  de nossos dias, independente do alcance  geográfico face aos caminhos e  perplexidades  em que se encontram  a criação literária, o seu  julgamento e os leitores.
         É evidente que  o tema considerado em seu sentido  lato  envolve discussões derivadas do binômio literatura-crítica literária, i.e.,  questões como  o ensino  da literatura,  currículo  escolar  do ensino médio e estudos literários  na universidade e, por último, o lugar  de maior destaque que vem ocupando a indústria cultural que nada trouxe de bom  para o antigo  prestígio obra literária que, segundo Perrone-Moisés, até os meados do século passado,  teve a literatura.
          Em outras palavras,  o espaço  conquistado  pela indústria do entretenimento, com a sua natureza  passageira, o seu facilitário  junto às massas,  provocou o declínio   do fascínio, sacralização e áurea da literatura  de alta qualidade artística. Nesses tempos diluidores,  tudo passou   por um espécie  de  nivelamento  comum  do bom e do ótimo  e do produto   descartável através  da via  da mera comunicação, inclusive e sobretudo da linguagem.
          Daí, se queixar a ensaísta do rebaixamento ou da importância  da disciplina estudo da literatura no currículo escolar  do ensino médio. Reconhece a ensaísta que  o  fenômeno  não se só  no Brasil  mas é internacional.Naturalmente Perrone-Moisés atribui esse desprestígio dos  estudos literários  a um desvio na formulação de estratégias  de mercado  de trabalho destinado  a  preparar  candidatos  a funções  profissionais  para as quais  a literatura    seria,  por assim dizer,  “inútil.”  A questão, a meu ver,  vai mais fundo,  porque está vinculada  a projetos governamentais  de desenvolvimento    em  plena  efervescência   da globalização   e  das necessidades  imperiosas   de contingentes  de mão de obra, assim como de reserva de mercado.  
        A questão não é tão-somente educacional, porém  político-ideológica. Fenômeno similar  já se havia  registrado no país  no tempo  da ditadura  militar, anos 1970, e na fase do chamado  “milagre brasileiro,”com a criação e difusão dos cursos  profissionalizantes, principalmente no ensino privado, coincidentemente  época em  que se iniciaram mudanças  drásticas  no ensino  de literatura  com  a atenção especial  dispensada  ao papel  da comunicação,   ao aproveitamento   dos estudos linguísticos e à ênfase  dada à teoria da comunicação. Só se falava, nas aulas de literatura  e de língua  portuguesa  a partir do ensino  médio, nas funções da linguagem  formuladas  pelo linguista russo  Roman Jakobson (1896-1982).  Era  o tempo em que os estudos linguísticos  se imbricaram   com  os estudos  literários para o bem e para o mal.
        “Comunicação “ passou a ser a palavra chave e  o lugar  antes  privilegiado  do ensino de literatura brasileira e de língua portuguesa  foi  posto em segundo  plano e se misturando  ao que, mais tarde,  o MEC,  designou como “Linguagens, códigos e suas tecnologias,” segundo  lembra  Perrone-Moisés  em tom  irônico.  
         A ensaísta ainda  , em tom  francamente   crítico,   alude ao novo  plano de ensino médio ao falar  este de ‘linguagem’. Ao que ela,  irônica e perplexa,   se interroga: “Mas de que linguagem se trata?”
       Pondera   Perrone-Moisés  que as os alunos(eu acrescentaria as pessoas em geral)  não só precisam  de estudar  as línguas, mas  sobretudo  necessitam de  exercitar  a reflexão  crítica,  de aprofundar  suas visões da vida  e do mundo. A ensaísta não perde tempo para censurar  uma “falsa democracia”  no meio  do ensino e da educação em âmbito oficial, onde o “essencial”  é apenas  disponibilizar ao  aluno os textos mais   digeríveis, quando o que caberiam  fazer os responsáveis  pela educação   seria  elevar  “progressivamente”  o nível do educando, o que para ela seria, sim,  uma prática  democrática.


     Na mencionada  entrevista,  Perrone-Moisés levanta a questão de uma tendência atual  da ficção, conhecida  como autoficção, termo cunhado, em 1977,  por Serge Doubrowski,   no âmbito da crítica literária, que funde autobiografia  com  ficção, numa combinação de traços contraditórios para esse tipo de  subgênero  literário. aparentado, segundo  se pode  constatar,da biografia e  das memórias  para  designar esse  tipo de ficção  na qual  o narrado fica a cargo do “eu” do autor, ainda que seja  dirigido em terceira pessoa, ou mesmo em primeira (por que não?). Por acaso, uma terceira pessoa  não poderia escamotear  a primeira ou vice-versa?
       Na opinião dela, esse tipo de subgênero literário é fruto do nosso  tempo e tem a ver com  a impossibilidade com que o escritor,  um autor se defronta  diante  do seus  “limites” de “compreensão da totalidade” num  mundo  altamente  complexo  como  é o que    estamos  vivenciando a duras  penas.
      Ora,  esse fato  determinante conduz o escritor  para uma forma de  escapar  daquela   impossibilidade,  fazendo com que se volte para a sua própria  identidade,    a sua  história  pessoal  e os seus  dilemas específicos.
      No então,  assinala a ensaísta,  a vida  pessoal  de um autor  não constitui em si  uma chancela  para que  sua  autoficção se torne  uma  feliz elaboração  estética.  É precisos que o autor vá mais além das peripécias pessoais e adentre as condições fundamentais  de produção de  textos   que tenham algo mais a  dizer  em termos  de linguagem  e de  composição estética. Seria preciso que a obra de autoficção não só desvele  “autoconhecimento,” mas também  “compreensão dos outros.”  .Ou seja,  não é o dado  narcisista que é relevante, mas  a realização  literária  pela linguagem, pela excelência do nível estético e humano.
        Mais um tópico de que fala a ensaísta refere à sua desfavorável posição com  respeito às abordagens conhecidas como  culturalistas na literatura. Não  negando  a validade da  literatura   como manifestação  histórico-cultural, a ensaísta  toma  posição  mais  ousada  e  muito aderente  ao elemento  da “imaginação” e da forma da linguagem  da escrita literária que,  para ela,  são componentes  intrínsecos  do fenômeno  literário.     
        Ao afirmar que  não se opõe às discussões  de temas políticos e  polêmicos  como  o feminismo,  o homoerotismo, por exemplo,  a ensaísta   reforça a ideias de que literatura não é “panfleto” nem “manifesto.” Nada, segundo ela, contra as questões políticas, desde que  estas não se sobreponham  às qualidades  do fazer   literário, desde que não abra mão  do ato criativo com “valor  estético”  e cognitivo”
         Ao  abordar  a situação da literatura  no meio  universitário,   ela  chama a atenção  para o fato de que hoje em dia  as comunicações acadêmicas em congressos  só interessam, em alguns  casos,  aos iniciados, aos  universitários de letras.Sua entrevista  reage com firmeza contra   quem  entende ser a “obra  de arte” um  produto comerciável,  consumível,  descartável, comproduto  passageiro,  isso tudo na contramão do sentido de “conservação,”  valorização e perenidade   da arte literária.
           No balanço que faz da literatura contemporânea, ela reconhece que a literatura  tem agora uma “presença  frágil” na mídia.”  Para que sobreviva,  ela precisa  de alavancar  meios   de melhorar a leitura e o ensino  da literatura.
       . Contraditoriamente, concluo, a ensaísta frisa que o número de  publicações  literárias  é muito   animador  e  mesmo   grande e  em suas palavras para a atividade da crítica  literária  ela deixa perceber  que os críticos  perderam o antigo reconhecimento  que alcançou seu apogeu “nos meados do século XX, o mesmo  valendo  para a literatura   que,  no seu juízo,  perdeu  seu  lugar de destaque passando, com o tempo, a se misturar  com  o rótulo geral  e insosso   de  outras   vias de comunicação, resultado, é óbvio, do avanço  incontrolável, da indústria  cultural  e de  todas as suas nuanças.O leitor  interessado na discussão  de todas  essas questões  encontrará  o aprofundamento   delas  na nova  obra da ensaísta, razão  da entrevista,  Mutações da literatura no século XXI (Companhia das Letras).