terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O meio-ambiente é a palavra-chave




                                 Cunha e Silva Filho


       Em incisivo artigo  publicado no Globo (17/01/2015), o cientista  político  Nelson  Paes Leme tece com argúcia e oportunidade  algumas  observações acerca  do  recente atentado  contra o jornal  francês  Charlie  Hebdo do qual   resultou a morte de  talentosos cartunistas  e de outras  pessoas , causando  uma comoção  nacional  e um grande  repercussão  no exterior.
     Porém, acertadamente,  Paes Leme não deixa escapar   a chance de  fazer  um  pertinente    alerta: que não apenas  as multidões  conduzidas por chefes de Estado   europeus  se  unam  contra o terrorismo, mas que,   no conjunto de  problemas  mundiais  de alta  relevância  existe  a questão  do meio-ambiente,  da preservação da Natureza-mãe,   esquecida  com frequência  em  manifestações  de massas  da envergadura  que foi a da morte dos  cartunistas.
    Para o cientista político, a “sobrevivência da humanidade” e da “bioesfera” se encontram   entre as prioridades  urgentes  que deveriam estar na pauta  dos impasses  a serem   debatidos  amplamente  no mundo  inteiro. Lutar contra  o terrorismo   é uma questão de honra  para  os países que  prezam a democracia, mas  olvidar  um outro  inimigo que nos espreita,  a derrocada  da vida em nosso  planeta,  é da  mesma maneira    vital para os  seres humanos  deste  início  de século.
      Segundo  o  cientista  político,  a visão dos  problemas  de enorme   significação  para  a preservação  de nosso  planeta é  tema que deve  ser  considerado  num programa amplo  interdisciplinar  envolvendo o maior número  possível  de  equações   conducentes   a estratégias para  estancar  a reação   da natureza contra os que a   destroçam  por muitos meios: poluição,   efeito  estufa provocado  pelo  uso   excessivo  do dióxido de carbônio,  inundações,    afrontosas  mudanças climáticas, tempestades,  explosão demográfica nas metrópoles,  desmatamento  das florestas tropicais,   incompetência   das autoridades, ganância  financeira,   gigantismo  das urbes,  demandas  econômicas,   desperdício  dos recursos da natureza,  tudo isso, repito,  em decorrência do  descaso do homem moderno  por preservar,   na medida   justa e humana,   o que nos  resta  do planeta. 
      No Brasil,  temos várias consequências  do mau tratamento  da natureza pelo  homem:   a situação   da seca em São Paulo,  a degradação do rio  São Francisco,  o fornecimento de água  potável  para  São Paulo,   os apagões   já registrados,  o  extremo  calor no Rio de Janeiro jamais visto. A expressão “Rio  45 graus” já era, pois a sensação térmica  pode chegar a  50 graus! Qualquer habitante com mais idade  do  Rio de Janeiro  percebe  que a cidade  já foi  menos quente. São Paulo, idem.
      Paes Leme sublinha  um dado   de extrema   importância: a humanidade  pensa  mais  nos problemas humanos  do que na  prática  e cultivo   do entrosamento  entre  a “espécie  humana e a história evolutiva das demais  espécies.”  Para ele,  uma não  pode  se separar da outra. É o todo  do Planeta que  estamos  pondo em  risco e afundando  na destruição. O perigo  é o homem, não a natureza. E o homo economicus  ainda joga  papel  saliente e decisivo; caso não o  faça,  ele estará   cavando sua  própria cova, se é que ainda haverá  cova  para todos. Será como aquela   advertência, algumas vezes já citada por este colunista,   ainda  tão atualizada de  Bertrand Russell (1872-1970): “ Só há dois caminhos para a  humanidade,  a paz ou a destruição  total.”
     Para ele,  falta a  nós  uma  visão  “holística,” ou seja,  um   encaminhamento   dos problemas de  maneira   geral e em conjunto. Não se poderia  levar  só  em conta       a questão econômica, que é relevante, mas  não é a mais   premente  à felicidade  terrena.
     Segundo  Paes Leme,  ou haverá  interdisciplinaridade  no   ataque aos problemas  do meio-ambiente,  ou  estaremos  caminhando  para  uma   posição  perigosa de sobrevivência ainda neste século. As  sugestões,  expressas de forma cristalina  pelo  cientista  político, são no sentido de que, em  primeiro lugar, se dê  prioridade ao chamado  “Índice de Desenvolvimento  de Desempenho Sustentável” e não,  como  se faz  amiúde  no trato  de questões   cruciais  para a salvação do  planeta Terra,   prioritariamente ao  PIB.
   E, por falar  naquele  Índice,   Paes Leme adverte o leitor  para  a posição   pouca honrosa  para o  Brasil que,  em 2014,  cujo EPI se coloca na 62ª  posição do “ranking mundial”! Mesmo  na América Latina,  encontra-se o  Brasil  em   posição   vergonhosa, ou seja,  fora  do conjunto de dez  países   que  se situam num ranking  mais expressivo. Acentua  o  cientista  político  que   tal  posição   inferior  de nosso  país   não faz jus  à condição de que  aqui  se encontra, como dádiva  da natureza,  o  "pulmão do mundo", aludindo  à nossa  Amazônia.

     O artigo de Paes Leme é polêmico  é ,  a meu ver,   de   grande   interesse  para   todos aqueles  que desejam  que seus  netos e  bisnetos   tenham   sobrevivência  ao longo  deste século. Mas, o artigo  não se sustenta  no vazio.  É rico de  detalhes e  observações  que devem ser   medidas  com  toda a  atenção que merece o assunto. 
    Para tanto, cita   importantes autoridades  científicas,  como a de do astrofísico  Martin Rees, autor do apocalíptico  Our final  century (em tradução  livre, Nosso  século  final), ou do  biólogo também britânico James  Lovelock, com  seu livro,  A vingança de Gaia, ou ainda  a do filósofo John  Gray, com seu livro  Cachorros de palha. Para  Paes Leme,  os três formam uma   “espécie de  trilogia do apocalipse" na Inglaterra e o mais   assustador  é que  suas previsões  já incluem  os  “próximos  50 anos!
      Ressalte-se que  o citado  Martin Rees se  fundamenta  em   índices  analisados   conjuntamente, ou seja,  usa  o  citado  EPI, IDH e  PIB. Ou seja,  não se prende tão-só ao  fator  de ordem  econômica. Além disso, critica os gastos   astronômicos  de  países civilizados  com armamentos,    os quais só servirão  para    precipitar  ainda mais  as posições   nada  alvissareiras  para a sobrevivência  na Terra.
     Além disso,   a própria OTAN, de acordo com  suas próprias fontes,  dobraram seus  gastos militares, atingindo  cifras de  trilhões de dólares. Os EUA, também. Tudo isso  só pode  provocar    indignação  e  consternação dos homens   que lutam  pela  paz e pela  bem do  Terra. 
     De qualquer  forma,   o artigo de Paes Leme é útil  e  original e, como  cientista político,   não  se furta a   fazer  analogias  com  outros temas  que,  estruturalmente,    se  imbricam   na  tentativa de  entender  as implicações   da  desordem  do Planeta,  sobretudo do   “aquecimento  global”,  cujos  efeitos  hoje em dia,  em  nossas metrópoles e mesmo  no interior,  já  dão  sobeja  prova  de que  o  planeta  Terra está  muito doente  e, por conseguinte,   necessita  da atenção  de todos  os  povos do mundo,   sobretudo  dos que  mais  concorrem  para   a  deterioração    da  atmosfera.
   Refletir sobre um artigo  dessa  dimensão  social  não somente serve  de alerta  aos “donos do mundo”  mas  também  abre os olhos  de grupos da paz que,  em todo  os países,    deveriam lançar campanhas    de esclarecimento  sobre  a nossa  própria sobrevivência     neste tão  desolado   mundo contemporâneo.  
 


sábado, 17 de janeiro de 2015

O Mundo em desasssossego




                                        Cunha   e Silva Filho


          Para qualquer lado que  dirigirmos  nosso  olhar contemporâneo,  seja  no  Brasil,  seja em  outras partes  do planeta Terra,  tudo conspira contra a esperança,  a paz,  a  tranquilidade das pessoas.  Se as ciências e a tecnologia  trouxeram  tantas possibilidades  de uma vida  melhor,  que nos vieram  proporcionar  mais conforto,   facilidades  instantâneas de comunicação,   avanços  na medicina,   na robótica,   nos meios de  aquisição  do saber  em  todas as áreas  conhecidas, em  proporção   inversa  têm crescido os desmandos  de nossos  dias em  crescente   estado de tensão  do convívio  humano.
      Em outras palavras,  o mundo está  em desassossego provocado  pelas guerras civis, pelos  desentendimentos   religiosos,  políticos,  ideológicos, étnicos,   enfim,  por  desentendimentos entre países, cuja manifestação   hoje mais    insidiosa  se conhece  pelo  termo  “terrorismo”  - recurso   pusilânime  de  trucidar   vidas de inocentes  que não podem  responder   pelos   erros  e   perversidades   cometidos   por governos   tanto no Ocidente  quanto  no Oriente. Sabemos que o Ocidente  não é tão anjo assim, como  não  são anjos  os  seguidores   fanáticos     do terrorismo nacional  ou internacional.
   O alvo  agora  não  se limita aos EUA. Ele se  desloca  intempestivamente  para  a Europa  e o  próprio  Oriente. O pior ainda é que  o terrorismo   de grupos   do tipo Al –Qaeda,  ou dos Estado  Islâmico, tem  recrutado   europeus para suas  fileiras, sobretudo   europeus com   ascendentes   não-ocidentais. Jovens  são  facilmente  manipuláveis   por lavagem   cerebral   inoculada pelo veneno da barbárie.Tais jovens se  bandeiam   para   facções   terroristas    autoritárias e assassinas   que  invocam  para si   modos  de vida  e de  crença   religiosa como se fossem   a melhor   forma   de  comportamento   humano  e   de princípios   de vida.  Se entendermos   essa atitude   como  islamismo,  então  os grupos   terroristas   estão deformando   a leitura   do  Alcorão e, no mínimo,  estão  apresentando o  islamismo  como   algo que  ele  não é:  um doutrina  espiritual  que   pratica  o  bem, que não pode ser   assassina nem  covarde nem  terrorista,  nem  expansionista,  i.e.,   imaginar-se como    a única   forma   de    o mundo   pautar-se   na sociedade atual.
    Sabemos   que  os modos de civilização   ocidental  não são  também  modelos,  em alguns aspectos da vida,  a serem imitados.  Há muitos   erros  de mores  ocidentais  que  precisam  ser  corrigidos   em  várias  dimensões,  tanto   éticas,  políticas quanto religiosas. Muito lixo moral   ainda se mantém  intacto  na  sociedade  ocidental e, se fôssemos citar alguns,   teríamos  o excesso do hedonismo,  a desigualdade  social,  a corrupção  em  elevado  grau,  a impunidade  em algumas regiões dos continentes sul-americano, asiático, africano,  a criminalidade  e a violência  galopantes,  o populismo  demagógico   de   alguns  governantes e a desmoralização   da classe  política, sem  deixar de mencionarmos   a dissolução   do comportamento    sexual   de  parte do   Ocidente, sendo um  bom exemplo  o  Brasil.
   Alguns  setores da indústria cultural   não  dão  bom  exemplo de formação   moral  e espiritual   da sociedade  afundada  no espelhamento    propiciado   por  algumas  formas  de   arte de entretenimento,  como   o cinema trash,   um incentivador   e  estimulante  da criminalidade e do caos  urbano, que faz  a riqueza  do produtores e  atores em  filmes de   baixo nível  importados  dos EUA. Ora,   essa  películas  assistidas  por  gente praticamente  de quase  o mundo inteiro e por  parte de   consumidores sem nenhum  parâmetro  ou código moral e familiar,  concorrem  em muito para  a desorganização   de um  mundo  high tech     comprometido até às raízes com   os vício das drogas e  o  ingresso, ainda na  infância e adolescência, no  mundo  do crime  organizado,  do narcotráfico,  da violência  sem fim  como a que  temos    presenciado  ad nauseam  na  vida cotidiana  brasileira,  sobretudo  nas grandes cidades,  porém  tampouco  ausentes  nas pequenas   cidades brasileiras.
   Esse planeta  em desassossego, pelo terrorismo já atingiu  a nação mais desenvolvida  do   mundo, os EUA,  já passou, agora,  para  a França,   já atingiu a Bélgica e a Alemanha e tem feito  estragos   sanguinolentos  em conflitos  bélicos  na Síria,  no Iraque,  no Afeganistão, Paquistão e em outras regiões.
   Por outro lado, para enfrentar  o famigerado   terrorismo  é necessário que o Ocidente  cumpra   igualmente    certos deveres de casa, sobretudo   em grupos    de sistemas  ideológicos   neofascistas, como  temos  na Europa  e em outros  países.
  Urge que  o Ocidente  se conduza  da mesma sorte  com   comportamentos    políticos,  sociais à   altura   de suas  conquistas  de direitos   humanos  e de cidadania,   execrando  quaisquer  formas  de    retrocessos   xenófobos, de eurocentrismo, de igualdades apenas aparentes  e não  reais, e de retaliação   com   os  estrangeiros   que  escolheram  países   como segunda pátria e lá  só  desejam   viver em paz com a sua família, como aquele  exemplo de uma família   judia que vivia  em Paris e que,  após o ataque  terrorista ceifando a vida de cartunistas  famosos e de outras  pessoas ao mesmo  tempo,  apavorada, se dizia  sem segurança  na bela e elegante  capital  parisiense e, por esse motivo, seus membros   voltaram  para  Jerusalém onde, segundo  o pater familiae,  pelo menos  lá se  sabia  onde ficava o perigo, ao contrário  de Paris que, para ele,  estava em qualquer parte  da velha  terra de grandes escritores, filósofos e artistas, uma espécie de pátria da cultura  com o fascínio  de irradiação  pelo  mundo.
         Questões fundamentais como controle de  imigração,  fiscalização  rigorosa  da situação   de cada  estrangeiro  residente  na França (o mesmo  valendo  para outros países  que  recebem  estrangeiros asilados),   deles exigindo  direitos e deveres  de  estrangeiros  e realizando  uma   avaliação   precisa e profunda  das condições de vida  social   dos  estrangeiros naturalizados e dos filhos   destes nascidos  na França,  têm   que ser   cuidadosamente  examinadas.
       De nenhuma  maneira,  os  imigrantes  devem ser  discriminados   nem tratados como   cidadão de  segunda   classe. Contudo,   uma revisão  dessas questões  não  pode ser  negligenciada  pelas autoridades   francesas. E essa precauções  devem  ser  igualmente   levadas  em  conta  em outros  países europeus,  ou não.Todos  esses problemas  foram   gerados  após as  guerras   civis   no Oriente e, por força  dessa condição subalterna,   ressentimentos  morais  e de submissão    imposta  pelos  países  colonizadores deixaram  marcas  de  ódio    após  o período de colonização  de  países   por  nações   ocidentais. É o  caso  do Níger em que,  hoje mesmo,   queimaram a bandeira  francesa  em solidariedade   aos terroristas   mortos.

       É forçoso  que os organismos internacionais  de defesa das nações, grandes  ou pequenas,  se debrucem  para   encontrar  pontos  de   convergência  em direção   ao confronto, infelizmente   já estabelecido,  entre   terroristas  ditos muçulmanos  e  nações  ocidentais. É preciso  que,  nos debates  que virão   dos impasses  trazidos   pelo alastramento do terrorismo, localizado ou   internacional, saibamos   separar  o  joio do trigo. Não confundir   muçulmanos  bem intencionados  com  jihardistas ou "Estado  Islâmico" é uma das vias  mais   fecundas  em direção  a uma  paz ainda que provisória.  Não é uma questão magna entre bárbaros  e civilizados, mas  entre  o justo  desejo  de  combater  quem  realmente  é o inimigo  que  não admite   processos   civilizatórios  diferentes.  O respeito ao outro  nem sempre  vale como  uma premissa  de reconhecimento   justo e de justiça   isenta.  

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Protejamos a cidade de São Paulo




                                                          Cunha e Silva Filho


          Não irei falar da violência em São Paulo, que é catastrófica. Deixemo-la pelo menos  neste artigo São Paulo, a cidade,  o interior  também  estão  vivendo  suas vacas magras, com problemas  de toda ordem, sendo dois deles de   consequências   sérias: a cidade  sofre  por  falta       de água para abastecer  o cotidiano  de seus habitantes. Li, num legenda na TV,  uma frase que me  amargurou como brasileiro:  “São Paulo vira deserto.” Além da escassez da água, padece também  de chuvas  e tempestades  que a dilaceram , fazendo um estrago enorme, com  árvores  caindo sobre  postes,  carros,  casas,  às vezes  causando  mortes   e com um  percentual   elevadíssimo  de  raios que   atingem a grande metrópole  da América Latina – o sustentáculo do  país na indústria, nas fábricas,   no comércio. São Paulo  não merece o que  está  vivendo  agora. Por isso,  os brasileiros  devemos fazer alguma coisa por  essa  cidade  de magnitude  ímpar para  a engrenagem  do país  na sua totalidade. 
      Se suas  fontes de água  estão sumindo,  se  seus reservatórios   estão  em  baixa,  há que  se fazer  urgentemente  algo   à altura   da grandiosidade    dessa cidade.  Não é possível que  não se  vislumbre  uma  solução  científico-tecnológica  para que  a cidade  possa  voltar  a passados  anos  de  traquilidade  no que concerne  à água potável.
     Vejo que a situação calamitosa de São Paulo,  nos itens  da água  e  das  inundações,  não são  somente obras  da natureza,  mas  indiscutivelmente aí tem o dedo   destruidor e  depredador do homem e da  negligência  e imprevidência  de  seus governantes  que não  se mexeram  para  fazerem  algo de   construtivo   a fim de  amenizar   as agruras  por que os paulistanos  e os paulistas  estão  passando. Veja um exemplo gritante:  o do rio Tietê, que  há tempos  tem sido  massacrado  com a poluição e o descaso  das autoridades  que, ao longo dos anos,  nada fizeram  para  que  esse importante   rio,  que   é presença    contínua  na paisagem urbana,    de quem mora  em  São  Paulo e de quem  passa  pela cidade. A despoluição do  rio  Tietê  seria  uma obra   de grande   significação   cívica  e  de sustentabilidade  ambiental  da  vida   cidade. Não é a natureza que  está matando  esse rio,  é o   homem e sua mão   destruidora. `Foram  e são seus prefeitos e governadores.  Foi e é a ignorância de seus habitantes   que  concorreram e concorrem  para  sujar  as águas  do Tietê. Que vergonha pra nós brasileiros quando  vemos  rios bem cuidados como  o Tâmisa,  o Sena,   o Mississipi, o Danúbio,  o Tejo. São os rios que dão,  por assim dizer,  alma  e vida às cidades. Sem eles,  as cidades  não existiriam.
    Se os governos  têm  dinheiro  para obras  faraônicas  e por vezes dispensáveis,  por que não   investir já  numa forma   moderna  de  devolver  ao sistema hídrico  paulistano e paulista  a capacidade de abastecer   os habitantes   da cidade  e do Estado? O país  é rico  em   grandes rios. Por que não  planejar  e  executar  obras  que  levem  água  em quantidade  compatível  com  a demanda   enorme dos paulistanos?     É uma vergonha  para nós  brasileiros  sabermos que  lugares  desérticos do  Oriente  se transformam  em  áreas férteis. De que adianta  tanto   volume d'água  de  grandes  rios  brasileiros  se  é  mal  distribuído?
  Resolver  os dois  problemas   de alta relevância  e vitais   à cidade  de São Paulo constitui  uma obrigação  inarredável do governador  de São Paulo. Não se pode   esconder do povo e dos brasileiros  o que    está  atravessando  São Paulo  de privação   de água  potável e  de  uma urgente   infraestrutura  moderna  de  escoamento  da água  pelos bueiros e  pelas   meios  subterrâneos. As torneiras  paulistanas   estão  secando,  os filetes d’água estão sumindo e os habitantes   da cidade  já não mais  aguentam    tantas promessas  e conversa fiada  das autoridades. 
   Ao prejudicarem  o abastecimento  de água   de São Paulo, ao  não cuidarem   para   solucionar  os estragos   das chuvas torrenciais, os governos  municipais e estaduais  poderão ser responsabilizados   pelos    grandes    prejuízos  materiais  e  econômicos    de São Paulo.  Os paulistanos  não vão suportar   períodos mais    longos   de    escassez de água  e de danos  ao patrimônio   particular  que  logo logo  afetarão  a  arrecadação   de impostos    e de tarifas   diversas. O parque industrial  também  não  suportará   deficiências   dessa  natureza.
  São Paulo não  vai “virar um deserto.”  Se isso  por acaso  acontecesse, seria uma tragédia. Ainda  bem que Mário de Andrade (1893-1945), louvador  do rio Tietê não está mais vivo  para  ver a tantas  tantas desgraças    desse rio.
  O brasileiro em geral não sabe  reclamar  pelos erros e   omissões dos governantes. Parece que ficaram anestesiados  depois  de  manifestações  públicas  que praticamente não  deram em nada. Pelo contrário,  o  governo federal, com o seu  novo  homem  forte da Fazenda,   só parece   estar interessado  em    recuperar,  com  impostos  e  aumentos  do custo de vida,  os destroços que  fizeram  em gastanças   de  campanhas  para  um partido   se manter no  poder escondendo   todos  os  abacaxis  que  estavam  abafados  nos discursos demagógicos  da campanhas para  presidente,  deputados e senadores.  Será que,  só depois  de  saírem  vitoriosos descobriram    todos  os  desastres   financeiros   provocados  pelo  próprio  partido  do governo?  Por que não  discutiram  antes  que  a  inflação  estava alta, que o povo  seria   sacrificado com  aumentos de energia e o escambau?  A imoralidade de um governo não conhece limites   de  cinismo  e de  promessas   falsas  que não  serão  cumpridas.
   Mas, voltemos  a São Paulo. Penso que se não houver uma mobilização geral  (veja o exemplo da união civil  de uma  país como  a França  em torno  de uma  causa, a da liberdade   de expressão) contra as duas calamidades  por que  está  passando   o espaço físico   de São Paulo,  a cidade pode entrar em colapso. Falta de água e   fortes chuvas  não atingem  só os pobres,  as periferias. Os bairros   luxuosos dos bacanas   também  já estão dando sinais  de  mal-estar. Do  mal-estar  é um  pulo para a indignação   e o confronto  com   as autoridades.
  De nada vale  o governador  Alckmin  reconhecer que   São Paulo está   em fase de   economizar  água. Por que não  o  declarara  antes? Os problemas agudíssimos  dos paulistanos   aí estão  clamando  por   ações  construtivas,   realizáveis. Já está passando da hora  de  o governador  e o  prefeito arregaçarem  as mangas  e lutarem  de imediato   para  procurarem   amenizar  o sofrimento  do  povo  e dar  continuidade  à “locomiotiva do  país.”   São Paulo  não pode esperar. Que venham  as obras  e as ideias  dos que   querem  ver   a cidade  funcionando e para isso  não faltam   cérebros  e gente  inteligente em várias  áreas   que, se chamadas,   seguramente   darão  todo o seu   suporte   e expertise a fim de   encontrarem    caminhos   mais  felizes  e   realizáveis para  a maior metrópole  do país.
   O país não funciona  plenamente sem   a  prosperidade de São Paulo. O Padre José de Anchieta (1534-1597), um dos fundadores  da cidade de São Paulo, já canonizado,  só terá que agradecer  a todos que    se voltarem  para   salvar  a cidade  da natureza  inclemente  e dos inimigos  desta. 

   

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Tradução do poema "Écoutez," de Paul Verlaine (1844-1896)






                        Écoutez


Écoutez la chanson bien douce
Qui ne pleure que  pour vous  plaire.
Elle est discrète, elle est légère:
Um frisson d’eau sur de la mousse!

La voix vous fut connue (et chère?)
Mais à présent elle est  voilée,
Comme une veuve désolée,
Pourtant comme elle encore fière,

Et dans les longs  plis de son voile
Qui palpite aux brises  d’automne
Cache et montre au coeur que s’étonne
La vérité comme une étoile.

Elle dit, la voix reconnue,
Que la bonté c’est notre vie,
Que de la  haine e de l’envie
Rien ne reste, la mort  venue.

Elle parle aussi  de la gloire
D’être simple sans plus  attendre,
Et de noces  d’or e du  tender
Bonheur d’une paix sans victoire.

Acccueillez la voix que persiste
Dans  son  naîf  épithalame.
Allez, rien n’est meilleur à l’âme
Que de faire une âme moins triste!

Elle est “en peine” e de “passage”
L’âme que souffre sans colère,
Et comme sa morale est claire!...
Écoutez la chanson  bien  sage.




                     Escutai


Escutai  esta canção tão doce
Que apenas chora  para vos contentar.
Discreta, sim, singela, sim:
De  água um frêmito no musgo!

Conhecida  (e querida?) se fez a voz
Agora,  porém, velada está
Qual viúva  desconsolada.
Não obstante,   quão ainda altiva se mostra!

E nas longas dobras de seu véu
Palpitando com as brisas  do outono
Oculta  e mostra  ao  coração surpreso
A verdade de uma estrela.

Diz a voz  reconhecida
Que de nossa vida  a bondade é parte,
Que, após a morte, o  ódio e a inveja
Nada  significam.

Da glória  por igual  discorre
De ser simples   sem mais  nada esperar.
Fala das bodas de ouro e da comovente
Felicidade de uma paz sem vitória.

Acolhei a voz que persiste
Em seu  ingênuo epitalâmio.
Ide,  nada é tão  precioso    à alma
Quanto   suavizar-lhe   a tristeza!

A voz, um “átimo,  uma “ fugacidade”
A alma  que sofre sem  cólera.
E, em sua moral,   quanta   transparência!...

                                                                          (Trad. de Cunha e Silva Filho)










                

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O Facebook: uma ferramenta útil para a democratização da escrita




                                                         Cunha   e Silva Filho



        Ninguém  pode  negar  o  grande passo dado a milhões  de  pessoas  que,  no  Face, como  é  com certa intimidade  tratada essa rede   social,  trocam  ideias e    se comunicam  por   escrito. E  não seria exagerado  afirmar:    grande  chance tem o  usuário de   poder expressar-se livremente tanto quanto  possível através desse meio  grandioso que  - não podemos    esconder esse fato - possui, sim,  seus defeitos  quando  empregado  para  fazer o mal. No entanto,  o saldo  é  positivíssimo. Tornou-se um  modo  autodidático  de   levar as pessoas  a  pesquisar, refletir,   organizar  seu pensamento, muitas vezes de  forma  extraordinária  dependendo  do talento e da competência de cada um.
     Algumas vezes,  me queixei  de que o Face seria  um espaço para  futilidades,  fofoca e exibicionismo. Pode até ser em alguns  aspectos, mas,  no geral,   é  uma  fonte geradora   de ideias,  de discussões,   de  expressão  livre  do pensamento, ainda que  o seu seja  algumas  vezes discordante de  outros.  Pouco  importa.
   O que  é evidente é sua capacidade aglutinadora,    de fórum  de  debates, de permitir  o extravasamento  da indignação  contra  injustiças,  de  divulgar   ideias   iluminadoras,  de suscitar   novos  ângulos  de  ler o mundo, as pessoas. Todos  os  aspectos   do cotidiano  nacional  ou mesmo   do exterior  no Face  podem ser    veiculados  com erros,  com acertos,  mas  sempre com  a  liberdade  dos que  pensam  de forma igual ou  diferentemente.  O Face vive desses contrates,  dessa espécie de  “melting  pot”   de fatos e acontecimentos  que   atiçam  a curiosidade  e  a  intervenção  por escrito dos indivíduos. O Face veio para ficar.
     Já se disse que ele   estava  alimentando  o mau hábito de escrever errado ou  de forma  excessivamente   abreviada. Qual nada!”  Tenho  lido  textos,   frases  que   bem poderiam   ser assinadas  por  bons  jornalistas,   escritores,  cronistas,  pensadores, filósofos,  poetas, dramaturgos, cientistas, enfim, profissionais de  várias  áreas, enfim, uma  gama de   pessoas  comuns ou com  maior ou menor  visibilidade. Porém, refuto  aquele argumento  visto que o usuário,   ao  escrever,  em geral, de  maneira  rápida,   com esse ritmo   fortalece e desenvolve  a habilidade  de  selecionar    ideias,  formas  de escrita,  sentido   de  concisão e coerência  a fim de  poder   organizar  os  enunciados.
    Politicamente, o Face muito tem ajudado a  evitar  o pensamento  chamado  “único,”   mostrando, através de seus  diversos   usuários, que   aquele  é múltiplo e nenhuma ideia  semanticamente  unívoca  pode ser   geradora    de avanços    em qualquer   campo  da  inteligência. Reconhecer o outro,  o diferente,  ainda que  possamos   achar que  ele está errado, é não  perceber que   algumas  ideias  podem ser  relativizadas.  O pensamento  único  é próprio  dos governos   antidemocráticos, que   julgam  o mundo  sob  um  só  lado, uma  só dimensão.  Sua natureza  tem  traços  fascistas, autoritários,  absolutistas.  O pensamento deve ser exercido  de  modo  construtivo,   dialeticamente,  sem donos das verdades.
   Outro papel saliente do Face é  conceder  a possibilidade   de liberdade  de  crenças,   religiosas,  políticas,  filosóficas,   de modos de vida,  de mostrar   diversidades culturais,   nacionais,   universais. .
    É pena que o Face  possa  por vezes  levar, como  já  aludi linhas atrás,  a certo exibicionismo, excessos   de  narcisismos, exposições  sensualistas  que  não   se ajustam  a  uma  ética    desejável  neste sentido.   
   Mas, o que  centraliza  a linha  deste artigo  são os   pontos   qualitativos   do usos da linguagem,  do    treinamento,   do  escrever  continuadamente e ao mesmo  tempo  do ler  o que  se escreve  nessa  rede  social.  Ler e escrever são habilidades que  se harmonizam e  só produzem      melhoria    de nível   de  escrita, propiciando  a “fluência”   da linguagem  escrita. Acredito que em  nenhum tempo,  antes  da internet,  o mundo  tenha  escrito tanto.
    A prática da redação, diria   positivamente  forçada,  a fim de  dar conta   de uma   pergunta e de um  fato ilustrativo de um texto,   de um vídeo, veio  auxiliar enormemente   o ato da escrita e,  em consequência,    melhorar   o uso  da linguagem   das  pessoas. Não sei se a ciência  linguística  já havia previsto  essa    mudança  revolucionária  da comunicação    virtual.
   Deixando  de lado  o  mau uso  da  internet  e das redes sociais,   os ganhos   com  o mundo virtual    são incalculáveis.  Depois da Imprensa de Gutemberg,  a internet é a segunda  mais   importante   invenção  do  mundo  da comunicação. E imagine o leitor que, a princípio, este colunista   até  tinha  receio de  não  aprender a lidar  com  o básico   do computador.Veja-se o  função  informativa do Google. Não obstante  nele muita coisa  não seja  fonte segura,   não deixa de ser  um  instrumento   valiosíssimo  de pesquisa,  em muitos casos   fazendo  as vezes  de  verdadeiras  bibliotecas.  além disso,    pondo  o  usuário,    em fração  de segundos, com dados   que esteja    procurando.
   O Google é uma gigantesca  obra  de referência, indispensável  a várias categorias de profissionais no mundo  inteiro. É claro que é um work in  progress. Contudo,  como seria   o  mundo   atual,   o da pressa, do imediatismo (com  muitas  negativas  desvantagens  para  os mortais) sem a invenção  do computador e de todos os seus  desdobramentos  tecnológicos?
   Não aconselho que  os  viciados  no Face e em  outras redes  sociais  abandonem  esses recursos,  mas que  o   utilizem  com  moderação, porquanto   eles tomam  muito  o nosso   precioso  tempo.
   Não  o substituam  pelo  contato  pessoal,  que é muito mais    importante e não  tem  substituto  à altura.  As amizades  têm  que ser cultivadas no tête-à-tête de preferência. O Face,  ao contrário,  para as  muitas funções  a que  me referi. Da mesma sorte,   outras mídias  escritas não podem ser nunca  negligenciadas,  os jornais, as revistas,  os livros impressos, as exposições,  as feiras  de livros,  as visitas aos museus,  as vernissages,  o  cinema, o teatro,  o circo,   a conferência (presencial), a televisão, o rádio. O grande  barato  é  saber como  combinar  de maneira  harmônica,  sem   excessos  de preferência,  todos  esses meios  de  comunicação,  de conhecimento,   de saber.
   O professor de língua  portuguesa, ou, para outros,  de  língua  brasileira,   deve estar  atento a tudo isso. Na multiplicidade  de  recursos  audiovisuais,  virtuais,  escritos,  falados,   há que  saber  dizer onde  um  deve ser  de preferência   usado, e principalmente  o  professor  competente  há de saber como   lidar  com proveito  e sem  discriminações   com  todo  esse  enorme leque   de opções  em que a língua  falada  se contamina com a  escrita  de modos  variados, a par de  ainda ter que situar  bem  o  papel  da  língua  literária,  seu estudo  e   sua  prática de leitura,  e  hermenêutica.  Tudo isso  não deixa de ser  um   vigoroso   desafio: encontrar   elos  sem embaralhá-los  e confundir  a cabeça  dos jovens  e adultos no sentido de  conquistar, simples e didaticamente,   os usos multifacetado da língua na situação própria  e desejável.
   O que nunca será  de bom alvitre  é  dificultar   o  estudo   da  gramática e a prática da redação   empregando  uma metalinguagem  que  às vezes me parece  competir   com   o jargão  tecnicista-terminológico  das ciências. Tecnicalidades em demasia não  são, por si só, necessários componentes de atualização  e renovação   na práxis  do  estudo  da língua  e  no manejo de  expressar o pensamento   do espírito  humano. 
 A teoria linguística não deve competir simplesmente  pelo fato  de que a linguagem da tecnologia  e a da ciência se tornaram   impermeáveis  aos não-iniciados. A linguagem  da comunicação entre os indivíduos não deve nem  pode  rivalizar com o jargão terminológico da tecnologia e  da ciência. 
 Ao alto nível dos estudos linguísticos  não tem correspondido uma melhora significativa na redação  dos estudantes. Veja-se o resultado da última  prova do ENEN, na qual, na redação,  quinhentos  mil  estudantes  obtiveram  nota  zero! 
  O caminho  mais  adequado  é  o progresso  nos estudos  linguísticos  sem os vezos   ainda   remanescentes   do estruturalismo que, pelo  exagero   e  ensinamento  mal conduzido,  apavorou,   pelo menos,  a minha geração  nos anos  setenta.


quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Charlie Hebdo: a ferocidade insana dos fanáticos terroristas




                                                             Cunha  e Silva Filho



          France Immortelle é o belo título  de dois volumes antigos da magnífica  obra  didática da década de  1940, de Cleófano L. de Oliveira,    ilustrado  professor de francês e literatura  e de português e literatura  em São Paulo, a cujas  páginas,, até em pesquisas  recorri sobre  literatura  francesa. Esse título,   a meu ver,  resume  o que nós latinos,  que amamos  a cultura francesa,  o sentido simbólico  do  que representa    Paris,  a “Cidade-Luz,”  ou a “vitrine do mundo,”  na afirmação do crítico e historiador Afrânio Coutinho (2011-2000). Lamentamos profundamente  o  recente duro  golpe  covarde  e  ignaro   de  terroristas  tresloucados contra  notáveis  artistas  do cartum. Terroristas  que não sabem  nem mesmo   avaliar  o que seja o  papel  do  cartunista,  de quem  faz charge, caricatura e  humor com  arte  não visando,  é claro,  a denegrir  a imagem   de ninguém,  mas a provocar   o riso, os exageros   da espécie  humana, sejam  eles quais forem.  Não anunciam a tragédia, mas  a comédia do riso, da galhofa, das loucuras  humanas. Se, por vezes,  exageram,  é porque  desejam  que   o mundo  seja  mais leve,  mais justo  e mais  cultivado.
     O grande erro que,talvez   tenham  contido foi  em algumas pautas  mexerem  com  vespeiros  de  jovens  sem massa  cinzenta,   que não sabem   bem  estimar  até onde  um  possível ofensa  possa   macular a imagem  de  líderes  religiosos.
    O ato  terrorista contra    notáveis   cartunistas   distingue como  uma   maldade tão superior  à arte - uma criação  livre e amoral -    que assassinar artistas  e  outras pessoas   que,   próximas deles  ou  implicadas  no atentado por  razões  de  trabalho   no jornal e pela condição de serem   duas delas  policiais  no cumprimento  do dever, o ato  terrorista  e diabólico se anula e se torna, assim,  mais   repulsivo e condenável.
   Vivemos   momentos  sombrios  em todo o mundo,  civilizado ou  não, e um desses  há tempos  assumiu  sua  face mais   odienta   e abominável – o terrorismo -  ação  covarde,  que mata  pessoas  indefesas,  em qualquer lugar,   sem respeitar  ninguém,  apenas   impulsionados  pela    mente   doentia  de praticar   o mal  sem dó nem  piedade.
    Não sou  contra   a entrada  de imigrantes em algum  país,  todavia os tempos atuais   nos  forçam  a  sermos  mais   atentos e critérios  na concessão de  asilo  a  estrangeiros  de  algumas    regiões  do mundo. A globalização   de  ondas migratórias, provocadas  por  guerras  e conflagrações de povos   que  abandonam seus  países de origem,   tem sido  responsável  por permitir  o ingresso  de  indivíduos  suspeitos  e que são  instrumentos potencialmente    geradores   de  ações  terroristas  iminentes.Cumpre haver uma vigilância  constante nos  países  onde  exista   número   substancial  de   asilados.  São os casos hoje em dia dos EUA, da Inglaterra,  da França, do Brasil, em ter  outros   países.
     O exemplo recente  da morte de doze pessoas  em Paris  é apenas um alerta para que autoridades   do Estado  se  acautelem  contra   ataques   dessa natureza.  Não  é de modo algum   fazer  ressurgir  a xenofobia. O ódio ao  apenas  por ser estrangeiro não  se recomenda  como medida   contra  terroristas. Há pessoas  boas,  adaptada  culturalmente a um  pais que as abrigou  que   jamais   farão  mal    à terra  que adotaram  como  segunda ou  terceira  pátria, não importa.  
    Veja-se o  que ocorrem  no  Brasil. Recebemos bem os estrangeiros que aqui aportaram,  criaram  raízes ,  aumentaram suas   descendência  e, muitas vez,  nem mais querem  regressar à pátria de origem. São exemplos de  convivência pacífica  árabes, sírios e judeus, japoneses  e   chineses. Aqui continuam  com suas   religiões,  seus  cultos,   sua fé sem que exista  mais o  ódio  entre si.
    A questão  de grupos   pertencentes a rede Al-Qaeda, o agora   denomina do grupo  “Estado  Islâmico” e outros  menos conhecidos  deverão constituir o alvo  principal   dos órgãos de segurança  da paz  mundial, tendo à frente a ONU. Para eles,  não deverá  haver  trégua sob  pena de os países  que vivem  em relativa  paz    sofreram  duros  golpes  de novos atentados  em qualquer  parte.
    Ainda que  deixando   penalizados  os homens  que respeitam  a liberdade  de expressão e  de imprensa em qualquer parte do mundo  onde haja  o exercício  pleno desse bem supremo, os grandes  artistas  da  caricatura,  liderados por Stéphne Carbonier, o Charb e o seus três outros   companheiros  do cartum,  foram  executados    covardemente  em Paris  quando   estavam  cumprindo  seus papéis. Pelo  traço  inconfundível de cada um,  produzindo   o riso,  a sátira, a reflexão,  o humor   e o exercício  da inteligência  gráfica perde a cultura  cartunista mundial   quatro    homens  cujo  principal   esforço  de vida foi   ridicularizar  a pantomima  humana,  os defeitos   de poderosos e tantos outros  ângulos  da cultura da Humanidade graças à magia  da obra de arte eloquentemente    retratada  na deformidade   consciente   das formas visuais  e  da sua  correspondente  forma  de discurso   escrito.




sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Primeira página do ano de 2015








                                       Cunha e Silva Filho


           É com Você, leitor,  do Rio,  de outros  estados e de outras  partes do mundo que   me  dá vontade  de  falar. Nada sei  da maioria e alguma coisa  sei de um  pequeno círculo de  amigos ou conhecidos. Sei também    que, em alguma parte, alguém  me lê ainda que seja por uma única vez. Vai procurar  outro blog entre os milhares que existem  para todos os gostos  , opiniões,  grupos  e ideologias.
        O colunista não vai   ficar zangado se  não obtiver uma resposta qualquer visto que a palavra que lhe  enviou nasceu de uma necessidade insopitável de me comunicar com Você através de um artigo,  de uma crônica,  de uma tradução, de uma resenha, de um pequeno   ensaio ou parte de um  ensaio maior ou até pelo  recurso, hoje  quase desnecessário, de  lhe dirigir  em inglês, tendo  eu  o cuidado de adicionar, logo após o texto  em inglês,  a minha tradução, não  a eletrônica,    mas  a minha mesmo, com todas as limitações  que possa haver, não obstante    sabendo  que, como acontece no  Face,  há sempre,   por debaixo do texto em língua estrangeira,  a acessibilidade de lhe   fornecerem a tradução  em  português.
        Como hoje, 2 de janeiro,  escrevo-lhe a primeira coluna do meu blog, a Você dedico as minhas observações,  os meus  “resmungos” (estou pedindo aqui  emprestado ao poeta Ferreira Gullar o termo que, se não me engano,   empregou como  título de sua primeira crônica para o jornal  Folha de São Paulo, Caderno  Ilustração aos domingos.
       Leitor,  se alguma vez  lhe feri  a sensibilidade,  lhe fui um pouco  rude,  ou  lhe contrariei  a visão  política, social,   religiosa,  filosófica ou de qualquer  campo  do conhecimento  humano, não foi  para  prejudicá-lo. Isso jamais  tive a intenção  de  fazer. Contudo, quem  escreve,  tem  suas preferências,  seu direito  de  externar uma  dada cosmovisão, que lhe pertence como  substrato   do seu ser  pensante,  da sua maneira  de ver um  dado  problema, quer   nacional, quer  internacional. 
     O escritor  tem que ser livre, livre até para ser   fiel  a si mesmo, ou até mesmo  para,   com  o tempo,  modificar sua   visão do mundo,  seus  pontos  de vista,   posto que nem sempre   correspondam  aos do  leitor, que,  por sua própria condição,   tem  igualmente  sua    maneira de ver o mundo, as pessoas, os fatos, enfim,  as questões que  interessam  ao ser humano.
      Assim como o  colunista   tem o direito  de  expressão  do seu  pensamento, desde que saiba respeitar  o leitor  com  uma linguagem  adequada  ao registro  da  mensagem  a ser   expressa, assim  também  tem  o leitor  de   externar  seus ângulos de visão   do mundo, dos homens  e de tudo  que   forma  essa complexidade  e diversidade  que  é  o   pensamento   humano. Entretanto, seria   muito  entediante  se o autor de um  artigo  pensasse  sempre  em consonância   com   pensamento  do leitor, condição   praticamente  impossível  e imprevisível.
      A meu ver,  não  é  tão acertado assim   ler somente  quem  partilhe de nossas  opiniões.  É preciso    que  entre o leitor e o autor  exista um mínimo de  dialética em questões   de  discussão   de um tema. As  ideias divergentes, ao se chocarem  entre si, impulsionam   o intelecto  a  aprofundamentos saudáveis  e  estimulantes.
     Nosso "horizonte de expectativa" só tem a lucrar com   interlocutores que não professam  os mesmos   ideais  nos múltiplos  campos   do saber  universal. O que não pode  ocorrer  é que  as  divergências  descambem para o terreno  pessoal,  para um nível de discussão,   no qual  só  um  julgue ser  senhor  das verdades. Neste altura  do embate das ideias,  o interlocutor  passa ao terreno  da  polêmica  meramente    conduzida  pelo personalismo,  pela subjetividade,  e assim  ficará cego por não  ser capaz de enxergar   as qualidade  do  adversário. 
      Escrevo sob a assunção de que  o leitor  há de ter  em mente  tanto  as  virtudes quanto as  fraquezas ou mesmo   erros (os “disparates de todos  nós” de que falou o mordaz  Agripino Grieco (1888-1973),  do  autor, do colunista, do escritor.  Não existe maior   exposição  de quem  escreve quando   o seu texto  torna-se  matéria  de  análise  ou comentário  do leitor. 
    Toda escrita  tem lá seus riscos  e percalços.  O ato,  contudo,  de escrever   implica   correr   riscos assim como   experimentar  deliciosas   sensações e enternecimentos  ou mesmo   suposições de que alguém que Você não  conhece nem talvez nunca conhecerá, por  alguns momentos  do tempo  da leitura,   vivenciou   juízos convergentes  e compreendeu que  vale a pena  o compartilhamento das ideias  e dos sentimentos   de alguém  para alguém, mesmo  se levarmos em conta  o indeterminado   background  cultural    entre os que  escrevem  e os que leem.
      Este  é o pacto,    leitor,  que  desejo  muito  estabelecer  com Você.  De um lado e de outro,  somos livres, livres para  acompanhar  o pensamento  do autor,  ou para dele discordar. Naturalmente,   que  o nosso pacto seja  o da liberdade  de  comigo  permanecer,  ou mesmo afastar-se ou finalmente  - é o que  aguardo  com ansiedade  -  voltar  a mim  com  o coração  aberto  e a alegria de  saber que  não escrevo só para mim, o que seria  egoísmo, mas para  externar  as minha ideias e minha  posições  sobre temas e questões tendo sempre  em conta a dignidade  e   a honestidade  de exercer  esse fabuloso   meio  de  comunicação, que é a escrita, comentando, analisando, e interpretando  o que   os acontecimentos do  mundo nos  provocam e, na medida do possível,   nos  instigam  a dar-lhes   respostas  dentro de nossas  possibilidades de   visão e compreensão.