sexta-feira, 15 de agosto de 2014

A vida é breve, a leitura é longa

Cunha e Silva Filho


 A respeito desta  outra edição Flip, realizada  em Parati, Rio de Janeiro,  li que alguns escritores que  delas têm participado  andam se queixando e com razão de que em geral  o que mais   está ficando evidente  é que o público  tem   dado mais  atenção,  não  à leitura   dos  livros  que estão sendo  lançados  por ocasião  do Festival Cultural, mas  ao espetáculo  em si  rodeando  as figuras de autores,  suas performances de bom  expositor  ou sua  facilidade de   seduzir  com suas palestras  ou  falas  o auditório, pois este está mais   estimulado a  ouvir  o que  dizem sobre  literatura,  sobre  os processos  criativos de escrever  um romance ou  um livro  de poesia  do que  comprar  e  desejar    ler  mesmo  as obras  ali  exibidas  de autores  nacionais e   estrangeiros.
Dois deles, pelo menos,  sinalizaram com essa  mesma   queixa dando a entender que estão cansados de desempenhar mais  o papel  de  expositores  ou  de exibir seus dotes  de  captar a  atenção do público do que de  levarem    este  à efetiva  leitura dos livros comentados.Em outras  palavras,  o que tais autores  deixam escapar é que falar sobre a sua obra  ou sua   técnica  narrativa  já está  se tornando  cansativo. Eu aproveito  estas dicas  para  afirmar  que os autores  que  pensam assim   estão  com razão .
 E mais:  não acho que  relatar   as  próprias     formas  de compor  uma  obra de ficção ou de  fazer  poemas possa  ser tão útil  assim  a qualquer  leitor, inclusive  até   sou  levado a  pensar  que os próprios escritores  talvez, em muitos   casos,  não  gostem  de confessar  em público  sobre seus  “processos de criação   ficcional.”   Há certos aspectos   da criação  literária  que o autor   guarda para si  mesmo, como  uma  espécie  de segredo  íntimo,   inconfessável,   que não conviria   revelar. No entanto, da parte de um determinado público constitui sempre uma grande curiosidade  saber  como  se origina   mesmo  uma  obra  literária, como se  desejasse  com isso    aproveitar-se   das lições dos  criadores   algumas centelhas de    vias de acesso  ao  por vezes  denominado   “mistério” da   criação   ou do imaginário   que  serviriam   a potenciais  candidatos  a escritores.
Caberia lembrar  aqui  a definição de “poeta” nos  já famosos   versos   de Fernando  Pessoa de  que  o  poeta é um ‘fingidor,”  que se estenderia  não só à poesia  mas  também a todos os gêneros  literários que   trabalham  com  a arte da palavra   na sua  expressão  estético-criativa.
Do que concluí dos desabafos  dos escritores – e vale destacar – todos  eles  das novas gerações  foi o seguinte:  todos  indistintamente   aspiram a  ver as pessoas  lendo as obras  e não  se preocupando  apenas com   o lado  edulcorado  ou  o charme  das apresentações   de autores  que  enfrentam  um público ávido   da, diga-se assim,   espetacularidade   do evento  literário   e não  da necessidade de  conhecer   o que  os novos livros   exibidos  nas feiras  contêm  de  conhecimento  da vida e dos homens, i.e.,  das questões colocadas para discussão  no  que concerne aos  desafios do mundo social, da História da humanidade, das condições  de vida de um povo, dos seus anseios  e dificuldades,   vistos no seu espaço  regional  ou universal, não importa.
Ler as obras me parece  ser  o nó  górdio das preocupações dos autores.  Fazer  as pessoas lerem  o que escrevem  , eis  , a meu ver,   toda a inquietação   desses autores. Alguns deles  chegam mesmo   a pensar  em dar  algum  tempo  a tais eventos  a fim de  que  possam,   por assim dizer,   afastar-se um pouco  dessa  forma  superficial  de  estar sempre   disponível  a fazer  o papel  de celebridade, de justificar  sua condição de autor,  de  revelar  sua  fórmula  individual  de   produzir obras. Aquela antiga “aura” que  distinguia  as obras  literárias  ou  de outra  natureza artística, que se  desfez  na era da “reprodutibilidade técnica"  de que  fala o crítico e filósofo alemão Walter  Benjamin (1892-1940), já atingiu  seu  ponto mais   alto  de exaustão com todas as consequências   boas ou más.
Não é  que esteja  advogando  a volta à torre de marfim de tempos  envelhecidos e inatuais.
 Contudo  um pouco de reclusão  voluntária  e saudável  com  o  objetivo de  repensar  novas  investidas no campo da  criação literária, seja  em  experiências   inovadoras de construção   ficcional,  poética ou  dramatúrgica, seja no adensamento  de novos  temas a serem  explorados, faz-se  necessária  e imperiosa sob pena de  se transformar  a  figura do escritor  em mero  “entertainer” de auditórios  aficionados  do fetiche da compra ou por vezes da  simples   frivolidade como forma de derivativo socialesco sem  compromisso  com o  efetivo   ato de abrir uma  livro comprado  e  fruir  o prazer  democrático  proveniente  de sua leitura como   insuperável forma  de  conhecimento, de formação  crítica  e aperfeiçoamento  cultural.    

Se esses novos autores  andam assim pensando   é porque   a experiência   que  os festivais tem lhes  ensinado já deu demonstração de que  algo de  inovador  deve ser  feito  para que   o verdadeiro   compromisso   dos escritores, que é fazer  aumentar  o número  de leitores e assim  dinamizar o processo  de leitura  como  hábito a ser adquirido  o mais cedo  possível  e mantido ao longo da  vida  de cada um. Se objetivos   desta  natureza  forem  alcançados, ganharão os autores  profissionais, ganharão  os editores e os livreiros, e o livro, mesmo tendo  perdido  sua  “aura,” continuará  exercendo a sua função   precípua: a de fazer  circular  o conhecimento não apenas no país  mas também  ganhando  o mercado  exterior, tornando a . literatura  brasileira mais  conhecida e, quem sabe,  mais  apreciada em âmbito mundial.   

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O que o governo federal deixou de fazer para o bem do povo








                                                       Cunha e Silva Filho

         Estamos quase em plena campanha pela corrida presidencial  no país. Os candidatos  mais   conhecidos e com maior  índice  nas pesquisas  de  eleitores não irão perder  oportunidades de levantar  questões   urgentes  para   tornar a vida do brasileiro menos dolorosa em alguns aspectos cruciais: violência,  saúde (pública  e privada), transporte, educação.   De propósito,   a ordem  em que  essas questões prioritárias  aqui são  mencionadas se refere ao descaso   com que  vêm sendo  tratadas  pelo  governo da  Presidente Dilma Rousseff.  Por outro lado,  é de se assinalar a  posição   privilegiada da candidata  à reeleição nos índices  de  aprovação   do  povo.
Claro  é que,  estando   no  primeiro lugar    na preferência das pesquisas, há um  contradição que  é preciso  elucidar: o grande   número de eleitores da Sra. Dilma Rousseff faz parte  dos que são beneficiados  pelo  programa   social do  Bolsa Família, reforçado  pelo    nível   de   consciência  política   do povo brasileiro,  que é baixíssimo, sobretudo no  interior do país, de Norte a Sul, mas em particular no  Nordeste. Esse  é o grande  trunfo   da atual   Presidente  a despeito  de todas  as mazelas que  continuam  castigando  os brasileiros  na  sua  totalidade,   ou seja,  considerando  os níveis  sociais mais baixos.se excetuarmos a questão da criminalidade, a qual  afeta igualmente as classes mais elevadas. 
A arraia-miúda não quer saber  se houve mensalão,  se foram   bem  julgados seus responsáveis, se há outros  escândalos  ainda  entranhados no seio  da administração  pública  brasileira. O povão quer mesmo  é  se assegurar de que o país  ainda  tem   futebol, praia, mulheres  bonitas,  samba,  baile funk, rap, carnaval e outros   derivativos  para  as suas deficiências   de cidadania.  Quer dizer,  se não  falta   esse lado  hedonista,   o país vai andando  com pernas   bambas, mas ainda  assim satisfeito e até esquece  que os hospitais públicos   estão arrasados, que os ônibus  são  armas  mortais,  que  a escola pública   é feita  só   para  pobres e, de forma  geral, é  deficiente.O populacho  não  quer saber se o governo  é da direita, da esquerda  ou de qualquer  outras     orientação  ideológica.
Enquanto isso, as elites, em cada  estado  brasileiro,    vivendo  do melhor,   nas grandes  festas, nos  melhores hotéis,  nas viagens  ao exterior,  com seus saldos  bancários  sem limites   de saque  pouco  estão se lixando  para o zé-povinho que,  desde tempos imemoriais, desde o   Brasil Colônia, nos dois  impérios e nas fases  diferentes da República,  sofre  na cabeça e no corpo  e teima em ser  subserviente  ao poder   instituído.As classes dominantes  quase nada se  diferenciam  entre si e em qualquer  parte do mundo.
Agora,  um  problema  de alta prioridade  está desafiando  os potentados e o resto da  população  brasileira: a a violência  desenfreada que não livra ricos, pobres  e miseráveis, numa  grau de  epidemia   que se   alastra pelo  país afora, tanto nas capitais quanto nas cidades. De outra parte,  os  órgãos de segurança   não estão dando conta    desse  descontrole  de agressividade  que campeia entre nós. Arrisco-me a afirmar que  o nosso  país  é, em certos aspectos da  criminalidade,  o mais violento do mundo e é voz corrente que,  se no Brasil,  não temos  ainda  guerra civil,  as estatísticas de assassínios são  de longe  bem superiores  a países em  guerras civis. Isso é monstruoso, e monstruoso principalmente se  levarmos em conta  que  os criminosos  não  têm  respeito mais  pela  polícia, pelas autoridades de segurança, pelas forças armadas.
O pior é que  a criminalidade aqui, que ceifa inocentes,  jovens,  crianças, adultos e  idosos, ainda conta com  um  grande  auxílio dentro das própria  estrutura   da legislação penal  brasileira: a impunidade. Ora,  sabendo alguém  que, se cometer um  crime,  do mais leve ao mais  abjeto,  não  é  punido com  a força da Lei,  a cultura do crime  se fortalece,  tem seu   vasto campo livre para comprar armas  de países   fronteiriços  sem que  as autoridades  brasileiras  do setor de  segurança  tomem  posições   rigorosas  contra  os  malfeitores.
Num país como  o nosso  com  instituições já criadas pelos sistemas democráticos e em funcionamento,  é muito estranho que as soluções para  a escalada da violência  diuturna  no país nunca  se configurem  de modo  eficiente e não produzam resultados  duradouros.  É preciso ainda   acentuar  um outro  tipo de crime deletério  e abominável: o do enriquecimento  ilícito, aquele  proveniente  de superfaturamentos,  de propina, de licitações  fajutas,  de formação de quadrilhas de colarinho branco. 
 Por exemplo, durante  todo  o período  do governo  Lula  e da sua sucessora, o que se tem visto é  amais despudorada  sequência  de   denúncias contra  gente ligada ao poder  político atual. Tem-se, assim, a impressão de  que nosso  homens  públicos  em geral  são formados  de   gente  sem caráter  e lapidado  com cinismo   sem  limites,  ou seja,  cometem   desídias envolvendo  dinheiro   do Erário Público  como se fossem  criminosos   explodindo  caixas eletrônicos em todos os rincões do país, notadamente, agora,  em cidades   do interior.  
Ora,  a se manter  uma situação   de imoralidade administrativa, em vários setores  do governo federal  e dos governos estaduais e municipais, agravada  com atos de vilania  administrativa  além-fronteiras (caso da  refinaria de Pasadena, de denúncias  de  contas   ilícitas  em bancos suíços etc.),  o pais vai  chegar a um  ponto   insuportável   e o resultado  de tudo isso  será   sentido nas urnas  e nas  manifestações  em praças  públicas.
O país, com todos  esses  agudos  e escabrosos   problemas,  não vai aguentar-se como nação.Ou teremos  homens  de grande  espírito democrático no poder, ou seremos uma  nação  sem futuro.

NOTA: Ao concluir este artigo,  acabo de  ver aqui mesmo  na internet que o  candidato  pernambucano à Presidência da República, Eduardo Campos, 49 anos,  morreu hoje de manhã em acidente  de avião. De minha parte,  envio à família dele as minhas   sinceras  condolências, porque esse jovem  político, que concedeu  entrevista ontem  mesmo à noite, no Jornal Nacional,  me passou uma boa impressão com suas  ideias,  propostas  e  intenção  de  realizar  um governo  de melhoria   para o  Brasil, de ser um  homem  equilibrado,  amável  e de grande futuro  para a política  brasileira. O país fica mais  triste  e sem esperança.Que Deus o tenha e lhe  conforte os familiares em face  desta dor imensa.  




sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Espaço da memória






                                              “ A friend in need is a friend indeed.”
                                       

 Cunha e Silva Filho


                  Sei, leitor, que eu, você, todo mundo, em geral,  estamos errados quando,  tantas vezes,  deixamos de lado  a continuidade de uma amizade  que, com o tempo, se vai,  pouco a pouco,  embora e, o que é pior,  quando pensamos  em reatá-la, já é  impossível, visto que  o amigo ou a amiga  podem não estar mais   entre nós. Falo disso  a propósito de  amigos  que  perdemos de vista  por longo tempo e  estes, conforme tão  lucidamente vemos  em romances de Machado de Assis,  vão desaparecendo até mesmo   com  muita  frequência, o que é de lamentar do  ângulo da condição  humana. 
               Lá por volta dos anos de 1960, diria melhor,  1963 até 1968 aproximadamente,   minha  esposa  mantinha uma  grande amizade  com  a família  Freire,  então gerente-geral do Banco do Brasil, agência Centro, Rua Primeiro de Março, no prédio onde hoje funciona   o Centro  Cultural  Banco do Brasil. A esposa do Sr. Moacyr Freire era a D. Santuzzi e eles tinham  um casal de filhos.   Moacyr   Freyre era do  Piauí, não sei se exatamente  da capital. Sei de um irmão dele, o Sr. Zequinha Freire, que morava em  Teresina e, de vez em quando,  visitava o irmão Moacyr. O Sr. Moacyr Freire  morava no belo  bairro de  Ipanema, na rua Visconde de Pirajá.
Naquele tempo, eu  ainda era  namorado  de minha esposa. Foi ela quem me apresentou  ao Sr. Moacyr Freire. Antes,  me contara  em que circunstâncias  o conhecera. Tendo chegado do Piauí  muito jovem, necessitou  de ir ao Banco do Brasil receber uma   ordem de pagamento que lhe  enviara  a mãe, em União. Ocorre que, por algum motivo,  houve atraso na chegada  da ordem de pagamento. Ela ficara   aflita, pois  necessitava   do valor   enviado.
 Conversando  com um funcionário  do banco,  e  expondo-lhe   o problema, contara-lhe   que era do Piauí. O funcionário, solícito,  logo entendeu o desespero da  jovem e, com  boa  vontade,  lhe sugeriu que falasse com  o gerente, o Sr. Mocyr Freire, por sinal,  do Piauí, conterrâneo dela.
O funcionário, muito  educado,  levou-a até ao gerente. Ela  lhe   relatou  a ocorrência  do  atraso  da ordem de pagamento. O gerente a  ouviu atentamente e, numa  ação de bondade  que iria ainda se repetir tantas  vezes, lhe disse:  “Não se preocupe,  menina,  vamos fazer  assim. Eu lhe empresto  agora o   valor que  lhe remeteram e,  depois,  você  me paga.”
Nasceu daí  uma  boa  amizade. A amizade se estendeu, depois,  a mim   igualmente,  pois fora  o Sr. Moacyr Freire que me  tinha conseguido uma colocação num  banco de uma  agência  do Centro,   na Rua  Primeiro de Março. Era o  Banco do  Intercâmbio Nacional (hoje extinto), departamento de câmbio,  onde iria  trabalhar como   escriturário  principiante, que,  na prática,  redundou  mais em  escrever  carta em inglês comercial, ou em verter  para o  inglês cartas  em português enviadas  pela  gerência   de câmbio.
Por um lado foi muito bom  ter trabalhado  naquele banco,  uma vez que me vi  compelido a aprender  bastante   a terminologia  do inglês comercial e bancário. Até havia  comprado  pra mim  um  ótimo  compêndio das Edições de Ouro que ensinava a escrever cartas  comerciais  em inglês, cujo autor ainda  guardo  na memória:  Leônidas  Gontijo de Carvalho. Era o ano de 1968, ano em que nasceu  meu  primeiro  filho,  hoje  moço vitorioso,  professor  de Direito em Curitiba, Paraná e Procurador Municipal.
A amizade do Sr Moacyr foi sempre motivo  de   orgulho  para a minha   esposa e a ele  e à  sua esposa,  D. Santuzzi (não sei bem se a grafia  está  correta)  ela deveu muitos favores,  favores que não podem ser nunca esquecidos. Da família do  Sr. Moacyr  sei que tenho  as melhores  recordações   de amizade e de gratidão. Me  recordo de  que  o seu filho  estava na época   cursando   engenharia em Petrópolis e que a sua  irmã,  uma moça  muito  bonita,   se casara com  um  moço  também  educadíssimo que,  uma vez,   da mesma forma, me quis  arranjar uma  colocação,   se não me engano,  num estaleiro em  Niterói.
          O casal  Moacyr Freire, para resumir,  nos apoiou até  à época de meu casamento. Sempre  esteve disposto a  ajudar-nos, assim como  o fizeram outros poucos amigos, aqui no Rio de Janeiro, que  conhecemos  nesta vida.
           O tempo passou. Não nos vimos mais. Porém,  temos  vontade de saber   alguma notícia  de nossos  benfeitores, bem como de  sua família.O Sr.  Moacyr Freire, a sua esposa são  dessas  pessoas a quem  jamais  apagamos   do mais  fundo  dos nossos corações.  Agradeceria se alguém que,  por ventura, me lesse,   pudesse  fornecer-me   informações sobre  aquele lindo casal  da  Rua  Visconde de Pirajá. Ficaremos  confortados,  minha  esposa   e eu.



quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Entre o real, o virtual e o espiritual



            

                                    Cunha e Silva Filho


              Vivemos num mundo  asfixiantemente impessoal, cercado de gadgets,  de aparelhos  de comunicação,  numa palavra,  de máquinas eletrônicas, afora todas  as   consequências do espaço virtual em que  estamos afundados até o pescoço.Em casa,  dominam o computador,  a televisão,  o rádio,  os tablets,  os celulares.O reino, se assim podemos  chamar, da virtualidade tem algo de mágico, mas é um mágico da  objetividade,  das distâncias do “eu.”  Quem com ele mais se afina são as  novas gerações,  as crianças de agora,  que parecem  nascer já com  a vocação  de lidar  com  todas  esses equipamentos  eletrônicos, ao passo que os mais velhos,  os bem velhos  sobretudo,   sentem  um certo  receio de se aproximarem  desse novo mundo. Com eles não se  identificam, podem até  deles gostar ou odiar, quem  sabe.    
            Na rua,  pessoas falando  em celulares, absortas  nos  seus problemas  pessoais mais imediatos, mais parecendo  estar falando  sozinhas como se fossem   loucos. Realmente,  antes do advento dos celulares,  quando  alguém,de repente,  passava ao nosso lado falando  sozinho,  a única conclusão que  tirávamos era de que se tratava de um  desvairado conversando sozinho. Hoje,   já não nos causa  tanta   estranheza quando alguém  fala ao celular. Quer dizer,  nos habituamos  aos poucos  com  a força  e a  influência da tecnologia.Há poucos anos,   saíam  notícias de que  o uso  imoderado de celulares  causaria  câncer nas pessoas.Agora,  ninguém mais fala  nessa possibilidade. Às favas,   o mal  que possam  causar, o que  querem mesmo  é falar,  falar, falar.
Porém, não é este  exatamente o assunto que me traz  a esta coluna. O que lhe quero  relatar,  leitor, é algo   que está acima do puramente  racional,  lógico,  cartesiano. É algo que  se situaria  na esfera da fé religiosa.  Tem-se fé ou não se tem. Acredita-se em Deus ou não,  quando  nos alinhamos  aos ateus. Ou, seguindo   outro caminho, não podemos  afirmar  nem negar a existência de Deus,  o que nos poria na posição  de agnósticos. Ficamos, neste caso,  em cima do muro.Neste domínio da fé e do espiritual, já mesmo  ouvi  dizer que alguns padres – acredito que são  bem poucos -  não  acreditam  piamente em Deus.
Em questão de fé,  acho admirável quem  tenha   esse  sentimento, com toda a força  de sua convicção. Me emociono profundamente  quando  vejo  alguém  orando e, no seu olhar, percebo claramente  a pureza do  senti mento que lhe vai  na alma, no semblante,  nos  gestos,  nas atitudes. Vejam  os peregrinos  no  interior do país. Veja os devotos dos santos   padroeiros,  veja  a multidão  nas catedrais,  nas igrejas, das mais   ricas e belas às mais humildes. Veja ainda  os devotos  do  padim  Ciço, os peregrinos  de Aparecida..Veja os peregrinos  que  visitam  o  Vaticano, a Basílica de São Pedro e querem  receber a bênção papal. Veja os que creem  nos  três  pastorinhos  de Fátima, em Portugal.  Veja os que  viajam a Jerusalém, a fim de  percorrer os mesmos caminhos   trilhados  por  Jesus ou visitam  a  Igreja do Santo  Sepulcro, ou o lugar  do Horto das Oliveiras, ou vão a Nazaré, ou  molhar os rostos  no  rio  Jordão, ou orar  junto  ao Muro das Lamentações.
Quem  não se comove  ao ler o Velho e o Novo  Testamento,  ou as hagiografias  dos santos  famosos,  ou as leituras  de Santo  Agostinho?  De Tomás de Aquino? Ou a Oração de São Francisco de Assis? Quem  não se enternece também  com aquele  conto    maravilhoso de Eça  de Queiroz,  o “Suave  Milagre?” Quem  não aprecia  os poemas religiosos  do padre  José de Anchieta?Quem não  se sente confortado  e protegido  com as  orações   da Ave-Maria  e do  Padre-Nosso? Acredito que até os ateus...
Hoje mesmo,  pensando  haver perdido  minha identidade,  fiquei  desesperado e pus toda a família em  polvorosa,  com  todos  procurando,  em  lugares  os mais    impensáveis, onde eu havia  colocado  a  identidade. Chegamos ao  ponto de  sair de casa e perguntar nos lugares   por onde  andamos, um restaurante  na vizinhança,   a livraria do Shopping, uma farmácia  onde  compramos  um remédio. E nada de alguém  dizer  que havia   encontrado  o objeto.E olhe, leitor,  que  só hoje dei conta  de que  a identidade tinha  sumido. Contando  os dias,   a provável  perda  teria  acontecido no domingo,  dia  3 de agosto. E só dei conta do sumiço  da carteira  porque   hoje  teria que ir ao banco  pagar  contas. Um Deus-nos-acuda.  De  repente,  me vem à lembrança  aquele santo  popular,  São Longuinho, que, segundo  informações colhidas no  Google,  só é  reverenciado  na Espanha e no  Brasil. As origens  dele  são  imprecisas. Contudo,  teólogos  e estudiosos  de hagiografia  afirmam  ter sido ele um  centurião  romano, de nome Cássio,  convertido ao  Cristianismo e por isso  foi martirizado. Ao se converter,  fugiu para  Cesareia e, ao ser descoberto,  foi  decapitado.
   Conta-se que, na condição  de soldado   e escolhido  para  vigiar Cristo na Cruz,  acertou  o  coração  de Jesus  com uma lança e, ao fazer isso,  recebeu um jato de sangue nos olhos. Acontece que Cássio sofria de uma doença da vista. Há relatos de que sofria de ‘cegueira  espiritual,’ segundo informa o padre Aparecido Pereira, pesquisador  da vida dos santos.” O respingo do sangue de Cristo  curou-lhe a enfermidade. “instantaneamente.”
Regressando pra casa, outra maratona vasculhando  tudo, armários,   gavetas,   livros,  papéis,   envelopes etc. etc. Nada de aparecer  a identidade.  Entretanto,  enquanto   procurava  a carteira de identidade,   me veio a ideia de invocar a ajuda  de São Longuinho.Só no meu íntimo  passei a lhe pedir que  me fizesse  encontrar  o objeto  desaparecido. Me deu  vontade de reabrir um dos armários, revirei umas   pastas e, vendo tudo  com cuidado,  tive a  impressão de que do nada surgiu a carteira de identidade. Gritei: São Longuinho! São  Longuinho!  Obrigado! 
 Tudo  à nossa volta    serenou. Chorei lágrimas de  felicidade,  de alívio,  de saber que,  não  encontrasse  a identidade,  teria  aqueles problemas todos que o  brasileiro   tão bem conhece:   ir à Delegacia de Polícia fazer o boletim de ocorrência  do  objeto  perdido; o medo  que se tem  de um objeto  dessa espécie   cair  nas mãos  de  marginais; tirar  foto para  um novo pedido de   identidade, enfim,  uma série de problemas.  
Desgaste inútil   andando  pelas  ruas e lugares  em que  poderia  encontrar  o objeto  perdido. São Longuinho  foi a salvação da pátria,  ou melhor, do lar. A história de São  Longuinho  é folclore? É. É uma simpatia  popular entre nós? É. Mas,  a verdade é que a  fama desse Santo  querido e amado já correu  país afora.  Já é antiga e a minha   esposa  me conta que a avozinha dela  costumava  invocar  São Longuinho nas horas do  aperto,  i.e.,  nas horas  das perdas, assim como ainda  falava  aquela avozinha que,  ao se  receber  o milagre,  a agente tem que  dar  três  pulinhos e dizer três vezes: “Obrigado  São Longuinho.”

Folclore  ou não,  o certo é que São  Longuinho me  salvou: “Suave milagre.”

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Tradução do poema « Le maître et l’écolier », de Tournier – Premières chansons)



«Qu’il fait sombre dans cette classe!
Rien qu’un mur gris,un tableau noir,
Et puis toujours la même place,
Et toujours le même devoir!

Toujours, toujours ce même livre,
Et toujours ce même cahier!
Peut-on appeler cela vivre?
Moi, je l’appelle s’ennuyer!»

Ainsi parlait, dans son école,
Un petit écolier mutin.
Le maître alors prit la parole,
Et lui dit: «Quoi! chaque matin,

Toujours de  cette même cahier,
Répéter la même leçon,
Enseigner la même grammaire
A ce même petit garçon,

Qui reste toujours quoi qu’on fasse ,
Ignorant, distrait, paresseux!
Lequel devrait, dans cette classe
S’ennuyer le plus de nous deux?»

Tu le vois l’eleve et le maître
Ont chacun son joug à charger
Mon enfant ; mais veux-tu connaître
Le vrai moyen de l’alléger ?.

Aime ton maître comoe il t’aime :
C’est tout le secret d’obéir ! »


O mestre e o aluno

« Que classe tão soturna !
Uma só parede cinza, um quadro-negro
Além disso,  o mesmo  lugar  de sempre
O mesmo dever de sempre !

Sempre, sempre este livro
E este igual  caderno.
Pode-se lá isso chamar de vida ?
Monotonia seria a palavra certa.

Falava assim, na sua escola,
Um revoltado  pequeno discente
Então, o mestre da palavra fez uso
Ao dizer : Como! cada manhã

Repetindo deste mesmo  caderno 
A lição costumeira
A mesma gramática ensinando
A esta mesma  criança,

Que,  por melhor que faça, continua sempre
Ignorante,   alheia,  indolente!
Qual de nós dois razão teria de
Mais  amuado  ficar ?

Veja, filho, uma coisa : aluno e mestre
Cada um tem o seu papel  a cumprir :
Queres saber, agora,  qual a
Verdadeira  forma de  melhorar tudo isso ?

Ama teu mestre como ele a ti ama.
Eis aí  da obediência  todo o segredo.

                                                                (Trad. de Cunha e Silva Filho)




                                          


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Nota zero para a educação brasileira




                                             Cunha e Silva filho


                Já reparou, leitor, que o Brasil é um  enigma  indecifrável, onde existe o que dá certo,  o que   dá  errado,  o que prejudica, o que faz mal  a tantos  e nada se faz para melhorar  nada? Vejamos um dos  setores   da  nossa sociedade  civil que causa vexame às nações  civilizadas  e sérias: a desvalorização dos professores públicos  em todos os níveis.
              Antigamente, era um lugar  comum, ou melhor,  uma   constatação  de  que  o país  paga  miseravelmente seus professores  primários e   secundários  a tal  ponto   que um velho  programa do saudoso  humorista  Chico Anísio, a “Escolinha do Professor Raimundo,” que durou por muito tempo  e sempre  batia na tecla de que o salário do professor brasileiro  não passava de um  "ó." simbolizado  corrosivamente  com  a junção do  polegar com o indicador.
         Ora,  não foi  difícil  sair  da tela da TV para o consenso   da comunidade  o fato de que  o professor  era um pé de chinelo,  a quem  ninguém   reconhecia  status   social  e  principalmente   financeiro. Conheci um professor do ensino médio estadual  do Rio de Janeiro  que queria  alugar um apartamento no subúrbio da cidade e, quando  teve que  dizer ao  “senhorio,” geralmente  portugueses,   que era professor, isso  foi bastante  para que  quase fosse escorraçado pelo  proprietário como  cachorro   doido.
       O programa   do Chico  Anísio, como uma vez  analisei  em artigo, tinha, a meu ver,  um efeito   deplorável:  a caricatura do professor  antes  serviu como combustível para aumentar   o descaso   da sociedade   para a figura  do  professor. Até nas novelas  de televisão um personagem  professor é visto  como alguém  sem crédito e sem realce tanto pela  burguesia quanto pela classe média e mesmo as classes  menos  favorecidas que, hoje,  - dizem ( será verdade?) -  ascendeu  à classe média. 
        Leio na Folha de São Paulo  de ontem, dia  3 de agosto,   um contundente   artigo  com  título em    interrogação (“Quanto vale um professor?")  expondo as agruras dos  professores e as injustiças  cometidas contra eles.   Desta vez,   trata-se  de professores  estaduais   de São Paulo,  estado com o Orçamento  mais rico   da Federação, conforme  lembram  os autores, porquanto o artigo  é assinado a quatro mãos,  com  autores   de alto nível  reafirmando  essa  vergonha  nacional. O  mais  grave  é que o poder público   estadual  alega   que são muitos os gastos com as universidades  estaduais  paulistas e,  por essa razão   não pode  remunerar  bem  os docentes.
Com  razão queixam-se os  articulistas, - vamos nomeá-los -  os jovens  professores Daniel Damásio Borges e Ana Gabriela Mendes Braga, da área de Direito, de  que, se os salários dos professores  universitários  estaduais  de São Paulo forem  comparados  aos de outros setores  do funcionalismo  estadual, torna-se  gritante    a injustiça  contra  os mestres. Citam  os autores  o exemplo de um  professor  com doutorado e com  regime de  dedicação exclusiva, cujo  salário  não passa de  nove mil  reais, enquanto um médico, “nos termos  do recente  plano  de carreira do governo estadual”,  perceberá  um salário   “muito superior”, - pasmem! – a de um  professor  titular da Faculdade de Medicina com  dedicação  exclusiva. Sem  desejar  subestimar  outras    profissões,  um professor  universitário não se faz  em  quatro anos.
Uma vez que abrace por vocação   e destino  a  atividade  docente   fazendo uma   carreira, muitas vezes, brilhante, atrás dele  há uma  longa  história  de  estudos,  de produção  científica, de aperfeiçoamento,   muitas,  vezes,  nos grandes centros  culturais  do mundo,   de  dedicação  ao saber  e à  cultura de seu  país.São longos anos   debruçados  nos livros,   isolados nos laboratórios,  na participação com trabalhos  de ponta em congressos  nacionais e internacionais, na orientação   de especialistas,   mestres e doutores e  na  coordenação de  pós-doutores,  i.e., no  crescimento  contínuo  da produção  do conhecimento  em elevado  nível de  aprofundamento. É um  construção  intelectual-científica  de toda uma vida.
Ora,  um governo ( e aqui  me  refiro aos governos  federal, estaduais   e  municipais)   que  não valoriza seus professores  seguramente  nunca  atingirá  uma  posição  de relevo  nos vários campos  do conhecimento  humano. Estamos atrasados em séculos   em  setores  vitais à demanda    das necessidades   do mundo  contemporâneo.Vejam os exemplos  magníficos  do  valor  à educação  em países  como   a China,  o Japão,  e mesmo os Estados Unidos, a França,  a Inglaterra,  a Alemanha    e outros  países   adiantados que respeitam  o ensino e a educação.
     Numa coisa o país  cresceu admiravelmente: na corrupção,  nas injustiças,  na  malversação do  dinheiro  público,  na  politicagem  hoje  completamente  desacreditada, na violência  crônica, na falta  de vergonha   em escala  nacional.
    Têm  sobras de   razão  os professores  signatários do artigo publicado,  por sinal,  na  página  “Tendências/Debates do mencionado  jornal.Eu não  consigo  entender como  candidatos, nas próximas  eleições, terão   tranquilidade  para  virem a público  elogiar  a educação brasileira  quando  todos os que  têm  um pouco de consciência  de nossos   direitos  de cidadania  sabemos   que  os governos brasileiros  há décadas   vêm  dizendo  inverdades   sobre  uma  suposta   melhoria   do  ensino   público,  sobretudo   estadual e municipal.  O privado, da mesma forma,   tem   suas misérias e seus  descalabros,  uma vez que há diferentes  níveis  de  qualidade do  ensino particular, que vão do  péssimo  ao  ótimo e em diferentes   regiões do país.
Com que cara  aparecerão  nas telas de TVs os responsáveis pela  educação  brasileira   diante  do fechamento   de   Universidade  Gama  Filho, por exemplo,  uma instituição  que  já teve seu   tempo de apogeu em  décadas atrás? Como ficarão seus   formandos   que  estão tendo    sérios  problemas   de ordem  pessoal e de auto-estima   em face  da  falta   de  ajuda   do governo   federal  para   uma  universidade   que já formou  tantos  profissionais na graduação e  pós-graduação que  hoje estão  em posições   relevantes  em sua atividades   profissionais?
.O governo federal  não  já socorreu até  canais de televisão  em apuros financeiros, e até   bancos privados para que   dessem continuidade  à suas atividades? Por que não ajudar, na forma de  Lei,  aquelas universidades privadas  que,  por má gestão administrativa, foram  levadas   à falência? O que o Estado  Brasileiro  deveria  ter feito  era apurar as irregularidades praticadas  pelos dirigentes dessas universidades, puni-los  com rigor  e encampar   tais  instituições. Em países que preservam   suas universidades, isso  jamais  aconteceria.
Como se sentirá  um ex-aluno de uma  universidade que  deixa de existir? E sua imagem, e seus brios   e sua finalidade   cultural  para o conjunto   das universidades  privadas? Um país que  respeita  o conjunto de seu   ensino superior,  independentemente  de ser  uma  universidade  privada  ou   pública, é um país  que  preserva  a sua  história social. 


sexta-feira, 1 de agosto de 2014

A maior alegria de um escritor




Cunha e Silva Filho


                Talvez o título desta crônica seja um tanto óbvio para algumas  pessoas, leitores, amigos, ou até mesmo   adversários; dos últimos,  quem não os  tem aberta ou  na encolha.?
Não sei  se todos  que escrevemos, num gênero literário ou  em  diversos gêneros, veem pela mesma  ótica  esse assunto  que trago à baila, mas para mim  a melhor  alegria  é saber que alguns me leem, seja  por um  vez só , seja por varoas  vezes, seja  por muito tempo. Sei que nem sempre  estamos   com a vontade de ler  um colunista  ou  outro. Tiro por mim. Passo  muito tempo  lendo  um  escritor. Depois, por um motivo  ou  outro,  paro de o ler. Procuro, então,  ler outro ou outros e assim  sucessivamente. Ocorre,  também  que, passado  algum tempo,  volto a ler  aquele/e   escritor,  cronista/s – e é de cronista que  estou  de preferência  tratando  nestas linhas -, que não vinha lendo  há algum tempo. Volto a ele ou a eles e com ele ou eles faço as pazes naquele sentido teórico de  “pacto  narrativo”  entre o  escritor e o leitor.  
Contudo,   essa alegria,  repito, é imensa,  preenche e amacia o nosso  ego, a nossa  auto-estima,  a confiança  de que   demos   algum recado a alguém que conosco  se afinou ou se identificou, ou concordou  com  as nossas ideias, ainda que com  algumas ressalvas,  o que é natural porque seria grande pretensão de um escritor  ser tão narcisista a ponto de    antecipar que  todos  gostarão de tudo  o que  escreva. Seria isso  pedir  o  impossível. Nem os best-sellers teriam  essa pretensa,  uma vez que  outros tantos leitores  não gostam  desse tipo de autores.
Uma  vez um professor  universitário de Letras,  ele próprio ficcionista,  me confessou: “eu não entendo  por que  Paulo  Coelho  é tão vendido?  Eu faço  das tripas coração,  aprimoro  minha  técnicas narrativa,  conheço  a estrutura  de um romance  por dentro e por fora,  e cadê os leitores  que não me leem? Estou agora, me lembrando de um cronista que certa  vez me  segredou: “Que diabo, escrevo,  escrevo, escrevo  e ninguém me faz um  simples comentário sobre o que  falo. Só pode ser  perseguição dos leitores que não sabem apreciar a importância  da minha  escrita e dos  temas que  abordo   com   o máximo cuidado  e amor  ao ato  da escrita, aos cuidados  com a linguagem. Me dá às vezes vontade de gritar : comentem meus  textos,  deixem de ser  ruins  e injustos comigo, não veem que tenho valor,  que domino  os meus recursos   de escritor!” Meu amigo só faltou  afirmar que  era merecedor de um  Nobel de Literatura...
O fato é que  ninguém pode  obrigar   leitores  a ler seus  textos.  O prazer  da leitura que se encontra  num autor  advém  das afinidades, da capacidade que o autor  tem  de atrair  seus  leitores  para  as suas  mensagens, seja em que  gênero for. Se o autor consegue captar a atenção do leitor levando-o  a  partilhar de muitas  de suas ideias e posições  diante dos acontecimentos da vida,  se o autor  transmite no que  escreve alguma verdade  e sinceridade, se de alguma  maneira  estabelece um diálogo  proveitoso   com  quem o ler,  se  o autor  como    intelectual  demonstra  reunir  em sua personalidade um conjunto de   elementos    significativos  e  válidos  como   conceitos,  reflexões  e posições  assumidas  com autenticidade com  relação  à complexidade    e aos desafios  da  existência  considerada  social,  filosófica, histórica,  culturalmente, então  é bem  provável que  o leitor seja por ele  conquistado.
Há poucos dias  li de alguém  que, se referindo  ao  colunista da Folha de São Paulo,  Elio Gaspari,  comentou    que esse  jornalista nunca escreve os seus textos  na primeira  pessoa. Impessoalidade pura  que,  no entanto,  não me agrada  muito. Gosto dos textos que  têm  nervos,  frêmitos,  emoção,  sensibilidade,  subjetividades,   textos em que  palpita a vida ainda que  cuidando de temas dos quais se exige objetividade Aprecio antes,  opinião  pessoal,  o jornalismo doutrinário.. Um certo  tipo de jornalismo  atual  se esmera por  ser destituído  de  alma. Na reportagem pura,  sim,  é possível    revesti-la  de  objetividade, de secura,  de ausência  de espírito. Na crônica,  não, ela  precisa do  dado  subjetivo,  mesmo  lírico, como  o  encontramos  em Rubem Braga,   em Vinicius de Moraes,  em  Fernando  Sabino,   em Drummond,  em  Ferreira Gullar, entre tantos outros. 
O maior exemplo desse  fato  imponderável,  que é o   número  de leitores  desejados  pelo autor, se pode  ver  naquela  nota  introdutória – “Ao leitor” - do  narrador-personagem, autor-defunto  Brás Cubas, em Memórias  póstumas de Brás Cubas,[1] de Machado de Assis. Ao se “admirar” e  se “consternar” que Stendhal  tivesse  declarado   que teria      escrito um de seus livro  para cem  leitores,  o narrador-personagem de Machado  se aproveita  para  usar de sua  verve irônica estendendo  a ideia de escassez de leitores  para auto-ironizar a quantidade de leitores que poderia   atingir  a sua  própria  obra  apresentada ao leitor,  fazendo-lhe  um prognóstico muito à feição machadiana  de corrosão  e ao mesmo  tempo  jocosidade: “O que não admira, nem provavelmente consternará é  se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem  cinquenta, nem vinte, e quando muito,  dez. Dez? Talvez cinco.” 
Ora,  neste  breve nota ao leitor,  Machado se põe visivelmente na condição  de crítico,  de analista,  se utiliza da meta-ficcionalidade,  ao falar  de alguns de seus  processos  de criação literária pela boca  do narrador  Brás Cubas: a) Para  ele,  o romance  que o possível  leitor  vai ler  é por ele  definido  como “obra  difusa”; b) Adotou  a “forma livre” de Sterne ou de  Xavier de Maistre; c) Coloca em  dúvida se  na obra instilou  algum  “pessimismo”; d) Afirma ser “obra de finado;”  e) Foi escrita com  a “pena da galhofa” e a “tinta da melancolia”;f) Hesita quanto ao  resultado   dessa mistura, se assim posso  afirmar.
Falando ao eventual  leitor, tem  dúvidas quanto à classificação  de gênero  do  ponto de vista do leitor que, no caso,  corresponderia,  segundo  Brás Cubas, a dois tipos de leitores: “ gente  grave” e “gente frívola.” Quanto ao gênero de ficção, ao primeiro tipo de leitor  pareceria  ser  um  “puro romance”;   ao segundo, não seria  aquela narrativa a que  estava acostumado. Tudo, porém, é inferido  de  modo   propositalmente indeciso. Concluindo:  o  narrador-analista  se vê  diante de um  problema : constata que  a narrativa não  terá    uma  acolhida favorável de nenhum dos dois  tipos de leitores, o que  deixa  o narrador  num beco sem  saída quanto  à validade  do texto que está  oferecendo  ao leitor.
Isso tudo não passa de um  artifício  retórico do narrador Brás Cubas, ou seja,  o de  desconstruir,  construindo, o de  negar , afirmando,  o de    não meta-ficcionalizar,  meta-ficcionalizando. Em outras palavras,  o analista- narrador tanto  faz  o que diz quanto  não  faz  o que afirma.Por cima de tudo,  há, no segundo  parágrafo da  nota “Ao leitor,”   uma retomada  do tema  do relacionamento  entre  autor e leitor, e, agora,  o  analista-narrador  já fala em  captar as simpatias  do leitor e para isso  cumpriria  atender a alguns  procedimentos  retórico-técnico-narrativos, colocando-se, assim,  o analista-narrador na posição  de teórico:a) Evitar um  “prólogo explícito e  longo;”  b) O melhor  prólogo é o que contém menos cousas, ou o que as diz de m jeito obscuro e truncado.”
No que concerne ao  item “b” do parágrafo acima, pode-se  deduzir que    o hermético  tem lá seus  efeitos  válidos e sua razão de ser.   Mais adiante,  o processo  meta-ficcional  se torna,  nesta  nota  “Ao leitor,”  uma reafirmação de que  o trabalho  da criação  ficcional  das “Memórias” fornece ao  leitor  especializado, ao crítico,  a consciência  artesanal  do ofício  da escrita em elevado  nível  de qualidade  artística e,  por conseguinte,  para o leitor  comum, assim  podemos   inferir,  seria para ele  “desnecessário ao entendimento  da obra.” No final  da nota  “Ao leitor,”  o narrador lapidarmente dá a entender  ao leitor que o fundamento  da  obra ficcional poderia bem  corresponder  a esta   afirmação: “A obra em si mesma  é tudo” [..]
Ou por outra:  o leitor  é a  última e primordial  instância  na fruição  de uma  obra  literária. Tudo o mais  é matéria  do artista, do seu talento,  da sua competência  e da sua função.Por outro lado,   o autor se sente   compensado   com a  boa recepção  que   possa encontrar   junto aos leitores  e este é o motivo  pelo qual  dei o titulo  a esta crônica Todavia,  para o analista-narrador, para Machado, ao final de contas, se o leitor  não se sente atraído  pelo  que o narrador lhe está   relatando,  só lhe resta levar  um  “piparote.”  Machado  não tem culpa de um  ouvido  torto. Machado  é mutável. Brinca, ironiza  e, desse modo,    na folha  impressa  refaz a vida.
.Entre o  afirmar e o  negar,   entre o dizer  e o ocultar, o analista-narrador  desvela   e dessacraliza  o chamado  “ilusionismo  narrativo,” ao expor  ser a obra de arte  um produto de  imaginação, uma realidade  artística   feita  de  linguagem,  de palavras,  de artifícios  técnicos  esteticamente  “harmonizados” e, o que é mais  fascinante,  dando  sentido de autenticidade  ao que  o  texto  transmite de realidade humana.  Ou seja, a   Literatura  faz-se com palavras, mas estas  nos dão  uma sensação  profunda e total  da existência e por isso  nos comoverá sempre que penetrarmos   na leitura  de um  romance,  de um conto,  de um  poema.




[1] Cf.  ASSIS, Machado de. Memórias  póstumas de Brás Cubas. In:  Obra  completa  -romances. Organizada por Afrânio Coutinho.  vol. 1. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1997, p. 513.