quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Tradução de um poema de Emily Dickinson ( 1830-1886)










I Died for Beauty





I died for Beauty – but was scarce

Adjusted in the Tomb

When One who died for Truth, was lain

In an adjoining Room –



He questioned softly “Why I failed”?

“For beauty”, I replied –

“And I – for Truth – Themselves are One-



And so, as Kinsmen, met a Night-

We talked between the Rooms-

Until the Moss had reached our lips-

And covered up- our names-





Pela Beleza Morri



Pela Beleza morri, porém pouco

Ao Túmulo me habituei

Quando Alguém que, pela Verdade morreu,
Ao lado numa Sala sepultado foi.



Com voz suave me indagou por que havia fracassado ?

“Pela Beleza”, retruquei.

“Eu – pela Verdade. São duas coisas numa só.

Irmãos somos,” acrescentou.



Desta maneira, como Irmãos, com uma Noite nos deparamos.

Entre as Salas conversamos

Até que o Musgo nossos lábios haviam alcançado
E para sempre nossos nomes sepultados.



                                                                                          (Trad. de Cunha e Silva Filho)





domingo, 11 de novembro de 2012

São Paulo e a violência: uma pequena Síria







Cunha e Silva Filho



Não escrevo só para agradar o leitor com boas notícias, ou com o lado glamuroso ou paradisíaco do meu país. Sou mais atraído por aquilo que espera ser consertado, ou seja, os problemas graves ou gravíssimos que clamam por soluções responsáveis e visíveis aos olhos do brasileiro. Longe de mim, esconder as mazelas da minha terra, do meu povo, de quem mora e adotou o Brasil como sua segunda pátria e onde aqui é ou foi feliz.

Por isso, tantas são as minhas recorrências a temas sobre os quais escrevo, não como especialista, mas como cidadão que só aspira ao bem comum de todos nós que vivemos, nos alegramos às vezes e sofremos duramente pelo que há de mais condenável no país: a corrupção, a impunidade, a violência, enfim.

São Paulo, esta cidade gigantesca, está vivendo talvez o mais sanguinário período de violência de que se tem notícia . Não só na capital, mas também no interior.

Na fase presente, que está ao alcance de qualquer pessoa mais ou menos informada, São Paulo, sobretudo a capital, esta urbe que,  nos primeiros anos do século passado, era tão agradável de nela se viver, de repente se tornou um pandemônio, um furacão de matanças, de execuções, de jovens, de inocentes confundidos com marginais, de balas perdidas, de policiais sérios sendo executados, de policiais que não honram a farda que envergam, de cumplicidade de milícias com policiais, de repente, repito, estamos no fogo cruzado , reféns, a qualquer momento, de banidos de todos os lados e de todas as origens.

O governo paulista está se mostrando incompetente porque não vivemos só de retórica de um governante que publicamente faz declarações de que medidas têm sido e serão tomadas e que qualquer ajuda logística do governo federal será bem-vinda. Entretanto, na prática, no cotidiano dos paulistanos e paulistas a realidade não bate com as medidas que alega, alto e bom som, estarem sendo implementadas. Os depoimentos colhidos pela imprensa escrita e televisiva, bem como programas especializados em notícias sobre criminalidade, demonstram à saciedade e à sociedade (sem intenção de trocadilho) que a dura realidade na capital de São Paulo é muito grave mesmo, um caso de polícia (ainda sem intenção de trocadilho).
 Leitor, não é possível que cada dia da semana sete, oito ou mais pessoas são mortas a tiros, ou executadas, ou por outros motivos ainda não bem claramente explicitados pelos órgãos de segurança competentes. Estão morrendo em São Paulo brasileiros em número e frequência tão grandes que mais parecem estarmos vivendo o pesadelo de uma guerra civil em escala menor. Ainda por cima, em meio a mortes contínuas e misteriosas, há a presença dos incendiários de ônibus, que é uma forma de terrorismo sem dúvida e que têm provocado mortes e ferimentos graves nas pessoas.

Não é possível que tenhamos que assistir a toda essa carnificina sem gritarmos por justiça, por providências urgentíssimas e pela ajuda imediata de tropas do governo federal, da polícia federal. É preciso debelar o mal pela raiz em forma de Lei Seca contra o crime e as execuções sumárias. Fosse em outro país com um povo mais patriota e unido, a sociedade, em todos os níveis de estratificação, já estaria nas ruas protestando pacifica e continuadamente contra a incompetência e a falta de autoridade do governo paulista.

Assassinos devem ir para a cadeia, policiais criminosos que desonram a sua corporação devem ser exemplarmente punidos e expulso de suas funções. Os órgãos de segurança deveriam ser mais céleres na erradicação desse tsunami de violência que devora a tranquilidade dos habitantes de São Paulo.

Ressalte-se que a violência não tem endereço. Ela pode atingir até os mais poderosos, o próprio governo e sua imagem junto à sociedade. O governador de São Paulo deveria saber que ele mora cercado da proteção de policiais, assim como os milionários são protegidos por um batalhão de seguranças. Entretanto, a violência tem tantos tentáculos que ela consegue até mesmo quebrar essas barreiras de aparente segurança oficial ou privada. Isso, então, é gravíssimo.

Sabemos que a violência envolve diversos componentes, atores e suas singularidades, onde se imbricam vários tipos de crimes e práticas delituosas e comportamentais da própria sociedade: as drogas, os traficantes, os viciados, os aliciadores, níveis sócias elevados de usuários, contrabando  de armas, de entorpecentes, miséria, desemprego, desagregação familiar, psicopatias sociais, enfim, um somatório que deságua num rio, a princípio, pequeno e estreito e, depois, se alarga num mar profundo de criminalidades multifacetadas.

Quem porém, mais sofre as consequência dramáticas desse vagalhão de violência é a massa, o povo, os indefesos, os trabalhadores sacrificados, as famílias humildes, os que mourejam no trabalho no Centro da cidade, os comerciantes, os bairros periféricos, as favelas, as residências e aqui, façamos um parêntese, o criminoso ataca indiscriminadamente todas as classes sociais se para isso se lhes abrirem brechas ou oportunidades.

A presidente da República e todos as autoridades brasileiras não podem ficar indiferentes à dura realidade do crime e das matanças em São Paulo. O estado de São Paulo, locomotiva econômica do país, metrópole–chave da América Latina, grande centro cultural do país, não merece pelo que está atravessando. Como importante cidade do mundo, com esta criminalidade galopante, só tem a perder aos olhos de outros países e isso economicamente é altamente prejudicial ao Brasil, sobretudo porque sua maior cidade está clamando por socorro e pelo apoio do povo brasileiro. O país não aceita protelações de nossos dirigentes. Os paulistanos, os paulistas em geral, hão de vencer os governos inoperantes. Salvem São Paulo!





quarta-feira, 7 de novembro de 2012

José Ribamar Garcia: uma quase antologia de contos piauienses






Cunha e Silva Filho





José Ribamar Garcia é um ficcionista piauiense bastante conhecido e bem recebido pela crítica no estado do Piauí, com uma obra que já chega, agora, ao décimo livro, não contando com reedições e atualizações ampliadas de parte de sua produção. No entanto não é tão devidamente conhecido no Rio de Janeiro, onde reside há muito tempo. Garcia acaba de lançar a coletânea Contos da minha terra (Livraria Editora Nova Aliança, Teresina, 2012, 196 p.). Traz capa de Andréia Galvão e Imagem capa de Moisés Rego, além de uma apresentação do escritor, poeta, ficcionista e editor piauiense Dílson Lages Monteiro.

A quem, como este resenhista, tem lido e comentado a produção de Ribamar Garcia nos gêneros crônica, novela, conto e romance, desde a sua estreia em 1981, com um opúsculo de apreciadas crônicas memorialísticas, narrando o que ele originalmente chamou como subtítulo na capa de “Depoimentos” sobre a cidade de Teresina, Imagens da cidade verde, edição do autor, impresso pelo Carimbão – Ind. e Com. De Carimbos Ltda, Rio de Janeiro, RJ., a coletânea ora publicada vale como uma espécie de antologia dos melhores contos do autor, porquanto resultou de uma seleção de contos na sua quase totalidade, já que este conjunto de textos inclui dois outros que não se encaixariam com rigor no gênero conto, i.e., os de títulos “A capital do Delta” (p. 57-60) e “Duas cenas” (p.61-62). Ainda no grupo selecionado de contos, há dois contos inéditos, “A tentação de Nazaré” (p.180-185) e “Cadê o carro?”(p. 186-192).

A obra consta de trinta e três textos ficcionais, incluindo as mencionadas duas crônicas. Todos os contos (e crônicas) tem como cenário e enredo o Piauí, seja representado por histórias situadas em Teresina, seja em cidades do interior. Convém assinalar que outro  destacável espaço  físico e humano de sua ficção ( romances, contos,  memórias,  crônicas),    é a vida urbana  e suburbana carioca como palco as  suas paisagens,seus enredos.  Por este prisma,, lembra escritores como Lima Barreto(1881-1922) e João Antônio (1937-1996) para ficarmos com dois escritores brasileiros bem apreciados por Ribamar Garcia e que, em determinados ângulos, provavelmente o tenham influenciado,sobretudo pela temática preferencialmente voltada para as camadas menos favorecidas da sociedade. Vale registrar o que já afirmei alhures sobre a ficção do autor, quanto a  um dado estilístico – a frase enxuta, o sentença curta, ágil, viva, objetiva e de natureza máscula por vezes lembra também o escritor Ernest Heningway (1899-1961), de quem Ribamar Garcia é assíduo leitor. Este dado estilístico se imbrica com algumas preferências temáticas de Hemingway, a inserção nas histórias de lutas, brigas, de ações violentas de alguns personagens, até mesmo a referência ao boxe que aparece tanto no escritor americano quanto em algumas passagens de Garcia.

Garcia é da linhagem dos escritores que não se contentam com a estagnação no plano estético na composição de suas histórias, De livro para livro seus recursos retóricos de linguagem cada vez mais se tornam visíveis naquele aspecto pelo qual a obra de criação literária se pode caracterizar como de qualidade, cuja porta de entrada e de saída é o cuidado com a linguagem, com a adequação da palavra ao tema, espaço, enredo, ideologia, esquema temporal, cortes, ou seja, com o conjunto dos elementos estruturais íntimos indissociáveis da engenharia de construção ficcional, cuja base de sustentação é o processo de ficcionalização da linguagem. Não há ficção sem a trama da linguagem, como bem advertiu recentemente em palestra o crítico e teórico Eduardo Portella. Uma história não pode ser contada somente com o recurso da língua, que é a manifestação geral do pensamento, mas não da emoção estética só fruída pela linguagem como criação e mimesis, tomando este último termo no sentido aristotélico.

É o que Ribamar demonstra na feitura destes contos: linguagem literária a serviço de uma variada temática na qual situações da vida de pessoas simples ou menos simples são flagradas com uma verossimilhança tão convincente que seus protagonistas, adultos e crianças, velhos e jovens, brancos, mulatos ou pretos, íntegros ou canalhas, valentes e covardes parecem saltar vivos na configuração físico-visual e moral, enfim, cúmplices no estabelcimento do pacto com o leitor. Estes flagrantes dramatizam situações do cotidiano de uma galeria de personagens enfrentando os momentos de alegria, tristeza, desencanto, dor e agruras da vida severina, mostrando-nos suas fraquezas, seus segredos e suas emoções, seu sensualismo, suas traquinices infantis, suas vilanias e também sua amizade, sua solidariedade. Seus desfechos,  plenos de humanidades, por vezes são inesperados, trágicos, humorísticos, tragicômicos.

Li   este conjunto de histórias, excetuando os dois contos inéditos já citados, em diferentes tempos, contudo,  não me deixaram  agora  com  a sensação do déjà vu e, desta maneira, me pareceram praticamente como se fossem lidos pela primeira vez, pelo menos a maioria. Reunidos num só volume, os contos ganharam uma unidade geográfica e regional, ao convergirem para o mesmo espaço e para o tempo das histórias no passado, aproximadamente remetendo às décadas de quarenta, cinquenta e sessenta. Talvez só escape desses tempos recuados, o conto “Cadê o carro?”(p.186-192), a se ver por algumas indicações pontuais presentes na narrativa.

Daí terem alguns desses contos um traço diferenciador na sua construção : o viés memorialístico ou autobiográfico (de resto, bastante explorado por alguns ficcionistas contemporâneos, juntamente com o filão do romance histórico) implícita ou explicitamente definidos no discurso ficcional.confirmado pelo narrador em primeira pessoa, em treze contos, em contraste com vinte contos com narrador em terceira pessoa. Neste grupo podemos citar contos como “Ao lado do Velho Monge” (43-47), no qual o narrador-autor é protagonista da história, aliás, uma história relatando a saga do avô do autor, homem destemido, aventureiro, íntegro, que ficou ao lado dos maragatos contra os “chimangos” ou “pica-paus” na Revolta Federalista do Rio Grande do Sul, no período do governo de Floriano Peixoto (1891-1894). Este dava apoio aos chimangos.Em outro conto, o mais extenso da coletânea, “Outro cavaleiro - do dia e da noite”(p.140-160), a história fala das peripécias do pai do autor, seu ídolo de todos os momentos. Este conto talvez seja o ponto alto de todos os textos do livro, sendo a narrativa exemplo de elaboração formal-técnico-estilística .

As aventuras do Seu Assis, um pai batalhador, corajoso, homem de bem, é relatada com mão de mestre pelo escritor. Narrativa movimentada, percorrendo vários espaços do interior do Piauí através de uma viagem de vapor com destino a Teresina, lugar que se tornará seu destino fixo e onde desenvolverá a atividade de comerciante como dono de uma garapeira. De resto, a saga de Seu Assis se encontra bem desenvolvida com mais aprofundamento na obra Entardecer ( Litteris Editora, Rio de Janeiro, 2007), sobre a qual escrevi um ensaio à época de sua publicação.

Para o leitor que não conhece o Brasil literário, esta é uma oportunidade de conhecer os costumes, a flora, a fauna, os meios de produção urbana e rural, a natureza diversificada, os relacionamentos sociais e familiares, enfim, a paisagem física e humana piauiense, a riqueza léxica do linguajar local, suas notações fônicas, expressiva, empregadas não ao modo de Guimarães Rosa (1908-1967), que não é este o objetivo estético do autor cuja narrativa tem como núcleo formal o componente de narrar histórias, de contar experiências de vidas e conflitos humanos, seja pelo imaginário, seja pela via memorial ou autobiográfica segundo  já acentuamo.
 Daí em suas obras, assim como nesta coletânea, usar o autor de digressões de fundo histórico, literário, sociológico, de registros de épocas do passado piauiense. Nos contos há profusão de referências a tipos de moradia, a descrições precisas da paisagem natural e cultural urbana ou interiorana, a nomes reais, lugares reais, anotações pitorescas do folclore, incluindo adágios, canções populares, frases sentenciosas, mitos, assombrações etc. Por outro lado, não se pense que o autor seja apenas aquele bom contador de histórias e causos, tão frequente  na literatura do país. Ribamar Garcia tem plena consciência de seu trabalho literário, de seus meios expressivos, de suas estratégias de narratividade. Haja vista aquela passagem do conto já mencionado, “A tentação de Nazaré”, na qual o narrador-memorialista fez alusão à sua própria atividade, a prováveis motivações de ter se tornado escritor, raízes da memória da infância que surgiram a partir do talento da negra Nazaré para contar histórias que deslumbravam a imaginação e a curiosidade infantil. O escritor nunca é um ingênuo do ponto de vista de seu aprendizado técnico.

Se a linguagem literária é o carro-chefe da produção estética, seja pela composição sintático-estilística, seja pelo influxo poético-lírico que lhe permeia alguns contos com maior intensidade, seus relatos concisos, dinâmicos,  nos quais o autor dá testemunho de ser criativo na arte de narrar curiosas, irônicas, humorísticas situações embaraçosas da vida com espontaneidade, como no último conto do livro, “Almoço de domingo”(193-196), com aquela história da galinha que serviria de almoço para a família e que caiu na latrina da casa.  Nem o mau cheiro de merda impediu de, depois de limpa, ser servida como almoço em tempos de falta de carne na cidade. Uma das linhas de força do autor está na capacidade de montar seus enredos e em criar personagens verossímeis.

Outro fator determinante do bom nível destas narrativas reside no complexo e difícil uso do tempo ficcional – pedra de toque da ficcionalidade. Nele Ribamar Garcia lida com desembaraço, especialmente pelo recursos das anacronias e bem assim do meticuloso cuidado com os cortes indicativos das mudanças de cenários ou de espacialidade,  esta última um traço forte de sua obra.Um narrador não bem informado sobre o que o cerca, um narrador não observador, não  atento a todas as referencialidades físicas, humanas, visuais, sonoras, tácteis, jamais se torna um bom escritor. O que não é o caso de Garcia, um homem ávido de viagens, de movimentos, de informações, de convívio social, de observador da rua e do mundo. Não procurou os meandros da literatura de ousadias formais. Procurou, no entanto, encontrar os meios da linguagem transparente mas cheia de virtualidades de quem aprendeu a escrever ficção.







sábado, 3 de novembro de 2012

Alguns mosaicos globais, não esquecendo o Brasil











Cunha e Silva Filho







No Paquistão, a tentativa de calar o direito à educação  da mulher  defendido pela  adolescente Malala. Na Síria, o acordo de cessar-fogo desrespeitado pelos dois lados e inclusive desrespeitando o representante oficial da ONU. Nos Estados Unidos, a violência das águas e do ventos sob o nome geral de Furacão Sandy.

Em Veneza, as águas subiram e o que já era uma cidade nas águas, virou uma cidade-água. Oxalá que os homens contenham as inundações da bela cidade das gôndolas e que as lembranças do glamuroso Casanova (1725-1798) não se apaguem para sempre!

Em outros países da Europa, o miserê da população, com salários cortados e, paradoxalmente, com o governo decretando aumentos de impostos! Na Argentina, o Estado tomando ares de censor da imprensa livre, dando péssimo exemplo de democracia às Américas.

Novamente, nos Estados Unidos, constamos que cidades importantes não estão preparadas para cataclismos mais potentes, digamos, um tsunami daquele que atingiu o Japão. Os americanos perderam vidas, estão com racionamento de gasolina, falta de energia, de alimentos. Quem já imaginou a poderosa Nova Iorque sofrendo as mazelas de cidadezinhas pobres de várias partes do planeta? Quem já imaginou os nova-iorquinos com fome, com sede, sem transportes, andando a pé ou de bicicletas? Não há país poderosos econômica ou belicamente falando diante da fúria da Natureza. Somos nanicos metidos a besta, que pensam apenas na ilusão de que estamos protegidos, temos dinheiro, temos exércitos e influência sobre os outros, os menores, os desprotegidos, os miseráveis.

Nenhum país está ileso de toda espécie de desgraça, de injustiças contra as populações, de corrupção espalhada pelos quatro cantos do mundo. Todos nós humanos devemos repensar em mil e um coisas a fim de tornar mais respirável este mundo pós-tudo vivendo da indiferença entre o Bem e o Mal, ou seja, resultando numa mistura de práticas de vida coletiva e individual com valores éticos de ponta cabeça.

O nosso Brasil não é exceção, nem bom exemplo em vários prismas, o primeiro sendo o da impunidade contra malversações do Erário Público.Os homens de bem estamos aguardando o gran finale do julgamento do Mensalão. Estamos aguardando a dosimetria - jargão  jurídico com  sonoridade médica -  e sua aplicação real no que tange aos considerados ladrões dos cofres públicos. Em outras palavras, estamos esperando, ansiosos, por resultados concretos, quer dizer, por cadeia para larápios dos contribuintes, tanto no sentido ativo da corrupção quanto no passivo.

O brasileiro quer ver com os próprios olhos que figuras consideradas réus estarão por detrás das grades como os presos brasileiros que infestam nossas presídios. Na fala de alguns ministros ouvi a palavra  “benefícios da lei”. Que diabo é isso? Como falar em abrandamentos de sentenças quando se trata de réus reconhecidamente venais? O Supremo Tribunal Federal deve evitar o pior i.e., a desmoralização da Corte se não mandar para a cadeia alguns indivíduos-chave que cometeram crimes de lesa-pátria. Leniência contra criminosos de colarinho branco é uma palavra que não pode ser utilizada pelos magistrados da Corte Suprema, que rege a Justiça brasileira. O país exige a imparcialidade dos Ministros da Corte. Nada mais do que a aplicação do princípio da dura lex sed lex. Só assim agindo o país dará exemplo de plena maioridade democrática. A era do “Acabou em pizza” deve ser sepultada de vez dos anais da vida política brasileira. Confio na palavra e ação dos Supremo. Data  venia.



terça-feira, 30 de outubro de 2012

No coração do capitalismo













Cunha e Silva Filho



A bonita e simpática correspondente brasileira da Globo News, visivelmente preocupada, procura, no entanto, passar – sem o conseguir - a tranquilidade , ou melhor, a frieza e objetividade das notícias sobre o Furacão Sandy. O desastre está iminente. Vem mesmo.

As autoridades americanas, governadores, prefeitos, o próprio Presidente Obama esquecem os problemas comuns de governo  e se concentram no  maior de todos os problemas  que agora  enfrenta uma nação tão poderosa, amada e odiada, bela e lugar de tantos sonhos americanos e de bem-estar oferecido pela “Terra da Oportunidade”, salvação de tantos imigrantes, melting pot universal onde convivem pacificamente pessoas de diferentes culturas, onde se ouve falar uma multiplicidade de idiomas. Quer-se referir àquele Furacão com ventos catastróficos, chuvas torrenciais, mar encapelado com ondas altíssimas a ponto de saírem das margens e se arrastarem por ruas de Nova Iorque.

Toda a cidade de Nova Iorque assemelha-se  a uma cidade-fantasma. Nas suas ruas, vemos barricadas e outras artefatos de proteção. O centro nervoso está entregue às baratas. Todos corrrem para lugares mais seguros,. As água do mar inunda alguns metros das ruas. A bela cidade, a Big Apple, está triste e desolada, porque se o que ela detesta é não ver suas ruas apinhadas de pessoas de toda a parte. Até a Bolsa de Valores deixou de funcionar ontem, hoje, e talvez ainda não funcioná amanhã. Tudo está paralisado. As ruas,  escuras, A Times Square, sempre movimentadíssima e glamurosa, está molhada e sozinha. As pessoas, parece-me,   não  quererem  acreditar no que estão vendo acontecer   na bela cidade, metrópole do mundo, sonho de todos os turistas. Só alguns homens e mulheres da imprensa internacional são vistos, encapuzados, molhados, friorentos, fazendo alguma possível transmissão ao mundo, como os nossos corajosos correspondentes que enfrentam ainda no cumprimento do dever os riscos a que estão sujeitos em qualquer momento da reportagem.

O rio Hudson está também bravio, aumentando as águas. A Estátua da Liberdade, do alto, ofuscada pela ventania gigantesca, ainda dá algum sinal de vida. Nova Iorque é o coração do mundo, nos negócios, no lazer, no turismo, nas viagens de estudantes estrangeiros, na esperança de imigrantes procurando uma chance de trabalho, difícil nestes tempos bicudos de uma economia abalada.

Não gosto de filmes que retratam uma Nova Iorque apocalíptica. Ideia sem graça e que nada contribui para a grandeza da cidade. Nova Iorque foi feita para a alegria, a vida cultural, para seus espetáculos na Broadway, ou off   Broadway. Nova Iorque foi feita para o sorriso, a alegria, o encantamento. Nunca teve nem terá vocação para o isolamento, o fantasmagórico, a solidão. Nova Iorque precisa de gente muita gente, de turistas, muitos turistas, de pessoas que querem visitar inúmeros lugares importantes.

Seus prédios imponentes, seus edifícios e arranha-céus luminosos, suas ruas elegantes, seus bares e restaurantes, sua segurança , tudo convida à diversão e ao lazer.

Certamente, o Furacão Sandy há de arrefecer sua fúria e deixará em paz Nova Iorque e outras partes devastadas da costa americana. Sei também que os acts of God têm algum sentido de lição aos homens: a de que os homens, em toda a parte do mundo, devem ser mais humanos e mais humildes e, olhando-se interiormente, perceberem quão pequenos somos todos na face da Terra que, por sua vez, é um pingo de areia no Universo. A palavra Sandy tem um sentido que vai mais fundo na nossa imaginação. Em inglês, sand, quer dizer areia, e Sandy, um adjetivo, arenoso, cheio de areia. Não é isso significativo, leitor? O que é a areia senão o isolamento, a destruição, o esfarelamento, o desaparecimento de tudo o que a cultura artificial pode construir?  O  termo areia está associado a castelo, castelo de areia, algo que se faz e se desfaz em segundos, ou algo com que se sonha de grandioso e , de repente, se perde entre nossos dedos.

Nova Iorque, de alguma forma, poder-se-ia chamar de centro do mundo pela sua importância em vários e múltiplos aspectos de sua vida e de suas funções como megalópole. E, por ser assim, é que, metonicamente, o que nela acontece tem repercussão imediata no resto do planeta.

Espero que, no momento em que escrevo estas linhas, alguma coisa tenha melhorado nas cidades americanas atingidas violentamente pelas forças da Natureza.

Tudo que está acontecendo nos Estados Unidos é oportunidade para reflexão sobre a questão do cuidado que o homem deve ter com a Terra. Já é tempo de parar com tanta depredação no planeta, em geral devastação ambiental  visando ao lucro, à cupidez, ao desregramento desencadeados pela sede incontida de acumulação de riqueza  a qualquer preço, seja pelos países como governos, seja por homens individualmente, de todos os setores da atividade humana, e sobretudo dos que fazem do dinheiro, dos negócios, a maior razão da existência. Sejamos mais sensatos, não somos individualmente, o umbigo do mundo. Há muitas terras no planeta com povos famintos, sem instrução, sem saúde, sem nada, clamando por socorro permanente. Isso, em toda a parte, inclusive no Brasil.

Creio que a humanidade dará um passo melhor em seu convívio universal quando os egoísmos forem diminuídos e mesmo apagados do coração das pessoas. Dirão que sou um sonhador, um uópico, um nefelibata como diziam dos poetas simbolistas. Não, nesta altura da minha vida, eu teria mais inclinação pela casmurrice, pela desesperança, pelo pessimismo, se levasse em conta o que de repugnante tenho visto e sabido do que andam fazendo os homens no planeta nos mais diversos segmentos da vida social, ou seja, na política, na vida pública, no comportamento social, nas relações interpessoais.

A não ver toda a sordidez que se nos apresenta o palco da existência, seríamos uns Cândidos ainda mais ingênuos do que o personagem de Voltaire (1694-1778). Vejo, finalmente, a harmonia do planeta como uma decorrência da felicidade sincera entre os homens, entre os homens e a Natureza, sem todo esse arcabouço de alta e nefasta burocracia huxleyana ou mesmo os olhos onipotentes orwellianos da sua exagerada dependência tecnológico-científica e hipertrofiada confiança de que ele, só ele, pode enfeixar, em suas mãos prepotentes e babélicas, o destino de vida e morte da humanidade.



quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O crime ronda o país




Cunha e Silva Filho



Se a parte está no todo, o todo está na parte. Apesar desta formulação que nos lembra um sermão de Vieira, basta um exemplo de mais uma tragédia no cenário interno de uma república de estudante no Jardim Botânico para que reitere o fato de que o atual momento do país evidencia uma das fases mais violentas por que está atravessando a sociedade brasileira. Não é só no Rio, é em São Paulo, nas cidades do interior, nas capitais dos estados.Trágica pandemia de crimes de todas as espécies, de todos os níveis, de todas as crueldades.

Um jovem e promissor estudante cearense, José Leandro Pinheiro, é mais uma vítima de assassínio no Rio de Janeiro. Foi encontrado morto com golpes de facada no seu quarto que dividia com um outro estudante.Vem, agora, uma reflexão, morei aqui no Rio em república de estudante na tempo de preparação para o vestibular e a com vivência que tive com meus colegas de quartos era a melhor possível, com muita amizade e camaradagem, distante, pois, dos perigos de hoje enfrentados pela juventude e pelo próprio clima de hostilidade vivido por nossa juventude. Tão bons foram aqueles tempos que me deixaram lembranças gratas e perenes!

José Leandro, conforme informações da imprensa, foi aluno exemplar da Universidade Federal do Ceará. Transferiu-se paro Rio a fim de cursar o mestrado na área de matemática no respeitado IMPA (Instituto Nacional de Matemática  Pura e Aplicada). Segundo ainda depoimentos tanto da família quanto de colegas, o jovem mestrando era pessoa inteiramente devotada aos estudos. Não tinha vício, era bem estimado por seus colegas que lhe elogiavam a inteligência e as atitudes. Sua morte, ainda sob investigação, aponta para um mistério, não obstante um colega com quem compartilhava moradia, já tenha sido apontado como um suposto autor do crime.

Filho de uma professora do interior do Ceará e de um trabalhador rural, o brilhante estudante teve precoce cortadas e abruptamente cortas  todas as esperanças que nele depositavam os país, os amigos e por certo também os professores e colegas de mestrado. Naturalmente, tudo indicava que faria o doutorado na mesma grande instituição. Todo esse futuro lhe foi negado pela assustadora agressividade. Não, não foram mãos humanas que perpetraram tal homicídio hediondo. Não posso crer que tanta insânia possa vir de um suposto companheiro de quarto do estudante. Queira Deus que não tenha sido ele, porque seria mais do que abominável.

Assim como fizeram com José Leandro, outras tantos crimes macabros têm vitimado jovens de ambos os sexos promissores, com a vida toda pela frente.

Novamente, não posso deixar de falar no componente da impunidade que grassa no país, nas leis brandas, nas chamadas penas progressivas, nos indultos imerecidos, nas liberdades concedidas a celerados de alta periculosidade. Não se está fazendo justiça no país.

Nossos jovens estão morrendo, sem proteção, sem socorro, sem a aplicação da Lei com maiúscula. Como anda o Código Penal ainda em vigor e já caduco para a complexidade dos tempos modernos? Quando iremos resgatar a confiança em nossos legisladores e aplicadores de penas? Quando iremos tomar medidas severas e justas para adolescentes que matam outros adolescentes, crianças, adultos e idosos,  à vezes atae os próprios  pais? 

Quando iremos atualizar o Estatuto da Criança e do Adolescente? Como irão dosar as sentenças de adolescentes que usam de armas de fogo para matar inocentes em todos os lugares, em casa, na rua, nas estradas, nas lojas, nas farmácias, nos shoppins e outros  lugares?   Quem irá efetivamente para a cadeia, cumprir a pena na sua inteireza para os casos de crimes bárbaros e horripilantes? Que tipo de pena capital deveríamos ter em nosso país?

Obviamente, não estou pensando apenas naquela velha ideia que já virou uma espécie de consenso segundo o qual só pobres, pardos e negros irão para o xadrez. Estou pensando, sim, na prisão para o criminoso independente de raça, credo religioso e condição social. A segregação dos facínoras de todos os naipes do convívio da sociedade brasileira deve ser igual e universal.

Não deve haver complacência, sob hipótese alguma, para os infratores de quaisquer delitos e sobretudo  para os  criminosos cruéis. Tudo na legislação criminal deve ser atualizado e endurecido, tais como “habeas corpus”, liminares e quejandos.

Os órfãos, os pais que perderam filhos por mãos assassinas, as esposas que perderam os maridos, os avós que perderam os netos, os noivos que perderam as noivas, os namorados que perderam as namoradas, os amigos que perderam os amigos. Enfim, as famílias brasileiras estão chorando e as suas  lágrimas  não secam por serem brotadas de crimes recorrentes neste vasto país ainda vivendo a plena impunidade.

A tragédia de José Leandro soma-se, assim, às milhares de famílias de  vítimas  de crimes nefandos que clamam por justiça imediata e à altura do desenvolvimento alcançado pelo país em tantas áreas.Pouco adianta progresso material se desacompanhado de avanços no campo da segurança individual e coletiva. Desta coluna quero levar à família do jovem matemático os meus sentimentos de pesar, que, como no sermão de Vieira, não são tão-somente meus, mas de todo o povo brasileiro.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Malala: o direito à educação







                                                        Cunha e Silva Filho


 Corajosa, determinada,  amadurecida  embora tão jovem, Malala Iousufzai, uma paquistanesa de  quinze anos,  quase uma criança,   foi à luta. Não se deixou  intimidar  pelas ameaças de talibãs que dominam  a região em que ela morava com  a família. Sabia o que queria,  ou seja,  queria estudar, exercer seu direito  de  sair da barbárie para a civilização, como lembrou  o comentarista  internacional  Carlo Rossi, da Folha de São Paulo.
               Esta adolescente com  cabeça  de adulta  responsável , espécie de  pequeno  Gandhi de saia,  por  desejar  um direito  inalienável de qualquer  criança, o de estudar, de desenvolver suas  capacidades  intelectivas,  de  sair da escuridão da  ignorância para  a iluminação   do saber, direito   consagrado  universalmente, Malala  enfrentou os inimigos   obscurantistas e  segregadores  culturais,  os  terroristas  e  sanguinários  talibãs, facção  terrorista  e fanática, que não reconhece  o direito  de as mulheres   estudarem.  Num mundo  desenvolvido  em todas  as  áreas do saber  humano,   constitui  um crime  contra  a  pessoa  da mulher  impedi-la de  ter uma formação escolar.  Foi o que  tentaram fazer com a pequena  e bela  Malala, e o fizeram  de forma  covarde,   praticando contra ela um atentado que quase  lhe tirou a vida. Fico imaginando  o que não deve ter  passado essa adolescente para driblar   seus perseguidores na sua  destemida   luta  contra a estupidez  dos bárbaros. Escondendo-se,  correndo,  despistando,  mascarando-se, tudo  fez  a pequena  paquistanesa para  não cair  nas mãos  assassinas  dos terroristas.
A peqeuna líder  conseguiu  ser acolhida  na Inglaterra,  onde  faz   ainda tratamento  do atentado  que sofreu, quase deixando-a  com  sequelas  no cérebro. Esta menina  torna-se, assim,  um símbolo  da  ousadia  de uma  adolescente  para  conquistar  seu direito  à educação.  Oxalá, na Inglaterra  consiga  desenvolver   suas  potencialidades  a  fim de  melhor  lutar  em defesa  da igualdade  feminina de seu  país, não só no que  tange  ao direito de estudar mas também   a todos os direitos  que  os homens  têm  na sociedade civil.
Líder nata,   com atributos  que  a tornaram  da noite  para o dia uma  personalidade  mundial, Malala precisa  de todo  o apoio dos   países   livres no sentido de  propiciar-lhe  condições  de  dar continuidade  aos seus  propósitos  de  disseminar   a educação  para  ambos os sexos,  em todos  os níveis e de assim   contribuir  para a região  de sua  terra natal,   não só no campo da escolaridade  obrigatória  mas também de elevar  o nível  de consciência  política, social e cultural   de seu  país,  hoje ainda tão conturbado  por conflitos  de  ordem  geopolítica.  Ela  há de encontrar   uma lugar  de destaque  como   protagonista   da  paz  e das  as  questões   sociais  e  políticas  de  seu    país. Posso errar,  mas Malala  ainda  poderá   fazer  muita coisa  útil  em defesa  de um Paquistão  livre  do terrorismo  e de outras ameaças que  pairam   sobre  os céus desse  país.
Acredito que  nenhum  país  há de ficar   indiferente  à luta  dessa  adolescente, ainda  hospitalizada em Londres, ainda cheia  de  marcas de ferimentos,   porém    tendo demonstrado   estar  em plena lucidez e ansiosa  por receber  o carinho   de todos e por todos  os meios  de comunicação.
Torçamos,  portanto, pela  felicidade  desta  jovem, por sua   pronta  recuperação.  Malala  é um grande exemplo de   destemor, de valentia,    de  maturidade  precoce já revelados    em tão  tenra idade. E tais  atributos  prendem a nossa curiosidade,  o nosso   interesse, e principalmente fazem  dela  uma  pessoa querida e amada  por todos aqueles  que  prezam  a igualdade  entre  homens e mulheres. Seu nome   torna-se sinônimo de   união entre as mulheres,  de paz entre os homens e de  combate  contra  o terrorismo, o fanatismo religioso  e  o  preconceito em todas as escalas  de sua miséria  e destruição.