domingo, 7 de julho de 2013

Os escândalos do governo federal continuam




Cunha e Silva Filho



Não bastassem as imoralidades do governo federal apontadas pelo clamor das manifestações das ruas, os homens do poder atual ainda teimam e insistem em atos ilegais e danosos ao Erário Público, como foram os dois recentíssimos incidentes implicando os presidentes da Câmara e do Senado viajando de graça em aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) para fins particulares e, portanto, alheios às atribuições de seus cargos. Um e outro ainda tentaram justificar-se diante da imprensa sobre possíveis direitos que tinham por força do exercício de suas funções, porém logo se deram conta de que estavam errados e procuraram ressarcir os cofres públicos no valor dos gastos feitos..

Os homens do poder, não satisfeitos com o que de errado vêm praticando ao arrepio da lei, em outro setor do governo, o Tribunal de Contas da União(TCU), órgão que deveria dar o exemplo de lisura na fiscalização dos gastos públicos, surge como atores também envolvidos em abusos de gastança de marajás e mordomias em benefício próprio, concedendo-se recebimentos de quantias destinadas - pasme, leitor! – "a auxílio-alimentação" (sic!), além de diferenças salariais retroativas, totalizando milhões de reais para atenderem a todos os membros e servidores do órgão,ativos e inativos.

Ora, os membros do TCU já ganham altos salários para trabalharem pela fiscalização do dinheiros gasto pelo governo federal. Não são barnabés que ganham migalhas e, aí sim, necessitariam de auxílio-alimentação. Não eles, membros do TCU, ativos e aposentados. O pior é que foi com verba destinada à fiscalização que deslocaram para se darem aumentos e benefícios pecuniários de marajás. Agora, pergunto: como, então, se pode confiar em homens que ali estão para serem os guardiões das contas públicas se eles mesmos procedem desta maneira?

Outros servidores da União, em diversos setores, quando solicitam retificação de erros de níveis salariais a que têm direito, com muito custo conseguem – quando o conseguem - terem retificados seus vencimentos de direito e de fato. Os processos demoram em serem solucionados e bem assim os atrasados correspondentes, ao passo que os privilegiados membros do TCU resolvem tudo de seus interesses intramuros e com rapidez de solução. .Desta forma, como não gritar nas ruas por justiça social, por melhorias de vida e por um país que não tem interesse político de eliminar ou minimizar a corrupção em vários segmentos da máquina do Estado?

A não eliminação de regalias é um forma de crime sem punição. Ipso facto, cá embaixo, o mundo dos mortais da criminalidade e da violência, que grassam soltas pelo país todo, não deixa de ser reflexo do cinismo de nossa política e de nossas instituições públicas e privadas. Quando nos falecem modelos de ética e de moralidade da parte da superestrutura, quando o poder público está contaminado pelo vírus da indecência, da imoralidade, da arrogância e do cinismo deslavado, não podemos esperar, fora dos governos, um povo que se orgulhe de sua pátria, de sua identidade e de suas potencialidades nos diversos campos da atividade humana.

O cinismo, a indiferença e o desprezo pelos anseios justos da população são fatores geradores de autoritarismo e de prepotência - um caminho fácil para a instalação das ditaduras e dos regimes discricionários que voltam as costas para a sociedade e para os direitos de cidadania.

Sei que não foram vãos os gritos  nas ruas da população brasileira, sobretudo dos jovens que se sentem espezinhados nos seus direitos e nos seus desejos de bem-estar e de verem um país cujo governo trabalhe efetivamente para propiciar ao povo as reivindicações básicas e inadiáveis :nos setores da educação, do transporte, da saúde, da segurança e de outros domínios da vida pública e privada. Um governo que atenda a esses objetivos terá sucesso e apoio irrestrito da sociedade. Há muito tempo - nem mesmo sei se já o tivemos alguma vez - não temos no país um governo, no âmbito federal, estadual e municipal, que se enquadre na concretização dessas exigências e direitos fundamentais do povo brasileiro.









sexta-feira, 5 de julho de 2013

O sentido das manifestações populares no país





Cunha e Silva Filho


Somos um pais dividido no qual as classes sociais, consciente ou inconscientemente, têm seus padrões de comportamento e de visões múltiplas para o bem ou para o mal. Aí talvez resida algum perigo sempre que os brasileiros são convocados para as manifestações contra o establisment vigente.Quer dizer, não há nunca uma unidade sólida congregando a todos indistintamente.

Quem está no alto da pirâmide, não participa das manifestações que ocorrem, desejosas de mudanças. Quem está no nível de classe média pode reprovar o que vê de errado nas instituições governamentais, mas não deseja se expor.

Talvez, seus filhos, por influência da educação que recebem na escola, não acompanhem os pais já acomodados em sua vidinha sem grandes sonhos, a não ser aqueles que provêm do atrativo consumismo, de seus almoços de fins de semana, de seus carros comprados a prestação, de suas viagens à Disnneylândia, dos seus churrascos em casa, de suas conversas recheadas de futilidades, de suas conquistas amorosas, suas traições, seu bovarismo, suas mesquinharias, seu individualismo bastardo, seu fanatismo futebolístico, sua escola de samba, seu jogo de bicho, suas fofocas sobre marcas de produtos (tênis, roupas, modas, perfumes, salões de beleza, revistas de celebridades etc, etc) que compram com sacrifícios e de suas pretensões miméticas de aparentarem pertencer à burguesia endinheirada e vazia de ideais de transformações sociais.” Classe mérdea,” diria com sarcasmo o grande contista João Antônio (1937-1996).

Os milionários estão pouco se lixando para qualquer coisa ou para as questões sociais ou de mudanças de melhoria do povo em geral. Seus bens estão sólidos, seu dinheiro está bem guardado nos paraísos fiscais. Em qualquer grande reviravolta que suceder no país, eles estarão prontos  para fazer as malas e embarcar para o exterior deixando para trás as agruras e os sofrimentos do povão que não está nos seus planos, destituídos eles em geral de solidariedade e de cumplicidade. A elite está acima do bem e do mal. O que lhe interessa é manter-se onde está com o poder e a força advindos dos lucros do capitalismo globalizado. Seu ambiente social é outro, pois se faz de festas, de jóias, de viagens e de luxo.

O povão, a massa ignara, a turba, a patuleia continua a lutar apenas pela sobvrevivência,  vivendo no imediatismo das sobras das  outras  classes mais  aquinhoadas, sem leitura, sem estudos, sem nada.

Enquanto isso, o país se afunda na corrupção que parece uma “causa pétrea.” O clamor das manifestações nas ruas, por menor que tenha sido, pelo menos serviu para mostrar que o povo  -, a massa, a multidão -  não está mais disposto  a sofrer diante de tantos descalabros da superestrutura. Há um limite de desespero e de insatisfação além do qual tudo pode acontecer. O cinismo deslavado dos políticos, que ainda teimam em exibir uma postura impassível e pretensiosa diante do gritos das ruas, já começa a dar sinais de que alguma mudança considerável terá que se efetuada. Do contrário, os ânimos populares se acirrarão ainda mais, podendo resultar numa situação de desordem e de anarquia e, dessa forma, produzir outros efeitos inimagináveis no centro do poder.

Nossa democracia está em perigo. Se o sistema político brasileiro persistir na sua  prepotência e na certeza de impunidade de seus erros contabilizados ao longo de tantos anos de desprezo aos reclamos da sociedade civil, nas próximas eleições o povo alijará do poder parte significativa de nosso representantes na Câmara dos Deputados e no Senado.

A Presidente Dilma, diante dos últimos acontecimentos, tendo já sofrido uma queda vertiginosa de aceitação do povo, dificilmente conseguirá se reeleger. Se nos meses que lhe restam de mandato não lograr dar uma guinada de substanciais alterações no seu governo que se traduzam em melhoria concreta e a curto prazo em muitos setores do governo, sua candidatura terá insucesso. E o pior é que não se vislumbram outras alternativas de políticos que possam preencher tantos anseios de melhoria há longo tempo acalentados no tocante a setores vitais para um país que aspira a ter aprimoradas sua segurança, saúde, educação pública, sobretudo do ensino fundamental e médio, sua habitação para as classes menos favorecidas e outros setores da vida social.

O sentido das manifestações nas ruas do Brasil está claramente direcionado para todas essas carências e distorções perfeitamente identificadas pela povo. O governo federal, no conjunto de todos os seus três poderes, já tem o recado . Só lhe cabe, agora, apressar-se em dar pronta e imediata solução às grandes causas de nossas misérias e injustiças gritantes. Enfim, só há duas saídas para os que estão no poder atual: a  possiblilidade de contribuir para a  conquista da cidadania ou o caos social.

domingo, 30 de junho de 2013

BRAZIL'S OVERVIEW CORNER: authoritarianism of Sergio Cabral, Rio de Janeiro governor

( This article  is followed  by the  Portuguese tranlation  below)



By Cunha e Silva Filho





This is not the first time that Mr. Sergio Cabral has proven his rudeness against the carioca people. In previous years of his mandate (this is his second mandate) he has given sufficient evidences of having offended professionals of medicine who have claimed against poor working conditions and very low salaries. He is also known for having quelled firemen who were at strike claiming for better working conditions and compatible salaries. He is still well known for his arrogance visibly shown before situations in which the people had to make claims against several other administrative failures of his government. Therefore, this is not the first time he has shown himself to be a two-faced politician, as well as being a servile supporter of the federal government.

At the moment I am writing this column, the inhabitants who live in Maracanâ Stadium neighborhood, a Stadium famous worldwide for being a symbol of Brazilian soccer, have been victims of the despotism of  the governor. Police forces of the   government, strategically deployed in front of that Stadium and in the neighboring streets, have formed a true battalion strongly armed which more seemed to be ready for a civil war.

There were 6,000  soldiers from the Military  Police and 600 soldiers  from  the Federal National Force placed at several streets near the Stadium which were blocked in all accesses  to the Stadium unless those ones    destined to soccer rooters who had tickets to attend the match.  Actually,the policemen were there to defend the security of  Brazilians and Spaniards  who went to attend the Confederations  Cup final match between Spain and Brazil  teams. Outside the Stadium, there were demonstrators who protested against a range of Brazil’s social evils. However, they were positioned a long distance from Maracanã Stadium, respecting the limits imposed upon them by state forces of security.

People all over the world know Brazil is going through a delicate moment of his political history with the bulk of the people going out on the streets in demonstrations against a range of fair claims for an improvement of the country life in several sectors of society: transportation, security, health, education among other important priorities.

Moreover, federal and state governments are being held responsible for not solving the afflicting problems of political corruption , notably for not having yet taken to prison politicians and entrepreneurs who have taken part in the so-called scheme of “Mensalão” – a scheme that was cunningly planned between top members of the federal administration during Lula’s presidential mandates, politicians and private concerns and banks with the purpose to steal public funds through bribery and other dishonest means. In addition, other wrongdoings occurred in the present federal government also have put some more fuel envolving political class at least over the last ten years of Workers’ Party in power. All these negative facts have paved the way to a state of Brazilians’ indignation and discontentment towards the brazen cynicism of Brazilian congressmen.

In Tijuca a North Zone district, state police repression disrespected the dwellers of apartments and residences who have suffered with tear gas and deafening  bombs indiscriminately thrown by policemen to drive away  supposed troublemakers formed by young people who were corned by soldiers and tried to run to neighboring streets. We might add  that from  late afternoon until  late at night several  helicopters were overflying  areas surrounding  Maracanã  Stadium watching  what was going  on the streets or perhaps  trying to  chase groups of  troublemakers who faced the police forces. It was actually  a terrible  night the dwellers  lived  while the game was being  played by the two teams.

The fact remains that tear gas, spreading over all sides among residential buildings of Tijuca, brought about health problems affecting the breath and eyes of people of all age brackets, chiefly sick elderly ones who, inside their apartments or houses, had burning in their eyes and inhaled tear gas. This regrettable fact has left people in panic. At the same time, those who live in higher floors were also harmed in the same way. Besides, a big smell of power also got things worse for  the dwellers in the neighborhood of Maracanã Stadium.

The governor of Rio de Janeiro is surely the major responsible for this indirect invasion in the homes of the inhabitants’ privacy, as much as the lack of competence of the policemen is a sign of disrespect towards the inalienable rights of the dwellers’ citizenship which were infringed in their peace, rest and security .

So, the rights of Brazilian citizens were deeply hurt by the police actions, not only in what regards damages to their health and rest but also in what concerns a kind of invasion of private property, victims of pollution of gases expelled by the police , as well as sound pollution from deafening bombs exploded on residential streets.

Governor Sergio Cabral, once again, gives proofs that his mandate is ruled by brute force and by unconcern for the rights of security and physical integrity of those who elected him for a second mandate. In this connection, the rights of dwellers of Tijuca and of all neighboring streets of Maracanã Stadium were profoundly broken during the game of the Confederacies Cup.

I want to express in this column my deep protest against this form of “vandalism” commited by the police itself against the inhabitants of Tijuca.

The governor gives more security to the a soccer match and to those that went to watch the game than to the people who do not have 6,600 soldiers to defend them against the wave of violence in Rio de Janeiro, It is a shame for the state government. We understand that a politician give all attention to an attractive people loved sport which, in turn, has a negative side, a strong yeast towards alienation of the individuals.

NOTE:  I  have made a correction now  of the  right number of soldiers who were at the Maracanã Stadium  to defend it and the soccer rooters  who attended  the match.    


 Autoritarismo de Sérgio Cabral, governador do Rio de Janeiro



                                                                                                 Cunha e Silva Filho


Não é esta a primeira vez que o Sr Sérgio Cabral, demonstra a sua grosseria contra povo carioca.Tempos atrás, em seu mandato (está agora no segundo mandato) , deu cabais demonstrações de ofensas a profissionais de medicina que reclamavam contra condições precárias de trabalho baixíssimos salários. Ficou também conhecido por sua repressão contra bombeiros que, em greve, reivindicavam por melhores condições de trabalho e por salários condignos.. Ainda ficou conhecido pela sua arrogância visivelmente demonstrada diante de situações nas quais o povo do Rio de Janeiro se queixa por vários motivos de sua administração em geral. Não é de agora que ele mostra o seu bifrontismo político assim como sua subserviência ao governo federal.

Neste momento em que escrevo esta coluna, os moradores do entorno do Estádio do Maracanã, símbolo do futebol brasileiro, foram vítimas indefesas da truculência do seu governo. Forças policiais do  governo, mobilizadas estrategicamente em vários ruas perto do Estádio, foram bloqueadas em todos os acesso que davam para o Maracanã, a fim de defender este, formando um batalhão que mais parecia estar preparado para uma guerra civil.

Havia 6.000 soldados da Polícia militar e 600 militares da Guarda Nacional que se postaram em várias ruas perto do estádio, as quais foram bloqueadas em todos os acessos ao Estádio, com exceção daqueles que eram destnados a  torcedores com bilhetes para assistirem  ao jogo. Os policiais ali estavam para dar segurança àqueles torcedores brasileiros e espanhóis que iriam assistir ao jogo da Copa das Confederações, na partida final para decidir o campeonato entre as seleções da Espanha e do Brasil. Do lado de foram, do Estádio havia manifestantes que protestavam contra uma série de males sociais do país. Entretanto, estavam situados a uma boa distância do Maracanã, respeitando os limites impostos pelas forças de segurança estaduais.

Ora, bem sabe o mundo que o Brasil está vivendo um delicado momento de sua história política com o povo em massa nas ruas fazendo passeatas e manifestações contra um série de reivindicações justas por melhorias de vida em diversos setores da sociedade: transporte, segurança, saúde, educação, entre outras. Prioridades fundamentais. A par disso, o governo está sendo responsabilizado por não resolver os problemas gritantes da corrupção política, notadamente por não ter ainda levado à prisão políticos que participaram do chamado esquema do “Mensalão” - um esquema que foi ardilosamente arquitetado entre membros do alto escalão do governo federal durante os mandatos de Lula, políticos e im presas privadas e bancos cm o a finalidade de roubar dinheiro publico através de suborno e outros meios desonestos. Além disso, há outras falcatruas cometidas no atual governo puseram mais combustível envolvendo a classe política pelo menos durante os dez últimos anos em que o Partido dos Trabalhadores (PT) está no poder. Todos estes fatos negativos prepararam o terreno para este estado de indignação e de descontentamento pelo cinismo deslavado de representantes do povo.

No bairro da Tijuca, a repressão da Polícia Militar do Rio de Janeiro não respeitou os moradores de apartamentos que sofreram com os jatos de gás lacrimogêneo e bombas ensurdecedoras lançados por policiais, de forma indiscriminada, contra supostos arruaceiros formados de jovens manifestantes que, acuados pelos soldados, correram pelas ruas circunvizinhas.

Ocorre que o gás lacrimogêneo, espalhando-se por toda a parte entre prédios residenciais da Tijuca, causaram mal-estar na saúde de moradores de todas as faixas etárias, sobretudos de pessoas idosas doentes.

Este lastimável fato deixou em pânico todos esses moradores, até mesmo os que vivem nos andares mais altos, todos afetados em seus olhos e nas suas fossas nasais pela inalação daqueles gases. Além disso, um grande cheiro de pólvora também agravou a situação de moradores nas vizinhanças do Maracanã.

O governador é, sim, responsável por esta invasão indireta no recinto de muitos lares afetados pela selvageria da polícia militar que n ao respeitou o direito de paz e tranquilidade e segurança dos moradores circunvizinhos ao estádio do Maracanã.

Os direitos do cidadão brasileiro foram profundamente lesados pela ação policial, tanto no que diz respeito aos danos à saúde e sossego dos moradores quanto por uma espécie de invasão da propriedade privada, vítima da poluição dos gases expelidos pela polícia.

O governo do Sr. Sérgio Cabral, mais uma vez, dá provas de que é regido pela força bruta e pelo desrespeito aos direitos inalienáveis da segurança e integridade física das pessoas, profundamente violados durante o jogo no Maracanã.

Quero expressar nesta coluna meu profundo protesto contra esta forma de “vandalismo” perpetrado pela própria polícia contra os moradores da Tijuca, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro.

O governador dá mais segurança ao futebol e aos que foram assistir ao Campeonato das Confederações do que ao povo que não tem 6.600 policiais  para defendê-lo contra a escalada de violência no Rio de Janeiro. É uma vexame para os cariocas! É compreensível que um político dê toda a sua atenção a um esporte atraente e querido do povo mas que tem seu lado negativo, um fermento forte para a alienação dos indivíduos.

Nota do Colunista: Retificamos, com mais precisão,  o contingente de militares  que  defendiam  o Estádio  do Maracanã.







sexta-feira, 28 de junho de 2013

Retrato do Brasil atual





Ante os últimos acontecimentos surgidos no país, apresso-me em expressar o meu assombro, a minha perplexidade de mistura com certo receio pelo que atravessa a nação.

As primeiras manifestações organizadas por estudantes do ensino médio e de universidades tendo como pauta principal o chamado “passe livre” não foram algo precipitado ou saído de uma cabeça desmiolada de algum jovem descontente com as mazelas dos transportes urbanos das nossas principais cidades. Era algo que se desenrolaria cedo ou tarde no Brasil, portanto algo previsível que estava entalado na garganta aparentemente acomodada e supostamente alienada de uma juventude.

Além da realidade concreta provocadora da rebeldia dos estudantes, ou seja, o aumento do preço da passagens de ônibus e a falta do passe livre, havia um descontentamento maciço da população brasileira sufocado, reprimido, porém prestes a explodir como um vulcão adormecido.

Bastou o estopim, a fagulha provocada pela juventude nas ruas para que as manifestações se transformassem, em toda a sua plenitude, em indignação nacional, envolvendo agora, adultos, velhos e crianças acompanhadas dos pais, gritando palavras de ordem, carregando cartazes, com frases alusivas a uma série de desacertos de nosso governantes em áreas de vital importância à normalidade do cotidiano da sociedade brasileira: transporte sucateado, saúde em frangalhos, escalada sem precedente da violência de criminosos impunes, barbarizando pessoas de todas as idades, além de um quadro vergonhoso de representantes do povo em Brasília, no Senado, na Câmara dos Deputados, em alguns governos estaduais, em prefeituras das capitais e do interior, praticamente toda uma classe política que, pelos seus malefícios feitos contra o país, sobretudo por ações de corrupção durante os seus mandatos, pouco ou nenhuma atenção tiveram para com os seus representados, quer dizer, o povo brasileiro que os elegeu com a convicção de que iriam defender os direitos da população brasileira. O gigante ( há muto tempo adormecido) da letra do hino brasileiro acordou por completo, atingindo todo o território nacional em passeatas, em manifestações de protestos vigorosos e candentes contra os males do governo atual.

Nem em outras manifestações anteriores ocorridas no país, como as “Diretas Já”, os caras pintadas contra o governo Collor, tiveram a intensidade e a quantidade de manifestantes quanto estas que vimos há poucos dias, atingindo o país inteiro e com repercussão das comunidades brasileiras em países estrangeiros.Aquele cartaz que vi pela TV de um brasileiro em Londres exibindo a frase tão oportuna Wake up, Brazil! (Acorda, Brasil!) é algo que traduz a percepção distante do país por alguém que explicitamente compartilha e se condói do que está vivendo a nossa  sociedade atualmente.

Nenhum governo se sustenta quando seu povo se conscientiza de que alguns de seus direitos de cidadania foram suprimidos. O único lado ruim dessas manifestações foi manchado pela irrupção da onda de vandalismo de grupos criminosos que se misturaram no meio das passeatas realizadas com fins pacíficos. Esse lado obscuro e abominável deve ser contido com rigor pelos órgãos de segurança de cada estado da Federação.

Se os órgãos de repressão contra criminosos não forem acionados de forma constante e estratégica, temo pela integridade do patrimônio público e privado de nossas capitais e outras cidades. Dá-me a impressão, vendo as ações de criminosos oportunistas atacando tudo que vêem pela frente, saqueando lojas, depredando edifícios públicos, incendiando veículos até com passageiros no seu interior, praticando arrastões, furtando, roubando, estilhaçando vidros, quebrando portas, levando mercadorias, jóias, carros, bicicletas,  motos,  comida, enfim, tudo que lhes chegue às mãos, de que o Estado brasileiro está vivendo uma fase de vazio de autoridade, de acefalia, em nível perigoso para as instituições democráticas que queremos de fato ver consolidadas.

A Presidência da República demorou muito em dar satisfação às reivindicações das manifestações pacíficas e está demorando muito com relação à onda de desordeiros que se alastram pelo pais afora. A sensação que tenho é de um estado de anomia diante de práticas criminosas a que estamos assistindo e veiculadas pela mídia diariamente nos últimos dias.

Há muito venho publicando neste blog artigos advertindo as autoridades brasileiras para os mais graves problemas que o país vem atravessando, desde a corrupção - impune - de parte de nossos políticos até a escalada de violência que parece não ter fim.

Talvez a descrença que o povo brasileiro está manifestando pelos políticos e governantes nossos combinada com a violência cometida por criminosos contra o cidadão brasileiro seja parte de um todo composto de desrespeito pelo bem-estar do povo e pela inoperância das autoridades, em todos os níveis, de solucionar os males crônicos da nação. O mau exemplo das autoridades se reflete seguramente na consciência dos criminosos, quer adolescentes, quer adultos.

Se a impunidade continua soberana no alto da pirâmide, onde se agasalham políticos corruptos, na base da pirâmide, os vândalos, os marginais, de antemão sabem que serão presos e logo depois, por imperativos da lei que os protege, serão liberados para novos crimes contra indefesos e inocentes.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Prezado leitores ( Dear readers)

Prezados leitores,  estarei ausente desta coluna por um mês ocupado em realizar uma pesquisa de pós-doutorado. Agradeço-lhes pela   valiosa atenção.

Um  abraço  a todos,

Cunha e Silva Filho

     ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Dear readers, I'll be away  from   this column for a month  busy doing  a research project   for a post-doctorate.       I thank you for your  esteemed attention
¨
Kind regards,

Cunha e Silva Filho

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Adeus, poeta Jurandir Bezerra!






Cunha e Silva Filho





Novamente o telefone toca em minha casa. Meu filho Alexandre atende. Alguém do outro lado da linha, lhe passa um recado: “O poeta Jurandir Bezerra, natural do Pará, faleceu ontem, dia 29  de maio, aos oitenta e cinco anos.” Jurandir nasceu em 13 de março de 1928.

Sinto-me abalado, sem rumo, amargurado. Nossa cultura ocidental não se alegra com os mortos, como o fazem algumas culturas orientais.O que poderemos fazer senão chorar no silêncio de nossa dor profunda, incomensurável.

Não foi um falecimento de um desconhecido que nunca vimos nem com quem nunca tivemos qualquer contato pessoal. Foi a morte de um poeta, um grande poeta não só paraense, mas brasileiro.

Jurandir só teve um livro editado, com este título que parece vir dos eleitos de Deus, de um lugar encantado onde só a pureza tem seu assento.: Os limites do pássaro (Belém: Editora CEJUP, 67 p.,1993), com orelhas de Leonam Cruz e introdução de Fagundes de Menezes.
Esta obra foi lançada na VI Bienal Internacional do Livro, Rio de Janeiro (1993) e na II Feira do Livro do Pará, em novembro (1993). Os limites do pássaro, ainda na condição de inédito, recebeu 3 prêmios nacionais: “Prêmio Guararapes”, da União Brasileira de Escritores, Rio de Janeiro como o melhor livro inédito de autor inédito em livro(1986), Comissão Julgadora: Fagundes de Menezes, Stella Leonardos e Reynaldo Valinho; 2º lugar do “Prêmio Carlos Drummond de Andrade (1991, Conselho Estadual de Cultura, Rio de Janeiro; 2º lugar no Concurso Nacional de Poesia Ruth Scott, do Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro(1993).

Muito bem recebido pela crítica, não só em Belém, mas também no Rio de Janeiro. Recebeu elogios de Antonio Olinto (1919-2009) do crítico Antonio Carlos Secchim, ambos membros da Academia Brasileira de Letras.

Algumas de suas poesias foram premiadas em concurso nacional e nternacional, como o da Revista “Leitura”, Rio de Janeiro(1957) ainda quando residia em Belém; “Pastorela, quase cantiga”, 3º lugar entre 486 candidatos, tendo na comissão julgadora nomes do quilate intelectual de Carlos Drummond de Andrade, Adonias Filho e Antônio Olinto; 2º lugar, entre centenas de candidatos, no I Concurso Nacional de Poesia de Uberlândia, Minas Gerais, com o poema”Criação do Mito”(1984); 2º lugar em Concurso Nacional da Hebraica, Rio de Janeiro, com o poema “A espuma” (1991); menção honrosa, entre 1.047 inscritos, n o VII Concurso Nacional de Poesia Aríete Vilela (2000), do jornal Letras Literárias, Maceió, Alagoas, com os poemas “Plenitude”, “Noturno”, “Poesia quase de solidão”; em 2005, em concurso internacional, na Itália (Premio letterario “Il Molinello”) teve escolhida seu poema “Infância”. Alem disso, 3 poemas seus foram selecionados e publicados em “Poesia Sepre, da Fundação Biblioteca Nacional (2002). Com o seu poema “infância” participou de uma antologia de Rapolao Terem, província de Siena, Itália.

Juradir Bezerra teve alguns poemas traduzidos para o inglês por Cunha e Silva Filho e Yacilton Almeida, e para o italiano pelos professores Guido Alberto Bonomini e Marines Lima Cardoso.

Precoce, Jurandir Bezerra ingressou na Academia Paraense de Letras aos 18 anos.Pertenceu a uma geração de grandes intelectuais paraenses, muitos dos quais alcançaram renome nacional, como Benedito Nunes, Max Martins, Haroldo Maranhão e tantos outros que, junto com ele, e tendo Jurandir apenas 14 anos, fundaram a Academia dos Novos.

Jurandir Bezerra foi ainda professor de português, jornalista e exerceu atividades sindicais na área do jornalismo, como delegado por várias vezes de Congressos Nacionais de Jornalistas representando o estado do Pará. Alem disso, foi funcionário público federal do Ministério da Saúde atingindo altas funções na área administrativa

O poeta deixou inéditos 8 livros de poesia: As águas de Mara , que recebeu menção honrosa no citado Concurso do Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro; A lâmina convexa, menção especial do Prêmio Ribeiro Couto, da União Brasileira de Escritores, Rio de Janeiro (1997); Configurações, Superfície, O Rio de minha Aldeia ( em conclusão); O signo convexo (em elaboração), Sombra submersa, recordações da Amazônia (em elaboração); O verbo não conjugado, uma antologia de poemas dos livros supracitados.

Jurandir era muito criterioso com a sua poesia e, por isso, me falou que havia feito consideráveis modificações na ordem da antologia O verbo não conjugado, retirando e colocando poemas, além de refundir mesmo partes da estrutura de alguns poemas. Não lhe pude acompanhar os últimos tempos de sua existência a fim de saber como tinha ficado o livro a ser editado pela Litteris Editora.. A demora desta publicação levará, deste modo, a um lançamento póstumo, infelizmente.

Após esses dados biobibliográficos, me permita o leitor algumas palavras de amigo do poeta para finalizar esta coluna de saudade. Não posso deixar de fazer referência a uma circunstância que me levou a conhecer Jurandir Bezerra. Foi através de um dos filhos do poeta, o Walter Ivan, hoje advogado e professor, que vim a conhecer o grande poeta. Meu filho sempre me falava que o pai de um amigo dele era poeta. Nunca atinava que esse poeta fosse de tão alto nível. e um poeta premiado. Jurandir residia no subúrbio do Rio de Janeiro, no conhecido bairro da Vila da Penha, bairro onde morei também durante muito temo. Daí o contato e conseqüente aproximação.Eu, porém, nunca fui apresentado a ele, nem por meu filho, nem pelo Walter. Quando fazia o meu mestrado, um dia, saindo da Faculdade de Letras da UFRJ, no campus do Fundão. em direção ao ponto de ônibus, vi um senhor de estatura mediana, franzinho, de cor clara e já calvo, mas ainda cheio de saúde. Suas feições me lembravam as do poeta Drummond. Sempre bem vestido, usando camisa de mangas compridas por dentro da calça, mas com os punhos fechados, isso lhe dava um ar de refinamento, de aristocracia de gestos mas ao mesmo tempo de um finura, de uma delicadeza que me surpreendia ainda poder ver em alguém. Já disse para muita gente que Jurandir foi a pessoa mais educada que conheci nesta vida. Jurandir tinha ido assistir a um Congresso ou a uma palestra na Faculdade.

Não sei por que, um de nós falou alguma coisa e daí se encetou uma breve conversa que o levou a me dizer das razões de sua ida à Faculdade. Com o continuar da conversa, e com a troca de dados pessoais que nos demos, viemos a ser que os nossos filhos, o Francisco Neto e o filho dele, o Walter, eram amigos e colegas, estudantes de Direito da Faculdade Nacional de Direito da UFRJ. Foi esse o início de nossa grande amizade, que data do início dos anos de 1990. A amizade se estreitou e durou até esta data de seu falecimento.

Nossa amizade não se fez com muita frequência na casa de um ou de outro. Sempre que havia alguma data comemorando aniversário meu, o casal Bezerra lá estava no playground do meu prédio. Trazia-me sempre um presente, que, com o passar do tempo, eu já sabia qual era: uma obra de poesia, e sempre de grande poesia: Cristal, de Paul Celan, Um Escrito sobre Jade, poesia clássica chinesa reimaginada por Haroldo de Campos, uma coletânea composta de de quatro volumes respectivamente de poesia catalã, galega, espanhola, e basca traduzidas e organizadas por Fábio Aristimunha, Vargas.

Era assim Jurandir, um amigo onde a poesia estava sempre presente, seja pelos presentes de livros que me deu com lindas dedicatórias, seja pelas nossas conversas sobre o tema central de sua vida, a poesia, seja pelas nossas conversas pelo telefone, na maior parte falando sobre poesia, autores, temas ligados à técnica poética, ` criação literária, aos planos dele com respeito à sua produção e publicação, aos seus poetas preferidos, Cecília Meireles, Carlos Drummond, Manuel Bandeira, entre outros, à sua mudança de jovem poeta provinciano ainda preso ao cânone tradicional da poesia metrificada e rimada para a sua adesão consciente e progressiva às formas livres da poesia brasileira, do Modernismo até à contemporaneidade, à  sua admiração por poetas como Saint—John Perse (1887-1975) Paul Celan (1920-1970), Trakl (1887-1914) Mário Faustino (1930-1962, ) que conheceu em Belém e com quem falou algumas vezes, o  crítico e ensaísta Benedito Nunes, já faleicdo,   o  seu conterrâneo poeta, para ele, um dos maiores do Pará, Max Nunes,   também  falecido. Além disso, Jurandir Bezerra tinha profundo interesse por tudo que se relacionava com a teoria poética, com a crítica literária, com o ensaio.  Lia sempre e continuamente poesia, combinada com ficção e ensaios, com traduções de poesia do que de melhor  fez  a humanidade. Era muito seletivo nas suas leituras e, nos últimos tempos, me falava que a poesia, a grande poesia, está impregnada de musicalidade, de ritmos e sonoridades.

Sua poesia era formal, hermética, ambígua, quase inabordável. Fora este, segundo ele, o caminho por que enveredou na sua composição poética influenciada pelos grandes poemas universais da modernidade.A confissão a frustração, os problemas pessoais, quando transmudados em poesia, são figurados sobremodo pela metaforização, pela opacidade. O poeta, assim, se esconde do confessional, da poesia realista, mimética. Seu caminho deve ser o da imagem, do símbolo, do mito, da formalização de estofo estético, daí o hermetismo e a sensação ao mesmo tempo da fruição do poema pelo poema em si e pelo que ele desperta no leitor tantas realidades imaginadas, imaginárias, inconscientes, subconscientes, em que os sentidos procurados escapam das vistas do leitor e se ocultam numa concha onde poderia estar tanto o mistério da poesia quanto o significado da vida e do universo.

Dá-me a sua poesia a sensação, guardadas as proporções de diferenças e de estilos literários, da evanescência dos simbolistas, do sofrimento oculto, das dores sufocadas mas sempre presentes e de um vigoroso por vezes sensualismo também mascarado pelo formalismo esteticista de aristocraticante elaboração dos versos e por um imagismo multifacetado quer da natureza física, quer de natureza humana, do corpo, da beleza feminina , do sentimento cristão, da cadência bíblica de alguns poemas evidentes pela sua formação católica, mas sem exageros eclesiais.Poesia “mentada”, reflexiva, trabalhada com a pertinácia de cada vez mais exprimir-se pelas indefinições, pelos ocultamentos e admirável discrição no trato dos temas e dos recursos poéticos de que  lançou mão com a avidez do conhecimento técnico necessário e contínuo no seu ofício de poeta. Julgo, por fim, que a poesia de Jurandir Bezerra bem se poderia alinhar àquela forma de construção artística contemporânea que se realiza não contra a história, a vida social, mas se configura e se forma desse veio poético voltado mais para o conteúdo material e formal da linguagem (Terry Eagleton) que é o próprio ato poético como tema mais caro de transmitir sentidos.

Para terminar este depoimento no momento em que seu corpo desce à sepultura, no Cemitério de Irajá, no Rio de Janeiro, quero registrar ao leitor este pequeno poema, “Encantamento” (p.32) que se encontra na contracapa do seu livro Os limites do Pássaro:



ENCANTAMENTO



Os pássaros entenderam
Tua mensagem
como pássaros.
E vieram dizer-me que eras sempre.
Abri os olhos como se houvesse
noite e não destroços.
Já não estavas mais
nem andorinha
nem relva
nem pedra (preciosa).
Havias amanhecido.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Tradução de um poema de Charles-Pierre Baudelaire(1821-1867): "L'Ennemi"




L’Ennemi



Ma jeunesse ne fut qu’un ténebreux orage,
Traversé çà e là par de brillants soleils;
Le tonnerre et la pluie ont fait um tel ravage
Qu’il reste en mon jardin bien peu de fruits vermeils.

Voilà que j’ai touché l’automne des idées,
Et qu’il faut employer la pelle et les râteaux
Pour rassembler à neuf les terres inondées,
Où l’eau creuse des trous grands comme des tombeaux.

Et qui sait si les fleurs nouvelles que je rêve
Trouveront dans ce sol, lave come une grève
Le mystique aliment qui ferait leur vigueur?

-- Ô douleur! ô douleur! Le Tempos manga ela vie,
Et l’obscur Ennemi que nous ronge le coeur
Du sang que nous perdons croît e se fortifie!





O Inimigo



Não mais do que uma borrasca foi minha juventude,
Cruzada aqui e ali por sóis brilhantes
Um tal estrago fizeram o trovão e a chuva
Que, no meu jardim, quase nada há de vermelhos frutos.


E veja que das ideias o outono atingi,
Sendo mister usar da pá e dos ancinhos
Pra recolher e renovar as terras inundadas,
Onde buracos tumulares a água escava.

Quem sabe as novas flores do meu sonho
Neste solo lavado qual cascalho hão de encontrar
O místico alimento vivificador?

-- Ó dolorida dor! O Tempo a vida tragando,
O Inimigo oculto nosso coração corroendo
Com o sangue derramado, cresce e revigora!



                                                                               (Trad. de Cunha e Silva Filho)