terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Estranho Homem


                               Cunha e Silva Filho


         Aquele  homem  grande,  meio calvo,  corpulento e de cara amarrada  bateu  três   vezes na  porta  principal  com os dedos em punho. Do lado de dentro, eu achei esquisito  a chegada ali  daquela  pessoa. O homem foi logo   dizendo que  tudo estava errado.  Eu e minha  família, isto é,  minha esposa e meu  filho não entendemos  o porquê  do  transtorno  daquele  homenzarrão de cara feia que, sem  motivos,  vinha  nos  importunar  do nada. “Quem  é o senhor? O que  quer de nós? Não fizemos nada errado.A casa é minha, pago meus  impostos em dia e sou  um funcionário  público em final de carreira”.
      “Tudo quase aqui em sua casa está irregular, até a arrumação  da casa, a mesa  não deve   estar neste lugar aqui,  o sofá  é grande demais  pra casa,  a geladeira,  o fogão,  o tanque,  enfim, tudo  na casa  está  irregular.”
“Mas, por que me diz  tudo  isso,  senhor?’ “Não quero  saber de sua  resposta. O senhor, que se diz  dono da casa deve me acompanhar"
    Era noite.  Mas, o que  disse era da boca  pra fora,  pois, como se verá, no final   da conversa,  ia exigir que fosse na manhã seguinte prestar  declarações ao chefe  sobre  todas  as "ilicitudes"  que  conseguiu anotar  numa caderneta.   
  "Vejo,  inclusive,   que  sua cama   é grande demais,  não  tem  o tamanho  adequado  para  um casal  tão  pequeno e com  pouco  peso  se somados  os dois. O quintal  está, da  mesma  forma,   todo  fora da lei,  assim como  os bichos que cria. Eu vou  precisar de ter  documento  seu  comprovando  que o senhor  foi quem   comprou   os bichos: galinhas,   patos,   uma tartaruga,  um cachorro vira-lata e um gato  branco.E até os passarinhos nesta gaiola  não são permitidos   por lei.Vou ter que levar  bichos  e aves”.
    Esqueci de  informar que  o  brutamontes  estava acompanhado  de um   homem   pequeno,   de olhos  vesgos  e  trazia, debaixo do braço, uma pasta   marrom, dessa  pastas que  comumente  vemos  na  cidade  gente  carregando cheia de  papéis com ares de   burocrata  certinho  e bem organizadinho.
          “Se o senhor  não  arrumar sua casa conforme  as recomendações   legais,  será  daqui  expulso e até mesmo,   caso   reclame de alguma coisa, sairá preso, perderá  o emprego 'para o bem do serviço  público.’   E nem  pense  que  conseguirá algum  advogado  pra defendê-lo. De nada  adiantará, se for o caso de prisão,  será prisão mesmo” Habeas corpus para nós,  diz  o armário, é conversa  mole  de excesso de proteção  a criminoso”.
         “Mas, nada fiz  de errado,  levo  uma vida  correta,   não tenho vícios,   não tenho, ao que pareça,  inimigos,  e  só tenho  um hobby,  o  de  colecionar  velhos   livros  de matemática,  matéria  que  sempre  estudei, dela fui  aluno exemplar. Como são,  em geral,   livros   raros ou  de  décadas  atrás,  encomendo-os pelas livrarias virtuais. Eles chegam  sem problemas. Veja, ali naquela   estante,  quanto  deles   coleciono. Se disponho de mais tempo,   leio-os  e  resolvo  os problemas  propostos  por seus autores. Até os mais cabeludos.Alguns deles  têm a chave dos exercícios, destinada aos  professores, então designada “Parte do Mestre” (se não me engano,  introduzida  pelos  Maristas   da Coleção  primorosa,  a F.T.D.) para  que  confira  se  acertou  resolver  os problemas  ou  não.”
   “O senhor está me fazendo  perder  o tempo  com  conversa fiada. O meu  assunto  aqui  nesta casa é vir  cumprir  o que meu chefe  me  determinou e lembre-se  de que eles são  tão sensíveis  quanto   os robôs e os programas   de computador. São frios e calculistas e, ao  lidarem com  o ser humano,    pouco  ou  nenhum valor lhe dão. Portanto,  vá cuidando do que  tem  a declarar ao chefe  superior. Aqui está  o endereço  a que deve comparecer, leve  o máximo  possível de documentos e notas   fiscais  de compras  dos objetos   que  a sua casa possui. O grandalhão  entregou-me um  papel  timbrado e  me  pediu   que o assinasse. O comparecimento  ao chefe seria  no dia seguinte,  às 9 00:hs.
     O brutamontes, acompanhado do homúnculo, saíra  da casa sem  despedir-se. Ao contrário,  bateram  com a porta e sumiram  para um  lugar   desconhecido. Era noite.    Em casa, agora sozinhos,  não sabíamos   o que  dizer, tomados de medo  e desespero.  Descobri, de repente,  que  apenas mal  acordara  de um pesadelo e, agora, nem me recordo bem  se  os fatos se deram  conforme  o relato  precedente. Me acuda, leitor, que o mundo é louco mesmo  e sem sentido.
   Não  viu o que fizeram   com  aquele famoso  personagem de Kafka, preso  sem saber  por quê? E mesmo  a figura real  de  Graciliano Ramos,  o que de errado  fez  pra merecer  uma prisão no Estado Novo? Experiência  de preso injustiçado   que  lhe rendeu literariamente  uma grande  obra,  Memórias do  Cárcere. O pai  deste narrador também  foi preso em 1935, no mesmo  período  discricionário,     injustamente  somente  porque  tinha  em casa  uns livros marxistas que, de resto,  tinham  sido deixado na  casa dele  por um  seguidor  do comunismo,   o qual por acaso  estivera de passagem  por Amarante,  cidade  piauiense.Um dedo-duro  denunciara  meu  pai  que,  por isso,   amargara  um período de cadeia em Teresina. A experiência de prisão de meu pai o inspirou a escrever  um  dos  melhores capítulos  do  seu livro, Copa e cozinha.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Tradução de um poema de Henri Gilarès





Le chemineau


Il s’en va, le front lourd, l’air las, le long d’un mur,
Car il sait que son coeur n’est plus fait  pour la joie,
Lui que fuit tout le jour et de peur qu’on ne voie
Sous le faix qu’est le sien, ce qu’il y sent de dur…

Des chants gais e des ris, il n’en a rien,  pour sûr!
Le soir a mis sur lui, tel  un poids que le broie,
Le deuil de tous les  biens, qui le suit, veut sa proie.
Pour lui, plus rien de bon, plus rien que lui  soit pur!..

.”Où vas-tu de ce pas? --- Eh bien! je bois la lie!...
Et sa voix n’a plus rien de ce qui fait les forts;
Et sa main, vers de le ciel, a cru voir tous les torts!...
“Tiens, prends ce peu pain…” Quand le mal  en  ta vie
A mis des pleurs de sang, là-haut, du fond des cieux,
Le Dieu né loin de tous a tout vu  dans  tes deux…


O Mendigo

Lá vai ele, o olhar  fundo, a lassidão junto à parede a caminhar.
De seu coração  a alegria não partilha.
De dia  some a fim de que não lhe vejam
 O fardo e a aflição em que  vive...

No seu viver não há  lugar  para  alegria e risos.
Sobre ele, esmagando-o com seu peso se abateu a noite
Despojado  dos seus bens, seu  destino segue,  sua vítima procura.
Segundo ele,  nada de bom e de puro a vida lhe reserva!...

“Aonde vais  com tanta pressa? Queres saber? beber a borra fétida!...
Na sua voz de resistência  não há  mais sinal algum.
Erguida ao céu sua mão só injustiças  vislumbra.
“Ei, leve esta lasca de pão... Quando o mal de tua vida
Prantos, se fez sangue, lá nas Alturas, dos confins  celestiais
Longe de todos, o Deus nascido em teus olhos  tudo viu...!

                                                                      (Trad. de Cunha e Silva Filho)


Nota do Tradutor: 
       Como pode o  prezado leitor  verificar, os versos  do  poema  se compõem de  palavras  monossilábicas, por exemplo: “Il”, “s’en “, “va, ”  “le”, “front.” Daí ter o poeta  intitulado  a composição de Poèmes monossilabiques. Entretanto,  por impossibilidade de vertê-los nestas condições, o fiz  sem esse traço  distintivo
     Sobre o autor  do poema , até agora,  tive dificuldades de obter  informações  biobibliográficas. Por esse motivo,  não coloquei  a data de nascimento e de falecimento segundo venho costumeiramente  adotando  em minhas traduções. 

   O pequeno  poema foi  extraído do volume 1 de La grammaire par la langue,  de J. de Matos  Ibiapina. Porto Alegre: Editora Globo,  1936, p. 149-150. Esta  obra pertencia  aos livros de meu pai e leva a  assinatura dele na página de rosto. Se, por acaso, algum leitor  de poesia francesa  puder  me fornecer mais  dados  sobre Henri  Gilères, me prestaria, assim,   um  grande favor.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Da literatura e de intelectuais


                                                Cunha e Silva Filho


               Após uma  já longa   experiência de vida, de leitor e de quem lida  com a  escrita, seja no  meio  acadêmico, seja fora dos muros  da universidade, posso distinguir dois  tipos  principais de  intelectuais: a) os que  só vivem  para a literatura; b) os que, no seu labor  intelectual,    imbricam  literatura  e  prática   política.
             Ao me   referir à prática política,   quero significar  aqueles  estudiosos das questões literárias, seja no  campo  poético, seja, no da ficção ( romance, conto,  novela,   seja finalmente na dramaturgia), que  se expõem a seus leitores  por escrito  ou  verbalmente,   sua visão  da realidade brasileira    tomada em todos os seus  ângulos. Não somente se expõem de corpo e alma  sobre temas  que afligem e dizem respeito  à condição  de  ser brasileiro,   de cidadania,   de  posição ideológica, religiosa  e política.
              Não é preciso citá-los  todos, nem no passado nem  no presente. O leitor,  que acompanha  a história  da literatura brasileira e estrangeira,  sabe a  quem me  reporto.  Ele há de  perceber que  a minha preferência recai  sobre  os  escritores, que deram  atenção igualmente aos aspectos  sociais,   não diria  apenas engagés,  à direita ou  à esquerda, segundo   costumavam ser rotulados  autores  como  Sartre,  Lima Barreto,  Oswald de Andrade,    Jorge Amado,  Graciliano Ramos,    Álvaro Lins na crítica,     Camus,   Máximo  Górki,  Zola, Leandro Konder como filósofo, Carlos Nelson  Coutinho como  ensaísta,   Plínio Salgado,  Astrogildo Pereira como ensaísta,  Nelson Werrneck Sodré, como ensaísta,  e historiador,  Antonio Candido,  como crítico, ensaísta  e historiador, Carlos  Heitor Cony, Fausto Wolff,    João Antônio, Plínio Marcos como dramaturgo, Dias Gomes, como dramaturgo,   Otávio  Paz,  José Guilherme Merquior como  pensador,  crítico e historiador, Tristão de Athayde, como pensador  e crítico, José Saramago,    Vargas Llosa,  Ferreira  Gullar, como  poeta e cronista,  Roberto  Schwarz, como  crítico. Seria,  entretanto, digno de nota assinalar  uma circunstância: alguns  deles ( e quero, neste  caso,  aludir apenas aos brasileiros) segundo os rumos   da  história política,  fizeram  mudanças  político-ideológicas ou  se calaram  diante das   prepotências  de partidos  no poder   aos quais  já  pertenceram.  Apenas aqui  foram  citados  a esmo algumas figuras de destaque,  que,  na sua atividade   intelectual,   em jornais e livros,  dão conta   de questões  que   falam de perto   sobre  as condições  em que vive o  povo, uma sociedade. 
      Por outro lado, a vida  intelectual  estritamente   isolada das discussões  que  afetam  a sociedade,  o mundo, o destino  dos povos  me parece  incompleta, como se ainda  se apresentasse presa a uma “torre de marfim.” Respeito,  no entanto,   o comportamento   desses escritores. Questão de opção de cada um.
          Não desconheço  que alguns  ficcionistas propõem  questões  que  estão   intimamente  conexiondas  com  problemas sociais  e de condições de vida  de seus  personagens nos vários  níveis  sociais, ou que  ensaístas de várias matizes, ao  discutirem   temas  humanos   e  mesmo  filosóficos,  se mostrem  com   posições críticas sobre a  sociedade      vistas    através de  abordagens  comparativas. Não é  possível  que  o intelectual   se  restrinja  a parâmetros  teóricos     exclusivamente    de ordem   estrutural e técnica. 
           Contudo,  não  vejo  com  bons olhos   uma  posição    de um escritor    meramente    considerando   a obra literária   como  artifícios  técnicos,  um   produto pensado   nos  escrínios   do laboratório seco  e insensível. Por ser a  obra literária   fruto  da imaginação   humana e criadora, o conjunto  de  elementos  que  a constituirão não  pode  perder de vista  o  seu  fundamento   individual,  social   e existencial, forjado na experiência,  na memória  e na formação   literária  por que  passou  o criador da obra.
         O que  a velha crítica definia  como    autêntica   criação  literária  seria   que  esta   fosse  resultante   de  visões  do mundo e do homem numa  determinada   sociedade   e em tempo  demarcado. E se  ainda se  fala do mistério  da criação literária,   é porque  tal  “mistério”  está   indissoluvelmente  associado  a estratégias  de  composição  da linguagem   literária  e da mesma forma  da predisposição  do autor  para   criar mundos  fictícios  que nos dão   a insuperável    impressão   de que estamos,    enquanto  leitores,  vivenciando   fatos,  ações,   conflitos de  situações   determinadas  e convincentes   da existência humana a ponto de  embarcarmos  na aventura da narrativa -  um mundo que  se sustenta por si mesmo -   ou  no conjunto de imagens   poéticas   elaboradas  que nos emocionam,  nos fazem   refletir  sobre  a vida, os outros e nós mesmos. 
      A denominada catarse grega vale  igualmente  para  a ficção,  a poesia e mesmo  para o ensaio, o qual  pode  provocar  o sentimento da emoção   estética e  a identificação ou dissenso    teórico-conceitual  com  o autor.  Veja-se o  exemplo  que  encontramos  na afirmativa  do velho  crítico  Agripino  Grieco ao  comentar   personagens de Jorge Amado: o romance ou  qualquer outro  tipo de ficção forçosamente teria  que  ter  personagens  de “carne e osso.”    
       Ora,  essa expressão, atualizada,  diante da  multiplicidade  de abordagens  críticas, elucida   bem  a questão  crucial   do que  faz um   romance  um artefato  pleno de vida,  de  experiência  e de convencimento,  de uma  invenção,  pelos múltiplos  recursos da  linguagem   literária, de uma  sociedade,  e do  indivíduo particularmente, como  realidades  “possíveis.”
       Se o leitor,  o receptor,  não  é atraído  para  mundos   criados   com   tanto  discernimento e que  permitem  um aprendizado, uma fruição,  um  acompanhamento, passo a passo,   do que  ocorre  com  a narrativa  e a vida de seus  personagens e não se confunde com   a referencialidade   chã  e  simplista  do cotidiano  da  realidade    temporal, espacial  e psicológica, então  a composição  desse  mundo   inventado se nos afigura   artificial,   nos causa    dúvida  sobre a sua  “veracidade”  tanto  da história narrada  quanto   do arcabouço   ficcional  construído  com  o que  Vitor  Manuel  de Aguiar e Silva chama de “competência literária”  diferenciando-a da “competência linguística.”
     Existe um atributo,   um dado  pré-determinado  que chamamos  de talento, ou de vocação,  ou  de predisposição  inata que, no meu  juízo,  não pode ser  desprezado  no conjunto  do conceito  geral   de  criação artística  em todas as suas modalidades. E essa  talento   não se cinge apenas  à criação   literária; pode-se  localizá-lo  igualmente  nas vocações   de outros  talentos  : nos ofícios,  no campo  tecnológico,  no campo  científico,  nas profissões liberais, na política, nos estudos filosóficos, enfim, em  inúmeros  campos  da atividade  humana.
        Um oficina de  criação  literária  não faz um grande  escritor se este não traz em seu  intelecto  a chama  de criador   inescapável. Não se é escritor  porque  o queiramos, mas  porque  somos   tragados  para  os  braços   do mundo  da criação,   da linguagem com fins   estéticos,  na luta  do escritor   com  o trabalho   espinhoso  da formalização   do  objeto  literário. A técnica  da criação  literária  é valiosa  e deve ser  cultivada,   aperfeiçoada e, ademais,   desenvolvida  com   a observação   das leituras  dos  grandes  escritores de todos os tempos.A consciência do ofício  da criação  deve estar sempre  presente no ato de escrever   vidas,  problemas  humanos,   aos quais  se  juntam   questões de toda ordem e em  terrenos   múltiplos: a natureza,  o espaço físico,  o tempo,   a arquitetura  da obra.  
       
           



segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Leitor de colunas de jornais em tempos variados e com minhas omissões involuntárias




                                                     Cunha e Silva Filho


            As minhas  lembranças de leitor de colunas de autores, regionais ou  nacionais,  que estimava com certeza  não  foram  as mesmas  de outras  leitores da minha geração. No meu caso particular,  remontam  aos jornais de Teresina  a partir  principalmente na década de 1960.
           Na realidade não me  ligava muito  a leituras de jornais, mas a de livros, revistas em quadrinhos e até fotonovelas.No entanto,   me lembro de  que  o primeiro  colunista  que  tive a honra  de  ler fora o meu próprio  pai. Eu tinha uns   catorze anos e lia os seus artigos  estampados em O Dia, de Mundico Santilho, o diretor e proprietário que, segundo  meu pai,   estivera  uns tempos na Alemanha. Santilho   tinha um defeito  numa das mãos, ou em ambas,  não me  recordo  bem. Na mocidade,  dizia-se que era um jovem de boa  aparência.
          Gordo, carequinha e, embora  me parecesse sério,  era pessoa  simpática.Muitas vezes,  ao buscar  as provas  de um artigo de papai,  na  sala  de  impressão  do  jornal,  ele  se  mostrava  sem camisa, provavelmente devido ao calorão  teresinense.Meu pai  me dizia  que ele ainda falava um pouco  o alemão. Sempre  que possível,  meu pai  me mandava  lá, ou para buscar a prova  do artigo, ou  pra  devolvê-la  ao jornal.
          Quem escreveu  muito também  nesse jornal  foi  o meu  antigo  professor de literatura,  o  A. Tito Filho, famoso por suas  boas aulas  que cativavam  os  estudantes. Anos depois,  com  ele meu  pai travou  uma breve mas   célebre e acirrada  polêmica. Creio que saiu  vencedor  meu pai,  espírito inclinado  às refregas  políticas e dotado  de uma veia satírica   incomum. Ambos,  todavia,  poucos anos depois, creio,  reataram  a amizade.          
           Mais tarde,  li colunistas  da página  de Literatura do jornal, se não incorro em erro,  Folha da Manhã. Neste jornal e em outros colaborei  com  artigos juvenis. Li, então,   artigos  de  escritores  e  intelectuais   de renome,  como  Celso Barros Coelho.  Depois que vim  para o Rio de Janeiro,  estimulando sempre por meu  pai,  retomei  a  escrita de artigos sobre literatura e publiquei umas duas ou três traduções  do inglês e do  francês. Naquela  época,  gostava de ler a revista O Cruzeiro e três colunistas  me prendiam a atenção: Rachel   de Queiroz, na coluna chamada, se não  me falha a memória,   “A Última Página,”  Gilberto Freyre e Austregésilo de Athayde, com a sua coluna  Vana Verba. Em Teresina, ainda  li  uns poucos   artigos de Tristão de Athayde. Da mesma sorte,   me deliciava com  as histórias do cartunista   Péricles de título   “Os Amigo da Onça.”
          Na verdade,  a minha maior constância  de leituras se deu mais  tarde, após a minha chegada ao Rio, em 1964 – data, para mim,   que abre uma  nova fase de minha vida em todos os sentidos. Daí em diante,  comecei a ler  colunistas  do Jornal do Brasil,  do Correio da Manhã, do  Diário de Notícias.  Mais tarde, da Última Hora, do Globo, Tribuna da Imprensa.
        No Jornal do Brasil,  tornei-me assíduo da coluna de  Tristão de Athayde, por seus  temas  políticos enfocando o período difícil da Ditadura Militar, de temas filosóficos e sobretudo  literários.Deste jornal  me  fascinaram  também os artigos de  Moacyr Werneck de Castro; mais tarde,  as  crônicas  do poeta Carlos Drummond de Andrade,de José Guilherme Merquior (já na  época do  caderno Ideias) e, nos últimos dias do jornal,  os  duríssimos artigos de Fausto Wolff, sobretudo  do lamentável “Escândalo do Mensalão,”    Durante muito tempo,  lia também  os artigos bem  feitos do arcebispo Dom Eugênio Sales. Do Globo,  estimava  ler  Otto Lara  Resende,  com as suas  crônicas   cheias  de variações temáticas, assim também li   por muito tempo as de  Fernando Sabino; mais tarde,  estive lendo, por algum tempo,  o ficcionista  João Ubaldo.
          Do Correio da Manhã, os  artigos de Carlos Heitor Cony, que me  agradavam muito  mais do  que os que vêm escrevendo, nos dias de hoje,   na Folha de São Paulo.    Da Última   Hora,  lia com  prazer  uma colunista  muito  polêmica,   Sandra  Cavalcanti, que escrevia  com perfeição,  o crítico literário e historiador Afrânio Coutinho (sobretudo  tratando de teoria  literária,  crítica  literária e assuntos mais gerais). Costumava ler, na Tribuna  da Imprensa,  os a longos e incisivos   artigos de  Hélio Fernandes. Anos mais tarde,  lia  com   muito proveito  a coluna  de José Guilherme  Merquior.
       No Rio de Janeiro, por muito tempo,  lia o  prestigioso   Jornal de Letras,  dos  irmãos  Condé. Foi, então,  que passei a admirar  os  bons   ensaios de Assis Brasil,  publicados   mensalmente, na sua coluna sobre  literatura brasileira que se ocupava de autores  brasileiros novos e mais  velhos  em ensaios  longos, publicados em sequência,     bem como  autores  de grande  relevo que lá colaboravam. Esse mensário faz falta  hoje em dia. O que o substituiu, com o mesmo nome,  em termos  de   qualidade,   está muito longe de atingir  o  alto nível  do antigo  Jornal de Letras.
     Atualmente,  leio dois  jornais,  a Folha de São Paulo, aos domingos  e o  Globo (aos sábados), principalmente  porque  são  jornais  que,  no Rio, felizmente, ainda  oferecem, no Rio,  páginas  falando de literatura  e cultura em geral. Como   não alardeio que  leio vários jornais( ?)  completo  leituras   pela  internet. De colunistas do primeiro,  li muito  Elio Guaspari,  Jânio Freitas, Carlos  Heitor Cony, Marcelo  Glazer, e Ferrira Gullar; do segundo,  leio, sobre  política,  Merval  Pereira, toda a página de Opinião,  as crônicas de Zuenir Ventura, os bons artigos de Cristóvam Buarque, de Ségio  Magalhães sobre arquitetura e urbanismo, as colunas de José Miguel  Wisnik e de Arnaldo  Bloch. Obviamente,  leio outros colunistas, mas  sem  uma frequência  maior.  Omissões  certamente  as fiz. Sei  que  o leitor  de colunas, eu, pelo menos,  às vezes  deixa a  desejar,  ou seja,  deveria  ser mais   assíduo  com  muita gente que merece  nosso  tempo   de leitura  de um  jornal.O ideal do  bom leitor, de jornal ou  não,  é ler tudo, sem preconceitos, porquanto  é na variação  das leituras  que  se vai sedimentando  a cultura  do  indivíduo.Todavia,  entre o ideal  da leitura  intensiva  e extensiva e o leitor há algumas barreiras:  tempo,  outras  obrigações,  saúde,  vista  boa e paciência.


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Sudeste brasileiro em tempos apocalípticos




                                       Cunha   e Silva Filho

    As informações que me  passam  os jornais ou outros meios de comunicação  é que, em quarenta anos,  nunca se conheceu, máxime em São Paulo, um  período  de  falta de água  nos rios  que  servem  à população  paulista e especificamente  à metrópole  de  São Paulo. Os reservatórios   de que dispõe  esta cidade  estão   em níveis  de   ameaça à população, mas  ameaça mesmo,  com  possíveis consequências   de alto  impacto  para seu  povo,  seu comércio, sua indústria, enfim,  a sustentabilidade  desse grande e vital  Estado  brasileiro.
     De resto, a capital   paulista  está enfrentando  de início   estiagem e contraditoriamente   inundações, quer dizer,   sofre com  os estragos  das grandes inundações , dos raios,  das tempestades  e diminuição   severa  de suas fontes de  água potável, como se já não bastasse  uma série de outros  graves   problemas  enfrentados  por  São Paulo, sendo o maior deles a violência  desmedida  no cotidiano  da capital.  
     A reação  dos paulistanos    e paulistas  tem se mostrado  de várias formas: lamenta  pela  escassez de períodos  de chuva mais prolongados e  reclama,  com   justiça  e direito,   dos   responsáveis  pela  administração estadual  e  municipal. E com   razão.
      Não somente  é culpado  o  atual  governo  de São Paulo, de vez que o fenômeno  de escassez de água  potável  deveria  há muito ser  tratado com  a maior   responsabilidade  possível. O setor  que cuida  do abastecimento de água  é um dos pontos   deploráveis na  questão  que se discute  neste artigo.  Com o crescimento descomunal da capital  sobretudo  demográfico,    exigindo  uma  demanda  gigantesca  de  suprimento   de água   para uso  humano, as autoridades   que  governaram  São Paulo  pouco  ou  nada fizeram   e nada  previdentes   se   mostraram   quanto   ao futuro  da capital  e do estado  em geral.
      A isso  chamaria de  governar  improvisadamente  em alguns setores vitais  como o  do abastecimento  de  água  de qualidade  para  a população. Obras  de engenharia  que se fizeram   - construção de reservatórios -  não  demonstraram  nenhuma  visão  prospectiva  do que  poderia  ocorrer  no estado de São Paulo. E, em proporção menor,  a mesma crítica  se estende aos  estados  do Rio de Janeiro, cuja capital  é outra   metrópole super-demográfica, com  Minas Gerais, idem.
      Com o conhecido  defeito da improvisação  em lidar com  a coisa pública, nenhum dos  governantes ( e  esta crítica  se dirige a quase todos  os governos  estaduais do país ao longo da nossa  história), teve, repito,  uma visão  mais   arejada do que, com o vertiginoso  crescimento da  população, sobretudo de imigrantes, poderia  acontecer   com o nosso  potencial  hídrico. 
    Por falar em  improvisação, leio, em  tradução minha,  um capítulo didático  em inglês,  de Eugênio Malanga (1), em que,  louvando  o progresso e a grandeza deda cidade de São Paulo,  faz um  assertiva desta  ordem,  que vale,  para os dias sombrios atuais da metrópole, como  se fora um  vaticínio:  “A fundação  de São  Paulo nada tem  de  espetacular. Não foi  planejada, não se desenvolveu,  não foi  planejada  para ser uma  grande  cidade. Aconteceu por acaso.”  Por outro lado,  em outro  trecho,  aquele autor  recorda que,  pelo  progresso  e  crescimento  vertiginosos  de São Paulo,  ela já se comparou  a Chicago,  a Detroit e lhe chamaram até de “a Manchester  brasileira.”
   Por conseguinte,  não  devemos  culpar  a Natureza  só  pelo que está vivendo  São Paulo; com ameaças climáticas e pluviométricas  da mesma ordem estão dando sinais    o Rio de Janeiro e Belo |Horizonte, outra capital   de grande  concentração  demográfica.
   O que não pode  permanecer  é esse estado  de insegurança sobre   como  viverão  essas capitais  com  crescente  escassez de água   para uso  humano.
   Os governadores  dos três  estados já estão até falando em  racionamento  “pesado”  de  água  para a  população,  numa  proporção  de causar  horror:  cinco dias  sem água para dois  dias com água  nas torneiras.
   Não me venham  tais governadores   tentar  tampar o sol com uma peneira   com afirmações   que são meias-verdades a fim de esconder  a completa   ausência  de   tirocínio e de espírito de previsão  que são  condições   básicas  a quem  governa   um estado da federação..
  Os prejuízos  da população já são   enormes  com  a falta  de água. Como,  pois,  ficarão   funcionando  os hospitais,  as escolas, as universidades,   o corpo de bombeiros, os restaurantes,   os asilos,  os apartamentos,  para não mencionar  tantos  e tantos outros setores   que, sem  água,  não poderão  resistir  por muito tempo?
    A Presidente  Dilma afirmou  que pela Constituição cabe  aos estados    a resolução   desses problemas   relativos  à  falta de água.  Ela está  redondamente  enganada. Somos uma  República  Federativa  com   estados    que funcionam  conjuntamente  com  o  apoio do Executivo Federal. A situação que se nos apresenta é de emergência,  de exceção,  de necessidade  do  suporte do governo  federal,  até  mesmo   e sobretudo   na destinação   urgente  de recursos   financeiros  para  solucionar  em curto  prazo   o sufoco  por que está  passando   São Paulo.
     A Presidente da República não pode absolutamente  se omitir  na discussão   urgentíssima    a fim de  formular um  plano   emergencial  para   estudar   e equacionar,   com  o  auxílio  inestimável de  nossos  engenheiros  e cientistas, sem descartar  nossos  especialistas no assunto  das melhores  universidades  brasileiras, uma saída  técnica  para prover  São Paulo   e os outros dois estados de formas de canalização, por exemplo, através de ductos,  como  fez a Rússia em relação  ao gás   transportado  para outros  países    da Europa. Transposição de rios brasileiros   não é a única    correta  solução e o que se tem visto   neste sentido  tem  tido  efeito  contrário e  prejudicial   ao fluxo   navegável  dos rios. Haja vista essa obra  que  se está  tentando  realizar (dizem até que  a obra  está  paralisada!), i,e,,  a transposição do Rio  São Francisco,  que  tem dado sinais  de    se tornar  um rio  temporário com algumas  fontes  de água  já  secas.
         É inconcebível que  o  país  que  tem  o maior rio  do mundo  em volume de água  esteja   passando  por  este  flagelo  da seca,  assemelhando-se,   em alguns  aspectos,   ao  “Polígono das Secas”  do Nordeste. Será que   teremos, então, no futuro,  ficcionistas reproduzindo cenas  de Vidas secas, obra-prima de Graciliano Ramos (1892-1953) com novos  Fabianos,   Sinhas Vitórias e  cachorras  Baleias tendo    a cidade  de São Paulo como  o espaço da tragédia  brasileira? Seria cômico se não fosse trágico.
        As populações dos três estado  do Sudeste  devem se unir  e exigir  urgentíssima  posição dos seus governantes e da própria  Presidente Dilma  satisfação  para esta situação   tão  aflitiva  aos estados  afetados, principalmente   São Paulo. Se alegarem  que  não têm  condições   financeiras de bancar  uma obra   de grande vulto  para   resolver   este  premente  e mesmo  dramático    problema  por que atravessam  os  paulistanos e  paulistas, seria  o caso de se  indagar:  e o dinheiro  que  o escândalo da Petrobrás   desviou do Erário Público,  ou seja,  do  povo brasileiro?
         E as outras falcatruas ( os escândalos do “Mensalão”) cometidas  durante  a gestão Lula e, sob outras formas, na de Dilma? E a gastança   com  os vencimentos   de marajás   de   senadores  e  deputados federais, de ministros do Estado, do número   desmedido de ministérios, do  escândalo da  Petrobrás, reafirmo,    dos cartões  corporativos,   do dinheiro  público  canalizado para as campanhas  políticas, entre tantos outros “malfeitos” (jargão  da própria  Presidente)  do governo  federal?  Ora,  não me venham  declarar que  não   dispõem de   dinheiro  para realizar  obras   de alta envergadura  a fim de  amenizar  o sofrimento  dos paulistanos e , quem sabe,  dos cariocas e mineiros?
        Se existe estiagem, reconheço, mas não me venham convencer de  que  a culpa   do descalabro  em São Paulo  é só da Natureza. O dedo  humano  tem  um  efeito  muito  mais  pernicioso porque  pode levar  a cidade ao caos  e à desordem  na luta  individual e ignorante:   “-- um gole d’água, por amor de Deus!


(1) MALANGA, Eugênio. Vamos aprender  inglês. v. II. São Paulo: Editora  “Ave Maria” Ltda.,1959, p. p.83-84.  

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

A INJUSTIÇA, SEUS MALES E ALGUMAS SOLUÇÕES

       


                                                Cunha e Silva Filho


          Só quem já sofreu  injustiça  sabe o quanto  ela machuca,  decepciona,  acabrunha,  causa indignação   e é deletéria. Entre os males humanos, a injustiça é a que provoca  mais  censura   em qualquer parte,  em qualquer circunstância da vida.
        A ação injusta penetra todos  os ângulos da vida  social,   coletiva,  comunitária,  nacional  e internacional. Veja-se um  exemplo típico: a injustiça  da fome  mundial ainda  neste  quinze anos  iniciais do  século.  Em regiões da África, das  Américas (incluindo  o nosso  Brasil)  grassa  como  um  câncer, ceifando  sobretudo  crianças,   animais,  o homem. Este quadro de  desumanidade se torna mais    reprovável, para  dizer  o mínimo,    quando  sabemos  que a  riqueza do  planeta Terra está  nas mãos de  1% dos  chamados   milionários!
      Temos  organismos   internacional para  cuidarem da   diminuição  da pobreza, ou melhor, dos que   se situam abaixo do nível  desta? Sim temos, e, por mais que  façam,  o mal  da fome  resiste. A razão  primaria  para   esse permanente   estado de miséria não é fácil de  localizar: encontra-se no fator  econômico,  ou seja,  nas desigualdades   criadas  pelos  sistemas   de governo das nações, pelo descaso  global  contra a educação mundialmente  considerada  pelos  organismos   internacionais,  pelos desvios  de dinheiro  através  da corrupção    generalizada, sobretudo  em  países de baixo  nível de escolaridade.
    Outros   fatores   pelos  quais  a  fome  não  foi ainda  extirpada em tempos  de progresso e  tecnologia  tão complexos e avançados  - contradição   extrema! -  podem ser   identificados   na questão do individualismo   dos países,   nos gastos   com   armamentos   de ponta que só servem a um  fim : a destruição da Terra. Falta, a meu ver,   um gigantesco  projeto  supra-nacional que se  encarregaria  de   estudar   com  profundidade,   sem  condicionamentos  políticos,  ideológicos  e religiosos. É factível isso? É, sim. 
   O tratamento  que agora  se deveria  dar aos problemas  gravíssimos mundiais  tem que passar  por questões  envolvendo  o meio-ambiente,  a climatologia,   o espírito desideologizado e uma  mente  global   insubmissa  às contingências fortemente  nacionalistas.   É claro que não  estou   advogando   a ideia de que   o  planeta seja  conduzido  por um  órgão  que determinasse e se imiscuísse  na soberania dos povos, mas um   organismo supra-nacional que  fosse  presidido  apenas  pelo espírito  de natureza humanitária,  sem  populismos,   sem  laivos  de  imperialismo  ou  de grande  potência   dominadora    como   no século  passado  tivemos e mesmo,   de formas diferentes,  em séculos   da História  dos povos.
    Eliminar  ou amenizar  suficientemente a injustiça, creio,  teria que  passar  por  essas mudanças de cunho  humanístico na   condução  dos destinos   do homem  no  mundo.
  Esquecer  a gravidade do  problema da fome, da pobreza, da injustiça, enfim,  considerada  em  todas as suas manifestações – e são inúmeras -  infra-estrutura do Estado,   saúde,  educação,   a questão da violência, a impunidade, a infância abandonada, a desagregação familiar, a corrupção,  a politicagem, a  incompetência  de governantes,  a desídia  em  lidar com  a coisa pública, a malversação   do dinheiro  público,  o individualismo    exacerbado das pessoas   de alto  padrão  de vida, o consumismo   excessivo,  a falta  de uma dimensão   espiritual ("the missing dimension") de que  já falou  um  pastor  americano, Herbert W. Armstrong (1),  que  oriente  os indivíduos a serem,   desde a  infância,  pessoas  dignas,  honestas e solidárias,  estaria na contramão  de  toda um comportamento  das sociedades  e dos governos fundamental à batalha  contra  as  injustiças que  podem se  incrustar  no emprego, na fábrica,  no hospital, na escola, na universidade,  nos tribunais, de justiça, nos esportes,  nos  estádios, quer dizer,  a injustiça  é um  mal  ubíquo instalado  para   destruir  inocentes  e humilhados em tempos de terror  e espanto  universais.

(1) ARMSTRONG,  Herbert W.. Autobiography of Herbert W. Armstrong. v. 1. World  Church of  God, 1986, USA, 646 p.).


sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Dois notáveis educadores piauienses




                                         Cunha  e Silva Filho


    Uma vez, em crônica,  falei  que  o período  inicial  do meu  curso   primário não me foi, ao contrário de tanta gente a quem  cumprimento  pela  felicidade  que desfrutou nesse período escolar,   bafejado  pela  alegria  plena,  por um ar  de eterna  felicidade. Me lembro de que   os primeiros  dois ou três anos,  mudei muito de escola,  estudei  em escolas  particulares sem renome,  em  aulas particulares  de reforço  à leitura,  (uma delas tinha  como   responsável a professora  Dona Eremita, velhota  durona,  exigente, me dava um certo medo). Ainda nas minhas perambulações,   estudei  na conhecida Escola    Demóstenes  Avelino, cujo dono era o  professor  Felismino Weser.
          Estudei ainda  num grupo escolar por um ano ou menos do que isso, que  ficava  em frente ao  Palácio de Karnak,  ou seja no espaço  que  estaria  incluído  o que posso liricamente  chamar “coração  de Teresina”, até que,  lá para  a terceira  série ou quarta,  meu  pai (e os  meus dois  irmãos mais velhos,  Sonia e Winston)  me levou   para  cursar  o final  do  primário  no Ginásio  ” Des.  Antonio Costa,” famosa e popular instituição  de ensino  que dominou  largo  período  do  ensino  privado  teresinense. Era dirigido  por dois  irmãos,  o  professor  Francisco Melo Magalhães e o  professor  Domício  Melo  Magalhães.
       No  instante em que ingressei  no Domício, nome  por que era  carinhosamente  denominado  aquele  ginásio,  posso  lhe afiançar,  leitor,   que houve em mim  uma transformação que bem  poderia  ser  de natureza epifânica. Perdi  o medo  de escola,  criei ânimo,  desabrochei  para  as delícias  da aprendizagem,   da leitura,  da escrita, da matemática. Só sei que, da terceira  série, pulei  para o   exame de admissão. O caminho  estava aberto e o futuro seria o limite.
      Sentia que a  estrada do saber se me abria para sempre,  sem  tempo  fixado. Era tudo deslumbramento,   emoções,  desejos  insopitáveis  de conhecimento, de superação,  de  vencer,   de aprender  pra valer e tudo  feito  do prazer  de aprender  por aprender,  sem  imposições dos pais,  de amigos,  de parentes.  Era uma   tomada de  posição minha e de mais ninguém.   
    Nesse período  de exuberância  infantil,  convivi na sala de aulas com os  irmãos  Magalhães. Com o professor Melo,  assim  o chamávamos,   aprendi  o conteúdo  de matemática; com o  professor  Domício,   de forma  lúdica,   aprendi  a  prestar  atenção  aos detalhes  de  quadros  que  trazia  para a sala e nos  ensinava a  fazer uma descrição: “O quadro que vamos   descrever  representa ...”.  Até hoje me soam   comovidamente   aquelas suas  palavras.
       Do professor   Domício,  aprendi  os rudimentos  da geografia  e história, que complementava com um  velho  livrinho  destinado ao  exame de admissão  e de outros  livros   da biblioteca de papai destinados  àquele  nível. 
       Quando enfrentei  as provas  do exame de admissão ao ginásio,   estava bem  e até recebi elogios  de um  professor  querido, o professor João Batista,  que,  no ginásio,  me lecionou    latim  e  canto  orfeônico. João Batista  era um  mestre  por vocação. Tinha  deixado a batina,  casou-se. Acredito que foi muito feliz. Foi  um grande incentivador meu e fazia  questão de me elogiar  pro  papai, que  obviamente   se orgulhava  de mim.
     Os irmãos  Magalhães  fizeram  história  na educação  piauiense.  Eram de Piracuruca. Formaram-se em direito em Teresina, mas preferiram  se dedicar  ao magistério. Conta-se que arrostaram muitas dificuldades   de possíveis  inimigos   invejosos,  porquanto  seu  Ginásio  era repleto de alunos.
      Porém, nada os impediu  de  dirigir  essa  grande  e popular    escola   particular. Nele lecionaram  grandes figuras  de professores  de alta competência. Posso mencionar alguns:  Lysandro  Tito de Oliveira (geografia)  Valdemar Sandes (língua  portuguesa),  Cunha e Silva (francês),  João Antonio (ciências)  Jose Eduardo (inglês),  Alcides Lebre (desenho)  Francisco  Viveiros (inglês),   João Batista (já citado),   professor  Tonhá, hipocorístico do  professor  amarantino Antônio Veríssimo de Castro, grande   estudioso  do vernáculo, filólogo,  professor de   português, professor, autor de obras sobre língua  portuguesa e dicionarista, na área de etimologia, Edmar  Vasconcelos de Sant’Ana (desenho), autor,  se não me engano, de um  único  romance de título estranhamente  simbólico,   Quando?...,  Depois da Quermesse! (impresso pela  editora Vozes,  Petrópolis,RJ, 1995), no qual, na capa, consta apenas  “Sant’Ana”  como autor.A obra de Sant'Ana recebeu  elogios  de  um professor  universitário  inglês, Bruce Corrie,  de  José Louzeiro e de  jornalista  Raúl Soeiro
      Outros  professores  de mérito  lecionaram  no  Ginásio  “ Des. Antonio Costa.”  Por  terem sido professores meus  por muito  pouco tempo,  os nomes  deles me escapam  à  memória. Umas  observação:  creio que,  pelo  recorte de  tempo  dessas memórias,  todos  os citados  ilustres  mestres, a quem  presto  nesta coluna  minha   gratidão  perene,  já  estejam, como nos versos  finais do poema  “Profundamente” de Manuel  Bandeira (1886-1968): “__Estão todos  dormindo/Estão todos deitados/Dormindo /Profundamente.”(Libertinagem, 1930)
      Os irmãos Magalhães sofreram reveses, incompreensões, até   injustiças, seguramente  por se  tratar de um educandário   que  batia  recordes  de  número de alunado.O Ginásio  era até  injustamente  criticado,  por pessoas  desavisadas, por  expressão do tipo  “escola  PP,”  que  queria dizer: se o aluno  pagasse a mensalidade,  passaria  de ano.Nada mais  injusto  e  falso. Jamais  renegaria  o valor   moral  e  educativo  do Ginásio  “Des.  Antonio Costa.” 
       Todo  o período  em que  tive  a honra  de ser aluno desse  colégio foi  pontilhado  de contentamento,  de  sentimento   de   alegria,   de compartilhamento, de amizades  feitas, de entrosamento  entre mim  e o  colégio e de ter sido  considerado  um   aluno  respeitado   e querido  por meus  mestres e elos diretores, os irmãos  Magalhães. Razão tinha   Olavo Bilac de  atribuir  um   importância  elevada ao ginásio – base  de todos os futuros   cometimentos que, se me deram  tantas   canseiras, também  me  realizaram  como   estudioso.
   Nos dias de treinamento para  as  “paradas” de “Sete de Setembro” é que se via  a numerosidade de  estudantes   do colégio.  O educandário não fazia, entretanto,  parte dos grupo de  colégios  da chamada  elite   teresinense. Contudo,   isso não  diminui  a grandeza  que   esses irmãos significavam     para   o campo   árduo da educação piauiense.
    Muito aprendi com o  professor Mello e com o  professor  Domício, cujas  personalidades   opostas  pelo  temperamento, no entanto,   se  completavam  e davam, assim,  uma unidade de dupla de  docentes  que nasceram   para  a sublime arte de ensinar e divulgar   sabedoria  em companhia  do ilustre   corpo docente escolhido a dedo.
     No  já envelhecido  Certificado de Conclusão do Curso  Ginasial,   que o Ginásio “ Des.  Antonio Costa”  me conferiu no ano letivo de 1960, no alto  da página modelo  7  do diploma, logo abaixo  do  símbolo de nosso  pendão e do  órgão  responsável pela  validade  do documento, Ministério da Educação e Cultura,  impresso  em preto e branco  se  encontra o nome, em  caixa alta,    do colégio, assim como o do fundador, J. R. Magalhães Filho; o endereço  da instituição, Rua   Felix Pacheco, nº 1589; o “fone”, 2645; a cidade, Teresina ; o Estado, Piauí. E, para completar os dados burocráticos, esta emblemática  afirmação  de Platão (428/427  a.C.- 348/347 a. C.)  : “A educação é a mais  valiosa  herança que os pais  podem  deixar aos filhos.”