Cunha e Silva Filho
Não sabia o que exatamente era. Porém, intuía ser uma notícia que definitivamente iria mudar minha vida, me dar sossego, paz. Aquela paz de que qualquer vivente precisa pra viver sem sobressaltos, a salvo das muitas intempéries da existência. Paz que, na realidade, é difícil de conquistar ou de chegar a mim.
Essa notícia espero hoje, amanhã, depois, todo dia, há anos, no passado, ou mesmo num futuro não tão distante, porquanto, então, viria muito tarde, bem sei.. Com isso não poderia desfrutar, vivê-la na plenitude do que ela seguramente me poderia trazer. Essa notícia não deixa de ser egoística. Só a mim diria respeito e apenas a mim me tornaria feliz, felicíssimo, “felizérrimo” consoante dizem algumas mulheres burguesas, ou outros gêneros conhecidos, no calor dos exageros.
Viria tal notícia pelos Correios? Via SEDEX? Pelo jornal? Pelo email? Pela TV? Pelas redes sociais conhecidas? Não sei, mas seria , sim, uma notícia que me poria em estado de sublimidade, de euforia.
De qualquer forma, de que se constituiria a notícia de que lhes falo agora com tanta insistência?Tenho certeza de que não seria um bilhete acumulado da loteria, que me deixaria milionário. Seria notícia da saúde completa e sonhada que todos gostarima de gozar, resolvendo de vez com todas as nossas aflições físicas? Pressuponho que não. A saúde vale mais do que ela – essa famigerada notícia de que lhes estou falando. Certeza disso tenho. Mas, pra ser bem franco (frase feita trazida à minha fraca memória por um diálogo de um livro de Harold Howard Binns, um professor britânico que, durante algum tempo, no passado, deu aulas de inglês em São Paulo e também através do serviço de radiofonia paulista). Não sei por que as palavras originais e mais artísticas me faltam ao enunciado justamente agora que deveriam ter essa característica distintiva.
Contudo, mais do que questões de estilo, não me sai da cabeça o pensamento – colocado em suspenso – da notícia que sempre retarda para as calendas gregas..
Às vezes, me vem em múltiplas maneiras a ideia de que ela existe ou existirá. Melhor dizendo, a ideia da notícia será definitiva pra minha bem-aventurança cá no planeta Terra. Óbvio é que não será uma noticiazinha qualquer, mas uma big notícia de deixar o meu queixo caído de alegria e de crença em que um dia há de me chegar apanhando-me desprevenido mas alegrando o espírito desanimado.
Sei o quanto ela me angustia, me confrange a mente, me deprime, me exaspera. Sinto que, no fundo, ele existe como potência, não como ato . Entretanto, não há a expectativa alguma de que surja hoje, agora, agorinha. Como ela existe in absentia, isso me consola só um pouco, uma vez que o seu conteúdo soa mais como uma caixa de Pandora. Toda vez que ouço essa palavra penso numa das obras do poeta Da Costa e Silva (1885-1950), a qual, por sinal, tem nome homônimo ao daquela mulher mitológica criada por Vulcano.
Todo dia, sem falta, aguardo a notícia. Ela teima em não vir, talvez porque guarde mais segredos do que imagino que tenha sobre mim e sobre meus feitos ou malefeitos. A notícia torna-se, assim, obsessão, que carrego no meu imo. Tenho receio de que me deixe paranoico, com mania de vê-la me perseguindo pelo pensamento.
Não sei se foi uma criação minha num instante de explosão de que a notícia me daria a alegria das alegrias, o “abre-te, sésamo”, a realização plena, completa, total de que algo de sumamente feliz e bem-vindo viria me acontecer.
Se a notícia causaria alegria, a expectativa dela me causa dor constante, inexplicável, abstrata, impalpável. “No news, good news”, diz o adágio inglês que me leva a esta reflexão:” Não tenho por que permanecer em estado de angústia, pois a ausência de notícia, segundo aquele adágio, é que tudo vai bem, sem motivos pra sofrer por antecipação.”
A minha notícia é de natureza diferente, não se relaciona a alguém afastado que possa me dar aborrecimentos ou tristezas, nem mesmo a algo que tem a ver com outro ser humano. Não, a minha notícia, já acentuei, só a mim pertence, sobretudo porque ninguém pode partilhar do seu conteúdo, da sua realidade impalpável.
Muitas vezes, ela se aproxima de mim, mas não chega àquele “eu profundo” tão presente nos poetas simbolistas, num Cruz e Sousa (1861-1898), por exemplo. Se ela não chega a me tocar, a invadir o meu corpo e penetrar na minha alma, é porque se transmudou em certo objeto ou valor concreto. Sinto, no entanto, que um dia possa atingir essa fase. Ao atingir esta, não saberei se valeu a pena tanta demora e tanto incômodo e angustiante expectativa.
Os temas discutidos neste blog se concentram sobretudo na área de Literatura Brasileira, mas se estendem a outros temas e áreas culturais afins. Os gêneros literários da preferência da produção do autor são crítica literária, ensaios e crônicas. tradução de poesia estrangeira. Áreas de pesquisa e interesse do autor: teoria literária,história literária, vida literária.relação entre literatura, pobreza e violência, literatura universal e literatura de autores piauienses
quarta-feira, 4 de maio de 2011
terça-feira, 3 de maio de 2011
Atritos entre críticos e autores brasileiros contemporâneos
Cunha e Silva Filho
De um debate realizado entre dois críticos bem conhecidos, Alcir Pécora e Beatriz Rezende, realizado no blog de Instituto Moreira Salles, resultou um longo artigo, “A hipótese da crise”, de Pécora publicado, na primeira página do Caderno Prosa & Verso do Globo do dia 23 deste mês e concluído na página 3. Nesta mesma página ainda se publicou um artigo de Miguel Conde, editor-assistente daquele Caderno,“Acusados de compadrio, autores se desentendem com críticos.”
O artigo de Pécora, professor de teoria literária da Unicamp, desdobra a discussão iniciada no mencionado blog, em torno da situação da literatura brasileira contemporânea, sobretudo dos autores mais novos e em particular do nível de valor de parte dessa produção. Para Pécora, a produção ficcional não vai bem, carece de novas formas de exprimir a vida em termos de arte narrativa.
Pécora, entretanto, ao referir-se à arte ficcional, descarta a possibilidade da validade do “romanesco” tendo como parâmetro o que fazia a literatura universal do século 19. Pondera que, a esta altura de novas experiências da vida contemporânea, em que outros meios de comunicação ocupam o que os escritores daquele século representavam como formas de fabulação de estofo realista, já não mais comportam aquele tipo de narrativa.
Ou seja, ao que percebo, para ele o chamado “enredo”, como reprodução da realidade, até mesmo com tintas mais radicais, como ocorreu com o Naturalismo, levando ao extremo a preocupação de retratar a realidade física, moral e psicológica dos personagens da narrativa fundamentada nas leis da ciências físicas e biológicas da época, está fora de cogitação para os tempos cibernéticos de hoje.
Para o critico da Unicamp, a narrativa atual no país, sobretudo a rotulada de “geração 90”, não está produzindo literatura que realmente ofereça novos caminhos originais que valham a pena ser chamados de ficção entendida como expressão de competência de composição ficcional, de originalidade na tratamento da linguagem e de formas diferentes de pensar a literatura. Sabe-se que literatura é técnica – ele mesmo o afirma -, é ter consciência do seu artesanato. Isso, porém, não é tudo no domínio literário, seja em ficção seja em poesia. Não só os componentes estratégicos do arcabouço do gênero erigem o objeto ficcional. Há outras camadas tão e por vezes mais importantes do que a técnica: a infusão dos sentidos com toda a sua capacidade de, através da linguagem, dar vida ao objeto ficcional ou poético. Sem vida, não há linguagem e vice-versa. São interdependentes, partes da mesma moeda, fusão do abstrato na apreensão da existência e seus conflitos com o concreto, a linguagem humana no sentido em que a ciência linguística a entende.
A função do crítico deve ser cautelosa e segura, assim como imparcial. Não significa, por outro lado, que seja transigente com a mediocridade e o desvalor. Deve servir de orientador, completar a visão do leitor comum que lê literatura, da mesma maneira que não deve ser só destrutiva, como diria Álvaro Lins (1912-1970). Julgar demanda paciência, tempo e distanciamento. Nada de generalizar, o que é prematuro e arriscado para quem lida com a crítica.
Clareza sem superficialidade seria um exemplo da boa crítica. Há textos críticos que deixam outros indivíduos que militam no mesmo ofício em dúvida no tocante a enunciados tendentes a hermetismos.
Pécora afirma que muitas vezes se sente melhor lendo teóricos. É uma opção dele. Contudo, a crítica como atividade de julgamento só cresce com o pé no eixo teoria-literatura. Sem isso, perde sua razão de ser porque ela não vive da teoria pela teoria. A literatura até poderia viver sem os críticos, embora estes lhe sejam importantes, complementares, parte de um todo na captação do fenômeno literário.
Pécora ainda assinala que a literatura brasileira contemporânea está pobre. Segundo ele, o fenômeno artístico de escrita é “competitivo.” Da minha parte, diria, que os escritores, à semelhança do que ocorre no campo poético, sofrem da “angústia da influência” de que fala Harold Bloom. Sim, é certo, mas disso os escritores devem estar conscientes, sem recalques, é claro, porque, do contrario, logo deveriam desistir da tentativa da opção literária.
Assisti também ao vídeo apresentado no blog do Instituto Moreira Salles, que deu início a essa “quase” polêmica”. Verifiquei que a ensaísta Beatriz Resende, que, aliás, foi minha professora no mestrado, mais preocupada está com a questão da literatura “nacional’, velha questão várias vezes discutida até por ensaístas e críticos do passado, sendo um deles Afrânio Coutinho (1911-2000). Beatriz Resende mostra preocupação com o que se poderia chamar de caráter nacional da literatura brasileira, levantando algumas indagações: Como os nossos ficcionistas resolveriam o delicado problema de uma escritura narrativa em tempos em que é muito forte a influência de tantos modos de expressão literária vindos de fora do país e mesmo de autores de origens diversas? Seria ainda lícito afirmar que ainda existe literatura nacional na época em que vivemos, tão contaminada de novos meios de comunicação trazidos pela globalização no seu aspecto cibernético? São indagações difíceis de serem respondidas de forma pronta e imediatista.
O artigo de Miguel Conde dá conta desse debate entre aqueles dois críticos e nos informa que a discussão em pauta resultou na reação de escritores contemporâneos: Marcelino Freire, Sérgio Rodrigues, João Paulo Cuenca etc, rebatendo tanto as opiniões de Pécora quanto as de Beatriz Resende. Esta, por seu turno, bastante aborrecida com a repercussão que teve o debate, chegou a dizer, através do Facebook, que deixaria de dar continuidade às suas pesquisas sobre autores ficcionista contemporâneos: ‘Me enchi desses autores contemporâneos. Vou voltar para o velho Lima, Machado, Guimarães Rosa. Não tem erro e não chateiam ninguém. Se quiser ser moderna, falo de Sarah e outros mortos que já sossegaram o ego’. Acredito que não fará isso. Deixou escapar estas palavras num momento de desabafo. Sei que é uma pesquisadora séria e competente.
Penso que dos dois lados há deficiências de comportamento. Só o tempo ensinará a ambos os lados uma forma de convivência cordial. Quantas autores foram entusiaticamente louvados na sua estreia, nos vários gêneros, e hoje não passam de ilustres desconhecidos. Basta ver um livro, 22 diálogos sobre o conto brasileiro (1973). de Temístocles Linhares, crítico e historiador literário, nascido no Paraná, em 1905 crítico que já teve grande prestígio. Vários críticos do passado mais remoto ( a conhecida dupla Sílvio Romero e José Veríssimo), ou menos remoto, não viram confirmadas no futuro seus julgamentos de louvores ou de detrações de autores. A história literária está cheia desses exemplos.
De um debate realizado entre dois críticos bem conhecidos, Alcir Pécora e Beatriz Rezende, realizado no blog de Instituto Moreira Salles, resultou um longo artigo, “A hipótese da crise”, de Pécora publicado, na primeira página do Caderno Prosa & Verso do Globo do dia 23 deste mês e concluído na página 3. Nesta mesma página ainda se publicou um artigo de Miguel Conde, editor-assistente daquele Caderno,“Acusados de compadrio, autores se desentendem com críticos.”
O artigo de Pécora, professor de teoria literária da Unicamp, desdobra a discussão iniciada no mencionado blog, em torno da situação da literatura brasileira contemporânea, sobretudo dos autores mais novos e em particular do nível de valor de parte dessa produção. Para Pécora, a produção ficcional não vai bem, carece de novas formas de exprimir a vida em termos de arte narrativa.
Pécora, entretanto, ao referir-se à arte ficcional, descarta a possibilidade da validade do “romanesco” tendo como parâmetro o que fazia a literatura universal do século 19. Pondera que, a esta altura de novas experiências da vida contemporânea, em que outros meios de comunicação ocupam o que os escritores daquele século representavam como formas de fabulação de estofo realista, já não mais comportam aquele tipo de narrativa.
Ou seja, ao que percebo, para ele o chamado “enredo”, como reprodução da realidade, até mesmo com tintas mais radicais, como ocorreu com o Naturalismo, levando ao extremo a preocupação de retratar a realidade física, moral e psicológica dos personagens da narrativa fundamentada nas leis da ciências físicas e biológicas da época, está fora de cogitação para os tempos cibernéticos de hoje.
Para o critico da Unicamp, a narrativa atual no país, sobretudo a rotulada de “geração 90”, não está produzindo literatura que realmente ofereça novos caminhos originais que valham a pena ser chamados de ficção entendida como expressão de competência de composição ficcional, de originalidade na tratamento da linguagem e de formas diferentes de pensar a literatura. Sabe-se que literatura é técnica – ele mesmo o afirma -, é ter consciência do seu artesanato. Isso, porém, não é tudo no domínio literário, seja em ficção seja em poesia. Não só os componentes estratégicos do arcabouço do gênero erigem o objeto ficcional. Há outras camadas tão e por vezes mais importantes do que a técnica: a infusão dos sentidos com toda a sua capacidade de, através da linguagem, dar vida ao objeto ficcional ou poético. Sem vida, não há linguagem e vice-versa. São interdependentes, partes da mesma moeda, fusão do abstrato na apreensão da existência e seus conflitos com o concreto, a linguagem humana no sentido em que a ciência linguística a entende.
A função do crítico deve ser cautelosa e segura, assim como imparcial. Não significa, por outro lado, que seja transigente com a mediocridade e o desvalor. Deve servir de orientador, completar a visão do leitor comum que lê literatura, da mesma maneira que não deve ser só destrutiva, como diria Álvaro Lins (1912-1970). Julgar demanda paciência, tempo e distanciamento. Nada de generalizar, o que é prematuro e arriscado para quem lida com a crítica.
Clareza sem superficialidade seria um exemplo da boa crítica. Há textos críticos que deixam outros indivíduos que militam no mesmo ofício em dúvida no tocante a enunciados tendentes a hermetismos.
Pécora afirma que muitas vezes se sente melhor lendo teóricos. É uma opção dele. Contudo, a crítica como atividade de julgamento só cresce com o pé no eixo teoria-literatura. Sem isso, perde sua razão de ser porque ela não vive da teoria pela teoria. A literatura até poderia viver sem os críticos, embora estes lhe sejam importantes, complementares, parte de um todo na captação do fenômeno literário.
Pécora ainda assinala que a literatura brasileira contemporânea está pobre. Segundo ele, o fenômeno artístico de escrita é “competitivo.” Da minha parte, diria, que os escritores, à semelhança do que ocorre no campo poético, sofrem da “angústia da influência” de que fala Harold Bloom. Sim, é certo, mas disso os escritores devem estar conscientes, sem recalques, é claro, porque, do contrario, logo deveriam desistir da tentativa da opção literária.
Assisti também ao vídeo apresentado no blog do Instituto Moreira Salles, que deu início a essa “quase” polêmica”. Verifiquei que a ensaísta Beatriz Resende, que, aliás, foi minha professora no mestrado, mais preocupada está com a questão da literatura “nacional’, velha questão várias vezes discutida até por ensaístas e críticos do passado, sendo um deles Afrânio Coutinho (1911-2000). Beatriz Resende mostra preocupação com o que se poderia chamar de caráter nacional da literatura brasileira, levantando algumas indagações: Como os nossos ficcionistas resolveriam o delicado problema de uma escritura narrativa em tempos em que é muito forte a influência de tantos modos de expressão literária vindos de fora do país e mesmo de autores de origens diversas? Seria ainda lícito afirmar que ainda existe literatura nacional na época em que vivemos, tão contaminada de novos meios de comunicação trazidos pela globalização no seu aspecto cibernético? São indagações difíceis de serem respondidas de forma pronta e imediatista.
O artigo de Miguel Conde dá conta desse debate entre aqueles dois críticos e nos informa que a discussão em pauta resultou na reação de escritores contemporâneos: Marcelino Freire, Sérgio Rodrigues, João Paulo Cuenca etc, rebatendo tanto as opiniões de Pécora quanto as de Beatriz Resende. Esta, por seu turno, bastante aborrecida com a repercussão que teve o debate, chegou a dizer, através do Facebook, que deixaria de dar continuidade às suas pesquisas sobre autores ficcionista contemporâneos: ‘Me enchi desses autores contemporâneos. Vou voltar para o velho Lima, Machado, Guimarães Rosa. Não tem erro e não chateiam ninguém. Se quiser ser moderna, falo de Sarah e outros mortos que já sossegaram o ego’. Acredito que não fará isso. Deixou escapar estas palavras num momento de desabafo. Sei que é uma pesquisadora séria e competente.
Penso que dos dois lados há deficiências de comportamento. Só o tempo ensinará a ambos os lados uma forma de convivência cordial. Quantas autores foram entusiaticamente louvados na sua estreia, nos vários gêneros, e hoje não passam de ilustres desconhecidos. Basta ver um livro, 22 diálogos sobre o conto brasileiro (1973). de Temístocles Linhares, crítico e historiador literário, nascido no Paraná, em 1905 crítico que já teve grande prestígio. Vários críticos do passado mais remoto ( a conhecida dupla Sílvio Romero e José Veríssimo), ou menos remoto, não viram confirmadas no futuro seus julgamentos de louvores ou de detrações de autores. A história literária está cheia desses exemplos.
sábado, 30 de abril de 2011
Mais um poema de John G. Saxe (1816-1887)
The blind men and the elephant
By John G. Saxe
It was six men of Indostan,
To learning much inclined,
Who went to see the elephant, -
Though all of them were blind, -
That each by observation
Might satisfy his mind.
The first approached the elephant,
And happening to fall
Against his broad and sturdy side,
At once began to bawl:
“Now bless me! But the elephant
Is very like a wall!”
The second, feeling of the tusk,
Cried: “Ho! What have we here,
So very round and smooth and sharp”
To me it is mighty clear,
This wonder of an elephant
Is very like a pear!”
The third approached the animal,
And happening to take
The squirming trunk within his hands,
Thus boldly up and spake:
“I see, “quoth he, the elephant
Is very like a snake!”
The fourth reached out his eager hand,
And felt about the knee:
“What most this wondrous beast is like
It might plain,” quoth he;
“it is clear enough the elephant
Is very like a tree”.
The fifth, who chanced to touch the ear,
Said: “Even the blindest man
Can tell what this resembles most:
Deny the fact who can,
This marvel of an elephant
Is very like a fan!”
The sixth no sooner had begun
About the beast to grope,
Than, seizing on the swinging tail
That fell within his scope,
“I see,” quoth he, “the elephant
Is very lie a rope!”
And so theses men of Indostan
Disputed loud and long,
Each in is own opinion,
Exceeding stiff and strong,
Though each was partly in the right,
And all were in the wrong!
Os cegos e o elefante
Do Indostão seis homens eram
Ao conhecimento muito inclinados
Os quais o elefante ver foram, -
Conquanto cada qual cego fosse,-
Bom observador cada um
Sua deficiência compensar podia.
Acercou-se o primeiro do elefante,
Que, por acaso, veio cair
De encontro ao flanco largo e robusto
A gritar de imediato principiou:
“Valha-me Deus! O elefante, porém,
A um muro se compara!”
O segundo, sentindo-lhe a presa,
Gritou: “Olá! O que temos aqui,
Tão redondo e liso e afiado?”
Pra mim nada mais cristalino,
Esta maravilha de elefante
Mais uma lança parece!”
O terceiro do animal se aproximou
E, ocorrendo-lhe colocar
Nas suas mãos a tromba serpeante,
Ousadamente assim bradou:
“Eu vejo,” disse, que o elefante
Uma cobra lembra muito.”
O quarto a mão com avidez estendeu,
Apalpando-o até ao joelho:
“Com o que este animal grandioso mais se parece
Sem sombra de dúvida, disse ele;
“Nada mais evidente que o elefante
Se iguala a uma árvore!”
O quinto, que, por sinal, lhe tocou a orelha,
Afirmou: “Mesmo o mais cego dos cegos
Sabe dizer com o que mais se parece o elefante:
Prove-me o contrário, se puder,
Esta maravilha de elefante
É a cara de um abano !”
O sexto mal acabara
De apalpar, aqui e ali, o quadrúpede,
Quando, agarrando-se à cauda ondulante,
Ao seu alcance veio tê-la,
“Eu vejo,” disse, “ o elefante
Tem de uma corda a aparência!”
Deste modo, estes homens do Indostão,
Em voz alta e demorada discutiram,
Cada qual com a sua opinião,
Excedendo-se em rigidez e veemência,
Posto cada um só em parte certo estava,
Todos, no entanto, errados estavam.
(Tradução de Cunha e Silva Filho”
By John G. Saxe
It was six men of Indostan,
To learning much inclined,
Who went to see the elephant, -
Though all of them were blind, -
That each by observation
Might satisfy his mind.
The first approached the elephant,
And happening to fall
Against his broad and sturdy side,
At once began to bawl:
“Now bless me! But the elephant
Is very like a wall!”
The second, feeling of the tusk,
Cried: “Ho! What have we here,
So very round and smooth and sharp”
To me it is mighty clear,
This wonder of an elephant
Is very like a pear!”
The third approached the animal,
And happening to take
The squirming trunk within his hands,
Thus boldly up and spake:
“I see, “quoth he, the elephant
Is very like a snake!”
The fourth reached out his eager hand,
And felt about the knee:
“What most this wondrous beast is like
It might plain,” quoth he;
“it is clear enough the elephant
Is very like a tree”.
The fifth, who chanced to touch the ear,
Said: “Even the blindest man
Can tell what this resembles most:
Deny the fact who can,
This marvel of an elephant
Is very like a fan!”
The sixth no sooner had begun
About the beast to grope,
Than, seizing on the swinging tail
That fell within his scope,
“I see,” quoth he, “the elephant
Is very lie a rope!”
And so theses men of Indostan
Disputed loud and long,
Each in is own opinion,
Exceeding stiff and strong,
Though each was partly in the right,
And all were in the wrong!
Os cegos e o elefante
Do Indostão seis homens eram
Ao conhecimento muito inclinados
Os quais o elefante ver foram, -
Conquanto cada qual cego fosse,-
Bom observador cada um
Sua deficiência compensar podia.
Acercou-se o primeiro do elefante,
Que, por acaso, veio cair
De encontro ao flanco largo e robusto
A gritar de imediato principiou:
“Valha-me Deus! O elefante, porém,
A um muro se compara!”
O segundo, sentindo-lhe a presa,
Gritou: “Olá! O que temos aqui,
Tão redondo e liso e afiado?”
Pra mim nada mais cristalino,
Esta maravilha de elefante
Mais uma lança parece!”
O terceiro do animal se aproximou
E, ocorrendo-lhe colocar
Nas suas mãos a tromba serpeante,
Ousadamente assim bradou:
“Eu vejo,” disse, que o elefante
Uma cobra lembra muito.”
O quarto a mão com avidez estendeu,
Apalpando-o até ao joelho:
“Com o que este animal grandioso mais se parece
Sem sombra de dúvida, disse ele;
“Nada mais evidente que o elefante
Se iguala a uma árvore!”
O quinto, que, por sinal, lhe tocou a orelha,
Afirmou: “Mesmo o mais cego dos cegos
Sabe dizer com o que mais se parece o elefante:
Prove-me o contrário, se puder,
Esta maravilha de elefante
É a cara de um abano !”
O sexto mal acabara
De apalpar, aqui e ali, o quadrúpede,
Quando, agarrando-se à cauda ondulante,
Ao seu alcance veio tê-la,
“Eu vejo,” disse, “ o elefante
Tem de uma corda a aparência!”
Deste modo, estes homens do Indostão,
Em voz alta e demorada discutiram,
Cada qual com a sua opinião,
Excedendo-se em rigidez e veemência,
Posto cada um só em parte certo estava,
Todos, no entanto, errados estavam.
(Tradução de Cunha e Silva Filho”
quinta-feira, 21 de abril de 2011
Só estavam esperando a vitória de Dilma Rousseff
Cunha e Silva Filho
Até o último dia de Lula na Presidência, nada se contava sobre a situação financeira do Brasil. A economia andava às mil maravilhas, tudo era motivo de festa e de deslumbramento ( não confundir com o “alumbramento” bandeiriano) a pequena burguesia corria pressurosa aos shoppings, às compras de toda espécie. Mesmo os jornais de maior projeção nacional pareciam solidarizar-se com o silêncio das verdades relativas à economia, com o que estava debaixo dos panos, ou do tapete ( que não podia tirar de ninguém, muito menos do intocável Lula) ou dos bastidores da “copa e cozinha” áulico-plalaciana. Nenhum pio, ou tudo botava o barco da vitória a perder. “ A Vida é bela” – este deveria ser o lema daquela fase da campanha à sucessão presidencial.. O embuste era preciso.
Veio a eleição. Veio a vitória. Veio a verdade da quotidiano da vida brasileira. Lula não continuaria a dizer: “Vão às compras! Comprem, comprem, comprem, que o país é de vocês”. A classe média obedeceu literalmente, ate o povão cuja aspiração maior deve ser pelo menos passar de uma letra pra a outra em termos de classe social. Eram compras e mais compras: cartões de crédito, empréstimos, agiotas, o escambau!”
Este o país antes do último dia da campanha petista -multipartidária. Ora, com exceção do tucanato, que também faz das suas, quase todos os candidatos citavam Lula como o maior cabo eleitoral que este país já teve, homem respeitado no exterior, até por pensadores de renome. “Lula é da esquerda”, proclamou um desses pensadores. Ora, nunca Lula foi de esquerda, principalmente porque nem leu uma página sequer de Marx, nem é homem dado a leituras difíceis, talvez nem às simples. Não poderia ser da esquerda quem deu tanto lucros ao grande capital, inclusive o vice dele era conhecido capitalista.
A posse de Dilma Rousseff. Os aplausos, os choros de emoção do petismo. A glória de um novo raiar, um sol mais límpido. Nada de nuvens escuras, nada de tormentas. Só bonança. Primeira mulher a presidir os destinos da pátria amada. Presidente ou Presidenta? Consultem o Bechara, que é mais seguro.
Houve a formação do Ministério da novel Presidente. Os ministros foram empossados. Alguns permaneceram, outros saíram. O ano de 2011 mal se espreguiçava, parecendo não querer despertar e sair do leito ainda com o cheiro do silêncio e o ufanismo lulista.
Abro o jornal, ligo a televisão, pequenas notícias alusivas a problemas de inflação, de alta de juros, da questão de câmbio começam a aflorar, em doses homeopáticas. São noticias sobre economia e situação das finanças brasileiras que vão dando sinais contrastantes do último dia do Lula. Ainda ouço algumas frases dele ecoando em todos os cantos do país: “Nunca um país teve um presidente tão...” Este tipo de frase virou um bordão, até em programas humorísticos. São frases de efeito típicas do populismo tão ainda entranhado entre nós e que ainda faz as alegrias do populacho.
À medida que os dias dos primeiros meses deste ano vão virando na folhinha, a gente começa a sentir que a atmosfera não é tão alvissareira como se pensava. A crise mundial europeia, a partir de 2008, a aguda situação econômico-financeira dos EUA, os conflitos bélicos em países árabes, a presença chinesa no mercado internacional, a grande tragédia japonesa, tudo isso vai alterando a temperatura do mundo da economia globalizada, com reflexos negativos e perniciosos que se alastram como epidemias.
Antes, nossos ministros das áreas econômica e financeira pareciam estar imunes aos vendavais da crise financeira europeia, crise mais provocada pela ambição desmedida de especuladores do setores bancários, conforme foi tão lucidamente analisada pelo colunista Rubens Ricupero na Folha de São Paulo do último domingo. A miséria de nossa situação pessoal, no que tange à situação financeira de cada um de nós, é provocada por desonestos e ambiciosos financistas que só pensam nas regalias e na suntuosidade de suas vidas vividas em meio à miséria dos povos.
Voltando ao Brasil, o que entre nós se deu entre o paraíso exibido pelo governo de Lula e o que se está vendo agora mesmo foi uma espécie de trégua de estado de bem-estar e de segurança financeira e econômica, que não era real, mas aparente e eleitoreira, já indiciadas pelas novidades – não favoráveis – das primeiras modificações ocorridas no atual governo federal. A princípio, tudo faz crer que aquele estado de delícias de governo não era assim tão verdadeiro, mas o seu desvelamento, nos arraiais da economia nacional poderia ocasionar fragorosa derrota eleitoral, não permitindo que o lulismo desse continuidade, alcançando mais quatro anos ou, quem sabe, mais oito anos no poder, perfazendo, assim, dezesseis anos de domínio político, o que nada é bom para o país nem para a democracia, cujo corpo vivo necessita de alternância de poder, de preferência, em períodos de curta duração.
Lembram-se do dilúvio de concursos públicos durante o segundo mandato do Lula? Do incentivo ao consumismo? Dos gastos milionários em todos os setores do governo, inclusive cartões para funcionários do alto escalão? Do “Escândalo do Mensalão”, até hoje sem a punição exemplar dos grandes culpados? Da omissão do Presidente Lula a tudo isso? Dos gastos astronômicos do governo em campanhas nas eleições? Ao povo foi permitido saber a verdade de todos esses fatos que envergonham o país?
Do silêncio da verdade entre o período da campanha ao estado de coisas do presente há uma profunda lacuna, e é esta lacuna, a do silêncio e do engodo, que me inquieta e me indigna.
Até o último dia de Lula na Presidência, nada se contava sobre a situação financeira do Brasil. A economia andava às mil maravilhas, tudo era motivo de festa e de deslumbramento ( não confundir com o “alumbramento” bandeiriano) a pequena burguesia corria pressurosa aos shoppings, às compras de toda espécie. Mesmo os jornais de maior projeção nacional pareciam solidarizar-se com o silêncio das verdades relativas à economia, com o que estava debaixo dos panos, ou do tapete ( que não podia tirar de ninguém, muito menos do intocável Lula) ou dos bastidores da “copa e cozinha” áulico-plalaciana. Nenhum pio, ou tudo botava o barco da vitória a perder. “ A Vida é bela” – este deveria ser o lema daquela fase da campanha à sucessão presidencial.. O embuste era preciso.
Veio a eleição. Veio a vitória. Veio a verdade da quotidiano da vida brasileira. Lula não continuaria a dizer: “Vão às compras! Comprem, comprem, comprem, que o país é de vocês”. A classe média obedeceu literalmente, ate o povão cuja aspiração maior deve ser pelo menos passar de uma letra pra a outra em termos de classe social. Eram compras e mais compras: cartões de crédito, empréstimos, agiotas, o escambau!”
Este o país antes do último dia da campanha petista -multipartidária. Ora, com exceção do tucanato, que também faz das suas, quase todos os candidatos citavam Lula como o maior cabo eleitoral que este país já teve, homem respeitado no exterior, até por pensadores de renome. “Lula é da esquerda”, proclamou um desses pensadores. Ora, nunca Lula foi de esquerda, principalmente porque nem leu uma página sequer de Marx, nem é homem dado a leituras difíceis, talvez nem às simples. Não poderia ser da esquerda quem deu tanto lucros ao grande capital, inclusive o vice dele era conhecido capitalista.
A posse de Dilma Rousseff. Os aplausos, os choros de emoção do petismo. A glória de um novo raiar, um sol mais límpido. Nada de nuvens escuras, nada de tormentas. Só bonança. Primeira mulher a presidir os destinos da pátria amada. Presidente ou Presidenta? Consultem o Bechara, que é mais seguro.
Houve a formação do Ministério da novel Presidente. Os ministros foram empossados. Alguns permaneceram, outros saíram. O ano de 2011 mal se espreguiçava, parecendo não querer despertar e sair do leito ainda com o cheiro do silêncio e o ufanismo lulista.
Abro o jornal, ligo a televisão, pequenas notícias alusivas a problemas de inflação, de alta de juros, da questão de câmbio começam a aflorar, em doses homeopáticas. São noticias sobre economia e situação das finanças brasileiras que vão dando sinais contrastantes do último dia do Lula. Ainda ouço algumas frases dele ecoando em todos os cantos do país: “Nunca um país teve um presidente tão...” Este tipo de frase virou um bordão, até em programas humorísticos. São frases de efeito típicas do populismo tão ainda entranhado entre nós e que ainda faz as alegrias do populacho.
À medida que os dias dos primeiros meses deste ano vão virando na folhinha, a gente começa a sentir que a atmosfera não é tão alvissareira como se pensava. A crise mundial europeia, a partir de 2008, a aguda situação econômico-financeira dos EUA, os conflitos bélicos em países árabes, a presença chinesa no mercado internacional, a grande tragédia japonesa, tudo isso vai alterando a temperatura do mundo da economia globalizada, com reflexos negativos e perniciosos que se alastram como epidemias.
Antes, nossos ministros das áreas econômica e financeira pareciam estar imunes aos vendavais da crise financeira europeia, crise mais provocada pela ambição desmedida de especuladores do setores bancários, conforme foi tão lucidamente analisada pelo colunista Rubens Ricupero na Folha de São Paulo do último domingo. A miséria de nossa situação pessoal, no que tange à situação financeira de cada um de nós, é provocada por desonestos e ambiciosos financistas que só pensam nas regalias e na suntuosidade de suas vidas vividas em meio à miséria dos povos.
Voltando ao Brasil, o que entre nós se deu entre o paraíso exibido pelo governo de Lula e o que se está vendo agora mesmo foi uma espécie de trégua de estado de bem-estar e de segurança financeira e econômica, que não era real, mas aparente e eleitoreira, já indiciadas pelas novidades – não favoráveis – das primeiras modificações ocorridas no atual governo federal. A princípio, tudo faz crer que aquele estado de delícias de governo não era assim tão verdadeiro, mas o seu desvelamento, nos arraiais da economia nacional poderia ocasionar fragorosa derrota eleitoral, não permitindo que o lulismo desse continuidade, alcançando mais quatro anos ou, quem sabe, mais oito anos no poder, perfazendo, assim, dezesseis anos de domínio político, o que nada é bom para o país nem para a democracia, cujo corpo vivo necessita de alternância de poder, de preferência, em períodos de curta duração.
Lembram-se do dilúvio de concursos públicos durante o segundo mandato do Lula? Do incentivo ao consumismo? Dos gastos milionários em todos os setores do governo, inclusive cartões para funcionários do alto escalão? Do “Escândalo do Mensalão”, até hoje sem a punição exemplar dos grandes culpados? Da omissão do Presidente Lula a tudo isso? Dos gastos astronômicos do governo em campanhas nas eleições? Ao povo foi permitido saber a verdade de todos esses fatos que envergonham o país?
Do silêncio da verdade entre o período da campanha ao estado de coisas do presente há uma profunda lacuna, e é esta lacuna, a do silêncio e do engodo, que me inquieta e me indigna.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Literatura: declínio da crítica literária?
Cunha e Silva Filho
Leitores mais antigos, como eu, há tempos vêm se habituando a algumas notícias sobre gêneros literários, notícias nada alvissareiras, em particular anunciadoras da morte da poesia, que seria uma heresia tremenda. Agora, leio na Folha de São Paulo (caderno Ilustríssima, literatura, 17/04/2011, p. 6, ilustração de Paulo Monteiro) uma parte, a quarta, de título “O piano” – narrar, representar, interpretar (trad. de Paulo Werneck, de um diário de Ricardo Piglia, ficcionista argentino estabelecido nos EUA na condição de professor da Universidade de Princeton. Nessa parte, Piglia, por sua vez, anuncia o “sumiço” da crítica literária, gênero que teve ( e eu diria ainda tem em várias partes do mundo) eminentes cultores, alguns nomeados por ele como Iuri Tiniánov ( 1894-1943) Franco Fortini (1917-1994), Edmund Wilson ( 1895-1972) Ainda segundo Piglia, a crítica literária tem sido “.. mais afetada pela situação da literatura.”
Essa tradição de crítica para ele já foi um espaço de referência nos debates públicos voltados para o que denomina “ construção de sentido de uma comunidade”
Por outro lado, Piglia assinala com ênfase que as vozes de interpretação literário-crítica de hoje se encontram nas mãos de historiadores renomados, tais como Carlo Ginzburg, Robert Darnton, François Hartog ou Roger Chartier. Piglia conclui palidamente, nessa página do diário relativa cronologicamente a uma “terça-feira,” que os citados historiadores tomaram como matéria de estudos a “leitura dos textos,” que se torna “um assunto” do passado ou do estudo do passado.”, circunstância que, todavia, não lhes diminui o peso valorativo de seus trabalhos relacionados a assuntos literários e culturais em geral, porém voltados notadamente ao passado.
As assertivas de Piglia me soam um tanto ambíguas, sobretudo porque nesse mesmo trecho do diário, ao declarar ser a crítica o gênero “mais afetado pela situação atual da literatura” (grifos meus), ele não explicita adequadamente sobre que “situação atual” está falando, assim como não faz a necessária mediação entre produções de historiadores modernos e crítica literária. Deixa, assim, no ar as divisões de esferas de atuação de escritas e temas diferentes, não obstante conectadas ao passado.
De qualquer maneira, o que se tem visto de estudos atualmente no gênero da crítica e do ensaio literários são autores oriundos de campos especializados fora do eixo central da literatura, i.e., os historiadores passam a exercer uma função crítica de uma área cultural para a qual em tese não tiveram preparação teórica estrita, que se resumiria no aprofundamento de disciplinas específicas e que demandam tempo prolongado e “treinamento” apropriado, para usar um termo de Terry Eagleton, dos alunos de literatura por parte de seus professores, sobretudo nas técnicas de análises de poemas.O crítico literário, por sua vez, não pode exercer sua atividade sem seguros conhecimentos das disciplinas teoria literária, ciência da literatura,, poética, história literária, linguística, filologia, gramática, línguas clássicas e línguas modernas. São elementos vitais ao estudos de letras que, sem elas, a competência do estudioso se torna, ipso facto, incompleta
O mesmo procedimento estender-se-ia aos textos ficcionais, estes talvez os mais procurados pelos críticos-historiadores dadas as relações mais íntimas entre a narrativa histórica e a narrativa ficcional. Com uma situação análoga se depararia o crítico literário ao defrontar-se com a matéria prima dos historiadores. Ainda haveria oura possibilidade, ado historiador pesquisando o chamado romance histórico, conhecido também como ficção de extração histórica, filão de estudos literarios muto pesquisado ultimamente nos curso de literatura. Deste último exemplo, as visões dos historiadores e dos cxríticos seriam bem férteis ao lidarem com esta matéria.
Não se queira inferir que estou tentando afirmar ser impossível – como na prática não o é -, com tantas exceções de bons críticos literários terem sido também autores de obras históricas, como no país, foram Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), o general Nelson Werneck Sodré (1911-1999), Álvaro Lins (1912-1970) e outros. Neste sentido, há ainda outras situações, a de escritores-ficcionistas que escrevem romances históricos, assim como historiadores que escrevem ficção, por exemplo, no passado, Rocha Pombo (1857-1933).
Poder-se-ia incluir algumas outras situações isoladas, como a do romancista-crítico, do romancista-poeta-crítico, situações que, de resto, não são decorrentes dos dias de hoje apenas, pois sempre houve escritores com talentos polimorfos capazes de atuarem em diversos gêneros literarios. Enfim, existem ainda aqueles intelectuais formados em áreas dissociadas do campo da literatura, mas que, com o tempo, fizeram opções para este campo, ou por estudos independentes (caso do citado Álvaro Lins, formado em direito, mas dedicou-se a lecionar literatura (Colégio Pedro II e em Portugal) e exerceu a crítica literária, além de ter sido diplomata), ou porque realizaram cursos até fora do país, como ocorreu com Afrânio Coutinho (1911-2000), primeiro formado em medicina, e depois se tornando professor do ensino médio (Colégio Pedro II) de literatura e, em seguida, fez cursos na Universidade de Colúmbia De volta ao Brasil, tornou-se professor titular de literatura brasileira da Universidade do Brasil, hoje UFRJ., com Fábio Lucas, formado, primeiro, em economia e, pela vida afora, dedicou-se à crítica literária, tendo sido também professor no país e no exterior. Alguns outros exemplos semelhantes se poderiam mencionar.
Uma diferença, no entanto, é clara, a qual separa os dois extremos, historiadores-críticos e críticos-historiadores, tanto estes quanto aqueles, para serem bons, devem se munir de abordagens críticas que terão maior validade a partir de sua formação específica, num caso o instrumental interpretativo da disciplina história e de áreas afins; no outro, o do conhecimento literário, de preferência com aparato formal, ou seja, de domínio da teoria literária e de áreas afins. A questão que se põe se assenta no predomínio do estritamente literário ou do estritamente histórico. Ambos, entretanto, operacionalizados sem clivagens radicais.
Não intento afirmar, com isso – é preciso reiterar -, que a formação universitária e pós-universitária na área de letras vá prescindir do inestimável suporte interdisciplinar. Longe disso. Áreas de extrema importância ao estudioso de letras como história, filosofia, sociologia, antropologia, entre outras, só haverão de ampliar a formação integral do especialista.
Bem podem ser até excelentes as produções de obras sobre ficção escritas por competentes historiadores. No entanto, a “leitura” destes não pode ser comparadas às investigações de críticos e de grandes ensaístas com ampla e sólida formação no domínio especificamente literário.
A visão crítica do historiador, ao se debruçar sobre escritores de ficção, gênero mais aproximado, segundo já ressaltei, da disciplina história, porém dificilmente alcançado pelo gênero poético na práxis da análise de poemas, pode seguramente atingir dimensão de leitura bem originais e fecundas, mas não chegarão a preencher plenamente os objetivos visados pelos estudiosos da literatura, exceto se o historiador também tiver formação acadêmica avançada em cursos de letras.
Destarte, não vejo o anúncio do “sumiço” da crítica literária do ângulo generalizado do ficcionista argentino. Ele exagerou na generalidade.ou, por outra, simplificou demais a complexidade da questão.
Por certo, na atualidade, sinal dos tempos, qualquer domínio, seja humanístico, seja científico-tecnológico, atravessa impasses, crises, tensões e problemas de identidade.
No país e no mundo há grandes críticos, no passado e no presente, assim como ensaístas. Os estudos dos gêneros literários, a genologia, não estão atualmente sendo tão discutidos quanto às suas especificidades e fronteiras? Nem por isso julgo que desaparecerão dos domínios da literatura. Se algumas espécies se extinguiram com o tempo, outras nasceram, se transformaram, ou surgiram, como o romance, a novela, a peça teatral, o poema, embora tendo sofrido mudanças estruturais no tempo, ainda são perfeitamente discerníveis aos olhos do presente no que tange aos seus traços, fisionomias e singularidades.
Obviamente, o texto ficcional e o poema da nossa contemporaneidade – e aqui me reporto ao século atual da sua primeira década -, não podem nem devem ser decalcados , sob pena de se tornarem anacrônicos, na tradição mais remota ou mesmo remotíssima. Os casos isolados de experimentações metaficionais ou metapoéticas, no eixo diacrônico são compreensíveis do ângulo mimético-experimental, válidos como tentativas de recriações de ordem lúdica, de saudáveis experiências com a linguagem., ou como formas de sondagens do fenômeno da criação literária.
À crítica literária, para não perder o bonde da história ( sem propósitos de trocadilhos), cabe a atenta revisão e atualização dos seus métodos e abordagens ou de preferências de correntes interpretativas do fenômeno literário, sem no entanto, perder sua função primordial, a de procurar ler melhor a obra literária servida de um instrumental teórico atualizado, aberto e sem perder tampouco o zeitgeist – o tempo presente naquele sentido que lhe deu Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) em conhecido poema.
Presente este com a sua variada e múltipla contribuição advinda das novas formas de construção de sentidos e imagens e, portanto, de entender o mundo que nos cerca, bombardeado pelos novos meios eletrônicos de comunicação, cujas mudanças mal acompanhamos perplexos: a internet, as redes sociais, com suas virtudes e defeitos ou mesmo males, nos seus variados modelos, a planetarização da informação, os diverso meios de sintonia com um Planeta globalizado e ao mesmo tempo conturbado com violações e misérias de toda sorte.
A crítica literária não está fora desse contexto de complexidades, muitas vezes irritantes para quem vai adentrando os anos de existência.A crítica literária não “sumiu.” Está presente. Basta ter olhos mais humildes para encontrá-la em muitos quadrantes, muitas latitudes, longitudes, temporalidades e escalas de valores. Não importa, existe.
Leitores mais antigos, como eu, há tempos vêm se habituando a algumas notícias sobre gêneros literários, notícias nada alvissareiras, em particular anunciadoras da morte da poesia, que seria uma heresia tremenda. Agora, leio na Folha de São Paulo (caderno Ilustríssima, literatura, 17/04/2011, p. 6, ilustração de Paulo Monteiro) uma parte, a quarta, de título “O piano” – narrar, representar, interpretar (trad. de Paulo Werneck, de um diário de Ricardo Piglia, ficcionista argentino estabelecido nos EUA na condição de professor da Universidade de Princeton. Nessa parte, Piglia, por sua vez, anuncia o “sumiço” da crítica literária, gênero que teve ( e eu diria ainda tem em várias partes do mundo) eminentes cultores, alguns nomeados por ele como Iuri Tiniánov ( 1894-1943) Franco Fortini (1917-1994), Edmund Wilson ( 1895-1972) Ainda segundo Piglia, a crítica literária tem sido “.. mais afetada pela situação da literatura.”
Essa tradição de crítica para ele já foi um espaço de referência nos debates públicos voltados para o que denomina “ construção de sentido de uma comunidade”
Por outro lado, Piglia assinala com ênfase que as vozes de interpretação literário-crítica de hoje se encontram nas mãos de historiadores renomados, tais como Carlo Ginzburg, Robert Darnton, François Hartog ou Roger Chartier. Piglia conclui palidamente, nessa página do diário relativa cronologicamente a uma “terça-feira,” que os citados historiadores tomaram como matéria de estudos a “leitura dos textos,” que se torna “um assunto” do passado ou do estudo do passado.”, circunstância que, todavia, não lhes diminui o peso valorativo de seus trabalhos relacionados a assuntos literários e culturais em geral, porém voltados notadamente ao passado.
As assertivas de Piglia me soam um tanto ambíguas, sobretudo porque nesse mesmo trecho do diário, ao declarar ser a crítica o gênero “mais afetado pela situação atual da literatura” (grifos meus), ele não explicita adequadamente sobre que “situação atual” está falando, assim como não faz a necessária mediação entre produções de historiadores modernos e crítica literária. Deixa, assim, no ar as divisões de esferas de atuação de escritas e temas diferentes, não obstante conectadas ao passado.
De qualquer maneira, o que se tem visto de estudos atualmente no gênero da crítica e do ensaio literários são autores oriundos de campos especializados fora do eixo central da literatura, i.e., os historiadores passam a exercer uma função crítica de uma área cultural para a qual em tese não tiveram preparação teórica estrita, que se resumiria no aprofundamento de disciplinas específicas e que demandam tempo prolongado e “treinamento” apropriado, para usar um termo de Terry Eagleton, dos alunos de literatura por parte de seus professores, sobretudo nas técnicas de análises de poemas.O crítico literário, por sua vez, não pode exercer sua atividade sem seguros conhecimentos das disciplinas teoria literária, ciência da literatura,, poética, história literária, linguística, filologia, gramática, línguas clássicas e línguas modernas. São elementos vitais ao estudos de letras que, sem elas, a competência do estudioso se torna, ipso facto, incompleta
O mesmo procedimento estender-se-ia aos textos ficcionais, estes talvez os mais procurados pelos críticos-historiadores dadas as relações mais íntimas entre a narrativa histórica e a narrativa ficcional. Com uma situação análoga se depararia o crítico literário ao defrontar-se com a matéria prima dos historiadores. Ainda haveria oura possibilidade, ado historiador pesquisando o chamado romance histórico, conhecido também como ficção de extração histórica, filão de estudos literarios muto pesquisado ultimamente nos curso de literatura. Deste último exemplo, as visões dos historiadores e dos cxríticos seriam bem férteis ao lidarem com esta matéria.
Não se queira inferir que estou tentando afirmar ser impossível – como na prática não o é -, com tantas exceções de bons críticos literários terem sido também autores de obras históricas, como no país, foram Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), o general Nelson Werneck Sodré (1911-1999), Álvaro Lins (1912-1970) e outros. Neste sentido, há ainda outras situações, a de escritores-ficcionistas que escrevem romances históricos, assim como historiadores que escrevem ficção, por exemplo, no passado, Rocha Pombo (1857-1933).
Poder-se-ia incluir algumas outras situações isoladas, como a do romancista-crítico, do romancista-poeta-crítico, situações que, de resto, não são decorrentes dos dias de hoje apenas, pois sempre houve escritores com talentos polimorfos capazes de atuarem em diversos gêneros literarios. Enfim, existem ainda aqueles intelectuais formados em áreas dissociadas do campo da literatura, mas que, com o tempo, fizeram opções para este campo, ou por estudos independentes (caso do citado Álvaro Lins, formado em direito, mas dedicou-se a lecionar literatura (Colégio Pedro II e em Portugal) e exerceu a crítica literária, além de ter sido diplomata), ou porque realizaram cursos até fora do país, como ocorreu com Afrânio Coutinho (1911-2000), primeiro formado em medicina, e depois se tornando professor do ensino médio (Colégio Pedro II) de literatura e, em seguida, fez cursos na Universidade de Colúmbia De volta ao Brasil, tornou-se professor titular de literatura brasileira da Universidade do Brasil, hoje UFRJ., com Fábio Lucas, formado, primeiro, em economia e, pela vida afora, dedicou-se à crítica literária, tendo sido também professor no país e no exterior. Alguns outros exemplos semelhantes se poderiam mencionar.
Uma diferença, no entanto, é clara, a qual separa os dois extremos, historiadores-críticos e críticos-historiadores, tanto estes quanto aqueles, para serem bons, devem se munir de abordagens críticas que terão maior validade a partir de sua formação específica, num caso o instrumental interpretativo da disciplina história e de áreas afins; no outro, o do conhecimento literário, de preferência com aparato formal, ou seja, de domínio da teoria literária e de áreas afins. A questão que se põe se assenta no predomínio do estritamente literário ou do estritamente histórico. Ambos, entretanto, operacionalizados sem clivagens radicais.
Não intento afirmar, com isso – é preciso reiterar -, que a formação universitária e pós-universitária na área de letras vá prescindir do inestimável suporte interdisciplinar. Longe disso. Áreas de extrema importância ao estudioso de letras como história, filosofia, sociologia, antropologia, entre outras, só haverão de ampliar a formação integral do especialista.
Bem podem ser até excelentes as produções de obras sobre ficção escritas por competentes historiadores. No entanto, a “leitura” destes não pode ser comparadas às investigações de críticos e de grandes ensaístas com ampla e sólida formação no domínio especificamente literário.
A visão crítica do historiador, ao se debruçar sobre escritores de ficção, gênero mais aproximado, segundo já ressaltei, da disciplina história, porém dificilmente alcançado pelo gênero poético na práxis da análise de poemas, pode seguramente atingir dimensão de leitura bem originais e fecundas, mas não chegarão a preencher plenamente os objetivos visados pelos estudiosos da literatura, exceto se o historiador também tiver formação acadêmica avançada em cursos de letras.
Destarte, não vejo o anúncio do “sumiço” da crítica literária do ângulo generalizado do ficcionista argentino. Ele exagerou na generalidade.ou, por outra, simplificou demais a complexidade da questão.
Por certo, na atualidade, sinal dos tempos, qualquer domínio, seja humanístico, seja científico-tecnológico, atravessa impasses, crises, tensões e problemas de identidade.
No país e no mundo há grandes críticos, no passado e no presente, assim como ensaístas. Os estudos dos gêneros literários, a genologia, não estão atualmente sendo tão discutidos quanto às suas especificidades e fronteiras? Nem por isso julgo que desaparecerão dos domínios da literatura. Se algumas espécies se extinguiram com o tempo, outras nasceram, se transformaram, ou surgiram, como o romance, a novela, a peça teatral, o poema, embora tendo sofrido mudanças estruturais no tempo, ainda são perfeitamente discerníveis aos olhos do presente no que tange aos seus traços, fisionomias e singularidades.
Obviamente, o texto ficcional e o poema da nossa contemporaneidade – e aqui me reporto ao século atual da sua primeira década -, não podem nem devem ser decalcados , sob pena de se tornarem anacrônicos, na tradição mais remota ou mesmo remotíssima. Os casos isolados de experimentações metaficionais ou metapoéticas, no eixo diacrônico são compreensíveis do ângulo mimético-experimental, válidos como tentativas de recriações de ordem lúdica, de saudáveis experiências com a linguagem., ou como formas de sondagens do fenômeno da criação literária.
À crítica literária, para não perder o bonde da história ( sem propósitos de trocadilhos), cabe a atenta revisão e atualização dos seus métodos e abordagens ou de preferências de correntes interpretativas do fenômeno literário, sem no entanto, perder sua função primordial, a de procurar ler melhor a obra literária servida de um instrumental teórico atualizado, aberto e sem perder tampouco o zeitgeist – o tempo presente naquele sentido que lhe deu Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) em conhecido poema.
Presente este com a sua variada e múltipla contribuição advinda das novas formas de construção de sentidos e imagens e, portanto, de entender o mundo que nos cerca, bombardeado pelos novos meios eletrônicos de comunicação, cujas mudanças mal acompanhamos perplexos: a internet, as redes sociais, com suas virtudes e defeitos ou mesmo males, nos seus variados modelos, a planetarização da informação, os diverso meios de sintonia com um Planeta globalizado e ao mesmo tempo conturbado com violações e misérias de toda sorte.
A crítica literária não está fora desse contexto de complexidades, muitas vezes irritantes para quem vai adentrando os anos de existência.A crítica literária não “sumiu.” Está presente. Basta ter olhos mais humildes para encontrá-la em muitos quadrantes, muitas latitudes, longitudes, temporalidades e escalas de valores. Não importa, existe.
sábado, 16 de abril de 2011
Visita a duas livrarias
Cunha e Silva Filho
Ontem, à tarde, fui ao Centro do Rio resolver alguma coisa e aproveitei o lance pra dar um pulinho, aliás, dois, a livrarias, uma de livros novos e famosa, a Martins Fontes, outra, na sua natureza também famosa, um sebo, a São José. Na primeira, logo que entrei, percebi pouco movimento e ninguém para me atender. Havia pessoas, na parte de cima, examinando livros, folheando-os silenciosas. A parte de cima corresponde ao primeiro andar (ou é o térreo em forma de?).
Nessa parte são diversos os títulos, mas, dando uma olhada rápida e geral, eram títulos de livros estrangeiros em varias línguas, sobretudo inglês, francês e espanhol. Todos os clientes estavam mudos praticamente. Não sabia quem era atendente ou quem era cliente. Em seguida, desci ao subsolo por uma pequena escada. Lá, é a seção de livros sobre línguas. Havia algumas pessoas examinando livros aqui e ali, também em silêncio. No balcão, uma funcionaria de meia idade atendia a uma jovem senhora que estava comprando títulos de livros didáticos de francês. Outra funcionária ou gerente, não sei, estava anotando ao telefone possivelmente pedidos de clientes. Ninguém mais pra atender-me.
Senti-me meio rejeitado esperando que uma ou outra me chamassem. Esperei alguns minutos. Veio, então, a funcionária mais idosa, que ia passando, e eu a abordei perguntando-lhe pelo título que trouxera de casa escrito numa tira de papel com o nome do autor, obra e editora.
Era um título sobre história da literatura inglesa. “Esta não temos mais. Iiiih!... Faz muito tempo não vendemos mais”, adiantou-me ela. Decepção! “Como não tem?” dissera com meus botões Não era possível! Gostei tanto de outra obra do mesmo autor, Peter B. High, que com ela formava uma sequência. O pior foi que a funcionária mais idosa antes havia dito a alguém por perto que aquela filial da Martins estava fechando, naquele dia mesmo, as portas daquele endereço privilegiado em plena Av. Rio Branco. Iriam mudar para o Leblon, um dos bairros mais nobres da Zona Sul carioca. Meu Deus, quem, como eu, conheceu a filial que, por um bom tempo, primeiramente, se instalou tão bem na rua da Sete Setembro, nunca iria ouvir um a notícias dessas.
Quando a Martins Fontes estava na rua Sete de Setembro (era mesmo Sete de Setembro ou outra rua conhecida ali pertinho?). Agora quem está incerto sou eu. Deixa pra lá. A verdade, é que essa livraria, na parte de livros didáticos, de linguística, e de literatura em línguas estrangeiras, principalmente inglesa, era excelente. O atendimento era de primeira qualidade. Por falar em atendimento, caiu para quase zero o atendimento agora! Os professores eram bem-recebidos, bem tratados. Havia uma sala especial onde podíamos examinar à vontade os livros e até esboçar um leitura do primeiro capítulo. Agora, nada? O que está havendo com as livrarias do Rio, ou pelo menos com esta livraria?
Disse-me um livreiro que já está chegando ao Rio a livraria Cultura ( ou Cultural?, novamente a dúvida do nome certo) e vem com toda a força e que ficará na Cinelândia, coração desta cidade. Vamos torcer para que tenha êxito. Na Cinelândia, por muitos anos funcionou uma livraria das Edições de Ouro, hoje Ediouro, que frequentei muito. Dava praticamente para a Praça da Cinelândia (oficialmente Praça Floriano), mas a entrada era por uma das ruazinhas transversais entre a Praça e a rua Senador Dantas.
Foi lá que ouvi informações sobre um poliglota conhecido pelo pseudônimo de Pandiá Pându. Eu mesmo o conheci pessoalmente. Ele era autor de pequenas obras, editadas pela citada Edições de Ouro, sobre línguas estrangeiras, principalmente, inglês, e era esperantista de mão cheia. Conhecia ainda o sânscrito. Para o ensino do esperanto, publicou uma volumosa obra que ele mesmo me mostrou. Pandiá Pându era sargento da Aeronáutica. Uma vez o vi fardado e me dirigi a ele em inglês. Não sei como conseguiu estudar tantas línguas, pois me parece tinha poucos recursos.
Geralmente, quando o via, estava acompanhado de mulheres altas e, pela aparência física, eram estrangeiras. Pandiá era um baiano alto, mulato, de boa aparência, feições sérias. Outra vez, o vi discursando em inglês e, logo em seguida, em russo em frente ao Consulado Americano. Um conhecido, que nunca mais vi, me falara que, numa época, Pandiá estava em polêmica com o grande tradutor e ensaísta húngaro Paulo Rónai. Também não sei se isso aconteceu. Num prefácio a um livro de Pandiá, o autor refere que ele falava àquela época – anos sessenta -, pelo menos sete línguas “com relativa facilidade.” Pandiá, que era baiano, faleceu ainda jovem, não tinha ainda sessenta anos. Até hoje, não sei o seu verdadeiro nome e outras informações mais detalhadas de sua trajetória de autor, de como se deu sua formação intelectual, sobretudo no campo da aprendizagem de línguas..
A outra livraria visita foi o sebo da São José, agora dirigida pelo Germano. Sou,, como já disse alhures, um fiel e antigo frequentador desse sebo. Toda vez que vou lá não deixo de levar alguma obra antiga que não havia lido. Sinto-me em casa quando estou na São José, que já foi editora no tempo do famosos livreiro Carlos Ribeiro, no tempo em que ficava na rua São José , livraria e editora onde faziam ponto de encontro famosos escritores brasileiros de um passado não tão remoto assim. Editora, livraria de sebo, passou por outro endereço também no Centro e hoje se encontra na rua Primeiro de Março. Sãs instalações, em prédio velho, porém confortáveis, atraem ainda muita gente apreciadora de cultura. O sebo também vende livros novos. Em várias áreas: literatura, filologia, línguas, artes, ciências sociais, filosofia, direito ( parte forte dela) , livros didáticos esgotados etc.
O Germano me afirmou que vai levando o seu negócio de livros, com dificuldade sim, mas não desistindo a fim de continuar mantendo o bom nome da velha livraria carioca. Oxalá que ela tenha ainda longa vida .
Ontem, à tarde, fui ao Centro do Rio resolver alguma coisa e aproveitei o lance pra dar um pulinho, aliás, dois, a livrarias, uma de livros novos e famosa, a Martins Fontes, outra, na sua natureza também famosa, um sebo, a São José. Na primeira, logo que entrei, percebi pouco movimento e ninguém para me atender. Havia pessoas, na parte de cima, examinando livros, folheando-os silenciosas. A parte de cima corresponde ao primeiro andar (ou é o térreo em forma de?).
Nessa parte são diversos os títulos, mas, dando uma olhada rápida e geral, eram títulos de livros estrangeiros em varias línguas, sobretudo inglês, francês e espanhol. Todos os clientes estavam mudos praticamente. Não sabia quem era atendente ou quem era cliente. Em seguida, desci ao subsolo por uma pequena escada. Lá, é a seção de livros sobre línguas. Havia algumas pessoas examinando livros aqui e ali, também em silêncio. No balcão, uma funcionaria de meia idade atendia a uma jovem senhora que estava comprando títulos de livros didáticos de francês. Outra funcionária ou gerente, não sei, estava anotando ao telefone possivelmente pedidos de clientes. Ninguém mais pra atender-me.
Senti-me meio rejeitado esperando que uma ou outra me chamassem. Esperei alguns minutos. Veio, então, a funcionária mais idosa, que ia passando, e eu a abordei perguntando-lhe pelo título que trouxera de casa escrito numa tira de papel com o nome do autor, obra e editora.
Era um título sobre história da literatura inglesa. “Esta não temos mais. Iiiih!... Faz muito tempo não vendemos mais”, adiantou-me ela. Decepção! “Como não tem?” dissera com meus botões Não era possível! Gostei tanto de outra obra do mesmo autor, Peter B. High, que com ela formava uma sequência. O pior foi que a funcionária mais idosa antes havia dito a alguém por perto que aquela filial da Martins estava fechando, naquele dia mesmo, as portas daquele endereço privilegiado em plena Av. Rio Branco. Iriam mudar para o Leblon, um dos bairros mais nobres da Zona Sul carioca. Meu Deus, quem, como eu, conheceu a filial que, por um bom tempo, primeiramente, se instalou tão bem na rua da Sete Setembro, nunca iria ouvir um a notícias dessas.
Quando a Martins Fontes estava na rua Sete de Setembro (era mesmo Sete de Setembro ou outra rua conhecida ali pertinho?). Agora quem está incerto sou eu. Deixa pra lá. A verdade, é que essa livraria, na parte de livros didáticos, de linguística, e de literatura em línguas estrangeiras, principalmente inglesa, era excelente. O atendimento era de primeira qualidade. Por falar em atendimento, caiu para quase zero o atendimento agora! Os professores eram bem-recebidos, bem tratados. Havia uma sala especial onde podíamos examinar à vontade os livros e até esboçar um leitura do primeiro capítulo. Agora, nada? O que está havendo com as livrarias do Rio, ou pelo menos com esta livraria?
Disse-me um livreiro que já está chegando ao Rio a livraria Cultura ( ou Cultural?, novamente a dúvida do nome certo) e vem com toda a força e que ficará na Cinelândia, coração desta cidade. Vamos torcer para que tenha êxito. Na Cinelândia, por muitos anos funcionou uma livraria das Edições de Ouro, hoje Ediouro, que frequentei muito. Dava praticamente para a Praça da Cinelândia (oficialmente Praça Floriano), mas a entrada era por uma das ruazinhas transversais entre a Praça e a rua Senador Dantas.
Foi lá que ouvi informações sobre um poliglota conhecido pelo pseudônimo de Pandiá Pându. Eu mesmo o conheci pessoalmente. Ele era autor de pequenas obras, editadas pela citada Edições de Ouro, sobre línguas estrangeiras, principalmente, inglês, e era esperantista de mão cheia. Conhecia ainda o sânscrito. Para o ensino do esperanto, publicou uma volumosa obra que ele mesmo me mostrou. Pandiá Pându era sargento da Aeronáutica. Uma vez o vi fardado e me dirigi a ele em inglês. Não sei como conseguiu estudar tantas línguas, pois me parece tinha poucos recursos.
Geralmente, quando o via, estava acompanhado de mulheres altas e, pela aparência física, eram estrangeiras. Pandiá era um baiano alto, mulato, de boa aparência, feições sérias. Outra vez, o vi discursando em inglês e, logo em seguida, em russo em frente ao Consulado Americano. Um conhecido, que nunca mais vi, me falara que, numa época, Pandiá estava em polêmica com o grande tradutor e ensaísta húngaro Paulo Rónai. Também não sei se isso aconteceu. Num prefácio a um livro de Pandiá, o autor refere que ele falava àquela época – anos sessenta -, pelo menos sete línguas “com relativa facilidade.” Pandiá, que era baiano, faleceu ainda jovem, não tinha ainda sessenta anos. Até hoje, não sei o seu verdadeiro nome e outras informações mais detalhadas de sua trajetória de autor, de como se deu sua formação intelectual, sobretudo no campo da aprendizagem de línguas..
A outra livraria visita foi o sebo da São José, agora dirigida pelo Germano. Sou,, como já disse alhures, um fiel e antigo frequentador desse sebo. Toda vez que vou lá não deixo de levar alguma obra antiga que não havia lido. Sinto-me em casa quando estou na São José, que já foi editora no tempo do famosos livreiro Carlos Ribeiro, no tempo em que ficava na rua São José , livraria e editora onde faziam ponto de encontro famosos escritores brasileiros de um passado não tão remoto assim. Editora, livraria de sebo, passou por outro endereço também no Centro e hoje se encontra na rua Primeiro de Março. Sãs instalações, em prédio velho, porém confortáveis, atraem ainda muita gente apreciadora de cultura. O sebo também vende livros novos. Em várias áreas: literatura, filologia, línguas, artes, ciências sociais, filosofia, direito ( parte forte dela) , livros didáticos esgotados etc.
O Germano me afirmou que vai levando o seu negócio de livros, com dificuldade sim, mas não desistindo a fim de continuar mantendo o bom nome da velha livraria carioca. Oxalá que ela tenha ainda longa vida .
quarta-feira, 13 de abril de 2011
As armas de fogo: uma invenção do crime
Cunha e Silva Filho
Nenhuma outra arma que o ser humano inventou se compara quanto aos seus efeitos letais e destruidores quanto os chamados revólveres, para me servir de uma espécie de arma que nunca saiu de moda entre usuários de todos os continentes.Não sei quem o inventou nem tenho pressa em ir à Wikipédia para conferir isso. Não me interessa. Contudo, o mal que esse tipo de arma tem causado à humanidade é incomensurável. Se pensarmos o quanto ele tem vitimado pessoas em algum infeliz momento existencial, i.e., aquelas pessoas, em situação de extrema angústia, medo, desespero ou por desequilíbrio mental, contar-se-ia em milhares a cifra de mortos por suicídio ou por outros motivos nesta teia de aranha em que se vê enredada a sociedade há longo tempo.
Ela está em toda a parte do cotidiano das pessoas e, muitas vezes, surge de onde menos se espera. Traz em si a potencialidade do ato de um crime, seja contra seu próprio dono, seja porque pode ser roubada por bandidos, assaltantes, seja porque pode ser usada como troca de vantagens entre pessoas desonestas, tudo, enfim, sendo por ela envolvido e transformado em ação fatal e irreversível. A arma de fogo pode ser usada para a nossa defesa quanto para a prática da criminalidade, nas mãos de facínoras, de policiais sem dignidade. Torna-se, assim, símbolo de tragédias, anunciadas ou não. Pode até ser usada, em casa ou em outro recinto, por menores, por crianças que, pela pouca idade, passa a ser um forma de brinquedo ameaçador de vida humanas, de outras crianças.
Nos lares brasileiros deve haver milhares de armas compradas legalmente, tendo inclusive a garantia do porte para uso em casa. É esse contexto familiar que se devem tomar todas as precauções possíveis para que nunca estejam ao alcance de crianças ou adolescentes.
Entretanto, alguns problemas se apresentam com respeito ao uso da arma: a sua comercialização legal, a sua aquisição por contrabando através das nossas fronteiras e o seu tráfico entre bandidos e policiais corruptos, a chamada banda podre, além de furtos provenientes de quartéis da polícia ou mesmo das forças armadas. Vê-se que a questão da arma é delicada e complexa se desejarmos desenvolver políticas públicas que reduzam drasticamente as altas quantidades desses objetos mortais e alimentadores do crime. Por conseguinte, o que deve haver é um endurecimento na venda de arma para uso pessoal, exigindo minuciosamente do comprador todos os dados e referências, inclusive exames de saúde mental do comprador fornecido por autoridade competente.
A entrada de armas pelas fronteiras brasileiras merece atenção especial no sentido de que o efetivo da Polícia Federal fique à altura dos obstáculos que irão encontrar. Atualmente, a tecnologia pode auxiliar enormemente nesse sentido. Naturalmente, deve haver um entrosamento amplo entre a Polícia Federal e o apoio logístico indispensável das Forças Armadas, num trabalho conjunto e patriótico de impedir o aumento crescente de armas clandestinas oriundas de países vizinhos. Neste caso, o Ministério das Relações Exteriores poderia ser a ponte de ligação entre nós e aqueles países vizinhos, através de acordos firmados entre esses países com o objetivo de realizar um combate sem trégua contra comerciantes e traficantes de armas. Seria um combate com finalidades recíprocas.
Para reduzir o trafico de armas entre bandidos e policiais inescrupulosos, haveria de, primeiro, melhorar a imagem de toda a corporação da Polícia Militar, sobretudo melhor selecionando seu contingente, com treinamento sério e preparação que neles internalizassem valores éticos e de conduta social adequada à sua específica função social de defesa da segurança das pessoas, do patrimônio público, dando-lhes remuneração condigna, o que faria com que estes passassem a ser respeitados pela sociedade – grande passo a ser conquistado por uma nova polícia a serviço da cidadania, policiais que seriam o orgulho de todos nós que desejamos um país menos violento. A Polícia não foi constituída somente para reprimir turbulências, desordens, mas respeitar manifestações pacíficas, dando-lhe proteção. Polícias truculentas só servem a regimes autoritários, que não é o caso de nosso país.
Quanto às outras maneiras de furto de armas de instituições de segurança pública, estadual ou federal, a saída seria mais e mais fiscalização dos depósitos de armas e munições, com rigorosa e competente vigilância.
O Congresso Nacional, novamente, retoma o problema da venda de armas através de plebiscito, ou seja, consultando o povo brasileiro quanto à conveniência ou não de vender ou comprar armas. Questão delicada e controversa, para a qual há vários ângulos de argumentação favorável ou desfavorável. Julgo que um novo plebiscito até poderia ser oportuno, desde que, seja qual for o seu resultado, na prática do quotidiano da vida dos brasileiros ele se efetivasse na solução daqueles problemas acima levantados. Não é retirar – como em geral pensa a opinião pública -, de pessoas de bem as suas armas mantidas em casa. Isso é muito pouco, quase nada na solução dessa questão de alto sentido social. Perguntaria: como ficariam os marginais já armados de unhas e dentes, com arsenais de munições clandestinas? Sem atacar de frente e com propósitos patrióticos a existência de armamentos pesados, alguns de uso das forças armadas, entre criminosos, de nada valerão inócuos plebiscitos ressuscitados só porque a casa foi roubada porque a porta estava aberta - mal do brasileiro que só a fecha quando uma tragédia acontece.
A questão do uso da arma tem que ser enfrentada pelo país inteiro. Não pode ser uma mera forma de, em momento de grande luto nacional com a tragédia de Realengo, o governo federal decidir abrir os olhos para uma das grandes mazelas deste país. Abrir os olhos para um problema, diria, crônico, é muito pouco; o que se quer são ações concretas, afirmativas, duráveis.
Nenhuma outra arma que o ser humano inventou se compara quanto aos seus efeitos letais e destruidores quanto os chamados revólveres, para me servir de uma espécie de arma que nunca saiu de moda entre usuários de todos os continentes.Não sei quem o inventou nem tenho pressa em ir à Wikipédia para conferir isso. Não me interessa. Contudo, o mal que esse tipo de arma tem causado à humanidade é incomensurável. Se pensarmos o quanto ele tem vitimado pessoas em algum infeliz momento existencial, i.e., aquelas pessoas, em situação de extrema angústia, medo, desespero ou por desequilíbrio mental, contar-se-ia em milhares a cifra de mortos por suicídio ou por outros motivos nesta teia de aranha em que se vê enredada a sociedade há longo tempo.
Ela está em toda a parte do cotidiano das pessoas e, muitas vezes, surge de onde menos se espera. Traz em si a potencialidade do ato de um crime, seja contra seu próprio dono, seja porque pode ser roubada por bandidos, assaltantes, seja porque pode ser usada como troca de vantagens entre pessoas desonestas, tudo, enfim, sendo por ela envolvido e transformado em ação fatal e irreversível. A arma de fogo pode ser usada para a nossa defesa quanto para a prática da criminalidade, nas mãos de facínoras, de policiais sem dignidade. Torna-se, assim, símbolo de tragédias, anunciadas ou não. Pode até ser usada, em casa ou em outro recinto, por menores, por crianças que, pela pouca idade, passa a ser um forma de brinquedo ameaçador de vida humanas, de outras crianças.
Nos lares brasileiros deve haver milhares de armas compradas legalmente, tendo inclusive a garantia do porte para uso em casa. É esse contexto familiar que se devem tomar todas as precauções possíveis para que nunca estejam ao alcance de crianças ou adolescentes.
Entretanto, alguns problemas se apresentam com respeito ao uso da arma: a sua comercialização legal, a sua aquisição por contrabando através das nossas fronteiras e o seu tráfico entre bandidos e policiais corruptos, a chamada banda podre, além de furtos provenientes de quartéis da polícia ou mesmo das forças armadas. Vê-se que a questão da arma é delicada e complexa se desejarmos desenvolver políticas públicas que reduzam drasticamente as altas quantidades desses objetos mortais e alimentadores do crime. Por conseguinte, o que deve haver é um endurecimento na venda de arma para uso pessoal, exigindo minuciosamente do comprador todos os dados e referências, inclusive exames de saúde mental do comprador fornecido por autoridade competente.
A entrada de armas pelas fronteiras brasileiras merece atenção especial no sentido de que o efetivo da Polícia Federal fique à altura dos obstáculos que irão encontrar. Atualmente, a tecnologia pode auxiliar enormemente nesse sentido. Naturalmente, deve haver um entrosamento amplo entre a Polícia Federal e o apoio logístico indispensável das Forças Armadas, num trabalho conjunto e patriótico de impedir o aumento crescente de armas clandestinas oriundas de países vizinhos. Neste caso, o Ministério das Relações Exteriores poderia ser a ponte de ligação entre nós e aqueles países vizinhos, através de acordos firmados entre esses países com o objetivo de realizar um combate sem trégua contra comerciantes e traficantes de armas. Seria um combate com finalidades recíprocas.
Para reduzir o trafico de armas entre bandidos e policiais inescrupulosos, haveria de, primeiro, melhorar a imagem de toda a corporação da Polícia Militar, sobretudo melhor selecionando seu contingente, com treinamento sério e preparação que neles internalizassem valores éticos e de conduta social adequada à sua específica função social de defesa da segurança das pessoas, do patrimônio público, dando-lhes remuneração condigna, o que faria com que estes passassem a ser respeitados pela sociedade – grande passo a ser conquistado por uma nova polícia a serviço da cidadania, policiais que seriam o orgulho de todos nós que desejamos um país menos violento. A Polícia não foi constituída somente para reprimir turbulências, desordens, mas respeitar manifestações pacíficas, dando-lhe proteção. Polícias truculentas só servem a regimes autoritários, que não é o caso de nosso país.
Quanto às outras maneiras de furto de armas de instituições de segurança pública, estadual ou federal, a saída seria mais e mais fiscalização dos depósitos de armas e munições, com rigorosa e competente vigilância.
O Congresso Nacional, novamente, retoma o problema da venda de armas através de plebiscito, ou seja, consultando o povo brasileiro quanto à conveniência ou não de vender ou comprar armas. Questão delicada e controversa, para a qual há vários ângulos de argumentação favorável ou desfavorável. Julgo que um novo plebiscito até poderia ser oportuno, desde que, seja qual for o seu resultado, na prática do quotidiano da vida dos brasileiros ele se efetivasse na solução daqueles problemas acima levantados. Não é retirar – como em geral pensa a opinião pública -, de pessoas de bem as suas armas mantidas em casa. Isso é muito pouco, quase nada na solução dessa questão de alto sentido social. Perguntaria: como ficariam os marginais já armados de unhas e dentes, com arsenais de munições clandestinas? Sem atacar de frente e com propósitos patrióticos a existência de armamentos pesados, alguns de uso das forças armadas, entre criminosos, de nada valerão inócuos plebiscitos ressuscitados só porque a casa foi roubada porque a porta estava aberta - mal do brasileiro que só a fecha quando uma tragédia acontece.
A questão do uso da arma tem que ser enfrentada pelo país inteiro. Não pode ser uma mera forma de, em momento de grande luto nacional com a tragédia de Realengo, o governo federal decidir abrir os olhos para uma das grandes mazelas deste país. Abrir os olhos para um problema, diria, crônico, é muito pouco; o que se quer são ações concretas, afirmativas, duráveis.
Assinar:
Postagens (Atom)