domingo, 11 de abril de 2010

A tragédia do Bumba


Cunha e Silva Filho



Bumba é uma antiga favela de Niterói na qual, no dia 9 deste mês, um descomunal deslizamento de terra soterrou dezenas de casas e parte de seus moradores. Com as chuvas torrenciais e contínuas, parte do Morro do Bumba não suportou o peso das águas, esfarelou-se, descendo com casas e seus moradores, destes fazendo muitas vítimas fatais. Por sorte, alguns sobreviveram fugindo a tempo, outros foram regatados dos escombros . O saldo, porém, foi devastador e apavorante.
Olhando-se para a cratera formada com a avalanche de terra molhada e lama, ela mais me lembra a configuração do comprimento de um pequeno canyon assombrando a todos por seu tamanho, pelo tamanho da abertura daquela parte do morro criando duas margens altas do solo entre o enorme fosso surgido.
Computando as vítimas fatais das chuvas, inundações e desmoronamentos, a Região Metropolitana, a cidade do Rio de Janeiro e outros municípios fluminenses já atingiram 212 mortos em pouo menos de uma semana!
O Corpo de Bombeiros, a Defesa Civil, alguns homens da Força Nacional enviados por determinação do Presidente da República, além do apoio e solidariedade dos próprios moradores, sobreviventes e voluntários têm feito um trabalho digno da admiração de todos. Só temos que agradecer por ainda podermos contar com o inestimável auxilio desses profissionais e dessa gente toda que se empenharam heroicamente para minimizarem as dores, aflições e padecimentos de quem perdeu familiares, amigos e bem materiais, a começar de suas casas construídas com sacrifícios de toda ordem. Choros, gritos desesperados, olhares de imensa tristeza e desolação que a tela da televisão nos mostrou têm sido a rotina das notícias nesta semana de agonia e luto. Não há como não partilhar dessa dor geral, dessa desgraça ocorrida.
Por outro lado, há que se questionar os fundamentos da tragédia do povo fluminense, ou seja, não podemos deixar de apontar responsáveis que, no caso, são os poderes públicos, o Estado brasileiro em suma, e toda a sua hierarquização de instâncias por décadas omissas, a federal, a estadual e a municipal.
Cumpre assinalar que nenhum desses setores da máquina do Estado tem cumprido devidamente, conforme manda a Constituição, seu papel de proteger o cidadão brasileiro por todos os meios disponíveis e sobretudo em situações de calamidade publica, seja para prevenir tragédias desta monta, seja para tomar iniciativas inerentes a gestões da governaça.
Os governos são muito previdentes e rigorosos quando desempenham suas funções de arrecadação e cobrança extorsivas de taxas e impostos com os juros mais altos do mundo. Contudo, quando necessitamos de ações dirigidas a melhorias de áreas vitais ao bem-estar social – habitação, educação, saúde e segurança -, a máquina administrativa, em todos os níveis, é ineficiente, protelatória, improvisada e imprevidente, quando não demagógica.
Na questão da moradia – a tragédia das chuvas só vem confirmar isso - , por que, ao longo de décadas, não se conteve o avanço da favelização em toda a parte e principalmente nos morros do Estado do Rio de Janeiro? Os governantes pouco ou nada fizeram para inibir essa explosão de moradias precárias em lugares de risco, que são os morros, as margens de rios, de riachos e até junto ao mar. Assim como não se formulou até hoje nenhum planejamento para conter o excesso migratório de um contingente enorme de populações do Norte e sobretudo do Nordeste que vêm procurar no Rio e São Paulo uma forma melhor de vida. Isso é pura ilusão dos migrantes que, sem qualificação profissional, ainda vêm inflar cada dia mais as grandes capitais, contribuindo para um colapso da já precária infraestrutura geral das capitais brasileiras. Essa superpopulação nas metrópoles é também causa de um dos males contemporâneos, a escalada da violência.
Num primeiro momento de reflexão sobre as raízes das tragédias, a conclusão a que se poderia chegar é que inegavelmente diversos fatores de ordem social – pobreza, desemprego, explosão demográfica, ausência de políticas públicas efetivas e permanentes -, em grande parte são responsáveis pelas opções de moradia nos morros (ou em outros espaços urbanos inadequados), já que estes se localizam mais perto dos lugares de trabalho da população.
Não são, portanto, a Natureza, o excesso de chuvas os vilões das tragédias, especificamente destas que se abateram sobre o Estado do Rio de Janeiro.
As habitações dos morros não podem servir de espaço para deleite e curiosidade de turistas estrangeiros. A criação da favela é uma realidade que aí está. No entanto, urge saber onde moradias nestas condições podem existir e se manter. Sérias e decisivas políticas de habitação deveriam ser prioridades dos governos a serem implementadas a fim de tornar o mais possível seguras essas habitações, ou seja, sem a constante ameaça dos desmoronamentos ceifando vidas humanas de todas as faixas etárias. Um outro fato não se pode desprezar: que não se permita o surgimento de novas favelas nos morros e em áreas impróprias. A presença do governo deve ser constante e determinada nestas eufemisticamente chamadas comunidades.O termo é impróprio, esconde intenções de natureza ideológica e só contribui para novos incentivos de moradias desse tipo.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Fernando Pessoa: "Sonnet XXVI"

Fernando Pessoa: “Sonnet XXVI”



Sonnet XXVI

THE WORLD is woven all of dream and error
And but one sureness in our truth may lie –
That when we hold to aught our thinking’s mirror
We know it not by knowledge it thereby.
For but one side of things the mirror knows,
And knows it colded from its solidness.
A double lie its truth is; what it shows
By true show’s false and nowhere by true place.
Thought clouds our life’s day-sense with strangenesss, yet
Never from strangeness more than that it’s strange
Doth buy our perplexed thinking, for we get
But the words’ sense from words – knowledge, truth, change.
We know the world is false, ot what is true.
Yet we think on, knowin g, we ne’er shall know.


Soneto XXVI

O MUNDO se tece, inteiro, de sonhos e erros
E apenas de nossa verdade uma certeza negar se pode –
Aquela na qual o espelho de nosso pensamento a qualquer custo seguramos
Conhecemo-lo não por o conhecer por esse meio.
Porquanto das coisas só um lado o espelho vê,
E o sabe fria e inflexivelmente.
Não passa de duas mentiras sua verdade; o que ele revela
Da verdade soa falso, assim como o lugar certo
Com estranhamento o pensamento, porém, os sentidos diários de nossa vida ofusca
Nunca do estranhamento mais do que sua estranheza
Consegue entender nosso pensamento perplexo, visto que alcançamos
Das palavras apenas o sentido – conhecimento, verdade, mudança.
Do mundo conhecemos só o lado falso, não o verdadeiro.
Contudo, pensar é preciso, conhecer a verdade, impossível é.

(Tradução de Cunha e Silva Filho)

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Da fragilidade da Cidade Maravilhosa

Da fragilidade da Cidade Maravilhosa


Cunha e Silva Filho


Em bem menos de uma semana, o estado do Rio de Janeiro já registra quase cento e cinquenta mortos vítimas da chuvarada que sobre ele se abateu sem piedade. As chuvas se distribuíram entre a capital e algumas cidades do estado como Niterói, Petrópolis, Nilópolis, região do lagos e algumas outras áreas metropolitanas. Há, no entanto, uma singularidade nesta tragédia sofrida pelo povo fluminense. A violência das águas, provocando inundações, deslizamentos de terra e consequente desmoronamento de moradias, começa a atingir também casas de luxo situadas, por exemplo, no Alto da Boa Vista.
Deslocando-se o foco de nossa atenção para a cidade do Rio de Janeiro, constatamos que as inundações alcançaram a cidade de forma inteira, desta vez sofreram o velho centro da acidade, a zona norte, a zona sul, o subúrbio, a zona oeste, tudo inundou. É claro que as moradias nas encostas dos morros são mais drasticamente castigadas, já que as construções são mais frágeis e seus alicerces não suportam as avalanches de terra, lama e rochas que, encosta abaixo, vão derruindo tudo o que encontram pela frente. As lágrimas dos sobreviventes pouco consolam as perdas dos entes queridos. A tragédia não é só de perdas de vidas, que é a sua forma mais pungente e dolorosa. A tragédia também é de deixar milhares de pessoas desabrigadas, muitas vezes apenas com a roupa do corpo. Tudo foi despedaçado pelas águas: móveis, alimentos, agasalhos, enfim, tudo que se conseguiu com sacrifício em anos de trabalho e de luta.
São tantos os lugares da tragédia que nem a defesa civil nem o corpo de bombeiros têm dado conta dos chamados para resgate de sobreviventes e recolhimento dos corpos soterrados pelos desmoronamentos de terras sobre as moradias populares. Cenas há tão desesperadoras como naqueles lugares afastados em que filhos procuram cavar, no meio dos escombros, algum ponto no qual possam localizar seus pais . As cenas são desoladoras e mais parecem aquelas destruições provocadas por terremotos.
A quem cabe responsabilizar por todas essas perdas humanas , por todas essas perdas materiais? A natureza inclemente? Não, certamente.
A ocupação do solo urbano carioca dá uma impressão de que a cidade foi surgindo, desde os tempos coloniais, a partir de improvisações de governantes incompetentes e omissos. Vejam-se as favelas cariocas, que cresceram assustadoramente nos últimos cinquenta anos. Tivemos poucos bons governadores e prefeitos. A omissão dos governantes que passaram pela cidade do Rio de Janeiro é flagrante em vários setores vitais educação, saúde, segurança pública, transporte de massa.
As dezenas de vidas perdidas por desmoronamento nos morros são resultado da ausência de ações públicas que não impediram a ocupação do solo em lugares de alto risco, como são as formações de favelas, para as quais migram populações desfavorecidas da sociedade, principalmente vindas do Nordeste
A topografia do Rio de Janeiro, de beleza exuberante, sobretudo pelo contraste entre o espaço urbanizado do asfalto e a vizinhança dos morros, das montanhas, nos mostra que a cidade edificada facilmente fica vulnerável às enxurradas, ao aguaceiro que vem dos morros ocupados por favelas, por construções improvisadas que destrocem a vegetação do solo, deterioram o solo maltratado pelas construções, por alicerces que não respeitam as condições do terreno nas elevações. Do alto do s morros o Rio é um buraco, mas um buraco cheio de beleza e fascinação. Embaixo, no asfalto, bueiros entupidos pela sujeira acumulada nas ruas concorrem para que as águas da chuva não fluam ordenadamente. Além disso, a cidade é cortada por muitos rios, canais que, com chuvas torrenciais, transbordam e espalham suas águas barrentas e enlameadas pelas ruas em várias direções, causando as costumeiras inundações na cidade. São muitos os fatores que, somados, resultam nos transtornos dos alagamentos, sobretudo em pontos já conhecidos do povo e das autoridades.
Ao contrário de outras cidades do mundo que se preparam para situações de riscos, como inundações ou outros desastres naturais, o Rio não se modernizou em obras de infraestrutura de ponta, por exemplo, se utilizando dos recurso e possibilidades propiciados pela engenharia brasileira.Temos pessoal competente nas universidades nossas que poderiam implementar obras de grande porte a fim de melhorar consideravelmente os problemas trazidos pelas inundações. Nosso povo tem um péssimo defeito, que é o de só procurar solucionar problemas críticos quando as desgraças acontecem. Não há senso de previdência, de visão antecipadora para problemas em situações de emergência.
As ações de nossos governantes só vêm a muito custo, apenas quando a tragédia já ocorreu. Faltam-nos governantes capazes e dotados de integridade moral e de vontade política dirigida principalmente ao bem coletivo. Se o habitante do Rio de Janeiro se encontra até hoje refém das águas pluviais, não é absolutamente porque as chuvas são excessivas, como declarou o prefeito atual do Rio.. Não se culpe a natureza pela nossa tragédia. Culpe-se a incompetência dos governantes, culpe-se a falta de educação de quem mora no Rio, que não cuida bem da cidade, espalhando sujeira e lixo por todo lado. Não vemos isso em Curitiba e em outras cidades brasileiras, que ainda são limpas e organizadas. Imitemos o que é bom e sadio para a bela cidade de São Sebastião.

terça-feira, 6 de abril de 2010

A chuva parou o Rio hoje




Cunha e Silva Filho


Certeza não tenho, mas esta é a primeira vez que a Cidade Maravilhosa pára por causa do mau tempo. Hoje é dia 6 de abril. Está chovendo no Rio desde ontem. Chuva que veio forte, depois abrandou, voltou, durante a madrugada, pesada, a cântaros (lembrando um filme a que assisti há muito tempo chamado “As chuvas de Ranchipur”, de 1955, com Richard Burton e Lana Turner)), alagando a cidade inexoravelmente, sem dó nem piedade. Todas as partes do espaço urbano carioca foram açoitadas pela água em abundância, que desce das nuvens, que desce dos morros, causando estragos no asfalto, nas ruas calçadas ou nas ruas de chão batido dos bairros humildes, modificando a paisagem e o quotidiano das pessoas, paralisando parte das atividades da população que, de longe, se move em direção ao trabalho. A cidade parou mesmo. Poucos carros nas ruas. Pouco movimento humano. Um deserto urbano.
O prefeito pediu que as pessoas permanecessem em casa, que não houvesse aulas nas escolas públicas municipais. Alguns bancos fecharam as portas. Houve vítimas de deslizamentos de terra nas encostas dos morros. São setenta as vítimas fatais, em geral, pessoas humildes que se obrigaram a morar nas favelas ou, para ser politicamente correto, nas comunidades, cheias tanto de pessoas dignas quanto de bandidos, de traficantes e outras mazelas.
A cidade do Rio de Janeiro, como outras do país, não está preparada para chuvas torrenciais. Quando vejo o traçado do Rio, me vem à tona a figura do romancista Lima Barreto(1881-1922) Analogia que não deixa de ter sua lógica, não a formal, mas a da força da observação arguta do narrador e da ironia. Sendo uma cidade suja, com bueiros entupidos, com muita sujeira por toda a parte, nos tempos de chuvas, o fluxo da água encontra obstáculos e o resultado são os alagamentos com todas as suas sequelas.
Olho, agora, para fora do apartamento e vejo que a chuva deu uma colher de chá . Mas, o tempo, as nuvens dão sinais de que a água do céu pode retornar. Rezemos para que, se vier mais chuva, que venha fraca e só faça o bem. Chega de tragédias. Gosto de ficar em casa quando chove, gosto do vento mais frio que sopra suave e nos faz respirar mais livremente. Esta é a chuva de que gosto.
Olhava pra rua há pouco, e na rua só havia lama por toda a parte de sua extensão. Minha rua é uma pequena travessa, entre a Barão de Mesquita e a Av. Maracanã. Está merecendo que um abaixo-assinado seja dirigido ao alcaide a fim de que o calçamento nela seja substituído por asfalto e que, lá no meio dela, se coloque um quebra-mola, para evitar que motoristas violentos a atravessem com maior velocidade
Um porteiro nordestino de andar trôpego, com uma pá, muito cuidadoso com seu ofício, estava retirando da calçada do prédio em que trabalha, a lama que borrava parte da calçada, uma calçada feita de ladrilhos com bolinhas pretas. Outro porteiro, mais adiante, usando uma mangueira, indolentemente esguichava água, que é um produto caro hoje, para retirar detritos da calçada do seu prédio, trazidos pela água e lama vindos do transbordamento do vizinho rio Maracanã.
De vez em quando, passava um carro atravessando a minha pequena rua. Neste instante, a chuva recomeça, a indicar que será intermitente. Que não se torne num aguaceiro. Paro aqui meus comentários. Até um próximo encontro pelos caminhos ou descaminhos da escrita, leitor.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

"Viver a vida": a importância do olhar


Cunha e Silva Filho



Não nutro preconceito contra novelas de televisão. Muitas delas são excelentes e a elas novos recursos técnicos estão sempre se incorporando. Já se consolidou como um novo gênero narrativo eletrônico no campo ficcional. No país, foi o crítico e ensaísta Afrânio Coutinho (1911-2000) quem, em artigo no extinto jornal Última Hora, a considerou um novo gênero literário (Cf. SOUSA DANTAS, Jose Maria de. Didática da literatura. Rio de Janeiro: Ed. Forense-Universitária, 1982. Ver capítulo 12, “A Telenovela”, p. 181-183). Coutinho no artigo lembrava que a novela de TV substituía, no século 20, o antigo folhetim, onde, na França, no século 19, foi cultivado por vários escritores, sendo um dos principais Eugène Sue (1804-1857) com Os Mistérios de Paris, aliás muito traduzido.
Esse gênero, no Brasil, também encontrou alguns seguidores, como Manuel Antônio de Almeida, Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar, entre outros.Coutinho, ainda no mencionado artigo, teorizava que o novo gênero reunia elementos do folhetim, que é literatura, teatro e cinema. O crítico previa que a telenovela iria alcançar um nível cada vez melhor, tanto no texto quanto na dramaturgia, inclusive assinalava que sua prática entre nós já conseguira resultados positivos com a “criação de verdadeira escola dramática”, ensejando o aprimoramento do nível de talentosos artistas entre nós.Finalmente, Coutinho antecipava que o novo gênero iria receber forte influência da televisão sobre as “técnicas narrativas” assim como se dera com o folhetim e o cinema.
Pessoas há ainda que pouca ou nenhuma relevância dão às novelas de televisão, sobretudo no meio acadêmico.Outras a veem apenas como uma forma de entretenimento de massa, como uma forma alienada atingindo milhões de telespectadores. Para mim, isso não passa de preconceito de ordem elitista, de highbrowism tupiniquim.
Qualquer indivíduo que lida com a pesquisa cultural não pode subestimar o avanço desse gênero de entretenimento que chegou para ficar. Não nego que há níveis ou graus diferentes de valorização dessa aliciante forma de produzir emoção, prazer e estesia. Se a novela televisiva atende ao gosto popular, ela abrange outros níveis de leitura, não se descartando o estético, o informativo, o do debate de temas propostos pelo próprio enredo, ao qual se adicionam componentes extranarrativos, como o testemunho vivo de pessoas complementando o caleidoscópio de aspectos da realidade empírica com a fantasia ou imaginação.
Costuma-se ainda criticar nas telenovelas brasileiras alguns estereótipos, lugares comuns, maniqueísmos, e repetitiva formatação de enredo, mesmice dos conflitos apresentados, influência do público segundo a direção da fabulação através de enquetes junto ao telespectador. Esse aspecto redundante ou entrópico ainda glamouriza espaços socais elevados, a vida dos ricos e famosos a que autores dão maior peso na novela, sabendo de antemão que isso se ajusta muito bem ao gosto médio ou baixo do repertório cultural do telespectador. Outras vezes, faz contraponto com espaços rebaixados da pirâmide social, mas, como diria um crítico e ensaísta Fábio Lucas ( LUCAS, Fábio. O caráter social da ficção do Brasil São Paulo: Ática, 1985, Série Princípios) sem nunca “problematizar” as questões envolvidas nos enredos. Dessa forma, abortam pela raiz os chamados conflitos de classes e a sociedade permanece firme nas suas diferenças perspectivas e nas suas clivagens sociais.
Afastando, no entanto, essas deficiências do gênero das telenovelas, pode-se também aproveitar certas dimensões subliminarmente introjetadas pelos escritores desse gênero ou mesmo pelos escritores do gênero ficcional ou do teatro, que passaram pela experiência de roteirizar textos para a televisão, como Dias Gomes, Aguinaldo Silva, entre outros.
Já é tempo de se escrever um capítulo em nossas histórias literárias que se ocupe de fornecer uma visão panorâmica das telenovelas. Temos suficiente know-how e um número apreciável de escritores devotados a escrever histórias televisivas, sem esquecermos de que contamos com um número respeitável de bons atores e atrizes quase trabalhando só em novelas de TV. Além dessa contribuição, pode-se lembrar o grande número de obras-primas da ficção brasileira adaptadas para a televisão, algumas vezes, com invulgar talento por parte de experimentados roteiristas.
Na história da telenovela brasileira, há um nome esquecido que, durante um bom período, militou na crítica de televisão. Sendo um bom cronista, foi ainda um melhor crítico de novela televisiva. Estou falando de Artur da Távola (1936-2008)), pseudônimo de Paulo Alberto Monteiro de Barros, cuja carreira de escritor ficou, a meu ver, prejudicada ou torcida quando do seu ingresso na política nacional. Perdemos um bom crítico. Nem sei se seus artigos publicado em O Globo foram reunidos em livros.
Visto ser “o olhar’ o tema principal deste artigo, aproveito para desenvolvê-lo tendo por objeto de análise a novela “Viver a vida”. De antemão previno o leitor de que não me interessam na novela a miudeza, as filigranas de nomes e personagens. Nela me intrigam, no entanto, aspectos que, talvez, não constituam o centro do fiel telespectador em sua maior ou menor capacidade de entendimento de novela.
Dentre outros aspectos, há um em particular - para inspirar-me num conhecido título de um livro de Gilberto Mendonça Teles - que eu chamaria de “estilística do olhar”, recurso ampla e reiteradamente utilizado por Manoel Carlos, autor da novela assistido por colaboradores.
Assim como no cinema, os closes nos permitem ver com maior argúcia a expressão fisionômica da personagem, que, por sua vez, muito revela do seu mundo interior, na novela “Viver a vida” a câmera magistralmente registra a visão do “olhar” da personagem de maneira tão encantadora que a emoção trocada entre dois personagens em cena se torna artisticamente verdadeira e nos abre diversas possibilidades de compreensão dos papéis do atores e atrizes. Pode-se mesmo aventar a hipótese de ser o “olhar” na história uma de suas dimensões de maior carga emotiva.
Não significa, todavia, que o “olhar’ seja um caso isolado de alguns poucos personagens. A contrário, ele se estende a vários atores e atrizes coadjuvantes. Ao longo dos diálogos competentemente urdidos, a estratégia do “olhar’ confirma, pela sua intensidade e verticalidade, ser um dado permanente e por isso reafirma essa “estilística” que perpassa a expressão visual-gestual das personagens.
Por outro lado, vejo a “estilística do olhar’ como um recurso muito associado ao sentimento do amor ou de um possível e latente despertar desse sentimento cedo ou tarde ao longo da história. Vejo mesmo, na focalização da câmera, que esse recurso torna-se, por sua própria natureza, uma expressiva notação da fisionomia da personagem que, por ser reiterativa nessa narrativa televisiva, propicia ao analista uma maior abrangência perceptiva. Quer dizer, esse modo de ver a personagem de maneira sutil se realiza num tempo curto, mas de grande efeito dramático, o qual mais se comunica pelo silêncio acompanhando o “olhar.” Perde-se a oralidade do diálogo, mas se ganha admiravelmente em sua profundidade, em sua verticalidade, repito.
Para completar essa fórmula de comunicação das emoções entre as personagens vivendo uma grande experiência amorosa permanente ou continuada, é inegável que da parte dos telespectadores exista uma fruição que se colocaria no mesmo circuito comunicativo, como que instaurando um tripé de cumplicidade pelo lado da emoção e da identificação sublimadora entre os sentimentos da representação dramática e da própria experiência sentimental do telespectador. Disso são exemplos algumas trocas de olhares entre os personagens gêmeos, Miguel e Jorge, e as figuras femininas com quem formam pares amorosos, O mesmo valeria para os personagem Bruno, Marcos e outros.
Observar detidamente esta “estilística do olhar’ será uma das maneiras fecundas de apreensão da visão do autor sobre o “olhar” e sua indispensável estratégia de dar foros de autenticidade e verossimilhança, e - não se esqueça -, essa estratégia é que reponde por um dos valores estéticos da novela. Em outras palavras, o “olhar” na novela, pelo silêncio e pela suspensão momentânea da fala, é chave valiosa para um mergulho denso de emoções de profunda tentativa de comunicar-se com o ente amado, não o fazendo com palavras explícitas, mas escondendo afirmações e anseios semiotizados pela “estilística do olhar” de quem queria abrir seu coração e afirmar sua subjetividade amorosa. A emoção não verbalizada se frustra em parte, mas no seu interior permanece em ebulição. Tal elemento, na estrutura da novela, se me afigura de capital importância.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

O que o brasileiro deseja para seus filhos

O que o brasileiro deseja para seus filhos

Cunha e Silva Filho


Não é difícil de responder a este tema. Precisa de ser feliz. A palavra felicidade tem muitas direções e cada uma se ocupa de uma fração da felicidade. Sejamos, porém, práticos e vejamos o que faria feliz um brasileiro, um cidadão deste país de tanta beleza e ainda de tantos graves problemas, sobretudo o moral, de difícil solução imediata. Entendo que a moralidade, como a ética, se constrói e sua raiz principal, raiz-mater há que se buscar em dois flancos da vida humana: na família e na educação.
Ninguém pode negar que a sociedade brasileira contemporânea enfrenta sérios percalços de ordem familiar, a começar das camadas mais humildes da população, nas quais inexiste o núcleo familiar: filhos vivem com a mãe, ou com o pai, sendo, pois, ambos separados na convivência e no amor. Outras vezes, nem vivem com os pais, mas nas ruas.
Por outro lado, a família das classes média ou alta se têm pais casados ou separados, na prática muitas vezes em nenhum dos dois casos funciona. Na luta pela sobrevivência e até ambição desmedida, os pais, consciente ou inconscientemente, negligenciam a formação ética e educacional dos filhos, quer dizer, os filhos dispõem de todas as regalias da sociedade de consumo e, ao fim de sua formação físico-picológica, não se dão conta de que a eles faltou algo sumamente relevante que deveriam receber de seus pais afeto, amor, real interesse pelo seu bem-estar, pelas suas aspirações. Nos lares dos excluídos, a família se desagregou, com poucos números que comporiam as exceções.
Tanto os excluídos de qualquer proteção material quanto os incluídos nas benesses de uma vida confortável, por razões que ainda não foram suficientemente pesquisadas, se tornam presas dessa malignidade dos tempos atuais: as drogas. É nesse ponto de exaustão de procedimentos conducentes às tentativas de solução ou melhoria do mal da droga que entram em jogo o concurso dos meios de segurança pública e a escola. Há escolas e escolas. Escolas que funcionam dando boa formação intelectual e cívica e escolas nas quais apenas se cumprem - rotineiramente - princípios burocráticos do sistema de educação. A escola pública burocratizada é um dos maiores males da educação pública brasileira. São de pouco valor essas últimas, pois nada acrescentam à formação da juventude não só pela via do conhecimento mas também pelo caminho da formação cívica, pela internalização de práticas pedagógicas para a vida social equilibrada e sedimentada em valores humanísticos. A inclusão da disciplina filosofia no ensino médio se podia estender para, em aulas dosadas à compreensão do início da adolescência, as duas últimas séries do ensino fundamental, a 8ª e a 9ª.
É preciso que à criança e aos adolescentes, das faixas etárias dos 12 aos 14 anos se deem esmerada orientação para a vida, que até poderia se transformar numa disciplina não-eliminatória, com aulas agradáveis mostrando ao educando o que seria o caminho da dignidade e o da perdição.Lembro-me de que Olavo Bilac que, no campo do civismo, prestou enorme serviço à pátria, via as séries do antigo ginásio como um período fundamental da formação intelectual-moral do estudante. Dever-se-iam, em forma de antologia, reunir algumas conferências desse escritor, cuja atualidade intrínseca da mensagem seria de grande proveito aos alunos brasileiros.
A disciplina que eu chamei atrás de Orientação para a Vida não seria nos moldes da antiga Educação, Moral e Cívica, que foi implantada no período discricionário dos governos militares. Seria, antes, uma disciplina cujo corpus consistisse de informais palestras sem preconceitos com alguns tabus ainda arraigados à nossa visão deformada para enfrentar os desafios dos tempos pós-modernos. Seria uma área de atuação que priorizaria valores humanos imprescindíveis à formação de um cidadão responsável e consciente de seus direitos e obrigações, que fosse desconstruindo velhos preconceitos que só conduzem à cizânia entre indivíduos e sociedades. Desde a infância, passando pelo período da alfabetização efetiva do aluno, os professores já disporão de instrumentos para instilarem sementes de exemplos de brasileiros ou mesmo estrangeiros, que, pela boa educação que tiveram e pela orientação sadia que receberam da família, se tornaram figuras de alta reserva moral e cultural do país e do exterior, realizando feitos e ações nobres nos vários campos da atividade humana que só trouxeram ao país desenvolvimento e bem-estar coletivo. Mas, é preciso saber quem são essa figuras que mereceriam todo o nosso reconhecimento pelo que fizeram em benefício da posteridade.
Na década de quarenta, havia conteúdos de livros didáticos, por exemplo, em francês e inglês, que encerravam temas intimamente relacionados à formação cultural do aluno e ao conhecimento do país através de abordagens e temas que punham em prática o que venho propondo neste artigo. É só conferir. A modernidade pensou primeiro em ser apenas moderna, atual, pautada no avanço científico-tecnológico, e se esqueceu do essencial, ou melhor, da essência do ser, que é voltar-se para o aprimoramento moral do indivíduo.
Livrar o filho das drogas, do tráfico, dos ambientes esconsos e de risco cumpre aos pais e aos órgãos públicos de proteção ao jovem como sua mais alta e nobre tarefa social. O público e o privado devem dar-se as mãos, e com mãos limpas. Não com passeatas inócuas pela paz ou outras questões muito ao gosto da burguesia nossa, mas pelo deslanchar das ações imediatas, urgentíssimas, repensando o que agora se poderia fazer, esquecendo diferenças sociais, religiosas e ideológicas e pensando-se no bem comum, nesse patrimônio da Nação que não se pode perder, que são nosso jovens das favelas, dos palacetes, das ruas, da cidades e do interior, onde crescem assustadoramente a violência, o crime e a ausência de perspectivas para o futuro de cada um deles, sobretudo dos desfavorecidos e brutalizados pelos tempos que correm.

Fernando Pessoa; "English sonnet XXV"

Fernando Pessoa: “English sonnet XXV”

Sonnet XXV

WE ARE IN FATE and Fate’s and do but lack
Outness from soul to know ourselves its dwelling,
And do but compel fate aside or back
By Fate’s own immanence in the compelling.
We are too far in us from outward truth
To know how much we are not what we are,
And live but in the heat of error’s youth,
Yet young enough its acting youth to ignore.
The doubleness of mind fails us, to glance
At our exterior presence amid things.
Sizing from otherness our countenance
And seeing our puppet will’s act-acting strings.
An unkown language speaks in us, which
We are at the words of, fronted from reality.




NO FADO ESTAMOS e do Fado somos, sim, carentes apenas
Da alma do exterior a fim de nós mesmos sua morada conhecermos,
Obrigamos, na realidade, o Fado, afastando-o ou de nós o aproximando
Face à imanência em si de obrigar o Fado
Muito distantes estamos da verdade externa
Para que saibamos o quanto não somos o que somos,
Unicamente dos erros da juventude ao calor vivemos,
No entanto, jovem bastante pra suas imaturas ações desprezar.
Da morte o duplo de ver nos priva
No meio das coisas nossa presença externa,
A partir da alteridade nosso semblante avaliando
E da vontade de nossa marionete o ato de manejar os fios percebemos.
Uma língua estranha fala em nós, com a qual
Diante da realidade por entender lutamos.

(Tradução de Cunha e Silva Filho)