sexta-feira, 2 de outubro de 2009

O Simbolismo nas histórias literárias

O Simbolismo nas histórias literárias

Cunha e Silva Filho

O movimento simbolista europeu nas histórias literárias e mesmo no estudo da periodização nas obras de teoria literária, nas literaturas inglesa, americana, portuguesa e a hispano-americana, para permanecermos nos limites desta exposição, apenas nestes quatro exemplos, não aparece como capítulo nem mesmo subcapítulo de desenvolvimento autônomo do tema. Vejo nisso uma lacuna voluntária ou uma questão importante a que não se tenha ainda querido atribuir justo valor1.

Na literatura brasileira, pelo menos nas histórias literárias mais influentes, inexiste praticamente essa ausência. A questão que levanto é: será que só os historiadores brasileiros reconheceram esse estilo literário como um movimento que desempenharia, com o tempo, um papel cada vez mais saliente nos estudos de periodização literária? Ou seria uma tema ainda não bem resolvido de classificação de estilos de autores de uma época literário-cultural de transição, na qual diferentes estilos coexistiram e, portanto, sofriam influências recíprocas de prógonos e epígonos, envolvendo o Romantismo tardio, o Realismo em sua manifestação poética, isto é, o Parnasianismo, e finalmente o Simbolismo?A questão a deslindar me parece situar-se particularmente no campo da teoria literária, mas não exime também a discussão detida no domínio da historiografia literária.
O certo é que nos livros didáticos de literatura francesa escritos por brasileiros tal omissão, até onde pude alcançar, inexiste. Servem perfeitamente de exemplos, as obras Littérature française (Editora Nacional, 1966, de Maria Junqueira Schmidt, ou France immortalle (Livraria Acadêmica, 1945, 2 volumes), de Cleófano L. de Oliveira. Da mesma sorte, as escritas por estrangeiros, como o Manuel des littératures françaises (Librarie Hachette,1966), de P. G Castex e P. Surer perfilam semelhante divisão de períodos literários. Entretanto, se deslocarmos nossa atenção para os compêndios didáticos ou não de língua inglesa, não encontraremos nenhuma referência explícita ao estilo simbolista. Pensemos, por exemplo, no velho volume de Neif Antônio Alem, An outline of English literature (Edições Melhoramentos, 1942), ou mesmo em outros autores didáticos brasileiros ou não, nos quais não encontramos nenhuma referência ao Simbolismo. A divisão proposta por Neif Antônio Alem é a seguinte: Renascimento, Século XVII, Classicismo, 1ª metade do século XVIII, 2ª metade do século XVIII, Romantismo, Era Vitoriana e literatura contemporânea. Conforme se vê, após o Romantismo, nunca surge a denominação Simbolismo. Podemos constatar neste sentido um aspecto da questão em estudo : no domínio da literatura de língua inglesa, o estilo simbolista não é mencionado explicitamente.
Vejamos, agora, na literatura americana, tendo por base de confronto uma obra didática relativamente nova, An outline of American literature (Longman, 20020), de Peter B. High. Nesta obra ainda mais surpreendente é o fato de que a periodização tradicional nem sequer é citada. A divisão do conteúdo se faz por épocas temático-cultural~históricas ou sem definir os estilos literários canonicamente conhecidos entre nós.
Consideremos, agora, na literatura de expressão portuguesa, três obras não didáticas. A primeira, a clássica e conceituada História da literatura portuguesa (Porto Editora, 13 ed. corrigida e aumentada), de Antonio José Saraiva e Óscar Lopes. Nela também a divisão de movimentos literários se apresenta bastante diversa, senão completamente diferente daquela prevalente entre os historiadores brasileiros. Em linhas gerais, os autores dividem a referida obra por épocas, seis ao todo, com segue: 1ª época – Das origens a Fernão Lopes; 2 época – de Fernão Lopes a Gil Vicente; 3ª época – Renascimento e Maneirismo; 4ª época – Época Barroca; 5ª época –O século das Luzes; 6ª época – Romantismo, que, por sinal, é a derradeira do volume. A segunda obra, é a História literária de Portugal (Companhia Editora Nacional, 1966), de Fidelino de Figueiredo, a qual, para não fugir à regra de diferenciação em relação a nós na divisão de estilos literários, oferece a seguinte periodização: Era Medieval (das origens a 1502); Era clássica (1502-18250); Era Romântica (1825 – Atualidade). Claramente aqui estou somente aludindo aos três grandes períodos ventilados, sem levar em conta as subdivisões internas. A terceira obra é a de Joaquim Ferreira, História da literatura portuguesa (Editorial Domingos Barreira, 4 ed. revista e atualizada pelo autor). A divisão dos estilos proposta pelo autor é a seguinte; Época Medieval; Época Clássica, Século XVI; Época Clássica, Século XVII; Época Clássica, Século XVIII; Época Contemporânea: Período do Romantismo; Época Contemporânea: Período do Realismo.
A quarta obra, o volume História da literatura hispano-americana(Vozes, 1971), de Bella Jozeff, segue, porém, em parte a divisão periodológica literária brasileira, com a exceção de que, após o Realismo-Naturalismo, segue-se o Modernismo, não fazendo nenhuma menção ao Simbolismo.
Examinando com atenção a divisão de estilos literários nas literaturas ventiladas neste estudo, e tendo em conta o estilo simbolista explicitamente ausente, constituindo objeto de capítulo autônomo no conjunto dos movimentos literarios, chego à conclusão de que, em nossos estudos de periodização brasileiros, nossos historiadores em geral têm optado pela divisão que nos parece ser a mais indicada e a que menos dificuldades e embaraços oferece não só ao estudante do nível médio, mas também, e sobretudo, ao de nível universitário. Fica evidente que nossos historiadores reservaram um papel de maior proeminência ao movimento simbolista, posto saibamos que, entre nós, esse movimento teve, a princípio, grande resistência, se excetuarmos o crítico Nestor Vítor, entre críticos brasileiros de grande prestígio como Araripe Jr.(1848-1911), José Veríssimo (1857-1916) e Sílvio Romero (1851-1914). Mesmo na França, o Simbolismo, no início, foi subestimado como movimento literário. Ronald de Carvalho (1893-1935), na sua Pequena história da literatura brasileira, cita uma desdenhosa e injusta nota de rodapé de um certo Camille Mauclair2, para quem o movimento simbolistas não existia nem tinha sentido.
Após o alentado estudo sobre o movimento simbolista, Panorama do movimento simbolista brasileiro (INL, 1952, 3 vols.) empreendidos por Andrade Muricy, autor capital a qualquer estudioso que se debruce a pesquisar aquele estilo literário, inegavelmente cresceu a importância dada aos principais poetas simbolistas brasileiros e se alargou o conhecimento de outras regiões no país por onde o movimento se irradiou.
Pesquisando a bibliografia relativa ao Simbolismo brasileiro, já podemos notar que a fortuna crítica nesta área está bem desenvolvida quantitativamente falando e, numa obra, a meu ver de consulta obrigatória, porém pouco divulgada e recomendada, Introdução à literatura no Brasil(Editora Distribuidora de Livros Escolares Ltda., 1968), de Afrânio Coutinho (1911-2000) o estudioso dispõe de uma farta relação de obras de autores em inglês e francês sobre o Simbolismo. Aliás, o crítico Afrânio Coutinho, na mencionada Introdução, reserva uma riquíssima bibliografia sobre estudos literários, sobretudo estrangeiros, de grande importância ao pesquisador. Igualmente, as histórias literárias de Alfredo Bosi, Massaud Moisés, Aderaldo Castelo, Sílvio Castro, Nelson Werneck Sodré (1911-1999), Luciana Stegano-Picchio contêm vasta bibliografia sobre o Simbolismo. Massaud Moisés, por exemplo, tem uma obra toda dedicada ao Simbolismo, O Simbolismo, v. IV (Cultrix, 1966) valorizada por uma boa bibliografia especialmente destinada a esse movimento literário.
Os estudos brasileiros, segundo pudemos esquematicamente demonstrar, se posicionam, assim, à frente dos avanços conquistados para balizarem com uma visão didaticamente mais efetiva no que tange às pesquisas sobre esse movimento oriundo da França e que aqui teve, entre outros, seguidores talentosos como Cruz e Sousa (1861-1898) e Alphonsus de Guimaraens (1870-1921) que, ajustando o ideário simbolista europeu ao temperamento artístico brasileiro, produziram obras reconhecidas por estudiosos estrangeiros como foi o caso de Roger Bastide (1898-1974),3 o qual, em relação à obra de Cruz e Sousa, colocou-a ao lado de grandes simbolistas europeus do nível de Stefan George (1864-1933), que era alemão, e o francês Mallarmé (1842-1898)
Estas reflexões aqui delineadas tiveram por objetivo discutir a questão da inserção do Simbolismo como estilo literário nas obras de natureza historiográficas e de teoria literária no sentido de que seus autores repensem o lugar de inegável relevância daquele movimento literário no corpus dos estudos literários, destinando a ele um espaço explícito a ser desenvolvido de forma autônoma e com a profundidade que está a merecer. Naturalmente respeitando as particularidades estilístico-temático-culturais de cada literatura, seja ela inglesa, americana, espanhola, portuguesa, hispano-americana, latino-americana, ou literaturas derivadas ou não da matriz européia, acredito que a pesquisa de natureza comparativa muito poderia contribuir para uma melhor convergência ou até maior uniformidade metodológica no terreno da periodologia literária. O modelo brasileiro, que mal esboçamos nesta discussão, foi escrito com a intenção de atingir esse propósito. NOTAS 1 Á exceção da França, esta lacuna de classificação periodológica diz respeito às literaturas consideradas neste estudo. Entretanto reconheço que a pesquisa merece maior aprofundamento. Ela pode ser estendida ao Parnasianismo, tendo em vista a mesma omissão periodológica atinente a este movimento.

NOTAS:

2 Cf. Pequena história da literatura brasileira, de Ronald de Carvalho. 12 ed. ver. Rio de Janeiro: F. Briguiet & Cia. Editores, 1964, p. 345.
3 Roger Bastide, sociólogo francês, veio para o Brasil fazer parte do corpo docente da recém-fundada Universidade de São Paulo, em 1938, e aqui se integrou à nossa vida cultural. Tornou-se um estudioso da afro-poesia brasileira, especialmente do Simbolismo, legando-nos obras valiosas como Poesia afro-brasilelira ( São Paulo, Martins, 1943), Poetas do Brasil (Curitiba: Guairá, 1947), “Cassiano Ricardo”, in "A Manhã," Supl. de Letras e Artes, 21 e 289-1947. As informções bibliográficas sobre Bastide extraí da História concisa da literatura brasileira., de Alfredo Bosi. 38 ed. São Paulo: Cultrix, 2001, passim.

Um poema de e.e.cummings


Cunha e Silva Filho


e.e.cummings, poeta norte-americano, nasceu em Cambridge, Massachusetts, EUA, em 14 de outubro de 1894 e faleceu em North Conway, New Hampshire, EUA, em 3 de setembro de 1962.
As iniciais minúsculas de seu nome ficaram mais famosas do que seu nome por extenso, Edward Estlin Cummings. Cummings viveu numa época de grande experimentação na literatura norte-americana. Além de poeta, foi pintor. Sua grande popularidade deveu-se aos seus insólitos usos de pontuação e de construção sintática, de grafia de palavras, quase não usando letras maiúsculas nos poemas e, quando as usava, o fazia sem ortodoxia, colocando no meio, ou no final letras maiúsculas, fragmentando vocábulos, verticalmente na página, usando , em vez de títulos com palavras, títulos com sinais Sua poesia, em geral de feição coloquialista, aproveitando a linguagem da rua e matéria proveniente do burlesco e do circo, atingia tonalidades variando da sátira, rudeza, ternura até a excentricidade. Foi, pois, um radical experimentalista das formas de verso. Mexeu com a sintaxe, abandonou o verso tradicional, criou novas formas de dicção. A crítica, mais tarde, recrimonou-lhe o estilo pelo que ficou conhecido, verdadeira marca registrada de sua verso, alegando que ele não procurou novas formas de evolução poética.
Sua poesia combina o espírito dissidente da Nova Inglaterra com a “Auto-Confiança” emersoniana, e se caracteriza poeticamente por um coloquialismo ianque urbano.
Cummings teve formação universitária em humanidades pela universidade de Harvard da qual obteve o título de Mestre em 1916. Nas décadas de 20 e 30 sua vida transitava entre Paris, onde estudou arte e Nova Iorque. Na Segunda Guerra Mundial serviu no corpo de ambulância da França. Aqui foi preso durante um tempo devido a sua amizade com uma americano que havia escrito cartas de volta ao seu país. Tais cartas foram censuradas pela França que nelas viam críticas contra o seu próprio papel na guerra.
Cummings fez parte da “Geração Perdida”. De acordo com Peter B. High (An outiline of American literature, New York: Longmans, 27nd impression, 2002) Cummings sofreu influência tanto de Gertrude Stein quanto dos pintores cubistas”. Um definição de Cumings dá bem o peso que ele atribuía à liberdade criadora: “Ao que me consta, a poesia e todas as artes foram, são e serão sempre uma questão estritamente e caracteristicamente do domínio da individualidade.”(ob. cit., 155-156).
Tematizou, o amor, a guerra, o erotismo, a obscenidade. Punha o conceito de liberdade em alto grau e, por essa razão, seus temas eróticos mais ousados encontraram abrigo em sua poética. “Valorizo a liberdade e jamais pensei que ela fosse algo inferior à indecência”.(op. cit., p. 158). É conhecida a sua aversão à política, à frieza da ciência.
Seu primeiro livro foi Tulilps and Chimneys (1923). Em seguida, veio XLI Poems and & (1925)Neste último ano foi agraciado com o Prêmio “Dial’ por sua relevante contribuição às letras americanas
Publicou ainda uma peça “him”, encenada em Nova Iorque. Fez exposição de seus quadros e desenhos, os quais não tiveram,, porém, tanta aceitação quanto sua produção escrita.Uma outra obra sua Eimi (1933) relata em prosa experimental, seus 35 dias de visita à União Soviética, obra na qual manifesta seu repúdio pela ideai do coletivismo. Seus debates como conferencista da Charles Elliot Norton sobre poesia, na Universidade de Harvard, (1952-53) foram reunidas em livro com o título de i: six nonlectures 1953). Sua obra poética compreende 12 volumes, depois reunidos em Complete Poems (1968), em dois tomos.
Segue, abaixo, a minha tradução, em forma bilíngue, do poema “i like my body when it is with your”:

I like my body when it is with your

I like my body when it is with your
Body. It is so quite a new thing.
Muscles better an d nerves more.
I like yoour body. I like what it doçes,
I like its hows. I like to feel the spine
Of your body and its bones, an d the trembling
-firm-smooth ness and which i will
again and again and again
kiss, i like kissing this an d that of your,
i llike, slowly stroking the, shocking fuzz
of your electric fur, and what-is-it comes
over parting flesh... And big love-crumbs,
and possibly i like the thrill
of under me you quite so new

curto o meu corpo ao teu colado

curto o meu corpo ao teu colado
é algo nunca antes sentido
são melhores os músculos, bem como os nervos,
curto o teu corpo. Curto o que ele faz
curto os modos diferentes de como ele faz.. curto tocar a espinha
do teu corpo, dos teus ossos, do estremecimento
e vigorosa suavidade que repetidas vezes, repetidas vezes, repetidas vezes beijarei, curto beijar esta parte e aquela parte do teu corpo,
curto, aos poucos, tocar a eletrizante suave sensação
de teus pêlos e do que resulta
da carne dividida... E das grandes migalhas de amor,
e talvez curta a nova e embriagante sensação
de estar por debaixo do teu corpo



.

Tradução de um poeam sobre a Mãe

Tradução de um poema sobre a Mãe



Cunha e Silva Filho


Desta vez, leitor, não se trata de um grande autor da chamada alta literatura ocidental. É apenas uma modesto, um singelo conjunto de versos brotados do seio de uma mãe, sem talvez mesmo a preocupação de querer fazer poesia. O nome da poetisa: Baronesa von Hotten. Nem mesmo fui pesquisar sobre a biografia dela. Importam-me, contudo, seus versos, sua mensagem direta e sem mistérios. Seu valor não está nas formas ousadas dos poemas reveladores de alta opacidade literária, que faz o deleite dos críticos e analistas literários. Vejamo-los na tradução em formas bilíngue:

MOTHER

It is a wonderful thing, a mother;
Other folks can love you,
But only your motther understands.

She works for you,
looks after you,
loves you, forgives you
Anything you may do,
understands you,
And then the only thng bad
she ever does to you
Is to die and leave you.


MÃE

Mãe, maravilhosa criatura,
Pode alguém amá-lo,
mas somente ela o compreende.
para você trabalha,
de você cuida,
ama-o, perdoa-o por
tudo que faça, mesmo não o aprovando,
entende-o,
e, depois, a única coisa má
que lhe possa fazer é morrer e deixá-lo sozinho.

Os desenhos de mamãe

OS DESENHOS DE MAMÃE




Cunha e Silva Filho



Toda criança, em certos momentos da sua fase infantil, tem alguma fixação por um aspecto da vida, como, por exemplo, o interesse manifestado pelas artes que, no meu caso particular, era o desenho a lápis que minha mãe, Ivone, esboçava com desenvoltura e talento. Era dotada da habilidade com as mãos, tanto assim que aprendeu a fazer trabalhos magníficos de tricô: toalhas, passarelas, colchas, guardanapos etc.
Mamãe, que eu saiba, não os comercializava. Preparava-os para uso próprio ou como presente para alguém da família.
Porém, dessa vocação para o trabalho artístico, o que mais me deslumbrava como criança eram seus desenhos que, de quando em vez, traçava com a suavidade de suas santas mãos. Desses desenhos o que mais me maravilhava eram aqueles figurando carneirinhos.. Os carneirinhos, todavia, eram deslumbramento mesmo.
Belos, belíssimos carneirinhos construídos apenas com lápis preto e uma simples folha branca de papel.
- Mamãe, me faz um carneirinho. Lá se ia ela pegar de um lápis e uma folha de papel. Às vezes, um pedacinho de papel. Não demorava muito e, dali a instantes, eu a via sentada à mesa da sala movimentando suavemente a mão direita com o lápis miraculosamente seguindo uns poucos comandos que sua cabeça de artista ia indicando e transformando num bem acabado desenho representativo da figura do animalzinho da minha predileção infantil..
-- Aqui está, Chico, seu carneirinho – dizia mamãe, entregando-me a folha.
-- Está lindo, mãe! – completava eu me dirigindo a um dos quartos de nossa casa. Lá dentro, era que minha alegria crescia e não tinha tamanho. Olhava, olhava, embevecido, para aquele carneirinho que me parecia vivo e me fitava com os olhinhos interrogativamente, como se comigo quisesse falar. Só mamãe sabia fazer-me aquele desenho, daquela forma, daquele tamanho, daquela perspectiva. Carneirinho especial vindo das mãos inspiradas e ágeis quando se destinavam a criar desenhos da sua imaginação materna diante de um pedido de uma criança inocente. Carneirinho delineado com delicadeza do traço e amor de mãe. Aquilo tudo me enchia de felicidade.
O carneirinho, comigo, passava da figura à imaginação que não parava de inventar mil e uma aventuras que, juntos, vivenciávamos. Na rede, ou mesmo na cama de mamãe, eu me perdia e ao mesmo tempo me encontrava no universo mágico da fantasia – havia transposto aquele espelho de Carroll de que uma vez falara J.J. Veiga (1915-1999) em conferência, criando e criando situações insólitas em enredos que me levavam a um mundo sem tempo e sem espaço no futuro.
Os carneirinhos de mamãe valiam mais do que os presentes de Natal, porque com eles eu me transportava para a esfera fabulosa do imaginário.
Mamãe nunca me perguntou na época por que prezava eu tanto aqueles carneirinhos de papel. Ela mal sabia que eles funcionariam como metáfora da infância, fase na qual evidentemente a figura do carneirinho era uma forma mais livre e natural, de me relacionar com ela, que era pessoa não muito inclinada a arroubos sentimentais.
Creio que das lembranças mais enraizadas da minha memória afetiva, no que tange ao meu relacionamento com mamãe,seja aquela imagem pictórica delicada, perfeita, sem jaça, que conservo indelevelmente no meu universo de adulto. A minha aproximação afetivo-emocional com ela se deu primeiro pelo caminho que, entre nós, se abriu pelas asas da Arte através dos carneirinhos de papel.
Não sei hoje onde foram parar meus carneirinhos de papel, visto que não foi um, o dois ou três que pedi a mamãe. Pedi-lhe vários e ela nunca se cansara de me desenhar, com mão de fada, aqueles animaizinhos que, com o tempo e a idade mais avançada, se tornaram cada vez mais necessários ao meu repertório de afetividades. Eles me hão de acompanhar pelos tempos afora e me darão sempre a certeza de que - como tantas pessoas, -, se eu tenho uma grande admiração pelas artes, , o desenho, a pintura, a escultura etc., etc. é porque foi lá na Teresina da minha infância que despertei para sempre para o encantamento das formas artísticas, da mesma forma que, no início da adolescência, por via paterna, recebi o saudável influxo do exercício admirável da escrita literária.
As imagens recorrentes que me vêm , fortes e nítidas, daqueles desenhos de mamãe talvez representem, agora, o que de mais feminino, mais delicado, puro e maternal, guardei comigo da personalidade dela. Naqueles carneirinhos de papel estão embutidas a minha admiração por ela e a minha forma meio gauche de a ter amado e de conservar esse sentimento no lugar mais profundo e transcendente do meu ser. Benditos os carneirinhos de papel de minha mãe !

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A (im)possibilidade de parar de escrever



Cunha e Silva Filho



O Caderno Idéias & Livros do JB, deste sábado, 11 de abril, realizou uma reportagem que, no meu juízo, merece reflexão mais aprofundada, visto que diz respeito à vida produtiva dos escritores de todos os quadrantes.
Brasileiros ou estrangeiros, autores velhos e novos, todos ali se pronunciaram acerca dessa questão vital à arte da ficção literária. A matéria não abordou os criadores de poesia, nem de outros gêneros. Talvez, os editores ainda – assim espero -, possam reservar-lhes uma enquete semelhante.
Porém, o que merece meditação é, na realidade o complicado trabalho envolvendo a capacidade de criação literária. Nesse momento, não posso omitir o que li ou me contaram sobre o romancista e contista norte-americano Ernest Hemingway (1899-1961 ) . Conta-se, não sei se é a verdade da verdade, que ele, a uma certa fase de sua produção ficcional, fora sempre assaltado pelo medo ou pavor mesmo de não poder escrever mais , de não ter assunto para escrever, de recear que a fonte de inspiração lhe secasse para sempre a possibilidade de prosseguir podem do criar ficção. Mesmo se comentou que o seu suicídio estivesse conexionado à impossibilidade de continuar produzindo o que os teóricos chamam de “mundos possíveis”, universos paralelos tão ou mais significativos do que a própria realidade empírica, da qual nós viventes temos apenas uma parcial apreensão dos fatos, das coisas, dos objetos e sobretudo da vida interior dos indivíduos..A literatura teria esse condição de nos transmitir, de forma complementar, a real compreensão da existência e do universo.
É bem possível que, na história da literatura universa,l existam muitos outros exemplos de artistas da palavra se defrontarem com a página vazia, com o esgotamento completo de suas energias criativas no plano da linguagem literária.
Cada escritor convidado a dar depoimentos sobre a sua atividade criadora manifestou sua maneira de lidar com essa questão de poder ou não manter a chama da sua capacidade imaginativa ou inventiva.
Alguns, como Carlos Heitor Cony, já pensam em “por um ponto final’ à sua atividade de ficcionista e até fala em se “aposentar” nesse sentido.Outros, como Moacyr Scliar, que possui uma produção considerável de obras, já não pensam assim. Para ele, só uma condição impeditiva séria o faria parar: a incapacidade física ou mental.
Outros mais, veem o problema apenas com uma observação irônica, ou não dão muita importância a esse tema.
No Brasil, temos o exemplo do autor de Lavoura arcaica (1976) Raduan Nassar, que, ao que parece, deixou de escrever depois do sucesso daquela obra, mas ainda publicou Um copo de cólera (1978).
No Piauí, há o caso de O. G. Rego de Carvalho, ficcionista talentoso, que não passou, entretanto, de tre romances publicados bem-sucedidos. Por outro lado, n o Piauí ainda há um exemplo notórios de escritor que, com idade bem avançada, não deu nenhuma mostra de que irá parar, como William Palha Dias, ficcionista que, aos noventa anos, ainda é exemplo magnífico de com essa idade manter-se intelectualmente ativo.
Assis Brasil, ficcionista e ensaísta de renome nacional, na sua produção geral já ultrapassou uma centena de livros. O JB cometeu uma omissão não o incluindo nessa pesquisa, sabendo que esse escritor, tanto quanto o foi no passado Coelho Neto (1864-1934 ), tem-se distinguido como um notável exemplo de dedicação ininterrupta à atividade intelectual. A opinião dele seria muito valiosa no que concerne ao tema em foco.
A questão da criatividade no domínio da literatura continua de pé. Merece maior discussão por parte de todo escritor.
Essa questão não pode, a meu ver, deixar de fora outros gêneros literários , a começar da poesia, da crônica, do ensaio, da crítica, do teatro, do memorialismo, da biografia, do jornalismo literario e de outros gêneros.
Todos os que usamos da pena, remunerada ou não, a essa questão crucial não podemos ficar alheios, porque o fantasma da ausência de assuntos, de temas, de criatividade, ou melhor, da possibilidade da crise de criação literária não é assim tão raro que possamos colocá-lo em segundo plano. Muito ao contrário. Qualquer escritor, em qualquer modalidade de escrita estritamente literária ou de áreas humanisticamente afins, como a história, a sociologia, a filosofia, a antropologia, a geografia, as artes em geral, em alguma fase da vida intelectual ou artística com ela se defronta. E, a propósito disso, há uma velada cobrança do meio cultural-artístico, ou acadêmico, e do público letrado em geral em cima dos criadores de imagens, mundos, formas e objetos no sentido de que eles produzam sem cessar.
Quando a fonte “seca’, ainda que por vezes temporariamente, é bem provável que muitos desses artistas de várias formas de expressão artística se sintam mais deprimidos pelo fato de se tornarem exemplos de escritores ou de autores fracassados ou de curto fôlego, enfim, de limitada produção. Tal juízo publico, contudo, só prejudica esses criadores, que não têm culpa de não publicarem mais, ou de criarem mais em outros campos da inteligência, levados que são muitas vezes por circunstâncias diversas e de foro íntimo. Me lembro de que recentemente o poeta Ferreira Gullar comentou em jornal que há muito a poesia não o chamava a si. Isso não é nenhum desdouro para um autor em qualquer gênero. Afinal, a criação literária precisa de muitos componentes e fatores favoráveis à fecundação das formas, das imagens e dos mundos nascidos ou provocados no tempo, hora e contingências existenciais, não dependentes da vontade tão-só do criar em si, mas do impulso natural do criador para a construção do objeto estético.
O tempo do ato criador tem o seu próprio e intransferível momento de dar frutos, e frutos amadurecidos que mereçam ser colhidos pelos fiéis amantes da literatura e das artes em geral.

Na sollidão da terra

NA SOLIDÃO DA TERRA


Cunha e Silva Filho



Faz dezenove anos que ali, junto de outros restos mortais, se encontra a memória dos teus ossos, afundados estes no chão de areia da terra, no chão úmido ou seco, dependendo das variações do tempo, que te viu nascer e crescer até à meninice. Ali estão tuas memórias na matéria que ainda resta sabe Deus até quando. Ali estás no sossego da paz do silêncio da solidão absoluta e irremovível. Estás em Amarante.
As estações passam, mas ali ficas, imóvel, não mais como os “esqueletos andantes” de Borges, porém como remanescentes do que foras, do que fizeste ou deixaste de fazer. A vida é um ciclo incompleto. Estão ali ao lado dos teus e de outros cujo destino final é o destino da carne, contudo da carne descarnada pelas mutações biológicas a que todo ser vivente está irremediavelmente sujeito.
Chove, faz frio, faz calor. O vento sibila nas noites sempre solitárias e ali, extremamente sozinho te encontras.
Do vagido às brincadeiras infantis, das muito precoces discussões políticas locais, por vezes exaltadas, por vezes chegando quase às vias de fato, naquela terra ainda rica e esperançosa de progresso continuado até à transformação – que não se cumpriu ainda -, para uma desenvolvida e moderna cidade do interior ( no passado cheia de tantas tradições e de tanto desenvolvimento), a tua presença ágil, buliçosa, com os olhinhos infantis perscrutadores, vivos e brilhantes, parecendo olhos de adulto, tão próprios das crianças inteligentes, fazia-se notar, sobretudo pelo teu pai, comerciante próspero e pessoa calma que logo viu na criança irrequieta laivos de grande inteligência.
A escola, os primeiros professores, os coleguinhas de classe agora sumidos no tempo, as primeiras letras, a dificuldade para andar na fase normal, o espanto pela vida e suas mil descobertas, o encantamento que se fez eterno com a alegria do viver jamais arrefecida até seus últimos dias, o pressentir dos grandes embates de uma vida que não seria transcorrida com facilidades apenas, mas, em grande parte, com lances dramáticos e lancinantes, deixava aquele menino esperto e impulsivo mergulhado na sondagem do futuro, desde a infância, adolescência, mocidade, maturidade até à velhice.
Por todas essas fases passara, como todo o mundo. Fases que lhe deixaram fundas cicatrizes de natureza vária, amorosa, social, profissional, familiar e intelectual.
Os estudos foram prosseguidos na capital, Teresina, depois, em Niterói como interno de padres salesianos; em seguida, em Lavrinhas, São Paulo, como seminarista, faria o curso de filosofia, também da ordem salesiana, cuja conclusão, para a vida sacerdotal, seria feita em Turim, Itália. Para trás, deixara o pai, a mãe, a terra natal. A vida sacerdotal não vingara. Casara-se muito jovem no Rio de Janeiroem 1927.. Dessa união nascera-lhe uma filha. Voltara com a família para Amarante por volta de 1927 ou 1928. Casamento desastrado, pouco durou. A esposa e a filha voltaram para o Rio de Janeiro É claro que a ausência da filhinha o deixou desolado.. Meu pai ficara em Amarante, onde permaneceria até 1947, quando saíra definitivamente de Amarante para fixar residência em Teresina.

A sua volta a Amarante foi decisiva para a escolha de sua vocação. Embora muito jovem, já estava intelectualmente preparado para a carreira que escolhera: o magistério. Definia-se uma vez como um professor nato. E, na verdade, o foi, fato que se confirmou pela brilhante trajetória que conquistou no ensino piauiense durante décadas. Em Amarante, o melhor estabelecimento de ensino era o Ginásio Amarantino, dirigido pelo futuro e principal historiador piauiense, Odilon Nunes. Papai logo foi nele lecionar. O Ginásio Amarantino deixou de funcionar depois de três anos de fundação.Meu pai conseguiu adquiri-lo e, aproveitando-lhe as instalações, fundou, em 1931, o Ateneu Rui Barbosa. Aí iniciou uma profícua e brilhante carreira docente em Amarante.A escola logo ganhou fama pela alta qualidade de seu ensino e pela rigidez com que meu pai a dirigiu.
Na verdade, o Ateneu, oferecia o curso primário completo, o curso de admissão e o curso complementar, ou seja, o último servia a alunos que não pretendiam continuar estudos mais adiantados. Naquela mesma época, papai começara a escrever para jornais de Floriano (Jornal de Floriano) e Teresina, angariando fama de jornalista talentoso e independente. Seu Ateneu Rui Barbosa, por sua vez, continuava preparando inúmeros alunos, muitos dos quais se tornariam nomes destacadas da vida pública tanto no Piauí quanto nacionalmente. Certa vez, com justa vaidade, me dissera: “Meus alunos tiveram sorte, grande parte deles fez figura no Piauí e no país”. Talvez, esse fosse o seu maior orgulho como educador.
Nos idos de 1935, quando ainda residia em Amarante exercendo com brilho a docência no Ateneu Rui Barbosa, sofrera a injusta sentença de prisão por motivos ideológicos. Era o período sombrio do Estado Novo. Sua prisão fundamentava-se em arbitrária alegação de que meu pai fosse comunista. Ora, nunca ele se declarara com tal. Apenas, como é natural, tinha feito leituras marxistas-leninistas em livros que lhe chegaram não às mãos, mas indiretamente, quer dizer, por Amarante, passara um comunista com alguns volumes de conteúdo marxista e, para se livrar possivelmente da polícia, os lançara num canto da casa de papai. Algum delator infame, sabendo do incidente, passou informações à polícia, a qual, vasculhando a casa de papai lá encontrou os ditos volumes. Foi o bastante para incriminá-lo. Ora, defendia-se meu pai, como um jovem professor do interior, só por haver lido tais livros poderia ser indigitado como comunista? Por mera injustiça, papai teve que cumprir um ano de prisão na Penitenciária de Teresina.Relato mais pormenorizado desse período pode se encontrar no livro de papai, Copa e Cozinha (SILVA, Cunha e. Copa e cozinha. Teresina: APL/Projeto Petrônio Portella, 1988). Tempos depois, papai se unira a mamãe. Vieram-lhe muitos filhos A vida era difícil. Praticamente, nada recebia das colaborações para jornais
Seus restos mortais, porém, permaneceram ali naquele canto do campo santo. Não há lápide, nem há epitáfio. Só a campa formada de terra pura. Há tantos anos estive lá, para lhe dar um adeus póstumo. O mesmo ocorrera com o falecimento de mamãe Nem lhes pude ouvir as últimas palavras, os derradeiros olhares amorosos, os peitos arfando e soluçantes.
Em 1947, conforme já mencionei acima, papai mudou-se para a capital. Fora lecionar a cadeira de geografia numa instituição pública de ensino de renome., o Liceu Piauiense Em Teresina, no início, ficara preocupado com a função de professor de um Liceu conhecido pelo alto padrão de seu quadro docente e do nível de seus estudantes. Papai, no entanto, se preparava bem e dispunha de uma excelente formação adquirida com os salesianos e na preparação para a vida sacerdotal. Seus alunos o receberam bem e logo apreciaram a sua alta competência e vocação para o magistério. Em 1951, defende tese para a cátedra de História do Brasil da Escola Normal Antonino Freire. ” Sua defesa de tese foi vitoriosa, mas precedida de muita luta, de muita injustiça e mesmo inveja ou perseguição visando a prejudicá-lo no concurso. No dia de sua defesa, eu, menino, estava presente.Papai, não sei por que razões, costumava me levar a certas eventos ou solenidades de importância para ele.
Aquele homem possuía uma enorme vontade de viver e de produzir nas duas atividades, o magistério e o jornalismo político. Nesta última atividade, quase sempre estava na oposição e essa opção política o colocava em riscos. Um deles custou-lhe uma cadeira de geografia no Liceu Piauiense por combater o governador de então. Sofreu privações.
Sua atuação jornalística se passou em períodos docs mais difíceis da política piauiense, que medeiam entre os anos trinta, quarenta e cinqüenta. Estar na oposição, escrever contra os abusos do poder, afirmar verdades , denunciar podridões do governo eram uma temeridade. Entretanto, aquele homem não se deixava intimidara, nem por capangas que, por vezes, o seguiam, à noite, quando regressava para seu descanso caseiro. Precavido, andava armado, pois sabia do que eram capazes adversários políticos.
Nunca vi aquele homem se queixar das “amarguras da vida” que, segundo ele, o tornariam poeta aos sessenta anos. Me dizia que a dor mais insuportável era a dor física. As dores morais ele não as temia, as suportava estoicamente. Possuía uma grandiosa qualidade, talvez a mais significativa : nos dava a impressão de que não envelhecia por dentro. Nunca se lamentava comigo do que hoje chamam de depressão na velhice. Todavia, contraditoriamente, costumava afirmar que n ele havia uma tristeza que não o deixava nunca. Não conseguia atinar com a origem dessa tristeza interior.
Sua popularidade como jornalista foi crescente tanto entre os leitores em geral quanto entre intelectuais piauienses. Tornou-se membro da Academia Piauiense de Letras. Seu discurso de posse é uma das mais eloquentes peças oratórias que já tive o prazer de ler. Nele aquele homem sintetizou todo o seu pensamento de intelectual, de professor e de um estudioso profundamente ligado às coisas do espírito. Nessa oratória revela suas inegáveis qualidades de tribuno, de conhecedor da filosofia, da história, da cultura humanística e de seu inconfundível estilo claro mas de pensamento sempre elevado.
Escreveu livros, teses, dirigiu a Biblioteca Anísio Brito e o Arquivo Público do Piauí., dirigiu o Liceu Piauiense, produziu um número incomensurável de artigos num largo período de, pelo menos, cinco décadas, artigos geralmente de natureza político-doutrinária e, nos últimos anos de vida, encontrava qualquer oportunidade para escrever versos, principalmente sonetos. Sem ter sido um grande poeta, seus versos, contudo, são plenos de substância filosófica, dignos de meditação, ou, como, uma vez, sobre eles afirmei: são versos que têm o sentimento à flor da pele, são, na maioria das vexes, verdadeiras “lições de vida”.
A lição desse grande e piauiense de Amarante – Cunha e Silva (1905-1990) -, foi de um varão que, acima de tudo, confiava na vida, na ação humana, no progresso da civilização, das ciências e tecnologias. A sua lição, principalmente, foi a de um homem que tinha o dom da alegria perene de viver.
Lá no campo santo, jazem os vestígios desse homem de espírito extremamente associativo que, só pelas leis da natureza, se viu compelido a permanecer na solidão. No entanto, há um consolo, a sua solidão não é completa nem inapelável. No entorno da sua cova, tem ele por companhia a natureza viva que, de quando em quando, faz soprar uma leve brisa sobre ela e, à noite, faz descer, estonteantemente bela e doce, a luz do luar e o brilho das estrelas.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Num claro dia de verão

Num claro dia de verão


Cunha e Silva Filho


Recentemente, nesta coluna apresentei uma tradução minha bilíngue de Paul Verlaine, fornecendo, além disso, algumas indicações biobibliográficas e temáticas desse grande poeta francês. Adiante, segue outra que ousei preparar-lhe, caro leitor amante da poesia de todos os tempos, a tradução de outro poema do mesmo autor.
Nesta peça, um pequeno poema de apenas doze versos, testemunhamos um exemplo da elevada carga de subjetividade repartida entre dois seres para quem o sentimento amoroso não se sustém apenas com a sensualidade da carne, mas também, servindo-se dos elementos da natureza, no espaço físico da terra, combina-os sobretudo com a natureza do Universo, apelando para os elementos que se situam nas alturas (o sol, o ar, o azul do céu,a noite e as estrelas).
Esses elementos concretos, animizando-se, são elos que, eufóricos, contribuem para plasmar o clima geral de harmonia entre os amantes na Terra, concorrendo para que o encontro do amor seja completo na sua beleza física e na sua sensualidade velada, um ato, enfim, de harmonia , de alegrias e de comunhão com o Cosmos.


Par em clair jour d’été

Donc, ce sera par um clair jour d’été:
Le grand soleil, cúmplice de ma joie,
Fera, parmi le satin et la soie,
Plus belle encore, votre chère beauté.

Le ciel tout bleu, comme une haute tente,
Frissonnera somptueux à longs plis
Sur nos deux fronts hereux qu’auront pâlis
L’émotion du bonheur et l’asttente,

Et quando le soir viendra, l’air sera doux
Qui se jouera, caressant dans vos voiles,
Et les regards paisibles des étoiles
Bienveillamment souriront aux époux.

Num claro dia de verão

Com efeito, será num claro dia de verão:
O grande sol, cúmplice de minha alegria
Tornará, entre o cetim e a seda,
Ainda mais bela vossa inigualável beleza.

Tal como uma elevada tenda, o céu de um só azul,
Estremecerá, suntuoso, em longas pregas
Sobre nossas duas frontes que, felizes,
Pálidas se entremostrarão com a
Emoção da espera e da felicidade,

Ao cair da noite, doce será o ar
Que, acariciando vossos véus, se contentará
E os olhares calmos das estrelas,
Num largo sorriso aos amantes, se alegrarão.