segunda-feira, 11 de abril de 2011

Um poema de John Keats ( 1795-1821)

A thing of beauty



A thing of beauty is a joy for ever:
Its loveliness increases; it will never
Pass into nothingness; but still will keep
A bower quiet for us, an d a sleep
Full of sweet dreams and health, and quiet breathing.
Therefore, on every morning, are we wreathing
A flowery band to bind us to the earth,
Spite of despondence, of the in human dearth
Of noble natures, of the gloomy days,
Of all the unhealthy and o’ver darkened ways,
Made for our searching: yes, in spite of all,
Som e shape of beauty moves away the pall
From our dark spirits. Such the sun, the moon,
Trees old and young, sprouting a shady boon
For simples sheep; and such are daffodils
With the green world they live in; and clear rills
That for themselves a cooling covert make
‘Gainst the hot season: the mid forest brake
Rich with a sprinkling of fair musk-rose blooms:
And such too is the grandeur fo the dooms
We have imagined for the mighty dead;
All lovely tales that we have heard or read:
An endless fountains of immortal drink,
Pouring unto us from the heaven’s brink.


Um coisa bela

Uma alegria eterna uma coisa bela é:
Cresce o seu encanto; não se apagará nunca; porém manterá
De um abrigo para nós o sossego, e um sono
De doces sonhos e saúde repletos e de frescor tranquilo.
Em cada manhã, assim, um laço florido à terra nos prendendo
,A despeito de desânimos, da carência desumana
De temperamentos nobres, dos dias sombrios,
De todas as enfermidades e dos caminhos muito tristes,
Que se abrem melhor ao nosso conhecimento; sim, malgrado tudo,
Da mortalha nos afasta alguma forma de beleza.
De nossos ânimos sombrios. Por isso, é que o sol, a lua,
As árvores, antiga e novas, uma dádiva frondosa propiciam.
A humildes carneirinhos; e assim também são os narcisos
Junto ao mundo verde no qual vivem, e riachos cristalinos
Que um abrigo refrescante para si constroem
Para a estação quente: da floresta o âmago explode
Em profusão com uma aspersão em belas rosas almiscaradas:
E da mesma maneira se mostra a grandeza dos destinos
Que para os mortos notáveis imaginamos;
Todas as adoráveis histórias que ouvimos e lemos:
De bebida imortal uma fonte interminável
Da extremidade celeste sobre nós derramando-se.

(Tradução de Cunha e Silva Filho)

sábado, 9 de abril de 2011

Escola pública: o massacre de Realengo

Cunha e Silva Filho



O massacre de adolescentes, quase crianças, em Realengo, Zona Oeste do Rio de Janeiro, acontecido na Escola Municipal Tasso da Silveira, marca para sempre, na memória de todos nós, uma tragédia diferente de todas aquelas que neste país já aconteceram. Não foi um acidente de carro, nem assalto, nem estupros, nem brigas entre alunos, nem tiroteios entre bandidos e bandidos ou policiais e bandidos, nem foram balas perdidas. Foi apenas isso: um ataque de um adulto anormal psiquicamente, desses comuns na terra do Tio Sam que, de repente, saem matando indiscriminadamente inocentes em salas de aulas e, às vezes, tirando a vida de professores.
Portanto, não foi algo ocorrido na sociedade afluente americana, de altíssima tecnologia, de modos de vida altamente artificiais, de relações interpessoais utilitaristas, de gente apressada em faturar cada vez mais. Não, leitor, o fato se deu aqui no Rio de Janeiro, numa escola municipal da prefeitura, escola que leva o nome de um grande poeta paranaense, Tasso da Silveira (1895-1958), que, por sinal, estudou e lecionou no Rio de Janeiro, e é figura de proa da corrente espiritualista do Modernismo brasileiro ao lado de Cecília Meireles (1901-1964), Tristão de Athayde ( 1893-1983), Murilo Araújo (1894-1980) Gilka Machado (1893-1980) e outros. A poesia dos mistérios se confunde um tanto contraditoriamente com os mistérios do massacre.
Que ironia misturar a imagem da escola com o sangue trágico derramado de inocentes, essas álacres quase crianças, que tanto me lembram as minhas queridas aluninhas cheias de sorrisos e de brincadeiras em sala de aulas e que nunca me foram problemas. Só os meninos é que me deram muito aborrecimento e me tiravam do sério. Essas quase crianças, entregues aos cuidados da direção da escola e dos seus professores, de repente se defrontaram com a malignidade fruto da psicopatia. Choro pelos meninos e meninas, mas apenas sinto pelo atirador um misto de indignação e aterradora perplexidade. Não lhe tenho ódio, pois quem há de, em sã consciência, votar ódio a um tresloucado, a um psicótico, a um anormal, cujo lugar seria o hospital psiquiátrico ou o manicômio? Criaturas como ele, que causam crueldades inomináveis, são diferentes dos puramente perversos, dos torturadores, dos cruéis, dos pistoleiros, dos maus, estes, sim, na normalidade, provocam os chamados crimes hediondos. Fazem tudo por mero instinto de maldade, com consciência plena de seus atos sórdidos.
Ora, quem diria que um prédio de três andares com aquela arquitetura inconfundível de algumas escolas púbicas municipais em algumas das quais, durante quase três décadas trabalhei, um dia seria palco da primeira tragédia dessa natureza. Este massacre serve como ponto de partida para a solução de alguns problemas crônicos que as escolas públicas brasileiras atravessam: a falta de segurança, a violência contra professores por parte de alunos altamente indisciplinados, as condições salariais aviltantes.
Veja, uma escola pública municipal tem infraestrutura frágil, desde a ausência de porteiros ou da vigilância pelo menos periódica de guardas municipais ou mesmo da polícia militar até a qualidade de ensino, condições de trabalho dos docentes, entre outras carências. O que se vê são escolas com portões abertos, entregues à própria sorte. Com experiência longa de escola pública, já presenciei isso com frequência. Cabe aos prefeitos alterarem tudo isso, dotando as escolas públicas de maior segurança, conforto e outros requisitos fundamentais a quem estuda.
Enquanto os governos municipais e estaduais não investirem no sistema educacional brasileiro, muito mais que pensando em apenas jogos e copas, que vão dar lucro só a alguns setores do estado e do município, ou outras providências no âmbito da educação não forem tomadas, a estrutura do Estado se torna responsável pela desatenção dada a aspectos cruciais da sociedade que, com a ausência deles, por vias indiretas, torna-se causa de tantos males sociais geradores de tragédias como esta que o Rio acaba de presenciar.
Ou seja, nossos jovens, nosso adolescentes devem ser mais bem orientados desde a escola nos seus primeiros anos até principalmente os mais complexos que são os da adolescência, em que transformações psicobiológicas importantes tomam vulto e necessitam de orientação e supervisão escola atentas visando a detectar comportamentos antissociais nos jovens e, se for o caso, encaminhá-los para os setores de saúde competentes. O caso do atirador Wellington bem pode servir de baliza para que as autoridades educacionais e os governos despertem do longo e pesado sono da indiferença e da desídia e arregacem as mãos literalmente para dar o chute inicial de transformação efetiva desse tripé : saúde, educação e segurança.
O massacre da escola de Realengo é um alerta para as autoridades e para a sociedade em geral. É preciso nos prepararmos, de agora em diante, ainda que tardiamente – como diz parte do lema dos inconfidentes -, a fim de que tais atrocidades sejam evitadas, se é que podem ser evitadas totalmente, mas prevenir, investigar, discutir soluções, mudar hábitos de administração já ultrapassados e repensar estratégias que se adequem à realidade atual da vida social brasileira. Façamos isso antes que seja tarde demais, porquanto nenhum brasileiro que sofreu com esta tragédia contra inocentes deseja que outras famílias passem pela mesma inconsolável dor.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Em meio ao caos mundial

Cunha e Silva Filho


Na página da Folha de São Paulo, do dia 3 deste mês, o cartunista Angeli, num retângulo do canto superior direito, brinda o leitor com uma situação que espelha com muita perspicácia o difícil e delicado momento presente de conflitos bélicos, sobretudo, agora, em países árabes, com consequências imprevisíveis não só para os que mais sofrem na carne – os civis dominados por longos períodos de ditaduras sangrentas.
No cartum, numa fileira de pessoas de todas as idades, carregando poucos e magros pertences, se dirigem, na condição de refugiados, para outras plagas, para países fronteiriços. O cenário é a aridez dos desertos. A primeira pessoa da extensa fileira de gente se defronta com uma placa cravada em plena areia com o seguinte aviso: “Atenção – Próxima Ditadura a 500 M.”
Ora, nada tão eloqüente para expressar situações trágicas quando estas se traduzem pela dimensão do humor inteligente e antenado.
Aquele contingente, já exausto de tantos padecimentos contra a sua cidadania e seus mínimos direitos de existência e de liberdade, oprimidos há décadas pela mãos de ferro de governantes golpistas que se eternizaram no poder como se fossem proprietários do país, mandando e demandando em tudo e em todos, fortalecidos com exércitos solidamente armados, formando elites dividindo o povo em exploradores e explorados, se vê, assim, compelido a deslocar-se para outras terras com o tênue sonho de encontrar a paz tão almejada.
A placa com aquele aviso tragicômico resume bem o triste destino dessas populações, ávidas para se livrarem dessa espécie de escravidão que são os regimes de força, a exemplo do Egito, da Líbia, do Iêmen, da Síria, da Costa de Marfim, entre outras regiões que sofrem intervenções das grandes potências. Na Serra Leoa, tribos rivais se trucidam entre si, com armas arranjadas por países com algum interesse político-econômico. Que paradoxo, essas tribos canibais, vivendo primitivamente, como quase bichos selvagens, utilizam armas de outras países, armas modernas. As decisões entre elas se resolvem com o extermínio de uma ou outra .Seus chefes, seus anciões preconizam que os combates não devem respeitar nem crianças. Tudo fica, para defesa de seu território, de suas criações de rebanhos, sob a mira mútua das armas dos combatentes. A valorização dos seus guerreiros é admirada pelas mulheres que só respeitam os fortes e destemidos.
O sentido nuclear do cartum reside nessa carência de alternativa de povos que fogem de sua própria pátria e, por mais que deem voltas, vão se deparar com o mesmo obstáculo, ou seja, com o fantasma das ditaduras. As populações que formam os contingentes de refugiados caem sempre no círculo vicioso da discricionariedade - esta forma nefanda, usurpadora da cidadania.
As ditaduras não podem mais existir a esta altura de conquistas tecnológicas e de avanços científicos em tantas outras áreas do saber humano. É uma heresia. Devem ser alijadas para sempre em todos os recantos do Planeta.. Não há povos felizes nem nações que aspirem ao progresso material e ao seu bem-estar sob regimes autocratas. Não creio que a China seja constituída de pessoas plenamente realizadas em todos os sentidos da vida. Sem liberdade de expressão, um país não sobrevive por muito tempo. A citada China comunista como sistema de governo, mas liberal como exportadora e importadora, investiu maciçamente na educação, cujo resultado tem sido excelente, O país se tornou um gigante economicamente, mas como estaria a vida pessoal e íntima dessa superpopulosa nação?
Todas as nações livres devem envidar esforços a fim de que os regimes de força sejam extirpados definitivamente, ainda que as mudanças libertárias sejam conseguidas a longo prazo. Acima das diferenças culturais, linguísticas, religiosas, étnicas etc., todos os povos poderiam, através de organismos internacionais, fortemente comprometidos com a defesa da paz e da liberdade e bem-estar das nações, lutar pela conquista de uma democracia autêntica. Os regimes autoritários já deram sobejas provas de que não melhoram a humanidade. Os povos devem ser soberanos na escolha de seus representantes no sistema de governo. Para isso, a única via possível seria a prática da democracia alicerçada em lídimos valores éticos e espirituais. Democracia, porém, verdadeira, não de fachada, não de fancaria, não feita de grupos interessados em seus próprio bem-estar individualista, egoísta e nada patriota. Este tipo de democracia não é difícil de localizar na América do Sul, onde democracias não passam de grupos no poder meramente tutelados por países hegemônicos ou com tendência e tradição imperialista.
No entanto, para colimar tais objetivos, seria imperioso que os órgãos internacionais de que dispomos procurassem efetivamente livrar-se de seus vícios e de suas incoerências ou parcialidades. Falo da ONU, OEA, OTAN. Lembremo-nos da guerra contra o Iraque, outra ditadura, em que os Estados Unidos, sob liderança de Bush filho, e sem recorrer à ONU, com o auxílio da Inglaterra e de uma coalizão militar multinacional, invadiram aquele país, destruindo tudo à sua frente, com bombardeios usando armas de ponta, trucidando indiscriminadamente militares e civis, sem dó nem piedade.
O motivo alegado pela dupla Bush filho e o ex-primeiro ministro britânico, Tony Blair, era que o Iraque escondia arsenais de armas nucleares, quando se descobriu, pouco depois, que não havia armas nucleares nesse país. Havia, sim, da parte americana e inglesa interesse outros tendo como fulcro as reservas petrolíferas. Mataram milhares de inocentes, jovens, adultos e velhos, destruíram parte da riqueza arquitetônica do país, em suma, reduziu o país quase a escombros.
O governo de Bush filho cometeu tanta insanidade bélica que seus crimes superaram as atrocidadse de Saddam Hussein. Este foi condenado e enforcado. Nada aconteceu com Bush. A ONU, os Tribunais Internacionais contra crimes de guerra nada fizeram para condenar Bush filho. A memória curta da humanidade bem provavelmente já esqueceu de tudo isso. Impunidade total. O presidente americano fez tudo que desejou e saiu de cargo incólume e fagueiro. Gastou rios de dinheiro com a invasão do Iraque, assim como fez no Afeganistão. Exauriu os cofres do Tesouro americano, com um Senado sempre acolhendo seus caprichos e loucuras. Deixou para seu sucessor Obama uma herança de dívidas colossais e consequências que logo se tornaram visíveis na economia estadunidense. A recessão logo tomou vulto no cotidiano americano com repercussões graves em outras países.sobretudo europeus, incluindo, a Inglaterra. A pátria de Lincoln (1809-1865), de Thomas Jefferson (1743-1826) de Benjamin Franklin (1706-1790) e de Washington (1732-1799) não praticava essa “democracia” da era Bush. Eram outros tempos de homens que tinham cultura e sabedoria e vergonha na cara, que tinham caráter e civismo no espírito. Essa democracia e essas figuras ilustres conheceram o que seja justiça e democracia. Por isso está fazendo falta em todo a Terra.
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sábado, 2 de abril de 2011

O Brasil é aqui

Cunha e Silva Filho



Longe de mim desconhecer os grandes problemas que afligem, de maneira diversificada, grande parte do nosso Planeta.
Mas, olhemos também para o que está ocorrendo em nosso solo pátrio. Sabemos todos que o país tem sido assolado por inundações com consequências trágicas e sem uma clara demonstração, por parte das autoridades competentes, de que soluções têm sido procuradas e mesmo resolvidas.
Na prática, as populações atingidas na carne por tantas inundações, em vários regiões do país esquecidas, as populações, as vítimas , os sofridos estão aí a ver navios. Promessas feitas por autoridades federais não têm sido concretizadas, nem localmente, nem ao nível estadual ou federal. Os flagelados das enchentes estão pedindo socorro em vários partes, no Estado do Rio, na região Sul, em regiões do nordeste, os aguaceiros modificaram as vidas das pessoas por completo retirando-lhes o que é o mais básico direito de um cidadão brasileiro: o seu teto, a sua casinha, o seu abrigo, o seu lar.
Pessoas há que já viraram homens e mulheres da rua, os novos sem-tetos, aportando em algum canto de uma cidade, transformando em “lar” esse pequeno espaço ao ar livre sujeito às intempéries e aos perigos da extrema violência dos cen tros urbanos ou à mercê de um ataque de um malfeitor. Ali, naquele cantinho, coloca seus poucos pertences que conseguiu reunir às pressas ao salvarem-se da fúria das inundações. Não têm mais nada senão a precária condição de vida amarga, de novas vidas severinas. Viraram párias.
Não é justo que essas pessoas permaneçam abandonadas pelos órgãos públicos. Onde estão os prefeitos, os vereadores,os deputados, os senadores, os governadores que ainda não mexeram para amenizar socialmente essas populações? Triste sina desses infelizes que nasceram pobres num país de banqueiros e empresários milionários!
O país socialmente vai mal. Basta que voltemos os olhos para outros setores da máquina do Estado que não estão dando conta dos seus deveres e obrigações constitucionais, não provendo as cidades brasileiras de uma educação pública digna, com professores estimulados, de um sistema de saúde que possa atender condignamente a população que nele procura atendimento humano e à altura da classe média e das elites ( por que não ou a utopia só aos ricos pertence?) e de um sistema de segurança pública no qual as pessoas possam confiam plenamente, sem o temor ou mesmo ódio de uma polícia cujos malfeitos viram estereótipos da classe em razão de tantos atos de selvageria praticados por alguns membros mal selecionados e mal preparados para usarem uma arma, quando, ao contrário, o primeiro dever cívico deles é defender os mais fracos contra o poder da violência de todos os tipos.
As polícias civil e militar devem mudar sua imagem e ganhar a simpatia e o reconhecimento da sociedade em todos os seus estratos. Tenho a esperança de que chegará um dia em que os policiais brasileiros, com nova mentalidade, bem-selecionados, com competência e bem remunerados, hão de conquistar o respeito e o apreço do povo brasileiro.Isso também não é uma sonho impossível ou tudo que é bom seria utopia? Creio que não.
O Brasil é aqui, leitor, e por isso mesmo necessita de ajuda urgente em todos os itens mencionados acima. O país real não é esse que mostra índices de crescimento econômico bom, mas dá as costas para problemas crônicos que aí estão aos olhos dos conscientes, não aos olhos das elites políticas que têm bons médicos, bons hospitais, maravilhosos apartamentos ou mansões, sistemas privados de segurança e gastanças bilionárias pelo mundo das grandes cidades.
Para quem acompanha pela televisão alguns problemas considerados sensacionalistas, exibindo as chagas ao vivo da sociedade pobre brasileira, ali se tem uma radiografia do cotidiano do brasileiro indefeso e ignorante de seus direitos de cidadania: mal funcionamento da engrenagem da máquina do governo: na saúde, na segurança, na educação, na moradia, nos transportes de massa.
Basta que os governantes vejam tais programas e deles tirem suas lições que seguramente hão de fornecer-lhes muitos subsídios a fim de encaminhar soluções para os problemas enfocados. Não se mirem tais governantes somente em canais ou jornais que perversa ou ideologicamente ocultam as mazelas de que o povo está sofrendo e sofrendo muitas vezes sem voz própria, raramente manifestada, entre o choro e o desespero, por frases mal organizadas devido à baixa instrução, frases que ecoam num deserto sem soluções, quase gritos que voam como folha seca e inútil aos olhos dos responsáveis pelo bem-estar de um povo. O Brasil é aqui.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Os árabes:a caminho da liberdade

Cunha e Silva Filho


Um mundo conturbado em vários flancos: violência urbana e, por vezes, no campo, corrupção em vários níveis da sociedade e das instituições públicas, tsunamis e terremotos e ameaça da radiação nuclear de grandes proporções a partir do Japão, crimes motivados por razões torpes ou banais, crises econômicas pipocando aqui e ali em nações européias, enfim, o quadro que se nos apresenta nada é animador. Muito ao contrário.
Entretanto, se não é uma notícia de causar inveja, é pelo menos um sintoma animador embora concretizando-se em meio a lutas sangrentas entre filhos da mesma nação.
O fato é que os povos árabes, depois de um longo período de agressões à cidadania, ao direito de expressão individual, à liberdade plena de pensamento e a toda sorte de repressão a reivindicações contra as vilanias do poder autoritário, usurpador, fascista em vários países árabes, parece ter seus dias contados.
Os primeiros sinais partiram do Egito dominado por Mubarack, primeira mudanças para um novo fase de cidadania de um povo. Observe-se que aquelas velhas palavras tantas vezes ouvidas de ouvidas em manifestações ocidentais “um povo unido jamais será vencido” não deixam de ter sua atualidade neste contexto do mundo árabe.As manifestações em ruas de milhares de opositores aos regimes discricionários ou teocráticos mostram que têm peso e voz e são realizadas com coragem, porque enfrentam o fogo policialesco a serviço dos ditadores. Sempre eles com a mesma mise-en-scène, as mesmas características de “baixar o pau” nos costados de indefesos manifestantes. A única diferença entre eles e outros assemelhados em todo o Planeta é a língua, já que matar, esfolar, machucar não necessitam de entendimento, quando o que vale mesmo é o poder do gás lacrimogêneo, do gás de pimenta, dos tiros pra matar inocentes. São meros atos de barbárie, sem razão, nem raciocínio,nem diálogo, no quais os meios justificam os fins. São farinha do mesmo saco impondo determinações do poder que se alimenta da força das armas - único combustível do Estado assassino e covarde.
Vivemos a primeira década do século atual e por isso, com tanta avanço científico feito pro bem e pro mal, tendo o mundo passado, num mesmo século, por duas guerras mundiais – dois grandes inimigos da humanidade, portanto - , e com um avanço nos estudos do Direito, das Ciências Políticas e do aperfeiçoamento das instituições democráticos em muitas países, ou seja, com inúmeros paradigmas que bem poderiam servir de espelho a nações autoritárias, ainda infelizmente estamos atravessando uma onda de uso indiscriminado da força contra a liberdade dos povos.
Não é mais possível que o autoritarismo, os regimes de força ainda persistam em submeter nações aos seus desígnios e prepotências, como se fossem donas da vontade e da liberdade por algum direito divino ou dádivas dos deuses com pé de barro.
No quadro geral do mundo árabe, povos, cansados da opressão e da “servidão humana”, têm manifestado, ainda que com perdas de vidas, a convicção de que vão se cercar de todas as formas possíveis contra opressores na Síria, no Iêmen, no Bahrein, na Jordânia, entre outros povos árabes A Líbia agora, está enfrentando os bombardeios em suas defesas bélicas, o seu espaço aéreo está isolado, sob a mira de caças franceses e ingleses, em obediência a determinações de órgãos de segurança internacional , tendo à frente a ONU e a OTAN e o apoio dos Estados Unidos, os quais se mostram algo tímidos diante deste conflito naquele país de Kadafi que, até agora, não deu sinal de rendição ou de mesmo renunciar ao seu “reinado” de quatro décadas de mandonismo e truculência contra o povo líbio.
Suponho, com o andar da carruagem, que Kadafi dispõe de poucos trunfos nesse combate contra forças internacionais poderosas. Sua recusa de de deixar as delícias do poder o impedem de ver que o cerco está cada vez mais estreito para ele e nação há como capitular ou partir para uma negociação mais segura pra a sua integridade física. Nenhum homem da Terra pode se arrogar o direito de se perpetuar no poder. O fim dos tiranos não é fácil de se prever. A despeito das diferenças de costumes, de religiões, de tradições e visões que os árabes têm, eles, como nós ocidentais, somos seres humanos e, por conseguinte, indivíduos que anseiam pelo bem-estar de sua família e da sua sociedade. A democracia, extraordinária criação dos gregos (em Atenas precisamente) não é assim tão difícil de ser absorvida pelas nações. Conquanto naquela forma de governo possa haver de defeitos, ainda assim seria um caminho universal de entendimento melhor entre os povos.

domingo, 27 de março de 2011

Um poema de John G. Saxe( 1816-1887)*

Find a way or make it


It was a noble Roman,
In Rome’s imperial day,
Who heard a coward croaker,
Before the castle, say:
“They are safe in such a fortress;
There is no way to shake it!”
“On! On!” exclaimed the hero,
“I’ ll find a way, or make it.”

Is Fame your aspiration”
Er path is steep and high;
In vain you seek her temple,
Content to gaze and sigh:
The shining throne is waqiting.
But he alone can take it
Who says, with Roman firmness,
“I’ll find a way, or make it.”

Is Learning your ambition?
There is no royal road;
Alike the peer and the peasant
Must climb to her abode;
Who feels the thirst for knowledge
In Helicon may slake it,
If he has still the Roman will,
To “find a way, or make it!”

Are riches worth the getting?
They must be bravely sought;
With wishing and with fretting,
The boon cannot be bought;
To all the prize is open,
But only he can take it,
Who says, with Roman courage,
“I’ll find a way, or make it!”

* John Godfrey Saxe, poeta americano

Encontre o caminho, ou o construa


Um nobre romano era
Dos imperiais tempos de Roma,
Quem um resmungão covarde ouviu
Dizer diante de um castelo:
“Nessa fortaleza a salvo estão;
Não há quem a destrua!”
Prosseguir! Prosseguir!”, o herói exclamou,
“Um caminho hei de encontrar, ou então construí-lo.”

É a Fama a sua aspiração?
Dela íngreme e elevado é o caminho;
Seu templo debalde procura,
Feliz em contemplá-lo e por ele suspirar:
Resplendente, o trono o aguarda.
Contudo, só quem o consegue,
Com firmeza romana, é aquele que assevera:
“O caminho hei de encontrar, ou construí-lo!”

Nossa ambição é o Saber?
De realeza caminho não há.
Tanto nobres quanto camponeses
Obrigados são a ascenderem à morada daquele.
Quem do conhecimento sente a sede
No Helicon apagá-las poderá
Se ainda da vontade romana dispuser
De “um caminho encontrar, ou construí-lo!”

Riquezas valem a pena?
Com bravura procuradas devem ser.
Com anelos e agitações
Dádivas não se compram,
A todos o prêmio se destina,
Porém, só quem o arrebata
É quem, com coragem romana, afirma:
“Um caminho hei de encontrar, ou construí-lo!”


(Tradução de Cunha e Silva Filho)

quinta-feira, 24 de março de 2011

Minha querida Liz Taylor

Cunha e Silva Filho


Lá nos inícios dos anos 40, você já surgia na tela em preto e branco, estonteantemente bela, com aquele sorriso de invejar todas as meninotas de sua idade. O olhar, nem se fala... Eram olhos de alegrias e de ingenuidade, de pura inocência fagueira, de uma menina, que, ao longo da vida, não chegaria à velhice majestosa dos oitenta anos, e haveria de viver tantas emoções, dores, decepções, doenças, vícios, casamentos desfeitos( um refeito), tudo, enfim, que parece ser uma espécie de sina sombria que acompanha alguns grandes artistas mundiais. Há esse grande mistério, insondável mistério que prodigaliza seres esteticamente maravilhosos, de beleza incomparável, e, no fim dos seus dias, lhes cobra alguma coisa em forma de padecimentos e desgraças, morais, físicas, psicológicas, existenciais.
Jamais saberei explicar que mistério é esse de final infeliz ou problemático que, por assim dizer, faz parte de algumas pessoas famosas que poderiam morrer de velhice, sentada tranquilamente num sofá de sua casa cercada de carinhos e da amizade de todos, ou seja, morrendo qual um passarinho, dando o último suspiro de uma vida em parte belamente vivida, intensamente vivida nos seus amores e nos seus sentimentos, pois, como se costuma dizer, tinham tudo pra serem felizes plenamente e não o foram.
A atriz inglesa de lindos olhos cor azul-violeta, de voz aguda e doce, carregando, numa das faces, um lindo sinal, durante bom tempo atraiu a atenção de milhões de homens atraídos e magnetizados pela doçura de seu rosto, de sua pele, e de sua cintura fina, e permaneceram-lhe fieis súditos de sua invejável beleza física. Elisabeth Taylor (1932-2011), essa inglesinha de Londres e filhas de pais americanos conquistou corações não só de adultos mas também de adolescentes que nos deslumbrávamos com a sua carinha linda, sua vozinha feminina, seu nariz perfeito, sua boca escultural, sua meiguice, seus olhos de tom azul-violeta, provavelmente os olhos mais lindos que o cinema mundial já nos deu. Não é apenas a cor dos olhos que torna as pessoas belas: é, antes,o olhar que elas nos dirigem, a expressão que nos transmitem a sensação de quem está diante do belo que é eterno, como afirmou o poeta romântico John Keats( 179601821).
Não deixam de passar pelas nossas retinas filmes com os quais ela nos encantou com a sua presença de protagonista, Cleópatra, Ivanhoé, Um lugar ao sol, A última vez que vi Paris , entre tantos outros filmes.
Liz Taylor, como era mais conhecida, não só se fez pela beleza mas pelo talento dramático. Ganhou dois Oscars de melhor atriz. Ganhou prêmios e honrarias tanto nos EUA quanto na Inglaterra. Liz é mais do que uma atriz do cinema. Como lembrou um colunista nosso, ela foi algo quase virtual em termos de cinema. Foi muito além de um ícone. Era uma estrela que se eternizou.
Teve participação social , mesmo já doente, lutou em campanha contra a AIDS, contra preconceitos. Foi, pois, participativa. Era amiga fiel dos seus amigos (Rock Hudson, Michael Jackson). Adorava jóias.
Sua vida sentimental-amorosa foi intensa, oito casamentos. Amou apaixonadamente, e foi por ele correspondida, o ator irlandês Richard Burton, seu marido por duas vezes.
Minha querida menina-atriz de There’s one Born every minute, no papel de Gloria, de 1942, ou da série Lassie come home, de 1943, interpretando Pricilla. Você viu a fama que conquistou, sentiu que o mundo a amou e encantou-se com você. Então, minha bela Liz, só me resta, ou melhor, só nos resta pranteá-la nesta ausência da beleza e da dor universal.